O direito à soberania nacional segue a regra de que o detentor do direito precisa ter força para garantir o seu exercício. Outro detalhe: o escrito no papel garante alguma legitimidade, mas mesmo esta precisa sustentar-se socialmente. O contra-exemplo clássico é a busca de apoio internacional para combater um regime tirânico, como aconteceu aqui nos governos militares. Vale em situações assim o argumento de defesa da soberania?
O recurso ao soberanismo tem aparecido e desaparecido do discurso político conforme a conveniência eleitoral, alternando com o internacionalismo. A dúvida agora é se, e quanto, a narrativa terá efeito decisivo na nossa corrida pelo voto em outubro. Ajuda o oficialismo a substancial rejeição pela figura do atual presidente dos Estados Unidos. Mas atrapalha um pouco o mesmo oficialismo ter desfilado posições flexíveis diante de outras pressões externas.
Como o congelamento da fronteira agrícola. Ou a recusa a explorar adequadamente nossos recursos minerais. É a tal história: de vez em quando, “ninguém se mete na nossa vida”, outras horas vem a angústia com “o que vão dizer da gente lá fora?”.
Mas há poucas atitudes mais ingênuas ou hipócritas na política, ou na crônica política, do que exigir coerência. Ainda que exibir a falta dela por parte do adversário ajude a criar constrangimentos. É um recurso, aí sim, para colocar o adversário na posição de ter de se explicar. E quem precisa se explicar já está perdendo. Daí que acusar o oponente de entreguismo seja sempre uma maneira de manter a iniciativa. O “upper hand”, na linguagem do boxe.
Essa talvez seja a questão central em disputas eleitorais. Quem consegue tomar a iniciativa e manter. Um jeito provado é acusar o adversário de algo muito grave e obrigá-lo a passar a campanha tentando reduzir o dano. E leva vantagem nisso quem tem a polícia eleitoral a seu favor. Poder acusar à vontade, enquanto ao concorrente não é dada a igualdade de armas. É uma vantagem e tanto, muito difícil de reverter.
Eleições em dois turnos costumam ser decididas numa disputa de rejeições. Daí a centralidade das armas à disposição de cada um para falar o diabo de quem está do outro lado.