terça-feira, 30 de junho de 2026

O enigma a resolver

À medida que a Copa do Mundo vai atingindo seu auge, e o fim do torneio aponta no horizonte, a campanha eleitoral ganha impulso. Vamos entrando no período de certa restrição à propaganda governamental e algum reequilíbrio na habitual desigualdade de armas esculpida em lei pela bizarra regra trazida por Fernando Henrique Cardoso em benefício próprio: quem concorre àreeleição no Executivo não precisa se desincompatibilizar, mas quem o desafia precisa deixar qualquer cargo e atravessar a campanha na chuva.

Teremos na disputa de 2026 a oportunidade de talvez solucionar um enigma irresolvido de 2022. A esta altura naquele ano, as projeções de segundo turno traziam na média, segundo o ótimo site pollingdata.com.br, Luiz Inácio Lula da Silva treze pontos percentuais àfrente de Jair Messias Bolsonaro. Como se sabe, a diferença final foi de menos de dois pontos. Hoje, a média aponta Lula apenas três pontos acima de Flávio Bolsonaro. O enigma: quatro anos atrás Bolsonaro conseguiu reduzir a distância por mobilizar a direita ou por ser governo?

Se a razão principal foi a primeira, Flávio tem boas perspectivas. Se for a segunda, a tendência é Lula abrir conforme a campanha avançar. Os fatos, sempre teimosos, dirão. E será necessário sempre, por cautela, descontar da contabilidade a tradicional assimetria entre intenção de voto, medida sobre o total do eleitorado, e resultado da urna, assimetria causada pela parcela em torno de 10% do eleitorado dispostos a escolher candidatos em pesquisas, mas que não aparecem no dia para votar. Acontece mais nas camadas de menor renda e escolaridade.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Solavanco nos números aqui e vento à direita no continente

O efeito "Dark Horse” parece ter sido absorvido e digerido pelo ambiente pré-eleitoral, deixando em aberto a intensidade do vetor antissistema/anticorrupção quando a campanha oficial der a largada com as entrevistas, debates e programas de rádio e tevê. A aposta predominante até agora é relativizar esse veio da disputa, dada a dificuldade de as alternativas aos blocos hegemônicos ganharem impulso. E dada a ubiquidade das encrencas e encrencados.

Os números fazem crer que houve um solavanco, com o incumbente ganhando uns pontos, principalmente por causa das fortes iniciativas econômicas expansionistas e da divulgação maciça que as acompanha. Mas o solavanco não parece produzir uma vantagem mais confortável ao líder, talvez por o governo tentar apenas anestesiar no varejo um problema que pede solução no atacado: libertar as forças produtivas para permitir a aceleração do crescimento.

A eleição está perto demais para o governo operar essa necessária correção de rota. Em certas circunstâncias, tentar desviar do iceberg muito perto dele é mais perigoso que pagar o preço pela inevitável colisão. O exemplo clássico é o Titanic. Mas há consequências por manter a rota. O governo entra na eleição sem uma visão clara de futuro, e eleições são disputas sobre o futuro. E sempre há o risco do desgaste político pós-eleitoral, como a História ensina.

Um detalhe que precisa ser observado com atenção é os ventos soprarem para a direita na América do Sul, como se viu agora no Peru e na Colômbia. Duas situações em que todo o esforço da esquerda para transformar a eleição num plebiscito contra o que chamou de "extrema direita” não foi suficiente para alcançar a vitória na urna. Não é a primeira vez em que o eleitor relativiza a disputa ideológica em favor da solução dos problemas do dia a dia.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

É a economia

Desde o caso "Dark Horse", mas especialmente desde a combinação de benesses econômicas governamentais e forte presença propagandística para divulgá-las, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a recapturar, ainda que lentamente, parte do voto não alinhado nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, e que dele vinha se afastando. Segundo a pesquisa Nexus divulgada hoje, esse movimento já permite ao incumbente uma leve vantagem numérica na projeção de segundos turnos realistas, expurgando a provável abstenção.

Flávio Bolsonaro vinha se beneficiando do "jogar parado”, mas essa fase do jogo ficou para trás. O momento da corrida presidencial lembra um pouco o primeiro tempo de Brasil x Marrocos: enquanto um time joga, o outro só assiste. A situação permite ao governo manter a iniciativa política, o que também em períodos eleitorais é uma vantagem não desprezível. Em campanhas, como em outras situações, quem perdeu a iniciativa e precisa se explicar já está perdendo.

Apontar o risco de que o festival de bondades produza, no caso de reeleição, um cenário algo semelhante ao colhido por Dilma Rousseff em 2015-16, tem uma vantagem e um problema. A vantagem é refrescar a memória do eleitor para o custo de “fazer o diabo” nas eleições. O problema é abrir espaço para a acusação de que o oposicionismo planeja cortar o oxigênio das medidas e sacrificar a população mais vulnerável.

Mas talvez não reste outro caminho para a oposição, visto que, se a ideia é manter o que está aí, não há muitas razões para os não alinhados votarem pela mudança. E um número que oscila menos é exatamente o que aponta o desejo majoritário por mudança, presente em todas as pesquisas. Por enquanto, a associação entre iniciativas econômicas do governo e alguma perplexidade da oposição freia a conversão de insatisfação em voto.

Nunca é demais, porém, lembrar que a corrida ainda não chegou nem ao fim do começo, quanto mais ao começo do fim. Na eleição mais ciclotímica de todos os tempos, o governo e a oposição ainda têm a atravessar as convenções, as entrevistas, os debates, a campanha de rua, a guerra nas redes sociais, o que na teoria garante alguma paridade de armas. Resta ver como isso se dará na prática.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Soberania e disputa de rejeições

O direito à soberania nacional segue a regra de que o detentor do direito precisa ter força para garantir o seu exercício. Outro detalhe: o escrito no papel garante alguma legitimidade, mas mesmo esta precisa sustentar-se socialmente. O contra-exemplo clássico é a busca de apoio internacional para combater um regime tirânico, como aconteceu aqui nos governos militares. Vale em situações assim o argumento de defesa da soberania?

O recurso ao soberanismo tem aparecido e desaparecido do discurso político conforme a conveniência eleitoral, alternando com o internacionalismo. A dúvida agora é se, e quanto, a narrativa terá efeito decisivo na nossa corrida pelo voto em outubro. Ajuda o oficialismo a substancial rejeição à figura do atual presidente dos Estados Unidos. Mas atrapalha um pouco o mesmo oficialismo ter desfilado posições flexíveis diante de outras pressões externas.

Como o congelamento da fronteira agrícola. Ou a recusa a explorar adequadamente nossos recursos minerais. É a tal história: de vez em quando, “ninguém se mete na nossa vida”, outras horas vem a angústia com “o que vão dizer da gente lá fora?”.

Mas há poucas atitudes mais ingênuas ou hipócritas na política, ou na crônica política, do que exigir coerência. Ainda que exibir a falta dela por parte do adversário ajude a criar constrangimentos. É um recurso, aí sim, para colocar o adversário na posição de ter de se explicar. E quem precisa se explicar já está perdendo. Daí que acusar o oponente de entreguismo seja sempre uma maneira de manter a iniciativa. O “upper hand”, na linguagem do boxe.

Essa talvez seja a questão central em disputas eleitorais. Quem consegue tomar a iniciativa e manter. Um jeito provado é acusar o adversário de algo muito grave e obrigá-lo a passar a campanha tentando reduzir o dano. E leva vantagem nisso quem tem a polícia eleitoral a seu favor. Poder acusar à vontade, enquanto ao concorrente não é dada a igualdade de armas. É uma vantagem e tanto, muito difícil de reverter.

Eleições em dois turnos costumam ser decididas numa disputa de rejeições. Daí a centralidade das armas à disposição de cada um para falar o diabo de quem está do outro lado.