A direita venceu nos pólos mais dinâmicos da economia. A esquerda venceu nos territórios mais dependentes do Estado. Nem sempre foi assim. Ao longo dos anos 80, na década após sua fundação, o Partido dos Trabalhadores alavancou-se exatamente a partir das regiões em que hoje come poeira para a direita. Não é novidade, mas vale sempre repetir: os grandes partidos brasileiros nascem e crescem com a bandeira da modernização, mas vão sendo progressivamente empurrados para os grotões.
Outro detalhe desta campanha de primeiro turno é a direita ter feito uma comunicação bastante distinta das duas eleições anteriores. Em vez de se concentrar nas acusações de corrupção contra o adversário, colocou no centro da sua comunicação os problemas e impasses enfrentados pelo cidadão comum no dia a dia. Verdade que nas disputas do Senado o tema do Supremo Tribunal Federal teve preeminência, mas na disputa da presidência e de governadores acabou pesando mais o foco na vida real.
Vem sendo notável, até agora, a ausência das pautas identitárias no centro dos debates, a favor ou contra. Apesar do desempenho relevante de candidatos a deputado da esquerda mais alinhados a esses assuntos, nas corridas majoritárias não se registrou o tradicional confronto entre liberais (nos costumes) e conservadores. Talvez apareça no segundo turno. Entretanto, nem a direita parece interessada em vestir o figurino, nem a esquerda parece querer aprisionar-se no cercadinho.
De novo, a eleição será decidida por quem já votou em Bolsonaros e Lulas. Uma fábula das nossas eleições é que a decisão estaria na mão de quem não quer nem um nem outro. Talvez seja o contrário. Talvez a chave para a vitória esteja em atrair quem pode aceitar um ou outro, a depender das circunstâncias. E esse detalhe talvez explique o mau desempenho das candidaturas alternativas, mesmo comparando com “terceiras vias” das eleições anteriores.
Atacar ao mesmo tempo os líderes dos dois campos não se mostrou produtivo.
Especialmente para os alternativos de direita desta eleição. Foi um erro acreditar que tirariam votos de Flávio Bolsonaro atacando-o, erro já previsto em análises anteriores. Pois o eleitor de direita que resistia ao bolsonarismo mas desejava antes de tudo derrotar Luiz Inácio Lula da Silva e o PT talvez tenha desconfiado de que essa “terceira via” queria mesmo era ajudar Lula. Daí ter se tornado presa fácil para o apelo ao voto útil na reta final.
Lula enfrenta agora uma situação inédita, pois nunca venceu um segundo turno vindo de trás. E, se a direita conseguiu neste primeiro turno lançar cabeças de ponte no Nordeste, a esquerda não conseguiu o mesmo no Sul, Sudeste e Centro Oeste.
Análise Política
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
O barquinho vai…
Já faz quase dez anos que a turma de House of Cards tuitou admitindo que era difícil concorrer com o nosso realismo fantástico (a referência a Gabriel García Márquez fica por minha conta). O que diriam agora, com o país hipnotizado pela revelação e descrição, com detalhes espantosos, das conexões entre o ex-banqueiro e altos escalões políticos, judiciais e policiais da República?
Daqui a menos de um mês tem eleição, e o transe coletivo desencadeado por mais este striptease institucional tem tudo para ocupar o palco de forma duradoura. Vão sendo empurrados para o segundo plano o debate e a disputa sobre como tirar a economia brasileira da pasmaceira e trocar, por uma mais intensa, a luz fraquinha no fim do túnel. Não chega a ser inédito. Debates racionais e disputas programáticas são raridade nas eleições entre nós.
Não deveriam ser. Enquanto o escândalo consome o noticiário, é a economia que decide o voto — e é nela que está o enigma mais interessante desta eleição. É impossível analisar as dificuldades eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sem enveredar por aí. Até ele deve estar surpreso com o paradoxo: enfrenta talvez sua eleição mais difícil desde 1998, mesmo exibindo números econômicos bastante razoáveis e tendo com ele, ou no mínimo contra os adversários, a esmagadora maioria dos mecanismos de formação da opinião pública.
Após o 8 de janeiro de 2023, seria ridicularizado quem dissesse que, a despeito de um crescimento do PIB em torno de 2%, inflação rodando abaixo do teto da meta e plena ocupação (falta mão de obra), Lula estaria com taxas de avaliação insatisfatórias e intenção de voto na zona de risco a menos de um mês da tentativa de reeleição. Mas os números estão aí. É certo que sempre haverá a tentação de recorrer a outras explicações, mas seria mais um escapismo. É preciso olhar para a economia.
E o enigma complica-se quando se mede a percepção popular. A situação e as perspectivas econômicas do país não chegam a entusiasmar, mas a resposta dos entrevistados nas pesquisas fica longe de ser catastrófica, apesar das preocupações com as contas públicas. E até melhora quando se pergunta não sobre a economia do país, mas a respeito da situação econômica pessoal. Tampouco há um ambiente de pessimismo generalizado.
Onde estaria então o problema?
Uma hipótese é a combinação de dois fatores: o esgotamento de o modelo social-democrata produzir prosperidade e crescimento sustentados, e a revolta contra as deformidades de um Estado corrompido e vocacionado principalmente para blindar privilégios de uma minoria e concentrar renda. A face visível do antipetismo é ideológica, mas os alicerces estão na rejeição à preferência, pelo petismo, de uma estatolatria quase religiosa e à sua incapacidade de compreender o papel do capital e da poupança privados na produção de progresso e bem-estar no atual estágio do Brasil.
Daí que narrativas e iniciativas amplamente apoiadas em tese, como o aumento dos impostos sobre os ricos e a distribuição do dinheiro aos mais pobres, acabem rendendo pouco lucro político quando trazidas para a vida real. Qualquer um que passe 24 horas em Brasília percebe imediatamente que é baixíssima a probabilidade de um real a mais arrecadado do contribuinte acabar no bolso do pobre. Outro exemplo é a redução da jornada de trabalho sem cortar a remuneração. Quem não quer trabalhar menos ganhando a mesma coisa? Só que talvez o brasileiro médio esteja mais ansioso para ganhar mais do que trabalhar menos.
Como não parece haver por aqui um Deng Xiaoping para explicar à esquerda que não importa a cor do gato, desde que cace ratos, ela não está preparada para compreender que no estágio atual do capitalismo brasileiro, ainda que o trabalho é quem gere valor, são os capitalistas que podem produzir prosperidade, gerar empregos de boa qualidade e expandir a economia de modo a absorver as legiões de jovens que um dia o PT fez sonhar com a ascensão social.
A consequência está na preferência dos eleitores. O PT e a esquerda resistem nos públicos atendidos pelos programas sociais e nas áreas mais dependentes do Estado, mas vão minguando cada vez mais nos polos dinâmicos da economia. É tradição entre os partidos brasileiros que um dia sonham ser hegemônicos: nascidos nos grandes centros, vão sendo empurrados para os grotões conforme amoldam-se ao statu quo.
E chegamos a 2026. A disputa entre governo e oposição, entre esquerda e direita, pode ser contada, à luz desse cenário, como uma corrida entre dois barcos. Partem do mesmo ponto do rio, um deles rio abaixo e o outro rio acima, e vence quem primeiro percorrer certa distância, a mesma para os dois. Rio acima, contra a correnteza, segue o barco da situação petista, empurrado pelo motor de ser governo. Rio abaixo, a favor da água, vai o barco da oposição de direita, sem aquele motor, mas arrastado pela corrente.
E a correnteza, aqui, é o crescente ceticismo de que o Estado possa ser o impulsionador do progresso e da prosperidade, uma ideia que já foi dominante entre nós. O situacionismo tem o motor estatal, mas o oposicionismo tem o zeitgeist, o espírito do tempo. E este lhe tem sido suficiente para enfrentar o borrasca que o engoliu, em boa parte por seus próprios erros, na esteira da atabalhoada transição presidencial de 2023.
Sem motor e sem pressa, e enquanto a tardinha cai, o barquinho da oposição vai.
Daqui a menos de um mês tem eleição, e o transe coletivo desencadeado por mais este striptease institucional tem tudo para ocupar o palco de forma duradoura. Vão sendo empurrados para o segundo plano o debate e a disputa sobre como tirar a economia brasileira da pasmaceira e trocar, por uma mais intensa, a luz fraquinha no fim do túnel. Não chega a ser inédito. Debates racionais e disputas programáticas são raridade nas eleições entre nós.
Não deveriam ser. Enquanto o escândalo consome o noticiário, é a economia que decide o voto — e é nela que está o enigma mais interessante desta eleição. É impossível analisar as dificuldades eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sem enveredar por aí. Até ele deve estar surpreso com o paradoxo: enfrenta talvez sua eleição mais difícil desde 1998, mesmo exibindo números econômicos bastante razoáveis e tendo com ele, ou no mínimo contra os adversários, a esmagadora maioria dos mecanismos de formação da opinião pública.
Após o 8 de janeiro de 2023, seria ridicularizado quem dissesse que, a despeito de um crescimento do PIB em torno de 2%, inflação rodando abaixo do teto da meta e plena ocupação (falta mão de obra), Lula estaria com taxas de avaliação insatisfatórias e intenção de voto na zona de risco a menos de um mês da tentativa de reeleição. Mas os números estão aí. É certo que sempre haverá a tentação de recorrer a outras explicações, mas seria mais um escapismo. É preciso olhar para a economia.
E o enigma complica-se quando se mede a percepção popular. A situação e as perspectivas econômicas do país não chegam a entusiasmar, mas a resposta dos entrevistados nas pesquisas fica longe de ser catastrófica, apesar das preocupações com as contas públicas. E até melhora quando se pergunta não sobre a economia do país, mas a respeito da situação econômica pessoal. Tampouco há um ambiente de pessimismo generalizado.
Onde estaria então o problema?
Uma hipótese é a combinação de dois fatores: o esgotamento de o modelo social-democrata produzir prosperidade e crescimento sustentados, e a revolta contra as deformidades de um Estado corrompido e vocacionado principalmente para blindar privilégios de uma minoria e concentrar renda. A face visível do antipetismo é ideológica, mas os alicerces estão na rejeição à preferência, pelo petismo, de uma estatolatria quase religiosa e à sua incapacidade de compreender o papel do capital e da poupança privados na produção de progresso e bem-estar no atual estágio do Brasil.
Daí que narrativas e iniciativas amplamente apoiadas em tese, como o aumento dos impostos sobre os ricos e a distribuição do dinheiro aos mais pobres, acabem rendendo pouco lucro político quando trazidas para a vida real. Qualquer um que passe 24 horas em Brasília percebe imediatamente que é baixíssima a probabilidade de um real a mais arrecadado do contribuinte acabar no bolso do pobre. Outro exemplo é a redução da jornada de trabalho sem cortar a remuneração. Quem não quer trabalhar menos ganhando a mesma coisa? Só que talvez o brasileiro médio esteja mais ansioso para ganhar mais do que trabalhar menos.
Como não parece haver por aqui um Deng Xiaoping para explicar à esquerda que não importa a cor do gato, desde que cace ratos, ela não está preparada para compreender que no estágio atual do capitalismo brasileiro, ainda que o trabalho é quem gere valor, são os capitalistas que podem produzir prosperidade, gerar empregos de boa qualidade e expandir a economia de modo a absorver as legiões de jovens que um dia o PT fez sonhar com a ascensão social.
A consequência está na preferência dos eleitores. O PT e a esquerda resistem nos públicos atendidos pelos programas sociais e nas áreas mais dependentes do Estado, mas vão minguando cada vez mais nos polos dinâmicos da economia. É tradição entre os partidos brasileiros que um dia sonham ser hegemônicos: nascidos nos grandes centros, vão sendo empurrados para os grotões conforme amoldam-se ao statu quo.
E chegamos a 2026. A disputa entre governo e oposição, entre esquerda e direita, pode ser contada, à luz desse cenário, como uma corrida entre dois barcos. Partem do mesmo ponto do rio, um deles rio abaixo e o outro rio acima, e vence quem primeiro percorrer certa distância, a mesma para os dois. Rio acima, contra a correnteza, segue o barco da situação petista, empurrado pelo motor de ser governo. Rio abaixo, a favor da água, vai o barco da oposição de direita, sem aquele motor, mas arrastado pela corrente.
E a correnteza, aqui, é o crescente ceticismo de que o Estado possa ser o impulsionador do progresso e da prosperidade, uma ideia que já foi dominante entre nós. O situacionismo tem o motor estatal, mas o oposicionismo tem o zeitgeist, o espírito do tempo. E este lhe tem sido suficiente para enfrentar o borrasca que o engoliu, em boa parte por seus próprios erros, na esteira da atabalhoada transição presidencial de 2023.
Sem motor e sem pressa, e enquanto a tardinha cai, o barquinho da oposição vai.
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Com a palavra, o eleitor
A eleição de outubro deverá dar o veredito sobre a opção feita pelo presidente da República após o 8 de janeiro de 2023. O custo das escolhas políticas nunca é zero, e as consequências podem demorar bastante. A única certeza é que um dia elas chegam.
Sem recorrer à conciliação de JK, cuja posse foi assegurada pelo então general Lott depois da contestação da UDN, em 1955, e que anistiou os revoltosos de Jacareacanga no ano seguinte, e sem poder repetir o caminho de Vargas, que após o levante de 1935 endureceu o regime e dois anos depois instaurou o Estado Novo, Lula apostou no presidencialismo de coalizão com um Judiciário fortalecido, que se enxergou como depositário de um poder quase absoluto.
Restava compor com as cúpulas do Congresso conservador, sempre arisco, uma costura somente concluída agora, na véspera da eleição. Esse desenho, somado à antipatia generalizada que a imprensa profissional dedica aos principais adversários do petista, produzia um arcabouço bastante razoável para a tentativa de reeleição. Lula mantinha coesa sua base fiel de sustentação social e preservava no essencial a frente ampla superestrutural que lhe deu a vitória apertada em 2022.
O que poderia dar errado? Aqui é inevitável lembrar a célebre frase “a vida sempre encontra um meio” (ou “um caminho”), dita pelo matemático Ian Malcolm, interpretado por Jeff Goldblum, no filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Steven Spielberg, 1993). Na obra, os dinossauros eram criados apenas como fêmeas, para evitar que se reproduzissem por conta própria. Mas a vida encontrou um jeito de implodir a limitação, com todas as trágicas decorrências.
Se quisermos ir mais longe, basta recordar, da mitologia grega, as histórias de Sísifo e Prometeu. Desafiar os deuses é sempre arriscado. E os problemas dos políticos (lato sensu) agravam-se quando eles mesmos passam a se considerar deuses e arriscam atrair a ira do Zeus da política, o eleitor, que alguma hora é chamado a dar seu juízo, mesmo quando o resto do Olimpo se julga imunizado.
Estamos nesse ponto. Ao longo de quase quatro anos, as duras consequências enfrentadas pelos acusados e depois condenados do 8/1, somadas ao opróbrio político e social lançado sobre a direita em geral pelos mecanismos reprodutores da opinião pública, contiveram os desdobramentos costumeiros de tensões produzidas em cenários assim, nas instituições e, principalmente, nas ruas.
Mas parece que o dique se rompeu. E, dado o equilíbrio na correlação de forças produzido pelas revelações recentes, parece que quem terá de cortar esse nó górdio, para um lado ou para o outro, será ele mesmo: o eleitor.
Sem recorrer à conciliação de JK, cuja posse foi assegurada pelo então general Lott depois da contestação da UDN, em 1955, e que anistiou os revoltosos de Jacareacanga no ano seguinte, e sem poder repetir o caminho de Vargas, que após o levante de 1935 endureceu o regime e dois anos depois instaurou o Estado Novo, Lula apostou no presidencialismo de coalizão com um Judiciário fortalecido, que se enxergou como depositário de um poder quase absoluto.
Restava compor com as cúpulas do Congresso conservador, sempre arisco, uma costura somente concluída agora, na véspera da eleição. Esse desenho, somado à antipatia generalizada que a imprensa profissional dedica aos principais adversários do petista, produzia um arcabouço bastante razoável para a tentativa de reeleição. Lula mantinha coesa sua base fiel de sustentação social e preservava no essencial a frente ampla superestrutural que lhe deu a vitória apertada em 2022.
O que poderia dar errado? Aqui é inevitável lembrar a célebre frase “a vida sempre encontra um meio” (ou “um caminho”), dita pelo matemático Ian Malcolm, interpretado por Jeff Goldblum, no filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Steven Spielberg, 1993). Na obra, os dinossauros eram criados apenas como fêmeas, para evitar que se reproduzissem por conta própria. Mas a vida encontrou um jeito de implodir a limitação, com todas as trágicas decorrências.
Se quisermos ir mais longe, basta recordar, da mitologia grega, as histórias de Sísifo e Prometeu. Desafiar os deuses é sempre arriscado. E os problemas dos políticos (lato sensu) agravam-se quando eles mesmos passam a se considerar deuses e arriscam atrair a ira do Zeus da política, o eleitor, que alguma hora é chamado a dar seu juízo, mesmo quando o resto do Olimpo se julga imunizado.
Estamos nesse ponto. Ao longo de quase quatro anos, as duras consequências enfrentadas pelos acusados e depois condenados do 8/1, somadas ao opróbrio político e social lançado sobre a direita em geral pelos mecanismos reprodutores da opinião pública, contiveram os desdobramentos costumeiros de tensões produzidas em cenários assim, nas instituições e, principalmente, nas ruas.
Mas parece que o dique se rompeu. E, dado o equilíbrio na correlação de forças produzido pelas revelações recentes, parece que quem terá de cortar esse nó górdio, para um lado ou para o outro, será ele mesmo: o eleitor.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Renovação cada vez menor
As taxas de renovação, baixas e cada vez mais baixas, no Congresso Nacional, especialmente na Câmara dos Deputados, são uma característica do sistema eleitoral brasileiro. Mesmo no auge das ondas antipolíticas, esses números nunca oscilaram muito. E mesmo os critérios de “renovação” precisam ser olhados com cuidado. Nesse vagão cabem ex-parlamentares federais, ex-prefeitos, ex-deputados estaduais, ex-vereadores…
Há quatro categorias básicas de parlamentares, de acordo com o apoio do eleitorado: os do “voto de opinião”, cada vez mais escassos; os “trens pagadores”, de vida difícil depois do fim do financiamento empresarial de campanhas; os queridinhos da cúpula partidária, mais beneficiados pelo fundo eleitoral; e os “distritalizados”, que alavancam votações expressivas em bases municipais irrigadas com a verba das emendas ao Orçamento.
O último grupo cresce e tem grande vantagem sobre os demais. Há duas décadas, cada parlamentar contava com um mínimo de R$ 1 milhão anual em emendas, não impositivas, e a luta para acrescentar recursos a esse mínimo era permanente. Duas décadas depois, com o orçamento impositivo e a fragilização do poder presidencial, o montante cresceu cerca de quarenta vezes. Um parlamentar pode passar os quatro anos atacando o governo e, mesmo assim, terá essa verba repassada a seus aliados municipais.
Claro que se trata de uma simplificação — o jogo da política é complexo —, mas a distritalização acelerada do voto para a Câmara dos Deputados, baseada principalmente no poder dos parlamentares de distribuir recursos, é o principal fator que dificulta a renovação política. Uma brecha na represa são os entrantes que convencem a cúpula partidária de que podem servir de puxadores de votos no nosso sistema proporcional aberto, mas mesmo isso não é simples.
Pois a manutenção e a reprodução do poder das cúpulas dos partidos dependem, em boa medida, do apoio das estruturas políticas pré-existentes, especialmente das bancadas federais, que acabam vinculando as bases partidárias municipais pela força das emendas.
A distritalização também acaba sendo reforçada por situações não previstas. Em São Paulo, diversas circunstâncias acabaram por retirar da disputa os campeões de votos da direita nas duas últimas eleições para deputado federal, sem que o espaço fosse preenchido por novas estrelas capazes de eleger a si mesmas e mais uma fileira de indiretamente beneficiados. Para onde se deslocará esse “voto órfão” é uma incógnita.
Há quatro categorias básicas de parlamentares, de acordo com o apoio do eleitorado: os do “voto de opinião”, cada vez mais escassos; os “trens pagadores”, de vida difícil depois do fim do financiamento empresarial de campanhas; os queridinhos da cúpula partidária, mais beneficiados pelo fundo eleitoral; e os “distritalizados”, que alavancam votações expressivas em bases municipais irrigadas com a verba das emendas ao Orçamento.
O último grupo cresce e tem grande vantagem sobre os demais. Há duas décadas, cada parlamentar contava com um mínimo de R$ 1 milhão anual em emendas, não impositivas, e a luta para acrescentar recursos a esse mínimo era permanente. Duas décadas depois, com o orçamento impositivo e a fragilização do poder presidencial, o montante cresceu cerca de quarenta vezes. Um parlamentar pode passar os quatro anos atacando o governo e, mesmo assim, terá essa verba repassada a seus aliados municipais.
Claro que se trata de uma simplificação — o jogo da política é complexo —, mas a distritalização acelerada do voto para a Câmara dos Deputados, baseada principalmente no poder dos parlamentares de distribuir recursos, é o principal fator que dificulta a renovação política. Uma brecha na represa são os entrantes que convencem a cúpula partidária de que podem servir de puxadores de votos no nosso sistema proporcional aberto, mas mesmo isso não é simples.
Pois a manutenção e a reprodução do poder das cúpulas dos partidos dependem, em boa medida, do apoio das estruturas políticas pré-existentes, especialmente das bancadas federais, que acabam vinculando as bases partidárias municipais pela força das emendas.
A distritalização também acaba sendo reforçada por situações não previstas. Em São Paulo, diversas circunstâncias acabaram por retirar da disputa os campeões de votos da direita nas duas últimas eleições para deputado federal, sem que o espaço fosse preenchido por novas estrelas capazes de eleger a si mesmas e mais uma fileira de indiretamente beneficiados. Para onde se deslocará esse “voto órfão” é uma incógnita.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Cury entra no jogo
O crescimento de Augusto Cury na Nexus/BTG desta segunda deu-se num espaço potencial apontado nesta análise há pouco mais de um mês: um certo mercado para candidatos que, em vez de atacar os dois polos, se apresentassem como elemento agregador. Está em As agruras do terceirismo. Há também o eleitor que vota em Flávio Bolsonaro porque não quer Luiz Inácio Lula da Silva, e o que escolhe Lula porque não quer Flávio.
As eleições presidenciais sempre reservam espaço para a tal terceira via, e desta vez Cury atropela na largada dos debates, das entrevistas e do programa eleitoral. Mas será necessário observar se ele consegue consolidar a cabeça de praia e, mais importante, "amaciar" o eleitor hoje cristalizado nos dois campos hegemônicos. Das vezes anteriores não aconteceu. E não cabe comparar com eleições (1989 e 2018) em que as estruturas tinham se liquefeito.
O que pode dar gás a Cury? Eventuais pesquisas que o apontem como mais competitivo num segundo turno contra Lula, na comparação com Flávio, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Expectativa de vitória. Expectativa de poder. Vamos aguardar os números.
Uma consequência imediata é a redução dramática da possibilidade de a corrida terminar no primeiro turno. A Nexus/BTG aponta 53% para os demais candidatos, contra 39% de Lula. E outro dado relevante são os cinco pontos de vantagem da desaprovação do governo sobre a aprovação. Isso precisará ser observado com carinho, pois é habitual governos melhorarem a aprovação em períodos eleitorais, quando podem divulgar com mais amplitude suas realizações.
Cury captura a maior parte da sua subida entre os inclinados a Flávio e eleitores que desaprovam o governo. O que é consistente com a manutenção do empate técnico entre Flávio e Lula nas projeções de segundo turno, pois esse eleitor faz o caminho de volta quando é colocado diante das opções de continuidade e mudança.
E algo que permanecerá inalterado até o final, especialmente se houver mesmo segundo turno, é que, ao fim e ao cabo, o eleitor decidirá entre dar ou não mais quatro anos a Lula e ao PT.
As eleições presidenciais sempre reservam espaço para a tal terceira via, e desta vez Cury atropela na largada dos debates, das entrevistas e do programa eleitoral. Mas será necessário observar se ele consegue consolidar a cabeça de praia e, mais importante, "amaciar" o eleitor hoje cristalizado nos dois campos hegemônicos. Das vezes anteriores não aconteceu. E não cabe comparar com eleições (1989 e 2018) em que as estruturas tinham se liquefeito.
O que pode dar gás a Cury? Eventuais pesquisas que o apontem como mais competitivo num segundo turno contra Lula, na comparação com Flávio, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Expectativa de vitória. Expectativa de poder. Vamos aguardar os números.
Uma consequência imediata é a redução dramática da possibilidade de a corrida terminar no primeiro turno. A Nexus/BTG aponta 53% para os demais candidatos, contra 39% de Lula. E outro dado relevante são os cinco pontos de vantagem da desaprovação do governo sobre a aprovação. Isso precisará ser observado com carinho, pois é habitual governos melhorarem a aprovação em períodos eleitorais, quando podem divulgar com mais amplitude suas realizações.
Cury captura a maior parte da sua subida entre os inclinados a Flávio e eleitores que desaprovam o governo. O que é consistente com a manutenção do empate técnico entre Flávio e Lula nas projeções de segundo turno, pois esse eleitor faz o caminho de volta quando é colocado diante das opções de continuidade e mudança.
E algo que permanecerá inalterado até o final, especialmente se houver mesmo segundo turno, é que, ao fim e ao cabo, o eleitor decidirá entre dar ou não mais quatro anos a Lula e ao PT.
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
A tentação da troca de guarda
A eleição presidencial de 2022 foi decidida em São Paulo. Quem diz é a aritmética. Quatro anos antes, a diferença no estado entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad tinha sido de 8,1 milhões de votos. Em 2022, Bolsonaro liderou sobre Lula entre os paulistas, mas a diferença caiu para 2,7 milhões. Sabendo que Lula ganhou de Bolsonaro nacionalmente por apertado 1,9 milhão, basta fazer as contas.
A mesma análise sobre os demais estados mostra que, em números absolutos, a oscilação de ambos os campos entre as duas eleições teve peso apenas relativo no resultado nacional. O que decidiu foi a forte recuperação do petismo em São Paulo. O andamento desta eleição está bem parecido com o desfecho da anterior, então é razoável colocar o foco em São Paulo para as previsões terem maior probabilidade de acerto.
Uma característica da eleição paulista em 2022 foi o eleitor votar em bloco para governador e presidente. Bolsonaro ficou à frente de Lula por 55,2% a 44,8% e Tarcísio de Freitas venceu Haddad por 55,3% a 44,7%. O alinhamento repetiu-se na capital, onde ganharam Lula e Haddad, e, claro, no interior, onde prevaleceram Bolsonaro e Tarcísio, o que levou ao resultado final de vitória da direita no estado nas duas corridas.
No momento, Tarcísio lidera as projeções de segundo turno com cerca de 60% a 40% sobre Haddad, mas Flávio Bolsonaro só tem cinco pontos percentuais de vantagem sobre Lula em São Paulo. Um complicador para Haddad e Lula é o candidato de ambos a prefeito da capital, Guilherme Boulos, ter sido derrotado pelos mesmos 60% a 40% dois anos atrás pelo incumbente Ricardo Nunes, que tinha o apoio de Tarcísio e Bolsonaro. Isso apesar de, como vimos, a esquerda ter vencido na cidade dois anos antes.
Faz sentido Lula ter lançado Haddad para governador, mesmo com pouca perspectiva de vitória (ainda que, como diz o ditado mineiro, eleição e mineração só depois da apuração), pois perder de pouco em São Paulo é essencial para o petista na corrida contra Flávio Bolsonaro. E um risco real para o presidente é o eleitor de Tarcísio em algum momento concluir que a troca de guarda em Brasília seria boa para São Paulo.
Apesar da evidente, no momento, resistência de parte desse eleitorado a um bolsonarismo mais raiz. Resistência que até agora não cola no governador, cuja campanha está ancorada em entregas, resultados. Uma estratégia que dá sinal de alavancar não apenas Tarcísio, mas também outros incumbentes que pareciam vulneráveis a desafiantes.
A mesma análise sobre os demais estados mostra que, em números absolutos, a oscilação de ambos os campos entre as duas eleições teve peso apenas relativo no resultado nacional. O que decidiu foi a forte recuperação do petismo em São Paulo. O andamento desta eleição está bem parecido com o desfecho da anterior, então é razoável colocar o foco em São Paulo para as previsões terem maior probabilidade de acerto.
Uma característica da eleição paulista em 2022 foi o eleitor votar em bloco para governador e presidente. Bolsonaro ficou à frente de Lula por 55,2% a 44,8% e Tarcísio de Freitas venceu Haddad por 55,3% a 44,7%. O alinhamento repetiu-se na capital, onde ganharam Lula e Haddad, e, claro, no interior, onde prevaleceram Bolsonaro e Tarcísio, o que levou ao resultado final de vitória da direita no estado nas duas corridas.
No momento, Tarcísio lidera as projeções de segundo turno com cerca de 60% a 40% sobre Haddad, mas Flávio Bolsonaro só tem cinco pontos percentuais de vantagem sobre Lula em São Paulo. Um complicador para Haddad e Lula é o candidato de ambos a prefeito da capital, Guilherme Boulos, ter sido derrotado pelos mesmos 60% a 40% dois anos atrás pelo incumbente Ricardo Nunes, que tinha o apoio de Tarcísio e Bolsonaro. Isso apesar de, como vimos, a esquerda ter vencido na cidade dois anos antes.
Faz sentido Lula ter lançado Haddad para governador, mesmo com pouca perspectiva de vitória (ainda que, como diz o ditado mineiro, eleição e mineração só depois da apuração), pois perder de pouco em São Paulo é essencial para o petista na corrida contra Flávio Bolsonaro. E um risco real para o presidente é o eleitor de Tarcísio em algum momento concluir que a troca de guarda em Brasília seria boa para São Paulo.
Apesar da evidente, no momento, resistência de parte desse eleitorado a um bolsonarismo mais raiz. Resistência que até agora não cola no governador, cuja campanha está ancorada em entregas, resultados. Uma estratégia que dá sinal de alavancar não apenas Tarcísio, mas também outros incumbentes que pareciam vulneráveis a desafiantes.
sábado, 15 de agosto de 2026
A raiz da polarização
A campanha oficial começa como terminou a anterior: lulismo e bolsonarismo empatados (na margem de erro). Nem Luiz Inácio Lula da Silva e o PT aproveitaram o mandato para ampliar o apoio, nem os Bolsonaros sofreram corrosão relevante pelo conjunto de atribulações, ancoradas nas consequências do 8 de Janeiro e na condução pouco inteligente da transição de 2022. De mudança mesmo, só a evolução aparentemente imparável do declinio institucional.
Os números são conclusivos. A soma do bolsonarismo “duro” com o menos convicto alcança uns 35% do eleitorado. O mesmo cálculo para o lulismo chega a uns 30%. A rejeição incondicional a ambos oscila em torno de 10%, bom termômetro das dificuldades enfrentadas pelos desafiantes da dupla. Os fatos costumam ser teimosos: por enquanto, essa polarização só é repudiada mesmo em círculos minoritários e bem delimitados.
E por que a polarização resiste? A divisão das sociedades em campos políticos é habitual, e as raízes devem ser buscadas nas escolhas disponíveis de líderes políticos capazes de enfrentar os desafios enxergados pelo público. E a separação de campos no Brasil não tem muito segredo.
De um lado, as pessoas convencidas de que é papel fundamental do Estado aumentar impostos sobre os ricos (conceito elástico) para prover o conjunto da sociedade de oportunidades e serviços capazes de garantir o bem-estar social. Do outro lado, quem vê o Estado brasileiro como uma máquina cínica, corrompida e corruptora, vocacionada unicamente para garantir privilégios a uma elite insensível às agruras do cidadão comum.
Não é preciso muita sofisticação para concluir que a primeira turma se inclina para Lula e a segunda para os Bolsonaros, agora Flávio. Sintetizando, o Brasil se divide entre quem acha que “o governo tem de resolver o meu problema” e quem prefere que, “se o governo não me ajuda, podia pelo menos não me atrapalhar”. Está aí a raiz de uma polarização que resiste às seguidas lamúrias com a frustração das propostas alternativas para “unir o Brasil”.
De uns anos para cá, o segundo campo vem ganhando terreno, por razões objetivas. Os fatos, sempre eles, e a vida material são o combustível. Daí as dificuldades de correntes políticas cada vez menos capazes de conseguir consensos, e por isso crescentemente instadas a recorrer à coerção estatal. Só que coerção estatal não é garantia de voto.
Os números são conclusivos. A soma do bolsonarismo “duro” com o menos convicto alcança uns 35% do eleitorado. O mesmo cálculo para o lulismo chega a uns 30%. A rejeição incondicional a ambos oscila em torno de 10%, bom termômetro das dificuldades enfrentadas pelos desafiantes da dupla. Os fatos costumam ser teimosos: por enquanto, essa polarização só é repudiada mesmo em círculos minoritários e bem delimitados.
E por que a polarização resiste? A divisão das sociedades em campos políticos é habitual, e as raízes devem ser buscadas nas escolhas disponíveis de líderes políticos capazes de enfrentar os desafios enxergados pelo público. E a separação de campos no Brasil não tem muito segredo.
De um lado, as pessoas convencidas de que é papel fundamental do Estado aumentar impostos sobre os ricos (conceito elástico) para prover o conjunto da sociedade de oportunidades e serviços capazes de garantir o bem-estar social. Do outro lado, quem vê o Estado brasileiro como uma máquina cínica, corrompida e corruptora, vocacionada unicamente para garantir privilégios a uma elite insensível às agruras do cidadão comum.
Não é preciso muita sofisticação para concluir que a primeira turma se inclina para Lula e a segunda para os Bolsonaros, agora Flávio. Sintetizando, o Brasil se divide entre quem acha que “o governo tem de resolver o meu problema” e quem prefere que, “se o governo não me ajuda, podia pelo menos não me atrapalhar”. Está aí a raiz de uma polarização que resiste às seguidas lamúrias com a frustração das propostas alternativas para “unir o Brasil”.
De uns anos para cá, o segundo campo vem ganhando terreno, por razões objetivas. Os fatos, sempre eles, e a vida material são o combustível. Daí as dificuldades de correntes políticas cada vez menos capazes de conseguir consensos, e por isso crescentemente instadas a recorrer à coerção estatal. Só que coerção estatal não é garantia de voto.
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