A eleição de outubro deverá dar o veredito sobre a opção feita pelo presidente da República após o 8 de janeiro de 2023. O custo das escolhas políticas nunca é zero, e as consequências podem demorar bastante. A única certeza é que um dia elas chegam.
Sem recorrer à conciliação de JK, cuja posse foi assegurada pelo então general Lott depois da contestação da UDN, em 1955, e que anistiou os revoltosos de Jacareacanga no ano seguinte, e sem poder repetir o caminho de Vargas, que após o levante de 1935 endureceu o regime e dois anos depois instaurou o Estado Novo, Lula apostou no presidencialismo de coalizão com um Judiciário fortalecido, que se enxergou como depositário de um poder quase absoluto.
Restava compor com as cúpulas do Congresso conservador, sempre arisco, uma costura somente concluída agora, na véspera da eleição. Esse desenho, somado à antipatia generalizada que a imprensa profissional dedica aos principais adversários do petista, produzia um arcabouço bastante razoável para a tentativa de reeleição. Lula mantinha coesa sua base fiel de sustentação social e preservava no essencial a frente ampla superestrutural que lhe deu a vitória apertada em 2022.
O que poderia dar errado? Aqui é inevitável lembrar a célebre frase “a vida sempre encontra um meio” (ou “um caminho”), dita pelo matemático Ian Malcolm, interpretado por Jeff Goldblum, no filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Steven Spielberg, 1993). Na obra, os dinossauros eram criados apenas como fêmeas, para evitar que se reproduzissem por conta própria. Mas a vida encontrou um jeito de implodir a limitação, com todas as trágicas decorrências.
Se quisermos ir mais longe, basta recordar, da mitologia grega, as histórias de Sísifo e Prometeu. Desafiar os deuses é sempre arriscado. E os problemas dos políticos (lato sensu) agravam-se quando eles mesmos passam a se considerar deuses e arriscam atrair a ira do Zeus da política, o eleitor, que alguma hora é chamado a dar seu juízo, mesmo quando o resto do Olimpo se julga imunizado.
Estamos nesse ponto. Ao longo de quase quatro anos, as duras consequências enfrentadas pelos acusados e depois condenados do 8/1, somadas ao opróbrio político e social lançado sobre a direita em geral pelos mecanismos reprodutores da opinião pública, contiveram os desdobramentos costumeiros de tensões produzidas em cenários assim, nas instituições e, principalmente, nas ruas.
Mas parece que o dique se rompeu. E, dado o equilíbrio na correlação de forças produzido pelas revelações recentes, parece que quem terá de cortar esse nó górdio, para um lado ou para o outro, será ele mesmo: o eleitor.
Análise Política
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Renovação cada vez menor
As taxas de renovação, baixas e cada vez mais baixas, no Congresso Nacional, especialmente na Câmara dos Deputados, são uma característica do sistema eleitoral brasileiro. Mesmo no auge das ondas antipolíticas, esses números nunca oscilaram muito. E mesmo os critérios de “renovação” precisam ser olhados com cuidado. Nesse vagão cabem ex-parlamentares federais, ex-prefeitos, ex-deputados estaduais, ex-vereadores…
Há quatro categorias básicas de parlamentares, de acordo com o apoio do eleitorado: os do “voto de opinião”, cada vez mais escassos; os “trens pagadores”, de vida difícil depois do fim do financiamento empresarial de campanhas; os queridinhos da cúpula partidária, mais beneficiados pelo fundo eleitoral; e os “distritalizados”, que alavancam votações expressivas em bases municipais irrigadas com a verba das emendas ao Orçamento.
O último grupo cresce e tem grande vantagem sobre os demais. Há duas décadas, cada parlamentar contava com um mínimo de R$ 1 milhão anual em emendas, não impositivas, e a luta para acrescentar recursos a esse mínimo era permanente. Duas décadas depois, com o orçamento impositivo e a fragilização do poder presidencial, o montante cresceu cerca de quarenta vezes. Um parlamentar pode passar os quatro anos atacando o governo e, mesmo assim, terá essa verba repassada a seus aliados municipais.
Claro que se trata de uma simplificação — o jogo da política é complexo —, mas a distritalização acelerada do voto para a Câmara dos Deputados, baseada principalmente no poder dos parlamentares de distribuir recursos, é o principal fator que dificulta a renovação política. Uma brecha na represa são os entrantes que convencem a cúpula partidária de que podem servir de puxadores de votos no nosso sistema proporcional aberto, mas mesmo isso não é simples.
Pois a manutenção e a reprodução do poder das cúpulas dos partidos dependem, em boa medida, do apoio das estruturas políticas pré-existentes, especialmente das bancadas federais, que acabam vinculando as bases partidárias municipais pela força das emendas.
A distritalização também acaba sendo reforçada por situações não previstas. Em São Paulo, diversas circunstâncias acabaram por retirar da disputa os campeões de votos da direita nas duas últimas eleições para deputado federal, sem que o espaço fosse preenchido por novas estrelas capazes de eleger a si mesmas e mais uma fileira de indiretamente beneficiados. Para onde se deslocará esse “voto órfão” é uma incógnita.
Há quatro categorias básicas de parlamentares, de acordo com o apoio do eleitorado: os do “voto de opinião”, cada vez mais escassos; os “trens pagadores”, de vida difícil depois do fim do financiamento empresarial de campanhas; os queridinhos da cúpula partidária, mais beneficiados pelo fundo eleitoral; e os “distritalizados”, que alavancam votações expressivas em bases municipais irrigadas com a verba das emendas ao Orçamento.
O último grupo cresce e tem grande vantagem sobre os demais. Há duas décadas, cada parlamentar contava com um mínimo de R$ 1 milhão anual em emendas, não impositivas, e a luta para acrescentar recursos a esse mínimo era permanente. Duas décadas depois, com o orçamento impositivo e a fragilização do poder presidencial, o montante cresceu cerca de quarenta vezes. Um parlamentar pode passar os quatro anos atacando o governo e, mesmo assim, terá essa verba repassada a seus aliados municipais.
Claro que se trata de uma simplificação — o jogo da política é complexo —, mas a distritalização acelerada do voto para a Câmara dos Deputados, baseada principalmente no poder dos parlamentares de distribuir recursos, é o principal fator que dificulta a renovação política. Uma brecha na represa são os entrantes que convencem a cúpula partidária de que podem servir de puxadores de votos no nosso sistema proporcional aberto, mas mesmo isso não é simples.
Pois a manutenção e a reprodução do poder das cúpulas dos partidos dependem, em boa medida, do apoio das estruturas políticas pré-existentes, especialmente das bancadas federais, que acabam vinculando as bases partidárias municipais pela força das emendas.
A distritalização também acaba sendo reforçada por situações não previstas. Em São Paulo, diversas circunstâncias acabaram por retirar da disputa os campeões de votos da direita nas duas últimas eleições para deputado federal, sem que o espaço fosse preenchido por novas estrelas capazes de eleger a si mesmas e mais uma fileira de indiretamente beneficiados. Para onde se deslocará esse “voto órfão” é uma incógnita.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Cury entra no jogo
O crescimento de Augusto Cury na Nexus/BTG desta segunda deu-se num espaço potencial apontado nesta análise há pouco mais de um mês: um certo mercado para candidatos que, em vez de atacar os dois polos, se apresentassem como elemento agregador. Está em As agruras do terceirismo. Há também o eleitor que vota em Flávio Bolsonaro porque não quer Luiz Inácio Lula da Silva, e o que escolhe Lula porque não quer Flávio.
As eleições presidenciais sempre reservam espaço para a tal terceira via, e desta vez Cury atropela na largada dos debates, das entrevistas e do programa eleitoral. Mas será necessário observar se ele consegue consolidar a cabeça de praia e, mais importante, "amaciar" o eleitor hoje cristalizado nos dois campos hegemônicos. Das vezes anteriores não aconteceu. E não cabe comparar com eleições (1989 e 2018) em que as estruturas tinham se liquefeito.
O que pode dar gás a Cury? Eventuais pesquisas que o apontem como mais competitivo num segundo turno contra Lula, na comparação com Flávio, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Expectativa de vitória. Expectativa de poder. Vamos aguardar os números.
Uma consequência imediata é a redução dramática da possibilidade de a corrida terminar no primeiro turno. A Nexus/BTG aponta 53% para os demais candidatos, contra 39% de Lula. E outro dado relevante são os cinco pontos de vantagem da desaprovação do governo sobre a aprovação. Isso precisará ser observado com carinho, pois é habitual governos melhorarem a aprovação em períodos eleitorais, quando podem divulgar com mais amplitude suas realizações.
Cury captura a maior parte da sua subida entre os inclinados a Flávio e eleitores que desaprovam o governo. O que é consistente com a manutenção do empate técnico entre Flávio e Lula nas projeções de segundo turno, pois esse eleitor faz o caminho de volta quando é colocado diante das opções de continuidade e mudança.
E algo que permanecerá inalterado até o final, especialmente se houver mesmo segundo turno, é que, ao fim e ao cabo, o eleitor decidirá entre dar ou não mais quatro anos a Lula e ao PT.
As eleições presidenciais sempre reservam espaço para a tal terceira via, e desta vez Cury atropela na largada dos debates, das entrevistas e do programa eleitoral. Mas será necessário observar se ele consegue consolidar a cabeça de praia e, mais importante, "amaciar" o eleitor hoje cristalizado nos dois campos hegemônicos. Das vezes anteriores não aconteceu. E não cabe comparar com eleições (1989 e 2018) em que as estruturas tinham se liquefeito.
O que pode dar gás a Cury? Eventuais pesquisas que o apontem como mais competitivo num segundo turno contra Lula, na comparação com Flávio, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Expectativa de vitória. Expectativa de poder. Vamos aguardar os números.
Uma consequência imediata é a redução dramática da possibilidade de a corrida terminar no primeiro turno. A Nexus/BTG aponta 53% para os demais candidatos, contra 39% de Lula. E outro dado relevante são os cinco pontos de vantagem da desaprovação do governo sobre a aprovação. Isso precisará ser observado com carinho, pois é habitual governos melhorarem a aprovação em períodos eleitorais, quando podem divulgar com mais amplitude suas realizações.
Cury captura a maior parte da sua subida entre os inclinados a Flávio e eleitores que desaprovam o governo. O que é consistente com a manutenção do empate técnico entre Flávio e Lula nas projeções de segundo turno, pois esse eleitor faz o caminho de volta quando é colocado diante das opções de continuidade e mudança.
E algo que permanecerá inalterado até o final, especialmente se houver mesmo segundo turno, é que, ao fim e ao cabo, o eleitor decidirá entre dar ou não mais quatro anos a Lula e ao PT.
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
A tentação da troca de guarda
A eleição presidencial de 2022 foi decidida em São Paulo. Quem diz é a aritmética. Quatro anos antes, a diferença no estado entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad tinha sido de 8,1 milhões de votos. Em 2022, Bolsonaro liderou sobre Lula entre os paulistas, mas a diferença caiu para 2,7 milhões. Sabendo que Lula ganhou de Bolsonaro nacionalmente por apertado 1,9 milhão, basta fazer as contas.
A mesma análise sobre os demais estados mostra que, em números absolutos, a oscilação de ambos os campos entre as duas eleições teve peso apenas relativo no resultado nacional. O que decidiu foi a forte recuperação do petismo em São Paulo. O andamento desta eleição está bem parecido com o desfecho da anterior, então é razoável colocar o foco em São Paulo para as previsões terem maior probabilidade de acerto.
Uma característica da eleição paulista em 2022 foi o eleitor votar em bloco para governador e presidente. Bolsonaro ficou à frente de Lula por 55,2% a 44,8% e Tarcísio de Freitas venceu Haddad por 55,3% a 44,7%. O alinhamento repetiu-se na capital, onde ganharam Lula e Haddad, e, claro, no interior, onde prevaleceram Bolsonaro e Tarcísio, o que levou ao resultado final de vitória da direita no estado nas duas corridas.
No momento, Tarcísio lidera as projeções de segundo turno com cerca de 60% a 40% sobre Haddad, mas Flávio Bolsonaro só tem cinco pontos percentuais de vantagem sobre Lula em São Paulo. Um complicador para Haddad e Lula é o candidato de ambos a prefeito da capital, Guilherme Boulos, ter sido derrotado pelos mesmos 60% a 40% dois anos atrás pelo incumbente Ricardo Nunes, que tinha o apoio de Tarcísio e Bolsonaro. Isso apesar de, como vimos, a esquerda ter vencido na cidade dois anos antes.
Faz sentido Lula ter lançado Haddad para governador, mesmo com pouca perspectiva de vitória (ainda que, como diz o ditado mineiro, eleição e mineração só depois da apuração), pois perder de pouco em São Paulo é essencial para o petista na corrida contra Flávio Bolsonaro. E um risco real para o presidente é o eleitor de Tarcísio em algum momento concluir que a troca de guarda em Brasília seria boa para São Paulo.
Apesar da evidente, no momento, resistência de parte desse eleitorado a um bolsonarismo mais raiz. Resistência que até agora não cola no governador, cuja campanha está ancorada em entregas, resultados. Uma estratégia que dá sinal de alavancar não apenas Tarcísio, mas também outros incumbentes que pareciam vulneráveis a desafiantes.
A mesma análise sobre os demais estados mostra que, em números absolutos, a oscilação de ambos os campos entre as duas eleições teve peso apenas relativo no resultado nacional. O que decidiu foi a forte recuperação do petismo em São Paulo. O andamento desta eleição está bem parecido com o desfecho da anterior, então é razoável colocar o foco em São Paulo para as previsões terem maior probabilidade de acerto.
Uma característica da eleição paulista em 2022 foi o eleitor votar em bloco para governador e presidente. Bolsonaro ficou à frente de Lula por 55,2% a 44,8% e Tarcísio de Freitas venceu Haddad por 55,3% a 44,7%. O alinhamento repetiu-se na capital, onde ganharam Lula e Haddad, e, claro, no interior, onde prevaleceram Bolsonaro e Tarcísio, o que levou ao resultado final de vitória da direita no estado nas duas corridas.
No momento, Tarcísio lidera as projeções de segundo turno com cerca de 60% a 40% sobre Haddad, mas Flávio Bolsonaro só tem cinco pontos percentuais de vantagem sobre Lula em São Paulo. Um complicador para Haddad e Lula é o candidato de ambos a prefeito da capital, Guilherme Boulos, ter sido derrotado pelos mesmos 60% a 40% dois anos atrás pelo incumbente Ricardo Nunes, que tinha o apoio de Tarcísio e Bolsonaro. Isso apesar de, como vimos, a esquerda ter vencido na cidade dois anos antes.
Faz sentido Lula ter lançado Haddad para governador, mesmo com pouca perspectiva de vitória (ainda que, como diz o ditado mineiro, eleição e mineração só depois da apuração), pois perder de pouco em São Paulo é essencial para o petista na corrida contra Flávio Bolsonaro. E um risco real para o presidente é o eleitor de Tarcísio em algum momento concluir que a troca de guarda em Brasília seria boa para São Paulo.
Apesar da evidente, no momento, resistência de parte desse eleitorado a um bolsonarismo mais raiz. Resistência que até agora não cola no governador, cuja campanha está ancorada em entregas, resultados. Uma estratégia que dá sinal de alavancar não apenas Tarcísio, mas também outros incumbentes que pareciam vulneráveis a desafiantes.
sábado, 15 de agosto de 2026
A raiz da polarização
A campanha oficial começa como terminou a anterior: lulismo e bolsonarismo empatados (na margem de erro). Nem Luiz Inácio Lula da Silva e o PT aproveitaram o mandato para ampliar o apoio, nem os Bolsonaros sofreram corrosão relevante pelo conjunto de atribulações, ancoradas nas consequências do 8 de Janeiro e na condução pouco inteligente da transição de 2022. De mudança mesmo, só a evolução aparentemente imparável do declinio institucional.
Os números são conclusivos. A soma do bolsonarismo “duro” com o menos convicto alcança uns 35% do eleitorado. O mesmo cálculo para o lulismo chega a uns 30%. A rejeição incondicional a ambos oscila em torno de 10%, bom termômetro das dificuldades enfrentadas pelos desafiantes da dupla. Os fatos costumam ser teimosos: por enquanto, essa polarização só é repudiada mesmo em círculos minoritários e bem delimitados.
E por que a polarização resiste? A divisão das sociedades em campos políticos é habitual, e as raízes devem ser buscadas nas escolhas disponíveis de líderes políticos capazes de enfrentar os desafios enxergados pelo público. E a separação de campos no Brasil não tem muito segredo.
De um lado, as pessoas convencidas de que é papel fundamental do Estado aumentar impostos sobre os ricos (conceito elástico) para prover o conjunto da sociedade de oportunidades e serviços capazes de garantir o bem-estar social. Do outro lado, quem vê o Estado brasileiro como uma máquina cínica, corrompida e corruptora, vocacionada unicamente para garantir privilégios a uma elite insensível às agruras do cidadão comum.
Não é preciso muita sofisticação para concluir que a primeira turma se inclina para Lula e a segunda para os Bolsonaros, agora Flávio. Sintetizando, o Brasil se divide entre quem acha que “o governo tem de resolver o meu problema” e quem prefere que, “se o governo não me ajuda, podia pelo menos não me atrapalhar”. Está aí a raiz de uma polarização que resiste às seguidas lamúrias com a frustração das propostas alternativas para “unir o Brasil”.
De uns anos para cá, o segundo campo vem ganhando terreno, por razões objetivas. Os fatos, sempre eles, e a vida material são o combustível. Daí as dificuldades de correntes políticas cada vez menos capazes de conseguir consensos, e por isso crescentemente instadas a recorrer à coerção estatal. Só que coerção estatal não é garantia de voto.
Os números são conclusivos. A soma do bolsonarismo “duro” com o menos convicto alcança uns 35% do eleitorado. O mesmo cálculo para o lulismo chega a uns 30%. A rejeição incondicional a ambos oscila em torno de 10%, bom termômetro das dificuldades enfrentadas pelos desafiantes da dupla. Os fatos costumam ser teimosos: por enquanto, essa polarização só é repudiada mesmo em círculos minoritários e bem delimitados.
E por que a polarização resiste? A divisão das sociedades em campos políticos é habitual, e as raízes devem ser buscadas nas escolhas disponíveis de líderes políticos capazes de enfrentar os desafios enxergados pelo público. E a separação de campos no Brasil não tem muito segredo.
De um lado, as pessoas convencidas de que é papel fundamental do Estado aumentar impostos sobre os ricos (conceito elástico) para prover o conjunto da sociedade de oportunidades e serviços capazes de garantir o bem-estar social. Do outro lado, quem vê o Estado brasileiro como uma máquina cínica, corrompida e corruptora, vocacionada unicamente para garantir privilégios a uma elite insensível às agruras do cidadão comum.
Não é preciso muita sofisticação para concluir que a primeira turma se inclina para Lula e a segunda para os Bolsonaros, agora Flávio. Sintetizando, o Brasil se divide entre quem acha que “o governo tem de resolver o meu problema” e quem prefere que, “se o governo não me ajuda, podia pelo menos não me atrapalhar”. Está aí a raiz de uma polarização que resiste às seguidas lamúrias com a frustração das propostas alternativas para “unir o Brasil”.
De uns anos para cá, o segundo campo vem ganhando terreno, por razões objetivas. Os fatos, sempre eles, e a vida material são o combustível. Daí as dificuldades de correntes políticas cada vez menos capazes de conseguir consensos, e por isso crescentemente instadas a recorrer à coerção estatal. Só que coerção estatal não é garantia de voto.
sábado, 8 de agosto de 2026
O enigma em São Paulo
A temporada de convenções para a presidencial fechou como antevisto. O governo tem uma coalizão dura de partidos mais, digamos, próximos filosoficamente ao situacionismo. E tem uma mais mole e informal de partidos de direita, que quando vão aninhar-se a qualquer poder desengavetam o rótulo de centro independente. Do outro lado, os argumentos orçamentários e policiais-judiciais acabaram sendo intransponíveis. A oposição vai formalmente isolada.
A palavra mais importante do parágrafo anterior é esse “formalmente”, pois é muito improvável que a esmagadora maioria dos eleitores dê qualquer importância a alianças cartoriais. É no voto para presidente que o eleitor se manifesta com maior independência, quase total. Se é razoável que um candidato a deputado, senador ou mesmo governador se eleja por ter o apoio de um postulante à presidência, a recíproca simplesmente não costuma ser verdadeira.
E o que está em disputa? Hoje o presidente da República já governa num semipresidencialismo de coalizão com o Judiciário, desde que o Congresso Nacional aceitou, talvez pelas circunstâncias, reinventar-se em agência de intermediação de emendas parlamentares.
O que traz, além das óbvias vantagens, uma grande vulnerabilidade: dispondo de dezenas de milhões para distribuir, e supondo que a política municipal não seja exatamente um passeio pela ética, essa bolada acaba representando uma arma apontada contra a testa de suas excelências. Ou uma algema de ouro. As emendas existem para, na teoria, aumentar a independência parlamentar, mas a infernal dialética nunca falha: esbaldaram-se e deu o contrário.
E a eleição? O governo joga em casa, a arbitragem é caseira e o estádio tem, como nos clássicos paulistas, torcida única. O governo tem o governo, tem o alinhamento com o Judiciário e conta com uma imprensa sem qualquer simpatia pela oposição. Mas neste momento a disputa se apresenta bastante equilibrada. Bem mais que quatro anos atrás. E, por falar em clássicos paulistas, há a dúvida sobre São Paulo.
Em 2022 as vantagens de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas sobre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad no estado foram quase idênticas. O eleitor votou em bloco. Hoje a diferença paulista de Tarcísio para Haddad é bem maior que a de Flávio Bolsonaro sobre Lula. Esses números persistirão? Tarcísio puxará Flávio para cima? Lula puxará Haddad para cima? Flávio puxará Tarcísio para baixo? Haddad puxará Lula para baixo?
A palavra mais importante do parágrafo anterior é esse “formalmente”, pois é muito improvável que a esmagadora maioria dos eleitores dê qualquer importância a alianças cartoriais. É no voto para presidente que o eleitor se manifesta com maior independência, quase total. Se é razoável que um candidato a deputado, senador ou mesmo governador se eleja por ter o apoio de um postulante à presidência, a recíproca simplesmente não costuma ser verdadeira.
E o que está em disputa? Hoje o presidente da República já governa num semipresidencialismo de coalizão com o Judiciário, desde que o Congresso Nacional aceitou, talvez pelas circunstâncias, reinventar-se em agência de intermediação de emendas parlamentares.
O que traz, além das óbvias vantagens, uma grande vulnerabilidade: dispondo de dezenas de milhões para distribuir, e supondo que a política municipal não seja exatamente um passeio pela ética, essa bolada acaba representando uma arma apontada contra a testa de suas excelências. Ou uma algema de ouro. As emendas existem para, na teoria, aumentar a independência parlamentar, mas a infernal dialética nunca falha: esbaldaram-se e deu o contrário.
E a eleição? O governo joga em casa, a arbitragem é caseira e o estádio tem, como nos clássicos paulistas, torcida única. O governo tem o governo, tem o alinhamento com o Judiciário e conta com uma imprensa sem qualquer simpatia pela oposição. Mas neste momento a disputa se apresenta bastante equilibrada. Bem mais que quatro anos atrás. E, por falar em clássicos paulistas, há a dúvida sobre São Paulo.
Em 2022 as vantagens de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas sobre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad no estado foram quase idênticas. O eleitor votou em bloco. Hoje a diferença paulista de Tarcísio para Haddad é bem maior que a de Flávio Bolsonaro sobre Lula. Esses números persistirão? Tarcísio puxará Flávio para cima? Lula puxará Haddad para cima? Flávio puxará Tarcísio para baixo? Haddad puxará Lula para baixo?
sábado, 25 de julho de 2026
As agruras do terceirismo
Esta eleição presidencial é a primeira em que as propostas de terceira via (na falta de um nome melhor) se alinham à direita. Mas seu sofrimento não vem sendo diferente do vivido pelas versões à esquerda nas eleições anteriores. Todas mostram grande dificuldade para transmitir expectativa de poder. Com pouca militância e organização social frágil, penam para atravessar o deserto e não chegam a reunir massa crítica. E aí não conseguem projetar expectativa de poder.
É um ciclo infernal.
Talvez as dificuldades do terceirismo devam ser buscadas, em primeiro lugar, no conceito em si. Começando pela constatação de que não existe um centro, mas dois. Há os ditos progressistas infelizes com a hegemonia do PT e há os liberais e conservadores incomodados com o domínio bolsonarista sobre o eleitorado do centro para a direita. Não espanta, portanto, a dificuldade que se repete periodicamente quando tentam fazer o casamento do jacaré com a cobra-d’água.
Outro entrave é o centrismo sentir-se obrigado a ser oposição estridente aos dois polos. Condena-se de antemão a restringir seu mercado aos nem-nem. Se o sujeito vai abrir uma pizzaria numa rua em que outras duas já disputam e dividem a clientela, sair falando mal da concorrência não parece ser o mais inteligente. Melhor tentar espalhar o que você oferece de vantagem para o consumidor, por que ele deve experimentar a novidade.
Sem chamar o sujeito de burro por frequentar a pizzaria ao lado.
Pior ainda quando se cai no equívoco de centrar fogo, na primeira oportunidade, em quem está ideológica e politicamente mais próximo, para tentar roubar-lhe o eleitor. No caso da direita, isso tem sido flagrante. O eleitor de direita que até poderia pensar em buscar alternativas ao bolsonarismo olha e conclui que a concorrência está mais interessada em derrotar Flávio do que em impedir que Lula ganhe mais quatro anos no Planalto.
E, como boa parte dos eleitores polarizados pelo petismo e pelo bolsonarismo só estão mesmo interessados em derrotar o outro lado — a velha história de que o eleitor de segundo turno mais quer derrubar alguém do que eleger alguém —, a consequência é aumentar a própria rejeição. Isso talvez explique em parte por que candidatos antes desconhecidos são mais rejeitado quanto mais vão sendo conhecidos.
É um ciclo infernal.
Talvez as dificuldades do terceirismo devam ser buscadas, em primeiro lugar, no conceito em si. Começando pela constatação de que não existe um centro, mas dois. Há os ditos progressistas infelizes com a hegemonia do PT e há os liberais e conservadores incomodados com o domínio bolsonarista sobre o eleitorado do centro para a direita. Não espanta, portanto, a dificuldade que se repete periodicamente quando tentam fazer o casamento do jacaré com a cobra-d’água.
Outro entrave é o centrismo sentir-se obrigado a ser oposição estridente aos dois polos. Condena-se de antemão a restringir seu mercado aos nem-nem. Se o sujeito vai abrir uma pizzaria numa rua em que outras duas já disputam e dividem a clientela, sair falando mal da concorrência não parece ser o mais inteligente. Melhor tentar espalhar o que você oferece de vantagem para o consumidor, por que ele deve experimentar a novidade.
Sem chamar o sujeito de burro por frequentar a pizzaria ao lado.
Pior ainda quando se cai no equívoco de centrar fogo, na primeira oportunidade, em quem está ideológica e politicamente mais próximo, para tentar roubar-lhe o eleitor. No caso da direita, isso tem sido flagrante. O eleitor de direita que até poderia pensar em buscar alternativas ao bolsonarismo olha e conclui que a concorrência está mais interessada em derrotar Flávio do que em impedir que Lula ganhe mais quatro anos no Planalto.
E, como boa parte dos eleitores polarizados pelo petismo e pelo bolsonarismo só estão mesmo interessados em derrotar o outro lado — a velha história de que o eleitor de segundo turno mais quer derrubar alguém do que eleger alguém —, a consequência é aumentar a própria rejeição. Isso talvez explique em parte por que candidatos antes desconhecidos são mais rejeitado quanto mais vão sendo conhecidos.
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