Evocar o princípio da soberania supõe sempre algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita. Os bolcheviques alistavam-se no exército russo para colocar lenha na fogueira do derrotismo na Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar na derrubada do czar. Aparece em Dr Jivago, o clássico hollywoodiano de 1965. A elite política francesa preferiu capitular à Alemanha na Segunda Guerra, pois tinha mais medo dos compatriotas comunistas que dos nazistas alemães.
A análise política perde-se quando abandona o foco do central: a luta pelo poder, geralmente travada sem muita consideração pelos princípios. Quando Jimmy Carter pressionou o então presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos humanos dos perseguidos pelo regime militar, a ditadura reagiu invocando o princípio da soberania. O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”.
A designação pelos Estados Unidos de organizações criminosas brasileiras como terroristas, com todas as consequências políticas e legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de Washington. O governo brasileiro já vinha mostrando flexibilidade diante da pressão da administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo não estava jogado. Está longe de ser um segredo que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina Monroe 2.0.
Só que existe um problema anterior. O avanço, aparentemente imparável, do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado por aqui. Anunciam-se planos, votam-se leis, convocam-se entrevistas coletivas para anunciar soluções, mas a doença ignora o espetáculo e avança. Discutir princípios é importante, mas defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o risco de alguém de fora querer meter o bedelho.
Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou capital político no episódio das tarifas ao lançar mão do discurso da soberania. Vai funcionar quando o foco da disputa é o combate ao crime organizado? Vamos aguardar os números. Eles dirão se o eleitor está mais incomodado com a ingerência externa ou com a ingerência do crime sobre a vida dele.
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