A semana introduziu o elemento novo que faltava na sucessão presidencial: uma instabilidade com potencial para produzir desequilíbrio. O quadro vinha bem ossificado, aguardando apenas a formalização das alianças e chapas para a largada oficial. E a grande dificuldade dos azarões era uma barreira de entrada aparentemente instransponível, segundo as pesquisas.
Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.
Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a exibição de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.
Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.
Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.
Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).
De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.
O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).
Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.
Para prestar atenção
A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?
O filme das pesquisas
Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?
A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?
Análise Política
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
sexta-feira, 15 de maio de 2026
sábado, 9 de maio de 2026
Onde a corrupção dói mais
Os novos capítulos do Caso Master reintroduziram no debate político conjecturas sobre o impacto do tema corrupção na eleição presidencial. Semanas atrás, num momento de alta temperatura do assunto, este chegou a ultrapassar a economia e a segurança pública no ranking das preocupações dos entrevistados em pesquisas. Mas em seguida viu-se uma reacomodação, sinal de resiliência das questões mais capazes de produzir impacto direto e imediato no brasileiro médio.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
sábado, 2 de maio de 2026
A fé na conta de chegada
Ao adotar suas linhas de ação política e econômica e, principalmente, ao persistir nelas mesmo diante das circunstâncias, o governo federal acaba refém de duas contas de chegada.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
quarta-feira, 26 de março de 2025
Batom na estátua
É possível que o governo Luiz Inácio Lula da Silva subestime o custo político de apoiar incondicionalmente a atuação do Supremo Tribunal Federal nos processos contra os acusados de 8 de janeiro de 2023. Não é tão difícil entender o potencial dano eleitoral do contraste entre a liberdade proporcionada a tantos envolvidos em comprovados crimes graves e a dureza granítica das atuais punições aos manifestantes que depredaram as sedes dos três poderes, uma ação obviamente condenável.
Na guerra de narrativas, o 8/1 foi para uns grave atentado contra a democracia. Mas para uma fração significativa do eleitorado, ainda minoritária, foi só um ato de depredação de edifícios públicos. Não é preciso tanta inteligência ou capacidade preditiva para saber que o primeiro grupo tende a diminuir e o segundo a crescer. Ainda por cima se a segunda narrativa vem embalada em exemplos que o homem comum pode facilmente interpretar como flagrante injustiça.
Uma dúvida razoável é por que o governo não influi para expurgar da onda inquisitorial as aberrações mais aberrantes. Talvez porque, na ausência de base parlamentar mais sólida, tema enfraquecer o “presidencialismo de coalizão com o Judiciário”. Talvez porque tenha se tornado, ele próprio, prisioneiro da sua narrativa. É uma dessas situações em que o sujeito, para manter de pé uma versão, passa a agir contra seus próprios interesses.
Para o sistema punitivo, é vital manter uma conexão entre o 8/1 e as comprovadas movimentações do então presidente, derrotado nas urnas, para invalidar o desfecho da eleição. O 8/1 permite à acusação dizer que a ruptura não foi apenas desejada, mas efetivamente tentaram colocá-la em prática. As evidências materiais dessa conexão são frágeis até o momento. Mas, como se diz, “é o que temos para hoje”.
Na guerra de narrativas, o 8/1 foi para uns grave atentado contra a democracia. Mas para uma fração significativa do eleitorado, ainda minoritária, foi só um ato de depredação de edifícios públicos. Não é preciso tanta inteligência ou capacidade preditiva para saber que o primeiro grupo tende a diminuir e o segundo a crescer. Ainda por cima se a segunda narrativa vem embalada em exemplos que o homem comum pode facilmente interpretar como flagrante injustiça.
Uma dúvida razoável é por que o governo não influi para expurgar da onda inquisitorial as aberrações mais aberrantes. Talvez porque, na ausência de base parlamentar mais sólida, tema enfraquecer o “presidencialismo de coalizão com o Judiciário”. Talvez porque tenha se tornado, ele próprio, prisioneiro da sua narrativa. É uma dessas situações em que o sujeito, para manter de pé uma versão, passa a agir contra seus próprios interesses.
Para o sistema punitivo, é vital manter uma conexão entre o 8/1 e as comprovadas movimentações do então presidente, derrotado nas urnas, para invalidar o desfecho da eleição. O 8/1 permite à acusação dizer que a ruptura não foi apenas desejada, mas efetivamente tentaram colocá-la em prática. As evidências materiais dessa conexão são frágeis até o momento. Mas, como se diz, “é o que temos para hoje”.
Daí a dificuldade política de expurgar da marcha penal situações como o batom na estátua. Sem o “batom na cueca”, resta o batom na estátua.
Não fosse por isso, a separação entre os participantes de delitos menores e os demais acusados já teria sido feita há tempos, evitando que o governo perdesse o timing, o que permitiu à oposição fincar pé na acusação de injustiça. Lutar contra injustiças sempre permite ao lutador alguma iniciativa, mesmo em situações desfavoráveis.
É verdade que, com isso, a oposição deixa para o governo a oportunidade de ocupar-se sozinho do que interessa mais ao povão: o preço das coisas. E o governo ganha tempo. está à espera de que, enquanto fala mal do Banco Central (BC), o BC faça o serviço para o situacionismo e derrube a inflação.
Além do mais, o Planalto conta com a docilidade dos mecanismos de formação da opinião, eles próprios encaixotados no temor de não parecerem suficientemente alinhados na defesa da democracia.
Pela nova regra do consignado, o trabalhador pega um empréstimo no banco, para pagar juros e o principal, dando como garantia 10% do seu FGTS.
Fica uma dúvida: por que não simplesmente deixar o trabalhador sacar 10% do seu FGTS?
Até para o trabalhador não passar pela estranha situação de ter de pagar ao banco juros por tomar emprestado um dinheiro que é dele mesmo.
Não fosse por isso, a separação entre os participantes de delitos menores e os demais acusados já teria sido feita há tempos, evitando que o governo perdesse o timing, o que permitiu à oposição fincar pé na acusação de injustiça. Lutar contra injustiças sempre permite ao lutador alguma iniciativa, mesmo em situações desfavoráveis.
É verdade que, com isso, a oposição deixa para o governo a oportunidade de ocupar-se sozinho do que interessa mais ao povão: o preço das coisas. E o governo ganha tempo. está à espera de que, enquanto fala mal do Banco Central (BC), o BC faça o serviço para o situacionismo e derrube a inflação.
Além do mais, o Planalto conta com a docilidade dos mecanismos de formação da opinião, eles próprios encaixotados no temor de não parecerem suficientemente alinhados na defesa da democracia.
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Pela nova regra do consignado, o trabalhador pega um empréstimo no banco, para pagar juros e o principal, dando como garantia 10% do seu FGTS.
Fica uma dúvida: por que não simplesmente deixar o trabalhador sacar 10% do seu FGTS?
Até para o trabalhador não passar pela estranha situação de ter de pagar ao banco juros por tomar emprestado um dinheiro que é dele mesmo.
terça-feira, 4 de março de 2025
Esquerda em apuros. E a conversa fiada sobre a guerra
É visível e mensurável a ascensão de forças políticas nacionalistas em escala global. A base material foi desencadeada pela crise financeira de 2008-09, quando a chamada globalização apresentou suas primeiras graves rachaduras. Como tudo na História, o andamento não é linear, tem idas e vindas, mas parece caminhar bem, sem que tendências contrárias mostrem energia suficiente para reverter.
A maioria da esquerda, aparentada da social-democracia, é a principal perdedora neste round.
Aos fatos. Em certo momento ela abandonou a luta 1) pela soberania nacional, 2) pelo desenvolvimento, 3) pela igualdade e 4) pela liberdade. Trocou seus melhores episódios desde a Revolução Francesa por uma mistura mal ajambrada de kautskysmo (teoria do “ultraimperialismo”), malthusianismo, tribalismo identitário e ânsia repressora.
Como essa mixórdia de pontos desconexos não é capaz de proporcionar às massas trabalhadoras um horizonte de elevação consistente do seu padrão de vida, estas se voltam para a direita em busca de luz. Direita que recolhe as bandeiras acima de 1 a 4 para capturar uma base social antes hostil, ampliar sua potência eleitoral e abrir caminho para chegar ao poder.
O nacionalismo têm papel central nessa disputa. Defender a nação como espaço de proteção, liberdade e prosperidade vem se mostrando mais eficaz para mobilizar os povos do que um universalismo até agora incapaz de deixar o terreno da utopia. As pessoas não são estúpidas. Qualquer um compreende perfeitamente a diferença entre os graus de liberdade do capital e do trabalho quanto tentam cruzar as fronteiras entre o primeiro e o terceiro mundos.
A resultante é a contradição grotesca entre o discurso da esquerda em defesa da democracia e sua inclinação à repressão pura e simples para manter-se no poder. Recorrendo a uma expressão cara a esse campo, é óbvio que não tem a mínima sustentabilidade.
O governo dos Estados Unidos não parece disposto a continuar financiando a fundo perdido na Ucrânia uma guerra inganhável. A aposta europeia e do governo Joe Biden deu errado. As sanções não arruinaram a economia da Rússia, também por uma razão: a China jamais permitiria ao Ocidente subjugar os russos e impor-lhes o Versailles que se impôs à então União Soviética.
Resta, então, como caminho para uma vitória total sobre Moscou, o militar. Alguns problemas aqui. A Rússia é a maior potência nuclear do planeta. E, ao contrário dos últimos momentos da URSS, mostra coesão política interna para evitar a capitulação.
Mais ainda: numa guerra convencional, é impensável que os ucranianos derrotem os russos. Para melhorar a probabilidade desse desfecho, seria necessário europeus e americanos toparem ir morrer nos campos de batalha, além de empenhar todas as economias na empreitada. E mesmo assim o desfecho mais provável seria uma conflagração nuclear planetária.
Diante disso, a melhor saída é buscar um acordo, que naturalmente deverá levar em conta a realidade no terreno da guerra. “Ah, mas e a soberania? E o direito dos países à integridade territorial?”. É hora de retirar do baú uma velhíssima lição da História. Os países têm direito à soberania e à integridade territorial na exata medida da força que eles e suas alianças têm para garantir a soberania e a integridade territorial.
O resto é conversa fiada.
A maioria da esquerda, aparentada da social-democracia, é a principal perdedora neste round.
Aos fatos. Em certo momento ela abandonou a luta 1) pela soberania nacional, 2) pelo desenvolvimento, 3) pela igualdade e 4) pela liberdade. Trocou seus melhores episódios desde a Revolução Francesa por uma mistura mal ajambrada de kautskysmo (teoria do “ultraimperialismo”), malthusianismo, tribalismo identitário e ânsia repressora.
Como essa mixórdia de pontos desconexos não é capaz de proporcionar às massas trabalhadoras um horizonte de elevação consistente do seu padrão de vida, estas se voltam para a direita em busca de luz. Direita que recolhe as bandeiras acima de 1 a 4 para capturar uma base social antes hostil, ampliar sua potência eleitoral e abrir caminho para chegar ao poder.
O nacionalismo têm papel central nessa disputa. Defender a nação como espaço de proteção, liberdade e prosperidade vem se mostrando mais eficaz para mobilizar os povos do que um universalismo até agora incapaz de deixar o terreno da utopia. As pessoas não são estúpidas. Qualquer um compreende perfeitamente a diferença entre os graus de liberdade do capital e do trabalho quanto tentam cruzar as fronteiras entre o primeiro e o terceiro mundos.
A resultante é a contradição grotesca entre o discurso da esquerda em defesa da democracia e sua inclinação à repressão pura e simples para manter-se no poder. Recorrendo a uma expressão cara a esse campo, é óbvio que não tem a mínima sustentabilidade.
***
O governo dos Estados Unidos não parece disposto a continuar financiando a fundo perdido na Ucrânia uma guerra inganhável. A aposta europeia e do governo Joe Biden deu errado. As sanções não arruinaram a economia da Rússia, também por uma razão: a China jamais permitiria ao Ocidente subjugar os russos e impor-lhes o Versailles que se impôs à então União Soviética.
Resta, então, como caminho para uma vitória total sobre Moscou, o militar. Alguns problemas aqui. A Rússia é a maior potência nuclear do planeta. E, ao contrário dos últimos momentos da URSS, mostra coesão política interna para evitar a capitulação.
Mais ainda: numa guerra convencional, é impensável que os ucranianos derrotem os russos. Para melhorar a probabilidade desse desfecho, seria necessário europeus e americanos toparem ir morrer nos campos de batalha, além de empenhar todas as economias na empreitada. E mesmo assim o desfecho mais provável seria uma conflagração nuclear planetária.
Diante disso, a melhor saída é buscar um acordo, que naturalmente deverá levar em conta a realidade no terreno da guerra. “Ah, mas e a soberania? E o direito dos países à integridade territorial?”. É hora de retirar do baú uma velhíssima lição da História. Os países têm direito à soberania e à integridade territorial na exata medida da força que eles e suas alianças têm para garantir a soberania e a integridade territorial.
O resto é conversa fiada.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
Guerra por procuração é mais fácil
A acusação dos europeus de que Donald Trump se inclina pelo “apaziguamento” da Rússia na guerra entre russos e ucranianos enfraquece-se por causa de um ponto preliminar: quem morre na guerra são ucranianos e russos. A Europa decidiu guerrear a Rússia por procuração. Por isso não fica tão doído assim, para os europeus, defender que a guerra precisa se estender “até a vitória final”.
A memória histórica sempre tem alguma utilidade, daí a conveniência de lembrar que oito décadas atrás a Europa caiu como uma fileira de peças de dominó diante dos exércitos de Adolf Hitler, sendo ao final salva de si mesma pelas dezenas de milhões de mortos soviéticos e pelas tropas provenientes do outro lado do Oceano Atlântico.
Se não se deve subestimar a importância das guerrilhas europeias que resistiram ao nazismo, seria irrealista imaginar que a Europa teria dado sozinha conta do problema.
É verdade também que europeus e norte-americanos são sócios-fundadores do desastre contemporâneo no Donbass e em Kursk. Basta recapitular. Finda a Guerra Fria, o bloco atlantista tinha duas opções: absorver a Rússia numa "Europa ampliada”, com as devidas garantias de segurança, ou garrotear o urso ferido para arrancar dele tudo que fosse possível e reduzi-lo a colônia. Ou continuar seu desmembramento.
Como se isso fosse realista.
A crise ucraniana é produto, antes de tudo, da falta de prudência do Ocidente. Em 2014, bastava esperar a eleição em Kiev, pois a derrota do bloco pró-russo era bola cantada, e a Ucrânia entraria na União Europeia sem maiores traumas. Mas os estrategistas da Casa Branca e do Departamento de Estado, secundados pelas potências europeias, decidiram insuflar o golpe contra o impopular presidente Viktor Yanukovitch.
O resultado foi a secessão da Crimeia, que caiu nas mãos de Vladimir Putin como uma fruta madura cai do galho, e os movimentos secessionistas no Donbass. Aí Kiev entrou em guerra contra Donetsk e Lugansk e passou a bombardear sistematicamente a população civil dali, majoritariamente de origem russa. E todas as tentativas de resolver a pendenga na mesa de negociações pararam no desejo europeu de impor à Rússia uma derrota militar e política estratégica.
Aí Putin errou grosseiramente na análise da correlação de forças, achou que suas tropas seriam recebidas na Ucrânia como libertadoras, quando o nacionalismo ucraniano vinha de ser sistematicamente anabolizado desde a dissolução da URSS. Subestimou também a quedinha da Europa do Leste pelo sonho europeu. Esqueceu-se ainda de que, quando a Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, a Wehrmacht teve recepção de gala na Ucrânia ocidental, só vindo a enfrentar resistência quando se aproximou do leste ucraniano.
O resultado está à vista de todos. A Europa imagina ter força para evitar a absorção da Ucrânia pela Rússia, mas sabe faltarem-lhe recursos políticos, materiais e humanos para uma vitória decisiva. A Rússia, parece, já entendeu que o mesmo se dá do lado dela. Seria portanto uma hora boa para negociar a paz. O maior obstáculo é os políticos europeus terem prometido a seus povos que era possível impor uma derrota estratégica, sem aspas, a Moscou.
Outro obstáculo é que, na prática, a paz agora implica reconhecer conquistas territoriais de Putin e Zelensky na guerra. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos.
A memória histórica sempre tem alguma utilidade, daí a conveniência de lembrar que oito décadas atrás a Europa caiu como uma fileira de peças de dominó diante dos exércitos de Adolf Hitler, sendo ao final salva de si mesma pelas dezenas de milhões de mortos soviéticos e pelas tropas provenientes do outro lado do Oceano Atlântico.
Se não se deve subestimar a importância das guerrilhas europeias que resistiram ao nazismo, seria irrealista imaginar que a Europa teria dado sozinha conta do problema.
É verdade também que europeus e norte-americanos são sócios-fundadores do desastre contemporâneo no Donbass e em Kursk. Basta recapitular. Finda a Guerra Fria, o bloco atlantista tinha duas opções: absorver a Rússia numa "Europa ampliada”, com as devidas garantias de segurança, ou garrotear o urso ferido para arrancar dele tudo que fosse possível e reduzi-lo a colônia. Ou continuar seu desmembramento.
Como se isso fosse realista.
A crise ucraniana é produto, antes de tudo, da falta de prudência do Ocidente. Em 2014, bastava esperar a eleição em Kiev, pois a derrota do bloco pró-russo era bola cantada, e a Ucrânia entraria na União Europeia sem maiores traumas. Mas os estrategistas da Casa Branca e do Departamento de Estado, secundados pelas potências europeias, decidiram insuflar o golpe contra o impopular presidente Viktor Yanukovitch.
O resultado foi a secessão da Crimeia, que caiu nas mãos de Vladimir Putin como uma fruta madura cai do galho, e os movimentos secessionistas no Donbass. Aí Kiev entrou em guerra contra Donetsk e Lugansk e passou a bombardear sistematicamente a população civil dali, majoritariamente de origem russa. E todas as tentativas de resolver a pendenga na mesa de negociações pararam no desejo europeu de impor à Rússia uma derrota militar e política estratégica.
Aí Putin errou grosseiramente na análise da correlação de forças, achou que suas tropas seriam recebidas na Ucrânia como libertadoras, quando o nacionalismo ucraniano vinha de ser sistematicamente anabolizado desde a dissolução da URSS. Subestimou também a quedinha da Europa do Leste pelo sonho europeu. Esqueceu-se ainda de que, quando a Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, a Wehrmacht teve recepção de gala na Ucrânia ocidental, só vindo a enfrentar resistência quando se aproximou do leste ucraniano.
O resultado está à vista de todos. A Europa imagina ter força para evitar a absorção da Ucrânia pela Rússia, mas sabe faltarem-lhe recursos políticos, materiais e humanos para uma vitória decisiva. A Rússia, parece, já entendeu que o mesmo se dá do lado dela. Seria portanto uma hora boa para negociar a paz. O maior obstáculo é os políticos europeus terem prometido a seus povos que era possível impor uma derrota estratégica, sem aspas, a Moscou.
Outro obstáculo é que, na prática, a paz agora implica reconhecer conquistas territoriais de Putin e Zelensky na guerra. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos.
domingo, 27 de outubro de 2024
O peso do centrismo
O segundo turno das eleições municipais obedeceu a uma regra, excluídas as exceções que a
confirmam: ganhou quem conseguiu avançar sobre um certo centro político, da centro-direita à
centro-esquerda. Apesar de alguns insucessos, nesta rodada, de candidatos “do coração” do
ex-presidente Jair Bolsonaro, foi o PT quem mais sofreu com a dificuldade de atrair votos
centristas.
E o que esse peso do centrismo projeta para 2026? A mesma lógica: Os dois polos atraem a ampla maioria do eleitorado, mas, em situações de relativo equilíbrio, uma minoria de certa dimensão acaba tendo papel decisivo. Pois quem tem um piso eleitoral alto pode perfeitamente exibir um teto eleitoral insuficiente para atingir a maioria absoluta necessária para eleições majoritárias.
Em 2024, a direita exibe mais capacidade de atrair o contingente que pendula entre os campos ideológicos, diferentemente de 2022. Por algumas razões principais. Duas delas 1) não se pode alegar no cenário político maiores ameaças à institucionalidade; e 2) o governo federal não chega a cultivar a frente política que lhe deu a apertada vitória de dois anos atrás.
Algumas análises do primeiro turno creditaram a onda de vitórias do chamado centrão a um acesso privilegiado a recursos orçamentários provenientes das emendas parlamentares. Pode até ser uma explicação em municípios menores ou alguns médios em regiões mais dependentes de verba federal, mas é uma tese insuficiente na ampla maioria das cidades em que pode haver segundo turno.
Passada a eleição, as atenções voltam-se para o Congresso Nacional, em dois pontos: a pauta de votações e a sucessão nas mesas diretoras das duas casas. No primeiro, a curiosidade é se o governo vai ajustar a rota para algo mais centrista, ao olhar as derrotas eleitorais, ou se vai operar uma fuga para adiante, guinando à esquerda. Alguns sinais apontam na primeira direção.
Na troca de comando das mesas, o Senado parece momentaneamente pacificado em torno da recondução de Davi Alcolumbre (União-AP), mas a Câmara dos Deputados ainda apresenta algum grau de incerteza, mesmo que os ventos soprem a favor de Hugo Motta (Republicanos- PB). Resta saber qual será o desfecho das ambições dos demais pré-candidatos, se haverá consenso ou algum grau de disputa.
Parece improvável que, diante dos fracos resultados eleitorais, o governo deixe a eleição das mesas no Congresso enveredar para disputas que poderiam enfraquecê-lo e até, no limite, trazer para seu colo derrotas à semelhança da que o PT sofreu para Eduardo Cunha em 2015. Por mais que a ideologia possar falar alto, mais alto falará o instinto de sobrevivência de Luiz Inácio Lula da Silva e do partido.
E o que esse peso do centrismo projeta para 2026? A mesma lógica: Os dois polos atraem a ampla maioria do eleitorado, mas, em situações de relativo equilíbrio, uma minoria de certa dimensão acaba tendo papel decisivo. Pois quem tem um piso eleitoral alto pode perfeitamente exibir um teto eleitoral insuficiente para atingir a maioria absoluta necessária para eleições majoritárias.
Em 2024, a direita exibe mais capacidade de atrair o contingente que pendula entre os campos ideológicos, diferentemente de 2022. Por algumas razões principais. Duas delas 1) não se pode alegar no cenário político maiores ameaças à institucionalidade; e 2) o governo federal não chega a cultivar a frente política que lhe deu a apertada vitória de dois anos atrás.
Algumas análises do primeiro turno creditaram a onda de vitórias do chamado centrão a um acesso privilegiado a recursos orçamentários provenientes das emendas parlamentares. Pode até ser uma explicação em municípios menores ou alguns médios em regiões mais dependentes de verba federal, mas é uma tese insuficiente na ampla maioria das cidades em que pode haver segundo turno.
Passada a eleição, as atenções voltam-se para o Congresso Nacional, em dois pontos: a pauta de votações e a sucessão nas mesas diretoras das duas casas. No primeiro, a curiosidade é se o governo vai ajustar a rota para algo mais centrista, ao olhar as derrotas eleitorais, ou se vai operar uma fuga para adiante, guinando à esquerda. Alguns sinais apontam na primeira direção.
Na troca de comando das mesas, o Senado parece momentaneamente pacificado em torno da recondução de Davi Alcolumbre (União-AP), mas a Câmara dos Deputados ainda apresenta algum grau de incerteza, mesmo que os ventos soprem a favor de Hugo Motta (Republicanos- PB). Resta saber qual será o desfecho das ambições dos demais pré-candidatos, se haverá consenso ou algum grau de disputa.
Parece improvável que, diante dos fracos resultados eleitorais, o governo deixe a eleição das mesas no Congresso enveredar para disputas que poderiam enfraquecê-lo e até, no limite, trazer para seu colo derrotas à semelhança da que o PT sofreu para Eduardo Cunha em 2015. Por mais que a ideologia possar falar alto, mais alto falará o instinto de sobrevivência de Luiz Inácio Lula da Silva e do partido.
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