segunda-feira, 20 de julho de 2026

A hora das convenções

A tática do presidente da República no confronto com seu homólogo americano parece clara: esticar a corda até um ponto ótimo para auferir os dividendos eleitorais em outubro, mas sem rompê-la.

Depois da reeleição (Lula não trabalha com outra hipótese), torcer para que Donald Trump seja derrotado na eleição de deputados e senadores em novembro e se converta num lame duck (pato manco, aquele que tem mandato, mas não tem mais força política).

Depois, rezar pela vitória do candidato democrata em 2028 e, daí, garantir um ambiente amigável para fazer o sucessor em 2030. Basta recordar o papel do governo Biden na transição brasileira de 2022.

Será necessária alguma cautela para medir efetivamente o efeito dos atritos entre Brasil e Estados Unidos na eleição daqui. Até agora, os números eleitorais exibem razoável estabilidade, apesar dos fatos, ou factoides.

No agregado das pesquisas (o www.pollingdata.com.br faz um bom trabalho nesse aspecto), a distância entre os dois principais candidatos no cenário de segundo turno está apertada e tem insistido em oscilar nas margens de erro.

Neste período antes das convenções, o situacionismo vem sendo competente para produzir turbulências que, até agora, impedem, ou dificultam, a agregação da direita em torno de Flávio Bolsonaro.

Um risco para o petismo é o candidato do PL abrir a campanha oficial com uma coligação ampla e grande vantagem no horário eleitoral e nos recursos oficiais. No momento, esse risco parece minimizado.

Lula chega à véspera das convenções num quadro mais favorável do que se projetava no início do ano. Além da torrente de medidas populares, desfruta um inédito alinhamento institucional. Não há ator relevante na constelação do poder interessado numa mudança.

O problema? Mesmo com todas as condições objetivas favoráveis, as projeções atuais de segundo turno são-lhe bem menos róseas do que as de quatro anos atrás contra o Bolsonaro pai.

E a candidatura do PL vem demonstrando uma interessante resiliência.

terça-feira, 30 de junho de 2026

O enigma a resolver

À medida que a Copa do Mundo vai atingindo seu auge, e o fim do torneio aponta no horizonte, a campanha eleitoral ganha impulso. Vamos entrando no período de certa restrição à propaganda governamental e algum reequilíbrio na habitual desigualdade de armas esculpida em lei pela bizarra regra trazida por Fernando Henrique Cardoso em benefício próprio: quem concorre àreeleição no Executivo não precisa se desincompatibilizar, mas quem o desafia precisa deixar qualquer cargo e atravessar a campanha na chuva.

Teremos na disputa de 2026 a oportunidade de talvez solucionar um enigma irresolvido de 2022. A esta altura naquele ano, as projeções de segundo turno traziam na média, segundo o ótimo site pollingdata.com.br, Luiz Inácio Lula da Silva treze pontos percentuais àfrente de Jair Messias Bolsonaro. Como se sabe, a diferença final foi de menos de dois pontos. Hoje, a média aponta Lula apenas três pontos acima de Flávio Bolsonaro. O enigma: quatro anos atrás Bolsonaro conseguiu reduzir a distância por mobilizar a direita ou por ser governo?

Se a razão principal foi a primeira, Flávio tem boas perspectivas. Se for a segunda, a tendência é Lula abrir conforme a campanha avançar. Os fatos, sempre teimosos, dirão. E será necessário sempre, por cautela, descontar da contabilidade a tradicional assimetria entre intenção de voto, medida sobre o total do eleitorado, e resultado da urna, assimetria causada pela parcela em torno de 10% do eleitorado dispostos a escolher candidatos em pesquisas, mas que não aparecem no dia para votar. Acontece mais nas camadas de menor renda e escolaridade.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Solavanco nos números aqui e vento à direita no continente

O efeito "Dark Horse” parece ter sido absorvido e digerido pelo ambiente pré-eleitoral, deixando em aberto a intensidade do vetor antissistema/anticorrupção quando a campanha oficial der a largada com as entrevistas, debates e programas de rádio e tevê. A aposta predominante até agora é relativizar esse veio da disputa, dada a dificuldade de as alternativas aos blocos hegemônicos ganharem impulso. E dada a ubiquidade das encrencas e encrencados.

Os números fazem crer que houve um solavanco, com o incumbente ganhando uns pontos, principalmente por causa das fortes iniciativas econômicas expansionistas e da divulgação maciça que as acompanha. Mas o solavanco não parece produzir uma vantagem mais confortável ao líder, talvez por o governo tentar apenas anestesiar no varejo um problema que pede solução no atacado: libertar as forças produtivas para permitir a aceleração do crescimento.

A eleição está perto demais para o governo operar essa necessária correção de rota. Em certas circunstâncias, tentar desviar do iceberg muito perto dele é mais perigoso que pagar o preço pela inevitável colisão. O exemplo clássico é o Titanic. Mas há consequências por manter a rota. O governo entra na eleição sem uma visão clara de futuro, e eleições são disputas sobre o futuro. E sempre há o risco do desgaste político pós-eleitoral, como a História ensina.

Um detalhe que precisa ser observado com atenção é os ventos soprarem para a direita na América do Sul, como se viu agora no Peru e na Colômbia. Duas situações em que todo o esforço da esquerda para transformar a eleição num plebiscito contra o que chamou de "extrema direita” não foi suficiente para alcançar a vitória na urna. Não é a primeira vez em que o eleitor relativiza a disputa ideológica em favor da solução dos problemas do dia a dia.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

É a economia

Desde o caso "Dark Horse", mas especialmente desde a combinação de benesses econômicas governamentais e forte presença propagandística para divulgá-las, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a recapturar, ainda que lentamente, parte do voto não alinhado nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, e que dele vinha se afastando. Segundo a pesquisa Nexus divulgada hoje, esse movimento já permite ao incumbente uma leve vantagem numérica na projeção de segundos turnos realistas, expurgando a provável abstenção.

Flávio Bolsonaro vinha se beneficiando do "jogar parado”, mas essa fase do jogo ficou para trás. O momento da corrida presidencial lembra um pouco o primeiro tempo de Brasil x Marrocos: enquanto um time joga, o outro só assiste. A situação permite ao governo manter a iniciativa política, o que também em períodos eleitorais é uma vantagem não desprezível. Em campanhas, como em outras situações, quem perdeu a iniciativa e precisa se explicar já está perdendo.

Apontar o risco de que o festival de bondades produza, no caso de reeleição, um cenário algo semelhante ao colhido por Dilma Rousseff em 2015-16, tem uma vantagem e um problema. A vantagem é refrescar a memória do eleitor para o custo de “fazer o diabo” nas eleições. O problema é abrir espaço para a acusação de que o oposicionismo planeja cortar o oxigênio das medidas e sacrificar a população mais vulnerável.

Mas talvez não reste outro caminho para a oposição, visto que, se a ideia é manter o que está aí, não há muitas razões para os não alinhados votarem pela mudança. E um número que oscila menos é exatamente o que aponta o desejo majoritário por mudança, presente em todas as pesquisas. Por enquanto, a associação entre iniciativas econômicas do governo e alguma perplexidade da oposição freia a conversão de insatisfação em voto.

Nunca é demais, porém, lembrar que a corrida ainda não chegou nem ao fim do começo, quanto mais ao começo do fim. Na eleição mais ciclotímica de todos os tempos, o governo e a oposição ainda têm a atravessar as convenções, as entrevistas, os debates, a campanha de rua, a guerra nas redes sociais, o que na teoria garante alguma paridade de armas. Resta ver como isso se dará na prática.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Soberania e disputa de rejeições

O direito à soberania nacional segue a regra de que o detentor do direito precisa ter força para garantir o seu exercício. Outro detalhe: o escrito no papel garante alguma legitimidade, mas mesmo esta precisa sustentar-se socialmente. O contra-exemplo clássico é a busca de apoio internacional para combater um regime tirânico, como aconteceu aqui nos governos militares. Vale em situações assim o argumento de defesa da soberania?

O recurso ao soberanismo tem aparecido e desaparecido do discurso político conforme a conveniência eleitoral, alternando com o internacionalismo. A dúvida agora é se, e quanto, a narrativa terá efeito decisivo na nossa corrida pelo voto em outubro. Ajuda o oficialismo a substancial rejeição à figura do atual presidente dos Estados Unidos. Mas atrapalha um pouco o mesmo oficialismo ter desfilado posições flexíveis diante de outras pressões externas.

Como o congelamento da fronteira agrícola. Ou a recusa a explorar adequadamente nossos recursos minerais. É a tal história: de vez em quando, “ninguém se mete na nossa vida”, outras horas vem a angústia com “o que vão dizer da gente lá fora?”.

Mas há poucas atitudes mais ingênuas ou hipócritas na política, ou na crônica política, do que exigir coerência. Ainda que exibir a falta dela por parte do adversário ajude a criar constrangimentos. É um recurso, aí sim, para colocar o adversário na posição de ter de se explicar. E quem precisa se explicar já está perdendo. Daí que acusar o oponente de entreguismo seja sempre uma maneira de manter a iniciativa. O “upper hand”, na linguagem do boxe.

Essa talvez seja a questão central em disputas eleitorais. Quem consegue tomar a iniciativa e manter. Um jeito provado é acusar o adversário de algo muito grave e obrigá-lo a passar a campanha tentando reduzir o dano. E leva vantagem nisso quem tem a polícia eleitoral a seu favor. Poder acusar à vontade, enquanto ao concorrente não é dada a igualdade de armas. É uma vantagem e tanto, muito difícil de reverter.

Eleições em dois turnos costumam ser decididas numa disputa de rejeições. Daí a centralidade das armas à disposição de cada um para falar o diabo de quem está do outro lado.

domingo, 31 de maio de 2026

O crime, o espetáculo e a soberania

Evocar o princípio da soberania supõe sempre algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita. Os bolcheviques alistavam-se no exército russo para colocar lenha na fogueira do derrotismo na Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar a derrubar o regime. Aparece em Dr Jivago, o clássico hollywoodiano de 1965. A elite política francesa preferiu capitular à Alemanha na Segunda Guerra, pois tinha mais medo dos compatriotas comunistas que dos nazistas alemães.

A análise política perde-se quando abandona o foco: a luta pelo poder, geralmente travada sem muita consideração pelos princípios. Quando Jimmy Carter pressionou o então presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos humanos dos perseguidos pelo regime militar, a ditadura reagiu invocando o princípio da soberania. O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”.

A classificação pelos Estados Unidos de organizações criminosas brasileiras como terroristas, com todas as consequências políticas e legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de Washington. O governo brasileiro já vinha mostrando flexibilidade tática diante da pressão da administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo estratégico não estava jogado. Está longe de ser um segredo que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina Monroe 2.0.

Só que existe um problema anterior. O avanço por aqui, aparentemente imparável, do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado. Anunciam-se planos, votam-se leis, convocam-se entrevistas coletivas para desfilar soluções, mas a doença ignora o espetáculo e avança. Discutir princípios é importante, mas defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o risco de alguém de fora querer meter o bedelho.

Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou capital político no episódio das tarifas ao lançar mão do discurso da soberania. Vai funcionar quando a disputa é sobre o combate ao crime organizado? Vamos aguardar os números. Eles dirão se o eleitor está mais incomodado com a ingerência externa no Brasil ou com a ingerência do crime sobre a vida dele, eleitor.

domingo, 24 de maio de 2026

O áudio, as pesquisas e a abstenção

Até a véspera da eleição as pesquisas apresentam seus resultados em porcentagens sobre o total do eleitorado. Um ou dois dias antes do pleito passam a apresentar as projeções de votos válidos, descartando os brancos, nulos e indecisos. Isso foi introduzido de alguns anos para cá, com o objetivo de atenuar os questionamentos sobre as pesquisas, pois os resultados oficiais sempre aparecem em votos válidos.

Em 1998 Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%, sempre sobre o total do eleitorado. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.

Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.

Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.

Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.

A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deveria introduzir alguma prudência nas conclusões.

A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.