segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A tentação da troca de guarda

A eleição presidencial de 2022 foi decidida em São Paulo. Quem diz é a aritmética. Quatro anos antes, a diferença no estado entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad tinha sido de 8,1 milhões de votos. Em 2022, Bolsonaro liderou sobre Lula entre os paulistas, mas a diferença caiu para 2,7 milhões. Sabendo que Lula ganhou de Bolsonaro nacionalmente por apertado 1,9 milhão, basta fazer as contas.

A mesma análise sobre os demais estados mostra que, em números absolutos, a oscilação de ambos os campos entre as duas eleições teve peso apenas relativo no resultado nacional. O que decidiu foi a forte recuperação do petismo em São Paulo. O andamento desta eleição está bem parecido com o desfecho da anterior, então é razoável colocar o foco em São Paulo para as previsões terem maior probabilidade de acerto.

Uma característica da eleição paulista em 2022 foi o eleitor votar em bloco para governador e presidente. Bolsonaro ficou à frente de Lula por 55,2% a 44,8% e Tarcísio de Freitas venceu Haddad por 55,3% a 44,7%. O alinhamento repetiu-se na capital, onde ganharam Lula e Haddad, e, claro, no interior, onde prevaleceram Bolsonaro e Tarcísio, o que levou ao resultado final de vitória da direita no estado nas duas corridas.

No momento, Tarcísio lidera as projeções de segundo turno com cerca de 60% a 40% sobre Haddad, mas Flávio Bolsonaro só tem cinco pontos percentuais de vantagem sobre Lula em São Paulo. Um complicador para Haddad e Lula é o candidato de ambos a prefeito da capital, Guilherme Boulos, ter sido derrotado pelos mesmos 60% a 40% dois anos atrás pelo incumbente Ricardo Nunes, que tinha o apoio de Tarcísio e Bolsonaro. Isso apesar de, como vimos, a esquerda ter vencido na cidade dois anos antes.

Faz sentido Lula ter lançado Haddad para governador, mesmo com pouca perspectiva de vitória (ainda que, como diz o ditado mineiro, eleição e mineração só depois da apuração), pois perder de pouco em São Paulo é essencial para o petista na corrida contra Flávio Bolsonaro. E um risco real para o presidente é o eleitor de Tarcísio em algum momento concluir que a troca de guarda em Brasília seria boa para São Paulo.

Apesar da evidente, no momento, resistência de parte desse eleitorado a um bolsonarismo mais raiz. Resistência que até agora não cola no governador, cuja campanha está ancorada em entregas, resultados. Uma estratégia que dá sinal de alavancar não apenas Tarcísio, mas também outros incumbentes que pareciam vulneráveis a desafiantes.

sábado, 15 de agosto de 2026

A raiz da polarização

A campanha oficial começa como terminou a anterior: lulismo e bolsonarismo empatados (na margem de erro). Nem Luiz Inácio Lula da Silva e o PT aproveitaram o mandato para ampliar o apoio, nem os Bolsonaros sofreram corrosão relevante pelo conjunto de atribulações, ancoradas nas consequências do 8 de Janeiro e na condução pouco inteligente da transição de 2022. De mudança mesmo, só a evolução aparentemente imparável do declinio institucional.

Os números são conclusivos. A soma do bolsonarismo “duro” com o menos convicto alcança uns 35% do eleitorado. O mesmo cálculo para o lulismo chega a uns 30%. A rejeição incondicional a ambos oscila em torno de 10%, bom termômetro das dificuldades enfrentadas pelos desafiantes da dupla. Os fatos costumam ser teimosos: por enquanto, essa polarização só é repudiada mesmo em círculos minoritários e bem delimitados.

E por que a polarização resiste? A divisão das sociedades em campos políticos é habitual, e as raízes devem ser buscadas nas escolhas disponíveis de líderes políticos capazes de enfrentar os desafios enxergados pelo público. E a separação de campos no Brasil não tem muito segredo.

De um lado, as pessoas convencidas de que é papel fundamental do Estado aumentar impostos sobre os ricos (conceito elástico) para prover o conjunto da sociedade de oportunidades e serviços capazes de garantir o bem-estar social. Do outro lado, quem vê o Estado brasileiro como uma máquina cínica, corrompida e corruptora, vocacionada unicamente para garantir privilégios a uma elite insensível às agruras do cidadão comum.

Não é preciso muita sofisticação para concluir que a primeira turma se inclina para Lula e a segunda para os Bolsonaros, agora Flávio. Sintetizando, o Brasil se divide entre quem acha que “o governo tem de resolver o meu problema” e quem prefere que, “se o governo não me ajuda, podia pelo menos não me atrapalhar”. Está aí a raiz de uma polarização que resiste às seguidas lamúrias com a frustração das propostas alternativas para “unir o Brasil”.

De uns anos para cá, o segundo campo vem ganhando terreno, por razões objetivas. Os fatos, sempre eles, e a vida material são o combustível. Daí as dificuldades de correntes políticas cada vez menos capazes de conseguir consensos, e por isso crescentemente instadas a recorrer à coerção estatal. Só que coerção estatal não é garantia de voto.

sábado, 8 de agosto de 2026

O enigma em São Paulo

A temporada de convenções para a presidencial fechou como antevisto. O governo tem uma coalizão dura de partidos mais, digamos, próximos filosoficamente ao situacionismo. E tem uma mais mole e informal de partidos de direita, que quando vão aninhar-se a qualquer poder desengavetam o rótulo de centro independente. Do outro lado, os argumentos orçamentários e policiais-judiciais acabaram sendo intransponíveis. A oposição vai formalmente isolada.

A palavra mais importante do parágrafo anterior é esse “formalmente”, pois é muito improvável que a esmagadora maioria dos eleitores dê qualquer importância a alianças cartoriais. É no voto para presidente que o eleitor se manifesta com maior independência, quase total. Se é razoável que um candidato a deputado, senador ou mesmo governador se eleja por ter o apoio de um postulante à presidência, a recíproca simplesmente não costuma ser verdadeira.

E o que está em disputa? Hoje o presidente da República já governa num semipresidencialismo de coalizão com o Judiciário, desde que o Congresso Nacional aceitou, talvez pelas circunstâncias, reinventar-se em agência de intermediação de emendas parlamentares.

O que traz, além das óbvias vantagens, uma grande vulnerabilidade: dispondo de dezenas de milhões para distribuir, e supondo que a política municipal não seja exatamente um passeio pela ética, essa bolada acaba representando uma arma apontada contra a testa de suas excelências. Ou uma algema de ouro. As emendas existem para, na teoria, aumentar a independência parlamentar, mas a infernal dialética nunca falha: esbaldaram-se e deu o contrário.

E a eleição? O governo joga em casa, a arbitragem é caseira e o estádio tem, como nos clássicos paulistas, torcida única. O governo tem o governo, tem o alinhamento com o Judiciário e conta com uma imprensa sem qualquer simpatia pela oposição. Mas neste momento a disputa se apresenta bastante equilibrada. Bem mais que quatro anos atrás. E, por falar em clássicos paulistas, há a dúvida sobre São Paulo.

Em 2022 as vantagens de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas sobre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad no estado foram quase idênticas. O eleitor votou em bloco. Hoje a diferença paulista de Tarcísio para Haddad é bem maior que a de Flávio Bolsonaro sobre Lula. Esses números persistirão? Tarcísio puxará Flávio para cima? Lula puxará Haddad para cima? Flávio puxará Tarcísio para baixo? Haddad puxará Lula para baixo?

sábado, 25 de julho de 2026

As agruras do terceirismo

Esta eleição presidencial é a primeira em que as propostas de terceira via (na falta de um nome melhor) se alinham à direita. Mas seu sofrimento não vem sendo diferente do vivido pelas versões à esquerda nas eleições anteriores. Todas mostram grande dificuldade para transmitir expectativa de poder. Com pouca militância e organização social frágil, penam para atravessar o deserto e não chegam a reunir massa crítica. E aí não conseguem projetar expectativa de poder.

É um ciclo infernal.

Talvez as dificuldades do terceirismo devam ser buscadas, em primeiro lugar, no conceito em si. Começando pela constatação de que não existe um centro, mas dois. Há os ditos progressistas infelizes com a hegemonia do PT e há os liberais e conservadores incomodados com o domínio bolsonarista sobre o eleitorado do centro para a direita. Não espanta, portanto, a dificuldade que se repete periodicamente quando tentam fazer o casamento do jacaré com a cobra-d’água.

Outro entrave é o centrismo sentir-se obrigado a ser oposição estridente aos dois polos. Condena-se de antemão a restringir seu mercado aos nem-nem. Se o sujeito vai abrir uma pizzaria numa rua em que outras duas já disputam e dividem a clientela, sair falando mal da concorrência não parece ser o mais inteligente. Melhor tentar espalhar o que você oferece de vantagem para o consumidor, por que ele deve experimentar a novidade.

Sem chamar o sujeito de burro por frequentar a pizzaria ao lado.

Pior ainda quando se cai no equívoco de centrar fogo, na primeira oportunidade, em quem está ideológica e politicamente mais próximo, para tentar roubar-lhe o eleitor. No caso da direita, isso tem sido flagrante. O eleitor de direita que até poderia pensar em buscar alternativas ao bolsonarismo olha e conclui que a concorrência está mais interessada em derrotar Flávio do que em impedir que Lula ganhe mais quatro anos no Planalto.

E, como boa parte dos eleitores polarizados pelo petismo e pelo bolsonarismo só estão mesmo interessados em derrotar o outro lado — a velha história de que o eleitor de segundo turno mais quer derrubar alguém do que eleger alguém —, a consequência é aumentar a própria rejeição. Isso talvez explique em parte por que candidatos antes desconhecidos são mais rejeitado quanto mais vão sendo conhecidos.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A hora das convenções

A tática do presidente da República no confronto com seu homólogo americano parece clara: esticar a corda até um ponto ótimo para auferir os dividendos eleitorais em outubro, mas sem rompê-la.

Depois da reeleição (Lula não trabalha com outra hipótese), torcer para que Donald Trump seja derrotado na eleição de deputados e senadores em novembro e se converta num lame duck (pato manco, aquele que tem mandato, mas não tem mais força política).

Depois, rezar pela vitória do candidato democrata em 2028 e, daí, garantir um ambiente amigável para fazer o sucessor em 2030. Basta recordar o papel do governo Biden na transição brasileira de 2022.

Será necessária alguma cautela para medir efetivamente o efeito dos atritos entre Brasil e Estados Unidos na eleição daqui. Até agora, os números eleitorais exibem razoável estabilidade, apesar dos fatos, ou factoides.

No agregado das pesquisas (o www.pollingdata.com.br faz um bom trabalho nesse aspecto), a distância entre os dois principais candidatos no cenário de segundo turno está apertada e tem insistido em oscilar nas margens de erro.

Neste período antes das convenções, o situacionismo vem sendo competente para produzir turbulências que, até agora, impedem, ou dificultam, a agregação da direita em torno de Flávio Bolsonaro.

Um risco para o petismo é o candidato do PL abrir a campanha oficial com uma coligação ampla e grande vantagem no horário eleitoral e nos recursos oficiais. No momento, esse risco parece minimizado.

Lula chega à véspera das convenções num quadro mais favorável do que se projetava no início do ano. Além da torrente de medidas populares, desfruta um inédito alinhamento institucional. Não há ator relevante na constelação do poder interessado numa mudança.

O problema? Mesmo com todas as condições objetivas favoráveis, as projeções atuais de segundo turno são-lhe bem menos róseas do que as de quatro anos atrás contra o Bolsonaro pai.

E a candidatura do PL vem demonstrando uma interessante resiliência.

terça-feira, 30 de junho de 2026

O enigma a resolver

À medida que a Copa do Mundo vai atingindo seu auge, e o fim do torneio aponta no horizonte, a campanha eleitoral ganha impulso. Vamos entrando no período de certa restrição à propaganda governamental e algum reequilíbrio na habitual desigualdade de armas esculpida em lei pela bizarra regra trazida por Fernando Henrique Cardoso em benefício próprio: quem concorre àreeleição no Executivo não precisa se desincompatibilizar, mas quem o desafia precisa deixar qualquer cargo e atravessar a campanha na chuva.

Teremos na disputa de 2026 a oportunidade de talvez solucionar um enigma irresolvido de 2022. A esta altura naquele ano, as projeções de segundo turno traziam na média, segundo o ótimo site pollingdata.com.br, Luiz Inácio Lula da Silva treze pontos percentuais àfrente de Jair Messias Bolsonaro. Como se sabe, a diferença final foi de menos de dois pontos. Hoje, a média aponta Lula apenas três pontos acima de Flávio Bolsonaro. O enigma: quatro anos atrás Bolsonaro conseguiu reduzir a distância por mobilizar a direita ou por ser governo?

Se a razão principal foi a primeira, Flávio tem boas perspectivas. Se for a segunda, a tendência é Lula abrir conforme a campanha avançar. Os fatos, sempre teimosos, dirão. E será necessário sempre, por cautela, descontar da contabilidade a tradicional assimetria entre intenção de voto, medida sobre o total do eleitorado, e resultado da urna, assimetria causada pela parcela em torno de 10% do eleitorado dispostos a escolher candidatos em pesquisas, mas que não aparecem no dia para votar. Acontece mais nas camadas de menor renda e escolaridade.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Solavanco nos números aqui e vento à direita no continente

O efeito "Dark Horse” parece ter sido absorvido e digerido pelo ambiente pré-eleitoral, deixando em aberto a intensidade do vetor antissistema/anticorrupção quando a campanha oficial der a largada com as entrevistas, debates e programas de rádio e tevê. A aposta predominante até agora é relativizar esse veio da disputa, dada a dificuldade de as alternativas aos blocos hegemônicos ganharem impulso. E dada a ubiquidade das encrencas e encrencados.

Os números fazem crer que houve um solavanco, com o incumbente ganhando uns pontos, principalmente por causa das fortes iniciativas econômicas expansionistas e da divulgação maciça que as acompanha. Mas o solavanco não parece produzir uma vantagem mais confortável ao líder, talvez por o governo tentar apenas anestesiar no varejo um problema que pede solução no atacado: libertar as forças produtivas para permitir a aceleração do crescimento.

A eleição está perto demais para o governo operar essa necessária correção de rota. Em certas circunstâncias, tentar desviar do iceberg muito perto dele é mais perigoso que pagar o preço pela inevitável colisão. O exemplo clássico é o Titanic. Mas há consequências por manter a rota. O governo entra na eleição sem uma visão clara de futuro, e eleições são disputas sobre o futuro. E sempre há o risco do desgaste político pós-eleitoral, como a História ensina.

Um detalhe que precisa ser observado com atenção é os ventos soprarem para a direita na América do Sul, como se viu agora no Peru e na Colômbia. Duas situações em que todo o esforço da esquerda para transformar a eleição num plebiscito contra o que chamou de "extrema direita” não foi suficiente para alcançar a vitória na urna. Não é a primeira vez em que o eleitor relativiza a disputa ideológica em favor da solução dos problemas do dia a dia.