Os novos capítulos do Caso Master reintroduziram no debate político conjecturas sobre o impacto do tema corrupção na eleição presidencial. Semanas atrás, num momento de alta temperatura do assunto, este chegou a ultrapassar a economia e a segurança pública no ranking das preocupações dos entrevistados em pesquisas. Mas em seguida viu-se uma reacomodação, sinal de resiliência das questões mais capazes de produzir impacto direto e imediato no brasileiro médio.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
sábado, 9 de maio de 2026
sábado, 2 de maio de 2026
A fé na conta de chegada
Ao adotar suas linhas de ação política e econômica e, principalmente, ao persistir nelas mesmo diante das circunstâncias, o governo federal acaba refém de duas contas de chegada.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
quarta-feira, 26 de março de 2025
Batom na estátua
É possível que o governo Luiz Inácio Lula da Silva subestime o custo político de apoiar incondicionalmente a atuação do Supremo Tribunal Federal nos processos contra os acusados de 8 de janeiro de 2023. Não é tão difícil entender o potencial dano eleitoral do contraste entre a liberdade proporcionada a tantos envolvidos em comprovados crimes graves e a dureza granítica das atuais punições aos manifestantes que depredaram as sedes dos três poderes, uma ação obviamente condenável.
Na guerra de narrativas, o 8/1 foi para uns grave atentado contra a democracia. Mas para uma fração significativa do eleitorado, ainda minoritária, foi só um ato de depredação de edifícios públicos. Não é preciso tanta inteligência ou capacidade preditiva para saber que o primeiro grupo tende a diminuir e o segundo a crescer. Ainda por cima se a segunda narrativa vem embalada em exemplos que o homem comum pode facilmente interpretar como flagrante injustiça.
Uma dúvida razoável é por que o governo não influi para expurgar da onda inquisitorial as aberrações mais aberrantes. Talvez porque, na ausência de base parlamentar mais sólida, tema enfraquecer o “presidencialismo de coalizão com o Judiciário”. Talvez porque tenha se tornado, ele próprio, prisioneiro da sua narrativa. É uma dessas situações em que o sujeito, para manter de pé uma versão, passa a agir contra seus próprios interesses.
Para o sistema punitivo, é vital manter uma conexão entre o 8/1 e as comprovadas movimentações do então presidente, derrotado nas urnas, para invalidar o desfecho da eleição. O 8/1 permite à acusação dizer que a ruptura não foi apenas desejada, mas efetivamente tentaram colocá-la em prática. As evidências materiais dessa conexão são frágeis até o momento. Mas, como se diz, “é o que temos para hoje”.
Na guerra de narrativas, o 8/1 foi para uns grave atentado contra a democracia. Mas para uma fração significativa do eleitorado, ainda minoritária, foi só um ato de depredação de edifícios públicos. Não é preciso tanta inteligência ou capacidade preditiva para saber que o primeiro grupo tende a diminuir e o segundo a crescer. Ainda por cima se a segunda narrativa vem embalada em exemplos que o homem comum pode facilmente interpretar como flagrante injustiça.
Uma dúvida razoável é por que o governo não influi para expurgar da onda inquisitorial as aberrações mais aberrantes. Talvez porque, na ausência de base parlamentar mais sólida, tema enfraquecer o “presidencialismo de coalizão com o Judiciário”. Talvez porque tenha se tornado, ele próprio, prisioneiro da sua narrativa. É uma dessas situações em que o sujeito, para manter de pé uma versão, passa a agir contra seus próprios interesses.
Para o sistema punitivo, é vital manter uma conexão entre o 8/1 e as comprovadas movimentações do então presidente, derrotado nas urnas, para invalidar o desfecho da eleição. O 8/1 permite à acusação dizer que a ruptura não foi apenas desejada, mas efetivamente tentaram colocá-la em prática. As evidências materiais dessa conexão são frágeis até o momento. Mas, como se diz, “é o que temos para hoje”.
Daí a dificuldade política de expurgar da marcha penal situações como o batom na estátua. Sem o “batom na cueca”, resta o batom na estátua.
Não fosse por isso, a separação entre os participantes de delitos menores e os demais acusados já teria sido feita há tempos, evitando que o governo perdesse o timing, o que permitiu à oposição fincar pé na acusação de injustiça. Lutar contra injustiças sempre permite ao lutador alguma iniciativa, mesmo em situações desfavoráveis.
É verdade que, com isso, a oposição deixa para o governo a oportunidade de ocupar-se sozinho do que interessa mais ao povão: o preço das coisas. E o governo ganha tempo. está à espera de que, enquanto fala mal do Banco Central (BC), o BC faça o serviço para o situacionismo e derrube a inflação.
Além do mais, o Planalto conta com a docilidade dos mecanismos de formação da opinião, eles próprios encaixotados no temor de não parecerem suficientemente alinhados na defesa da democracia.
Pela nova regra do consignado, o trabalhador pega um empréstimo no banco, para pagar juros e o principal, dando como garantia 10% do seu FGTS.
Fica uma dúvida: por que não simplesmente deixar o trabalhador sacar 10% do seu FGTS?
Até para o trabalhador não passar pela estranha situação de ter de pagar ao banco juros por tomar emprestado um dinheiro que é dele mesmo.
Não fosse por isso, a separação entre os participantes de delitos menores e os demais acusados já teria sido feita há tempos, evitando que o governo perdesse o timing, o que permitiu à oposição fincar pé na acusação de injustiça. Lutar contra injustiças sempre permite ao lutador alguma iniciativa, mesmo em situações desfavoráveis.
É verdade que, com isso, a oposição deixa para o governo a oportunidade de ocupar-se sozinho do que interessa mais ao povão: o preço das coisas. E o governo ganha tempo. está à espera de que, enquanto fala mal do Banco Central (BC), o BC faça o serviço para o situacionismo e derrube a inflação.
Além do mais, o Planalto conta com a docilidade dos mecanismos de formação da opinião, eles próprios encaixotados no temor de não parecerem suficientemente alinhados na defesa da democracia.
*
Pela nova regra do consignado, o trabalhador pega um empréstimo no banco, para pagar juros e o principal, dando como garantia 10% do seu FGTS.
Fica uma dúvida: por que não simplesmente deixar o trabalhador sacar 10% do seu FGTS?
Até para o trabalhador não passar pela estranha situação de ter de pagar ao banco juros por tomar emprestado um dinheiro que é dele mesmo.
terça-feira, 4 de março de 2025
Esquerda em apuros. E a conversa fiada sobre a guerra
É visível e mensurável a ascensão de forças políticas nacionalistas em escala global. A base material foi desencadeada pela crise financeira de 2008-09, quando a chamada globalização apresentou suas primeiras graves rachaduras. Como tudo na História, o andamento não é linear, tem idas e vindas, mas parece caminhar bem, sem que tendências contrárias mostrem energia suficiente para reverter.
A maioria da esquerda, aparentada da social-democracia, é a principal perdedora neste round.
Aos fatos. Em certo momento ela abandonou a luta 1) pela soberania nacional, 2) pelo desenvolvimento, 3) pela igualdade e 4) pela liberdade. Trocou seus melhores episódios desde a Revolução Francesa por uma mistura mal ajambrada de kautskysmo (teoria do “ultraimperialismo”), malthusianismo, tribalismo identitário e ânsia repressora.
Como essa mixórdia de pontos desconexos não é capaz de proporcionar às massas trabalhadoras um horizonte de elevação consistente do seu padrão de vida, estas se voltam para a direita em busca de luz. Direita que recolhe as bandeiras acima de 1 a 4 para capturar uma base social antes hostil, ampliar sua potência eleitoral e abrir caminho para chegar ao poder.
O nacionalismo têm papel central nessa disputa. Defender a nação como espaço de proteção, liberdade e prosperidade vem se mostrando mais eficaz para mobilizar os povos do que um universalismo até agora incapaz de deixar o terreno da utopia. As pessoas não são estúpidas. Qualquer um compreende perfeitamente a diferença entre os graus de liberdade do capital e do trabalho quanto tentam cruzar as fronteiras entre o primeiro e o terceiro mundos.
A resultante é a contradição grotesca entre o discurso da esquerda em defesa da democracia e sua inclinação à repressão pura e simples para manter-se no poder. Recorrendo a uma expressão cara a esse campo, é óbvio que não tem a mínima sustentabilidade.
O governo dos Estados Unidos não parece disposto a continuar financiando a fundo perdido na Ucrânia uma guerra inganhável. A aposta europeia e do governo Joe Biden deu errado. As sanções não arruinaram a economia da Rússia, também por uma razão: a China jamais permitiria ao Ocidente subjugar os russos e impor-lhes o Versailles que se impôs à então União Soviética.
Resta, então, como caminho para uma vitória total sobre Moscou, o militar. Alguns problemas aqui. A Rússia é a maior potência nuclear do planeta. E, ao contrário dos últimos momentos da URSS, mostra coesão política interna para evitar a capitulação.
Mais ainda: numa guerra convencional, é impensável que os ucranianos derrotem os russos. Para melhorar a probabilidade desse desfecho, seria necessário europeus e americanos toparem ir morrer nos campos de batalha, além de empenhar todas as economias na empreitada. E mesmo assim o desfecho mais provável seria uma conflagração nuclear planetária.
Diante disso, a melhor saída é buscar um acordo, que naturalmente deverá levar em conta a realidade no terreno da guerra. “Ah, mas e a soberania? E o direito dos países à integridade territorial?”. É hora de retirar do baú uma velhíssima lição da História. Os países têm direito à soberania e à integridade territorial na exata medida da força que eles e suas alianças têm para garantir a soberania e a integridade territorial.
O resto é conversa fiada.
A maioria da esquerda, aparentada da social-democracia, é a principal perdedora neste round.
Aos fatos. Em certo momento ela abandonou a luta 1) pela soberania nacional, 2) pelo desenvolvimento, 3) pela igualdade e 4) pela liberdade. Trocou seus melhores episódios desde a Revolução Francesa por uma mistura mal ajambrada de kautskysmo (teoria do “ultraimperialismo”), malthusianismo, tribalismo identitário e ânsia repressora.
Como essa mixórdia de pontos desconexos não é capaz de proporcionar às massas trabalhadoras um horizonte de elevação consistente do seu padrão de vida, estas se voltam para a direita em busca de luz. Direita que recolhe as bandeiras acima de 1 a 4 para capturar uma base social antes hostil, ampliar sua potência eleitoral e abrir caminho para chegar ao poder.
O nacionalismo têm papel central nessa disputa. Defender a nação como espaço de proteção, liberdade e prosperidade vem se mostrando mais eficaz para mobilizar os povos do que um universalismo até agora incapaz de deixar o terreno da utopia. As pessoas não são estúpidas. Qualquer um compreende perfeitamente a diferença entre os graus de liberdade do capital e do trabalho quanto tentam cruzar as fronteiras entre o primeiro e o terceiro mundos.
A resultante é a contradição grotesca entre o discurso da esquerda em defesa da democracia e sua inclinação à repressão pura e simples para manter-se no poder. Recorrendo a uma expressão cara a esse campo, é óbvio que não tem a mínima sustentabilidade.
***
O governo dos Estados Unidos não parece disposto a continuar financiando a fundo perdido na Ucrânia uma guerra inganhável. A aposta europeia e do governo Joe Biden deu errado. As sanções não arruinaram a economia da Rússia, também por uma razão: a China jamais permitiria ao Ocidente subjugar os russos e impor-lhes o Versailles que se impôs à então União Soviética.
Resta, então, como caminho para uma vitória total sobre Moscou, o militar. Alguns problemas aqui. A Rússia é a maior potência nuclear do planeta. E, ao contrário dos últimos momentos da URSS, mostra coesão política interna para evitar a capitulação.
Mais ainda: numa guerra convencional, é impensável que os ucranianos derrotem os russos. Para melhorar a probabilidade desse desfecho, seria necessário europeus e americanos toparem ir morrer nos campos de batalha, além de empenhar todas as economias na empreitada. E mesmo assim o desfecho mais provável seria uma conflagração nuclear planetária.
Diante disso, a melhor saída é buscar um acordo, que naturalmente deverá levar em conta a realidade no terreno da guerra. “Ah, mas e a soberania? E o direito dos países à integridade territorial?”. É hora de retirar do baú uma velhíssima lição da História. Os países têm direito à soberania e à integridade territorial na exata medida da força que eles e suas alianças têm para garantir a soberania e a integridade territorial.
O resto é conversa fiada.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
Guerra por procuração é mais fácil
A acusação dos europeus de que Donald Trump se inclina pelo “apaziguamento” da Rússia na guerra entre russos e ucranianos enfraquece-se por causa de um ponto preliminar: quem morre na guerra são ucranianos e russos. A Europa decidiu guerrear a Rússia por procuração. Por isso não fica tão doído assim, para os europeus, defender que a guerra precisa se estender “até a vitória final”.
A memória histórica sempre tem alguma utilidade, daí a conveniência de lembrar que oito décadas atrás a Europa caiu como uma fileira de peças de dominó diante dos exércitos de Adolf Hitler, sendo ao final salva de si mesma pelas dezenas de milhões de mortos soviéticos e pelas tropas provenientes do outro lado do Oceano Atlântico.
Se não se deve subestimar a importância das guerrilhas europeias que resistiram ao nazismo, seria irrealista imaginar que a Europa teria dado sozinha conta do problema.
É verdade também que europeus e norte-americanos são sócios-fundadores do desastre contemporâneo no Donbass e em Kursk. Basta recapitular. Finda a Guerra Fria, o bloco atlantista tinha duas opções: absorver a Rússia numa "Europa ampliada”, com as devidas garantias de segurança, ou garrotear o urso ferido para arrancar dele tudo que fosse possível e reduzi-lo a colônia. Ou continuar seu desmembramento.
Como se isso fosse realista.
A crise ucraniana é produto, antes de tudo, da falta de prudência do Ocidente. Em 2014, bastava esperar a eleição em Kiev, pois a derrota do bloco pró-russo era bola cantada, e a Ucrânia entraria na União Europeia sem maiores traumas. Mas os estrategistas da Casa Branca e do Departamento de Estado, secundados pelas potências europeias, decidiram insuflar o golpe contra o impopular presidente Viktor Yanukovitch.
O resultado foi a secessão da Crimeia, que caiu nas mãos de Vladimir Putin como uma fruta madura cai do galho, e os movimentos secessionistas no Donbass. Aí Kiev entrou em guerra contra Donetsk e Lugansk e passou a bombardear sistematicamente a população civil dali, majoritariamente de origem russa. E todas as tentativas de resolver a pendenga na mesa de negociações pararam no desejo europeu de impor à Rússia uma derrota militar e política estratégica.
Aí Putin errou grosseiramente na análise da correlação de forças, achou que suas tropas seriam recebidas na Ucrânia como libertadoras, quando o nacionalismo ucraniano vinha de ser sistematicamente anabolizado desde a dissolução da URSS. Subestimou também a quedinha da Europa do Leste pelo sonho europeu. Esqueceu-se ainda de que, quando a Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, a Wehrmacht teve recepção de gala na Ucrânia ocidental, só vindo a enfrentar resistência quando se aproximou do leste ucraniano.
O resultado está à vista de todos. A Europa imagina ter força para evitar a absorção da Ucrânia pela Rússia, mas sabe faltarem-lhe recursos políticos, materiais e humanos para uma vitória decisiva. A Rússia, parece, já entendeu que o mesmo se dá do lado dela. Seria portanto uma hora boa para negociar a paz. O maior obstáculo é os políticos europeus terem prometido a seus povos que era possível impor uma derrota estratégica, sem aspas, a Moscou.
Outro obstáculo é que, na prática, a paz agora implica reconhecer conquistas territoriais de Putin e Zelensky na guerra. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos.
A memória histórica sempre tem alguma utilidade, daí a conveniência de lembrar que oito décadas atrás a Europa caiu como uma fileira de peças de dominó diante dos exércitos de Adolf Hitler, sendo ao final salva de si mesma pelas dezenas de milhões de mortos soviéticos e pelas tropas provenientes do outro lado do Oceano Atlântico.
Se não se deve subestimar a importância das guerrilhas europeias que resistiram ao nazismo, seria irrealista imaginar que a Europa teria dado sozinha conta do problema.
É verdade também que europeus e norte-americanos são sócios-fundadores do desastre contemporâneo no Donbass e em Kursk. Basta recapitular. Finda a Guerra Fria, o bloco atlantista tinha duas opções: absorver a Rússia numa "Europa ampliada”, com as devidas garantias de segurança, ou garrotear o urso ferido para arrancar dele tudo que fosse possível e reduzi-lo a colônia. Ou continuar seu desmembramento.
Como se isso fosse realista.
A crise ucraniana é produto, antes de tudo, da falta de prudência do Ocidente. Em 2014, bastava esperar a eleição em Kiev, pois a derrota do bloco pró-russo era bola cantada, e a Ucrânia entraria na União Europeia sem maiores traumas. Mas os estrategistas da Casa Branca e do Departamento de Estado, secundados pelas potências europeias, decidiram insuflar o golpe contra o impopular presidente Viktor Yanukovitch.
O resultado foi a secessão da Crimeia, que caiu nas mãos de Vladimir Putin como uma fruta madura cai do galho, e os movimentos secessionistas no Donbass. Aí Kiev entrou em guerra contra Donetsk e Lugansk e passou a bombardear sistematicamente a população civil dali, majoritariamente de origem russa. E todas as tentativas de resolver a pendenga na mesa de negociações pararam no desejo europeu de impor à Rússia uma derrota militar e política estratégica.
Aí Putin errou grosseiramente na análise da correlação de forças, achou que suas tropas seriam recebidas na Ucrânia como libertadoras, quando o nacionalismo ucraniano vinha de ser sistematicamente anabolizado desde a dissolução da URSS. Subestimou também a quedinha da Europa do Leste pelo sonho europeu. Esqueceu-se ainda de que, quando a Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, a Wehrmacht teve recepção de gala na Ucrânia ocidental, só vindo a enfrentar resistência quando se aproximou do leste ucraniano.
O resultado está à vista de todos. A Europa imagina ter força para evitar a absorção da Ucrânia pela Rússia, mas sabe faltarem-lhe recursos políticos, materiais e humanos para uma vitória decisiva. A Rússia, parece, já entendeu que o mesmo se dá do lado dela. Seria portanto uma hora boa para negociar a paz. O maior obstáculo é os políticos europeus terem prometido a seus povos que era possível impor uma derrota estratégica, sem aspas, a Moscou.
Outro obstáculo é que, na prática, a paz agora implica reconhecer conquistas territoriais de Putin e Zelensky na guerra. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos.
domingo, 27 de outubro de 2024
O peso do centrismo
O segundo turno das eleições municipais obedeceu a uma regra, excluídas as exceções que a
confirmam: ganhou quem conseguiu avançar sobre um certo centro político, da centro-direita à
centro-esquerda. Apesar de alguns insucessos, nesta rodada, de candidatos “do coração” do
ex-presidente Jair Bolsonaro, foi o PT quem mais sofreu com a dificuldade de atrair votos
centristas.
E o que esse peso do centrismo projeta para 2026? A mesma lógica: Os dois polos atraem a ampla maioria do eleitorado, mas, em situações de relativo equilíbrio, uma minoria de certa dimensão acaba tendo papel decisivo. Pois quem tem um piso eleitoral alto pode perfeitamente exibir um teto eleitoral insuficiente para atingir a maioria absoluta necessária para eleições majoritárias.
Em 2024, a direita exibe mais capacidade de atrair o contingente que pendula entre os campos ideológicos, diferentemente de 2022. Por algumas razões principais. Duas delas 1) não se pode alegar no cenário político maiores ameaças à institucionalidade; e 2) o governo federal não chega a cultivar a frente política que lhe deu a apertada vitória de dois anos atrás.
Algumas análises do primeiro turno creditaram a onda de vitórias do chamado centrão a um acesso privilegiado a recursos orçamentários provenientes das emendas parlamentares. Pode até ser uma explicação em municípios menores ou alguns médios em regiões mais dependentes de verba federal, mas é uma tese insuficiente na ampla maioria das cidades em que pode haver segundo turno.
Passada a eleição, as atenções voltam-se para o Congresso Nacional, em dois pontos: a pauta de votações e a sucessão nas mesas diretoras das duas casas. No primeiro, a curiosidade é se o governo vai ajustar a rota para algo mais centrista, ao olhar as derrotas eleitorais, ou se vai operar uma fuga para adiante, guinando à esquerda. Alguns sinais apontam na primeira direção.
Na troca de comando das mesas, o Senado parece momentaneamente pacificado em torno da recondução de Davi Alcolumbre (União-AP), mas a Câmara dos Deputados ainda apresenta algum grau de incerteza, mesmo que os ventos soprem a favor de Hugo Motta (Republicanos- PB). Resta saber qual será o desfecho das ambições dos demais pré-candidatos, se haverá consenso ou algum grau de disputa.
Parece improvável que, diante dos fracos resultados eleitorais, o governo deixe a eleição das mesas no Congresso enveredar para disputas que poderiam enfraquecê-lo e até, no limite, trazer para seu colo derrotas à semelhança da que o PT sofreu para Eduardo Cunha em 2015. Por mais que a ideologia possar falar alto, mais alto falará o instinto de sobrevivência de Luiz Inácio Lula da Silva e do partido.
E o que esse peso do centrismo projeta para 2026? A mesma lógica: Os dois polos atraem a ampla maioria do eleitorado, mas, em situações de relativo equilíbrio, uma minoria de certa dimensão acaba tendo papel decisivo. Pois quem tem um piso eleitoral alto pode perfeitamente exibir um teto eleitoral insuficiente para atingir a maioria absoluta necessária para eleições majoritárias.
Em 2024, a direita exibe mais capacidade de atrair o contingente que pendula entre os campos ideológicos, diferentemente de 2022. Por algumas razões principais. Duas delas 1) não se pode alegar no cenário político maiores ameaças à institucionalidade; e 2) o governo federal não chega a cultivar a frente política que lhe deu a apertada vitória de dois anos atrás.
Algumas análises do primeiro turno creditaram a onda de vitórias do chamado centrão a um acesso privilegiado a recursos orçamentários provenientes das emendas parlamentares. Pode até ser uma explicação em municípios menores ou alguns médios em regiões mais dependentes de verba federal, mas é uma tese insuficiente na ampla maioria das cidades em que pode haver segundo turno.
Passada a eleição, as atenções voltam-se para o Congresso Nacional, em dois pontos: a pauta de votações e a sucessão nas mesas diretoras das duas casas. No primeiro, a curiosidade é se o governo vai ajustar a rota para algo mais centrista, ao olhar as derrotas eleitorais, ou se vai operar uma fuga para adiante, guinando à esquerda. Alguns sinais apontam na primeira direção.
Na troca de comando das mesas, o Senado parece momentaneamente pacificado em torno da recondução de Davi Alcolumbre (União-AP), mas a Câmara dos Deputados ainda apresenta algum grau de incerteza, mesmo que os ventos soprem a favor de Hugo Motta (Republicanos- PB). Resta saber qual será o desfecho das ambições dos demais pré-candidatos, se haverá consenso ou algum grau de disputa.
Parece improvável que, diante dos fracos resultados eleitorais, o governo deixe a eleição das mesas no Congresso enveredar para disputas que poderiam enfraquecê-lo e até, no limite, trazer para seu colo derrotas à semelhança da que o PT sofreu para Eduardo Cunha em 2015. Por mais que a ideologia possar falar alto, mais alto falará o instinto de sobrevivência de Luiz Inácio Lula da Silva e do partido.
sexta-feira, 23 de agosto de 2024
Uma janela para Boulos
A semana trouxe novidades nas pesquisas públicas da eleição paulistana, tendências que já vinham detectadas nos trackings reservados. As principais mudanças não estão nos números, são políticas. Em resumo, o ensaio de guerra civil no bolsonarismo oferece ao campo petista-psolista a possibilidade de, por enquanto, jogar parado e concentrar-se em reduzir a rejeição de seu candidato à Prefeitura de São Paulo.
O principal problema de Guilherme Boulos (PSOL) não está no primeiro turno, pois é improvável que alguém roube dele fatia substancial dos votos de seu campo.
O desafio está nas simulações de segundo turno, em que invariavelmente aparece bem atrás do prefeito Ricardo Nunes (MDB). A ida de Pablo Marçal (PRTB) à decisão ofereceria ao psolista uma narrativa mais verossímil na tentativa de reeditar a “frente ampla” que fez Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad chegarem na frente, respectivamente, de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas na capital paulista dois anos atrás.
Pois é óbvio ser bem mais viável carimbar Marçal como “bolsonarista” do que fazer isso com Nunes, até porque o prefeito não oferece características para classificá-lo com qualquer viés político-ideológico.
A conturbação no campo da direita paulistana tem algumas raízes no estilo de liderança de Bolsonaro, algo caótica e inclemente. Isso deixou nos últimos seis anos um rastro de ressentimentos e diversos quadros feridos pelo caminho, que agora veem a oportunidade de voltar a ocupar espaço no afeto político do capitão reformado, guerreando contra a turma hoje prestigiada. Mas a janela não se abriria sozinha sem povo, daí a importância de Marçal.
Até ontem, quem se recusava em algum momento a seguir fielmente alguma diretriz bolsonarista acabava sem oxigênio político, pois os votos eram do próprio Bolsonaro, e de mais ninguém. Veremos se Marçal consegue romper a maldição. E ele está se esforçando para fugir de ser caracterizado como traidor, carimbo que amputou promissoras carreiras políticas na direita pós-2018.
Marçal não teria ambiente para fazer o que faz, na escala em que faz, não fosse por dois outros elementos da conjuntura.
O primeiro é um crescente incômodo popular com o universo paralelo brasiliense, em que os atores se movimentam como se não devessem explicações a ninguém e como se não houvesse amanhã. Isso vai reavivando as brasas da antipolítica, que um dia já se chamou “nova política”, mas vai se convertendo em rejeição da política em geral, dado que esta parece estar, de ponta a ponta, 100% abduzida pelo establishment.
Esse vetor acaba potencializando outro, o maximalismo de uma base social de direita, que se parece em algum grau com a esquerda lá atrás, quando esta imaginava ter um bilhete sem escalas ao ponto final de seu projeto. As agruras da vida domesticaram a esquerda, que aprendeu a suportar as paradas, mesmo rangendo os dentes, mas sempre de olho no destino sonhado.
A massa de direita ainda vive num estágio espiritual anterior.
O principal problema de Guilherme Boulos (PSOL) não está no primeiro turno, pois é improvável que alguém roube dele fatia substancial dos votos de seu campo.
O desafio está nas simulações de segundo turno, em que invariavelmente aparece bem atrás do prefeito Ricardo Nunes (MDB). A ida de Pablo Marçal (PRTB) à decisão ofereceria ao psolista uma narrativa mais verossímil na tentativa de reeditar a “frente ampla” que fez Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad chegarem na frente, respectivamente, de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas na capital paulista dois anos atrás.
Pois é óbvio ser bem mais viável carimbar Marçal como “bolsonarista” do que fazer isso com Nunes, até porque o prefeito não oferece características para classificá-lo com qualquer viés político-ideológico.
A conturbação no campo da direita paulistana tem algumas raízes no estilo de liderança de Bolsonaro, algo caótica e inclemente. Isso deixou nos últimos seis anos um rastro de ressentimentos e diversos quadros feridos pelo caminho, que agora veem a oportunidade de voltar a ocupar espaço no afeto político do capitão reformado, guerreando contra a turma hoje prestigiada. Mas a janela não se abriria sozinha sem povo, daí a importância de Marçal.
Até ontem, quem se recusava em algum momento a seguir fielmente alguma diretriz bolsonarista acabava sem oxigênio político, pois os votos eram do próprio Bolsonaro, e de mais ninguém. Veremos se Marçal consegue romper a maldição. E ele está se esforçando para fugir de ser caracterizado como traidor, carimbo que amputou promissoras carreiras políticas na direita pós-2018.
Marçal não teria ambiente para fazer o que faz, na escala em que faz, não fosse por dois outros elementos da conjuntura.
O primeiro é um crescente incômodo popular com o universo paralelo brasiliense, em que os atores se movimentam como se não devessem explicações a ninguém e como se não houvesse amanhã. Isso vai reavivando as brasas da antipolítica, que um dia já se chamou “nova política”, mas vai se convertendo em rejeição da política em geral, dado que esta parece estar, de ponta a ponta, 100% abduzida pelo establishment.
Esse vetor acaba potencializando outro, o maximalismo de uma base social de direita, que se parece em algum grau com a esquerda lá atrás, quando esta imaginava ter um bilhete sem escalas ao ponto final de seu projeto. As agruras da vida domesticaram a esquerda, que aprendeu a suportar as paradas, mesmo rangendo os dentes, mas sempre de olho no destino sonhado.
A massa de direita ainda vive num estágio espiritual anterior.
sexta-feira, 16 de agosto de 2024
As emendas da discórdia
O que a disputa em torno das emendas parlamentares, agudizada esta semana, não é? Não é uma pendenga 1)
entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal; ou 2) entre a irracionalidade e a racionalidade nas decisões de investimento com recursos do Orçamento; ou 3) entre a pulverização improdutiva e o
direcionamento estratégico dos investimentos; ou 4) entre o enfraquecimento e o fortalecimento da
capacidade de investir do governo.
O que ela é, então? Basicamente, uma batalha da guerra entre o Executivo e o Legislativo em torno de apenas um objetivo: reduzir ou aumentar a independência dos parlamentares diante do presidente da República. O que toma maior importância quando a eleição produz, como agora, o claro desalinhamento de orientações político-ideológicas entre o chefe do Palácio do Planalto e as maiorias da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
Se o Brasil, o governo ou o STF estivessem mesmo preocupados com o engessamento orçamentário e a pouca racionalidade na destinação dos recursos públicos, notar-se-ia um movimento para reduzir as vinculações orçamentárias. Até porque as emendas parlamentares são uma fração menor do gasto público, apesar de se terem tornado parte cada vez mais significativa do que se pode investir discricionariamente.
O problema é outro: dado que o sistema eleitoral brasileiro está organizado para impedir o presidente eleito de levar com ele a Brasília uma maioria parlamentar própria, restam ao vencedor três mecanismos principais para disciplinar o Legislativo: 1) a Justiça/polícia; 2) a distribuição de cargos; e 3) as emendas parlamentares. O primeiro ativo serve para coerção, e, como ninguém governa só com base nisso, os outros dois ajudam a construir algum consenso.
Seria porém complicado demais para qualquer governante lotear o grosso dos cargos entre seus adversários político-ideológicos, até pelo risco de eles o engolirem lá na frente. Resta, como arma disponível mais eficaz, a distribuição de dinheiro às bases dos parlamentares. Em resumo, se você vota comigo, você tem mais recursos para distribuir aos seus prefeitos. Se preferir fazer oposição, infelizmente terei de prestigiar seus adversários na base eleitoral.
Só que o fio dessa espada do Planalto anda cada vez mais cego, pelo avanço dos mecanismos impositivos no pagamento das emendas parlamentares. Traduzindo, uma parcela cada vez mais expressiva das emendas é de execução obrigatória. Aí o parlamentar eleito em oposição a Luiz Inácio Lula da Silva fica mais livre para não acompanhar o governo nas votações. E corre menos risco de desgaste na base e de ver surgir concorrência à direita quando tentar se reeleger.
E um detalhe curioso: dependendo do governo de turno, o leitor poderá observar interessantes pendulações na opinião pública. Os que num dia criticam o uso das emendas parlamentares por “comprar” deputados e senadores no outro criticam o Congresso Nacional por ampliar a execução obrigatória, e assim “retirar do presidente da República a capacidade de governar”. E vice-versa.
O que ela é, então? Basicamente, uma batalha da guerra entre o Executivo e o Legislativo em torno de apenas um objetivo: reduzir ou aumentar a independência dos parlamentares diante do presidente da República. O que toma maior importância quando a eleição produz, como agora, o claro desalinhamento de orientações político-ideológicas entre o chefe do Palácio do Planalto e as maiorias da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
Se o Brasil, o governo ou o STF estivessem mesmo preocupados com o engessamento orçamentário e a pouca racionalidade na destinação dos recursos públicos, notar-se-ia um movimento para reduzir as vinculações orçamentárias. Até porque as emendas parlamentares são uma fração menor do gasto público, apesar de se terem tornado parte cada vez mais significativa do que se pode investir discricionariamente.
O problema é outro: dado que o sistema eleitoral brasileiro está organizado para impedir o presidente eleito de levar com ele a Brasília uma maioria parlamentar própria, restam ao vencedor três mecanismos principais para disciplinar o Legislativo: 1) a Justiça/polícia; 2) a distribuição de cargos; e 3) as emendas parlamentares. O primeiro ativo serve para coerção, e, como ninguém governa só com base nisso, os outros dois ajudam a construir algum consenso.
Seria porém complicado demais para qualquer governante lotear o grosso dos cargos entre seus adversários político-ideológicos, até pelo risco de eles o engolirem lá na frente. Resta, como arma disponível mais eficaz, a distribuição de dinheiro às bases dos parlamentares. Em resumo, se você vota comigo, você tem mais recursos para distribuir aos seus prefeitos. Se preferir fazer oposição, infelizmente terei de prestigiar seus adversários na base eleitoral.
Só que o fio dessa espada do Planalto anda cada vez mais cego, pelo avanço dos mecanismos impositivos no pagamento das emendas parlamentares. Traduzindo, uma parcela cada vez mais expressiva das emendas é de execução obrigatória. Aí o parlamentar eleito em oposição a Luiz Inácio Lula da Silva fica mais livre para não acompanhar o governo nas votações. E corre menos risco de desgaste na base e de ver surgir concorrência à direita quando tentar se reeleger.
E um detalhe curioso: dependendo do governo de turno, o leitor poderá observar interessantes pendulações na opinião pública. Os que num dia criticam o uso das emendas parlamentares por “comprar” deputados e senadores no outro criticam o Congresso Nacional por ampliar a execução obrigatória, e assim “retirar do presidente da República a capacidade de governar”. E vice-versa.
sexta-feira, 9 de agosto de 2024
“Cleaners” de Tarantino no teatro da política
Para candidatos a posar de mediador, o enrosco venezuelano apresenta alto grau de dificuldade no momento, pois a barreira entre as posições ainda é intransponível. A divergência central é sobre quem fica no poder. De um lado, a oposição tem até agora todos os elementos para informar que venceu na urna por larga margem. Do outro, o governo mantém o controle da autoridade eleitoral e, aparentemente, da força armada.
O objetivo de organizar uma transição pacífica em Caracas não é, por enquanto, uma meta intermediária entre os desejos das partes. O governo declara-se vencedor e busca musculatura militar para impor os números anunciados por sua fiel entidade eleitoral. Há também o complicador de a situação atual já ter sido fruto de uma negociação, e seu desfecho pouco ou nada acrescenta à credibilidade de uma nova rodada de entendimento.
Enquanto isso, segue o pingue-pongue sobre legitimidades. Chama atenção o argumento de respeitar a soberania da Venezuela, os países reconhecerem o governo de fato sem se imiscuir nos assuntos internos dali. Seria um argumento, não fosse pelo detalhe incômodo de ter sido ignorado lá atrás quando um dia o então governo petista usou contra o Paraguai a mesma lógica dos hoje adversários do petismo no imbroglio venezuelano.
Em 2012, o presidente paraguaio, Fernando Lugo, alinhado à esquerda, sofreu um impeachment-relâmpago heterodoxo, ainda que sustentado na letra da Constituição. A oposição aqui ao então governo petista exigiu respeitar a soberania do vizinho, mas a administração Dilma Rousseff enxergou a janela de oportunidade para incorporar a Venezuela ao Mercosul, o que vinha sendo bloqueado pelo Congresso em Assunção, de viés conservador.
O objetivo de organizar uma transição pacífica em Caracas não é, por enquanto, uma meta intermediária entre os desejos das partes. O governo declara-se vencedor e busca musculatura militar para impor os números anunciados por sua fiel entidade eleitoral. Há também o complicador de a situação atual já ter sido fruto de uma negociação, e seu desfecho pouco ou nada acrescenta à credibilidade de uma nova rodada de entendimento.
Enquanto isso, segue o pingue-pongue sobre legitimidades. Chama atenção o argumento de respeitar a soberania da Venezuela, os países reconhecerem o governo de fato sem se imiscuir nos assuntos internos dali. Seria um argumento, não fosse pelo detalhe incômodo de ter sido ignorado lá atrás quando um dia o então governo petista usou contra o Paraguai a mesma lógica dos hoje adversários do petismo no imbroglio venezuelano.
Em 2012, o presidente paraguaio, Fernando Lugo, alinhado à esquerda, sofreu um impeachment-relâmpago heterodoxo, ainda que sustentado na letra da Constituição. A oposição aqui ao então governo petista exigiu respeitar a soberania do vizinho, mas a administração Dilma Rousseff enxergou a janela de oportunidade para incorporar a Venezuela ao Mercosul, o que vinha sendo bloqueado pelo Congresso em Assunção, de viés conservador.
A soberania paraguaia foi deixada de lado pelo Mercosul, o Paraguai foi suspenso e os demais introduziram Caracas no bloco, num “gol de mão". Depois os paraguaios voltaram ao grupo, mas o objetivo já fora atingido.
Harvey Keitel interpreta o sujeito que chega para limpar e dar sumiço na sujeira sanguinolenta produto de um homicídio cometido dentro de um carro. A frieza, objetividade e competência do “The Wolf” entraram para a história do cinema.
Os ovos já tinham virado omelete.
Aí chegou o ano da graça de 2016, e um momentâneo consenso subcontinental de governos à direita suspendeu a Venezuela, situação que persiste.
Fica a lição sobre a ingenuidade de levar excessivamente a sério as argumentações baseadas em doutrinas e princípios. Nas relações entre países, e em outras esferas da política, o argumento que costuma prevalecer é a força. Resta aos ideólogos e propagandistas tentar copiar o inesquecível Winston Wolfe, “The Cleaner” (limpador, ou faxineiro) no Pulp Fiction (1994) de Quentin Tarantino.
Aí chegou o ano da graça de 2016, e um momentâneo consenso subcontinental de governos à direita suspendeu a Venezuela, situação que persiste.
Fica a lição sobre a ingenuidade de levar excessivamente a sério as argumentações baseadas em doutrinas e princípios. Nas relações entre países, e em outras esferas da política, o argumento que costuma prevalecer é a força. Resta aos ideólogos e propagandistas tentar copiar o inesquecível Winston Wolfe, “The Cleaner” (limpador, ou faxineiro) no Pulp Fiction (1994) de Quentin Tarantino.
Harvey Keitel interpreta o sujeito que chega para limpar e dar sumiço na sujeira sanguinolenta produto de um homicídio cometido dentro de um carro. A frieza, objetividade e competência do “The Wolf” entraram para a história do cinema.
*
Por falar em teatro na política, e só para retomar um assunto inconcluso, segue o mistério. Luiz Inácio Lula da Silva e o PT descem a ripa em Roberto Campos Neto, mas os diretores do Banco Central nomeados pelo atual governo, incluído o suposto favorito para assumir a presidência do BC, votam alinhados com o presidente do banco.
sábado, 3 de agosto de 2024
Enrosco venezuelano
O impasse em torno da eleição na Venezuela aprisionou a política exterior brasileira na
contradição que esta corteja há tempos: qual a prioridade do Brasil no âmbito regional, expandir
a hegemonia político-ideológica do campo alinhado ao petismo ou consolidar a liderança brasileira
numa região que pendula, mas exibe um pluralismo bastante resiliente?
O dilema jogou um papel relevante na crise que tragou o PT na Operação Lava- Jato. Mas isso é passado, é história.
Sobre a disputa venezuelana, Luiz Inácio Lula da Silva vê-se diante de problemas intrincados.
Cabe ao governo de Caracas provar que ganhou mesmo a eleição, mas os dados das atas de urna jogam contra. E o governo dos Estados Unidos reconheceu a vitória da oposição. Seguir o caminho oposto levará o Brasil a um confronto aberto com Washington.
O que não seria tão complicado se Donald Trump estivesse na Casa Branca, porém Lula tem uma fatura aberta com Joe Biden por causa do apoio recebido em 2022 e no início de 2023, quando Jair Bolsonaro contestou a vitória do petista.
E Lula ambiciona voltar a um certo protagonismo global desfrutado nos primeiros mandatos. Aí precisa equilibrar-se entre 1) cortejar o campo político liderado por China e Rússia (para o que contribui sua inclinação estratégica pelo Irã na disputa de hegemonia no Oriente Médio); e 2) preservar o bom trânsito no campo atlantista.
De olho no segundo objetivo, o presidente brasileiro dispõe de três boas cartas na manga: a COP 30, o acordo Mercosul-União Europeia e a liderança regional.
A primeira vai melhor do que o segundo, mas a expectativa europeia de abocanhar o mercado brasileiro e sul-americano em troca apenas de arrochar um pouco seus próprios agricultores pode amortecer eventuais dissonâncias.
Só que tem também o terceiro ponto.
Lula não é um principiante na arte do equilibrismo, mas pequenas aporrinhações de vez em quando atrapalham.
O governo brasileiro conviveria sem maiores problemas com a Venezuela governada pela centro-direita, especialmente se Brasília tivesse um papel na estabilização política em Caracas. Mas, e as íntimas relações históricas com o chavismo? Daí, aparentemente, o Planalto ter adotado a linha de deixar o assunto resolver-se por si só.
Ainda que tudo seja provisório numa conjuntura tão instável.
Dias atrás Biden trocou umas ideias com Lula sobre o enrosco, pouco antes de o Departamento de Estado reconhecer que a oposição venezuelana ganhou no voto. É improvável que o americano não tenha avisado o brasileiro das suas intenções. Tampouco é provável que não se tenham acertado em algum grau.
Afinal, um dos papéis que Washington reserva a Lula é tomar conta da área. O Brasil, a Colômbia e o México ajudaram a derrotar na Organização dos Estados Americanos a demanda para que o governo da Venezuela apresente as atas de urna que comprovem sua declarada vitória, mas logo depois soltaram um comunicado pedindo exatamente a mesma coisa.
O dilema jogou um papel relevante na crise que tragou o PT na Operação Lava- Jato. Mas isso é passado, é história.
Sobre a disputa venezuelana, Luiz Inácio Lula da Silva vê-se diante de problemas intrincados.
Cabe ao governo de Caracas provar que ganhou mesmo a eleição, mas os dados das atas de urna jogam contra. E o governo dos Estados Unidos reconheceu a vitória da oposição. Seguir o caminho oposto levará o Brasil a um confronto aberto com Washington.
O que não seria tão complicado se Donald Trump estivesse na Casa Branca, porém Lula tem uma fatura aberta com Joe Biden por causa do apoio recebido em 2022 e no início de 2023, quando Jair Bolsonaro contestou a vitória do petista.
E Lula ambiciona voltar a um certo protagonismo global desfrutado nos primeiros mandatos. Aí precisa equilibrar-se entre 1) cortejar o campo político liderado por China e Rússia (para o que contribui sua inclinação estratégica pelo Irã na disputa de hegemonia no Oriente Médio); e 2) preservar o bom trânsito no campo atlantista.
De olho no segundo objetivo, o presidente brasileiro dispõe de três boas cartas na manga: a COP 30, o acordo Mercosul-União Europeia e a liderança regional.
A primeira vai melhor do que o segundo, mas a expectativa europeia de abocanhar o mercado brasileiro e sul-americano em troca apenas de arrochar um pouco seus próprios agricultores pode amortecer eventuais dissonâncias.
Só que tem também o terceiro ponto.
Lula não é um principiante na arte do equilibrismo, mas pequenas aporrinhações de vez em quando atrapalham.
O governo brasileiro conviveria sem maiores problemas com a Venezuela governada pela centro-direita, especialmente se Brasília tivesse um papel na estabilização política em Caracas. Mas, e as íntimas relações históricas com o chavismo? Daí, aparentemente, o Planalto ter adotado a linha de deixar o assunto resolver-se por si só.
Ainda que tudo seja provisório numa conjuntura tão instável.
Dias atrás Biden trocou umas ideias com Lula sobre o enrosco, pouco antes de o Departamento de Estado reconhecer que a oposição venezuelana ganhou no voto. É improvável que o americano não tenha avisado o brasileiro das suas intenções. Tampouco é provável que não se tenham acertado em algum grau.
Afinal, um dos papéis que Washington reserva a Lula é tomar conta da área. O Brasil, a Colômbia e o México ajudaram a derrotar na Organização dos Estados Americanos a demanda para que o governo da Venezuela apresente as atas de urna que comprovem sua declarada vitória, mas logo depois soltaram um comunicado pedindo exatamente a mesma coisa.
sexta-feira, 26 de julho de 2024
As voltas da História e o rei nu
A troca palaciana forçada de Joe Biden por Kamala Harris na chapa situacionista para as eleições presidenciais norte-americanas oferece a oportunidade de comparações na História.
Uma referência possível é 1968, quando, no auge na onda de mobilizações desencadeadas pelo Maio parisiense, pelos protestos contra a Guerra do Vietnã e pelo prestígio das revoluções armadas, o Partido Democrata do liberal (ali isso significa esquerda) Hubert Horatio Humphrey Jr foi derrotado pelos republicanos de Richard Milhous Nixon.
Para refinar ainda mais os paralelismos, Humphrey era vice do incumbente, Lyndon Johnson, que desistira de concorrer precisamente por causa do desgaste trazido pela guerra no Sudeste Asiático. Dizem que a desistência foi apenas uma manobra e que Johnson imaginava retomar gloriosamente a indicação apresentando-se na hora "h" como a única alternativa ao caos entre os democratas.
Dizem também que ele foi demovido da ideia depois que o Serviço Secreto não lhe garantiu as necessárias condições de segurança para comparecer à conflagrada convenção partidária.
O ambiente agora entre os democratas parece bem mais pacificado, mas a disputa com o campo oposto será algo parecida, até por alguma semelhança reputacional entre Nixon e o atual desafiante republicano. Quem vai levar? O liberalismo cosmopolita de Kamala Harris ou o conservadorismo patriótico de Donald Trump?
Se a comparação mais imediata é com 1968, vale também dar uma olhada no que aconteceu quatro anos depois, quando o conflito vietnamita já caminhava para uma derrota calamitosa dos americanos e apareciam as primeiras sombras de Watergate. Mesmo assim, Nixon conseguiu a reeleição vencendo o democrata ultraliberal George Stanley McGovern em todos os estados, com exceção de Massachusetts e da capital (DC). Um landslide.
Claro que nestes nossos tempos acelerados meio século faz diferença, e os EUA hoje não são uma cópia do país de então. Estamos, como o culto a certa modernidade gosta de ressaltar, "em pleno século 21". De todo jeito, a disputa será uma medida de quanto os Estados Unidos mudaram ou continuam iguais.
Vale observar e verificar se Kamala Harris conseguirá agrupar a aliança social que deu vitórias recentes aos democratas, juntando uma base trabalhadora-sindical tradicionalista e o “wokismo” de elites liberais, financeiras e intelectuais. Ou se o radicalismo pretensamente modernizante empurrará, como em 2016, uma fração decisiva do antigo operariado para favorecer Trump em estados-chave pendulares.
Não à toa a demografia ali ganha terreno sobre a marquetagem. Isso muito se deve ao protagonismo dos resultados eleitorais estaduais naquele país, algo particularíssimo. Mas os grandes movimentos do eleitorado americano não refletem uma realidade apenas local. A Europa que o diga.
Ainda sobre a troca de candidatos no Partido Democrata, é relevante que a fragilidade mental de Biden para governar só tenha sido admitida por seu campo político depois de escancarada no primeiro debate.
Um típico caso de “o rei estava nu”, para recorrer ao clássico sobre a roupa nova do monarca. Um exemplo paradigmático de como ter lado (e todo mundo tem um) acaba limitando a capacidade de o jornalismo cumprir sua primeira missão: contar o que realmente acontece.
O Poder360 fez uma matéria interessante sobre isso.
E restará para sempre a dúvida se a agora ex-campanha de Biden não era só uma operação política para eleger Kamala sem ela precisar disputar no voto.
Uma referência possível é 1968, quando, no auge na onda de mobilizações desencadeadas pelo Maio parisiense, pelos protestos contra a Guerra do Vietnã e pelo prestígio das revoluções armadas, o Partido Democrata do liberal (ali isso significa esquerda) Hubert Horatio Humphrey Jr foi derrotado pelos republicanos de Richard Milhous Nixon.
Para refinar ainda mais os paralelismos, Humphrey era vice do incumbente, Lyndon Johnson, que desistira de concorrer precisamente por causa do desgaste trazido pela guerra no Sudeste Asiático. Dizem que a desistência foi apenas uma manobra e que Johnson imaginava retomar gloriosamente a indicação apresentando-se na hora "h" como a única alternativa ao caos entre os democratas.
Dizem também que ele foi demovido da ideia depois que o Serviço Secreto não lhe garantiu as necessárias condições de segurança para comparecer à conflagrada convenção partidária.
O ambiente agora entre os democratas parece bem mais pacificado, mas a disputa com o campo oposto será algo parecida, até por alguma semelhança reputacional entre Nixon e o atual desafiante republicano. Quem vai levar? O liberalismo cosmopolita de Kamala Harris ou o conservadorismo patriótico de Donald Trump?
Se a comparação mais imediata é com 1968, vale também dar uma olhada no que aconteceu quatro anos depois, quando o conflito vietnamita já caminhava para uma derrota calamitosa dos americanos e apareciam as primeiras sombras de Watergate. Mesmo assim, Nixon conseguiu a reeleição vencendo o democrata ultraliberal George Stanley McGovern em todos os estados, com exceção de Massachusetts e da capital (DC). Um landslide.
Claro que nestes nossos tempos acelerados meio século faz diferença, e os EUA hoje não são uma cópia do país de então. Estamos, como o culto a certa modernidade gosta de ressaltar, "em pleno século 21". De todo jeito, a disputa será uma medida de quanto os Estados Unidos mudaram ou continuam iguais.
Vale observar e verificar se Kamala Harris conseguirá agrupar a aliança social que deu vitórias recentes aos democratas, juntando uma base trabalhadora-sindical tradicionalista e o “wokismo” de elites liberais, financeiras e intelectuais. Ou se o radicalismo pretensamente modernizante empurrará, como em 2016, uma fração decisiva do antigo operariado para favorecer Trump em estados-chave pendulares.
Não à toa a demografia ali ganha terreno sobre a marquetagem. Isso muito se deve ao protagonismo dos resultados eleitorais estaduais naquele país, algo particularíssimo. Mas os grandes movimentos do eleitorado americano não refletem uma realidade apenas local. A Europa que o diga.
*
Ainda sobre a troca de candidatos no Partido Democrata, é relevante que a fragilidade mental de Biden para governar só tenha sido admitida por seu campo político depois de escancarada no primeiro debate.
Um típico caso de “o rei estava nu”, para recorrer ao clássico sobre a roupa nova do monarca. Um exemplo paradigmático de como ter lado (e todo mundo tem um) acaba limitando a capacidade de o jornalismo cumprir sua primeira missão: contar o que realmente acontece.
O Poder360 fez uma matéria interessante sobre isso.
E restará para sempre a dúvida se a agora ex-campanha de Biden não era só uma operação política para eleger Kamala sem ela precisar disputar no voto.
sábado, 22 de junho de 2024
Uma briga combinada?
As orientações políticas e econômicas no Brasil parecem presas, há décadas, num labirinto de contradições, sem chance de encontrar a rota de saída. Daí o país viver eternamente seu Dia da Marmota, seu “Groundhog Day”, o também eterno clássico de 1993 com Bill Murray e Andie McDowell. Com uma diferença: o filme tem um desfecho.
A Constituição de 1988 apresenta-se, e é apresentada, como o esteio da nossa dita democracia, mas todo presidente que entra traz como primeira iniciativa mudar a Constituição. O texto caminha para as quatro décadas de vida, mas não se passou um dia desde então sem que o debate econômico girasse também em torno da necessidade de mexer profundamente nele.
Fora da economia, há bem menos iniciativas por mudar a Carta produzida pela última Constituinte, mas a vida, como o rio diante de uma barreira, acaba encontrando seus caminhos. Um deles é a metamorfose informal do Supremo Tribunal Federal (STF) em corte Constituinte, em vez de Corte constitucional, a pretexto de interpretar e atualizar o escrito. Coisas do Brasil.
A obra dos constituintes legou-nos também a combinação genial (ironia) entre 1) o Pacote de Abril de 1977; 2) um generoso pluripartidarismo; 3) o voto proporcional em lista aberta; e 4) eleições presidenciais em dois turnos. O resultado prático? Nenhum presidente consegue eleger com si mesmo uma maioria parlamentar.
Repare o leitor que todo governo brasileiro atravessa o mandato enroscado com dois problemas: as "inadiáveis reformas" (a do momento é a tributária, mas já, já vem aí de novo a previdenciária) e os meandros de uma articulação política paralisante. E todo governo aceita essa ordem de prioridades como fato determinado.
Mais ou menos como a turma presa dentro da mansão em outro clássico, “O Anjo Exterminador” (1962), de Luis Buñuel (o final não deixa de apontar dicas de saídas para o impasse brasileiro). E qual o resultado da relativa impotência? Acelerar a tendência contemporânea de as narrativas ocuparem completamente o lugar das ações na alimentação das percepções.
Sobre este último aspecto, é interessante notar que já são alguns dias desde a retomada, em outro patamar, da refrega entre os presidentes da República e do Banco Central, sem que uma dúvida preliminar se esclareça. Por que os indicados de Luiz Inácio Lula da Silva votaram com Roberto Campos Neto para interromper a sequência de quedas da taxa básica de juros?
Bem, ou 1) era isso mesmo que, tecnicamente, tinha de ser feito para evitar a corrosão acelerada da moeda, que seria politicamente fatal para o governo; ou 2) os nomeados por Lula capitularam diante dos neoliberais e das pressões do mercado. No segundo caso, esperava-se que a bancada do atual governo no BC entrasse na linha de tiro do oficialismo. Mas não. Só quem apanha é o presidente do banco.
E as personalidades governamentais que mantêm abertos os vasos comunicantes com a banca sustentam, com seu silêncio, as posições da autoridade monetária. Resta ao observador suspeitar que, na impossibilidade de sair do labirinto, estamos diante de mais uma cena do permanente teatro da política brasileira.
Uns falam para as bases, outros para o dinheiro. No final, o poder se protege de todos os lados.
É uma hipótese a demonstrar, mas que seria coerente com a velha máxima atribuída ao chefe da Constituinte de 1987-88, Ulysses Guimarães. Ele dizia que em Brasília até a briga é combinada.
A Constituição de 1988 apresenta-se, e é apresentada, como o esteio da nossa dita democracia, mas todo presidente que entra traz como primeira iniciativa mudar a Constituição. O texto caminha para as quatro décadas de vida, mas não se passou um dia desde então sem que o debate econômico girasse também em torno da necessidade de mexer profundamente nele.
Fora da economia, há bem menos iniciativas por mudar a Carta produzida pela última Constituinte, mas a vida, como o rio diante de uma barreira, acaba encontrando seus caminhos. Um deles é a metamorfose informal do Supremo Tribunal Federal (STF) em corte Constituinte, em vez de Corte constitucional, a pretexto de interpretar e atualizar o escrito. Coisas do Brasil.
A obra dos constituintes legou-nos também a combinação genial (ironia) entre 1) o Pacote de Abril de 1977; 2) um generoso pluripartidarismo; 3) o voto proporcional em lista aberta; e 4) eleições presidenciais em dois turnos. O resultado prático? Nenhum presidente consegue eleger com si mesmo uma maioria parlamentar.
Repare o leitor que todo governo brasileiro atravessa o mandato enroscado com dois problemas: as "inadiáveis reformas" (a do momento é a tributária, mas já, já vem aí de novo a previdenciária) e os meandros de uma articulação política paralisante. E todo governo aceita essa ordem de prioridades como fato determinado.
Mais ou menos como a turma presa dentro da mansão em outro clássico, “O Anjo Exterminador” (1962), de Luis Buñuel (o final não deixa de apontar dicas de saídas para o impasse brasileiro). E qual o resultado da relativa impotência? Acelerar a tendência contemporânea de as narrativas ocuparem completamente o lugar das ações na alimentação das percepções.
Sobre este último aspecto, é interessante notar que já são alguns dias desde a retomada, em outro patamar, da refrega entre os presidentes da República e do Banco Central, sem que uma dúvida preliminar se esclareça. Por que os indicados de Luiz Inácio Lula da Silva votaram com Roberto Campos Neto para interromper a sequência de quedas da taxa básica de juros?
Bem, ou 1) era isso mesmo que, tecnicamente, tinha de ser feito para evitar a corrosão acelerada da moeda, que seria politicamente fatal para o governo; ou 2) os nomeados por Lula capitularam diante dos neoliberais e das pressões do mercado. No segundo caso, esperava-se que a bancada do atual governo no BC entrasse na linha de tiro do oficialismo. Mas não. Só quem apanha é o presidente do banco.
E as personalidades governamentais que mantêm abertos os vasos comunicantes com a banca sustentam, com seu silêncio, as posições da autoridade monetária. Resta ao observador suspeitar que, na impossibilidade de sair do labirinto, estamos diante de mais uma cena do permanente teatro da política brasileira.
Uns falam para as bases, outros para o dinheiro. No final, o poder se protege de todos os lados.
É uma hipótese a demonstrar, mas que seria coerente com a velha máxima atribuída ao chefe da Constituinte de 1987-88, Ulysses Guimarães. Ele dizia que em Brasília até a briga é combinada.
*
Em férias. Até a volta.
sábado, 8 de junho de 2024
Lentes que não servem mais
É bem conhecido o princípio, de autoria célebre, sobre a pouca racionalidade em repetir sempre os mesmos procedimentos e esperar que deem resultados distintos dos habituais. Talvez seja útil para compreender os possíveis caminhos de solução do enigma político-marquetológico do momento: por que o governo amealha na popularidade pouco ou nada dos resultados econômicos favoráveis?
Já se abordaram nesta análise rotineira razões de caráter subjetivo. Podem ser resumidas no desconforto progressivo que o governo constrói para si na população que resiste à reforma comportamental-moral-doutrinária da sociedade a partir do Estado. Têm também raízes num certo ambiente opressivo sentido pelos que não se alinham 100% ao oficialismo.
Afinal, a variável a sempre medir neste particular é menos a sensação de liberdade de quem apoia o governo, e mais a de quem em graus distinto se opõe a ele.
Como aspectos subjetivos nunca devem bastar na análise de dificuldades político-comunicacionais, é preciso dissecar a economia política, a “anatomia da sociedade civil”, segundo a terminologia clássica. Vale a pena olhar para dois pontos sensíveis: 1) a receita do governo para combinar doses de disciplina fiscal e expansão de gastos e 2) uma certa incapacidade de o PT compreender o país que ajudou a construir desde 2003.
No primeiro, a resultante dos dois vetores são mais impostos. Ou novos ou produto da engorda dos existentes. Isso afeta não apenas os atingidos, mas também os ainda não atingidos, mas temerosos de serem alguma hora. E há uma diferença entre as amplitudes e velocidades do mal-estar provocado pelo furor arrecadatório e as dos benefícios das turbinadas políticas públicas.
Recorde-se o papel dessa assimetria na crise de 2013.
O segundo ponto? O PT parece olhar 2023 com as lentes de duas décadas atrás. Naqueles já distantes anos, Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Planalto como a dupla esperança de renovação pol tica e combate à pobreza. Hoje, não dá para dizer que Lula ou o PT consigam projetar uma imagem de força transformadora, nem as receitas clássicas de redução da desigualdade fazem o mesmo efeito.
Desde 2013, sabe-se que os investimentos sociais e o crescimento da primeira década petista produziram apenas parcialmente um contingente grato a Lula e ao PT. Boa parte, talvez a maioria, dos ascendentes consideram-se responsáveis pela própria ascensão social e almejam não mais Estado, mas um Estado mais eficiente e mais liberdade econômica. Essa é a dura, para o PT, realidade.
O problema é este terceiro mandato de Lula insistir, ou ao menos parecer insistir, numa certa estatolatria, utopicamente voltada para um Estado igualmente utópico, mas na vida real aprisionada pelo Estado brasileiro realmente existente, esta azeitada máquina de concentração de renda, produção de desigualdade e blindagem de privilégios.
E que nos últimos tempos agregou a isso a arrogância dos autonomeados protetores da sociedade e da democracia, que por isso acreditam poder fazer o que bem entendem e viver da maneira que bem entendem, sem dever explicações a ninguém.
Já se abordaram nesta análise rotineira razões de caráter subjetivo. Podem ser resumidas no desconforto progressivo que o governo constrói para si na população que resiste à reforma comportamental-moral-doutrinária da sociedade a partir do Estado. Têm também raízes num certo ambiente opressivo sentido pelos que não se alinham 100% ao oficialismo.
Afinal, a variável a sempre medir neste particular é menos a sensação de liberdade de quem apoia o governo, e mais a de quem em graus distinto se opõe a ele.
Como aspectos subjetivos nunca devem bastar na análise de dificuldades político-comunicacionais, é preciso dissecar a economia política, a “anatomia da sociedade civil”, segundo a terminologia clássica. Vale a pena olhar para dois pontos sensíveis: 1) a receita do governo para combinar doses de disciplina fiscal e expansão de gastos e 2) uma certa incapacidade de o PT compreender o país que ajudou a construir desde 2003.
No primeiro, a resultante dos dois vetores são mais impostos. Ou novos ou produto da engorda dos existentes. Isso afeta não apenas os atingidos, mas também os ainda não atingidos, mas temerosos de serem alguma hora. E há uma diferença entre as amplitudes e velocidades do mal-estar provocado pelo furor arrecadatório e as dos benefícios das turbinadas políticas públicas.
Recorde-se o papel dessa assimetria na crise de 2013.
O segundo ponto? O PT parece olhar 2023 com as lentes de duas décadas atrás. Naqueles já distantes anos, Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Planalto como a dupla esperança de renovação pol tica e combate à pobreza. Hoje, não dá para dizer que Lula ou o PT consigam projetar uma imagem de força transformadora, nem as receitas clássicas de redução da desigualdade fazem o mesmo efeito.
Desde 2013, sabe-se que os investimentos sociais e o crescimento da primeira década petista produziram apenas parcialmente um contingente grato a Lula e ao PT. Boa parte, talvez a maioria, dos ascendentes consideram-se responsáveis pela própria ascensão social e almejam não mais Estado, mas um Estado mais eficiente e mais liberdade econômica. Essa é a dura, para o PT, realidade.
O problema é este terceiro mandato de Lula insistir, ou ao menos parecer insistir, numa certa estatolatria, utopicamente voltada para um Estado igualmente utópico, mas na vida real aprisionada pelo Estado brasileiro realmente existente, esta azeitada máquina de concentração de renda, produção de desigualdade e blindagem de privilégios.
E que nos últimos tempos agregou a isso a arrogância dos autonomeados protetores da sociedade e da democracia, que por isso acreditam poder fazer o que bem entendem e viver da maneira que bem entendem, sem dever explicações a ninguém.
sábado, 25 de maio de 2024
A dura vida da bailarina
Há certos debates de viés filosófico que acabam tendo impacto imediato na política. O do momento é sobre o conceito de “verdade”. Buscam-se mecanismos que impeçam a contaminação do tecido social pela “não verdade”, e o caminho tateado é estabelecer normas para tanto e instâncias que as apliquem, premiando a verdade e punindo seu oposto.
Como se trata de um caso típico em que falar é mais fácil do que fazer, a tentativa por aqui vem atolando no pântano dos fatos, da correlação de forças e das malvadas contradições, sempre elas. Dois problemas imediatos já bem identificados: 1) achar os critérios que definam com alguma precisão qual é a verdade em cada caso e 2) quem ficará encarregado de julgar, premiar e punir.
Daí também um certo impasse legislativo em torno do tema, pois impor “a verdade” sem permitir que ela nasça a partir da observação da realidade e do confronto aberto entre opostos só é possível, e mesmo assim de maneira imperfeita e temporária, pelo terror. E, como mostra o retrospecto, todo regime que se sustenta apenas com base na violência tem encontro marcado com o colapso.
Já que estamos tratando da verdade, eis mais uma: é mais confortável deixar a racionalidade para lá, ou ignorar Werner Heisenberg e seu Princípio da Incerteza, e buscar o conforto do pensamento único. O curioso, mas não inesperado, é essa obsessão hoje ser marca de quem atravessou os anos 90, após o colapso do socialismo real na Europa, reclamando e se lamentando por causa da tentativa de impor o fim da história e a hegemonia liberal.
Mas exigir coerência na política é ingenuidade ou hipocrisia, não percamos tempo.
A análise vem se espantando com a resiliência da polarização. Como já dito em textos aqui, há algum equívoco em absolutizar, pois muitos governadores e prefeitos, talvez a maioria, conseguem escapar da própria bolha e lançar pontes ao campo dos que não votaram neles.
Porém a ossificação é um fato na esfera nacional. Talvez pelo protagonismo da política mais ideológica. Vai saber…
Talvez tenha a ver com uma lógica atualmente hegemônica, mais voltada a criminalizar ideias e ações políticas dos adversários do que a derrotá-los com algum uso da razão. Quando discutia sua prisão, Luiz Inácio Lula da Silva argumentava que retirá-lo de circulação não resolveria o problema dos oponentes, pois ele tinha deixado de ser apenas uma pessoa. Tinha se transformado numa ideia.
Se vale para ele, quem sabe valha também para os contra ele.
E as armadilhas no caminho de quem tenta se apresentar como político guiado por princípios genéricos?
Nesta semana, o procurador no Tribunal Penal Internacional pediu a prisão de dois líderes israelenses e três do Hamas. O que causou certo desconforto entre parte dos críticos de Israel na Esplanada. Como festejar uma parte do parecer e criticar outra? Complicado. Ainda mais quando o presidente da Rússia também teve sua prisão decretada pelo TPI.
É mesmo dura a vida da bailarina.
Como se trata de um caso típico em que falar é mais fácil do que fazer, a tentativa por aqui vem atolando no pântano dos fatos, da correlação de forças e das malvadas contradições, sempre elas. Dois problemas imediatos já bem identificados: 1) achar os critérios que definam com alguma precisão qual é a verdade em cada caso e 2) quem ficará encarregado de julgar, premiar e punir.
Daí também um certo impasse legislativo em torno do tema, pois impor “a verdade” sem permitir que ela nasça a partir da observação da realidade e do confronto aberto entre opostos só é possível, e mesmo assim de maneira imperfeita e temporária, pelo terror. E, como mostra o retrospecto, todo regime que se sustenta apenas com base na violência tem encontro marcado com o colapso.
Já que estamos tratando da verdade, eis mais uma: é mais confortável deixar a racionalidade para lá, ou ignorar Werner Heisenberg e seu Princípio da Incerteza, e buscar o conforto do pensamento único. O curioso, mas não inesperado, é essa obsessão hoje ser marca de quem atravessou os anos 90, após o colapso do socialismo real na Europa, reclamando e se lamentando por causa da tentativa de impor o fim da história e a hegemonia liberal.
Mas exigir coerência na política é ingenuidade ou hipocrisia, não percamos tempo.
A análise vem se espantando com a resiliência da polarização. Como já dito em textos aqui, há algum equívoco em absolutizar, pois muitos governadores e prefeitos, talvez a maioria, conseguem escapar da própria bolha e lançar pontes ao campo dos que não votaram neles.
Porém a ossificação é um fato na esfera nacional. Talvez pelo protagonismo da política mais ideológica. Vai saber…
Talvez tenha a ver com uma lógica atualmente hegemônica, mais voltada a criminalizar ideias e ações políticas dos adversários do que a derrotá-los com algum uso da razão. Quando discutia sua prisão, Luiz Inácio Lula da Silva argumentava que retirá-lo de circulação não resolveria o problema dos oponentes, pois ele tinha deixado de ser apenas uma pessoa. Tinha se transformado numa ideia.
Se vale para ele, quem sabe valha também para os contra ele.
*
E as armadilhas no caminho de quem tenta se apresentar como político guiado por princípios genéricos?
Nesta semana, o procurador no Tribunal Penal Internacional pediu a prisão de dois líderes israelenses e três do Hamas. O que causou certo desconforto entre parte dos críticos de Israel na Esplanada. Como festejar uma parte do parecer e criticar outra? Complicado. Ainda mais quando o presidente da Rússia também teve sua prisão decretada pelo TPI.
É mesmo dura a vida da bailarina.
sábado, 18 de maio de 2024
Tragédia e oportunidade. E o bilhete esquecido da Mega-Sena
Há pouca dúvida de que o Rio Grande do Sul é vítima principalmente não dos arroubos da mãe natureza, mas das ações, ou inações, de seus governantes. A prova definitiva está em que já tinha havido ali um evento climático de dimensões semelhantes, em 1941. E outros de menor intesidade são comuns.
Se a Holanda conseguiu e consegue há tanto tempo ganhar terras do mar, por que não seria possível proteger por aqui de maneira permanente áreas como a do Guaíba e da Lagoa dos Patos, tão potencialmente vulneráveis à subida das águas?
Sobre isso, há relatos de incúria estatal recente, descaso e desleixo, que serão objeto de investigação, e naturalmente resultarão conclusões convenientes para quem, à época, tiver mais força política para conduzi-la.
De todo modo, está aberta uma janela animadora de oportunidade em terras gaúchas para políticos que apareçam com propostas, e credibilidade, de como resolver os gravíssimos problemas imediatos e evitar, ou pelo menos tentar evitar, que se repitam.
A tragédia das inundações no Rio Grande do Sul é o que se pode chamar, neste caso com justiça, de evento politicamente disruptivo. Talvez ainda não nacionalmente, mas com certeza na esfera local. É possível (talvez agora eu esteja sendo otimista) que, por isso, as próximas disputas ali consigam escapar do ramerrame recente, para não dizer pantomima, das eleições brasileiras.
Repetindo, é uma janela de oportunidade fantástica para quem consiga se colocar numa perspectiva de futuro.
Também por isso, soam algo ridículas as lamúrias de que os atores estão se conduzindo politicamente. Luiz Inácio Lula da Silva e o PT têm agora a oportunidade de romper o isolamento político numa capital e num estado que já governaram e onde mais recentemente acabaram amputados da expectativa real de poder por forças políticas que agora amargam a desmoralização.
Seria também impensável Lula não se animar com a possibilidade de colocar uma cunha na região Sul, a que mais vem se opondo ao PT nas eleições. Imaginem qual seria a animação do campo oposto se algo similar atingisse algum estado do Nordeste e oferecesse a oportunidade de construir alternativa política a partir de necessidades vitais de um eleitorado levado ao desespero.
A tragédia no Sul é também uma oportunidade de Lula mostrar serviço para o conjunto e romper o cercadinho político-ideológico de seu campo político. Isso tem imposto a ele perda de capacidade hegemônica interna e relevância externa. Em 2022, o presidente ganhou na Mega-Sena da política, mas dá a impressão de não lembrar onde guardou o bilhete, e sem isso fica difícil sacar o prêmio.
Se a Holanda conseguiu e consegue há tanto tempo ganhar terras do mar, por que não seria possível proteger por aqui de maneira permanente áreas como a do Guaíba e da Lagoa dos Patos, tão potencialmente vulneráveis à subida das águas?
Sobre isso, há relatos de incúria estatal recente, descaso e desleixo, que serão objeto de investigação, e naturalmente resultarão conclusões convenientes para quem, à época, tiver mais força política para conduzi-la.
De todo modo, está aberta uma janela animadora de oportunidade em terras gaúchas para políticos que apareçam com propostas, e credibilidade, de como resolver os gravíssimos problemas imediatos e evitar, ou pelo menos tentar evitar, que se repitam.
A tragédia das inundações no Rio Grande do Sul é o que se pode chamar, neste caso com justiça, de evento politicamente disruptivo. Talvez ainda não nacionalmente, mas com certeza na esfera local. É possível (talvez agora eu esteja sendo otimista) que, por isso, as próximas disputas ali consigam escapar do ramerrame recente, para não dizer pantomima, das eleições brasileiras.
Repetindo, é uma janela de oportunidade fantástica para quem consiga se colocar numa perspectiva de futuro.
Também por isso, soam algo ridículas as lamúrias de que os atores estão se conduzindo politicamente. Luiz Inácio Lula da Silva e o PT têm agora a oportunidade de romper o isolamento político numa capital e num estado que já governaram e onde mais recentemente acabaram amputados da expectativa real de poder por forças políticas que agora amargam a desmoralização.
Seria também impensável Lula não se animar com a possibilidade de colocar uma cunha na região Sul, a que mais vem se opondo ao PT nas eleições. Imaginem qual seria a animação do campo oposto se algo similar atingisse algum estado do Nordeste e oferecesse a oportunidade de construir alternativa política a partir de necessidades vitais de um eleitorado levado ao desespero.
A tragédia no Sul é também uma oportunidade de Lula mostrar serviço para o conjunto e romper o cercadinho político-ideológico de seu campo político. Isso tem imposto a ele perda de capacidade hegemônica interna e relevância externa. Em 2022, o presidente ganhou na Mega-Sena da política, mas dá a impressão de não lembrar onde guardou o bilhete, e sem isso fica difícil sacar o prêmio.
sábado, 4 de maio de 2024
"É a política, estúpido"
O governo federal encontra alguns percalços pelo caminho. Isoladamente, não chegam a ter grande impacto, mas no conjunto acabam provocando sensação de desconforto. E a abordagem do governo tem sido tópica. O ato do Primeiro de Maio foi fraco? Culpa da fraca convocação. As relações com o Congresso andam pedregosas? Herança maldita de Jair Bolsonaro, que cedeu poder demais ao centrão. As pesquisas preocupam? Falta comunicar-se melhor.
A administração Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta ainda uma dificuldade adicional. Na esteira do ambiente produzido pelo 8/1, toda crítica contundente corre o risco de ver-se criminalizada, visto a declarada prioridade de proteger as instituições nacionais. Há poucas coisas mais perigosas para governos do que o apoio e a proteção praticamente consensuais na opinião pública. Pois nem os aplausos unânimes nem a interdição do debate conseguem represar eternamente os problemas ou o sentimento popular.
É a velha história do canário na mina de carvão.
São bem conhecidas na historiografia e na bibliografia as situações em que tudo parece estar sob controle, até que um dia, de repente, o poder topa com a urna ou com a rua. Ou com as duas. Os relâmpagos em céu azul.
Olhar para a política é o movimento mais prudente quando os problemas parecem chegar em série.
Certa leitura mecânica do impacto da economia na aritmética eleitoral tende a produzir determinismos perniciosos. Nem sempre uma economia positiva produz pesquisas, ou urnas, decisivamente a favor. Um exemplo é Joe Biden agora. Os números econômicos ali são bons, o incumbent sempre será competitivo, mas por enquanto a aprovação dele vai mal e ele come poeira para Donald Trump.
Outro exemplo é o próprio Bolsonaro. Chegou à disputa da reeleição com a economia recuperando-se bem, isso até permitiu a ele manter-se competitivo, mas não foi suficiente para compensar uma rejeição que pouco ou nada tinha a ver com a condução econômica. Recorde-se, por falar em bolso, que o então presidente mais que triplicou o valor do Bolsa Família, renomeado Auxílio Brasil, mas isso não lhe rendeu qualquer avanço substancial em votos no público beneficiado.
Nem sempre o “é a economia, estúpido,” (crédito ao Carville) é quem decide. Em eleições como a nossa para o Executivo, quando disputadas em dois turnos, é preciso ter 50% mais um dos votos. 50% menos um não adianta nada.
É possível que o governo Lula tenha partido de um diagnóstico pouco preciso quanto ao país que decidiu dar a ele este novo mandato. Na narrativa oficial, o Brasil precisava ser reconstruído. Mas talvez a vitória em 2022 tenha decorrido principalmente de uma rejeição à pessoa de Bolsonaro, nem tanto ao governo que ele presidia. O que talvez exigisse mais cuidado no manejar a polarização e mais esforços para a busca de pontos de contato e possíveis consensos entre os campos político-sociais.
Isolar o campo da direita e exercer o poder principalmente por meio da coerção jurídica têm tido alguma eficácia operacional, mas parecem reduzir a possibilidade da busca de consensos. Antonio Gramsci desenvolveu bem a relação entre coerção, consenso e conquista da hegemonia. Até numa ditadura propriamente dita é dificílimo governar contra metade da população. Quanto mais num regime político que mantém traços de democracia constitucional.
E o argumento de que a polarização estaria cristalizada não resiste ao teste empírico, pois diversos governadores e prefeitos da direita e da esquerda têm conseguido avançar sobre o eleitorado que preferiu o campo oposto na última eleição. Basta olhar os números atuais de avaliação e aprovação deles.
E tem também a combinação de vetores dos interesses da Fazenda (exibir disciplina fiscal) e do restante do Executivo (gastar, investir), sem que um e outro demonstrem qualquer preocupação com conter o gasto público ineficiente. A única resultante possível é a pressão para arrecadar mais. O governo sempre repete que a ideia é taxar os ricos, mas a cidadania acaba desconfiando, com alguma razão, que o esforço arrecadatório sairá do bolso dos de sempre e acabará no bolso dos de sempre.
A administração Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta ainda uma dificuldade adicional. Na esteira do ambiente produzido pelo 8/1, toda crítica contundente corre o risco de ver-se criminalizada, visto a declarada prioridade de proteger as instituições nacionais. Há poucas coisas mais perigosas para governos do que o apoio e a proteção praticamente consensuais na opinião pública. Pois nem os aplausos unânimes nem a interdição do debate conseguem represar eternamente os problemas ou o sentimento popular.
É a velha história do canário na mina de carvão.
São bem conhecidas na historiografia e na bibliografia as situações em que tudo parece estar sob controle, até que um dia, de repente, o poder topa com a urna ou com a rua. Ou com as duas. Os relâmpagos em céu azul.
Olhar para a política é o movimento mais prudente quando os problemas parecem chegar em série.
Certa leitura mecânica do impacto da economia na aritmética eleitoral tende a produzir determinismos perniciosos. Nem sempre uma economia positiva produz pesquisas, ou urnas, decisivamente a favor. Um exemplo é Joe Biden agora. Os números econômicos ali são bons, o incumbent sempre será competitivo, mas por enquanto a aprovação dele vai mal e ele come poeira para Donald Trump.
Outro exemplo é o próprio Bolsonaro. Chegou à disputa da reeleição com a economia recuperando-se bem, isso até permitiu a ele manter-se competitivo, mas não foi suficiente para compensar uma rejeição que pouco ou nada tinha a ver com a condução econômica. Recorde-se, por falar em bolso, que o então presidente mais que triplicou o valor do Bolsa Família, renomeado Auxílio Brasil, mas isso não lhe rendeu qualquer avanço substancial em votos no público beneficiado.
Nem sempre o “é a economia, estúpido,” (crédito ao Carville) é quem decide. Em eleições como a nossa para o Executivo, quando disputadas em dois turnos, é preciso ter 50% mais um dos votos. 50% menos um não adianta nada.
É possível que o governo Lula tenha partido de um diagnóstico pouco preciso quanto ao país que decidiu dar a ele este novo mandato. Na narrativa oficial, o Brasil precisava ser reconstruído. Mas talvez a vitória em 2022 tenha decorrido principalmente de uma rejeição à pessoa de Bolsonaro, nem tanto ao governo que ele presidia. O que talvez exigisse mais cuidado no manejar a polarização e mais esforços para a busca de pontos de contato e possíveis consensos entre os campos político-sociais.
Isolar o campo da direita e exercer o poder principalmente por meio da coerção jurídica têm tido alguma eficácia operacional, mas parecem reduzir a possibilidade da busca de consensos. Antonio Gramsci desenvolveu bem a relação entre coerção, consenso e conquista da hegemonia. Até numa ditadura propriamente dita é dificílimo governar contra metade da população. Quanto mais num regime político que mantém traços de democracia constitucional.
E o argumento de que a polarização estaria cristalizada não resiste ao teste empírico, pois diversos governadores e prefeitos da direita e da esquerda têm conseguido avançar sobre o eleitorado que preferiu o campo oposto na última eleição. Basta olhar os números atuais de avaliação e aprovação deles.
E tem também a combinação de vetores dos interesses da Fazenda (exibir disciplina fiscal) e do restante do Executivo (gastar, investir), sem que um e outro demonstrem qualquer preocupação com conter o gasto público ineficiente. A única resultante possível é a pressão para arrecadar mais. O governo sempre repete que a ideia é taxar os ricos, mas a cidadania acaba desconfiando, com alguma razão, que o esforço arrecadatório sairá do bolso dos de sempre e acabará no bolso dos de sempre.
sábado, 20 de abril de 2024
Um esboço de (começo de) autópsia
Merecerá estudos, algum dia, a transição da promessa de uma democracia constitucional pluralista, base do otimismo histórico da redemocratização de 1984-85, para nosso atual ensaio de “democracia hobbesiana”, em que a única disputa real é sobre que lobo conseguirá, ao fim e ao cabo, eliminar a possibilidade de alternância no poder.
Tais reflexões deverão necessariamente dissecar a paradoxal absorção hoje em dia das narrativas excepcionalizantes do regime militar pelos que um dia se opuseram a ele e foram construindo, ao longo dos anos 1970 e 80, o movimento afinal vitorioso, cristalizado na Constituição de 1988. Um debate essencial se dará sobre se a deriva era inevitável ou se foi uma escolha.
Talvez ainda seja cedo para concluir a autópsia da ordem político-institucional produzida ali, apesar de ela jazer sem vida, mas vale começar a especular a respeito de onde começou a desandar. É natural que a esquerda finque o primeiro landmark na crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson em 2005. E que aponte especial destaque à Operação Lava-Jato e ao impeachment de Dilma Rousseff.
Assim como será natural, no futuro, os atuais movimentos da Justiça brasileira serem destaque na historiografia de direita.
Mas há dois acontecimentos, com suas circunstâncias, que exigirão um olhar mais detido, apesar de hoje estar algo ausentes das narrativas em choque. Um é o impeachment/renúncia do primeiro presidente eleito diretamente após o fim da ditadura, Fernando Collor de Mello. As mesmas forças que haviam saído às ruas em 1984 para exigir as diretas lideraram a derrubada dele.
Também por Collor representar, em algum grau, o ancien régime.
Se há argumentos para defender que Dilma foi vítima de um processo sem base substancial, qualquer um que se detenha nos motivos para a deposição de Collor notará a mesma, ou maior, vacuidade de elementos. A diferença é faltar ao ex-presidente quem esteja interessado em reabilitar a imagem histórica dele. No limite, falta-lhe um partido.
Ou talvez a origem do desandar precise ser buscada um pouco antes, no ambiente político que cercou o mandato de José Sarney. Quando a democracia liberal constitucional mostrou sua cara, junto veio um fabricado horror a seus aspectos menos elegantes. Especialmente a necessidade de o Executivo buscar maioria parlamentar por meio de negociação política que obrigatoriamente envolvesse concessões materiais.
É de então a ojeriza seletiva ao “toma lá dá cá” e o celebrizar de expressões como “fisiologismo”, hoje em conveniente desuso. Mas sempre ali na gaveta para qualquer necessidade.
Combinada aos fracassos na luta anti-inflacionária daqueles tempos, a repulsa à “política realmente existente” foi o tiro de largada, o “big bang” dos sucessivos surtos de neogolpismo dos antes não golpistas, ou antigolpistas. E um dos primeiros capítulos se deu quando os democratas radicais de 1984-85 tentaram amputar na Constituinte em dois anos o mandato de Sarney. No fim, conseguiram cortar um.
O que levou à eleição “solteira” de 1989, à vitória “bonapartista” de Collor e a todas as consequências que, como advertia o Conselheiro Acácio, vieram depois. Na base de tudo, aquela ojeriza à política e o veto a alternâncias reais. E aqui estamos.
Tais reflexões deverão necessariamente dissecar a paradoxal absorção hoje em dia das narrativas excepcionalizantes do regime militar pelos que um dia se opuseram a ele e foram construindo, ao longo dos anos 1970 e 80, o movimento afinal vitorioso, cristalizado na Constituição de 1988. Um debate essencial se dará sobre se a deriva era inevitável ou se foi uma escolha.
Talvez ainda seja cedo para concluir a autópsia da ordem político-institucional produzida ali, apesar de ela jazer sem vida, mas vale começar a especular a respeito de onde começou a desandar. É natural que a esquerda finque o primeiro landmark na crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson em 2005. E que aponte especial destaque à Operação Lava-Jato e ao impeachment de Dilma Rousseff.
Assim como será natural, no futuro, os atuais movimentos da Justiça brasileira serem destaque na historiografia de direita.
Mas há dois acontecimentos, com suas circunstâncias, que exigirão um olhar mais detido, apesar de hoje estar algo ausentes das narrativas em choque. Um é o impeachment/renúncia do primeiro presidente eleito diretamente após o fim da ditadura, Fernando Collor de Mello. As mesmas forças que haviam saído às ruas em 1984 para exigir as diretas lideraram a derrubada dele.
Também por Collor representar, em algum grau, o ancien régime.
Se há argumentos para defender que Dilma foi vítima de um processo sem base substancial, qualquer um que se detenha nos motivos para a deposição de Collor notará a mesma, ou maior, vacuidade de elementos. A diferença é faltar ao ex-presidente quem esteja interessado em reabilitar a imagem histórica dele. No limite, falta-lhe um partido.
Ou talvez a origem do desandar precise ser buscada um pouco antes, no ambiente político que cercou o mandato de José Sarney. Quando a democracia liberal constitucional mostrou sua cara, junto veio um fabricado horror a seus aspectos menos elegantes. Especialmente a necessidade de o Executivo buscar maioria parlamentar por meio de negociação política que obrigatoriamente envolvesse concessões materiais.
É de então a ojeriza seletiva ao “toma lá dá cá” e o celebrizar de expressões como “fisiologismo”, hoje em conveniente desuso. Mas sempre ali na gaveta para qualquer necessidade.
Combinada aos fracassos na luta anti-inflacionária daqueles tempos, a repulsa à “política realmente existente” foi o tiro de largada, o “big bang” dos sucessivos surtos de neogolpismo dos antes não golpistas, ou antigolpistas. E um dos primeiros capítulos se deu quando os democratas radicais de 1984-85 tentaram amputar na Constituinte em dois anos o mandato de Sarney. No fim, conseguiram cortar um.
O que levou à eleição “solteira” de 1989, à vitória “bonapartista” de Collor e a todas as consequências que, como advertia o Conselheiro Acácio, vieram depois. Na base de tudo, aquela ojeriza à política e o veto a alternâncias reais. E aqui estamos.
sábado, 6 de abril de 2024
O debate econômico costeia o alambrado
O debate sobre o papel da economia no atual desgaste do governo vem “costeando o alambrado”, como diria Leonel Brizola. A razão é política. O ministro da Fazenda tem o mérito de conquistar para si alguma blindagem em áreas empresariais potencialmente mais refratárias a Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT. No que, por tabela, acaba ajudando o presidente e o partido. Pois, ao fim e ao cabo, apoiar o ministro é apoiar o governo.
Deve-se também a esse fator a aceitação algo passiva da lógica que comanda a equação econômica em curso. Já que Lula não quer nem ouvir falar em cortar gastos, ao contrário, e já que Fernando Haddad deve boa parte da sustentação política dele na sociedade ao compromisso com alguma disciplina fiscal, a pauta da inevitabilidade de medidas que anabolizem receitas governamentais vem descendo goela abaixo da opinião pública com menos aspereza do que seria se os personagens fossem outros.
Adaptando Ortega y Gasset, as opiniões, no mais das vezes, são elas próprias combinadas com suas circunstâncias.
Em outras circunstâncias, a crítica do mainstream estaria voltada para a “sanha arrecadatória” e a resistência a melhorar a produtividade da máquina pública. Mas, nas condições dadas da conjuntura, o laser está apontado para o Congresso quando este resiste à pressão por mais impostos, mesmo que resultantes só do fim de renúncias fiscais. Pouca atenção se dá às dúvidas em torno da premissa: a resultante de aumentar agora a receita como proporção do PIB é boa ou ruim para a economia?
Justiça se faça a Lula, ele cansou de dizer que colocaria "os pobres no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda”. Aqui não tem estelionato nenhum, a orientação econômica do governo é uma social-democracia clássica: promover mais justiça social redistribuindo, via Estado, parte do valor socialmente produzido e concentrado. O desafio? Combinar esse distributivismo com a necessidade de um crescimento econômico robusto, que depende quase totalmente do investimento privado.
A social-democracia não está exatamente na moda no berço dela, a Europa. Nos Estados Unidos, enfrenta a dura oposição de um liberalismo econômico que casou com o conservadorismo dito cultural. E esses são países e regiões cujo nível da economia coloca até menos pressão na necessidade de desenvolvimento. Entre nós, o modelo social-democrata até agora passa longe de explicar como combinar o distributivismo com o estímulo a que os capitalistas invistam.
O governo Lula diz ter a solução: expandir o poder de compra da população expande o mercado e, portanto, é um chamado ao investimento privado. Um caminho diferente seria apostar principalmente na formação de poupança e no investimento produtivo privados, a trilha que a Ásia tomou para estar onde está. Menos social-democracia e mais capitalismo na veia.
Independentemente do caminho a seguir, o governo parece pouco capaz de entender certas características do Brasil que governa, produto até das anteriores administrações petistas. As razões histórico-econômicas merecem um detalhamento, mas o Brasil é, ou se acha, muito mais de classe média do que duas décadas atrás.
E, quando o governo e Lula falam em -e agem para- “colocar o pobre no Orçamento e o rico no Imposto de Renda”, e como o Brasil não tem tantos ricos assim para sustentar um distributivismo mais agressivo, é natural que acenda uma luz amarela diante da classe média, ou de quem se enxerga na classe média.
Deve-se também a esse fator a aceitação algo passiva da lógica que comanda a equação econômica em curso. Já que Lula não quer nem ouvir falar em cortar gastos, ao contrário, e já que Fernando Haddad deve boa parte da sustentação política dele na sociedade ao compromisso com alguma disciplina fiscal, a pauta da inevitabilidade de medidas que anabolizem receitas governamentais vem descendo goela abaixo da opinião pública com menos aspereza do que seria se os personagens fossem outros.
Adaptando Ortega y Gasset, as opiniões, no mais das vezes, são elas próprias combinadas com suas circunstâncias.
Em outras circunstâncias, a crítica do mainstream estaria voltada para a “sanha arrecadatória” e a resistência a melhorar a produtividade da máquina pública. Mas, nas condições dadas da conjuntura, o laser está apontado para o Congresso quando este resiste à pressão por mais impostos, mesmo que resultantes só do fim de renúncias fiscais. Pouca atenção se dá às dúvidas em torno da premissa: a resultante de aumentar agora a receita como proporção do PIB é boa ou ruim para a economia?
Justiça se faça a Lula, ele cansou de dizer que colocaria "os pobres no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda”. Aqui não tem estelionato nenhum, a orientação econômica do governo é uma social-democracia clássica: promover mais justiça social redistribuindo, via Estado, parte do valor socialmente produzido e concentrado. O desafio? Combinar esse distributivismo com a necessidade de um crescimento econômico robusto, que depende quase totalmente do investimento privado.
A social-democracia não está exatamente na moda no berço dela, a Europa. Nos Estados Unidos, enfrenta a dura oposição de um liberalismo econômico que casou com o conservadorismo dito cultural. E esses são países e regiões cujo nível da economia coloca até menos pressão na necessidade de desenvolvimento. Entre nós, o modelo social-democrata até agora passa longe de explicar como combinar o distributivismo com o estímulo a que os capitalistas invistam.
O governo Lula diz ter a solução: expandir o poder de compra da população expande o mercado e, portanto, é um chamado ao investimento privado. Um caminho diferente seria apostar principalmente na formação de poupança e no investimento produtivo privados, a trilha que a Ásia tomou para estar onde está. Menos social-democracia e mais capitalismo na veia.
Independentemente do caminho a seguir, o governo parece pouco capaz de entender certas características do Brasil que governa, produto até das anteriores administrações petistas. As razões histórico-econômicas merecem um detalhamento, mas o Brasil é, ou se acha, muito mais de classe média do que duas décadas atrás.
E, quando o governo e Lula falam em -e agem para- “colocar o pobre no Orçamento e o rico no Imposto de Renda”, e como o Brasil não tem tantos ricos assim para sustentar um distributivismo mais agressivo, é natural que acenda uma luz amarela diante da classe média, ou de quem se enxerga na classe média.
sábado, 30 de março de 2024
Agruras da política externa
Era previsível, e foi previsto, que o Brasil deste novo mandato petista encontraria algumas encruzilhadas complicadas na política exterior. Resultado principalmente de certa compulsão por protagonismo, mesmo nas situações em que nossa sede por liderar não encontra bases objetivas para pelo menos parecer natural.
Deve-se considerar aqui o compreensível desejo do presidente da República por retomar certo papel pessoal em escala planetária. Um problema nesse particular tem sido a assimetria entre as aspirações de Luiz Inácio Lula da Silva e a capacidade real de o Brasil projetar poder.
No popular, o risco de dar pitaco onde não foi chamado.
Essa assimetria leva o presidente a ficar excessivamente exposto ou, como se diz em linguagem militar, com as linhas mais estendidas do que recomendaria a prudência.
De todo modo, “o Brasil voltou” vem sendo pilar fundamental da política externa deste governo, até num certo paralelismo com o “America is back” de Joe Biden. No caso do vizinho do norte, a materialização do slogan não tem revelado resultados propriamente brilhantes. Afeganistão, Ucrânia e Gaza que o digam.
Óbvio que, ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil está isento de ser acusado de provocar a eclosão de qualquer guerra. O problema aqui é outro: o rebatimento para o cenário interno das ações do Itamaraty e de Lula não tem trazido capital político ao governo e ao presidente, ao contrário.
Há, ainda, mais um problema insolúvel nesse aspecto da ação governamental, além da já citada desconexão entre o que o Brasil é o que Lula quer ser: qualquer política exterior que se apresente como fundada em princípios morais a seguir ferreamente revela-se alguma hora contraditória e até hipócrita, ou mesmo farsesca.
O que a enfraquece.
É caso da posição brasileira sobre as eleições na Venezuela. É visível ali que o presidente Nicolás Maduro procura aproximar a vitória eleitoral alijando da disputa os adversários potencialmente mais capazes de derrotá-lo. A suavidade e o cuidado do Brasil diante disso trazem rachaduras na tese de que, por aqui, a aliança entre governo Lula e STF em defesa da legitimidade do processo eleitoral vem sendo o alicerce da defesa da democracia.
A propósito de Gaza, as declarações de Lula que parecem contribuir para alguma erosão na popularidade governamental vêm sendo explicadas a posteriori pela indignação do presidente diante do sofrimento humano ali. O problema é essa indignação só aparecer em algumas situações politicamente convenientes, quando o lado a acusar não inclui companheiros de viagem.
Uma seletividade que tira força do argumento.
A boa notícia é as soluções para os tropeços estarem à mão. O assunto Venezuela poderia ser facilmente contornado se o Brasil se limitasse a dizer que as eleições ali são assunto interno e que vamos nos relacionar com qualquer governo eleito pelos venezuelanos. A velha ferramenta do respeito à autodeterminação dos povos.
Bandeira que já foi popular entre a esquerda.
O problema? Se o princípio vale para as relações com a Venezuela, deveria valer também para a Argentina de Javier Milei. E para muitos outros casos. Até porque governante e comentarista de política internacional são atividades bem distintas, que não se confundem.
Deve-se considerar aqui o compreensível desejo do presidente da República por retomar certo papel pessoal em escala planetária. Um problema nesse particular tem sido a assimetria entre as aspirações de Luiz Inácio Lula da Silva e a capacidade real de o Brasil projetar poder.
No popular, o risco de dar pitaco onde não foi chamado.
Essa assimetria leva o presidente a ficar excessivamente exposto ou, como se diz em linguagem militar, com as linhas mais estendidas do que recomendaria a prudência.
De todo modo, “o Brasil voltou” vem sendo pilar fundamental da política externa deste governo, até num certo paralelismo com o “America is back” de Joe Biden. No caso do vizinho do norte, a materialização do slogan não tem revelado resultados propriamente brilhantes. Afeganistão, Ucrânia e Gaza que o digam.
Óbvio que, ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil está isento de ser acusado de provocar a eclosão de qualquer guerra. O problema aqui é outro: o rebatimento para o cenário interno das ações do Itamaraty e de Lula não tem trazido capital político ao governo e ao presidente, ao contrário.
Há, ainda, mais um problema insolúvel nesse aspecto da ação governamental, além da já citada desconexão entre o que o Brasil é o que Lula quer ser: qualquer política exterior que se apresente como fundada em princípios morais a seguir ferreamente revela-se alguma hora contraditória e até hipócrita, ou mesmo farsesca.
O que a enfraquece.
É caso da posição brasileira sobre as eleições na Venezuela. É visível ali que o presidente Nicolás Maduro procura aproximar a vitória eleitoral alijando da disputa os adversários potencialmente mais capazes de derrotá-lo. A suavidade e o cuidado do Brasil diante disso trazem rachaduras na tese de que, por aqui, a aliança entre governo Lula e STF em defesa da legitimidade do processo eleitoral vem sendo o alicerce da defesa da democracia.
A propósito de Gaza, as declarações de Lula que parecem contribuir para alguma erosão na popularidade governamental vêm sendo explicadas a posteriori pela indignação do presidente diante do sofrimento humano ali. O problema é essa indignação só aparecer em algumas situações politicamente convenientes, quando o lado a acusar não inclui companheiros de viagem.
Uma seletividade que tira força do argumento.
A boa notícia é as soluções para os tropeços estarem à mão. O assunto Venezuela poderia ser facilmente contornado se o Brasil se limitasse a dizer que as eleições ali são assunto interno e que vamos nos relacionar com qualquer governo eleito pelos venezuelanos. A velha ferramenta do respeito à autodeterminação dos povos.
Bandeira que já foi popular entre a esquerda.
O problema? Se o princípio vale para as relações com a Venezuela, deveria valer também para a Argentina de Javier Milei. E para muitos outros casos. Até porque governante e comentarista de política internacional são atividades bem distintas, que não se confundem.
sexta-feira, 15 de março de 2024
Propósito e pertencimento, os dois pês
Os últimos levantamentos recolocam na roda o debate sobre o peso da economia nas decisões do eleitorado. A primazia do vetor econômico é quase um dogma desde que Bill Clinton derrotou George H W Bush em 1992, com o “é a economia, estúpido”, o lema interno da equipe da campanha vitoriosa.
Tal dogmática, entretanto, não explica os cenários quando a economia vai bem, mas mesmo assim o governo sofre perdas estatísticas no apoio. Como parece ser o caso agora aqui no Brasil, situação que ainda não se sabe se é pontual ou tendência.
Uma explicação envereda pela tese de que a polarização acaba secundarizando os efeitos políticos da economia.
A tese ainda espera comprovação, e há dados político-eleitorais recentes que lançam pontos de dúvida sobre ela. Um deles é a boa avaliação dos prefeitos em geral, situação que em certa medida se repete com os governadores, ressalvada uma ou outra exceção. A avaliação dos governadores e prefeitos parece menos contaminada pela polarização.
Sobre a economia, uma hipótese a analisar é sua importância crescer na eleição quando 1) a economia vai mal ou quando 2) vai bem e há a ameaça real de piorar se o governo mudar de mãos. Quando políticas econômicas propostas por governo e oposição apontam para rumos parecidos, diminui a letalidade eleitoral provocada pelo medo da mudança.
Outro cuidado a tomar é sobre o que se quer dizer com “a economia”. Ela pode estar indo bem nos números macro que abastecem as manchetes, mas é sempre prudente olhar para o microcosmo das pessoas e das famílias, se se quer fazer um diagnóstico mais preciso. E nunca se deve perder de vista a equação “resultado - expectativa = satisfação”.
Quando um governo só olha para suas entregas, e se esquece de comparar com as expectativas que criou, pode ser surpreendido pela queda na satisfação do eleitorado.
Debater a economia é fundamental, ela sempre tem grande peso na decisão do voto. Mas talvez valha a pena olhar também para outras variáveis. Especialmente quando, como agora, não se vislumbra que as possíveis trocas de guarda no Brasil trariam mudanças radicais na condução econômica.
Também por a área econômica deste governo e sua orientação continuarem recebendo sustentação maciça em meios informativos tradicionais. Os mesmos que no passado ofereciam sua rede de segurança para autoridades às quais o PT se opunha na época. Excetuadas as turbulências trazidas por declarações e decisões presidenciais pontuais, reina na área boa dose de paz.
Sem subestimar a economia, tampouco é demais olhar para aspectos mais subjetivos dos mecanismos de produção de opiniões políticas. O capital político dos governos sempre se beneficia de dois pês: propósito e pertencimento. Quando está claro a que veio o governo, e quando ele passa a sensação de querer o bem de todo mundo, e não só de sua turma.
Acirrar as contradições e estimular a guerra de todos contra todos pode ser útil para reforçar o poder momentâneo, mas um efeito colateral é produzir sensação de exclusão em áreas que o andamento da economia pode até, eventualmente, estar beneficiando.
Por isso se diz que a política tem de andar de mãos dadas com a economia, para que a safra eleitoral não decepcione.
Tal dogmática, entretanto, não explica os cenários quando a economia vai bem, mas mesmo assim o governo sofre perdas estatísticas no apoio. Como parece ser o caso agora aqui no Brasil, situação que ainda não se sabe se é pontual ou tendência.
Uma explicação envereda pela tese de que a polarização acaba secundarizando os efeitos políticos da economia.
A tese ainda espera comprovação, e há dados político-eleitorais recentes que lançam pontos de dúvida sobre ela. Um deles é a boa avaliação dos prefeitos em geral, situação que em certa medida se repete com os governadores, ressalvada uma ou outra exceção. A avaliação dos governadores e prefeitos parece menos contaminada pela polarização.
Sobre a economia, uma hipótese a analisar é sua importância crescer na eleição quando 1) a economia vai mal ou quando 2) vai bem e há a ameaça real de piorar se o governo mudar de mãos. Quando políticas econômicas propostas por governo e oposição apontam para rumos parecidos, diminui a letalidade eleitoral provocada pelo medo da mudança.
Outro cuidado a tomar é sobre o que se quer dizer com “a economia”. Ela pode estar indo bem nos números macro que abastecem as manchetes, mas é sempre prudente olhar para o microcosmo das pessoas e das famílias, se se quer fazer um diagnóstico mais preciso. E nunca se deve perder de vista a equação “resultado - expectativa = satisfação”.
Quando um governo só olha para suas entregas, e se esquece de comparar com as expectativas que criou, pode ser surpreendido pela queda na satisfação do eleitorado.
Debater a economia é fundamental, ela sempre tem grande peso na decisão do voto. Mas talvez valha a pena olhar também para outras variáveis. Especialmente quando, como agora, não se vislumbra que as possíveis trocas de guarda no Brasil trariam mudanças radicais na condução econômica.
Também por a área econômica deste governo e sua orientação continuarem recebendo sustentação maciça em meios informativos tradicionais. Os mesmos que no passado ofereciam sua rede de segurança para autoridades às quais o PT se opunha na época. Excetuadas as turbulências trazidas por declarações e decisões presidenciais pontuais, reina na área boa dose de paz.
Sem subestimar a economia, tampouco é demais olhar para aspectos mais subjetivos dos mecanismos de produção de opiniões políticas. O capital político dos governos sempre se beneficia de dois pês: propósito e pertencimento. Quando está claro a que veio o governo, e quando ele passa a sensação de querer o bem de todo mundo, e não só de sua turma.
Acirrar as contradições e estimular a guerra de todos contra todos pode ser útil para reforçar o poder momentâneo, mas um efeito colateral é produzir sensação de exclusão em áreas que o andamento da economia pode até, eventualmente, estar beneficiando.
Por isso se diz que a política tem de andar de mãos dadas com a economia, para que a safra eleitoral não decepcione.
Assinar:
Postagens (Atom)
_poster.jpg)