Desde o caso "Dark Horse", mas especialmente desde a combinação de benesses econômicas governamentais e forte presença propagandística para divulgá-las, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a recapturar, ainda que lentamente, parte do voto não alinhado nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, e que dele vinha se afastando. Segundo a pesquisa Nexus divulgada hoje, esse movimento já permite ao incumbente uma leve vantagem numérica na projeção de segundos turnos realistas, expurgando a provável abstenção.
Flávio Bolsonaro vinha se beneficiando do "jogar parado”, mas essa fase do jogo ficou para trás. O momento da corrida presidencial lembra um pouco o primeiro tempo de Brasil x Marrocos: enquanto um time joga, o outro só assiste. A situação permite ao governo manter a iniciativa política, o que também em períodos eleitorais é uma vantagem não desprezível. Em campanhas, como em outras situações, quem perdeu a iniciativa e precisa se explicar já está perdendo.
Apontar o risco de que o festival de bondades produza, no caso de reeleição, um cenário algo semelhante ao colhido por Dilma Rousseff em 2015-16, tem uma vantagem e um problema. A vantagem é refrescar a memória do eleitor para o custo de “fazer o diabo” nas eleições. O problema é abrir espaço para a acusação de que o oposicionismo planeja cortar o oxigênio das medidas e sacrificar a população mais vulnerável.
Mas talvez não reste outro caminho para a oposição, visto que, se a ideia é manter o que está aí, não há muitas razões para os não alinhados votarem pela mudança. E um número que oscila menos é exatamente o que aponta o desejo majoritário por mudança, presente em todas as pesquisas. Por enquanto, a associação entre iniciativas econômicas do governo e alguma perplexidade da oposição freia a conversão de insatisfação em voto.
Nunca é demais, porém, lembrar que a corrida ainda não chegou nem ao fim do começo, quanto mais ao começo do fim. Na eleição mais ciclotímica de todos os tempos, o governo e a oposição ainda têm a atravessar as convenções, as entrevistas, os debates, a campanha de rua, a guerra nas redes sociais, o que na teoria garante alguma paridade de armas. Resta ver como isso se dará na prática.
Análise Política
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
segunda-feira, 15 de junho de 2026
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Soberania e disputa de rejeições
O direito à soberania nacional segue a regra de que o detentor do direito precisa ter força para garantir o seu exercício. Outro detalhe: o escrito no papel garante alguma legitimidade, mas mesmo esta precisa sustentar-se socialmente. O contra-exemplo clássico é a busca de apoio internacional para combater um regime tirânico, como aconteceu aqui nos governos militares. Vale em situações assim o argumento de defesa da soberania?
O recurso ao soberanismo tem aparecido e desaparecido do discurso político conforme a conveniência eleitoral, alternando com o internacionalismo. A dúvida agora é se, e quanto, a narrativa terá efeito decisivo na nossa corrida pelo voto em outubro. Ajuda o oficialismo a substancial rejeição à figura do atual presidente dos Estados Unidos. Mas atrapalha um pouco o mesmo oficialismo ter desfilado posições flexíveis diante de outras pressões externas.
Como o congelamento da fronteira agrícola. Ou a recusa a explorar adequadamente nossos recursos minerais. É a tal história: de vez em quando, “ninguém se mete na nossa vida”, outras horas vem a angústia com “o que vão dizer da gente lá fora?”.
Mas há poucas atitudes mais ingênuas ou hipócritas na política, ou na crônica política, do que exigir coerência. Ainda que exibir a falta dela por parte do adversário ajude a criar constrangimentos. É um recurso, aí sim, para colocar o adversário na posição de ter de se explicar. E quem precisa se explicar já está perdendo. Daí que acusar o oponente de entreguismo seja sempre uma maneira de manter a iniciativa. O “upper hand”, na linguagem do boxe.
Essa talvez seja a questão central em disputas eleitorais. Quem consegue tomar a iniciativa e manter. Um jeito provado é acusar o adversário de algo muito grave e obrigá-lo a passar a campanha tentando reduzir o dano. E leva vantagem nisso quem tem a polícia eleitoral a seu favor. Poder acusar à vontade, enquanto ao concorrente não é dada a igualdade de armas. É uma vantagem e tanto, muito difícil de reverter.
Eleições em dois turnos costumam ser decididas numa disputa de rejeições. Daí a centralidade das armas à disposição de cada um para falar o diabo de quem está do outro lado.
O recurso ao soberanismo tem aparecido e desaparecido do discurso político conforme a conveniência eleitoral, alternando com o internacionalismo. A dúvida agora é se, e quanto, a narrativa terá efeito decisivo na nossa corrida pelo voto em outubro. Ajuda o oficialismo a substancial rejeição à figura do atual presidente dos Estados Unidos. Mas atrapalha um pouco o mesmo oficialismo ter desfilado posições flexíveis diante de outras pressões externas.
Como o congelamento da fronteira agrícola. Ou a recusa a explorar adequadamente nossos recursos minerais. É a tal história: de vez em quando, “ninguém se mete na nossa vida”, outras horas vem a angústia com “o que vão dizer da gente lá fora?”.
Mas há poucas atitudes mais ingênuas ou hipócritas na política, ou na crônica política, do que exigir coerência. Ainda que exibir a falta dela por parte do adversário ajude a criar constrangimentos. É um recurso, aí sim, para colocar o adversário na posição de ter de se explicar. E quem precisa se explicar já está perdendo. Daí que acusar o oponente de entreguismo seja sempre uma maneira de manter a iniciativa. O “upper hand”, na linguagem do boxe.
Essa talvez seja a questão central em disputas eleitorais. Quem consegue tomar a iniciativa e manter. Um jeito provado é acusar o adversário de algo muito grave e obrigá-lo a passar a campanha tentando reduzir o dano. E leva vantagem nisso quem tem a polícia eleitoral a seu favor. Poder acusar à vontade, enquanto ao concorrente não é dada a igualdade de armas. É uma vantagem e tanto, muito difícil de reverter.
Eleições em dois turnos costumam ser decididas numa disputa de rejeições. Daí a centralidade das armas à disposição de cada um para falar o diabo de quem está do outro lado.
domingo, 31 de maio de 2026
O crime, o espetáculo e a soberania
Evocar o princípio da soberania supõe sempre algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita. Os bolcheviques alistavam-se no exército russo para colocar lenha na fogueira do derrotismo na Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar a derrubar o regime. Aparece em Dr Jivago, o clássico hollywoodiano de 1965. A elite política francesa preferiu capitular à Alemanha na Segunda Guerra, pois tinha mais medo dos compatriotas comunistas que dos nazistas alemães.
A análise política perde-se quando abandona o foco: a luta pelo poder, geralmente travada sem muita consideração pelos princípios. Quando Jimmy Carter pressionou o então presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos humanos dos perseguidos pelo regime militar, a ditadura reagiu invocando o princípio da soberania. O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”.
A classificação pelos Estados Unidos de organizações criminosas brasileiras como terroristas, com todas as consequências políticas e legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de Washington. O governo brasileiro já vinha mostrando flexibilidade tática diante da pressão da administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo estratégico não estava jogado. Está longe de ser um segredo que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina Monroe 2.0.
Só que existe um problema anterior. O avanço por aqui, aparentemente imparável, do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado. Anunciam-se planos, votam-se leis, convocam-se entrevistas coletivas para desfilar soluções, mas a doença ignora o espetáculo e avança. Discutir princípios é importante, mas defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o risco de alguém de fora querer meter o bedelho.
Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou capital político no episódio das tarifas ao lançar mão do discurso da soberania. Vai funcionar quando a disputa é sobre o combate ao crime organizado? Vamos aguardar os números. Eles dirão se o eleitor está mais incomodado com a ingerência externa no Brasil ou com a ingerência do crime sobre a vida dele, eleitor.
A análise política perde-se quando abandona o foco: a luta pelo poder, geralmente travada sem muita consideração pelos princípios. Quando Jimmy Carter pressionou o então presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos humanos dos perseguidos pelo regime militar, a ditadura reagiu invocando o princípio da soberania. O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”.
A classificação pelos Estados Unidos de organizações criminosas brasileiras como terroristas, com todas as consequências políticas e legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de Washington. O governo brasileiro já vinha mostrando flexibilidade tática diante da pressão da administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo estratégico não estava jogado. Está longe de ser um segredo que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina Monroe 2.0.
Só que existe um problema anterior. O avanço por aqui, aparentemente imparável, do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado. Anunciam-se planos, votam-se leis, convocam-se entrevistas coletivas para desfilar soluções, mas a doença ignora o espetáculo e avança. Discutir princípios é importante, mas defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o risco de alguém de fora querer meter o bedelho.
Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou capital político no episódio das tarifas ao lançar mão do discurso da soberania. Vai funcionar quando a disputa é sobre o combate ao crime organizado? Vamos aguardar os números. Eles dirão se o eleitor está mais incomodado com a ingerência externa no Brasil ou com a ingerência do crime sobre a vida dele, eleitor.
domingo, 24 de maio de 2026
O áudio, as pesquisas e a abstenção
Até a véspera da eleição as pesquisas apresentam seus resultados em porcentagens sobre o total do eleitorado. Um ou dois dias antes do pleito passam a apresentar as projeções de votos válidos, descartando os brancos, nulos e indecisos. Isso foi introduzido de alguns anos para cá, com o objetivo de atenuar os questionamentos sobre as pesquisas, pois os resultados oficiais sempre aparecem em votos válidos.
Em 1998 Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%, sempre sobre o total do eleitorado. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.
Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.
Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.
Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.
A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deveria introduzir alguma prudência nas conclusões.
A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.
Em 1998 Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%, sempre sobre o total do eleitorado. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.
Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.
Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.
Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.
A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deveria introduzir alguma prudência nas conclusões.
A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Finalmente um fato novo
A semana introduziu o elemento novo que faltava na sucessão presidencial: uma instabilidade com potencial para produzir desequilíbrio. O quadro vinha bem ossificado, aguardando apenas a formalização das alianças e chapas para a largada oficial. E a grande dificuldade dos azarões era uma barreira de entrada aparentemente instransponível, segundo as pesquisas.
Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.
Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a ostentação de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.
Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.
Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.
Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).
De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.
O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).
Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.
Para prestar atenção
A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?
O filme das pesquisas
Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?
A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?
Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.
Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a ostentação de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.
Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.
Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.
Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).
De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.
O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).
Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.
Para prestar atenção
A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?
O filme das pesquisas
Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?
A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?
sábado, 9 de maio de 2026
Onde a corrupção dói mais
Os novos capítulos do Caso Master reintroduziram no debate político conjecturas sobre o impacto do tema corrupção na eleição presidencial. Semanas atrás, num momento de alta temperatura do assunto, este chegou a ultrapassar a economia e a segurança pública no ranking das preocupações dos entrevistados em pesquisas. Mas em seguida viu-se uma reacomodação, sinal de resiliência das questões mais capazes de produzir impacto direto e imediato no brasileiro médio.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
sábado, 2 de maio de 2026
A fé na conta de chegada
Ao adotar suas linhas de ação política e econômica e, principalmente, ao persistir nelas mesmo diante das circunstâncias, o governo federal acaba refém de duas contas de chegada.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
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