Evocar o princípio da soberania supõe sempre algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita. Os bolcheviques alistavam-se no exército russo para colocar lenha na fogueira do derrotismo na Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar na derrubada do czar. Aparece em Dr Jivago, o clássico hollywoodiano de 1965. A elite política francesa preferiu capitular à Alemanha na Segunda Guerra, pois tinha mais medo dos compatriotas comunistas que dos nazistas alemães.
A análise política perde-se quando abandona o foco do central: a luta pelo poder, geralmente travada sem muita consideração pelos princípios. Quando Jimmy Carter pressionou o então presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos humanos dos perseguidos pelo regime militar, a ditadura reagiu invocando o princípio da soberania. O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”.
A designação pelos Estados Unidos de organizações criminosas brasileiras como terroristas, com todas as consequências políticas e legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de Washington. O governo brasileiro já vinha mostrando flexibilidade diante da pressão da administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo não estava jogado. Está longe de ser um segredo que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina Monroe 2.0.
Só que existe um problema anterior. O avanço, aparentemente imparável, do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado por aqui. Anunciam-se planos, votam-se leis, convocam-se entrevistas coletivas para anunciar soluções, mas a doença ignora o espetáculo e avança. Discutir princípios é importante, mas defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o risco de alguém de fora querer meter o bedelho.
Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou capital político no episódio das tarifas ao lançar mão do discurso da soberania. Vai funcionar quando o foco da disputa é o combate ao crime organizado? Vamos aguardar os números. Eles dirão se o eleitor está mais incomodado com a ingerência externa ou com a ingerência do crime sobre a vida dele.
Análise Política
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
domingo, 31 de maio de 2026
domingo, 24 de maio de 2026
O áudio, as pesquisas e a abstenção
Até a véspera da eleição as pesquisas apresentam seus resultados em porcentagens sobre o total do eleitorado. Um ou dois dias antes do pleito passam a apresentar as projeções de votos válidos, descartando os brancos, nulos e indecisos. Isso foi introduzido de alguns anos para cá, com o objetivo de atenuar os questionamentos sobre as pesquisas, pois os resultados oficiais sempre aparecem em votos válidos.
Em 1998 Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%, sempre sobre o total do eleitorado. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.
Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.
Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.
Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.
A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deveria introduzir alguma prudência nas conclusões.
A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.
Em 1998 Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%, sempre sobre o total do eleitorado. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.
Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.
Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.
Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.
A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deveria introduzir alguma prudência nas conclusões.
A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Finalmente um fato novo
A semana introduziu o elemento novo que faltava na sucessão presidencial: uma instabilidade com potencial para produzir desequilíbrio. O quadro vinha bem ossificado, aguardando apenas a formalização das alianças e chapas para a largada oficial. E a grande dificuldade dos azarões era uma barreira de entrada aparentemente instransponível, segundo as pesquisas.
Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.
Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a ostentação de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.
Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.
Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.
Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).
De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.
O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).
Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.
Para prestar atenção
A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?
O filme das pesquisas
Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?
A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?
Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.
Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a ostentação de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.
Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.
Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.
Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).
De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.
O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).
Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.
Para prestar atenção
A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?
O filme das pesquisas
Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?
A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?
sábado, 9 de maio de 2026
Onde a corrupção dói mais
Os novos capítulos do Caso Master reintroduziram no debate político conjecturas sobre o impacto do tema corrupção na eleição presidencial. Semanas atrás, num momento de alta temperatura do assunto, este chegou a ultrapassar a economia e a segurança pública no ranking das preocupações dos entrevistados em pesquisas. Mas em seguida viu-se uma reacomodação, sinal de resiliência das questões mais capazes de produzir impacto direto e imediato no brasileiro médio.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
sábado, 2 de maio de 2026
A fé na conta de chegada
Ao adotar suas linhas de ação política e econômica e, principalmente, ao persistir nelas mesmo diante das circunstâncias, o governo federal acaba refém de duas contas de chegada.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
quarta-feira, 26 de março de 2025
Batom na estátua
É possível que o governo Luiz Inácio Lula da Silva subestime o custo político de apoiar incondicionalmente a atuação do Supremo Tribunal Federal nos processos contra os acusados de 8 de janeiro de 2023. Não é tão difícil entender o potencial dano eleitoral do contraste entre a liberdade proporcionada a tantos envolvidos em comprovados crimes graves e a dureza granítica das atuais punições aos manifestantes que depredaram as sedes dos três poderes, uma ação obviamente condenável.
Na guerra de narrativas, o 8/1 foi para uns grave atentado contra a democracia. Mas para uma fração significativa do eleitorado, ainda minoritária, foi só um ato de depredação de edifícios públicos. Não é preciso tanta inteligência ou capacidade preditiva para saber que o primeiro grupo tende a diminuir e o segundo a crescer. Ainda por cima se a segunda narrativa vem embalada em exemplos que o homem comum pode facilmente interpretar como flagrante injustiça.
Uma dúvida razoável é por que o governo não influi para expurgar da onda inquisitorial as aberrações mais aberrantes. Talvez porque, na ausência de base parlamentar mais sólida, tema enfraquecer o “presidencialismo de coalizão com o Judiciário”. Talvez porque tenha se tornado, ele próprio, prisioneiro da sua narrativa. É uma dessas situações em que o sujeito, para manter de pé uma versão, passa a agir contra seus próprios interesses.
Para o sistema punitivo, é vital manter uma conexão entre o 8/1 e as comprovadas movimentações do então presidente, derrotado nas urnas, para invalidar o desfecho da eleição. O 8/1 permite à acusação dizer que a ruptura não foi apenas desejada, mas efetivamente tentaram colocá-la em prática. As evidências materiais dessa conexão são frágeis até o momento. Mas, como se diz, “é o que temos para hoje”.
Na guerra de narrativas, o 8/1 foi para uns grave atentado contra a democracia. Mas para uma fração significativa do eleitorado, ainda minoritária, foi só um ato de depredação de edifícios públicos. Não é preciso tanta inteligência ou capacidade preditiva para saber que o primeiro grupo tende a diminuir e o segundo a crescer. Ainda por cima se a segunda narrativa vem embalada em exemplos que o homem comum pode facilmente interpretar como flagrante injustiça.
Uma dúvida razoável é por que o governo não influi para expurgar da onda inquisitorial as aberrações mais aberrantes. Talvez porque, na ausência de base parlamentar mais sólida, tema enfraquecer o “presidencialismo de coalizão com o Judiciário”. Talvez porque tenha se tornado, ele próprio, prisioneiro da sua narrativa. É uma dessas situações em que o sujeito, para manter de pé uma versão, passa a agir contra seus próprios interesses.
Para o sistema punitivo, é vital manter uma conexão entre o 8/1 e as comprovadas movimentações do então presidente, derrotado nas urnas, para invalidar o desfecho da eleição. O 8/1 permite à acusação dizer que a ruptura não foi apenas desejada, mas efetivamente tentaram colocá-la em prática. As evidências materiais dessa conexão são frágeis até o momento. Mas, como se diz, “é o que temos para hoje”.
Daí a dificuldade política de expurgar da marcha penal situações como o batom na estátua. Sem o “batom na cueca”, resta o batom na estátua.
Não fosse por isso, a separação entre os participantes de delitos menores e os demais acusados já teria sido feita há tempos, evitando que o governo perdesse o timing, o que permitiu à oposição fincar pé na acusação de injustiça. Lutar contra injustiças sempre permite ao lutador alguma iniciativa, mesmo em situações desfavoráveis.
É verdade que, com isso, a oposição deixa para o governo a oportunidade de ocupar-se sozinho do que interessa mais ao povão: o preço das coisas. E o governo ganha tempo. está à espera de que, enquanto fala mal do Banco Central (BC), o BC faça o serviço para o situacionismo e derrube a inflação.
Além do mais, o Planalto conta com a docilidade dos mecanismos de formação da opinião, eles próprios encaixotados no temor de não parecerem suficientemente alinhados na defesa da democracia.
Pela nova regra do consignado, o trabalhador pega um empréstimo no banco, para pagar juros e o principal, dando como garantia 10% do seu FGTS.
Fica uma dúvida: por que não simplesmente deixar o trabalhador sacar 10% do seu FGTS?
Até para o trabalhador não passar pela estranha situação de ter de pagar ao banco juros por tomar emprestado um dinheiro que é dele mesmo.
Não fosse por isso, a separação entre os participantes de delitos menores e os demais acusados já teria sido feita há tempos, evitando que o governo perdesse o timing, o que permitiu à oposição fincar pé na acusação de injustiça. Lutar contra injustiças sempre permite ao lutador alguma iniciativa, mesmo em situações desfavoráveis.
É verdade que, com isso, a oposição deixa para o governo a oportunidade de ocupar-se sozinho do que interessa mais ao povão: o preço das coisas. E o governo ganha tempo. está à espera de que, enquanto fala mal do Banco Central (BC), o BC faça o serviço para o situacionismo e derrube a inflação.
Além do mais, o Planalto conta com a docilidade dos mecanismos de formação da opinião, eles próprios encaixotados no temor de não parecerem suficientemente alinhados na defesa da democracia.
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Pela nova regra do consignado, o trabalhador pega um empréstimo no banco, para pagar juros e o principal, dando como garantia 10% do seu FGTS.
Fica uma dúvida: por que não simplesmente deixar o trabalhador sacar 10% do seu FGTS?
Até para o trabalhador não passar pela estranha situação de ter de pagar ao banco juros por tomar emprestado um dinheiro que é dele mesmo.
terça-feira, 4 de março de 2025
Esquerda em apuros. E a conversa fiada sobre a guerra
É visível e mensurável a ascensão de forças políticas nacionalistas em escala global. A base material foi desencadeada pela crise financeira de 2008-09, quando a chamada globalização apresentou suas primeiras graves rachaduras. Como tudo na História, o andamento não é linear, tem idas e vindas, mas parece caminhar bem, sem que tendências contrárias mostrem energia suficiente para reverter.
A maioria da esquerda, aparentada da social-democracia, é a principal perdedora neste round.
Aos fatos. Em certo momento ela abandonou a luta 1) pela soberania nacional, 2) pelo desenvolvimento, 3) pela igualdade e 4) pela liberdade. Trocou seus melhores episódios desde a Revolução Francesa por uma mistura mal ajambrada de kautskysmo (teoria do “ultraimperialismo”), malthusianismo, tribalismo identitário e ânsia repressora.
Como essa mixórdia de pontos desconexos não é capaz de proporcionar às massas trabalhadoras um horizonte de elevação consistente do seu padrão de vida, estas se voltam para a direita em busca de luz. Direita que recolhe as bandeiras acima de 1 a 4 para capturar uma base social antes hostil, ampliar sua potência eleitoral e abrir caminho para chegar ao poder.
O nacionalismo têm papel central nessa disputa. Defender a nação como espaço de proteção, liberdade e prosperidade vem se mostrando mais eficaz para mobilizar os povos do que um universalismo até agora incapaz de deixar o terreno da utopia. As pessoas não são estúpidas. Qualquer um compreende perfeitamente a diferença entre os graus de liberdade do capital e do trabalho quanto tentam cruzar as fronteiras entre o primeiro e o terceiro mundos.
A resultante é a contradição grotesca entre o discurso da esquerda em defesa da democracia e sua inclinação à repressão pura e simples para manter-se no poder. Recorrendo a uma expressão cara a esse campo, é óbvio que não tem a mínima sustentabilidade.
O governo dos Estados Unidos não parece disposto a continuar financiando a fundo perdido na Ucrânia uma guerra inganhável. A aposta europeia e do governo Joe Biden deu errado. As sanções não arruinaram a economia da Rússia, também por uma razão: a China jamais permitiria ao Ocidente subjugar os russos e impor-lhes o Versailles que se impôs à então União Soviética.
Resta, então, como caminho para uma vitória total sobre Moscou, o militar. Alguns problemas aqui. A Rússia é a maior potência nuclear do planeta. E, ao contrário dos últimos momentos da URSS, mostra coesão política interna para evitar a capitulação.
Mais ainda: numa guerra convencional, é impensável que os ucranianos derrotem os russos. Para melhorar a probabilidade desse desfecho, seria necessário europeus e americanos toparem ir morrer nos campos de batalha, além de empenhar todas as economias na empreitada. E mesmo assim o desfecho mais provável seria uma conflagração nuclear planetária.
Diante disso, a melhor saída é buscar um acordo, que naturalmente deverá levar em conta a realidade no terreno da guerra. “Ah, mas e a soberania? E o direito dos países à integridade territorial?”. É hora de retirar do baú uma velhíssima lição da História. Os países têm direito à soberania e à integridade territorial na exata medida da força que eles e suas alianças têm para garantir a soberania e a integridade territorial.
O resto é conversa fiada.
A maioria da esquerda, aparentada da social-democracia, é a principal perdedora neste round.
Aos fatos. Em certo momento ela abandonou a luta 1) pela soberania nacional, 2) pelo desenvolvimento, 3) pela igualdade e 4) pela liberdade. Trocou seus melhores episódios desde a Revolução Francesa por uma mistura mal ajambrada de kautskysmo (teoria do “ultraimperialismo”), malthusianismo, tribalismo identitário e ânsia repressora.
Como essa mixórdia de pontos desconexos não é capaz de proporcionar às massas trabalhadoras um horizonte de elevação consistente do seu padrão de vida, estas se voltam para a direita em busca de luz. Direita que recolhe as bandeiras acima de 1 a 4 para capturar uma base social antes hostil, ampliar sua potência eleitoral e abrir caminho para chegar ao poder.
O nacionalismo têm papel central nessa disputa. Defender a nação como espaço de proteção, liberdade e prosperidade vem se mostrando mais eficaz para mobilizar os povos do que um universalismo até agora incapaz de deixar o terreno da utopia. As pessoas não são estúpidas. Qualquer um compreende perfeitamente a diferença entre os graus de liberdade do capital e do trabalho quanto tentam cruzar as fronteiras entre o primeiro e o terceiro mundos.
A resultante é a contradição grotesca entre o discurso da esquerda em defesa da democracia e sua inclinação à repressão pura e simples para manter-se no poder. Recorrendo a uma expressão cara a esse campo, é óbvio que não tem a mínima sustentabilidade.
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O governo dos Estados Unidos não parece disposto a continuar financiando a fundo perdido na Ucrânia uma guerra inganhável. A aposta europeia e do governo Joe Biden deu errado. As sanções não arruinaram a economia da Rússia, também por uma razão: a China jamais permitiria ao Ocidente subjugar os russos e impor-lhes o Versailles que se impôs à então União Soviética.
Resta, então, como caminho para uma vitória total sobre Moscou, o militar. Alguns problemas aqui. A Rússia é a maior potência nuclear do planeta. E, ao contrário dos últimos momentos da URSS, mostra coesão política interna para evitar a capitulação.
Mais ainda: numa guerra convencional, é impensável que os ucranianos derrotem os russos. Para melhorar a probabilidade desse desfecho, seria necessário europeus e americanos toparem ir morrer nos campos de batalha, além de empenhar todas as economias na empreitada. E mesmo assim o desfecho mais provável seria uma conflagração nuclear planetária.
Diante disso, a melhor saída é buscar um acordo, que naturalmente deverá levar em conta a realidade no terreno da guerra. “Ah, mas e a soberania? E o direito dos países à integridade territorial?”. É hora de retirar do baú uma velhíssima lição da História. Os países têm direito à soberania e à integridade territorial na exata medida da força que eles e suas alianças têm para garantir a soberania e a integridade territorial.
O resto é conversa fiada.
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