Se no mundo a OMS alerta para a aceleração do contágio pelo coronavírus, no Brasil parece que a reação das autoridades começa a entrar nos eixos.
O melhor sinal foi a reunião do presidente da República com os governadores do Norte e do Nordeste e o anúncio da liberação de R$ 85 bilhões para as várias frentes financeiras de estados e municípios.
Com isso, acabou melhor um dia que começara confuso por causa da trapalhada da equipe econômica na medida provisória que, entre outras coisas, autorizava suspender por quatro meses os contratos de trabalho sem, entretanto, prever mecanismos compensatórios para os trabalhadores.
Era evidentemente um contrassenso. Corrigido depois da previsível grita.
Políticos preocupam-se com a política. O superávit de imagem do ministro da Saúde dá espaço para o presidente da República concentrar-se mais na economia.
Já os governadores, por enquanto, principalmente os do Sudeste, estão às voltas com a curva ascendente dos casos.
Infelizmente, parece que vai ser um cenário nacional nas próximas semanas.
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
segunda-feira, 23 de março de 2020
Para saber se o sujeito é mesmo ateu, certifique-se de que ele não apela a Deus nas horas extremas. E uma conta sobre a “imunidade de rebanho"
Dos grandes países afetados pela pandemia da Covid-19 o Brasil parece ser o mais atolado na guerra política. É um grave fator de risco no enfrentamento do problema. Outra variável fundamental é a rapidez da reação ou, ao contrário, o atraso para cair a ficha. Está matematicamente comprovado que tomar providências ontem em vez de hoje, ou anteontem em vez de ontem, produz efeitos benéficos para lá de significativos.
O atraso nas ações contra o novo coronavírus tem duas raízes principais: a subestimação do problema e o receio de ferir de morte a economia com medidas excessivamente drásticas. A primeira raiz mistura legítimas curvas de aprendizado e wishful thinkings. O pensamento mágico supõe a prevalência da vontade sobre a razão. É humano tender a acreditar nas explicações que minimizam os sacrifícios necessários e projetam o futuro menos doloroso.
Aliás esta é uma crise inanalisável, inclusive no aspecto político, sem alguma dissecção da natureza humana.
Nos últimos dias a ficha parece finalmente ter caído. As ruas das cidades brasileiras esvaziaram-se e o país entrou em forte desaceleração. Na falta de um sistema coerente e centralizado capaz de impor rapidamente a necessária disciplina social, tivemos de esperar pela decantação da consciência coletiva. E adianta pouco reclamar. Assim como as pessoas, países também têm suas naturezas, que precisam enfrentar situações extremas para finalmente mudar.
Uma pergunta ainda não respondida, talvez por não ser mesmo prioritária, é “como vai ser o Brasil quando a Covid-19 passar?”. Os otimistas dirão um país mais solidário, menos tolerante às desigualdades, mais exigente quanto ao padrão dos governantes e mais atento à qualidade dos serviços que o Estado precisa prover para atender às necessidades da sociedade que o financia.
Um aspecto em que talvez os otimistas estejam certos: a valorização do Sistema Único de Saúde parece ter enveredado por um caminho sem volta. Os governos, em primeiro lugar o federal, precisarão enfrentar para valer a equação do financiamento do SUS. Quando até um governo em que a área econômica é fortemente liberal apresenta, principalmente pelas palavras do ministro da Saúde, o SUS como nosso grande trunfo, fica claro que uma página foi virada.
Mesmo que os otimistas sejam lá na frente frustrados, sempre a maior probabilidade, outra coisa parece que veio para ficar: a reabilitação do papel do Estado. Na hora da dificuldade extrema, o setor privado aparece bem quando se coloca à disposição para ajudar, mas a sociedade volta-se mesmo, e unanimemente, para os governos. É aquela história: para saber se o sujeito é mesmo ateu, procure verificar se ele não apela a Deus nas horas extremas.
O Reino Unido desistiu de deixar o pessoal se infectar para o coletivo adquirir a “imunidade de rebanho”. Mudou de ideia quando lhe contaram que morreriam pelo menos uns 250 mil súditos da rainha. Qual seria a conta a pagar aqui se essa opção fosse adotada?
O atraso nas ações contra o novo coronavírus tem duas raízes principais: a subestimação do problema e o receio de ferir de morte a economia com medidas excessivamente drásticas. A primeira raiz mistura legítimas curvas de aprendizado e wishful thinkings. O pensamento mágico supõe a prevalência da vontade sobre a razão. É humano tender a acreditar nas explicações que minimizam os sacrifícios necessários e projetam o futuro menos doloroso.
Aliás esta é uma crise inanalisável, inclusive no aspecto político, sem alguma dissecção da natureza humana.
Nos últimos dias a ficha parece finalmente ter caído. As ruas das cidades brasileiras esvaziaram-se e o país entrou em forte desaceleração. Na falta de um sistema coerente e centralizado capaz de impor rapidamente a necessária disciplina social, tivemos de esperar pela decantação da consciência coletiva. E adianta pouco reclamar. Assim como as pessoas, países também têm suas naturezas, que precisam enfrentar situações extremas para finalmente mudar.
Uma pergunta ainda não respondida, talvez por não ser mesmo prioritária, é “como vai ser o Brasil quando a Covid-19 passar?”. Os otimistas dirão um país mais solidário, menos tolerante às desigualdades, mais exigente quanto ao padrão dos governantes e mais atento à qualidade dos serviços que o Estado precisa prover para atender às necessidades da sociedade que o financia.
Um aspecto em que talvez os otimistas estejam certos: a valorização do Sistema Único de Saúde parece ter enveredado por um caminho sem volta. Os governos, em primeiro lugar o federal, precisarão enfrentar para valer a equação do financiamento do SUS. Quando até um governo em que a área econômica é fortemente liberal apresenta, principalmente pelas palavras do ministro da Saúde, o SUS como nosso grande trunfo, fica claro que uma página foi virada.
Mesmo que os otimistas sejam lá na frente frustrados, sempre a maior probabilidade, outra coisa parece que veio para ficar: a reabilitação do papel do Estado. Na hora da dificuldade extrema, o setor privado aparece bem quando se coloca à disposição para ajudar, mas a sociedade volta-se mesmo, e unanimemente, para os governos. É aquela história: para saber se o sujeito é mesmo ateu, procure verificar se ele não apela a Deus nas horas extremas.
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O Reino Unido desistiu de deixar o pessoal se infectar para o coletivo adquirir a “imunidade de rebanho”. Mudou de ideia quando lhe contaram que morreriam pelo menos uns 250 mil súditos da rainha. Qual seria a conta a pagar aqui se essa opção fosse adotada?
domingo, 22 de março de 2020
Nova York e São Paulo. E o oportunismo
Nova York tem um terço dos casos da Covid-19 nos Estados Unidos. A cidade. E o estado do mesmo nome tem dois terços. São Paulo, o estado, tem quatro de cada dez casos confirmados no Brasil e 22 das 25 mortes até agora.
Resta saber se o fluxo de gente vinda da Itália tem algo a ver com essas concentrações.
Trata-se apenas de especulação minha. São Paulo e Nova York são duas cidades de grande população de descendentes italianos.
Outro assunto. Em meio à guerra contra o vírus, especula-se aqui com o cancelamento das eleições e a prorrogação dos mandatos de prefeitos e vereadores, É como diz a frase célebre: Para cada problema complexo existe uma solução simples, e errada.
E, neste caso, oportunista. Em primeiro lugar, a Constituição proíbe. Verdade que seguir a Carta anda meio demodé, mas também não precisam exagerar.
É da política os políticos defenderem em primeiro lugar seu próprio interesse. Mas a arte está em fazer parecer que defendem o interesse dos demais. Do povão. Dar bandeira é coisa de amador.
Resta saber se o fluxo de gente vinda da Itália tem algo a ver com essas concentrações.
Trata-se apenas de especulação minha. São Paulo e Nova York são duas cidades de grande população de descendentes italianos.
Outro assunto. Em meio à guerra contra o vírus, especula-se aqui com o cancelamento das eleições e a prorrogação dos mandatos de prefeitos e vereadores, É como diz a frase célebre: Para cada problema complexo existe uma solução simples, e errada.
E, neste caso, oportunista. Em primeiro lugar, a Constituição proíbe. Verdade que seguir a Carta anda meio demodé, mas também não precisam exagerar.
É da política os políticos defenderem em primeiro lugar seu próprio interesse. Mas a arte está em fazer parecer que defendem o interesse dos demais. Do povão. Dar bandeira é coisa de amador.
sábado, 21 de março de 2020
Atenção para os números
São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal são até agora os principais hotspots da Covid-19 no Brasil. Em São Paulo, os números já são algo significativos para começar a acompanhar a taxa de letalidade da doença, em torno de 3,5%. Dez vezes a da gripe comum.
Vamos aguardar os números que, infelizmente, virão de outras regiões do país. E veremos se os números paulistas sobem ou descem. De qualquer jeito, a cidade de São Paulo tem o perfil de Wuhan e da Lombardia. Áreas industrializadas e com populações da mesma ordem de grandeza.
Dá a impressão de estarmos atrasados nas medidas draconianas. Coisa de país mais ocupado com a disputa política que com a saúde da população. Pedir paz na política é ingenuidade, mas os grupos em guerra poderiam raciocinar e perceber que o jogo é de alto risco para todos.
As regiões brasileiras mais afetadas parecem finalmente a caminho de parar tudo. Agir cedo deu certo em Wuhan. O atraso na Lombardia /Itália vem cobrando seu preço.
Hoje, Benjamin Netanyahu fez previsões sombrias para o mundo. Ele pode estar só pressionando a oposição a apoiá-lo. Mas e se não?
Vamos aguardar os números que, infelizmente, virão de outras regiões do país. E veremos se os números paulistas sobem ou descem. De qualquer jeito, a cidade de São Paulo tem o perfil de Wuhan e da Lombardia. Áreas industrializadas e com populações da mesma ordem de grandeza.
Dá a impressão de estarmos atrasados nas medidas draconianas. Coisa de país mais ocupado com a disputa política que com a saúde da população. Pedir paz na política é ingenuidade, mas os grupos em guerra poderiam raciocinar e perceber que o jogo é de alto risco para todos.
As regiões brasileiras mais afetadas parecem finalmente a caminho de parar tudo. Agir cedo deu certo em Wuhan. O atraso na Lombardia /Itália vem cobrando seu preço.
Hoje, Benjamin Netanyahu fez previsões sombrias para o mundo. Ele pode estar só pressionando a oposição a apoiá-lo. Mas e se não?
sexta-feira, 20 de março de 2020
A inércia do conflito
Não parece inteligente governos das diversas esferas viverem às turras em meio a um problema das dimensões da Covid-19. Nem racional.
Mas um erro bastante frequente na análise política é supor que os atores adotarão sempre decisões inteligentes e racionais.
É imprudente desprezar o peso da inércia na política. Alguns estados e o Palácio do Planalto andavam às cotoveladas antes de o país finalmente tomar consciência (já tomou?) do tamanho da encrenca provocada pelo novo coronavírus. Por inércia, seguem na mesma toada.
A boa técnica gerencial ensina que antes de procurar os culpados vale concentrar os esforços na busca de soluções. Seria uma saída, aí sim, inteligente e racional para políticos que em primeiro lugar desejam sobreviver politicamente, ou já estão de olho num upgrade.
Sem falar que a descoordenação entre os níveis da federação tende a agravar os efeitos econômicos do avanço da Covid-19.
E é devaneio acreditar que algum governante hoje no cargo vai faturar sobre o colapso da atividade, do emprego e da renda.
Mas um erro bastante frequente na análise política é supor que os atores adotarão sempre decisões inteligentes e racionais.
É imprudente desprezar o peso da inércia na política. Alguns estados e o Palácio do Planalto andavam às cotoveladas antes de o país finalmente tomar consciência (já tomou?) do tamanho da encrenca provocada pelo novo coronavírus. Por inércia, seguem na mesma toada.
A boa técnica gerencial ensina que antes de procurar os culpados vale concentrar os esforços na busca de soluções. Seria uma saída, aí sim, inteligente e racional para políticos que em primeiro lugar desejam sobreviver politicamente, ou já estão de olho num upgrade.
Sem falar que a descoordenação entre os níveis da federação tende a agravar os efeitos econômicos do avanço da Covid-19.
E é devaneio acreditar que algum governante hoje no cargo vai faturar sobre o colapso da atividade, do emprego e da renda.
A tempestade quase perfeita
A equação política e econômica do governo Jair Bolsonaro estava bem desenhada no plano inicial. O Congresso aprovaria as reformas liberais, no ritmo que fosse. A economia reagiria, mesmo num passo não espetacular. O ministro da Justiça colocaria seu capital popular a serviço do projeto bolsonarista. O presidente nesse meio tempo alimentaria politicamente sua base dia após dia rumo a 2022. E a esquerda continuaria ilhada, pelo menos no curto e médio prazos.
E a coisa vinha vindo.
Mesmo os percalços -todo governo tem- pareciam insuficientes para um desarranjo. O PIB de 2019 decepcionou? Nada que não pudesse ser deixado para trás com uma dose de esperança no futuro e advertências sobre o risco de repetir fracassos recentes. O presidente romper com seu próprio partido e ficar sem nenhum para chamar de seu era pouco, perto da simpatia de um Legislativo amplamente liberal-conservador pelo programa econômico.
Aí veio a pandemia do coronavírus. O imprevisível é mesmo muito difícil de prever.
Em janeiro/fevereiro já era possível antever a onda da crise sanitária. Foi avisado, mas talvez não sensibilizou. E transbordou em março. E somou-se à pendenga do Executivo com o Legislativo por causa do orçamento impositivo. E juntou-se à guerra do governo contra a imprensa. É notável, aliás, como o governo consegue brigar com dois atores, Congresso e imprensa, amplamente dispostos a apoiar as principais agendas do Planalto na política econômica.
Aí o presidente da República decidiu dar mais importância à ameaça de recessão que às preocupações do cidadão e da cidadã com a própria saúde.
Na crise de 2008/2009 Luiz Inácio Lula da Silva disse que ela chegaria aqui como uma marolinha. Não foi bem assim. O crescimento em 2009 foi menos zero vírgula qualquer coisa. Mas 2010 foi robusto e Lula conseguiu eleger a sucessora. Naquela crise o tema era economia. Lula podia pedir ao eleitor um tempo. Aguentem aí que vai melhorar. E tinha capital político para tanto. A conta veio depois, deu em junho de 2013, mas isso já é outra história.
Agora o assunto é a saúde. Não adianta dizer “outras doenças matam mais que o coronavírus”, a notícia do momento é a Covid-19. E as pessoas estão muito preocupadas com a ameaça à própria vida e à dos entes queridos. E só se fala nisso. E a aparente falta de cuidado do governo em sintonizar-se com a preocupação do distinto público potencializou as fragilidades que vinham latentes e juntou-se tudo numa tempestade quase perfeita.
Só não é a tempestade perfeita contra o governo Bolsonaro porque não há desejo relevante no mundo político de trocar o capitão pelo general que é seu vice. Nas várias franjas da política, prefere-se enfrentar um Bolsonaro manco em 2022 que entronizar agora Hamilton Mourão e dar a ele o passaporte para um “bolsonarismo sem Bolsonaro”, de viés racional e equilibrado. Mas tudo tem um limite, e na tempestade alguém tem de assumir o leme do barco.
Não existe espaço vazio na política. E isso não chega a ser uma novidade.
====================
Publicado originalmente na revista Veja 2.679, de 25 de março de 2020
E a coisa vinha vindo.
Mesmo os percalços -todo governo tem- pareciam insuficientes para um desarranjo. O PIB de 2019 decepcionou? Nada que não pudesse ser deixado para trás com uma dose de esperança no futuro e advertências sobre o risco de repetir fracassos recentes. O presidente romper com seu próprio partido e ficar sem nenhum para chamar de seu era pouco, perto da simpatia de um Legislativo amplamente liberal-conservador pelo programa econômico.
Aí veio a pandemia do coronavírus. O imprevisível é mesmo muito difícil de prever.
Em janeiro/fevereiro já era possível antever a onda da crise sanitária. Foi avisado, mas talvez não sensibilizou. E transbordou em março. E somou-se à pendenga do Executivo com o Legislativo por causa do orçamento impositivo. E juntou-se à guerra do governo contra a imprensa. É notável, aliás, como o governo consegue brigar com dois atores, Congresso e imprensa, amplamente dispostos a apoiar as principais agendas do Planalto na política econômica.
Aí o presidente da República decidiu dar mais importância à ameaça de recessão que às preocupações do cidadão e da cidadã com a própria saúde.
Na crise de 2008/2009 Luiz Inácio Lula da Silva disse que ela chegaria aqui como uma marolinha. Não foi bem assim. O crescimento em 2009 foi menos zero vírgula qualquer coisa. Mas 2010 foi robusto e Lula conseguiu eleger a sucessora. Naquela crise o tema era economia. Lula podia pedir ao eleitor um tempo. Aguentem aí que vai melhorar. E tinha capital político para tanto. A conta veio depois, deu em junho de 2013, mas isso já é outra história.
Agora o assunto é a saúde. Não adianta dizer “outras doenças matam mais que o coronavírus”, a notícia do momento é a Covid-19. E as pessoas estão muito preocupadas com a ameaça à própria vida e à dos entes queridos. E só se fala nisso. E a aparente falta de cuidado do governo em sintonizar-se com a preocupação do distinto público potencializou as fragilidades que vinham latentes e juntou-se tudo numa tempestade quase perfeita.
Só não é a tempestade perfeita contra o governo Bolsonaro porque não há desejo relevante no mundo político de trocar o capitão pelo general que é seu vice. Nas várias franjas da política, prefere-se enfrentar um Bolsonaro manco em 2022 que entronizar agora Hamilton Mourão e dar a ele o passaporte para um “bolsonarismo sem Bolsonaro”, de viés racional e equilibrado. Mas tudo tem um limite, e na tempestade alguém tem de assumir o leme do barco.
Não existe espaço vazio na política. E isso não chega a ser uma novidade.
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Publicado originalmente na revista Veja 2.679, de 25 de março de 2020
quinta-feira, 19 de março de 2020
Mar em Fúria
No final do filme com esse título o barco comandado pelo personagem de George Clooney tenta escalar uma onda gigantesca para chegar a águas mais seguras. Segundo as autoridades, estamos no início de uma escalada parecida, só que sobre a onda de infectados pelo novo coronavírus. Qual a chance de, diferente do filme (desculpa o spoiler), termos uma boa travessia?
Na comparação com o mundo lá fora vemos algumas vantagens. A maior talvez seja o SUS. Vamos olhar como ele absorve o choque. E dinheiro parece que também não vai faltar. E algumas desvantagens. Os países orientais estão mostrando que em situações-limite um Estado eficiente, hierarquizado e com autoridade faz diferença. Parece não depender tanto do sistema político de cada um. Vide China, Singapura, Coreia do Sul e Japão.
O Brasil leva jeito de que começa a escalar a onda ainda sem muita coordenação, também por causa da guerra política. E há deficiências materiais. Testar, testar e testar para o novo coronavírus tem sido essencial onde as coisas vão melhor. E aqui? Que o SUS e o recolhimento das pessoas a suas casas, muito necessário, essencial até, compensem.
Na comparação com o mundo lá fora vemos algumas vantagens. A maior talvez seja o SUS. Vamos olhar como ele absorve o choque. E dinheiro parece que também não vai faltar. E algumas desvantagens. Os países orientais estão mostrando que em situações-limite um Estado eficiente, hierarquizado e com autoridade faz diferença. Parece não depender tanto do sistema político de cada um. Vide China, Singapura, Coreia do Sul e Japão.
O Brasil leva jeito de que começa a escalar a onda ainda sem muita coordenação, também por causa da guerra política. E há deficiências materiais. Testar, testar e testar para o novo coronavírus tem sido essencial onde as coisas vão melhor. E aqui? Que o SUS e o recolhimento das pessoas a suas casas, muito necessário, essencial até, compensem.
quarta-feira, 18 de março de 2020
Avaliados pela estatística
A Itália registrou em um dia mais mortes que o maior número registrado em um dia na
China. Já a Coreia do Sul, a própria China, Singapura e Japão parecem ter desacelerado
com força a curva de novos casos, e também contido a estatística de vítimas fatais.
Ao final da pandemia, cada governo será avaliado por duas porcentagens. Quanto por cento da população ficou doente e quantos por cento dos doentes se recuperaram.
O governo brasileiro começa a transmitir a sensação de urgência diante do problema. Hoje foi uma tentativa de virada na comunicação. Eventuais pesquisas dirão se funcionou. Mas no longo prazo os números do impacto da pandemia aqui é que vão prevalecer para o julgamento.
Um problema: entre os grandes países afetados, o Brasil parece ser quem mais sofre de descoordenação entre as esferas da Federação.Tem a ver também com a desorganização da política, resultado da guerra aos políticos -e dos políticos -que já dura pelo menos seis anos.
Dá a impressão de que uns acham que podem se salvar mesmo se o resto afundar
Ao final da pandemia, cada governo será avaliado por duas porcentagens. Quanto por cento da população ficou doente e quantos por cento dos doentes se recuperaram.
O governo brasileiro começa a transmitir a sensação de urgência diante do problema. Hoje foi uma tentativa de virada na comunicação. Eventuais pesquisas dirão se funcionou. Mas no longo prazo os números do impacto da pandemia aqui é que vão prevalecer para o julgamento.
Um problema: entre os grandes países afetados, o Brasil parece ser quem mais sofre de descoordenação entre as esferas da Federação.Tem a ver também com a desorganização da política, resultado da guerra aos políticos -e dos políticos -que já dura pelo menos seis anos.
Dá a impressão de que uns acham que podem se salvar mesmo se o resto afundar
terça-feira, 17 de março de 2020
Opção pelo isolamento
A preocupação com a economia comanda as idas e vindas do presidente da República diante da Covid-19.
Qual será o cenário depois da onda de contaminados aqui? Pois a curva já embicou para cima. Se há algum cálculo no heterodoxo comportamento presidencial, ele parece indicar a tentativa de repassar a terceiros a responsabilidade pela paradeira econômica.
Que já está vindo.
O cálculo faz sentido? Dentro de certos limites. Se a rede hospitalar colapsar pelo número excessivo de casos graves, o presidente sofrerá forte desgaste. Mas o ministro da Saúde e os estados trabalham para evitar esse cenário.
Se o SUS funcionar bem, Jair Bolsonaro poderá sempre dizer lá na frente que tudo andou na linha e que ele só quis conter a dimensão da crise econômica.
Bolsonaro continua beneficiado por dois fatores. 1) Apesar da grita, não existe no momento força real capaz de - ou realmente interessada em- removê-lo. 2) Ao trabalharem, ministros, Congresso e governadores trabalham também para o presidente.
É um jogo ousado. E perigoso, pois aposta num “isolamento quefortalece”.
O risco é um dia juntarem-se todos.
Qual será o cenário depois da onda de contaminados aqui? Pois a curva já embicou para cima. Se há algum cálculo no heterodoxo comportamento presidencial, ele parece indicar a tentativa de repassar a terceiros a responsabilidade pela paradeira econômica.
Que já está vindo.
O cálculo faz sentido? Dentro de certos limites. Se a rede hospitalar colapsar pelo número excessivo de casos graves, o presidente sofrerá forte desgaste. Mas o ministro da Saúde e os estados trabalham para evitar esse cenário.
Se o SUS funcionar bem, Jair Bolsonaro poderá sempre dizer lá na frente que tudo andou na linha e que ele só quis conter a dimensão da crise econômica.
Bolsonaro continua beneficiado por dois fatores. 1) Apesar da grita, não existe no momento força real capaz de - ou realmente interessada em- removê-lo. 2) Ao trabalharem, ministros, Congresso e governadores trabalham também para o presidente.
É um jogo ousado. E perigoso, pois aposta num “isolamento quefortalece”.
O risco é um dia juntarem-se todos.
segunda-feira, 16 de março de 2020
O risco da casa dividida
Hoje parece ter sido o dia em que começou a cair a ficha das autoridades. Nações que enfrentam desafios extremos com a casa dividida correm riscos adicionais. Dois exemplos: a França de 1940 e a Rússia de 1917.
O coronavírus não chega a ser uma guerra na acepção militar, mas é um problema de dimensões gravíssimas em prazo curto. E exige alto nível de coordenação das autoridades públicas nos vários níveis. E entre elas e o setor privado.
Mesmo nos Estados Unidos, às vésperas de uma eleição presidencial e após três anos de guerras políticas sem quartel, os diversos protagonistas parecem começar a se acertar para tapar os buracos no casco do bote salva-vidas.
Pois se a epidemia do coronavirus está prevista para subir, atingir um pico e aí despencar, os problemas econômicos e sociais aqui decorrentes não vão evaporar por mágica, ainda mais numa economia há anos na mediocridade.
Hora de agir.
O coronavírus não chega a ser uma guerra na acepção militar, mas é um problema de dimensões gravíssimas em prazo curto. E exige alto nível de coordenação das autoridades públicas nos vários níveis. E entre elas e o setor privado.
Mesmo nos Estados Unidos, às vésperas de uma eleição presidencial e após três anos de guerras políticas sem quartel, os diversos protagonistas parecem começar a se acertar para tapar os buracos no casco do bote salva-vidas.
Pois se a epidemia do coronavirus está prevista para subir, atingir um pico e aí despencar, os problemas econômicos e sociais aqui decorrentes não vão evaporar por mágica, ainda mais numa economia há anos na mediocridade.
Hora de agir.
domingo, 15 de março de 2020
A hora de mostrar serviço vai chegar. A única dúvida é quando
O governo Jair Bolsonaro vem se equilibrando em quatro pernas: o maciço apoio empresarial inicial, a firme sustentação militar - na hierarquia e na massa, a concordância potencial da maioria do Congresso Nacional e da imprensa com a agenda econômica e o período de graça na sociedade, natural após rupturas. Beneficia-se também da aproximação com o presidente dos Estados Unidos, e assim evita algumas encrencas conhecidas.
As pesquisas dirão quanto durará a paciência popular com a lentidão da retomada na economia e nos empregos. Vamos ver se, e como, a desaceleração brusca provocada pela pandemia da Covid-19 vai mexer com os ânimos. É possível acabar funcionando de amortecedor das insatisfações. A não ser que o governo mostre uma extraordinária incapacidade de lidar com a situação. O caso italiano.
Há sinais de erosão prematura em alguns pilares. O Congresso acaba de tomar uma invertida do Tribunal de Contas da União, que suspendeu a derrubada do veto presidencial sobre o BPC. Faz parte do processo de retomada pelo Executivo do poder moderador. O TCU argumenta que tem de zelar pelo cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, ao determinar que toda nova despesa precisa ser compensada por uma receita adicional ou corte de outra despesa.
Veremos como o Congresso vai reagir a isso e ao apoio do presidente a atos em que manifestantes pedem o fechamento do Legislativo. A vingança é um prato que na política costuma ser comido frio. Mas vai saber?
Outro foco potencial de perturbação começa a aparecer nas dúvidas crescentes sobre a política econômica. Fica progressivamente claro que o Brasil está contaminado pelo vírus da demanda deprimida. E o encanto da opinião pública com a linha atual parece em diluição. Ainda inicial, mas visível. A palavra de ordem “reformas, reformas, reformas” começa a ser recebida com algum descrédito. Não a necessidade delas, mas a capacidade de enfrentar os desafios imediatos.
Claro que se for dado tempo suficiente, em condições políticas ótimas, toda orientação econômica acaba dando algum resultado. Só que este ano tem eleição municipal, da qual dependem em boa medida os deputados em seus projetos de recondução dali a dois anos. E daqui a menos de três anos tem eleição geral. Daí a importância política de saber se a retomada pós-Covid-19 vai ser em V ou U. Ou se vai acabar sendo um L, com o Brasil continuando a patinar.
A observação de outros países, especialmente China e Estados Unidos, revela ação em duas frentes: medidas para evitar que o excesso de carga acabe colapsando o sistema de saúde e providências para fazer a roda da economia voltar a girar o mais rápido possível. Aqui, a boa notícia para o Brasil é a China já estar em reignição, após conseguir conter radicalmente a expansão dos novos casos. O problema maior ali agora parece ser a importação de infectados.
Comum, em todo canto, é o desafio é mostrar serviço, para além do ativismo. Serviço e resultados. Na saúde e na economia. O Brasil ainda não atingiu o ponto crítico em nenhuma das duas frentes. Mas a hora vai chegar.
A única dúvida é quando.
As pesquisas dirão quanto durará a paciência popular com a lentidão da retomada na economia e nos empregos. Vamos ver se, e como, a desaceleração brusca provocada pela pandemia da Covid-19 vai mexer com os ânimos. É possível acabar funcionando de amortecedor das insatisfações. A não ser que o governo mostre uma extraordinária incapacidade de lidar com a situação. O caso italiano.
Há sinais de erosão prematura em alguns pilares. O Congresso acaba de tomar uma invertida do Tribunal de Contas da União, que suspendeu a derrubada do veto presidencial sobre o BPC. Faz parte do processo de retomada pelo Executivo do poder moderador. O TCU argumenta que tem de zelar pelo cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, ao determinar que toda nova despesa precisa ser compensada por uma receita adicional ou corte de outra despesa.
Veremos como o Congresso vai reagir a isso e ao apoio do presidente a atos em que manifestantes pedem o fechamento do Legislativo. A vingança é um prato que na política costuma ser comido frio. Mas vai saber?
Outro foco potencial de perturbação começa a aparecer nas dúvidas crescentes sobre a política econômica. Fica progressivamente claro que o Brasil está contaminado pelo vírus da demanda deprimida. E o encanto da opinião pública com a linha atual parece em diluição. Ainda inicial, mas visível. A palavra de ordem “reformas, reformas, reformas” começa a ser recebida com algum descrédito. Não a necessidade delas, mas a capacidade de enfrentar os desafios imediatos.
Claro que se for dado tempo suficiente, em condições políticas ótimas, toda orientação econômica acaba dando algum resultado. Só que este ano tem eleição municipal, da qual dependem em boa medida os deputados em seus projetos de recondução dali a dois anos. E daqui a menos de três anos tem eleição geral. Daí a importância política de saber se a retomada pós-Covid-19 vai ser em V ou U. Ou se vai acabar sendo um L, com o Brasil continuando a patinar.
A observação de outros países, especialmente China e Estados Unidos, revela ação em duas frentes: medidas para evitar que o excesso de carga acabe colapsando o sistema de saúde e providências para fazer a roda da economia voltar a girar o mais rápido possível. Aqui, a boa notícia para o Brasil é a China já estar em reignição, após conseguir conter radicalmente a expansão dos novos casos. O problema maior ali agora parece ser a importação de infectados.
Comum, em todo canto, é o desafio é mostrar serviço, para além do ativismo. Serviço e resultados. Na saúde e na economia. O Brasil ainda não atingiu o ponto crítico em nenhuma das duas frentes. Mas a hora vai chegar.
A única dúvida é quando.
Bolsonaro recaptura o lide. A que custo?
O presidente da República recapturou o lide no dia de hoje ao comparecer, celebrar e divulgar as manifestações. Ele domina a técnica. Não tivesse ido, o destaque seria a baixa participação.
E foi baixa mesmo. E o noticiário sobre os atos seria soterrado pelo da Covid-19. Ao participar, mesmo contra a recomendação médica e sanitária, não só jogou os atos nas manchetes. Conectou-os às abundantes notícias sobre a pandemia.
Tem um custo, claro. A hashtag #irreponsavel bombou no Twitter. Mas a coisa só terá efeitos práticos se o Congresso e o Supremo Tribunal Federal - alvos dos manifestantes - resolverem reagir de modo mais efetivo e prático. Não só em declarações.
Até este domingo, a tática dos demais poderes vinha sendo cautelosa, para não oferecer ao bolsonarismo o palco para levar definitivamente às ruas a luta pela retomada do poder moderador pelo Executivo.
Qual o limite dessa tática nos dois lados? Aguardam-se os próximos capítulos. Aguardam-se também os próximos números da Covid-19. Para ver qual será o custo final dessa operação política.
E foi baixa mesmo. E o noticiário sobre os atos seria soterrado pelo da Covid-19. Ao participar, mesmo contra a recomendação médica e sanitária, não só jogou os atos nas manchetes. Conectou-os às abundantes notícias sobre a pandemia.
Tem um custo, claro. A hashtag #irreponsavel bombou no Twitter. Mas a coisa só terá efeitos práticos se o Congresso e o Supremo Tribunal Federal - alvos dos manifestantes - resolverem reagir de modo mais efetivo e prático. Não só em declarações.
Até este domingo, a tática dos demais poderes vinha sendo cautelosa, para não oferecer ao bolsonarismo o palco para levar definitivamente às ruas a luta pela retomada do poder moderador pelo Executivo.
Qual o limite dessa tática nos dois lados? Aguardam-se os próximos capítulos. Aguardam-se também os próximos números da Covid-19. Para ver qual será o custo final dessa operação política.
sábado, 14 de março de 2020
Hora de mostrar "gestão"
Hoje parece ter sido o turning point, a ideia de parar tudo que pode ser parado parece ter alcançado consenso social e político.
O Brasil sofre cronicamente de alguma descoordenação político-administrativa entre os entes federados, e isso fica visível na assimetria das medidas de combate à propagação do coronavírus. Mas a inércia agora parece ter invertido seu sentido.
Agora, na dúvida, a ordem é parar.
Esta é daquelas situações em que o Estado ganha importância, como nas guerras e grandes tragédias. Ele precisará cuidar, naturalmente, para os serviços de saúde funcionarem bem no stress, com foco no sistema hospitalar. É a hora do SUS. É a hora também de garantir o abastecimento, evitar a especulação e o sumiço dos produtos essenciais.
Como o governo Bolsonaro sairá lá na frente, quando a curva dos casos já estiver declinando fortemente? Simples: se as coisas tiverem funcionado, sairá mais forte. É tentadora a ilusão de achar que se os ministros vão sair ganhando e o presidente pode sair perdendo. No bottom line, é ele quem escolhe os ministros.
No fim das contas, quem é cobrado, ou adulado, é sempre o técnico que escala o time
O Brasil sofre cronicamente de alguma descoordenação político-administrativa entre os entes federados, e isso fica visível na assimetria das medidas de combate à propagação do coronavírus. Mas a inércia agora parece ter invertido seu sentido.
Agora, na dúvida, a ordem é parar.
Esta é daquelas situações em que o Estado ganha importância, como nas guerras e grandes tragédias. Ele precisará cuidar, naturalmente, para os serviços de saúde funcionarem bem no stress, com foco no sistema hospitalar. É a hora do SUS. É a hora também de garantir o abastecimento, evitar a especulação e o sumiço dos produtos essenciais.
Como o governo Bolsonaro sairá lá na frente, quando a curva dos casos já estiver declinando fortemente? Simples: se as coisas tiverem funcionado, sairá mais forte. É tentadora a ilusão de achar que se os ministros vão sair ganhando e o presidente pode sair perdendo. No bottom line, é ele quem escolhe os ministros.
No fim das contas, quem é cobrado, ou adulado, é sempre o técnico que escala o time
sexta-feira, 13 de março de 2020
A curva achatada
A principal disputa política vem sendo entre o Executivo e o Congresso, sobre quem eventualmente terá a culpa se a economia voltar a embicar para baixo por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus. O governo começou a movimentar-se com medidas anticíclicas, atendendo à pressão.
O problema? Colocar mais dinheiro na mão das pessoas ajuda, mas não parece ser suficiente numa conjuntura de disseminação do medo. O decisivo, como mostra o exemplo chinês, é antecipar ao máximo a retomada da atividade. Aqui ainda estamos na fase anterior, de desaceleração e parada progressiva.
Todas as medidas sanitárias são para achatar a curva, estender o problema no tempo para evitar o colapso do sistema hospitalar. Faz sentido. Mas isso precisa ser equilibrado com a necessidade de fazer a parada durar o menor tempo possível. Será aí que o governo precisará mostrar capacidade de gestão.
O problema? Colocar mais dinheiro na mão das pessoas ajuda, mas não parece ser suficiente numa conjuntura de disseminação do medo. O decisivo, como mostra o exemplo chinês, é antecipar ao máximo a retomada da atividade. Aqui ainda estamos na fase anterior, de desaceleração e parada progressiva.
Todas as medidas sanitárias são para achatar a curva, estender o problema no tempo para evitar o colapso do sistema hospitalar. Faz sentido. Mas isso precisa ser equilibrado com a necessidade de fazer a parada durar o menor tempo possível. Será aí que o governo precisará mostrar capacidade de gestão.
quinta-feira, 12 de março de 2020
O transatlântico e a lancha
O agravamento do quadro sanitário desencadeou forte pressão sobre o governo por ações de curto prazo para evitar que a desaceleração econômica tenha impacto ainda mais grave sobre a vida das pessoas e das empresas.
Antes, o governo tinha a confiança do mercado e do mundo político para conduzir o transatlântico ao porto relativamente longínquo.
Viriam as reformas, a confiança do investidor cresceria e então os capitais aportariam aqui para desencadear um ciclo benigno para as atividades produtivas. No momento este cenário está congelado, porque o dinheiro mundial está fugindo para os títulos do Tesouro americano. E não se sabe quanto vai durar a pandemia provocada pelo novo coronavírus.
O que se pede agora da equipe econômica é a habilidade de fazer movimentos ágeis com um barco menor, de condução mais nervosa. Uma lancha. O governo vai ter de mostrar capacidade política e gerencial imediata. Já está sendo cobrado por isso. Vai ter de desligar o piloto automático e assumir o leme balançante da embarcação.
Antes, o governo tinha a confiança do mercado e do mundo político para conduzir o transatlântico ao porto relativamente longínquo.
Viriam as reformas, a confiança do investidor cresceria e então os capitais aportariam aqui para desencadear um ciclo benigno para as atividades produtivas. No momento este cenário está congelado, porque o dinheiro mundial está fugindo para os títulos do Tesouro americano. E não se sabe quanto vai durar a pandemia provocada pelo novo coronavírus.
O que se pede agora da equipe econômica é a habilidade de fazer movimentos ágeis com um barco menor, de condução mais nervosa. Uma lancha. O governo vai ter de mostrar capacidade política e gerencial imediata. Já está sendo cobrado por isso. Vai ter de desligar o piloto automático e assumir o leme balançante da embarcação.
segunda-feira, 9 de março de 2020
A noiva embelezou-se, mas o noivo está demorando a entrar pela porta
A política econômica de Jair Bolsonaro não mostra resultados brilhantes e suas premissas estão sendo questionadas. A saída de recursos externos da Bolsa bate recordes e o investimento privado continua muito abaixo do necessário para impulsionar a atividade, e portanto o emprego. E este é uma variável que pode fazer andar ou desandar o humor da galera. Diante do problema, o governo foge para adiante. Chama a rua.
Na teoria as reformas já realizadas e a queda dos juros da dívida pública deveriam atrair investimentos e estimular o consumo. Na prática ou não está acontecendo ou vai indo muito devagar.
Responsabilizar o Congresso pela pasmaceira econômica é moleza, no país em que o senso comum foi envenenado pela mistificação de que tudo é culpa “dos políticos”. Será? Desde o impeachment de Dilma Rousseff o Legislativo entregou aos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro os três pilares mais pedidos: o teto de gastos, a mudança nas leis trabalhistas e, principalmente, a reforma da previdência com o exigido 1 trilhão de economia em dez anos.
Aparentemente a noiva (o governo) embelezou-se para o casamento mas o noivo (o capital) está demorando para aparecer na porta. E o público começa a desconfiar. A orquestra e os cantores precisam caprichar para não deixar a peteca cair. Claro que se for dado tempo suficiente é provável que a noiva chegue. Mas na política o tempo é uma variável fora do controle dos economistas, está mais na alçada dos políticos.
E há o imprevisível, sempre muito difícil de prever. O novo coronavírus não parece ser ainda uma gripe espanhola, mas tampouco é um surtozinho de gripe comum. E traz com ele a desaceleração dos negócios pelo mundo. A China pelo jeito conseguiu estancar a expansão interna do contágio, mas o vírus e junto o breque nos negócios vão firmes para cobrir o planeta. Fingir que não é grave ajuda no discurso, mas os fatos, sempre eles, são teimosos.
O horizonte econômico não parece bom. E o governo dá sinais de enveredar para justificativas exóticas, como o “PIB privado”, e o apelo à mobilização da base. É sempre uma saída, mas talvez a correlação de forças atual não ajude. O dia 15 será puramente bolsonarista, e mesmo se mostrar alguma força exibirá junto algum isolamento. E já foi notado semana passada: uma vez desencadeada a dinâmica de rua é bobagem achar que tudo estará 100% sob controle.
O governo Jair Bolsonaro nunca teve obstáculos políticos reais. Como previsto, eles começam a aparecer na economia. Em vez de tentar resolver o governo cria problemas também na política. Se der certo será o caso de reescrever todos os manuais.
A pouca paciência para a negociação política tem seu charme, mas também tem custo. O rompimento do presidente da República com o PSL está se mostrando algo assim não tão brilhante.
A Aliança pelo Brasil vai num ritmo muito abaixo do que previam seus inspiradores, articuladores e operadores. A eleição de 2020 já era. Talvez seja algo precipitado dizer, mas na velocidade que vai é bom o pessoal acender a luz amarela para 2022.
Na teoria as reformas já realizadas e a queda dos juros da dívida pública deveriam atrair investimentos e estimular o consumo. Na prática ou não está acontecendo ou vai indo muito devagar.
Responsabilizar o Congresso pela pasmaceira econômica é moleza, no país em que o senso comum foi envenenado pela mistificação de que tudo é culpa “dos políticos”. Será? Desde o impeachment de Dilma Rousseff o Legislativo entregou aos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro os três pilares mais pedidos: o teto de gastos, a mudança nas leis trabalhistas e, principalmente, a reforma da previdência com o exigido 1 trilhão de economia em dez anos.
Aparentemente a noiva (o governo) embelezou-se para o casamento mas o noivo (o capital) está demorando para aparecer na porta. E o público começa a desconfiar. A orquestra e os cantores precisam caprichar para não deixar a peteca cair. Claro que se for dado tempo suficiente é provável que a noiva chegue. Mas na política o tempo é uma variável fora do controle dos economistas, está mais na alçada dos políticos.
E há o imprevisível, sempre muito difícil de prever. O novo coronavírus não parece ser ainda uma gripe espanhola, mas tampouco é um surtozinho de gripe comum. E traz com ele a desaceleração dos negócios pelo mundo. A China pelo jeito conseguiu estancar a expansão interna do contágio, mas o vírus e junto o breque nos negócios vão firmes para cobrir o planeta. Fingir que não é grave ajuda no discurso, mas os fatos, sempre eles, são teimosos.
O horizonte econômico não parece bom. E o governo dá sinais de enveredar para justificativas exóticas, como o “PIB privado”, e o apelo à mobilização da base. É sempre uma saída, mas talvez a correlação de forças atual não ajude. O dia 15 será puramente bolsonarista, e mesmo se mostrar alguma força exibirá junto algum isolamento. E já foi notado semana passada: uma vez desencadeada a dinâmica de rua é bobagem achar que tudo estará 100% sob controle.
O governo Jair Bolsonaro nunca teve obstáculos políticos reais. Como previsto, eles começam a aparecer na economia. Em vez de tentar resolver o governo cria problemas também na política. Se der certo será o caso de reescrever todos os manuais.
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A pouca paciência para a negociação política tem seu charme, mas também tem custo. O rompimento do presidente da República com o PSL está se mostrando algo assim não tão brilhante.
A Aliança pelo Brasil vai num ritmo muito abaixo do que previam seus inspiradores, articuladores e operadores. A eleição de 2020 já era. Talvez seja algo precipitado dizer, mas na velocidade que vai é bom o pessoal acender a luz amarela para 2022.
sexta-feira, 6 de março de 2020
As melancias e o caminhão
A sabedoria política diz que o eleitor sai de casa no dia da eleição não principalmente para eleger alguém, mas para derrotar. Se não dá para generalizar de modo absoluto, a coisa tem algum fundamento. Colhe o sucesso na urna quem, além de despertar o amor nos seus, sabe alimentar o ódio ao adversário. Daí que os apelos por uma política sem ódio acabem caindo no vazio, explícita ou implicitamente. Coisa de gente ingênua, ou esperta demais.
De vez em quando aparece um candidato “paz e amor”, como Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 ou Barack Obama em 2008. Cuidado, porém: mesmo o postulante que não odeia explicitamente precisa que alguém, ou muitos, odeie por ele. Lula colheu o fruto eleitoral de anos de ataques do PT ao tucanismo de Fernando Henrique Cardoso. E a eleição de Obama foi sem dúvida uma revanche contra o odiado governo de George W. Bush e suas guerras.
Sem esquecer o ódio dos negros contra a discriminação. E sem falar na raiva do povão por causa da crise econômico-financeira desencadeada com a quebra do Lehman Brothers.
A política dita "civilizada" não elimina o ódio de raízes ancestrais, e costumeiramente de características tribais. Apenas dá um jeito de as disputas serem resolvidas sem (muito) sangue. Aí diz-se que “as instituições estão funcionando”. Atenção: essa funcionalidade institucional não supõe necessariamente justiça, no mais das vezes apenas permite que a injustiça prevaleça de modo a não inviabilizar as coisas continuarem rodando na normalidade.
Do que depende esse “funcionando”? Alguns nutrem a crença no sistema ideal, que vacinaria as sociedades contra o vírus da solução violenta dos conflitos. Certas vezes é chamado de estado de direito. Trata-se de um fetiche. Esse “estado” nada mais é que relações sociais, portanto entre pessoas, relações impressas num papel. Ou num PDF. Mais provável é a taxa de “civilização” resultar do grau de equillíbrio entre forças propensas à destruição mútua.
Aqui você poderá dizer que o bom estado de direito tem a qualidade de forçar esse equilíbrio. E você terá alguma razão.
Desde o surgimento das armas nucleares fala-se em “equilíbrio do terror”. O custo de romper o equilíbrio não compensa, pois muito provavelmente a ruptura levaria à destruição mútua. Parece ter sido o caso do impeachment de Dilma Rousseff. Para o PSDB e o PMDB (hoje MDB), o custo de remover o PT do poder foi alto demais, sabe-se agora. Acontece. Errar é humano. Mas, sempre lembrando o Conselheiro Acácio, é inevitável as consequências virem depois.
São inteligentes as vozes a pedir frieza diante da natural radicalização política. Talvez não pareça, mas agem cautelosamente o governo, quando aceita que tem de negociar com o Congresso, e a oposição, quando recusa embarcar numa nova empreitada de impeachment. A situação hoje é de equilíbrio. O presidente preside, a oposição se opõe, a imprensa reclama. E as melancias vão se ajeitando na carroceria do caminhão conforme os solavancos da estrada.
E quando a poeira baixa está todo mundo aí. No jogo. Melhor deixar correr assim.
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Publicado originalmente na revista Veja 2.677, de 11 de março de 2020
De vez em quando aparece um candidato “paz e amor”, como Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 ou Barack Obama em 2008. Cuidado, porém: mesmo o postulante que não odeia explicitamente precisa que alguém, ou muitos, odeie por ele. Lula colheu o fruto eleitoral de anos de ataques do PT ao tucanismo de Fernando Henrique Cardoso. E a eleição de Obama foi sem dúvida uma revanche contra o odiado governo de George W. Bush e suas guerras.
Sem esquecer o ódio dos negros contra a discriminação. E sem falar na raiva do povão por causa da crise econômico-financeira desencadeada com a quebra do Lehman Brothers.
A política dita "civilizada" não elimina o ódio de raízes ancestrais, e costumeiramente de características tribais. Apenas dá um jeito de as disputas serem resolvidas sem (muito) sangue. Aí diz-se que “as instituições estão funcionando”. Atenção: essa funcionalidade institucional não supõe necessariamente justiça, no mais das vezes apenas permite que a injustiça prevaleça de modo a não inviabilizar as coisas continuarem rodando na normalidade.
Do que depende esse “funcionando”? Alguns nutrem a crença no sistema ideal, que vacinaria as sociedades contra o vírus da solução violenta dos conflitos. Certas vezes é chamado de estado de direito. Trata-se de um fetiche. Esse “estado” nada mais é que relações sociais, portanto entre pessoas, relações impressas num papel. Ou num PDF. Mais provável é a taxa de “civilização” resultar do grau de equillíbrio entre forças propensas à destruição mútua.
Aqui você poderá dizer que o bom estado de direito tem a qualidade de forçar esse equilíbrio. E você terá alguma razão.
Desde o surgimento das armas nucleares fala-se em “equilíbrio do terror”. O custo de romper o equilíbrio não compensa, pois muito provavelmente a ruptura levaria à destruição mútua. Parece ter sido o caso do impeachment de Dilma Rousseff. Para o PSDB e o PMDB (hoje MDB), o custo de remover o PT do poder foi alto demais, sabe-se agora. Acontece. Errar é humano. Mas, sempre lembrando o Conselheiro Acácio, é inevitável as consequências virem depois.
São inteligentes as vozes a pedir frieza diante da natural radicalização política. Talvez não pareça, mas agem cautelosamente o governo, quando aceita que tem de negociar com o Congresso, e a oposição, quando recusa embarcar numa nova empreitada de impeachment. A situação hoje é de equilíbrio. O presidente preside, a oposição se opõe, a imprensa reclama. E as melancias vão se ajeitando na carroceria do caminhão conforme os solavancos da estrada.
E quando a poeira baixa está todo mundo aí. No jogo. Melhor deixar correr assim.
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Publicado originalmente na revista Veja 2.677, de 11 de março de 2020
segunda-feira, 2 de março de 2020
Como Bolsonaro navegará com algum vento contra? E a explicação da qual o governo pode correr, mas não conseguirá escapar
Um governo entra em zona de risco quando emerge certa coalizão político-social capaz de substituí-lo, e um sinal é aliados naturais, programáticos, demonstrarem mais propensão a sair que a entrar. Governos sabem que estão com o poder preservado quando, ao contrário, tirando o alarido, não se nota qualquer alternativa, e em vez de apelos pela derrubada do governante prevalecem os lamentos por seu comportamento.
A coalizão social que elegeu Jair Bolsonaro está essencialmente mantida, como mostram todas as pesquisas. Também a união programática entre a direita raiz e o chamado centro. O pensamento-padrão: “É ruim que as turbulências políticas possam atrapalhar o andamento das reformas.” Qual é a disputa, então? Como previsto lá atrás, o Bonaparte eleito precisaria travar uma guerra prolongada para retomar, na Brasília pós-Lava Jato, pelo menos parcialmente o Poder Moderador, institucionalizado desde D. Pedro 1º e enfraquecido entre 2015 e 2018.
O esvaziamento recente do Executivo acabou por dar asas a polos que costumavam se dobrar ao mando do Palácio. O Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal, o Tribunal de Contas da União e, em boa medida, o Ministério Público. E um polo informal, a imprensa. Agora é a hora da marcha-a-ré, de fazer o caminho de volta da dispersão política. O presidente vem tendo algum sucesso, restando casos particulares. Um é o controle do Orçamento.
O debate orçamentário estimula delírios, como o de que estaria em curso a manobra pelo parlamentarismo dito “branco”. Trata-se de bobagem fantasmagórica, ainda que dita em tom solene por especialistas e combatida ferozmente pelo bolsonarismo das redes sociais. Ninguém está propondo retirar do Executivo suas atribuições, há apenas a disputa por um mísero naco da igualmente mísera verba federal destinada a investimentos.
Os deputados, principalmente, não querem depender do humor do Executivo para ter ou não recursos colocados nas suas bases eleitorais. E o governo teme um Legislativo, como se diz, empoderado pela autonomia orçamentária.
Se der a lógica, governo e Congresso vão acabar chegando a algum acordo. Será inteligente da parte dos deputados e senadores um acerto tático com o Executivo, deixando a este o ônus de explicar como vai fazer para alavancar a economia em tempos de coronavírus e ameaças de recessão global. Pois desta explicação o governo pode até correr, mas terá muita dificuldade para escapar, ainda mais se o Legislativo continuar entregando as pedidas reformas. E vai.
E um detalhe: como dito semana passada, o apelo presidencial à rua abre a janela para a oposição sair da natural hibernação pós-derrota. Mas ela continua com aquele probleminha. Os liberais revoltados com o fato de Bolsonaro não lhes dar a mínima pelota (prepararam o bolo do impeachment mas ao final não comeram) continuam preferindo o atual presidente à possibilidade de devolver o poder à esquerda, ou entregar a uma autonomeada centro-esquerda. Resistem até a atender a algumas demandas dessa turma, o que aí sim permitiria formar um bloco político-social alternativo.
Enquanto estiver desse jeito, Jair Bolsonaro não tem problema relevante com que se preocupar. Mas, atenção: ele que sempre navegou com vento a favor, pelo menos desde 2013, agora precisará demonstrar habilidade com vento contra. Uma hora o pão precisa aparecer. Governos têm de mostrar resultados, e os últimos números já não vinham sendo tão animadores, mesmo antes da onda de pessimismo econômico desencadeada pelo coronavírus.
A vida de presidentes com base congressual gelatinosa depende perigosamente da popularidade. Nunca é demais lembrar.
A coalizão social que elegeu Jair Bolsonaro está essencialmente mantida, como mostram todas as pesquisas. Também a união programática entre a direita raiz e o chamado centro. O pensamento-padrão: “É ruim que as turbulências políticas possam atrapalhar o andamento das reformas.” Qual é a disputa, então? Como previsto lá atrás, o Bonaparte eleito precisaria travar uma guerra prolongada para retomar, na Brasília pós-Lava Jato, pelo menos parcialmente o Poder Moderador, institucionalizado desde D. Pedro 1º e enfraquecido entre 2015 e 2018.
O esvaziamento recente do Executivo acabou por dar asas a polos que costumavam se dobrar ao mando do Palácio. O Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal, o Tribunal de Contas da União e, em boa medida, o Ministério Público. E um polo informal, a imprensa. Agora é a hora da marcha-a-ré, de fazer o caminho de volta da dispersão política. O presidente vem tendo algum sucesso, restando casos particulares. Um é o controle do Orçamento.
O debate orçamentário estimula delírios, como o de que estaria em curso a manobra pelo parlamentarismo dito “branco”. Trata-se de bobagem fantasmagórica, ainda que dita em tom solene por especialistas e combatida ferozmente pelo bolsonarismo das redes sociais. Ninguém está propondo retirar do Executivo suas atribuições, há apenas a disputa por um mísero naco da igualmente mísera verba federal destinada a investimentos.
Os deputados, principalmente, não querem depender do humor do Executivo para ter ou não recursos colocados nas suas bases eleitorais. E o governo teme um Legislativo, como se diz, empoderado pela autonomia orçamentária.
Se der a lógica, governo e Congresso vão acabar chegando a algum acordo. Será inteligente da parte dos deputados e senadores um acerto tático com o Executivo, deixando a este o ônus de explicar como vai fazer para alavancar a economia em tempos de coronavírus e ameaças de recessão global. Pois desta explicação o governo pode até correr, mas terá muita dificuldade para escapar, ainda mais se o Legislativo continuar entregando as pedidas reformas. E vai.
E um detalhe: como dito semana passada, o apelo presidencial à rua abre a janela para a oposição sair da natural hibernação pós-derrota. Mas ela continua com aquele probleminha. Os liberais revoltados com o fato de Bolsonaro não lhes dar a mínima pelota (prepararam o bolo do impeachment mas ao final não comeram) continuam preferindo o atual presidente à possibilidade de devolver o poder à esquerda, ou entregar a uma autonomeada centro-esquerda. Resistem até a atender a algumas demandas dessa turma, o que aí sim permitiria formar um bloco político-social alternativo.
Enquanto estiver desse jeito, Jair Bolsonaro não tem problema relevante com que se preocupar. Mas, atenção: ele que sempre navegou com vento a favor, pelo menos desde 2013, agora precisará demonstrar habilidade com vento contra. Uma hora o pão precisa aparecer. Governos têm de mostrar resultados, e os últimos números já não vinham sendo tão animadores, mesmo antes da onda de pessimismo econômico desencadeada pelo coronavírus.
A vida de presidentes com base congressual gelatinosa depende perigosamente da popularidade. Nunca é demais lembrar.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Fugir para adiante, para “a rua”: uma ajuda do governo para seus adversários
A tese antes da posse era que o radicalismo do presidente da República seria domado pelo pragmatismo e profissionalismo dos generais e pelo liberalismo democrático e competente do ministro da Economia, e respectivo dream team. Aqui a vida real reservou outro habitual imprevisto. O presidente parece ter mais jogo de cintura que os candidatos a tutor, pelo menos para tratar com os outros pilares do poder constitucional (Congresso, Supremo).
O titular da Economia anda meio recolhido, depois de dois tropeços na comunicação. Desta vez veio de um general, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, o sinal mais dolorido da perda de paciência com o Congresso. Na sequência da revelação pública da explosão do general, a base (ou a cúpula) bolsonarista desencadeou a chamada para um 15 de março de apoio a ele e repúdio ao Legislativo, em particular aos presidentes da Câmara e Senado.
Governos são animais que vivem sob pressão constante, e a falta de traquejo costuma abrir espaço para vozes que nas horas complicadas pregam a “fuga para adiante". Na maioria esmagadora dos casos dá errado. Numa releitura adaptada da célebre frase de Joãosinho Trinta, governo tem de gostar de governar, pois quem gosta de gente na rua é a oposição. Se já tiverem esquecido, bom lembrar de junho de 2013. Dica: ver como começou e como terminou.
A oposição está entretida com as questiúnculas que cercam as eleições municipais, discutindo se em 2022 a frente deve ser ampla ou de esquerda, no máximo ataca o governo nas redes sociais. A greve dos petroleiros começou e terminou isolada. No STF o governo vive um ambiente de paz e cooperação. No Congresso, se tiver paciência e sangue frio, conseguirá que as reformas fiquem próximas do por ele desejado. No bottom line o governo não tem problema político real.
Problema mesmo o governo enfrenta nos canais de reverberação da dita sociedade civil. Mas estes não têm mostrado capacidade física de mobilização antigovernista. Por uma razão singela: o “centro" não consegue colocar povo na rua e tampouco está a fim de se juntar com quem poderia conseguir, pois decidiu há algum tempo que o caminho para voltar ao poder passa pela “luta contra os dois extremos”.
Coisa que, como se sabe, vem tendo um sucesso danado aqui e no mundo todo.
Introduzir a variável “rua” no cenário só interessa à oposição. E a defesa do Congresso e suas prerrogativas, como parte da defesa da Constituição de 1988, é o prato feito para quem pretende aglutinar as forças antibolsonaristas. Um achado para os opositores na preparação das eleições municipais. Especialmente quando a economia, apesar de sinais de melhora, ainda nem de longe pode ser descrita como brilhante.
No popular, é real o risco de o tiro sair pela culatra.
Um cenário hipotético. Bernie Sanders não consegue a maioria absoluta dos delegados, só maioria simples, e a cúpula do Partido Democrata alija-o da disputa contra Donald Trump. Sanders tem a opção de correr como independente. De quem tiraria mais votos? Gostaria de ver uma pesquisa Trump x Joe Biden (ou Mike Bloomberg) x Bernie…
O titular da Economia anda meio recolhido, depois de dois tropeços na comunicação. Desta vez veio de um general, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, o sinal mais dolorido da perda de paciência com o Congresso. Na sequência da revelação pública da explosão do general, a base (ou a cúpula) bolsonarista desencadeou a chamada para um 15 de março de apoio a ele e repúdio ao Legislativo, em particular aos presidentes da Câmara e Senado.
Governos são animais que vivem sob pressão constante, e a falta de traquejo costuma abrir espaço para vozes que nas horas complicadas pregam a “fuga para adiante". Na maioria esmagadora dos casos dá errado. Numa releitura adaptada da célebre frase de Joãosinho Trinta, governo tem de gostar de governar, pois quem gosta de gente na rua é a oposição. Se já tiverem esquecido, bom lembrar de junho de 2013. Dica: ver como começou e como terminou.
A oposição está entretida com as questiúnculas que cercam as eleições municipais, discutindo se em 2022 a frente deve ser ampla ou de esquerda, no máximo ataca o governo nas redes sociais. A greve dos petroleiros começou e terminou isolada. No STF o governo vive um ambiente de paz e cooperação. No Congresso, se tiver paciência e sangue frio, conseguirá que as reformas fiquem próximas do por ele desejado. No bottom line o governo não tem problema político real.
Problema mesmo o governo enfrenta nos canais de reverberação da dita sociedade civil. Mas estes não têm mostrado capacidade física de mobilização antigovernista. Por uma razão singela: o “centro" não consegue colocar povo na rua e tampouco está a fim de se juntar com quem poderia conseguir, pois decidiu há algum tempo que o caminho para voltar ao poder passa pela “luta contra os dois extremos”.
Coisa que, como se sabe, vem tendo um sucesso danado aqui e no mundo todo.
Introduzir a variável “rua” no cenário só interessa à oposição. E a defesa do Congresso e suas prerrogativas, como parte da defesa da Constituição de 1988, é o prato feito para quem pretende aglutinar as forças antibolsonaristas. Um achado para os opositores na preparação das eleições municipais. Especialmente quando a economia, apesar de sinais de melhora, ainda nem de longe pode ser descrita como brilhante.
No popular, é real o risco de o tiro sair pela culatra.
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Um cenário hipotético. Bernie Sanders não consegue a maioria absoluta dos delegados, só maioria simples, e a cúpula do Partido Democrata alija-o da disputa contra Donald Trump. Sanders tem a opção de correr como independente. De quem tiraria mais votos? Gostaria de ver uma pesquisa Trump x Joe Biden (ou Mike Bloomberg) x Bernie…
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
Sem almoço grátis na política
Agendas econômicas no Brasil perdem velocidade com o tempo. É habitual. Em parte por tentarem impor sacrifícios a uma sociedade criada e amadurecida num ambiente de mistificação. O Brasil está convencido de que os problemas podem ser resolvidos por mágica. A última tese diz que se a corrupção for combatida como deve vai sobrar o dinheiro para saúde, educação, segurança. A verdade? Se a corrupção brasileira, um problema sabidamente grave, for reduzida a zero, as dificuldades financeiras do Estado ficarão mais ou menos do mesmo tamanho.
A percepção geral, medida pelas pesquisas, é que o governo Jair Bolsonaro combate a corrupção. Nesse ambiente, pelo motivo apontado, é imensamente difícil para o ministro da Economia convencer a sociedade brasileira da necessidade de criar e aumentar impostos. A nova CPMF, com o nome que tiver, é uma batalha aparentemente perdida. De tempos em tempos aparece uma ideia, como por exemplo o tal imposto sobre o consumo não saudável, o “imposto do pecado”. Apenas para ser soterrada sob uma avalanche desencadeada pelo senso comum.
Qual é a solução? Na teoria, uma reforma administrativa que ajeite com racionalidade as despesas, para caberem nas receitas sem sobrecarregar ainda mais a sociedade. Aí surge outro problema habitual: o poder de pressão da elite do serviço público, inclusive e principalmente os segmentos que operam o monopólio da violência legítima. Com um detalhe: o presidente da República provém da Forças Armadas, tem três décadas no Parlamento em defesa da corporação, e não seria politicamente inteligente se caminhasse para um estelionato eleitoral.
Debater a tensão entre democracia e demagogia é antigo. O Brasil talvez seja um case internacional. O sistema político-eleitoral está organizado quase perfeitamente para impedir que 1) os impasses nacionais sejam discutidos objetivamente nas eleições e 2) governos eleitos formem maioria estável no Congresso Nacional. O resultado: processos eleitorais que convidam à demagogia e governos que só sobrevivem se praticarem altas doses de bonapartismo. Para o que é indispensável manter todo o tempo alta aprovação popular. Até para não cair.
Mas o bonapartismo tem um custo. Em democracias como a nossa, a eleição e a apuração consomem um dia, mas a governabilidade precisa sustentar-se ao longo de quatro anos. Quem elege um governo é o eleitorado, mas quem permite a ele governar é um complexo institucional enredado com a dita sociedade civil. A falta de tecnologia para a disputa da urna leva a derrotas eleitorais. A falta de expertise para operar o “sistema governo” produz crises políticas. Detalhe: a taxa de insucesso de presidentes eleitos no Brasil pós-1988 é de impressionantes 50%.
De volta à economia. As ideias podem ser boas mas os resultados por enquanto não têm sido brilhantes. Faça-se justiça, o ministro que cuida dela nunca prometeu brilho no curto prazo. Mas na política fazer justiça não é habitual, vale mesmo é a relação de forças. Para o governo, a correlação de forças vai bem no eleitorado. Já no pessoal que pode permitir ao presidente chegar a 2022, “a política”, ela não vai tão bem assim. Energizar a base pode ser estimulante, mas tampouco aqui existe almoço grátis.
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Publicado originalmente em Veja nº 2.675, de 26 de fevereiro de 2020
A percepção geral, medida pelas pesquisas, é que o governo Jair Bolsonaro combate a corrupção. Nesse ambiente, pelo motivo apontado, é imensamente difícil para o ministro da Economia convencer a sociedade brasileira da necessidade de criar e aumentar impostos. A nova CPMF, com o nome que tiver, é uma batalha aparentemente perdida. De tempos em tempos aparece uma ideia, como por exemplo o tal imposto sobre o consumo não saudável, o “imposto do pecado”. Apenas para ser soterrada sob uma avalanche desencadeada pelo senso comum.
Qual é a solução? Na teoria, uma reforma administrativa que ajeite com racionalidade as despesas, para caberem nas receitas sem sobrecarregar ainda mais a sociedade. Aí surge outro problema habitual: o poder de pressão da elite do serviço público, inclusive e principalmente os segmentos que operam o monopólio da violência legítima. Com um detalhe: o presidente da República provém da Forças Armadas, tem três décadas no Parlamento em defesa da corporação, e não seria politicamente inteligente se caminhasse para um estelionato eleitoral.
Debater a tensão entre democracia e demagogia é antigo. O Brasil talvez seja um case internacional. O sistema político-eleitoral está organizado quase perfeitamente para impedir que 1) os impasses nacionais sejam discutidos objetivamente nas eleições e 2) governos eleitos formem maioria estável no Congresso Nacional. O resultado: processos eleitorais que convidam à demagogia e governos que só sobrevivem se praticarem altas doses de bonapartismo. Para o que é indispensável manter todo o tempo alta aprovação popular. Até para não cair.
Mas o bonapartismo tem um custo. Em democracias como a nossa, a eleição e a apuração consomem um dia, mas a governabilidade precisa sustentar-se ao longo de quatro anos. Quem elege um governo é o eleitorado, mas quem permite a ele governar é um complexo institucional enredado com a dita sociedade civil. A falta de tecnologia para a disputa da urna leva a derrotas eleitorais. A falta de expertise para operar o “sistema governo” produz crises políticas. Detalhe: a taxa de insucesso de presidentes eleitos no Brasil pós-1988 é de impressionantes 50%.
De volta à economia. As ideias podem ser boas mas os resultados por enquanto não têm sido brilhantes. Faça-se justiça, o ministro que cuida dela nunca prometeu brilho no curto prazo. Mas na política fazer justiça não é habitual, vale mesmo é a relação de forças. Para o governo, a correlação de forças vai bem no eleitorado. Já no pessoal que pode permitir ao presidente chegar a 2022, “a política”, ela não vai tão bem assim. Energizar a base pode ser estimulante, mas tampouco aqui existe almoço grátis.
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Publicado originalmente em Veja nº 2.675, de 26 de fevereiro de 2020
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