Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
sábado, 11 de junho de 2022
O difícil caminho de Tebet
Uma terceira via cujos candidatos lá atrás somavam mais de 20% das intenções de voto hoje ronda em torno da metade disso. Ciro Gomes responde pela ampla maioria. Os apoios outrora dados a Sergio Moro e João Doria ainda estão longe de ser atraídos por Simone Tebet. Claro que isso até o momento. A eleição ganha-se, e perde-se, na campanha.
Quando apenas um nome é oferecido ao eleitor além de Lula e Bolsonaro, Ciro chega a roçar os 15%. Os demais tentam encostar nos dois dígitos. É pouco como patamar de chegada, mas não desprezível para a largada de uma campanha ao menos digna. O problema é preliminar: a falta de unidade, em contraste com a coesão da esquerda e do bolsonarismo.
Um dos problemas da terceira via foi imaginar haver uma larga fatia do mercado eleitoral que rejeita simultaneamente o presidente e o ex. A premissa estava errada por basear-se mais na aritmética que na política. Quando lá atrás Lula e Bolsonaro somados tinham 60% das intenções de voto, isso não significava que os restantes 40% rejeitassem ambos.
Como o tempo encarregou-se de mostrar.
Quando se cruzam as rejeições, a intersecção dos dois sempre oscilou entre 10% e 20% de rejeição simultânea. Não por coincidência, é a ordem de grandeza das intenções de voto se há um único terceiro nome na cartela. Tampouco é coincidência ter sido a ordem de grandeza das votações de Marina Silva quando se apresentou como solitária terceira via.
Se Simone Tebet resistir às armadilhas no MDB e conseguir manter o apoio do PSDB, tem a possibilidade de abrir a campanha oficial com números melhores que os minguados atuais, mesmo estando longe dos líderes. E aí vai ficar à mercê do imprevisível, esperando que algum dos ponteiros desmorone e que Ciro seja minado, ou desmontado.
Não chega a ser animador, mas é melhor que nada.
Até lá, Tebet tem pouco menos de sessenta dias para costurar um esboço de programa. Pois o que nunca se soube da terceira via é o que vai fazer no governo. Só há a certeza de ser uma turma que não curte nem Lula nem Bolsonaro. Seria suficiente se os dois não fossem campeões de voto. Contra dois líderes com base popular consolidada, tem sido insuficiente.
Um flanco programático-eleitoral da terceira via é ela estar de acordo, essencialmente, com o aspecto do governo Bolsonaro mais problemático hoje na visão do eleitor: a política econômica liberal e a confiança em que as forças de mercado vão dar um jeito na inflação. Pois, se o atual estado de espírito inverter-se até a urna, é mais provável que o próprio presidente faça a colheita.
sábado, 4 de junho de 2022
E a Covid-19?
Já foi dito e repetido aqui: Jair Bolsonaro mantém firme com ele a fatia de mercado que o acompanhou no primeiro turno de 2018, cerca de um terço. Tampouco é novidade que o principal obstáculo ao incumbente é a dificuldade de trazer apoios fora do núcleo mais consolidado. E a atitude do presidente na pandemia certamente ajudou a anabolizar as desconfianças a respeito da perícia dele diante de outros assuntos vitais, como a economia.
Onde Bolsonaro acertou e onde não?
O presidente acertou ao projetar que, em algum momento, as curvas de preocupação das pessoas com a pandemia e a economia se cruzariam e que a segunda seria dominante no período eleitoral. Mas talvez não tenha tido suficiente prudência, ou ceticismo diante dos otimistas, sobre quanto duraria a fase crítica e qual seria o custo em vidas de não adotar a meta de “Covid zero”. Ao final, a fase durou cerca de dois anos, e as mortes já passam 660 mil.
Há países muito bem considerados cujo desempenho foi igual ou pior, mas na maioria deles os governantes alinharam-se à tríade máscaras, distanciamento e vacinas e atravessaram a correnteza. Especialmente no caso das vacinas, a associação da imagem do líder ao esforço em busca do imunizante e ao estímulo à vacinação em massa vem trazendo retorno em capital político. Por aqui, o governo federal tem alguma dificuldade para recolher esse dividendo.
Um caso a estudar é a disputa entre Bolsonaro e o então governador de São Paulo, João Doria. Este teve que desistir da disputa ao final, por estar extremamente enfraquecido na política. E isso apesar de carregar o mérito de ter sido um dínamo na vacinação. Mas é possível notar que a vitória de Bolsonaro sobre Doria teve uma boa dose de pírrica, pois acabou consumindo forças que hoje fazem falta ao presidente contra Luiz Inácio Lula da Silva.
Não é por acaso que a saída do tucano da corrida tenha, segundo pesquisas, beneficiado, ainda que momentaneamente, o petista.
Um aspecto paradoxal é Bolsonaro ter acertado na previsão de que muito provavelmente teríamos de conviver com o vírus em circulação, sem que esse acerto lhe traga por enquanto qualquer benefício político. Talvez seja útil na campanha, quando Bolsonaro terá à disposição mais e maiores janelas de presença nos veículos, nem que apenas no horário eleitoral que caberá à coligação apoiadora do presidente da República.
sexta-feira, 3 de junho de 2022
Quem manda nisso aqui?
Os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro apontam a contradição entre o bom número de pessoas que costuma recebê-lo com entusiasmo nas ruas país afora e os números não tão bons das pesquisas de intenção de voto. Mas não há antagonismo entre os dois achados.
A base bolsonarista está mais mobilizada que os adversários nas ruas e nas redes sociais, é visível, e 35% ou 40% do voto válido é uma baita multidão. Mas seria errado acreditar que todas as pesquisas estão furadas no que têm em comum: hoje, Luiz Inácio Lula da Silva lidera com alguma margem, no primeiro e no segundo turnos, no voto espontâneo e no estimulado.E lidera, basicamente, porque o presidente está encaixotado na fatia de mercado que esteve com ele no primeiro turno de 2018, cerca de um terço do total dos eleitores. A liderança de Lula se dá por Bolsonaro apresentar a esta altura um teto baixo, apesar do piso alto. Tem um belo estoque fidelíssimo de votos, mas acrescenta pouco fora do círculo mais fiel.
E por que um contingente de eleitores numa ordem de grandeza equivalente à que só aderiu ao capitão no segundo turno em 2018 vem resistindo à reeleição? Houve um período em que isso se deveu ao desconforto com as palavras, talvez mais que com as ações, dele na pandemia. Hoje o nó parece concentrar-se na economia. E mais no futuro que no passado dela.
As mesmas pesquisas mostram o eleitor até que distribuindo a responsabilidade pelas dificuldades econômicas, especialmente a inflação. A ideia de a pandemia e a guerra na Europa terem criado dificuldades que pressionam os preços encontra receptividade entre os votantes. Mas o eleitor não parece estar atrás, principalmente, de apontar culpados.
O eleitor está em busca de quem possa apresentar soluções. De preferência imediatas. Ou, pelo menos, um plano capaz de enfrentar os problemas. Candidato a presidente em campanha é tipo um CEO que se apresenta diante dos acionistas da empresa. Não dá para ficar no “a situação é difícil mesmo, mas a culpa pelos números ruins não é minha”.
Boa parte da inflação brasileira é importada? Sim, mas essa explicação não resolve a vida de quem vê o salário comprar cada vez menos. E há o teatro do absurdo nos combustíveis, com Bolsonaro indo para o quarto presidente da Petrobras, mas sem conseguir influir na política de preços da companhia, apesar de o governo ser o acionista majoritário.
A paridade com os preços internacionais é um sucesso entre os acionistas minoritários da petrolífera e, aparentemente, no público que se identifica com o desejo de uma terceira via na corrida eleitoral. É pouca gente, talvez consigam eleger alguns deputados. Não que Lula tenha sido objetivo no tema, apesar de prometer “abrasileirar” o preço do combustível na bomba.
Nem precisa. Como o presidente não apresenta, até agora, caminhos para aliviar o peso dessa despesa no bolso do povão, o petista pode jogar parado, esperando que prevaleça o “se Bolsonaro não está resolvendo, por que não dar um chance ao Lula, que já esteve lá e deve saber o que fazer?”.
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Publicado na revista Veja de 8 de junho de 2026, edição nº 2.788
sábado, 28 de maio de 2022
O enigma brasileiro
Esse período vai, pouco a pouco, mostrando seu esgotamento. Num planeta interconectado em que os países busquem cada um livremente desenvolver-se, será irreversível que o eixo da hegemonia econômica se desloque rumo à Ásia. A razão deve ser buscada na aritmética. Sem contar os demais países asiáticos, China e Índia, juntas, têm população que corresponde a quase quatro vezes a soma dos habitantes dos Estados Unidos e da União Europeia.
O otimismo ocidental com a globalização impulsionada a partir dos anos 90 do século passado supunha que a absorção das grandes economias asiáticas pelo mercado global comercial e financeiro, China e Índia à frente, acabaria por consolidar a hegemonia do Ocidente político. Aconteceu o contrário, e hoje este sabe que o desenvolvimento pacífico do planeta projeta um mundo em que norte-americanos e europeus não mais darão as cartas sozinhos.
Essa conclusão óbvia está na base das tensões e conflitos planetários mais relevantes e acaba de ser abertamente manifestada num pronunciamento oficial do Departamento de Estado dos EUA, a que a política exterior da UE aparentemente decidiu acoplar-se acriticamente, talvez com alguma resistência, como é tradicional, da França. A nova política do Ocidente é desglobalizante, buscando enfraquecer polos potencialmente ameaçadores à hegemonia.
Toda essa introdução é para informar que o Brasil está diante de um enigma, um problema, na acepção matemática. Somos um país do Ocidente geográfico e político (agora que o conceito de Terceiro Mundo parece algo enfraquecido), mas na esfera da economia a inércia nos empurra a estreitar relações com o Oriente geográfico e político, este definido pelos países que EUA e UE consideram ameaçadores a sua liderança.
Não é à toa que, por enquanto, as manifestações sobre a guerra na Ucrânia vindas dos aspirantes à Presidência com expectativa real de poder a partir de 2023, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro, tragam alguma superposição. Restou aos demais a “photo-op”, alinhar-se à narrativa dominante para aproveitar a janela de oportunidade. Mas o problema colocado pela vida real é mais complexo. Como equilibrar-se no arame sem cair ou ser derrubado?
O crescimento econômico do Brasil está ligado às exportações de commodities e aos investimentos em infraestrutura. No momento, nossos mercados mais ativos não estão nos EUA e na UE, mas no Oriente, especialmente na China. E não há sinal de que isso vá mudar no curto prazo. Mas está nítido que o Ocidente político pretende tratar como adversários todos aqueles que não se alinharem a sua Guerra Fria 2.0.
sábado, 21 de maio de 2022
Ninguém pode perder. Como faz então?
Qual o principal nó político no conflito russo-ucraniano? É
a consequência mais imediata de ter deixado de ser uma disputa entre Moscou e
Kiev e evoluído para uma confrontação militar entre a Rússia e a Organização do
Tratado do Atlântico Norte (Otan), liderada pelos Estados Unidos, que por sua vez estão
numa guerra não declarada com os russos por meio da Ucrânia. O nó? Nem
Washington nem Moscou podem ser derrotados.
Certo desfecho que atenda de alguma maneira às demandas
russas de antes de 24 de fevereiro corre o risco de ser recebido pelos
eleitores americanos como um fracasso de Joe Biden, que no final deste ano
enfrenta eleições de meio de mandato para renovar a Câmara dos Representantes
(deputados) e boa parte do Senado. As midterm do primeiro
quadriênio costumam ser complicadas para o ocupante da Casa Branca, e os
índices de Biden estão ruins.
No outro lado, algo que cheire a derrota empurrará Vladimir Putin para a
zona de alto risco político, também pelos custos humanos, materiais e
econômicos da operação militar. E a maior ameaça não viria de eventuais
movimentos pró-Ocidente, mas de lideranças patrióticas que buscariam responder
às frustrações desencadeadas, entre outros fatores, pela incapacidade de
defender as populações russas nas áreas desgarradas após o fim da União
Soviética.
Uma rápida passada de olhos pela história russa e
soviética dos últimos dois séculos faz qualquer um entender a sensibilidade ali
diante de potenciais ameaças ao território e à população.
E no Brasil, qual é o nó? A exemplo da pendenga europeia,
o fato de nem o Supremo Tribunal Federal (STF) nem o presidente da República
darem até agora sinal de aceitar ser derrotados na refrega em torno do sistema
de votação. O STF (do qual o Tribunal Superior Eleitoral é, na prática, uma
subseção) é o certificador do processo; e o presidente, na polarização, carrega
com ele hoje quatro de cada dez votos num eventual segundo turno.
É briga grande.
Curiosamente, a situação não chega a ser 100% original.
Quatro anos atrás, quando Luiz Inácio Lula da Silva ficou inelegível pela
condenação em segunda instância agora anulada, o Partido dos Trabalhadores lançou o “Eleição
sem Lula é Fraude”. E esticou a corda até a véspera do segundo turno.
Ali o impasse resolveu-se pacificamente, também por dois motivos: 1) o PT não
estava no poder e 2) o PT acreditava que tinha chances, mesmo sem Lula na urna.
Tanto tinha que Fernando Haddad disputou um segundo
turno bem competitivo.
Os personagens da trama de agora já deixaram passar algumas ocasiões
propícias à desejável redução da temperatura. Elio Gaspari, que viu alguns filmes parecidos, abordou o
assunto por um ângulo histórico cerca de um mês atrás. A corda está
esticada, mas não se deve desistir de o país chegar à eleição
com todo mundo deixando claro que aceitará o resultado. Por razões que dariam
outro artigo, talvez estejam faltando atores dispostos a assumir os papéis
capazes de levar a trama a esse feliz desfecho.
A exemplo do que se passa agora no leste europeu. Sim, o indivíduo tem um papel na História.
sábado, 14 de maio de 2022
Desbalcanização ou semipresidencialismo?
A evidência de persistir, e crescer, entre nós um desarranjo institucional vem sendo confrontada com a esperança de que o “banho de urna” represente um reset, um Ctrl+Alt+Del. O sonho nutre-se, entre outras fontes, de um certo traço sebastianista, de raízes bem conhecidas na história luso-brasileira. Nosso surto sebastianista mais atual canta a saudade dos “bons tempos da fundação da Nova República”. É o mais novo mito a operar como promessa de tábua de salvação.
O sebastianismo da ocasião omite que, quando o eleitor foi
chamado pela primeira vez a opinar sobre a Nova República, em 1989 (o
estelionato eleitoral de três anos antes não conta), varreu da cena todos os
avalistas dela. Restaram apenas três personagens: 1) Fernando Collor, de
origem na Arena/PDS; 2) Luiz Inácio Lula da Silva, cujo partido recusara apoiar
Tancredo Neves contra Paulo Maluf em 1985; e 3) Leonel Brizola, que, derrotadas
as Diretas Já em 1984, preferia dar mais um ano a João Figueiredo e eleições
gerais em em 1986.
Esquece ainda que o produto da Nova República e de seu
filho mais célebre, a Constituição de 1988, não é propriamente bom. Dos quatro
presidentes eleitos que precederam o atual, metade sofreu impeachment, e há mais
de trinta anos o país alterna voos de galinha e mediocridade econômica. Mais
que tudo, é visível e aparentemente irreversível o citado desarranjo
institucional, com diversos núcleos de poder retalhando com os dentes o que deveria
ser um espaço de comando do Executivo, um poder moderador na prática.
Mas Paulo Pontes tinha mesmo razão, a profissão preferida do
brasileiro é a esperança, e neste ciclo ninguém soube até agora interpretar isso
melhor que Lula. Por fortuna ou virtù, ou ambas, calhou de na
caminhada de agora encontrar um Geraldo Alckmin perambulando pela estrada da
política depois de colher um mau resultado em 2018 e de ver-se abandonado pelo
partido no qual um dia foi prócer. E tudo se encaixou perfeitamente para
revigorar a narrativa sebastianista do “como teria sido melhor de PT e
PSDB não tivessem brigado” em 1994.
E lá vamos nós a mais um “banho de urna”, do qual emergirá
um vitorioso eleitoral apenas para, em seguida, bater de frente com o fato cruel
de ter chegado tarde na festa. Notará que, fruto das estruturas e das crises
legadas pela Nova República, o poder real em Brasília já vem previamente
distribuído. O orçamento está na prática sob o comando do Congresso Nacional, e o Supremo Tribunal Federal instituiu-se como uma versão para o século 21 do Poder
Moderador (com maiúsculas) formalmente abolido junto com a Monarquia ainda no
século 19.
E vem aí a onda pelo semipresidencialismo, um
parlamentarismo repaginado com a missão de colocar no papel e dar base legal à
realidade que se vem impondo na prática. Palpite: é mais fácil esse expediente
ser absorvido por um eventualmente reeleito Jair Bolsonaro ou por um nome da
terceira via raiz do que por um Lula renascido das cinzas da Lava Jato ou por um
Ciro Gomes que insiste em ter ideias próprias a respeito do que fazer com o
Brasil depois de três décadas e meia de Nova República.
Ou seja, está garantida uma segunda dúvida. A
primeira, naturalmente, é a respeito de quem ganhará a eleição presidencial.
Mas talvez a segunda venha a ser mais relevante para os desdobramentos a partir
de 2023: como o eleito fará para “desbalcanizar” o Estado brasileiro? Ou terá de se conformar com o aspecto hoje quase ornamental do cargo e dançar
conforme a música, com pouca ou nenhuma margem de manobra para transformar o
apoio popular em ações de governo?
sábado, 7 de maio de 2022
Cabeça a cabeça? (*)
Jair Bolsonaro vai chegando à largada da corrida com cerca de um terço de aprovação (não confundir com o bom + ótimo). Bem, a análise deve sempre fugir da tentação de tirar conclusões definitivas, ou quase, a partir de números de diferentes levantamentos e que oscilam dentro das margens de erro. Uma diferença importante entre os dois incumbentes, fora das margens de erro: naquele julho, Dilma tinha metade do ruim + péssimo que Bolsonaro tem hoje, por todos os levantamentos.
No caso de Dilma, diferente de Bolsonaro, uma maioria simples do eleitorado acomodava-se no regular.
Como a história registra, Dilma reelegeu-se, mesmo com índices de popularidade na zona de risco. Contribuiu decisivamente uma campanha duríssima para elevar a rejeição dos adversários. O resultado final veio de uma chegada cabeça a cabeça. Três milhões e meio de votos sobre Aécio Neves, num eleitorado de mais de 140 milhões de potenciais votantes. E os reflexos daquela disputa de rejeições para a política brasileira estão bem registrados, sentem-se até hoje.
Já mostrei antes aqui os números de um levantamento da Ipsos, a partir de 300 eleições em que incumbentes tentaram se reeleger mundo afora nos últimos trinta anos. Com 35% de aprovação (não confundir com ótimo + bom) a seis meses da eleição, a chance de vitória é 36%. Se a aprovação sobe cinco pontos, a probabilidade de ganhar vai a 58%. Se a aprovação vai a 45%, são 78% de chance de continuar na cadeira.
Ora, se o incumbente pode reeleger-se mesmo com uma aprovação abaixo de 50%, a conclusão é inescapável, ao menos nos sistemas em que se exige a maioria absoluta dos votos: o caminho para a vitória está em fazer os concorrentes terem uma rejeição maior ainda que a própria. Pois, se um pedaço dos que o rejeitam tampouco desejar o desafiante, ele pode perfeitamente levar a taça ainda que enfrente a oposição da maioria.
O eleitor que está no ruim + péssimo não costuma migrar direto para o bom + ótimo, em geral faz uma escala no regular. E pode muito bem ficar por ali até o dia da urna, quando será tentado a escolher não quem deseja mais, mas quem rejeita menos. Qual é o desafio de Jair Bolsonaro, que mantém em grandes números seu apoio do primeiro turno de 2018? Fazer quem votou nele no segundo turno e hoje está no ruim + péssimo migrar para o regular e ter mais aversão à vitória de Lula que à reeleição dele.
E qual o caminho de Lula, ou de alguma eventual surpresa, hoje improvável? Impedir isso. Pode parecer acaciano, mas é por aí.
Se Bolsonaro tiver sucesso em fazer migrar uma quantidade razoável de eleitores do ruim + péssimo para o regular, teremos uma eleição cabeça a cabeça em outubro. Como foi em 2014. É prudente preparar-se para esse cenário.
(*) Esta análise complementa a da semana passada (Sem barreiras intransponíveis)
sexta-feira, 6 de maio de 2022
Bandeiras pelo chão
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Publicado na revista Veja de 11 de maio de 2022, edição nº 2.788
sábado, 30 de abril de 2022
Sem barreiras intransponíveis
Não é a primeira vez que se diz isso, mas seria desejável as pessoas manterem uma relação menos passional com as pesquisas eleitorais. Seria desejável mas é impossível. Ao trazer o desfecho das urnas a valor presente, antecipam-se estados de euforia e depressão que costumam caracterizar o posfácio da eleição. É emoção pura. São amor e ódio garantidos.
O habitual, por isso, é as pessoas amarem as pesquisas boas
para seus candidatos e odiarem as ruins. É um direito. Mais prudente,
entretanto, seria tentar olhar os números com algum distanciamento. E há um caminho:
em vez de repudiar as pesquisas, ou acreditar só em algumas, melhor tentar olhar
o que têm em comum. Inspirar-se na lei dos grandes números.
Segundo a qual, quanto mais vezes você repetir a mesma
experiência, mais a média dos resultados tende a aproximar-se do resultado
esperado.
Vale em algum grau para as pesquisas feitas pelas diversas empresas do mercado, ainda que haja distintas metodologias, e por isso não dá para falar, a rigor, na repetição da mesma experiência. Mas uma leitura mais flexível e menos rigorosa da regra é legítima aqui: quanto mais pesquisas você olhar, mais improvável que os traços em comum de todas estejam errados.
O que dizem todas as pesquisas? Hoje, 1) Luiz Inácio Lula da
Silva está à frente de Jair Messias Bolsonaro. Mas, 2) este vem encurtando a
distância, reagrupando principalmente o eleitorado dele de quatro anos atrás, porque 3) o quadro geral na saúde e na economia apresenta
alguma evolução e 4) o contingente que rejeita o PT não encontra alternativa
crível.
Onde está o coração da corrida eleitoral? Tentar descobrir
qual é exatamente o eleitor em disputa. Pois as energias e os recursos escassos
das campanhas precisam ser alocados para onde podem render voto, ou ao
menos tirar do adversário, e não para malhar em ferro frio.
A mais recente pesquisa BTG/FSB trouxe Bolsonaro com 30% de
intenção espontânea. Na margem de erro, corresponde ao que ele reuniu
no primeiro turno quatro anos atrás, pouco mais de 33% do total do eleitorado.
Por que a comparação tem de ser com o total? Porque as pesquisas não abrem o
questionário perguntando se o eleitor vai votar ou não.
Lula, no momento, vive uma estabilidade. No voto
espontâneo, consegue 36%. Reúne o eleitorado duro petista e lulista que levou
Fernando Haddad ao segundo turno em 2018 (pouco mais de 21% do total dos
eleitores), mais um pedaço dos nem-nem de quatro anos atrás e mais um tanto de
gente que só aceitou Bolsonaro quando a opção era o PT.
É razoável interpretar o comportamento desses dois últimos
grupos com uma função direta da rejeição ao atual presidente. Ou seja, o desafio
colocado para Bolsonaro hoje é um só: diminuir a rejeição. O que pode ser
buscado reduzindo a própria ou aumentando a dos adversários, principalmente a do
adversário principal.
Tentando fazer com que este seja mais rejeitado que o
presidente pelo eleitor flutuante.
Dilma Rousseff reelegeu-se assim. Em setembro de 2014 seu
bom+ótimo estava em torno de 35%, mas uma campanha duríssima contra os
desafiantes, Marina Silva no primeiro turno e Aécio Neves no segundo, fez mais
gente acabar rejeitando os adversários do que o contingente que não queria
saber da reeleição da petista.
A Dilma de então levava uma vantagem sobre o Bolsonaro de
hoje: não recebia tanto ruim+péssimo, tinha um estoque maior de regular. Mas
nada impede o atual presidente de trabalhar para chegar a setembro com uma
parte do hoje ruim+péssimo transferido para o regular. É o que os adversários vão
tentar impedir.
Se Bolsonaro ganhou quatro anos atrás e Lula lidera hoje, ou 1) uma parte expressiva do não-voto em 2018 (brancos+nulos+abstenção, pouco mais de 27%) inclina-se ao petista e/ou 2) um pedaço significativo dos antes eleitores do capitão hoje respondem “Lula”.
A primeira hipótese parece menos ponderável para projetar o resultado de outubro. Pois o não-voto tem se mantido algo estável na série histórica.
O principal desafiante e o incumbente disputam, centralmente, alguém que já tinha votado no PT, aí votou em Bolsonaro, agora
está bravo com este e tem à disposição um produto já testado, um ex-presidente
que saiu bem avaliado do cargo. Mas, atenção: quem já votou em Lula e também já
votou em Bolsonaro não enxerga uma barreira intransponível pera acabar
escolhendo qualquer um dos dois.
sábado, 23 de abril de 2022
A guerra de posição. Por enquanto?
Assim, entramos há alguns anos na era da disputa feroz pelas atribuições de poder moderador, formalmente abolido com a proclamação da República, mas materializado de fato desde então na proeminência do Executivo, liderado pela figura do Presidente da República, que atua como um regente da orquestra. Bem ou mal, em períodos ditos democráticos ou nem tanto, isso funciona como ponto de equilíbrio institucional.
O conflito que se desenha entre o Supremo Tribunal Federal e o presidente Jair Bolsonaro em torno da graça ao deputado Daniel Silveira ensaia ser um marco. Não se vislumbra, por enquanto, uma situação de empate. A turma do deixa disso anda sem espaço. A dúvida resume-se a quem vai aceitar se submeter à força superior do outro. Quem capitulará. E tem eleição presidencial daqui a cinco meses e alguns dias.
Visto que no momento nenhum lado dessa disputa de bonapartismos acumulou força para impor a capitulação incondicional, uma curiosidade é quem vai errar primeiro. Quem vai dar o passo que possa cristalinamente ser caracterizado como fora das regras do jogo. Costuma ser um catalisador em rupturas. Nesse particular, ambos os contendores vêm exibindo certo sangue-frio. O que não deixa de ser admirável, dada a quantidade de fichas sobre a mesa.
Enquanto as torcidas esgoelam-se e arrancam os cabelos, segue a guerra de posição. Uma guerra de trincheiras, com preeminência para a artilharia. Quem se arrisca a sair para campo aberto, como Silveira, tem chance elevadíssima de ser alvejado, restando ao indigitado a esperança de sobreviver aos tiros e ser resgatado pelas próprias tropas. O deputado foi, por Bolsonaro. No momento, está ferido mas vivo.
Falar em “desejável” no âmbito da política é correr grave risco de cair nas platitudes habituais. Dito isso, o desejável é que os fatos se encaixem num ambiente capaz de preservar a normalidade interna até o eleitor ser chamado à urna para decidir afinal quem vai ter o direito de se sentar na cadeira do Planalto por quatro anos a partir de janeiro de 2023. E será desejável que o resultado seja reconhecido por unanimidade. "Análise de conjuntura" no momento é calcular em tempo real essa probabilidade.
Em situações assim, é natural que os campos políticos com maior potencial eleitoral estejam entre os primeiros a querer evitar o desandar da maionese. Desde que, naturalmente, não se vejam em risco de remoção do tabuleiro. Já a turma que está em desvantagem, correndo atrás do prejuízo, precisa criar o chamado “fato novo”. Dar uma agitada no cenário para ver se algo de diferente faz ressurgir a esperança de chegar lá.
E haja metáforas.
sexta-feira, 22 de abril de 2022
O caminho de Bolsonaro
A maioria dos hoje inclinados ao ex-presidente petista são eleitores fiéis. Fernando Haddad fez 30% dos votos válidos no primeiro turno de 2018 e chegou a 45% no segundo, no auge do desgaste de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Mas Haddad perdeu. Se Lula hoje lidera, é por atrair parte dos eleitores de Bolsonaro quatro anos atrás.
É razoável supor que se a pessoa votou em Jair Bolsonaro em 2018 não há uma barreira intransponível a que repita o voto. E o que está fazendo certo pedaço do eleitorado largar o atual presidente pelo ex? Em especial as dificuldades econômicas e o comportamento de Bolsonaro na pandemia.
A rejeição a Bolsonaro é o grande ativo de momento de Lula. Daí que o principal combustível hoje do petista seja também seu principal risco eleitoral. E se ao longo da campanha Bolsonaro reduzir a rejeição entre cinco e dez pontos? Ou aumentar a aprovação esse tanto, o que dá na mesma? Está longe de ser impossível.
Em relatório recente, a consultoria Eurasia cita um levantamento da Ipsos Public Affairs, a partir do resultado de mais de trezentas eleições mundo afora ao longo dos últimos trinta anos. Segundo o estudo, uma aprovação de 35% a seis meses da eleição, o patamar hoje de Bolsonaro, dá ao incumbente 36% de chance de reeleição.
Não se deve confundir “aprovação” com o “ótimo+bom”. Aprovação só pode ser corretamente medida quando se pergunta ao pesquisado se ele aprova ou desaprova a administração ou o governante. Até porque a parte do “regular” que diz aprovar o governo certamente está permeável à possibilidade de votar no situacionismo.
Mas, segundo o mesmo estudo, se a aprovação for de 45% a possibilidade de vitória do incumbente sobe para 78%. Claro, quando o candidato se aproxima da maioria dos votos válidos cresce substancialmente a chance de levar a taça.
Incumbentes costumam ver a aprovação subir ao longo da campanha, e não há motivo para Bolsonaro ser uma exceção, a priori. Mas ele deve enfrentar um obstáculo complicado: a resiliência das dificuldades econômicas. Depois de dois anos de pandemia, veio uma guerra na Europa com repercussões globais.
Que novas medidas econômicas o governo vai adotar para chegar a outubro mais competitivo? Ou vai só rezar e torcer? E qual será a linha de comunicação para reduzir a rejeição do presidente até lá? Uma coisa é certa: se Bolsonaro está em desvantagem, tem, como qualquer governante, instrumentos para aumentar sua competitividade.
Todos os presidentes brasileiros reelegeram-se desde que se pôde reivindicar um segundo mandato. Mas novidades sempre estão à espreita, como o próprio Bolsonaro provou em 2018. O que vai prevalecer?
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Publicado na revista Veja de 27 de abril de 2022, edição nº 2.786
sábado, 16 de abril de 2022
A terceira via está morta? Não
Os dois principais problemas da terceira via a esta altura da corrida são conhecidos: 1) a pulverização entre diversos nomes por enquanto pouco musculosos e 2) a resiliência dos dois líderes nas pesquisas de intenção de voto. Mas há um terceiro problema (sempre esse número...), que a ideologia oficial do nem-nem resiste a admitir: o mercado até agora ambicionado pelo centrismo é modesto.
Os mitólogos da terceira via construíram para si a ilusão de haver um grande contingente simultaneamente anti-Lula e anti-Bolsonaro. Lá atrás fizeram uma conta de padaria, mais ou menos assim: “Se Lula tem firmes 35% e Bolsonaro, 25%, há uns 40% que não querem nem um nem outro”. Era obviamente um erro. Nesses 40% tinha gente disposta a não votar em ninguém e também gente que, no limite, não recusaria escolher o ex ou o atual presidente.
O mau resultado de Geraldo Alckmin em 2018 já deveria ter disparado o alerta, e faz tempo, mas o pessoal continua teimoso em projetar os próprios desejos para a realidade, mesmo depois de todas as pesquisas constatarem uma rejeição simultânea de Bolsonaro e Lula em torno de bem menos, uns 15%. Mas, se isso não é suficiente como ponto de chegada, tampouco é ruim na partida. Lembrar Marina Silva em 2010 e Eduardo Campos em 2014.
Lula e Bolsonaro levam vantagem no momento pois, além de capital político próprio consolidado, propõem-se a disputar uma fatia de mercado bem maior: cada um se apresenta como a salvação para livrar o Brasil da ameaça de ser governado pelo outro. O que aproxima ambos de um market share de metade dos potenciais votantes, suficiente para levar a taça. E na caminhada vão pouco a pouco flexibilizando ou a formulação ou as alianças, ou ambas.
Enquanto o dito centro continua aferrado ao nem-nem.
O desejo de retornar ao poder facilitou ao ex-presidente cativar o PT para deglutir Alckmin na vice. Já a opinião pública petista, lulista e progressista foi mesmerizada pelo “vocês não querem mais quatro anos de Bolsonaro, querem?”. Entrementes, a intransigência programática do PT, como era previsível, vai virando fumaça. Quem prestou atenção notou ter subido no telhado a revogação, ou revisão radical, da reforma trabalhista.
Vai acontecer com outras pautas, como o teto de gastos e a autonomia do Banco Central.
E, do lado bolsonarista, faz tempo que a antipolítica foi para o arquivo morto.
A terceira via tem um caminho para tentar ser levada a sério num jogo ainda no começo: 1) mostrar ambição real de poder, e não só apego a microprojetos (“precisamos fazer bancada”), e 2) falar para o conjunto do eleitorado, dizer o caminho que propõe para o Brasil retomar o crescimento, gerar empregos, combater a inflação e melhorar a segurança pública. Talvez daí comece a ser ouvida pelo eleitor hoje com Lula ou Bolsonaro.
Mas também pode continuar na ladainha do nem-nem e “contra os extremismos”. Como se sabe, um discurso de grande sucesso no povão. Só que não.
sexta-feira, 8 de abril de 2022
Risco de censura
Isso aparece de modo mais agudo em situações bélicas, a exemplo da que se passa na Europa. Todo dia, e mais de uma vez por dia, recebemos informações sobre o caráter maligno de um ou outro lado da guerra. Na impossibilidade de verificar o tempo todo quem diz a verdade e quem está mentindo, prevalece a lei do mais forte. A versão difundida por quem tem mais poder nos variados canais de comunicação.
Melhor ainda se se tem a força necessária para silenciar os “indesejáveis”, em especial quando se invoca um tão sacrossanto quanto obscuro “código de conduta da rede social”. É um mecanismo quase ideal para empresas encobrirem a subserviência a governos, calando a oposição a eles ou silenciando veículos e indivíduos que poderiam trazer ao grande público informações e olhares capazes de lançar dúvidas sobre “a verdade oficial”.
A esta altura, o leitor e a leitora atentos já perceberam que a quantidade de expressões entre aspas neste texto indica quão subjetivo é o objeto em discussão.
Este debate é importante em qualquer contexto, mas mostra-se vital por aqui em ano de eleição. Por uma razão singela. Todo mundo acaba tendo lado partidário e eleitoral, então vamos deslizando para o seguinte cenário: a pretexto de combater as “fake news”, os detentores do monopólio do direito de definir o que é “a verdade” terão melhores condicoes para perseguir aqueles com quem antipatizam e proteger aqueles a quem são simpáticos.
Se a leitora ou o leitor acham que estou exagerando, guardem essa minha afirmação e cobrem-me depois. Ficarei muito feliz se estiver errado.
O ambiente político no Brasil e no mundo anda polarizado. Mas um aspecto parece caminhar para tornar-se amplamente majoritário: de um lado e do outro, ficou para trás a defesa da liberdade de expressão; agora, a batalha é para defender a própria liberdade de dizer o que bem entende, enquanto se busca e aplaude-se toda e qualquer medida contra o mesmo direito dos adversários.
Não foi à toa que os entusiastas do bloqueio do Telegram protestassem dias depois contra a censura à manifestação política de artistas. Tudo muito previsível.
E a violência é praticada frequentemente sob o manto higiênico do “combate ao discurso de ódio”. Ninguém pode, obviamente, ser a favor da difusão do ódio. Mas sempre é saudável verificar, em cada circunstância, se o "combate ao discurso de ódio" não é apenas um disfarce para a censura ao pensamento divergente.
Especialmente nestes tempos dominados pela “cultura do cancelamento”.
sexta-feira, 1 de abril de 2022
O líder ou a estrutura?
As duas dúvidas do momento são João Doria e Sergio Moro, sendo que o governador de São Paulo enfrenta uma circunstância adicional: o temor na seção paulista do partido diante da possibilidade de perder um poder que vem de 1994/95. Ou, num olhar mais flexível, desde 1982/83, quando Franco Montoro (PMDB) arrebatou o Bandeirantes na primeira eleição direta de governadores desde meados dos anos 1960.
Como relatado na análise da semana passada, está em curso um movimento para que a frente de partidos terceiristas suplante as instâncias de cada legenda e convirja num único nome. Capaz de reunir desde a largada a simpatia da fatia eleitoral que não deseja nem Luiz Inácio Lula da Silva nem Jair Bolsonaro. Até agora, o feedback popular não tem sido animador, porém é natural agremiações um dia hegemônicas lutarem para reconquistar o brilho perdido.
O nome do momento é Eduardo Leite (PSDB), mas o otimismo agitado em torno dele deve ser confrontado com a experiência recente. Quantos candidatos a candidato da terceira via já estiveram no proscênio e deixaram de estar? As manchetes favoráveis são como o pico da montanha: mais difícil que chegar lá é continuar ali, resistindo às baixas temperaturas, às tempestades e ao vento inclemente. Eis outra semelhança entre a política e o alpinismo.
Enquanto isso, os dois ponteiros vão consolidando as alianças nos estados. Bolsonaro parece até o momento ter conseguido montar um palanque sólido em São Paulo, algo que Lula já tinha. E na migração permitida pela janela de trocas partidárias as legendas governistas, como esperado, engordaram seus quadros num grau mais expressivo que a oposição. Contribui também o presidente ter chegado a este ponto com percepção de competitividade.
O próximo instante-chave será nas convenções. Até que ponto legendas com candidatos próprios que patinam nas pesquisas vão dobrar a aposta? Ou preferirão engatar seu tempo de rádio e televisão em embarcações mais apetrechadas pera chegar e ancorar em porto seguro em outubro? E usar o dinheiro para fazer bancada? Vem aí mais um período complicado para postulantes que hoje não conseguem projetar expectativa de poder.
A abundância de legendas disponíveis transforma a política brasileira nesta equação de múltiplas variáveis, cujo resultado recorrente é a indeterminação. E a balbúrdia se projeta mais ainda nos estados. Mas a situação nacional está razoavelmente organizada. Com uma curiosidade. Bolsonaro está atrás de Lula, mas parece ter mais base local. O que vai prevalecer ao final, a força do líder ou a da estrutura?
sábado, 26 de março de 2022
Os partidos vão contar?
A caminho do fechamento da janela de trocas partidárias, quem mais vem se beneficiando na migração de deputados são as legendas que devem dar sustentação a Jair Bolsonaro na corrida para a reeleição: o partido dele, PL, mais o Progressistas e o Republicanos. Normal. Governos sempre têm capacidade de atrair políticos, e a isso se soma o fato de o presidente ter chegado competitivo a esta etapa do processo.
Candidatos à reeleição no Parlamento beneficiam-se da
proximidade com o governo, mesmo que a recente anabolização das emendas dos congressistas
ao Orçamento Geral da União tenha injetado boa dose de autonomia na vida de deputados
e senadores. O Estado no Brasil tem ubiquidade, e influir nas decisões do poder
sempre ajuda a alavancar trajetórias políticas e a dar-lhes sustentação no
tempo.
Mas qual será o peso real das estruturas partidárias na
eleição presidencial? Em tese, relativo. É bem mais provável que o eleitor
escolha um parlamentar por este apoiar o candidato a presidente do que decidir
votar em alguém para o Planalto porque o deputado ou o prefeito pediram ou
mandaram. O voto é secreto. A escolha do candidato a presidente é a esfera de
decisão política em que o eleitor costuma exercitar sua independência em maior
grau.
Mas estruturas partidárias importam. Mesmo em 2018, quando
Jair Bolsonaro se elegeu por uma microlegenda, por todo o país os partidos e
políticos do campo que vai do centro à direita, pegando inclusive franjas à
esquerda, conectaram-se na composição do hoje presidente. Não houve alianças
formais, mas realizaram-se alianças políticas na vida real. Que costumam pesar
bem mais na hora do vamos ver.
E há agora em 2022 a particularidade de um presidente
candidato à reeleição não ter como colar no papel de outsider. Precisará de
tempo de televisão e rádio para defender seu governo. Claro que as redes
sociais são um campo decisivo da luta, mas não se deve subestimar o efeito do
rádio e da televisão.
Depois da facada de 6 de setembro, Jair Bolsonaro teve 15 dias
de exposição positiva quase 24 horas no ar. É um erro achar que a televisão e o
rádio não tiveram influência na eleição de 2018.
Pelas contas de hoje, e sabendo que o tempo de televisão e
rádio é calculado segundo o tamanho das bancadas eleitas para a Câmara em 2018,
Luiz Inácio Lula da Silva e Bolsonaro já garantiram cerca de 20% cada um. Se os
muitos nomes do espaço intermediário se juntassem, também garantiriam uma fatia
considerável do bolo. Mas até o momento não há sinais. Convém, entretanto,
esperar, a eleição está longe ainda.
*
E por falar em centro, está realmente em curso uma
articulação ampla para tentar que todos renunciem em favor de um só. O nome do
momento é Eduardo Leite. Mas até Luiz Henrique Mandetta pode voltar a ter algum
papel. A operação não é fácil, mas tampouco impossível. A decisão, a acontecer,
ficaria a cargo dos presidentes dos partidos envolvidos. O que contornaria
eventuais resistências em uma ou outra legenda.
sexta-feira, 25 de março de 2022
A vaga em disputa
As possibilidades eleitorais de Jair Bolsonaro estão bastante vinculadas à sensibilidade popular sobre a economia. Qual é risco principal para o presidente? Um repique inflacionário provocado pelos efeitos globais da crise russo-ucraniana. Isso levaria o Banco Central a um reaperto na política monetária e chegaríamos às eleições com a atividade em provável retração ou estagnação.
E com a possibilidade real de uma combinação momentânea de
pasmaceira econômica e forte pressão nos preços. Um cenário ideal para quem
está na oposição e representa a mudança.
Seria menos complicado para Bolsonaro se ele tivesse gordura
eleitoral para queimar. Não é o caso. Hoje, quem pode se dar ao luxo é Luiz
Inácio Lula da Silva, cujo principal oxigênio é o “no tempo dele eu vivia
melhor”. O que tampouco teria o mesmo impacto caso o atual presidente estivesse
mais bem apetrechado para argumentar que enfrentou, e ainda vem enfrentando,
mais de dois anos de pandemia e agora uma guerra na Europa com repercussão
planetária.
Perto disso a crise de 2008/09 foi, agora sim, uma
marolinha.
Bolsonaro está até o momento contido no eleitorado mais
fiel, suficiente para levá-lo ao segundo turno mas não para ganhar. Um eleitor
oscilante, que certo dia votou no PT e em 2018 mudou de ideia, anda aparentemente
tentado a fazer o caminho de volta. A dúvida é o que levaria esse voto a
reverter a tendência momentânea e reafirmar a opção adotada em 2018. É a
pergunta, como se diz, de um milhão.
Se Bolsonaro deixar a pressão dos preços dos combustíveis correr
livre, com a óbvia repercussão inflacionária, estará concretando a estrada para
Lula. Verdade que as pesquisas mostram um eleitor dividido quanto à
responsabilidade pela alta na gasolina e no diesel, mas não importa: governos
existem para resolver problemas, os criados por ele próprio ou por terceiros.
Se o time tem dificuldades, a culpa será sempre do treinador.
Vamos ver como o presidente se sai. Lula continua tentando
abocanhar ex-adversários e trazer de volta quem um dia foi aliado e deixou de
ser. A favor da tática, as dificuldades do incumbente. Mas, como este não está
fora da disputa e ainda por cima detém o governo, não é tão simples assim. Os
profissionais da política, inclusive o próprio Lula, têm plena consciência de
um jogo ainda sendo jogado.
E os demais? Continuam presos à armadilha de acreditar que
há um largo contingente de votos “nem Lula, nem Bolsonaro”. Todas as pesquisas
mostram que essa fatia gira em torno de 15%, mas quando a fé é forte os fatos
objetivos enfrentam alguma dificuldade para prevalecer. O resultado prático é
que a terceira via, ao insistir na tática, deixa aberto para o presidente o
caminho de apresentar-se como o único e autêntico “anti-Lula”.
Pois a vaga em disputa para ir ao segundo turno não é a do
“nem-nem”, é a dos que não querem a volta do ex-presidente. A chance de um
terceiro está em provar que se sairá melhor que Bolsonaro no mano a mano com
Lula.
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Publicado na revista Veja de 30 de março de 2022, edição nº 2.782
domingo, 20 de março de 2022
Duas táticas
As pesquisas são uma referência para monitorar como anda a
campanha eleitoral. Mas existem outras variáveis. Uma delas, importante, é o
evoluir da coesão e atratividade dos campos políticos. Naturalmente, quanto
mais coeso e gravitacionalmente poderoso seu campo, mais você projeta
expectativa de poder. E o inverso é tão verdadeiro quanto.
Um bom exemplo aconteceu em 2018. Toda a tática petista para
o segundo turno baseava-se na suposição de que, contra Jair Bolsonaro, reunir-se-iam maciçamente as forças políticas que vertebraram a Nova República.
Não funcionou. O desejo de impedir a volta do PT ao poder foi mais forte que a
rejeição a um candidato identificado com o regime de 1964.
Ou seja, a coesão do assim chamado “campo democrático”
esteve abaixo do necessário para derrotar o bem coeso, na época, “campo
antipetista”.
E qual a situação hoje? Não é novidade que, aparentemente,
estejamos vivendo um “segundo turno no primeiro”.
É definitivo? Ainda não. É cedo. Eventualmente, um terceiro
nome pode reunir o apoio dos demais “terceiristas” ou agrupar por gravidade o
eleitorado “nem Lula, nem Bolsonaro”. Que hoje, numa hipótese otimista, gira
entre 15% e 20%. Se um terceiro chegar nesse patamar, o jogo fica mais aberto.
Mas por enquanto está fechado.
Em situações de “segundo turno no primeiro”, é senso comum
que a guerra se dá em torno de uma disputa de rejeições. Mas não é só isso. Na
teoria, cada polo precisa ter a habilidade de não deixar erodir o apoio firme,
enquanto suaviza o discurso e o programa e acena a potenciais aliados oscilantes
com a expectativa de poder.
É interessante notar que no momento as metodologias de Luiz
Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro têm características muito próprias.
Lula trabalha exatamente com base no livro-texto. Atraiu Geraldo
Alckmin para a vice e, nessa operação, trouxe o apoio do PSB. E está
trabalhando para trazer o PSD. Está ampliando. Bolsonaro parece apostar na
consolidação de um núcleo duro com PL, Progressistas e Republicanos. E a partir
de uma sólida base partidária e ideológica tentar desconstruir Lula.
O que vai prevalecer? A linha mais militantemente “pura” do
atual presidente, combinada com o poder do cargo, ou o neofrentismo petista? Na
aritmética, a segunda opção parece mais atraente. Mas a política nem sempre é principalmente
aritmética. De vez em quando, forças numericamente inferiores concentram o fogo
no ponto vulnerável do adversário e vencem.
O forte de Lula é o apelo a esquecer as diferenças em
nome do desejo de tirar Bolsonaro. Até que ponto isso vai reunir o
antibolsonarismo sem que o ex-presidente tenha de explicitar concessões programáticas?
Pois Bolsonaro, além do antipetismo, aparentemente vai liderar um bloco mais
coeso no plano programático.
Quem vai ter mais força gravitacional na hora decisiva? Vai
depender essencialmente de como andará a rejeição a Bolsonaro? A linha petista
parece basear-se principalmente nisso. Faz sentido, como em outros momentos
(por exemplo Tancredo Neves em 1985), mas não deixa de ser arriscado. Depender
excessivamente dos erros do adversário nunca é bom.
Ainda que sempre seja possível dar uma mão, na propaganda, para piorar a imagem do oponente.
sábado, 12 de março de 2022
Uma barreira não trivial
E a Covid-19? Desde a eclosão da beligerância armada na Ucrânia, ela desapareceu da tela das preocupações da opinião pública. Mas os números são objetivos, e teimosos. Neste momento, a média móvel diária de mortes nos últimos sete dias está na casa dos quinhentos. A de casos, em cinquenta mil. Das outras vezes em que bateu nesses patamares nos dois anos da pandemia adotaram-se, ou já estavam em vigor, medidas duras. Desta vez, a regra é o liberou geral, o abandono completo das providências sanitárias.
Inclusive do uso das máscaras. Qual a racionalidade de abolir o uso de máscaras quando morrem quinhentos por dia de Covid-19?
Deve haver alguma explicação científica, mas não é disso que se trata. Se, eventualmente, as curvas continuarem elevadas ali no desfecho da campanha eleitoral, e se o liberou geral continuar a regra, como o eleitor vai reagir? Qual argumento ele vai aceitar melhor? Que o que tinha de ser feito, especialmente a vacinação, foi feito e que o negócio é tocar a vida ou que as providências draconianas adotadas nos dois anos anteriores foram exageradas, como certamente argumentará o presidente e candidato à reeleição?
E qual será o peso da agenda conservadora e das questões relacionadas à segurança pública? Aqui eu arriscaria dizer que ambas vão ser relativamente menos importantes que quatro anos antes. No primeiro caso, é sensível que o conservadorismo arrefeceu em escala global, e no Brasil perdeu parte da substância de anos atrás. Perdeu “momentum”. No segundo, as pesquisas são unânimes ao apontar que saúde, inflação e empregos ganharam peso nas preocupações do eleitor. Efeitos da Covid-19 e das consequências.
Mas e se a tese de James Carville, o estrategista de Clinton em 92, estiver novamente certa? E se for “a economia, estúpido”?
Como previsto, esta passagem de ano está assistindo a uma recuperação, lenta mas recuperação, da atividade e do emprego, e as projeções de mercado apontam para um menor aquecimento dos preços, decorrente da política monetária. Qual será o impacto inflacionário do aumento no custo dos combustíveis decorrente da crise internacional? Como o BC vai reagir? Corremos o risco de abortar a recuperação e chegar à eleição com a economia patinando?
Todas as pesquisas mostram Jair Bolsonaro competitivo para outubro, indicam que a luta da terceira via para tirar o presidente do segundo turno é batalha morro acima. Mas os desafios, especialmente na economia, que o governo tem pela frente nestes meses não são triviais. O principal deles: como minimizar o impacto da crise planetária sobre a vida material dos brasileiros sem perder a marca de “defensor e protetor dos mecanismos do livre mercado”?
E tem a pauta da corrupção. Ela parece meio fora de moda. Mas vai saber...
sexta-feira, 11 de março de 2022
O resultado está aí
É apenas mais um detalhe estranho nos mecanismos de uma fidelidade partidária já meio fantasmagórica. Pois vale para mandatos proporcionais (vereadores, deputados) mas não para cargos decorrentes de escolha majoritária (prefeito, governador, senador, presidente). O “argumento” é que neste segundo lote o político não depende dos demais para se eleger. Argumentos úteis são o que não falta na folclórica política brasileira.
Principalmente quando o Judiciário precisa, ou quer, abrir exceções. Pois ninguém é de ferro.
Por falar em tribunais, a recente decisão do Supremo ao homologar a frondosa anabolização do fundo eleitoral sugere uma reacomodação do “sistema”. De repente, a explosão das verbas públicas para partidos e candidatos deixou de provocar indignação, e no novo clima os ministros sentiram-se confortáveis para declarar alto e bom som que seria um absurdo o Judiciário meter-se excessivamente nos assuntos da alçada do Legislativo.
Sim, é isso mesmo que você acabou de ler.
Se conectarmos os dois pontos abordados acima, notar-se-á que o cofre cheio para campanhas eleitorais não deixa de ser, ao menos na teoria, um belo fator de atração de quadros na janela de trocas. O financiamento empresarial está proibido, o privado só rende uns caraminguás, então quem tem mais dinheiro público para investir na eleição tem mais argumentos para atrair gente boa de voto. Também aqui funcionam as leis de mercado.
Na política, a pergunta-chave sempre é “quem detém o poder?”. Os anos recentes assistiram à profusão de leis e decisões judiciais supostamente inspiradas pela vontade de aperfeiçoar a democracia. E qual é a resultante? Uma estrutura orgânico-monetária controlada de modo absolutista pelos presidentes de partido, figuras abarrotadas de dinheiro proveniente dos impostos, mas que não precisam prestar contas políticas a ninguém.
Pois a montanha de recursos para as legendas não vem acompanhada de exigências relacionadas à democracia interna. Não precisam fazer prévias para escolher candidatos. Podem ficar a vida inteira no cargo. Podem ir tocando o partido só com base em comissões provisórias, sem diretórios. Podem manter a estrutura partidária na coleira indicando apaniguados para os cargos-chave. E podem decidir que candidatos recebem mais dinheiro.
Eu dizia que cada escândalo dos últimos anos foi uma janela de oportunidade para todo tipo de gênio propor mais uma fornada de leis e regimentos para “aperfeiçoar o modelo”. Foi também a deixa para juízes legislarem, “devido à omissão do Legislativo”. O resultado está aí.
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Publicado na revista Veja de 16 de março de 2022, edição nº 2.780
sábado, 5 de março de 2022
O primeiro obstáculo
Há três momentos-chave neste processo eleitoral brasileiro: 1) a janela de trocas partidárias e o prazo de filiação, 2) as convenções e 3) a eleição propriamente dita. Pode haver um quarto, o segundo turno. E um requisito fundamental é o candidato chegar com expectativa de poder a cada uma dessas barreiras, para ganhar impulso ou, no mínimo, evitar a lipoaspiração, a cristianização.
Por fortuna ou virtù, ou um pouco das duas, Jair
Bolsonaro alcança o primeiro obstáculo transmitindo a sensação de estar se recuperando
nas pesquisas. A intensidade dessa recuperação e a própria existência dela
podem ser debatidas, mas na política vale a percepção. E a percepção
disseminada neste momento é o presidente não ser carta fora do baralho para
outubro. Algo decisivo para contrabalançar pressões centrífugas.
E para atrair gente às legendas que apoiam Bolsonaro.
As razões da recuperação – ou da percepção de recuperação –
são essencialmente três: 1) uma tendência recente leve, porém contínua, de retomada
dos empregos, 2) a estabilização do novo patamar de programas sociais e 3) a normalização
da Covid-19. Começando por este ponto, as mortes pelo SARS-CoV-2 ainda se
contam em centenas ao dia, mas o clima é de liberou geral. O não-Carnaval deve
ter sido o canto de cisne da “cultura do lockdown”.
A regularização das atividades impulsiona a economia e os empregos, tudo turbinado por mais dinheiro no bolso dos pobres que
recebem o Auxílio Brasil. Claro que a grande massa do Auxílio Emergencial ficou
fora do programa, mas, aparentemente, a expansão do mercado de trabalho vem
oferecendo uma “porta de entrada”. A soma de vetores dá um respiro ao presidente da República.
A percepção de competitividade de Bolsonaro no mano a mano
com o hoje favorito Luiz Inácio Lula da Silva não chega a ser um problema imediato
para este, mas é um problemão para a terceira via, pois esta depende de dois
fatores: 1) uma confluência em torno de alguém e 2) a degradação da expectativa
de poder do incumbente. Pois seria um raio em céu azul algum “terceirista”
tirar Lula da parada.
Vai ser necessário acompanhar como transcorre a janela das
trocas partidárias, depois ver que partidos formarão federações, as coligações
estáveis por quatro anos e nacionalmente verticalizadas e vinculantes. Daí
iremos ao segundo momento crítico, as convenções que definirão candidatos e
apoios. Quatro anos atrás esse aspecto de coligações e apoios contou pouco.
Será que o fenômeno vai se repetir?
Para tanto, precisaria aparecer um novo outsider. O mais bem
ou menos mal posicionado é André Janones, que por enquanto não mostra tração. E
o sistema político saiu do estado de ruína de 2018. E há na cadeira no Planalto
um presidente candidato à reeleição, com a caneta na mão, e que precisa de
tempo de televisão e rádio para mostrar o que fez e por que deve merecer mais
quatro anos.