O governo precisa vencer a disputa na sucessão da Presidência da Câmara dos Deputados, depois que Eduardo Cunha renunciou ao cargo. E vencer significa em primeiro lugar não perder.
Esta última afirmação acima valia para Dilma Rousseff em 2015 e vale agora para Michel Temer. Dilma acabou emparedada por um impeachment que não haveria sem um inimigo comandando a casa do povo.
A sucessão na Câmara só é importante por causa do impeachment. Quem pode o mais pode o menos. Se os deputados já abriram a cassação da titular, podem ficar tentados a abrir a do suplente, caso este escorregue.
E quem deflagra o processo é o presidente da Câmara.
O andamento da agenda do Executivo no Legislativo não depende principalmente da política interna no Congresso, mas da força do Executivo. Este portanto vive de dar demonstrações de força.
Ainda mais um governo não propriamente popular. Não é ainda impopular, é simplesmente tolerado, pois apresenta-se como a solução à mão para evitar a volta de um governo desastroso.
Mas quando -e se- o antigo regime sair de cena definitivamente, a razão principal da tolerância com a nova administração também terá deixado de existir. Aí mora o perigo.
Temer dança conforme a música.
Suas duas mensagens: 1) "Preciso continuar pois dou sustentação a uma equipe econômica que traz esperança ao país", 2) "Preciso continuar pois tenho sustentação no Congresso para prestigiar minha equipe econômica".
Para o interino, já será complicado digerir uma conflagração na Câmara, ainda que saia vitorioso. Se for derrotado, ou se for visto como derrotado (dá na mesma), entrará em zona de risco crítico.
Aí a mensagem 2 ficará capenga. E é ela que sustenta a 1.
O cenário ideal para o governo é uma candidatura única. Não deve ser afastada, mas sua probabilidade está em torno de 10%. A rigor ela é boa para quase todo mundo. Inclusive para o PT.
O principal desafio do PT hoje é sair do isolamento.
Pode conseguir isso derrotando o governo, mas a probabilidade está em 10%. Ou pode apoiar alguma candidatura governista dissidente que dê ao Planalto uma vitória que significará derrota.
O risco desta tática é o PT apostar na dissidência e o governo, ao final, unificar a base, deixando o PT sem candidato, sem discurso e sem espaço. A não ser que adira na vigésima-quinta hora à composição governista.
Uma variável a observar é o PSDB. Se vai mesmo até o fim com o projeto de alimentar uma dissidência governista ou se negociará com o Planalto uma aliança ampla da base, em troca de ter a cadeira em 2017.
Porque a disputa agora é por um mandato de meses, sem possibilidade de reeleição. Mas seriam meses decisivos, dada a agenda pendente. Quem assumir o comando da Câmara agora estará em boa posição para negociar com o governo o que fará depois de fevereiro do ano que vem.
E será um personagem novo, que receberá a natural atenção num cenário dominado por nomes conhecidos e desgastados. E que estará tentado a voar mais alto.
Não faltam variáveis na equação.
Prestar atenção:
1) Eleição (ou não) do novo presidente da Câmara
2) Preparativos para o desfecho (ou não) do impeachment no Senado
3) Novidades nas delações premiadas
Este boletim volta em agosto. Até lá.
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
segunda-feira, 11 de julho de 2016
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Pós-Cunha dará a medida da estabilidade do governo e do ambiente para sua agenda
A administração temporária atravessa bastante bem este período, beneficiada pela complacência decorrente de 1) rejeição à volta da afastada e 2) ausência de alternativas.
A primeira é aritmética. A segunda fica visível quando a temporária oposição se concentra na construção de uma “narrativa” para eleições vindouras, em vez de buscar construir um governo viável no “volta Dilma”.
Se a oposição temporária se comporta como definitiva, eis um sinal. E o comportamento é realista. Mesmo a mandatária deposta parece estar mais empenhada em “marcar posição” do que qualquer outra coisa.
Seu diagnóstico de que o maior erro foi fazer alianças com o comando do PMDB é prova. Pena ainda não ter tido a oportunidade de explicar como governaria sem aliar-se do centro para a direita.
A condescendência com os provisórios chega a incomodar, mas tem lógica.
O pé no acelerador dos gastos explica-se como investimento tático. Para extirpar de vez o governo caído e abrir caminho ao plano estratégico: estabilizar a política para permitir um ciclo de expansão baseado em mais liberdade e mais retorno para o capital.
Por isso os empresários aplaudem.
Plano ao qual tampouco há alternativas. Tivesse Dilma Rousseff habilidade, flexibilidade e liderança sobre o PT, poderia atrair o centro e neutralizar o “situacionismo de esquerda”, para fazer o que tem de ser feito na economia.
Mas a presidente afastada parece ter gastado suas fichas, e assim a vida segue, à espera de surpresas na votação final no Senado ou de algo na Lava-Jato e filhotes que desmanche o conveniente arranjo das peças.
Mesmo nesse segundo vetor será necessário medir o efeito político estrito. As consequências dos movimentos de Sérgio Machado, por exemplo, mostram-se hoje menos dramáticas do que parecia num primeiro instante. Ainda que lá na frente possam aparecer em cores mais vivas.
Enquanto isso, aqui e ali, notam-se resistências pontuais à absoluta desenvoltura de policiais e promotores. Mas não convém superestimar: em outros momentos o aparato repressivo parecia em vias de contenção. Até que uma nova ação bombástica recolocasse as coisas no lugar.
Daí por que, como dito semana passada, mais provável é que o sistema político busque conter os efeitos políticos da Lava-Jato, na impossibilidade de estancar a operação em si. Mas para isso será prudente evitar que a sucessão do presidente da Câmara provoque uma guerra civil na política.
Alguns obstáculos a uma solução pacífica:
A velha oposição não quer dar mais poder ao PMDB ou ao centrão
O PMDB e o centrão não querem abrir espaço ao PSDB e ao DEM
O presidente da Câmara quer escapar da cassação
O governo não quer brigar com o presidente da Câmara
O PT aceita ajudar quem possa dividir a base do governo
São muitas variáveis que o governo precisa controlar para produzir um pós-Eduardo Cunha amigável no Congresso, que ajudaria a agenda do pós-PT.
Prestar atenção:
1) Evolução do caso Eduardo Cunha na Câmara e no Judiciário
2) Aproximação da reta final da Comissão do Impeachment
3) Surpresas da Lava-Jato
Até a semana que vem.
A primeira é aritmética. A segunda fica visível quando a temporária oposição se concentra na construção de uma “narrativa” para eleições vindouras, em vez de buscar construir um governo viável no “volta Dilma”.
Se a oposição temporária se comporta como definitiva, eis um sinal. E o comportamento é realista. Mesmo a mandatária deposta parece estar mais empenhada em “marcar posição” do que qualquer outra coisa.
Seu diagnóstico de que o maior erro foi fazer alianças com o comando do PMDB é prova. Pena ainda não ter tido a oportunidade de explicar como governaria sem aliar-se do centro para a direita.
A condescendência com os provisórios chega a incomodar, mas tem lógica.
O pé no acelerador dos gastos explica-se como investimento tático. Para extirpar de vez o governo caído e abrir caminho ao plano estratégico: estabilizar a política para permitir um ciclo de expansão baseado em mais liberdade e mais retorno para o capital.
Por isso os empresários aplaudem.
Plano ao qual tampouco há alternativas. Tivesse Dilma Rousseff habilidade, flexibilidade e liderança sobre o PT, poderia atrair o centro e neutralizar o “situacionismo de esquerda”, para fazer o que tem de ser feito na economia.
Mas a presidente afastada parece ter gastado suas fichas, e assim a vida segue, à espera de surpresas na votação final no Senado ou de algo na Lava-Jato e filhotes que desmanche o conveniente arranjo das peças.
Mesmo nesse segundo vetor será necessário medir o efeito político estrito. As consequências dos movimentos de Sérgio Machado, por exemplo, mostram-se hoje menos dramáticas do que parecia num primeiro instante. Ainda que lá na frente possam aparecer em cores mais vivas.
Enquanto isso, aqui e ali, notam-se resistências pontuais à absoluta desenvoltura de policiais e promotores. Mas não convém superestimar: em outros momentos o aparato repressivo parecia em vias de contenção. Até que uma nova ação bombástica recolocasse as coisas no lugar.
Daí por que, como dito semana passada, mais provável é que o sistema político busque conter os efeitos políticos da Lava-Jato, na impossibilidade de estancar a operação em si. Mas para isso será prudente evitar que a sucessão do presidente da Câmara provoque uma guerra civil na política.
Alguns obstáculos a uma solução pacífica:
São muitas variáveis que o governo precisa controlar para produzir um pós-Eduardo Cunha amigável no Congresso, que ajudaria a agenda do pós-PT.
Prestar atenção:
1) Evolução do caso Eduardo Cunha na Câmara e no Judiciário
2) Aproximação da reta final da Comissão do Impeachment
3) Surpresas da Lava-Jato
Até a semana que vem.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
Ovo de Colombo, "cada um na sua" ajuda governo Temer a buscar estabilidade
Tecnicamente, Dilma Rousseff foi afastada no impeachment. Mas o impeachment foi apenas o instrumento disponível para remover um governo que não governava mais. Estava paralisado havia tempos por três vetores: 1) a perda da maioria congressual, 2) a incapacidade de apresentar um programa econômico viável e 3) a Lava-Jato.
Portanto é lógico que o poder provisório tente neutralizar prioritariamente os vetores que derrubaram Dilma. Michel Temer constituiu uma forte base na Câmara dos Deputados e no Senado e uma equipe econômica vistosa e crível. E a Lava-Jato? Continua a correr no trilho original. Não imune a contradições, mas com velocidade própria.
Diz o ditado que banco não faz pão e, então, padaria tem a prerrogativa de não vender fiado. Cada um na sua. A administração interina procura evitar a armadilha que tragou o governo caído: tenta governar em meio à Lava-Jato e à guerra política crônica.
Dilma até quis o mesmo, mas não conseguiu. Também porque o PT preferiu jogar para a plateia em vez de buscar uma coalizão política realista.
Assim, a instalação definitiva de Temer na Presidência depende menos da contabilidade eventual de votos no Senado e mais de seguir governando. E nesse aspecto os provisórios têm sido, como já dito antes, bastante ajudados pelo PT: a incerteza absoluta sobre o que seria um renascido governo Dilma acrescenta musculatura ao temerismo.
Nem a Lava-Jato vem conseguindo desestabilizar a tendência. Porque 1) não revelou até agora vínculos diretos e inquestionáveis de Temer com a corrupção e 2) porque o ambiente político e econômico vai se adaptando ao novo ecossistema. Polícia Federal e Ministério Público investigam e denunciam, a Justiça julga e o governo governa. Cada um na sua.
Há conexões entre as variáveis, mas há autonomia. Eis o ovo de Colombo: se não faz sentido o governo se meter na Lava-Jato, que tal praticar a mesma lógica no sentido inverso? Se Dilma tivesse colocado o ovo em pé talvez ainda frequentasse o Palácio do Planalto e não estivesse atrás de atalhos, como o nebuloso plebiscito.
Se os procuradores, investigadores e juízes têm suas armas, os políticos também têm. A prerrogativa de removê-los dos cargos antes das eleições continua sendo deles mesmos. Apenas em casos extremos o Supremo Tribunal Federal entra em cena.
Se haverá ao final centenas de deputados e senadores alcançados em algum grau pela Lava-Jato, é impensável que até 2018 o STF vá degolar todos, ou a maioria, ou mesmo muitos. Portanto, a não ser que sobrevenha uma improvável insurreição popular (quem a lideraria?), o destino dos políticos está nas mãos dos políticos até que os eleitores votem daqui a dois anos.
E o resultado do plebiscito na terra da rainha sobre deixar a União Europeia deveria estimular prudência nas previsões eleitorais. Pode ser que as próximas eleições tragam uma mudança radical. E pode ser que não, completaria o Conselheiro Acácio.
Eis por que a política se parece cada vez mais com uma cidade bombardeada. Do alto, a imagem da destruição. De perto é diferente. A cada dia os sobreviventes enterram ou incineram seus mortos e os alheios. Tratam dos feridos. E saem para achar pão, leite, carne, ovos ou verduras. Dá-se um jeito de as crianças continuarem indo às aulas. Busca-se até alguma diversão. E a vida segue nas novas e difíceis circunstâncias.
Claro que sempre existe a possibilidade de alguém encontrar a arma definitiva, que abrevie o desfecho. Uma bomba de nêutrons, que elimine a população adversária e preserve as estruturas para serem ocupadas pelos exércitos vencedores. Não seria prudente afastar completamente essa alternativa. Mas ela não parece provável agora.
Prestar atenção:
1) Nas articulações para substituir Eduardo Cunha
2) Nas delações premiadas que vêm aí
3) Na explicitação da proposta dilmista de plebiscito para a convocação de novas eleições
Até a semana que vem.
Portanto é lógico que o poder provisório tente neutralizar prioritariamente os vetores que derrubaram Dilma. Michel Temer constituiu uma forte base na Câmara dos Deputados e no Senado e uma equipe econômica vistosa e crível. E a Lava-Jato? Continua a correr no trilho original. Não imune a contradições, mas com velocidade própria.
Diz o ditado que banco não faz pão e, então, padaria tem a prerrogativa de não vender fiado. Cada um na sua. A administração interina procura evitar a armadilha que tragou o governo caído: tenta governar em meio à Lava-Jato e à guerra política crônica.
Dilma até quis o mesmo, mas não conseguiu. Também porque o PT preferiu jogar para a plateia em vez de buscar uma coalizão política realista.
Assim, a instalação definitiva de Temer na Presidência depende menos da contabilidade eventual de votos no Senado e mais de seguir governando. E nesse aspecto os provisórios têm sido, como já dito antes, bastante ajudados pelo PT: a incerteza absoluta sobre o que seria um renascido governo Dilma acrescenta musculatura ao temerismo.
Nem a Lava-Jato vem conseguindo desestabilizar a tendência. Porque 1) não revelou até agora vínculos diretos e inquestionáveis de Temer com a corrupção e 2) porque o ambiente político e econômico vai se adaptando ao novo ecossistema. Polícia Federal e Ministério Público investigam e denunciam, a Justiça julga e o governo governa. Cada um na sua.
Há conexões entre as variáveis, mas há autonomia. Eis o ovo de Colombo: se não faz sentido o governo se meter na Lava-Jato, que tal praticar a mesma lógica no sentido inverso? Se Dilma tivesse colocado o ovo em pé talvez ainda frequentasse o Palácio do Planalto e não estivesse atrás de atalhos, como o nebuloso plebiscito.
Se os procuradores, investigadores e juízes têm suas armas, os políticos também têm. A prerrogativa de removê-los dos cargos antes das eleições continua sendo deles mesmos. Apenas em casos extremos o Supremo Tribunal Federal entra em cena.
Se haverá ao final centenas de deputados e senadores alcançados em algum grau pela Lava-Jato, é impensável que até 2018 o STF vá degolar todos, ou a maioria, ou mesmo muitos. Portanto, a não ser que sobrevenha uma improvável insurreição popular (quem a lideraria?), o destino dos políticos está nas mãos dos políticos até que os eleitores votem daqui a dois anos.
E o resultado do plebiscito na terra da rainha sobre deixar a União Europeia deveria estimular prudência nas previsões eleitorais. Pode ser que as próximas eleições tragam uma mudança radical. E pode ser que não, completaria o Conselheiro Acácio.
Eis por que a política se parece cada vez mais com uma cidade bombardeada. Do alto, a imagem da destruição. De perto é diferente. A cada dia os sobreviventes enterram ou incineram seus mortos e os alheios. Tratam dos feridos. E saem para achar pão, leite, carne, ovos ou verduras. Dá-se um jeito de as crianças continuarem indo às aulas. Busca-se até alguma diversão. E a vida segue nas novas e difíceis circunstâncias.
Claro que sempre existe a possibilidade de alguém encontrar a arma definitiva, que abrevie o desfecho. Uma bomba de nêutrons, que elimine a população adversária e preserve as estruturas para serem ocupadas pelos exércitos vencedores. Não seria prudente afastar completamente essa alternativa. Mas ela não parece provável agora.
Prestar atenção:
1) Nas articulações para substituir Eduardo Cunha
2) Nas delações premiadas que vêm aí
3) Na explicitação da proposta dilmista de plebiscito para a convocação de novas eleições
Até a semana que vem.
segunda-feira, 20 de junho de 2016
Sucessão na Câmara é desafio para estabilidade e perenidade de Temer
O governo Temer enfrenta alguns desafios. 1) baixas causadas pela Lava-
Jato, 2) guerra de comunicação contra o PT, 3) passar medidas econômicas
impopulares no Congresso. Mas em duas áreas onde se esperavam
problemas maiores a oposição é fraca: 4) baixa resistência social e 5)
tranquilidade no front externo.
As primeiras pesquisas mostram que no país a expectativa geral (não a da elite econômica) com o governo provisório é medíocre. Mas ainda leva vantagem sobre o governo afastado, avaliado mal e pessimamente. Os provisórios não têm torcida, nem exército cultural. São tolerados como a alternativa possível a uma opção altamente rejeitada.
Isso pode perdurar, desde que Temer resista ele próprio à contaminação da Lava-Jato, mantenha o governo operacional e consiga aval do Congresso para algum plano econômico. Governos mediocremente avaliados já sobreviveram no Brasil recente porque impediram a desagregação da base parlamentar. E porque as alternativas não despertavam entusiasmo.
O PT tem ajudado Temer, ao se colocar mais à esquerda do que o razoável para quem pretende voltar já ao poder. Dilma Rousseff continua a martelar somente no que considera os defeitos políticos de nascença do governo provisório, sem dizer o que faria na economia se voltasse ao Planalto num eventual colapso da frente pró-impeachment.
Dilma talvez pretenda para ela o que o PMDB de Temer obteve em meados de abril: uma carta branca. Mas os hoje provisórios conseguiram esse passe porque a tolerância a Dilma terminara. Ou seja, a estratégia dilmista depende menos dela própria e mais do colapso do adversário. Depende de o antitemerismo superar o antidilmismo.
Na sociedade, segundo as pesquisas, a maioria antipetista parece em processo de consolidação. Se o PT, Lula e Dilma conseguiram reunir seu campo político na resistência ao que descrevem como um golpe conservador, pagam o preço de alienar o centro político. Talvez trabalhem com a hipótese da implosão do bloco de Temer e de arrastarem o centro por gravidade. Ou talvez estejam mais de olho nas eleições vindouras.
Esse seria o desenho de uma tendência de certo prazo, não houvesse uma questão prática a resolver logo, a sucessão na Presidência da Câmara dos Deputados. É improvável que o status quo perdure, por duas razões: a Justiça e o interesse crescente do governo provisório e dos próprios deputados numa solução que traga estabilidade.
A Casa está hoje dividida em três grandes blocos. A antiga oposição, a antiga área de influência do presidente afastado e o PT e satélites. O segundo bloco vence a eleição se se aliar ao primeiro ou ao terceiro. Já se houver uma aliança entre os extremos o resultado fica menos previsível, mas há possibilidade real de o governo perder.
Resta ver se a abertura dessa disputa trará o PT de volta ao velho pragmatismo. Poderia, por exemplo, apoiar um candidato da velha oposiçã o. Ou alguém do chamado “centrão” que fosse para Temer o que Eduardo Cunha foi para Dilma no primeiro semestre de 2015: uma pedra no sapato sob o rótulo de independência.
Ao governo, ficará o desafio de reunir sua base para um único nome que traga o apoio do PMDB, do centro, de Cunha e do campo político que orbita o PSDB. Não será trivial. Seria mais fácil semanas atrás, e ficará tão mais difícil quando mais a Lava-Jato minar o núcleo dos provisórios.
E convém lembrar que o presidente da Câmara dos Deputados tem a prerrogativa de desencadear impeachment. E que estaria agora apenas a uma casa de ocupar o Planalto. E que nada o impediria de tentar continuar depois. Principalmente no caso de uma eleição indireta, a partir de janeiro de 2017. E que a carnificina da Lava-Jato abre possibilidades reais para um nome novo em 2018. E que se esse nome novo estiver sentado no Planalto e tiver atravessado a crise, melhor ainda para ele.
Até a semana que vem.
As primeiras pesquisas mostram que no país a expectativa geral (não a da elite econômica) com o governo provisório é medíocre. Mas ainda leva vantagem sobre o governo afastado, avaliado mal e pessimamente. Os provisórios não têm torcida, nem exército cultural. São tolerados como a alternativa possível a uma opção altamente rejeitada.
Isso pode perdurar, desde que Temer resista ele próprio à contaminação da Lava-Jato, mantenha o governo operacional e consiga aval do Congresso para algum plano econômico. Governos mediocremente avaliados já sobreviveram no Brasil recente porque impediram a desagregação da base parlamentar. E porque as alternativas não despertavam entusiasmo.
O PT tem ajudado Temer, ao se colocar mais à esquerda do que o razoável para quem pretende voltar já ao poder. Dilma Rousseff continua a martelar somente no que considera os defeitos políticos de nascença do governo provisório, sem dizer o que faria na economia se voltasse ao Planalto num eventual colapso da frente pró-impeachment.
Dilma talvez pretenda para ela o que o PMDB de Temer obteve em meados de abril: uma carta branca. Mas os hoje provisórios conseguiram esse passe porque a tolerância a Dilma terminara. Ou seja, a estratégia dilmista depende menos dela própria e mais do colapso do adversário. Depende de o antitemerismo superar o antidilmismo.
Na sociedade, segundo as pesquisas, a maioria antipetista parece em processo de consolidação. Se o PT, Lula e Dilma conseguiram reunir seu campo político na resistência ao que descrevem como um golpe conservador, pagam o preço de alienar o centro político. Talvez trabalhem com a hipótese da implosão do bloco de Temer e de arrastarem o centro por gravidade. Ou talvez estejam mais de olho nas eleições vindouras.
Esse seria o desenho de uma tendência de certo prazo, não houvesse uma questão prática a resolver logo, a sucessão na Presidência da Câmara dos Deputados. É improvável que o status quo perdure, por duas razões: a Justiça e o interesse crescente do governo provisório e dos próprios deputados numa solução que traga estabilidade.
A Casa está hoje dividida em três grandes blocos. A antiga oposição, a antiga área de influência do presidente afastado e o PT e satélites. O segundo bloco vence a eleição se se aliar ao primeiro ou ao terceiro. Já se houver uma aliança entre os extremos o resultado fica menos previsível, mas há possibilidade real de o governo perder.
Resta ver se a abertura dessa disputa trará o PT de volta ao velho pragmatismo. Poderia, por exemplo, apoiar um candidato da velha oposiçã o. Ou alguém do chamado “centrão” que fosse para Temer o que Eduardo Cunha foi para Dilma no primeiro semestre de 2015: uma pedra no sapato sob o rótulo de independência.
Ao governo, ficará o desafio de reunir sua base para um único nome que traga o apoio do PMDB, do centro, de Cunha e do campo político que orbita o PSDB. Não será trivial. Seria mais fácil semanas atrás, e ficará tão mais difícil quando mais a Lava-Jato minar o núcleo dos provisórios.
E convém lembrar que o presidente da Câmara dos Deputados tem a prerrogativa de desencadear impeachment. E que estaria agora apenas a uma casa de ocupar o Planalto. E que nada o impediria de tentar continuar depois. Principalmente no caso de uma eleição indireta, a partir de janeiro de 2017. E que a carnificina da Lava-Jato abre possibilidades reais para um nome novo em 2018. E que se esse nome novo estiver sentado no Planalto e tiver atravessado a crise, melhor ainda para ele.
Até a semana que vem.
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Temer tenta se beneficiar do desejo de estabilidade e dificultar projeto de Dilma
A política e a economia querem saber os prazos da interinidade de Michel Temer na Presidência da República. Quando o Senado vai votar o afastamento final da presidente. A partir daí, viria em teoria um governo mais estável, capaz de avançar em reformas econômicas e políticas mais profundas.
Pode ser apenas vontade, mas a divisão a favor e contra eleições imediatas, medida pelas últimas pesquisas, é sintoma desse desejo crescente de estabilidade.
Dois vetores opõem-se hoje. O primeiro força a renovação radical, na esteira da Lava-Jato. O segundo força a governabilidade política e econômica, na esteira da recessão e do desemprego.
No mundo ideal, haveria alguém pronto a fazer as duas coisas andarem juntas. Um governo livre das máculas da velha política e capaz de reunir maioria parlamentar e social para reformas que libertem as forças produtivas das amarras impostas pelas antigas relações.
Algo parecido com o figurino vendido por Luiz Inácio Lula da Silva na largada de 2003.
Na vida real, o cenário é bem diferente. A profunda divisão entre os campos políticos e a proximidade de 2018 estimulam cada ator a radicalizar no seu papel e dar prioridade à hegemonia em seu respectivo bloco, dificultando a convergência.
E as labaredas da Lava-Jato parecem não querer poupar ninguém.
Mas esse último ponto embute a possibilidade de, no futuro, paradoxalmente, o maior escândalo político da nossa história resultar num jogo de soma quase zero. Cobrará um preço alto dos políticos e dos empresários mais atingidos, mas talvez não venha a ser o fator decisivo de desempate na disputa presidencial de daqui a pouco mais de dois anos.
Por essa hipótese, a vantagem decisiva será de quem mostrar capacidade de reunir o apoio necessário para fazer a política rodar com eficiência, mesmo sob fogo, e assim tomar as medidas de relançamento da economia nacional. E se vale para 2018, vale também para o desfecho do impeachment programado (mas só programado) para agosto.
Passado um mês, o presidente interino agarra-se ao prestígio da equipe econômica que formou e à força da base parlamentar. A presidente afastada explora a anemia do apoio popular a Temer e as dúvidas jurídicas em torno do impeachment. Temer joga com as brancas. Tem a iniciativa. Está no poder.
Dilma precisa pender à esquerda para manter sua tropa reunida e operacional, evitando o risco da dispersão. Mas isso a atrapalha na apresentação de alternativas viáveis de futuro. Sobre a economia, ninguém tem ideia do que faria se reinstalada. E o aventado plebiscito está longe de apontar para a estabilização.
Dilma de volta ao Planalto, teríamos: 1) um tempo para debater e aprovar o plebiscito, 2) mais um tempo para fazer o plebiscito, 3) mais um tempo para fazer a eleição presidencial. Se o plebiscito mantivesse o mandato de Dilma, viria 4) um governo de minoria por mais dois anos. É muito espaço para instabilidade. E portanto para dúvidas.
A receita temerista pode desandar? Sim. A Lava-Jato pode acertar no coração e na cabeça do governo. O Congresso pode recusar apoio ao reequilíbrio das contas. A coisa pode complicar na solução para a presidência da Câmara dos Deputados. O Senado pode ser colhido num tsunami policial-político.
É prudente deixar espaço para o imprevisto, mas também será inteligente considerar a possibilidade de os mundos político e econômico buscarem uma saída possível para evitar o colapso e a implosão. No momento, Temer apresenta-se como a solução à mão. Pelo efeito contraste, tem cartas melhores que a adversária.
Pode ser apenas vontade, mas a divisão a favor e contra eleições imediatas, medida pelas últimas pesquisas, é sintoma desse desejo crescente de estabilidade.
Dois vetores opõem-se hoje. O primeiro força a renovação radical, na esteira da Lava-Jato. O segundo força a governabilidade política e econômica, na esteira da recessão e do desemprego.
No mundo ideal, haveria alguém pronto a fazer as duas coisas andarem juntas. Um governo livre das máculas da velha política e capaz de reunir maioria parlamentar e social para reformas que libertem as forças produtivas das amarras impostas pelas antigas relações.
Algo parecido com o figurino vendido por Luiz Inácio Lula da Silva na largada de 2003.
Na vida real, o cenário é bem diferente. A profunda divisão entre os campos políticos e a proximidade de 2018 estimulam cada ator a radicalizar no seu papel e dar prioridade à hegemonia em seu respectivo bloco, dificultando a convergência.
E as labaredas da Lava-Jato parecem não querer poupar ninguém.
Mas esse último ponto embute a possibilidade de, no futuro, paradoxalmente, o maior escândalo político da nossa história resultar num jogo de soma quase zero. Cobrará um preço alto dos políticos e dos empresários mais atingidos, mas talvez não venha a ser o fator decisivo de desempate na disputa presidencial de daqui a pouco mais de dois anos.
Por essa hipótese, a vantagem decisiva será de quem mostrar capacidade de reunir o apoio necessário para fazer a política rodar com eficiência, mesmo sob fogo, e assim tomar as medidas de relançamento da economia nacional. E se vale para 2018, vale também para o desfecho do impeachment programado (mas só programado) para agosto.
Passado um mês, o presidente interino agarra-se ao prestígio da equipe econômica que formou e à força da base parlamentar. A presidente afastada explora a anemia do apoio popular a Temer e as dúvidas jurídicas em torno do impeachment. Temer joga com as brancas. Tem a iniciativa. Está no poder.
Dilma precisa pender à esquerda para manter sua tropa reunida e operacional, evitando o risco da dispersão. Mas isso a atrapalha na apresentação de alternativas viáveis de futuro. Sobre a economia, ninguém tem ideia do que faria se reinstalada. E o aventado plebiscito está longe de apontar para a estabilização.
Dilma de volta ao Planalto, teríamos: 1) um tempo para debater e aprovar o plebiscito, 2) mais um tempo para fazer o plebiscito, 3) mais um tempo para fazer a eleição presidencial. Se o plebiscito mantivesse o mandato de Dilma, viria 4) um governo de minoria por mais dois anos. É muito espaço para instabilidade. E portanto para dúvidas.
A receita temerista pode desandar? Sim. A Lava-Jato pode acertar no coração e na cabeça do governo. O Congresso pode recusar apoio ao reequilíbrio das contas. A coisa pode complicar na solução para a presidência da Câmara dos Deputados. O Senado pode ser colhido num tsunami policial-político.
É prudente deixar espaço para o imprevisto, mas também será inteligente considerar a possibilidade de os mundos político e econômico buscarem uma saída possível para evitar o colapso e a implosão. No momento, Temer apresenta-se como a solução à mão. Pelo efeito contraste, tem cartas melhores que a adversária.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Bem no Congresso e mal na imprensa, Temer beneficia-se do "Volta Dilma"
O governo provisório atravessou bem os testes iniciais no Congresso. Parece que o chacoalhar policial-midiático não provocou ainda rachaduras de desestabilização precoce. Aprovou um megadeficit capaz de aninhar as demandas políticas essenciais para finalizar a deposição de Dilma Rousseff e exibiu músculos na primeira votação da DRU de 30%.
A força congressual e o conforto da elite empresarial com a equipe econômica são os trunfos iniciais da administração. O governo Michel Temer sustenta-se sobre estas duas pernas: as ideias para a economia e os votos para aprová-las. O alarido é grande, mas enquanto as pernas mantém o corpo erguido o temerismo vai à frente no placar.
Focos potenciais de dúvida: a eventual substituição no comando das duas Casas e a desidratação das medidas econômicas pelo Legislativo. Mas se o governo mantiver a base suficientemente coesa terá como administrar favoravelmente ambos os problemas. Governos podem até resistir à crise permanente, mas não costumam sobreviver a perdas decisivas de apoio.
O interino enfrenta dificuldades imediatas em duas frentes: 1) as revelações e acusações criminais contra sua tropa e 2) a hostilidade do noticiário. O segundo ponto é natural para um time, o PMDB, que não tem ou tem pouca torcida nas fortalezas da guerra cultural. E o primeiro já é um dado da realidade. E a queda do PT transformou o PMDB no prato principal.
Aqui e ali pipocam no noticiário especulações sobre a possível falta de votos para afastar Dilma definitivamente. Por enquanto, devem ser lançadas na coluna dos políticos em busca de valorizar o próprio passe. Assim como as votações iniciais, a decisão final não vai depender de um ou outro senador, mas do movimento social e político na hora da decisão.
A presidente no exílio interno está bastante ativa na resistência ao afastamento e tem mantido a coesão de seu bloco. Mas até o momento não ampliou o apoio para além dos que se opuseram a seu afastamento. Por enquanto, os movimentos pró-Dilma e anti-Temer emitem mais calor do que luz. Mas convém ficar de olho.
Uma fragilidade da presidente afastada é não projetar qualquer desenho de futuro. O que seria um eventual governo Dilma, na economia e na política, até 2018? Não se visualiza. O discurso de seus apoiadores limita-se à acusação de ilegalidade e ilegitimidade. Mas não se explica por que e como a eventual volta dela ajudaria a resolver os problemas do Brasil.
É um trunfo de Temer, que se apresenta como "o governo possível". Mas sempre sob a ameaça das "diretas já", via PEC ou TSE. Alguns do campo dilmista acenam com um plebiscito convocado por ela para decidir sobre a antecipação da eleição. Soa mais um expediente para ganhar tempo, se reassumir a cadeira.
Um neoqueremismo, agora em torno de Dilma Rousseff, tem escassas possibilidades de decolar. "Plebiscito com Dilma" é uma palavra de ordem de apelo duvidoso para um país que busca, na essência, um governo que enfrente os desajustes econômicos e consiga apoio político para isso. E a Lava-Jato não chega a ser um vetor de desempate entre PT e PMDB.
A não ser, naturalmente, que alcance o presidente interino.
Assim, reafirmamos nossa hipótese principal. Se o governo provisório mantiver a base congressual e votar medidas que produzam animação econômica, tende a ser tolerado ao longo do tempo. E tende a reunir os 54 votos no Senado.
Mas, como mostra a experiência, no realismo fantástico da política brasileira nunca é demais respeitar sua excelência, o imponderável.
De olho em:
• Andamento do processo contra Eduardo Cunha na Câmara
• Novidades nas delações premiadas da Lava-Jato
• Ações da Justiça contra figuras exponenciais da República
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Lava-Jato chacoalha o governo interino, mas Temer mantém vantagem estratégica
A largada do presidente interino é contraditória. 1) Demonstrou força política ao aprovar no Congresso permissão para um megadeficit de 170 bilhões. 2) Sua embrionária administração foi chacoalhada pelo recrudescimento da Lava-Jato.
O governo provisório tem também dificuldades na guerra da comunicação. O PT e Dilma Rousseff, agora livres da tarefa em que não vinham bem (governar), lutam no terreno que dominam: a construção da narrativa. Repetem as quatro eleições vitoriosas. Atribuem ao adversário os piores defeitos, para imobilizá-lo e tentar vencer na disputa de rejeições.
Temer entra em desvantagem nesse campo porque seu governo não tem torcida. O regulamento (Constituição) favorece. Ele tem um time forte (Congresso, ministério, equipe econômica). Mas as arquibancadas dividem-se entre a oposição e a indiferença, que os escândalos trabalham para transformar em má-vontade.
É nesse caldo de cultura que Lula e o PT tentam mexer o Senado. Propõem um pacto para reinstalar Dilma e convocar eleições. A tese tem potencial para produzir perturbação. Se um punhado de senadores pró-impeachment aderir, podem faltar votos contra a presidente na decisão final.
A execução disso não seria entretanto trivial.
Será preciso saber se o Senado aceitará recolocar Dilma fiando-se num contrato futuro de resgate incerto. Uma emenda constitucional para antecipar a eleição de presidente precisaria de três quintos em duas votações em cada Casa. Livre da espada do impeachment, é possível que o governo reinstalado não fizesse muita força a favor da PEC, usando a caneta para anabolizar-se.
Seria preferível então aprovar a PEC antes da votação final do impeachment, para dar as garantias aos em dúvida. Mas aí aparece outro problema: quem estaria no Planalto na ocasião seria Temer. E dificilmente a proposta avançaria sem apoio dele.
Supondo que o interino se enfraqueça ao ponto de precisar aceitar a amputação do próprio mandato, restar-lhe-á sempre a opção de ele próprio patrocinar a coisa. Com a condição de ficar no cargo até a eleição extraordinária. Para evitar que o PT vá às urnas comandando a máquina federal. A própria base governista aprovaria então primeiro a PEC e depois o fim definitivo de Dilma.
É improvável que a administração interina se atrapalhe na articulação política, tendo a caneta e beneficiada pelo fantasma do “Volta Dilma”. Especialmente depois que o PT guinou à esquerda para reagrupar a base social e manter a hegemonia no seu bloco histórico.
Sem contar ainda que a coisa toda precisaria da chancela do STF.
Apesar da Lava-Jato e do cerco petista. Temer mantém portanto a vantagem estratégica. Os riscos: 1) A Lava-Jato atingi-lo. 2) Uma rebelião popular ou no Congresso contra as medidas econômicas.
Nessas circunstâncias, porém, mais provável seria o Tribunal Superior Eleitoral aparecer para cortar o nó górdio.
Claro que sempre resta a opção de o campo político de Temer simplesmente implodir e Dilma voltar por inércia. Mas no momento essa probabilidade gira em torno de 1%.
O governo provisório tem também dificuldades na guerra da comunicação. O PT e Dilma Rousseff, agora livres da tarefa em que não vinham bem (governar), lutam no terreno que dominam: a construção da narrativa. Repetem as quatro eleições vitoriosas. Atribuem ao adversário os piores defeitos, para imobilizá-lo e tentar vencer na disputa de rejeições.
Temer entra em desvantagem nesse campo porque seu governo não tem torcida. O regulamento (Constituição) favorece. Ele tem um time forte (Congresso, ministério, equipe econômica). Mas as arquibancadas dividem-se entre a oposição e a indiferença, que os escândalos trabalham para transformar em má-vontade.
É nesse caldo de cultura que Lula e o PT tentam mexer o Senado. Propõem um pacto para reinstalar Dilma e convocar eleições. A tese tem potencial para produzir perturbação. Se um punhado de senadores pró-impeachment aderir, podem faltar votos contra a presidente na decisão final.
A execução disso não seria entretanto trivial.
Será preciso saber se o Senado aceitará recolocar Dilma fiando-se num contrato futuro de resgate incerto. Uma emenda constitucional para antecipar a eleição de presidente precisaria de três quintos em duas votações em cada Casa. Livre da espada do impeachment, é possível que o governo reinstalado não fizesse muita força a favor da PEC, usando a caneta para anabolizar-se.
Seria preferível então aprovar a PEC antes da votação final do impeachment, para dar as garantias aos em dúvida. Mas aí aparece outro problema: quem estaria no Planalto na ocasião seria Temer. E dificilmente a proposta avançaria sem apoio dele.
Supondo que o interino se enfraqueça ao ponto de precisar aceitar a amputação do próprio mandato, restar-lhe-á sempre a opção de ele próprio patrocinar a coisa. Com a condição de ficar no cargo até a eleição extraordinária. Para evitar que o PT vá às urnas comandando a máquina federal. A própria base governista aprovaria então primeiro a PEC e depois o fim definitivo de Dilma.
É improvável que a administração interina se atrapalhe na articulação política, tendo a caneta e beneficiada pelo fantasma do “Volta Dilma”. Especialmente depois que o PT guinou à esquerda para reagrupar a base social e manter a hegemonia no seu bloco histórico.
Sem contar ainda que a coisa toda precisaria da chancela do STF.
Apesar da Lava-Jato e do cerco petista. Temer mantém portanto a vantagem estratégica. Os riscos: 1) A Lava-Jato atingi-lo. 2) Uma rebelião popular ou no Congresso contra as medidas econômicas.
Nessas circunstâncias, porém, mais provável seria o Tribunal Superior Eleitoral aparecer para cortar o nó górdio.
Claro que sempre resta a opção de o campo político de Temer simplesmente implodir e Dilma voltar por inércia. Mas no momento essa probabilidade gira em torno de 1%.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Semana mostra se Congresso aprovará o orçamento para finalizar o impeachment
O principal objetivo de todo governo provisório é perenizar-se. E todo governo é provisório em algum grau. Monarcas absolutos querem deixar herdeiros e perpetuar a dinastia. Primeiros-ministros no parlamentarismo querem reeleger-se indefinidamente. Presidentes no presidencialismo idem, quando a lei deixa. Quando não, querem mudá-la, ou emplacar o sucessor.
Michel Temer organizou o governo provisório com o objetivo de torná-lo definitivo. Para tanto, o interino precisa 1) mostrar capacidade de operar a economia em meio à tragédia fiscal e 2) mostrar que tem maioria no Congresso para executar a operação econômica. Afinal, Dilma Rousseff está bem ali, no Alvorada, à espera de qualquer escorregão.
O barco do temerismo chacoalha bastante nos primeiros dias de viagem, mas é preciso observar se isso causará rombos no casco da base congressual. A tripulação parece empenhada em chegar ao porto seguro da votação final no Senado, para afastar Dilma definitivamente.
As muitas idas e vindas iniciais precisarão ser avaliadas pelo critério da resultante política. Qual delas fará o governo provisório perder substância na sociedade (onde é apenas tolerado) ou no Congresso? Qual delas aumentará a probabilidade de o Senado não confirmar a deposição da presidente eleita?
Temer fez dois movimentos na largada. Distribuiu o governo para todos os partidos e grupos que podem ajudá-lo nesta etapa e pediu ao Congresso autorização para um déficit orçamentário que permita ao Executivo governar. Ou seja, gastar para cumprir compromissos políticos e para estancar a debacle econômica. Austeridade? Só depois.
A estratégia tenta neutralizar o ponto principal da argumentação petista, de que o temerismo veio para implantar políticas austeras, e portanto antipopulares. O plano petista parece ser a sua reinvenção como um Podemos/Syriza, um partido antiausteridade. Se não houver correpondência na realidade imediata, o petismo corre o risco de ficar, pelo menos por um tempo, falando para si mesmo e seus satélites.
Outro pilar do projeto de reinvenção do PT também pode acabar ajudando o governo provisório. Uma pitada de PSUV. O partido parece ter concluído que errou ao não tentar ampliar decisivamente sua influência sobre o Estado -incluídas a Justiça e as Forças Armadas- e sobre a chamada comunicação social. Quem não concorda com esse objetivo, tenderá no curto prazo a continuar tolerando Temer.
Essa é a teoria. A vida real recomeça agora, quando o Congresso precisa votar a revisão do Orçamento da União. Será a primeira prova prática da capacidade operacional da nova articulação política. Será a oportunidade de verificar quantos dos votos pró-impeachment na Câmara e no Senado são também votos pró-estabilização do governo Temer.
O Planalto parece ter alguma margem de segurança para os passos iniciais no Congresso. Mas há focos potenciais de problemas. Um é o duplo nó górdio da Presidência da Câmara dos Deputados, os problemas com Eduardo Cunha e seu vice, hoje interino. Outro é a tensão entre Cunha e o estratégico presidente do Senado, Renan Calheiros.
Só os fatos dirão se esses pontos de instabilidade serão suficientes para fazer desandar a receita. Em tempos normais, o Executivo teria força para moderar conflitos no Poder vizinho. Em tempos normais.
Outro ponto de atenção é a disputa no plano internacional entre o governo deposto e o provisório, em busca de reconhecimento. Se a resistência a Temer ficou até agora circunscrita, os grandes jogadores globais (EUA, China) parecem preferir esperar pela decisão definitiva do Senado. E indicam que trabalharão com quem prevalecer no final.
Probabilidades: Governo Temer com maioria absoluta (pelo menos metade mais um dos votos) na Câmara dos Deputados e no Senado 75%. Dilma definitivamente afastada 85%. Temer cassado pelo TSE 10%.
Prestar atenção:
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Força da coalizão no Congresso define sucesso ou fracasso do governo Temer
• Guerra será vencida ou perdida no Legislativo
• Governos só constroem maioria quando estão fortes
• Reforçamos a aposta no gradualismo neste início
Os ministérios econômicos e o Itamaraty receberam as maiores atenções nas horas iniciais de governo Michel Temer. Os primeiros, pela óbvia ansiedade a respeito do futuro. A chancelaria, pela oportunidade de protagonismo aberta com as manifestações de vizinhos sobre o impeachment.
Conforme o gravitacional tempo político vai assentando a poeira, fica evidente que a guerra será vencida ou perdida por dois generais: Geddel Vieira Lima e Eliseu Padilha. De nada adiantará o novo governo desfilar as "propostas certas" na economia se não tiver votos para aprovar.
O país colhe os frutos envenenados de décadas de mistificação. "Dinheiro tem, falta é vontade política", martelava o PT na oposição. "Não precisa aumentar imposto, se estancar a corrupção o dinheiro aparece", passou a pregar o antipetismo nesta última década e meia.
O governo Dilma caiu porque só sobreviveria se admitisse que, infelizmente, o dinheiro acabou. E se conseguisse atrair a esquerda congressual, PT à frente, para as necessárias medidas de austeridade. A presidente hoje no ostracismo provisório até tentou, acenou sobre a Previdência e a CPMF.
Em certo momento -um dia os historiadores dirão quando e como foi- o PT decidiu preferir a derrota heróica a fazer concessões estratégicas que poderiam manter aberta a possibilidade de vitória. Certamente ajudou na decisão a experiência do período Joaquim Levy.
Ao aplicar o receituário que atribuíra aos adversários -e que eles aplicariam em algum grau estivessem vencido a eleição-, Dilma colheu não os aplausos deles. Colheu a ofensiva do impeachment. Em vez de apoiarem, aproveitaram a fraqueza nascida da austeridade para derrubar o governo.
Um erro assim nasce do economicismo vulgar. Se a economia determina a política em algum grau, é a política que decide a guerra. Governos que têm maioria política sobrevivem. Se não têm, morrem. E maiorias políticas constroem-se no dia a dia, e a partir de posições de força.
Fernando Henrique Cardoso sobreviveu à desvalorização cambial de 1999 porque formou uma base forte desde o Real em 1994. Lula navegou na tempestade e chegou ao porto porque fez isso em 2003/04, na esteira da subida ao poder.
A hora de Temer construir ou não maioria política é agora. Mais importante que desenhar um plano maravilhoso é mostrar ter votos para aprovar algo na direção desejada. Também nesses casos o ótimo costuma ser inimigo do bom. Para que o trem chegue ao destino ele precisa começar a andar.
Se o Congresso começa a votar (e aprovar) as propostas do novo governo, reforça o ambiente de "página virada". Se atola na largada, reabre a crise. Por isso, reforçamos a avaliação de que este início será marcado pelo gradualismo. Na direção desejada, mas com um programa realista.
Uma largada mais "morna" ajudaria também no front externo, para neutralizar ao menos em parte a narrativa de que o governo anterior foi removido para que se promova um ataque frontal aos direitos sociais conquistados na última décadas.
Mas sempre é bom deixar uma janela para o imponderável. Como mostrou o presidente interino da Câmara dos Deputados na véspera da decisão do Senado, o imponderável nunca é só uma abstração.
Probabilidades: Governo Temer largar com maioria absoluta na Câmara dos Deputados e no Senado 75%. Dilma ser definitivamente afastada 85%. Temer ser cassado pelo TSE 10%.
Prestar atenção:
• Destino da Presidência (interina) da Câmara dos Deputados
• Fatos novos da Lava-Jato contra apoiadores de Temer
• Projeções de índices feitas pelos atores econômicos
Alon Feuerwerker alon.feuerwerker@fsb.com.br
+55 61 8161-9394 (cel + whatsapp) / +55 61 3051-5464 (trab)
• Governos só constroem maioria quando estão fortes
• Reforçamos a aposta no gradualismo neste início
Os ministérios econômicos e o Itamaraty receberam as maiores atenções nas horas iniciais de governo Michel Temer. Os primeiros, pela óbvia ansiedade a respeito do futuro. A chancelaria, pela oportunidade de protagonismo aberta com as manifestações de vizinhos sobre o impeachment.
Conforme o gravitacional tempo político vai assentando a poeira, fica evidente que a guerra será vencida ou perdida por dois generais: Geddel Vieira Lima e Eliseu Padilha. De nada adiantará o novo governo desfilar as "propostas certas" na economia se não tiver votos para aprovar.
O país colhe os frutos envenenados de décadas de mistificação. "Dinheiro tem, falta é vontade política", martelava o PT na oposição. "Não precisa aumentar imposto, se estancar a corrupção o dinheiro aparece", passou a pregar o antipetismo nesta última década e meia.
O governo Dilma caiu porque só sobreviveria se admitisse que, infelizmente, o dinheiro acabou. E se conseguisse atrair a esquerda congressual, PT à frente, para as necessárias medidas de austeridade. A presidente hoje no ostracismo provisório até tentou, acenou sobre a Previdência e a CPMF.
Em certo momento -um dia os historiadores dirão quando e como foi- o PT decidiu preferir a derrota heróica a fazer concessões estratégicas que poderiam manter aberta a possibilidade de vitória. Certamente ajudou na decisão a experiência do período Joaquim Levy.
Ao aplicar o receituário que atribuíra aos adversários -e que eles aplicariam em algum grau estivessem vencido a eleição-, Dilma colheu não os aplausos deles. Colheu a ofensiva do impeachment. Em vez de apoiarem, aproveitaram a fraqueza nascida da austeridade para derrubar o governo.
Um erro assim nasce do economicismo vulgar. Se a economia determina a política em algum grau, é a política que decide a guerra. Governos que têm maioria política sobrevivem. Se não têm, morrem. E maiorias políticas constroem-se no dia a dia, e a partir de posições de força.
Fernando Henrique Cardoso sobreviveu à desvalorização cambial de 1999 porque formou uma base forte desde o Real em 1994. Lula navegou na tempestade e chegou ao porto porque fez isso em 2003/04, na esteira da subida ao poder.
A hora de Temer construir ou não maioria política é agora. Mais importante que desenhar um plano maravilhoso é mostrar ter votos para aprovar algo na direção desejada. Também nesses casos o ótimo costuma ser inimigo do bom. Para que o trem chegue ao destino ele precisa começar a andar.
Se o Congresso começa a votar (e aprovar) as propostas do novo governo, reforça o ambiente de "página virada". Se atola na largada, reabre a crise. Por isso, reforçamos a avaliação de que este início será marcado pelo gradualismo. Na direção desejada, mas com um programa realista.
Uma largada mais "morna" ajudaria também no front externo, para neutralizar ao menos em parte a narrativa de que o governo anterior foi removido para que se promova um ataque frontal aos direitos sociais conquistados na última décadas.
Mas sempre é bom deixar uma janela para o imponderável. Como mostrou o presidente interino da Câmara dos Deputados na véspera da decisão do Senado, o imponderável nunca é só uma abstração.
Probabilidades: Governo Temer largar com maioria absoluta na Câmara dos Deputados e no Senado 75%. Dilma ser definitivamente afastada 85%. Temer ser cassado pelo TSE 10%.
Prestar atenção:
• Destino da Presidência (interina) da Câmara dos Deputados
• Fatos novos da Lava-Jato contra apoiadores de Temer
• Projeções de índices feitas pelos atores econômicos
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segunda-feira, 9 de maio de 2016
Forte tendência a acomodar marcará ambiente político na largada de Temer
• Oposição fraca, establishment e eleição municipal jogam a favor
• Se formar base ampla, governo terá vantagem na sucessão da Câmara
Há dois tipos de governo: 1) no que o político quer entrar e 2) do que ele busca sair. Este é exceção. O político sai de um governo porque vislumbrou a possibilidade de entrar em outro. Políticos sempre trabalham para ser do governo. Quando estão na oposição não é desejo, é circunstância.
Não compreender a utilidade dessa regra simples foi um problema grave de Dilma Rousseff. A presidente acabou no pior dos mundos: supostamente loteou o governo -e era atacada pelo loteamento-, mas nunca aceitou dividir poder. Nunca soube tirar pleno proveito das forças centrípetas. Até que um dia sucumbiu às centrífugas.
Já a embrionária administração Michel Temer deve ser mais profissional na condução. Há a cantilena habitual por um gabinete "de notáveis", ou"técnico". Mas os novos operadores políticos têm larga experiência e será surpresa se caírem na mesma esparrela. Há uma única certeza sobre governos "técnicos" ou "de notáveis": eles estão a caminho de cair.
Um dos itens da nossa mitologia política é que o "presidencialismo decoalizão" brasileiro é intrinsecamente inviável se não houver uma reforma partidária-eleitoral. A realidade é mais simples. Governo que tem base parlamentar sobrevive. Se não tem, morre. Ou na eleição vindoura, quando consegue vegetar até lá, ou antes.
Eis a equação da gestão Temer -que só não existirá se o imponderável agir: precisa de maioria no Congresso para transmitir a empresários e trabalhadores, a investidores e consumidores, que tem votos em número suficiente para aprovar medidas de estabilização, um dia, da proporção da dívida pública sobre o produto interno. Enquanto o universo da ideologia torce o nariz para a suposta baixa qualidade da representação parlamentar, os responsáveis pela vida real só querem saber se o novo governo terá força para votar medidas necessárias diante do colapso do mundo de fantasia em que o país viveu.
Uma variável nova, à luz do que decidiu o Supremo Tribunal Federal, é quem conduzirá a Câmara dos Deputados depois do impedimento provisório mas por tempo indeterminado do presidente Eduardo Cunha. O período recente foi didático sobre o efeito de um conflito da Casa com o Planalto.
Mas é razoável supor que se o novo governo está construindo uma base ampla ela será útil para evitar a ascensão de um adversário. Ainda que a circunstância embuta o risco de o aliado, uma vez vice-presidente de fato da República, passar a mirar no titular. Um Temer para o Temer.
Apesar das dificuldades e limitações, nossa previsão é que este início de Era Temer será marcado pela tendência à acomodação política. A nova oposição dificilmente terá mais força para criar problemas ao novo governo do que a (pouca) força que demonstrou para evitar a derrocada do velho. O establishment pedirá "patriotismo" e o mundo da política se voltará progressivamente para a eleição municipal. O novo Planalto precisará errar muito para os vetores centrífugos prevalecerem sobre os centrípetos.
Claro que há o imprevisível. O que aparecerá na Lava-Jato contra o novo núcleo de poder? Quais os desdobramentos ainda desconhecidos da decisão do STF sobre Eduardo Cunha? Na resistência final, Dilma conseguirá introduzir algum elemento desestabilizador da nova ordem?
Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 99%, condenação definitiva de Dilma no Senado 80%, cassação de Temer pelo TSE 10%.
Prestar atenção:
• Votação do afastamento de Dilma, dia 11
• Novos políticos serão réusno STF?
• Lava-Jato
• Se formar base ampla, governo terá vantagem na sucessão da Câmara
Há dois tipos de governo: 1) no que o político quer entrar e 2) do que ele busca sair. Este é exceção. O político sai de um governo porque vislumbrou a possibilidade de entrar em outro. Políticos sempre trabalham para ser do governo. Quando estão na oposição não é desejo, é circunstância.
Não compreender a utilidade dessa regra simples foi um problema grave de Dilma Rousseff. A presidente acabou no pior dos mundos: supostamente loteou o governo -e era atacada pelo loteamento-, mas nunca aceitou dividir poder. Nunca soube tirar pleno proveito das forças centrípetas. Até que um dia sucumbiu às centrífugas.
Já a embrionária administração Michel Temer deve ser mais profissional na condução. Há a cantilena habitual por um gabinete "de notáveis", ou"técnico". Mas os novos operadores políticos têm larga experiência e será surpresa se caírem na mesma esparrela. Há uma única certeza sobre governos "técnicos" ou "de notáveis": eles estão a caminho de cair.
Um dos itens da nossa mitologia política é que o "presidencialismo decoalizão" brasileiro é intrinsecamente inviável se não houver uma reforma partidária-eleitoral. A realidade é mais simples. Governo que tem base parlamentar sobrevive. Se não tem, morre. Ou na eleição vindoura, quando consegue vegetar até lá, ou antes.
Eis a equação da gestão Temer -que só não existirá se o imponderável agir: precisa de maioria no Congresso para transmitir a empresários e trabalhadores, a investidores e consumidores, que tem votos em número suficiente para aprovar medidas de estabilização, um dia, da proporção da dívida pública sobre o produto interno. Enquanto o universo da ideologia torce o nariz para a suposta baixa qualidade da representação parlamentar, os responsáveis pela vida real só querem saber se o novo governo terá força para votar medidas necessárias diante do colapso do mundo de fantasia em que o país viveu.
Uma variável nova, à luz do que decidiu o Supremo Tribunal Federal, é quem conduzirá a Câmara dos Deputados depois do impedimento provisório mas por tempo indeterminado do presidente Eduardo Cunha. O período recente foi didático sobre o efeito de um conflito da Casa com o Planalto.
Mas é razoável supor que se o novo governo está construindo uma base ampla ela será útil para evitar a ascensão de um adversário. Ainda que a circunstância embuta o risco de o aliado, uma vez vice-presidente de fato da República, passar a mirar no titular. Um Temer para o Temer.
Apesar das dificuldades e limitações, nossa previsão é que este início de Era Temer será marcado pela tendência à acomodação política. A nova oposição dificilmente terá mais força para criar problemas ao novo governo do que a (pouca) força que demonstrou para evitar a derrocada do velho. O establishment pedirá "patriotismo" e o mundo da política se voltará progressivamente para a eleição municipal. O novo Planalto precisará errar muito para os vetores centrífugos prevalecerem sobre os centrípetos.
Claro que há o imprevisível. O que aparecerá na Lava-Jato contra o novo núcleo de poder? Quais os desdobramentos ainda desconhecidos da decisão do STF sobre Eduardo Cunha? Na resistência final, Dilma conseguirá introduzir algum elemento desestabilizador da nova ordem?
Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 99%, condenação definitiva de Dilma no Senado 80%, cassação de Temer pelo TSE 10%.
Prestar atenção:
• Votação do afastamento de Dilma, dia 11
• Novos políticos serão réusno STF?
• Lava-Jato
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Mediocridade de expectativas e má herança recebida, os trunfos do novo governo
• O governo nascido do impeachment de Dilma vai "dar certo"?
• Circunstâncias difíceis legitimam plataforma minimalista •
• Mas, e o desconforto tucano-petista com o fim da bipolaridade?
O ainda vice Michel Temer deve assumir o poder em condições políticas favoráveis quando -e se- Dilma Rousseff for afastada no Senado. O "se" é por dever deofício, pois em política nunca há certeza do futuro. Graças a sua excelência, o imponderável. Se apenas um imponderável daqueles pode dar a Dilma destino diferente doostracismo, a pergunta permanente hoje é se o eventual futuro governo Temer vai "dar certo".
Mas o que seria "dar certo", naprática? O "dar certo", também em política, pode ser reduzido a uma função na qual expectativas aparecem com sinal negativo e entregas, com positivo. Um problema de Dilma é ter vencido em 2014 com expectativas relativamente altas. Foi eleitoralmente eficaz, mas plantou a semente daderrocada política do governo recém-eleito.
Quando se escancarou que asentregas seriam baixíssimas, a presidente ficou fraca demais para atrair aliados e intimidar adversários. Dilma passou a depender de desentendimentos e impasses entreosinimigos, abertos ou dissimulados. Situação sempre de alto risco. Quando ospolíticos convergiram para uma saída, o destino dela foi selado.
Sobre expectativas e entregas, Temer vive situação oposta. Por dois motivos. Há consenso de que 1) receberá o governo em condiçõesdesastrosas na área fiscal e 2)um déficit de legitimidade o impedirá deaprovar medidas pró-mercado imploradas mas imprudentes. Assim, na regra de Ortega y Gasset de que cada um é ele mesmo e suas circunstâncias, Temer é um anti-Dilma. Se a titular deixou cristalizar a ideia de que ela própria seria o problema, o vice pouco a pouco vai vendo assentar a tese de que o que vier será lucro, dadas as más circunstâncias.
Não se espera deum governo Temer que corte heroicamente os nós górdios, apenas que aponte alguma luz no fim do túnel. Se conseguir montar uma base operacional no pulverizado Congresso e se trouxer algum vislumbre derecuperação econômica, será tolerado como preço razoável a pagar para que o país encontre uma solução melhor em 2018.
Um governo minimalista, entretanto, não responderá plenamente à ambição do grupo agora hegemônico de projetar-se para além de 2018. Uma regra de ouro do poder é tentar perpetuar-se. Quando os adversários enxergarem no minimalismo de curto prazo um caminho para o maximalismo de médio prazo, aparecerão os problemas. Daí que a melhor aposta seja antever um governo Temer extremamente prudente, preocupado em economizar capital político, sabedor de que os aliados-adversários esperam apenas pelos primeiros sinais de fraqueza. Com um agravante: o novo poder não tem, ao contráriode PSDB e PT, umexército capaz de prevalecer na guerra cultural.
Dilma fora, não seria espantoso seas máquinas ideológicas petistas e tucanas adotassem a velha máxima de "caminhar separadas e golpear juntas", na tarefa comum de manter a bipolaridade das duas últimas décadas e evitar que desta vez uma "terceira via" se construa a partir dopróprio governo, agora pela centro-direita.
Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 99%, condenação definitiva de Dilma no Senado 80%, cassação de Temer pelo TSE 10%.
Prestar atenção:
• Armadilhas que Dilma deixará para Temer
• Últimas manobras do governo no Senado
• Arremate do gabinete temerista
• Lava-Jato, claro
• Circunstâncias difíceis legitimam plataforma minimalista •
• Mas, e o desconforto tucano-petista com o fim da bipolaridade?
O ainda vice Michel Temer deve assumir o poder em condições políticas favoráveis quando -e se- Dilma Rousseff for afastada no Senado. O "se" é por dever deofício, pois em política nunca há certeza do futuro. Graças a sua excelência, o imponderável. Se apenas um imponderável daqueles pode dar a Dilma destino diferente doostracismo, a pergunta permanente hoje é se o eventual futuro governo Temer vai "dar certo".
Mas o que seria "dar certo", naprática? O "dar certo", também em política, pode ser reduzido a uma função na qual expectativas aparecem com sinal negativo e entregas, com positivo. Um problema de Dilma é ter vencido em 2014 com expectativas relativamente altas. Foi eleitoralmente eficaz, mas plantou a semente daderrocada política do governo recém-eleito.
Quando se escancarou que asentregas seriam baixíssimas, a presidente ficou fraca demais para atrair aliados e intimidar adversários. Dilma passou a depender de desentendimentos e impasses entreosinimigos, abertos ou dissimulados. Situação sempre de alto risco. Quando ospolíticos convergiram para uma saída, o destino dela foi selado.
Sobre expectativas e entregas, Temer vive situação oposta. Por dois motivos. Há consenso de que 1) receberá o governo em condiçõesdesastrosas na área fiscal e 2)um déficit de legitimidade o impedirá deaprovar medidas pró-mercado imploradas mas imprudentes. Assim, na regra de Ortega y Gasset de que cada um é ele mesmo e suas circunstâncias, Temer é um anti-Dilma. Se a titular deixou cristalizar a ideia de que ela própria seria o problema, o vice pouco a pouco vai vendo assentar a tese de que o que vier será lucro, dadas as más circunstâncias.
Não se espera deum governo Temer que corte heroicamente os nós górdios, apenas que aponte alguma luz no fim do túnel. Se conseguir montar uma base operacional no pulverizado Congresso e se trouxer algum vislumbre derecuperação econômica, será tolerado como preço razoável a pagar para que o país encontre uma solução melhor em 2018.
Um governo minimalista, entretanto, não responderá plenamente à ambição do grupo agora hegemônico de projetar-se para além de 2018. Uma regra de ouro do poder é tentar perpetuar-se. Quando os adversários enxergarem no minimalismo de curto prazo um caminho para o maximalismo de médio prazo, aparecerão os problemas. Daí que a melhor aposta seja antever um governo Temer extremamente prudente, preocupado em economizar capital político, sabedor de que os aliados-adversários esperam apenas pelos primeiros sinais de fraqueza. Com um agravante: o novo poder não tem, ao contráriode PSDB e PT, umexército capaz de prevalecer na guerra cultural.
Dilma fora, não seria espantoso seas máquinas ideológicas petistas e tucanas adotassem a velha máxima de "caminhar separadas e golpear juntas", na tarefa comum de manter a bipolaridade das duas últimas décadas e evitar que desta vez uma "terceira via" se construa a partir dopróprio governo, agora pela centro-direita.
Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 99%, condenação definitiva de Dilma no Senado 80%, cassação de Temer pelo TSE 10%.
Prestar atenção:
• Armadilhas que Dilma deixará para Temer
• Últimas manobras do governo no Senado
• Arremate do gabinete temerista
• Lava-Jato, claro
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Desafio de Temer é evitar que polêmica econômica desmonte a base parlamentar
• Medidas emergenciais de austeridade terão apoio no Congresso?
• Políticos não querem eleições já, mas não têm controle completo
• Futuro do novo governo depende do que projetar para o... futuro
A história também se constrói sobre ironias. No crepúsculo, a administração Dilma Rousseff oferece ao presidente ainda virtual Michel Temer a base parlamentar que lhe faltou para governar e evitar o afastamento do cargo. As votações na Câmara e na comissão do Senado são o rito de passagem.
Dilma havia algum tempo não reunia apoio político majoritário para comandar o país. Concentrava-se em garantir respaldo minoritário suficiente para evitar a deposição. Não conseguiu, por 25 votos na Câmara. Agora é Temer que vê o enigma: como transformar o fácil antidilmismo em pró-temerismo?
O problema do ainda vice é prático. Dilma caminha rumo à queda por: 1) não montar e uma base parlamentar majoritária e operacional e 2) não oferecer um caminho visível para a recuperação econômica. Ou Temer tem sucesso imediato nos dois aspectos ou verá crescer rapidamente as ameaças. O TSE está aí para qualquer eventualidade.
O problema é que a revelação dos roteiros para o segundo ponto embaralha o primeiro. O Brasil está há décadas politicamente organizado em torno da fantasia fácil do “dinheiro tem, é só empregá-lo adequadamente”.
Bastaria “melhorar a gestão” e combater a corrupção. Agora, um presidente transitório e de legitimidade contestada vai dizer que o dinheiro acabou, e tem de fazer isso sem dinamitar o apoio parlamentar.
Temer leva sobre Dilma a vantagem do apoio empresarial e da imprensa, além de nenhuma força política ponderável querer eleições já.
Mas, como se viu agora na debacle do PT, não há articulação política que resista se enfrentar por tempo suficiente uma pressão social decisiva. Pelo menos na democracia, isso acaba refletindo no Parlamento. E na Justiça.
No momento, a oposição a Temer está acuada, e o radicalismo verbal é um sintoma do isolamento.
Mas é também verdade que o PT sai razoavelmente coeso e reaproxima-se da esquerda. E deve emergir da derrota com uma “narrativa” (para usar a expressão da moda) íntegra: de que foi “derrubado por um golpe tramado pela elite, que novamente quer impor ao povo sacrifícios para debelar uma crise que ela mesmo produziu”.
Importa menos saber se isso é verdade, ou até que ponto. Isso pode ser tão verdade quanto dizer que o PT “institucionalizou a corrupção sistêmica para perpetuar um projeto de poder” ou que “a nova matriz econômica, ao implodir o equilíbrio fiscal, provocou a atual recessão”.
A luta política não se dá em torno de verdades, mas de verossimilhanças. O que interessa é o apoio popular, social e parlamentar que cada discurso tem, e isso é diretamente proporcional ao que projeta para adiante. Dilma não está caindo principalmente pelo que fez no passado, mas pela incapacidade de mostrar que com ela o amanhã será melhor que o hoje.
Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 95%, condenação definitiva de Dilma no Senado 70%, cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE 20%.
Prestar atenção:
• O PT conseguirá retardar o andamento do processo no Senado?
• As articulações finais para o ministério de Temer
• Fatos perturbadores vindos da Lava-Jato
• Políticos não querem eleições já, mas não têm controle completo
• Futuro do novo governo depende do que projetar para o... futuro
A história também se constrói sobre ironias. No crepúsculo, a administração Dilma Rousseff oferece ao presidente ainda virtual Michel Temer a base parlamentar que lhe faltou para governar e evitar o afastamento do cargo. As votações na Câmara e na comissão do Senado são o rito de passagem.
Dilma havia algum tempo não reunia apoio político majoritário para comandar o país. Concentrava-se em garantir respaldo minoritário suficiente para evitar a deposição. Não conseguiu, por 25 votos na Câmara. Agora é Temer que vê o enigma: como transformar o fácil antidilmismo em pró-temerismo?
O problema do ainda vice é prático. Dilma caminha rumo à queda por: 1) não montar e uma base parlamentar majoritária e operacional e 2) não oferecer um caminho visível para a recuperação econômica. Ou Temer tem sucesso imediato nos dois aspectos ou verá crescer rapidamente as ameaças. O TSE está aí para qualquer eventualidade.
O problema é que a revelação dos roteiros para o segundo ponto embaralha o primeiro. O Brasil está há décadas politicamente organizado em torno da fantasia fácil do “dinheiro tem, é só empregá-lo adequadamente”.
Bastaria “melhorar a gestão” e combater a corrupção. Agora, um presidente transitório e de legitimidade contestada vai dizer que o dinheiro acabou, e tem de fazer isso sem dinamitar o apoio parlamentar.
Temer leva sobre Dilma a vantagem do apoio empresarial e da imprensa, além de nenhuma força política ponderável querer eleições já.
Mas, como se viu agora na debacle do PT, não há articulação política que resista se enfrentar por tempo suficiente uma pressão social decisiva. Pelo menos na democracia, isso acaba refletindo no Parlamento. E na Justiça.
No momento, a oposição a Temer está acuada, e o radicalismo verbal é um sintoma do isolamento.
Mas é também verdade que o PT sai razoavelmente coeso e reaproxima-se da esquerda. E deve emergir da derrota com uma “narrativa” (para usar a expressão da moda) íntegra: de que foi “derrubado por um golpe tramado pela elite, que novamente quer impor ao povo sacrifícios para debelar uma crise que ela mesmo produziu”.
Importa menos saber se isso é verdade, ou até que ponto. Isso pode ser tão verdade quanto dizer que o PT “institucionalizou a corrupção sistêmica para perpetuar um projeto de poder” ou que “a nova matriz econômica, ao implodir o equilíbrio fiscal, provocou a atual recessão”.
A luta política não se dá em torno de verdades, mas de verossimilhanças. O que interessa é o apoio popular, social e parlamentar que cada discurso tem, e isso é diretamente proporcional ao que projeta para adiante. Dilma não está caindo principalmente pelo que fez no passado, mas pela incapacidade de mostrar que com ela o amanhã será melhor que o hoje.
Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 95%, condenação definitiva de Dilma no Senado 70%, cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE 20%.
Prestar atenção:
• O PT conseguirá retardar o andamento do processo no Senado?
• As articulações finais para o ministério de Temer
• Fatos perturbadores vindos da Lava-Jato
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Curto prazo é favorável ao novo governo, que depende da economia e da Lava-Jato
• Temer terá maioria parlamentar e simpatia da imprensa
• Futura oposição vê ambiente inicial de isolamento
• Cansaço com a crise favorecerá apelos pela improvável “paz”
O desafio do bloco de poder constituído em torno de PMDB e PSDB para derrubar o governo Dilma Rousseff e tirar o PT do Palácio do Planalto é estabilizar-se para: 1) acelerar e consolidar a condenação final da presidente no Senado Federal, permitindo a instalação definitiva do governo Michel Temer e 2) evitar a cassação no TSE.
Como viu-se agora, a realidade política subordina a tecnicalidade jurídica. Especialmente quando as leis tratam da solução de disputas de poder.
Quando os governos se isolam na cúpula e na base da sociedade, o sistema encontra algum caminho para resolver a crise “juridicamente”.
Há juristas para todos os gostos e serviços, e essa acaba sendo a parte menos complexa da empreitada. Resolvido o nó político, encontra-se facilmente na prateleira algum mecanismo formalmente legitimador.
Quando o governo Temer finalmente existir de direito, ele terá uma base parlamentar confortável. É improvável que venha a sofrer impeachment. Eleições antecipadas não interessam hoje a nenhum grupo político relevante. E a partir de 2017 a eleição seria indireta.
Restarão dois obstáculos.
O primeiro será apontar caminhos de recuperação econômica convincente, que precisarão estar apoiados em duas pernas: 1) um reequilíbrio fiscal crível, para criar horizontes visíveis na economia e 2) uma perspectiva de forte lucratividade para os investimentos, pois empresários investem com o objetivo de lucrar.
O segundo será circunscrever os efeitos políticos da Lava-Jato. Se é verdade que o mundo da política pouco pode interferir diretamente na operação, é verdade também que a amplificação jornalística das investigações flutua de acordo com desejos e alinhamentos político-empresariais.
E mesmo se Eduardo Cunha tiver de deixar a Presidência da Câmara (o que não é certo), a aliança Temer-Cunha tem força para fazer o sucessor.
Caso o governo Temer tenha razoável sucesso inicial nas duas frentes, economia e Lava-Jato, é também razoável prever que o Senado confirmará o fim do mandato de Dilma e que o TSE dificilmente contrariará a dinâmica de acomodação política.
E a nova oposição? O momento inicial será de radicalização e resistência social. Mas os recém-derrotados se defrontarão com o isolamento político e midiático, que certamente refletirá nos ralos espaços disponíveis na imprensa para propagar o inconformismo.
O eventual novo governo também se beneficiará do foco crescente nas eleições municipais, para onde tende a se deslocar o front, em busca do combustível para 2018. E aproveitará o cansaço da sociedade com a prolongada luta política, fadiga que servirá de pretexto para uma onda de apelos à conciliação vinda de quem até agora pedia guerra.
Os problemas, como lembraria o Conselheiro Acácio, aparecerão depois. Provavelmente causados pela baixa capacidade de entregar o esperado.
Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado 80%, condenação definitiva de Dilma 60%, cassação da chapa pelo TSE 20%.
Prestar atenção:
• O ritmo do processo contra Dilma no Senado
• Novas ações da Lava-Jato contra Lula e Eduardo Cunha
• O ministério de Temer, especialmente na economia
• Futura oposição vê ambiente inicial de isolamento
• Cansaço com a crise favorecerá apelos pela improvável “paz”
O desafio do bloco de poder constituído em torno de PMDB e PSDB para derrubar o governo Dilma Rousseff e tirar o PT do Palácio do Planalto é estabilizar-se para: 1) acelerar e consolidar a condenação final da presidente no Senado Federal, permitindo a instalação definitiva do governo Michel Temer e 2) evitar a cassação no TSE.
Como viu-se agora, a realidade política subordina a tecnicalidade jurídica. Especialmente quando as leis tratam da solução de disputas de poder.
Quando os governos se isolam na cúpula e na base da sociedade, o sistema encontra algum caminho para resolver a crise “juridicamente”.
Há juristas para todos os gostos e serviços, e essa acaba sendo a parte menos complexa da empreitada. Resolvido o nó político, encontra-se facilmente na prateleira algum mecanismo formalmente legitimador.
Quando o governo Temer finalmente existir de direito, ele terá uma base parlamentar confortável. É improvável que venha a sofrer impeachment. Eleições antecipadas não interessam hoje a nenhum grupo político relevante. E a partir de 2017 a eleição seria indireta.
Restarão dois obstáculos.
O primeiro será apontar caminhos de recuperação econômica convincente, que precisarão estar apoiados em duas pernas: 1) um reequilíbrio fiscal crível, para criar horizontes visíveis na economia e 2) uma perspectiva de forte lucratividade para os investimentos, pois empresários investem com o objetivo de lucrar.
O segundo será circunscrever os efeitos políticos da Lava-Jato. Se é verdade que o mundo da política pouco pode interferir diretamente na operação, é verdade também que a amplificação jornalística das investigações flutua de acordo com desejos e alinhamentos político-empresariais.
E mesmo se Eduardo Cunha tiver de deixar a Presidência da Câmara (o que não é certo), a aliança Temer-Cunha tem força para fazer o sucessor.
Caso o governo Temer tenha razoável sucesso inicial nas duas frentes, economia e Lava-Jato, é também razoável prever que o Senado confirmará o fim do mandato de Dilma e que o TSE dificilmente contrariará a dinâmica de acomodação política.
E a nova oposição? O momento inicial será de radicalização e resistência social. Mas os recém-derrotados se defrontarão com o isolamento político e midiático, que certamente refletirá nos ralos espaços disponíveis na imprensa para propagar o inconformismo.
O eventual novo governo também se beneficiará do foco crescente nas eleições municipais, para onde tende a se deslocar o front, em busca do combustível para 2018. E aproveitará o cansaço da sociedade com a prolongada luta política, fadiga que servirá de pretexto para uma onda de apelos à conciliação vinda de quem até agora pedia guerra.
Os problemas, como lembraria o Conselheiro Acácio, aparecerão depois. Provavelmente causados pela baixa capacidade de entregar o esperado.
Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado 80%, condenação definitiva de Dilma 60%, cassação da chapa pelo TSE 20%.
Prestar atenção:
• O ritmo do processo contra Dilma no Senado
• Novas ações da Lava-Jato contra Lula e Eduardo Cunha
• O ministério de Temer, especialmente na economia
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Ambos os lados temem a derrota, pois ainda não enfraqueceram decisivamente o outro
Os campos que disputam o poder federal chegam à semana da decisão com risco real de derrota. Nenhum conseguiu impor ao adversário um enfraquecimento decisivo nestes meses de guerra política aberta.
Nenhum lado conseguiu romper o empate catastrófico. É a terminologia que usamos ao longo desta crise para definir o equilíbrio estratégico de forças. Que se expressa também na capacidade de as narrativas atraírem seus públicos potenciais. Entretanto, se um não consegue falar ao outro, para ao menos colocar uma cunha no lado de lá, persiste o empate.
A oposição não conseguiu impedir que o PT/governo reaglutinasse o campo politico autodefinido como progressista para a resistência contra o “golpe branco supostamente constitucional”. Melhor sintoma: apesar de o governo Dilma patinar em torno de 10% de ótimo+bom, quase 40% da população não aderiu a proposta de retirá-lo do poder antes da hora.
E o governo não conseguiu impedir a oposição de convencer cerca de 60% da sociedade e do Congresso de que tirar Dilma/PT já é vital para começar a resolver os graves problemas nacionais. Especialmente a recessão econômica e a “corrupção sistêmica”.
A oposição não conseguiu reduzir o PT/governo a “organização criminosa que tomou o Estado brasileiro e levou a corrupção a níveis sistêmicos para perpetuar seu projeto de poder”. E o governo/PT não conseguiu reduzir os oponentes a “elite insensível e privilegiada que não se conforma com a derrota eleitoral e a ascensão social dos pobres, pretos e favelados”.
A crer nas pesquisas, o impeachment tem o apoio de quem votou PSDB no segundo turno da eleição de 2014, e da maioria dos que não votaram em ninguém. Mas enfrenta oposição absoluta de quem votou PT.
E os discursos apenas negativos e destrutivos não produziram uma narrativa "propositiva" para sustentar a opção que está à mão. O PMDB temerista aproxima-se do poder por inércia. Trazido pelo vácuo. Quando o PMDB terá uma oportunidade como esta, de tomar o Planalto sem nem precisar dizer o que vai fazer lá? Provavelmente nunca mais. Não surpreende que estejam empenhados na missão.
E o dia seguinte?
Se Dilma passar esta barreira é possível que o presidente da Câmara aceite outro pedido de impeachment contra ela, até por um detalhe: enquanto o filme “Fora Dilma” estiver em exibição nas principais salas comerciais, o “Fora Cunha” continuará no circuito cultural alternativo.
Já a coligação em torno de Michel Temer nasceria com duas marcas registradas da política brasileira: o desalinhamento sobre o que fazer na economia e a heterogeneidade da base de apoio no Legislativo.
Não é realista imaginar que a bastante liberal “Ponte para o Futuro” dos formuladores peemedebistas tenha apoio na maioria dos que marcham nas ruas e no Congresso para colocar o PMDB no poder.
O súbito liberalismo do PMDB tem sido útil para angariar apoio politico e material dos empresários que querem derrubar o governo do PT, mas dificilmente servirá para algo além disso.
Probabilidades: Impeachment 50%, cassação pelo TSE 25%. Dilma fica, sem poder 25%
Prestar atenção:
• Novos fatos espetaculares, especialmente na Lava-Jato
• Recursos do governo ao STF
• Mobilização social, gente na rua
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Graças às contradições no PMDB, governo ainda luta. Mas o que virá na Lava-Jato?
O senso comum diz que o grupo de Michel Temer errou ao forçar a ruptura formal do PMDB com o governo para acelerar a deposição de Dilma Roussef. Abriu espaço para a operação política palaciana. Já que a política tem horror ao vácuo, preencha-se.
A realidade é um pouco mais complexa, como se vê desde lá: o PMDB, ávido de poder, rompeu mas não saiu. Foi um gesto político, para garantir aos generais e às tropas da derrubada do governo que o vice está nesta para valer.
O PMDB é incremental, como todo partido em relacionamento sério com o poder. Nunca foi de gestos heróicos. Só se move em direção a mais poder. Nunca a menos. O temerismo queimou as caravelas, mas cuidou de verificar se havia outros barcos à mão.
O cenário para o vice não é simples. Diferente de Itamar Franco no impeachment de Fernando Collor, ele enfrenta desgaste e ameaças a um mandato que ainda não assumiu. Se for impulsivo, pode reunir menos força que a necessária para vencer a batalha. Se for cauteloso, pode ver crescer o movimento para despachá-lo ao ostracismo junto com Dilma.
A fragilidade política-jurídica-eleitoral do vice, e do grupo que o cerca e sustenta, é um vetor fundamental para entender por que Dilma tem sobrevivido, mesmo em extrema debilidade política e social. Sem suporte decisivo, Dilma levita há tempos graças à não convergência em torno das alternativas.
O xeque-mate em Dilma e no PT sempre dependeu de PMDB e PSDB estarem cada um majoritariamente coesos e ambos unidos pela deposição. Não necessariamente 100%, mas bem perto disso.
Um dos trunfos da presidente, as divisões intratucanas, parece ter-se ido. Há acordo hoje no PSDB sobre a inconveniência de eleições já -pelas circunstâncias de cada um dos postulantes- e sobre a conveniência de um governo Temer.
Persiste a divisão sobre se é bom ou ruim um governo Temer dar certo. Os tucanos enxergam nele um Kerensky. Só divergem sobre se o sonhado pós-Temer deve nascer do útero do temerismo, com suas bênçãos, ou enfraquecendo-o. Mas fevereiro vem antes de outubro.
Outra variável que parecia resolvida dá sinais de não estar. Uma parte dos senhores feudais peemedebistas, e de outros partidos, resistem a coroar um rei que poderia buscar poderes imperiais e querer subjugá-los, aproveitando-se do cerco da Lava-Jato contra a enrolada nobreza e surfando na ansiedade da opinião pública por uma nova ordem.
Os políticos querem uma solução que os proteja, e a corrosão de Dilma deveu-se também à estratégia dela de salvar-se às custas do sacrifício, se necessário, de todo o sistema. Mas a entrada de Luiz Inácio Lula da Silva em campo, se se consolidar, dará sinais de que o jogo mudou.
E assim caminhamos para a hora decisiva, quando cada um mostrará as garrafas que tem para entregar. A variável fora de controle? Lava-Jato. A blitzkrieg vem sendo decisiva para inverter a correlação de forças. Quais serão as novidades policiais-judiciais daqui até a votação do impeachment?
Porcentagens: Impeachment 50%, cassação pelo TSE 25%, Dilma fica sem poder 25%.
Atenção:
• A decisão do STF sobre Lula na Casa Civil
• O governo conseguirá arrancar o temerismo dos cargos?
• Lava-Jato, delações premiadas e vazamentos
segunda-feira, 28 de março de 2016
O problema? Dilma pouco tem a oferecer à política que a política não possa ter sem ela
Dilma Rousseff teve uma janela de ano e meio para evitar o isolamento que a ameaça com o cadafalso. Os obstáculos à “governabilidade” já estavam delineados depois da eleição. Menos pela vitória estreita e mais pelo contraste brutal entre o cenário descrito na campanha e a realidade pós-urna.
A mesma estratégia que trouxe a vitória eleitoral plantou a semente da derrota política, talvez por um erro de cálculo. Talvez a presidente e seu círculo mais próximo supusessem que a estratégia de Sarney/1986 e Fernando Henrique/1998 bastaria: uma conversa bonita na eleição e depois agarrar-se à institucionalidade para atravessar os anos de vacas magras.
Acontece que Sarney e Fernando Henrique nunca caíram na ausência de poder. Sempre mantiveram, mesmo nos piores momentos, comando sobre o Estado, maioria parlamentar, forte apoio da imprensa para concluir o mandato e espaço de ação no Judiciário. Dilma II não manda na polícia, no Congresso, no Banco Central, não pode aumentar impostos nem nomear ministros, e assiste à caçada midiático-policial-judicial contra ela e os aliados.
Num trade-off, o establishment decidiu aproveitar a presidente fraca para remover o PT do governo, mesmo arriscando turbulência política e social, e não apoiar um governo petista que se mostrou permeável a aplicar medidas pedidas pelo establishment. E o economicismo sai de cena, de mãos dadas com o legalismo. A preliminar é tirar a presidente. As formalidades vêm depois. Isso dá a Dilma e ao PT a narrativa da defesa da legalidade. Boa para construir o amanhã, mas insuficiente para resistir hoje.
A margem de manobra estreitou-se demais também porque Dilma pouco ou nada tem a oferecer aos aliados e aos adversários que eles próprios não possam obter sem ela. O PMDB esperou, até trazer o apoio do PSDB e receber o sinal verde da opinião pública, tradicionalmente crítica ao PMDB. Agora, com a Presidência ao alcance, não tem por que persistir na subalternidade. Restam os bolsões peemedebistas resistentes à hegemonia do grupo de Michel Temer, mas não parece suficiente para brecar o trem que vai rumo à estação do poder.
Dilma levitou durante mais de um ano graças à falta de consenso mínimo para a alternativa. Mas não teve força para resistir à blitzkrieg deste março, mês para agosto nenhum botar defeito. Mais do que os fatos em si, a sequência deles fez os políticos concluírem que a paralisia do núcleo se tornara uma ameaça ao conjunto do sistema. E parecem cada vez mais preferir o risco do colapso à certeza de que o colapso virá.
O que poderia, a esta altura, frear a composição peemedebista-oposicionista? Só um descarrilamento. O governo pode até vencer a primeira votação de impeachment, que provavelmente será sucedida por um novo pedido de impedimento. Já há alguns na fila. Só o que pode mudar a partida por um tempo é algum imprevisto com o vice. Pois mesmo com o jogo jogado não parece haver massa crítica para sustentar o presidente da Câmara no Planalto, ainda que interino.
E tem a Lava-Jato. Se o andamento da operação é, felizmente, incontrolável, seus efeitos imediatos sobre a política dependem não apenas das investigações em si, mas de como a política consegue montar um dique para conter os efeitos políticos das revelações.
Isso é possível? Um exemplo é o presidente da Câmara, cujas atribulações não são suficientes para deslegitimá-lo diante da opinião pública que trabalha para derrubar Dilma. E aí concluiremos que o que aparece como luta contra a corrupção embute a luta violenta pelo poder.
Porcentagens, considerando que o PMDB romperá com o governo: Impeachment 55%, TSE 25%. Dilma fica, sem poder 20%.
Prestar atenção:
segunda-feira, 21 de março de 2016
Dilma na armadilha: saída interessa a quem quer a mudança e também a quem não quer
• Governo e PT chegam isolados ao desfecho
• Sistema político pede quem o proteja
• Obstáculo a uma saída negociada é a Lava-Jato
Os campos chegam definidos ao final desta etapa da guerra. O movimento oposicionista-liberal que desde janeiro de 2015 trabalha para derrubar o governo alcançou vantagem no momento decisivo. Tem dois terços de apoio social, alinhamento da imprensa profissional, suporte das maiores entidades empresariais e uma narrativa fartamente nutrida pela Lava-Jato.
Já o campo governamental-progressista isolou-se. Apesar de inteiro e de agrupar a maioria da esquerda, sua fraqueza progressiva fez perder as condições de puxar o centro. Algumas razões: 1) a incapacidade de atrair confiança para liderar a retomada econômica, 2) o contraste brutal entre os fatos da Lava-Jato e sua simbologia historicamente construída e 3) a impotência diante das pressões entrópicas sobre o sistema político.
No ponto 3, se o poder não consegue se proteger e defender o sistema que o produziu e o sustenta, o próprio sistema procura livrar-se do inútil e perigoso corpo estranho. Então, se é verdade que os empresários estão atrás de uma saída que estimule a retomada dos negócios, e se o cidadão comum deseja a degola dos poderosos que vê indevidamente favorecidos, o ecossistema político busca quem evite a desagregação final.
É a armadilha em que Dilma se deixou capturar: sua saída interessa a quem deseja mudar, e também aos que precisam que quase nada mude.
A estratégia da presidente era apresentar-se como ilha de segurança, correção e firmeza. Para que funcionasse melhor, precisaria de mais liderança pessoal, mais capacidade de comunicação e condições de, em certo momento, romper com as fontes primárias de seu poder. Requisitos para um certo bonapartismo. Não se faz bonapartismo sem Bonapartes.
Entretanto, apesar de este jogo caminhar para o final, ainda não acabou. Será interessante acompanhar se terminará à brasileira, em alguma negociação, ou se caminharemos para a ruptura que produziria longo período de (ainda mais) conflagração político-social. Não há hoje como os vitoriosos aniquilarem rapidamente os derrotados sem ferirem a democracia.
A principal dificuldade para a saída negociada é que ela precisaria incluir o destino político-jurídico do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu partido, e não parece que o poder em gestação para o pós-PT tenha, no momento, consenso interno para tal ou força para impor isso à Lava-Jato.
E é difícil imaginar um campo progressista relativamente apaziguado depois de, pelo seu ângulo, ver-se arrancado brutalmente do poder, ter seu líder maior encarcerado e enxergar a ameaça da aniquilação. Que é exatamente o que o público antipetista vai exigir do eventual próximo governo, e é o que os políticos antipetistas querem, para olhar 2018 com mais leveza.
Quem terá papel importante para o desfecho? Lula. Ele enfrenta um duplo desafio: no plano pessoal-familiar, defender-se e defender os seus. No político, cuidar do patrimônio partidário, eleitoral e simbólico que acumulou na vida. Ou seja, manter-se o líder indisputado de uma esquerda forte. Evitar a desagregação que o Partido Comunista sofreu no pós-64, acusado de passividade diante do golpe de estado.
O Lula surpreendentemente pacífico que subiu ao palanque na Paulista dia 18 é a melhor aposta de Lula para atingir os dois objetivos. Há porém, riscos. Um, como em 64, é abrir espaço à esquerda. Este é pequeno, no momento, pois o PT pode adotar a política do “big stick”. O segundo risco são os fatos. Como lembrei semana passada, eles costumam ser teimosos.
Probabilidades: Impeachment 50%, cassação TSE 20%, Dilma fica, sem poder 30%.
Prestar atenção:
• A posição do PMDB do Senado
• Os votos na Câmara para o impeachment
• A Lava-Jato
• Sistema político pede quem o proteja
• Obstáculo a uma saída negociada é a Lava-Jato
Os campos chegam definidos ao final desta etapa da guerra. O movimento oposicionista-liberal que desde janeiro de 2015 trabalha para derrubar o governo alcançou vantagem no momento decisivo. Tem dois terços de apoio social, alinhamento da imprensa profissional, suporte das maiores entidades empresariais e uma narrativa fartamente nutrida pela Lava-Jato.
Já o campo governamental-progressista isolou-se. Apesar de inteiro e de agrupar a maioria da esquerda, sua fraqueza progressiva fez perder as condições de puxar o centro. Algumas razões: 1) a incapacidade de atrair confiança para liderar a retomada econômica, 2) o contraste brutal entre os fatos da Lava-Jato e sua simbologia historicamente construída e 3) a impotência diante das pressões entrópicas sobre o sistema político.
No ponto 3, se o poder não consegue se proteger e defender o sistema que o produziu e o sustenta, o próprio sistema procura livrar-se do inútil e perigoso corpo estranho. Então, se é verdade que os empresários estão atrás de uma saída que estimule a retomada dos negócios, e se o cidadão comum deseja a degola dos poderosos que vê indevidamente favorecidos, o ecossistema político busca quem evite a desagregação final.
É a armadilha em que Dilma se deixou capturar: sua saída interessa a quem deseja mudar, e também aos que precisam que quase nada mude.
A estratégia da presidente era apresentar-se como ilha de segurança, correção e firmeza. Para que funcionasse melhor, precisaria de mais liderança pessoal, mais capacidade de comunicação e condições de, em certo momento, romper com as fontes primárias de seu poder. Requisitos para um certo bonapartismo. Não se faz bonapartismo sem Bonapartes.
Entretanto, apesar de este jogo caminhar para o final, ainda não acabou. Será interessante acompanhar se terminará à brasileira, em alguma negociação, ou se caminharemos para a ruptura que produziria longo período de (ainda mais) conflagração político-social. Não há hoje como os vitoriosos aniquilarem rapidamente os derrotados sem ferirem a democracia.
A principal dificuldade para a saída negociada é que ela precisaria incluir o destino político-jurídico do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu partido, e não parece que o poder em gestação para o pós-PT tenha, no momento, consenso interno para tal ou força para impor isso à Lava-Jato.
E é difícil imaginar um campo progressista relativamente apaziguado depois de, pelo seu ângulo, ver-se arrancado brutalmente do poder, ter seu líder maior encarcerado e enxergar a ameaça da aniquilação. Que é exatamente o que o público antipetista vai exigir do eventual próximo governo, e é o que os políticos antipetistas querem, para olhar 2018 com mais leveza.
Quem terá papel importante para o desfecho? Lula. Ele enfrenta um duplo desafio: no plano pessoal-familiar, defender-se e defender os seus. No político, cuidar do patrimônio partidário, eleitoral e simbólico que acumulou na vida. Ou seja, manter-se o líder indisputado de uma esquerda forte. Evitar a desagregação que o Partido Comunista sofreu no pós-64, acusado de passividade diante do golpe de estado.
O Lula surpreendentemente pacífico que subiu ao palanque na Paulista dia 18 é a melhor aposta de Lula para atingir os dois objetivos. Há porém, riscos. Um, como em 64, é abrir espaço à esquerda. Este é pequeno, no momento, pois o PT pode adotar a política do “big stick”. O segundo risco são os fatos. Como lembrei semana passada, eles costumam ser teimosos.
Probabilidades: Impeachment 50%, cassação TSE 20%, Dilma fica, sem poder 30%.
Prestar atenção:
• A posição do PMDB do Senado
• Os votos na Câmara para o impeachment
• A Lava-Jato
segunda-feira, 14 de março de 2016
PMDB ocupa o centro para ser alternativa e busca apoio para não se tornar “o breve”
As últimas semanas de forte ofensiva político-jurídico-policial contra o governo Dilma Rousseff aceleraram seu isolamento no Congresso e na sociedade, e desencadearam articulações finais para o desempate do jogo. O PMDB do vice-presidente Michel Temer movimenta-se para ocupar o centro, em busca de reunir massa crítica e formar o polo de aglutinação de uma nova maioria.
Como vimos apontando há um ano, dois vetores operam em tensão na conjuntura de crise em que o governo desliza para a fraqueza extrema. O primeiro diz que ele só cai quando houver outro pronto a assumir. O segundo diz que se faltar governo por tempo suficiente alguma alternativa aparecerá para ocupar o vácuo.
Dilma atravessou 2015 agarrada à primeira boia. Não havia entre os adversários consenso mínimo sobre a operação da transição. Mas o Palácio do Planalto, em larga medida, desperdiçou a extensa janela de oportunidade. Principalmente pela incapacidade de apontar rumos e conduzir o país à recuperação econômica.
A Operação Lava-Jato teria forte impacto em qualquer cenário, mas ela só empurra a administração para o precipício pela fragilidade inerente à coalizão governamental, em que o partido do poder não reúne nem 15% do Congresso. É possível sobreviver assim quando as vacas estão gordas e o líder tem forte apoio popular. Mas se elas emagrecem e o líder está enfraquecido, torna-se mais difícil.
Uma dificuldade adicional do governo é que o PT, muito atingido pela Lava-Jato, comporta-se como se preferisse marchar heroicamente para a oposição em vez de tentar manter o poder. Espaço de que se aproveita o PMDB. Mas este também tem problemas. O principal é garantir que, na hipótese de tomar a caneta, não venha a ser derrubado na sequência.
A situação do PMDB é paradoxal. Se a política pudesse operar à margem da sociedade, o partido estaria confortável. Sobra-lhe capacidade para formar uma maioria parlamentar funcional. Falta-lhe porém apoio social. Pergunte-se às multidões que foram ontem às ruas o que pensam do PMDB. Dificilmente haverá surpresas nas respostas. E a legenda não está imune, ao contrário, às vicissitudes com a Lava-Jato.
A fraqueza terminal deste governo Dilma, combinada à ausência de instrumentos para sua substituição em prazo curto pela via eleitoral e ao déficit de legitimidade dos personagens na linha de sucessão, empurra a política para alguma solução de transição. Como há muitos candidatos a Lenin, mas nenhum candidato a Kerensky, a coisa demandará trabalho. Enquanto isso, a política escorrega para decidir esta etapa na votação sobre o impeachment.
A decisão está prevista para demorar algumas semanas, o que costuma ser muito tempo em política. Nesse hiato, Dilma cogitará fazer concessões. O espaço é limitadíssimo. Os fatos darão a palavra final. Eles são teimosos.
Probabilidades; Impeachment, 40%, Cassação da chapa pelo TSE, 20%. Dilma fica, sem poder 35%. Dilma fica, com poder 5%. Aqui, algum cuidado deve-se tomar, porque agora o impeachment pode não eliminar completamente a hipótese de cassação pelo TSE.
Atenção:
• O que o STF vai decidir sobre o parlamentarismo
• O PMDB vai mesmo recusar a Secretaria de Aviação Civil?
• O tamanho das manifestações anti-impeachment dia 18
• A Lava-Jato
segunda-feira, 7 de março de 2016
Centro some, campos definem-se em busca de um improvável desempate
As últimas ações da Lava-Jato injetaram combustível nos grupos que trabalham pela derrubada do governo Dilma. E os movimentos recentes trouxeram fato novo: silenciaram o centro politico e catalisaram a demarcação clara de dois campos: um exige o fim do governo, pelo meio que for, e o outro mostra-se disposto a resistir, também por qualquer meio.
As trincheiras são cavadas no parlamento, na imprensa, nos partidos, nas organizações sociais e nas ruas, a caminho da radicalização. Não há neutralidade. Ambos os lados forçam a saída do duradouro “empate catastrófico”, imagem gramsciana de quando nenhum bloco de poder tem força para se impor.
Mas preparar não implica conseguir imediatamente. Dada a correlação de forças, mais provável é que não haja solução capaz de um desempate real.
Dois cenários são mais palpáveis. Se a presidente escapar do atual impeachment (e ela tem hoje como reunir os votos necessários) é improvável que os adversários aceitem o resultado. Certamente virão com nova ação de impedimento enquanto, abastecidos pela Lava-Jato, estimulam a cassação no TSE. Na outra hipótese, o campo politico e social desalojado pelo que considerará um golpe recusará qualquer conciliação.
Situações assim costumam evoluir para solução de força, que nas atuais condições brasileiras não parece provável. O PT não teria como calar a imprensa, subjugar o Congresso e controlar o Ministério Público. E um eventual governo provisório antipetista não conseguiria dissolver partidos, fechar sindicatos e colocar a oposição na cadeia.
Uma dificuldade para qualquer solução política pacífica é quando não basta resolver o hoje, por causa da sombra do amanhã. Depois da 24a. fase da Lava Jato e corolários, se a oposição aceitar Dilma até 2018 estará dando fôlego a Lula-2018. E fazer dura oposição a um eventual governo-tampão (que parte ponderável da sociedade verá como ilegal e ilegítimo) e a suas prováveis medidas de austeridade será o caminho natural de quem foi desalojado do poder pelo que considerará um ato de força.
É diferente de quando Fernando Collor foi deposto. Itamar Franco (que não poderia se reeleger e portanto não era ameaça a ninguém) parecia ser peça neutra para 1994. Depois, viu-se que não era bem assim, mas a eleição já estava suficientemente próxima.
Um segundo problema é que o duro ajuste de 2015 parece estar no final, e alguns resultados positivos devem aparecer ainda este ano. Também por isso a oposição corre contra o tempo. E o governo, enxergando a luz no fim do túnel, lutará para alcançá-la.
É prudente evitar o pensamento mágico de que uma primeira solução congressual vá permitir a superação rápida da crise política e, portanto, acelerar a retomada econômica. Sem uma aceitação mútua de regras do jogo e sem que um lado capitule, a tendência é de agravamento dos impasses. Nunca é demais lembrar: no teatro da política, o personagem costuma ser escravo do papel.
Decidimos refinar nossos parâmetros sobre Dilma ficar ou sair. Em vez de tratar o impeachment em geral, analisaremos sempre o atual pedido de impeachment. A delação do senador Delcídio do Amaral certamente produzirá um novo, a não ser na hipótese de aditamento, a verificar. Porcentagens: Impeachment (20%), TSE (25%), Dilma fica (55%).
Variáveis a monitorar:
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Cinco variáveis para uma avaliação de cenário, para saber se Dilma fica ou sai
• Sobe o animus belli da oposição e do grupo de Michel Temer
• Temperatura política não chegou ainda ao ponto de ebulição
• Correlação de forças se mantém
• Oposição joga tudo no 13 de março
O cerco e a prisão pela Lava-Jato do publicitário das campanhas de Lula e Dilma Rousseff reaqueceram os ânimos e as esperanças de quem trabalha para encurtar o mandato da presidente e chegar ao poder antes de 2019. Mas os fatos novos não parecem ter alterado ainda a relação de forças na sociedade e no Congresso.
As pesquisas mostram o #ForaDilma estabilizado faz certo tempo no patamar de uns 60%. E as atribulações de Lula, do PT e de seu publicitário não provocaram até agora novas perdas no #FicaDilma.
A esperança do campo governista é a temperatura continuar abaixo do ponto de ebulição. Já os adversários trabalham 24x7x365 para manter a chama acesa sob a panela.
Variáveis a acompanhar:
1) Aparecerão acusações diretas contra Dilma?
Há acusações contra todo tipo de gente: empresários, parlamentares, ex-parlamentares, governadores, ex-governadores, ex-presidentes. Mas ainda não apareceu qualquer acusação direta à presidente da República. É uma fraqueza do #ForaDilma.
2) Ficará provado que #Dilma2014 teve financiamento ilegal?
Será mais fácil cassar a chapa Dilma-Temer no TSE se ficar comprovado que a campanha cometeu ilegalidades. Por mais política que venha a ser a decisão, ela precisará basear-se em algum fiapo de prova. O que existe até agora, dizem juízes da Corte, não é conclusivo nem exclusivo do PT. Aguarda-se a evolução das revelações da Operação Acarajé.
3) O homem e a mulher comuns voltarão maciçamente às ruas?
Há um ano as ruas foram tomadas por multidões, que voltaram para casa e deixaram na ribalta apenas militantes dos dois lados, como em 2013. O tamanho das manifestações e se elas crescem ou diminuem são argumentos e catalisadores no debate. Oposição joga tudo no 13 de março.
4) O PT vai virar-se contra o governo?
O governo precisa de aliados para sobreviver e o PT precisa de discurso para enfrentar as urnas. Mas qual será o custo/benefício de o PT ajudar a derrubar um governo do PT? Será favorável ao partido? O mais provável é que o PT se posicione agora como a ala esquerda de um governo sobre o qual perdeu a hegemonia, mas não rompa.
5) O PMDB penderá para o #ForaDilma?
Volta o animus belli do grupo do vice-presidente Michel Temer, que abriu o ano na defensiva, perdeu a liderança na Câmara, mas costurou e deve ser reconfirmado no comando do partido. Entretanto, o PMDB do Rio, a maioria dos deputados federais, a quase totalidade dos senadores e os governadores não se deslocaram do oficialismo. E Dilma aproxima-se de Renan Calheiros.
O #FicaDilma recuou cinco pontos esta semana, pelas atribulações do publicitário de suas campanhas. O que influi fortemente na “variável TSE”. Situação de momento:
• Dilma fica (60%)
• Dilma e Temer cassados no TSE (30%)
• Impeachment (10%)
Prestar atenção:
• Lava-Jato e evolução das provas contra a campanha de Dilma-Temer 2014
• O acordo para unificar o PMDB na convenção
• O Congresso da Rede, de Marina Silva
• Propostas para a reforma da Previdência Social
• Temperatura política não chegou ainda ao ponto de ebulição
• Correlação de forças se mantém
• Oposição joga tudo no 13 de março
O cerco e a prisão pela Lava-Jato do publicitário das campanhas de Lula e Dilma Rousseff reaqueceram os ânimos e as esperanças de quem trabalha para encurtar o mandato da presidente e chegar ao poder antes de 2019. Mas os fatos novos não parecem ter alterado ainda a relação de forças na sociedade e no Congresso.
As pesquisas mostram o #ForaDilma estabilizado faz certo tempo no patamar de uns 60%. E as atribulações de Lula, do PT e de seu publicitário não provocaram até agora novas perdas no #FicaDilma.
A esperança do campo governista é a temperatura continuar abaixo do ponto de ebulição. Já os adversários trabalham 24x7x365 para manter a chama acesa sob a panela.
Variáveis a acompanhar:
1) Aparecerão acusações diretas contra Dilma?
Há acusações contra todo tipo de gente: empresários, parlamentares, ex-parlamentares, governadores, ex-governadores, ex-presidentes. Mas ainda não apareceu qualquer acusação direta à presidente da República. É uma fraqueza do #ForaDilma.
2) Ficará provado que #Dilma2014 teve financiamento ilegal?
Será mais fácil cassar a chapa Dilma-Temer no TSE se ficar comprovado que a campanha cometeu ilegalidades. Por mais política que venha a ser a decisão, ela precisará basear-se em algum fiapo de prova. O que existe até agora, dizem juízes da Corte, não é conclusivo nem exclusivo do PT. Aguarda-se a evolução das revelações da Operação Acarajé.
3) O homem e a mulher comuns voltarão maciçamente às ruas?
Há um ano as ruas foram tomadas por multidões, que voltaram para casa e deixaram na ribalta apenas militantes dos dois lados, como em 2013. O tamanho das manifestações e se elas crescem ou diminuem são argumentos e catalisadores no debate. Oposição joga tudo no 13 de março.
4) O PT vai virar-se contra o governo?
O governo precisa de aliados para sobreviver e o PT precisa de discurso para enfrentar as urnas. Mas qual será o custo/benefício de o PT ajudar a derrubar um governo do PT? Será favorável ao partido? O mais provável é que o PT se posicione agora como a ala esquerda de um governo sobre o qual perdeu a hegemonia, mas não rompa.
5) O PMDB penderá para o #ForaDilma?
Volta o animus belli do grupo do vice-presidente Michel Temer, que abriu o ano na defensiva, perdeu a liderança na Câmara, mas costurou e deve ser reconfirmado no comando do partido. Entretanto, o PMDB do Rio, a maioria dos deputados federais, a quase totalidade dos senadores e os governadores não se deslocaram do oficialismo. E Dilma aproxima-se de Renan Calheiros.
O #FicaDilma recuou cinco pontos esta semana, pelas atribulações do publicitário de suas campanhas. O que influi fortemente na “variável TSE”. Situação de momento:
• Dilma fica (60%)
• Dilma e Temer cassados no TSE (30%)
• Impeachment (10%)
Prestar atenção:
• Lava-Jato e evolução das provas contra a campanha de Dilma-Temer 2014
• O acordo para unificar o PMDB na convenção
• O Congresso da Rede, de Marina Silva
• Propostas para a reforma da Previdência Social
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