A semana introduziu o elemento novo que faltava na sucessão presidencial: uma instabilidade com potencial para produzir desequilíbrio. O quadro vinha bem ossificado, aguardando apenas a formalização das alianças e chapas para a largada oficial. E a grande dificuldade dos azarões era uma barreira de entrada aparentemente instransponível, segundo as pesquisas.
Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.
Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a exibição de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.
Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.
Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.
Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).
De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.
O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).
Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.
Para prestar atenção
A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?
O filme das pesquisas
Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?
A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?
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