sábado, 8 de agosto de 2026

O enigma em São Paulo

A temporada de convenções para a presidencial fechou como antevisto. O governo tem uma coalizão dura de partidos mais, digamos, próximos filosoficamente ao situacionismo. E tem uma mais mole e informal de partidos de direita, que quando vão aninhar-se a qualquer poder desengavetam o rótulo de centro independente. Do outro lado, os argumentos orçamentários e policiais-judiciais acabaram sendo intransponíveis. A oposição vai formalmente isolada.

A palavra mais importante do parágrafo anterior é esse “formalmente”, pois é muito improvável que a esmagadora maioria dos eleitores dê qualquer importância a alianças cartoriais. É no voto para presidente que o eleitor se manifesta com maior independência, quase total. Se é razoável que um candidato a deputado, senador ou mesmo governador se eleja por ter o apoio de um postulante à presidência, a recíproca simplesmente não costuma ser verdadeira.

E o que está em disputa? Hoje o presidente da República já governa num semipresidencialismo de coalizão com o Judiciário, desde que o Congresso Nacional aceitou, talvez pelas circunstâncias, reinventar-se em agência de intermediação de emendas parlamentares.

O que traz, além das óbvias vantagens, uma grande vulnerabilidade: dispondo de dezenas de milhões para distribuir, e supondo que a política municipal não seja exatamente um passeio pela ética, essa bolada acaba representando uma arma apontada contra a testa de suas excelências. Ou uma algema de ouro. As emendas existem para, na teoria, aumentar a independência parlamentar, mas a infernal dialética nunca falha: esbaldaram-se e deu o contrário.

E a eleição? O governo joga em casa, a arbitragem é caseira e o estádio tem, como nos clássicos paulistas, torcida única. O governo tem o governo, tem o alinhamento com o Judiciário e conta com uma imprensa sem qualquer simpatia pela oposição. Mas neste momento a disputa se apresenta bastante equilibrada. Bem mais que quatro anos atrás. E, por falar em clássicos paulistas, há a dúvida sobre São Paulo.

Em 2022 as vantagens de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas sobre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad no estado foram quase idênticas. O eleitor votou em bloco. Hoje a diferença paulista de Tarcísio para Haddad é bem maior que a de Flávio Bolsonaro sobre Lula. Esses números persistirão? Tarcísio puxará Flávio para cima? Lula puxará Haddad para cima? Flávio puxará Tarcísio para baixo? Haddad puxará Lula para baixo?