sábado, 25 de julho de 2026

As agruras do terceirismo

Esta eleição presidencial é a primeira em que as propostas de terceira via (na falta de um nome melhor) se alinham à direita. Mas seu sofrimento não vem sendo diferente do vivido pelas versões à esquerda nas eleições anteriores. Todas mostram grande dificuldade para transmitir expectativa de poder. Com pouca militância e organização social frágil, penam para atravessar o deserto e não chegam a reunir massa crítica. E aí não conseguem projetar expectativa de poder.

É um ciclo infernal.

Talvez as dificuldades do terceirismo devam ser buscadas, em primeiro lugar, no conceito em si. Começando pela constatação de que não existe um centro, mas dois. Há os ditos progressistas infelizes com a hegemonia do PT e há os liberais e conservadores incomodados com o domínio bolsonarista sobre o eleitorado do centro para a direita. Não espanta, portanto, a dificuldade que se repete periodicamente quando tentam fazer o casamento do jacaré com a cobra-d’água.

Outro entrave é o centrismo sentir-se obrigado a ser oposição estridente aos dois polos. Condena-se de antemão a restringir seu mercado aos nem-nem. Se o sujeito vai abrir uma pizzaria numa rua em que outras duas já disputam e dividem a clientela, sair falando mal da concorrência não parece ser o mais inteligente. Melhor tentar espalhar o que você oferece de vantagem para o consumidor, por que ele deve experimentar a novidade.

Sem chamar o sujeito de burro por frequentar a pizzaria ao lado.

Pior ainda quando se cai no equívoco de centrar fogo, na primeira oportunidade, em quem está ideológica e politicamente mais próximo, para tentar roubar-lhe o eleitor. No caso da direita, isso tem sido flagrante. O eleitor de direita que até poderia pensar em buscar alternativas ao bolsonarismo olha e conclui que a concorrência está mais interessada em derrotar Flávio do que em impedir que Lula ganhe mais quatro anos no Planalto.

E, como boa parte dos eleitores polarizados pelo petismo e pelo bolsonarismo só estão mesmo interessados em derrotar o outro lado — a velha história de que o eleitor de segundo turno mais quer derrubar alguém do que eleger alguém —, a consequência é aumentar a própria rejeição. Isso talvez explique em parte por que candidatos antes desconhecidos são mais rejeitado quanto mais vão sendo conhecidos.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A hora das convenções

A tática do presidente da República no confronto com seu homólogo americano parece clara: esticar a corda até um ponto ótimo para auferir os dividendos eleitorais em outubro, mas sem rompê-la.

Depois da reeleição (Lula não trabalha com outra hipótese), torcer para que Donald Trump seja derrotado na eleição de deputados e senadores em novembro e se converta num lame duck (pato manco, aquele que tem mandato, mas não tem mais força política).

Depois, rezar pela vitória do candidato democrata em 2028 e, daí, garantir um ambiente amigável para fazer o sucessor em 2030. Basta recordar o papel do governo Biden na transição brasileira de 2022.

Será necessária alguma cautela para medir efetivamente o efeito dos atritos entre Brasil e Estados Unidos na eleição daqui. Até agora, os números eleitorais exibem razoável estabilidade, apesar dos fatos, ou factoides.

No agregado das pesquisas (o www.pollingdata.com.br faz um bom trabalho nesse aspecto), a distância entre os dois principais candidatos no cenário de segundo turno está apertada e tem insistido em oscilar nas margens de erro.

Neste período antes das convenções, o situacionismo vem sendo competente para produzir turbulências que, até agora, impedem, ou dificultam, a agregação da direita em torno de Flávio Bolsonaro.

Um risco para o petismo é o candidato do PL abrir a campanha oficial com uma coligação ampla e grande vantagem no horário eleitoral e nos recursos oficiais. No momento, esse risco parece minimizado.

Lula chega à véspera das convenções num quadro mais favorável do que se projetava no início do ano. Além da torrente de medidas populares, desfruta um inédito alinhamento institucional. Não há ator relevante na constelação do poder interessado numa mudança.

O problema? Mesmo com todas as condições objetivas favoráveis, as projeções atuais de segundo turno são-lhe bem menos róseas do que as de quatro anos atrás contra o Bolsonaro pai.

E a candidatura do PL vem demonstrando uma interessante resiliência.

terça-feira, 30 de junho de 2026

O enigma a resolver

À medida que a Copa do Mundo vai atingindo seu auge, e o fim do torneio aponta no horizonte, a campanha eleitoral ganha impulso. Vamos entrando no período de certa restrição à propaganda governamental e algum reequilíbrio na habitual desigualdade de armas esculpida em lei pela bizarra regra trazida por Fernando Henrique Cardoso em benefício próprio: quem concorre àreeleição no Executivo não precisa se desincompatibilizar, mas quem o desafia precisa deixar qualquer cargo e atravessar a campanha na chuva.

Teremos na disputa de 2026 a oportunidade de talvez solucionar um enigma irresolvido de 2022. A esta altura naquele ano, as projeções de segundo turno traziam na média, segundo o ótimo site pollingdata.com.br, Luiz Inácio Lula da Silva treze pontos percentuais àfrente de Jair Messias Bolsonaro. Como se sabe, a diferença final foi de menos de dois pontos. Hoje, a média aponta Lula apenas três pontos acima de Flávio Bolsonaro. O enigma: quatro anos atrás Bolsonaro conseguiu reduzir a distância por mobilizar a direita ou por ser governo?

Se a razão principal foi a primeira, Flávio tem boas perspectivas. Se for a segunda, a tendência é Lula abrir conforme a campanha avançar. Os fatos, sempre teimosos, dirão. E será necessário sempre, por cautela, descontar da contabilidade a tradicional assimetria entre intenção de voto, medida sobre o total do eleitorado, e resultado da urna, assimetria causada pela parcela em torno de 10% do eleitorado dispostos a escolher candidatos em pesquisas, mas que não aparecem no dia para votar. Acontece mais nas camadas de menor renda e escolaridade.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Solavanco nos números aqui e vento à direita no continente

O efeito "Dark Horse” parece ter sido absorvido e digerido pelo ambiente pré-eleitoral, deixando em aberto a intensidade do vetor antissistema/anticorrupção quando a campanha oficial der a largada com as entrevistas, debates e programas de rádio e tevê. A aposta predominante até agora é relativizar esse veio da disputa, dada a dificuldade de as alternativas aos blocos hegemônicos ganharem impulso. E dada a ubiquidade das encrencas e encrencados.

Os números fazem crer que houve um solavanco, com o incumbente ganhando uns pontos, principalmente por causa das fortes iniciativas econômicas expansionistas e da divulgação maciça que as acompanha. Mas o solavanco não parece produzir uma vantagem mais confortável ao líder, talvez por o governo tentar apenas anestesiar no varejo um problema que pede solução no atacado: libertar as forças produtivas para permitir a aceleração do crescimento.

A eleição está perto demais para o governo operar essa necessária correção de rota. Em certas circunstâncias, tentar desviar do iceberg muito perto dele é mais perigoso que pagar o preço pela inevitável colisão. O exemplo clássico é o Titanic. Mas há consequências por manter a rota. O governo entra na eleição sem uma visão clara de futuro, e eleições são disputas sobre o futuro. E sempre há o risco do desgaste político pós-eleitoral, como a História ensina.

Um detalhe que precisa ser observado com atenção é os ventos soprarem para a direita na América do Sul, como se viu agora no Peru e na Colômbia. Duas situações em que todo o esforço da esquerda para transformar a eleição num plebiscito contra o que chamou de "extrema direita” não foi suficiente para alcançar a vitória na urna. Não é a primeira vez em que o eleitor relativiza a disputa ideológica em favor da solução dos problemas do dia a dia.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

É a economia

Desde o caso "Dark Horse", mas especialmente desde a combinação de benesses econômicas governamentais e forte presença propagandística para divulgá-las, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a recapturar, ainda que lentamente, parte do voto não alinhado nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, e que dele vinha se afastando. Segundo a pesquisa Nexus divulgada hoje, esse movimento já permite ao incumbente uma leve vantagem numérica na projeção de segundos turnos realistas, expurgando a provável abstenção.

Flávio Bolsonaro vinha se beneficiando do "jogar parado”, mas essa fase do jogo ficou para trás. O momento da corrida presidencial lembra um pouco o primeiro tempo de Brasil x Marrocos: enquanto um time joga, o outro só assiste. A situação permite ao governo manter a iniciativa política, o que também em períodos eleitorais é uma vantagem não desprezível. Em campanhas, como em outras situações, quem perdeu a iniciativa e precisa se explicar já está perdendo.

Apontar o risco de que o festival de bondades produza, no caso de reeleição, um cenário algo semelhante ao colhido por Dilma Rousseff em 2015-16, tem uma vantagem e um problema. A vantagem é refrescar a memória do eleitor para o custo de “fazer o diabo” nas eleições. O problema é abrir espaço para a acusação de que o oposicionismo planeja cortar o oxigênio das medidas e sacrificar a população mais vulnerável.

Mas talvez não reste outro caminho para a oposição, visto que, se a ideia é manter o que está aí, não há muitas razões para os não alinhados votarem pela mudança. E um número que oscila menos é exatamente o que aponta o desejo majoritário por mudança, presente em todas as pesquisas. Por enquanto, a associação entre iniciativas econômicas do governo e alguma perplexidade da oposição freia a conversão de insatisfação em voto.

Nunca é demais, porém, lembrar que a corrida ainda não chegou nem ao fim do começo, quanto mais ao começo do fim. Na eleição mais ciclotímica de todos os tempos, o governo e a oposição ainda têm a atravessar as convenções, as entrevistas, os debates, a campanha de rua, a guerra nas redes sociais, o que na teoria garante alguma paridade de armas. Resta ver como isso se dará na prática.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Soberania e disputa de rejeições

O direito à soberania nacional segue a regra de que o detentor do direito precisa ter força para garantir o seu exercício. Outro detalhe: o escrito no papel garante alguma legitimidade, mas mesmo esta precisa sustentar-se socialmente. O contra-exemplo clássico é a busca de apoio internacional para combater um regime tirânico, como aconteceu aqui nos governos militares. Vale em situações assim o argumento de defesa da soberania?

O recurso ao soberanismo tem aparecido e desaparecido do discurso político conforme a conveniência eleitoral, alternando com o internacionalismo. A dúvida agora é se, e quanto, a narrativa terá efeito decisivo na nossa corrida pelo voto em outubro. Ajuda o oficialismo a substancial rejeição à figura do atual presidente dos Estados Unidos. Mas atrapalha um pouco o mesmo oficialismo ter desfilado posições flexíveis diante de outras pressões externas.

Como o congelamento da fronteira agrícola. Ou a recusa a explorar adequadamente nossos recursos minerais. É a tal história: de vez em quando, “ninguém se mete na nossa vida”, outras horas vem a angústia com “o que vão dizer da gente lá fora?”.

Mas há poucas atitudes mais ingênuas ou hipócritas na política, ou na crônica política, do que exigir coerência. Ainda que exibir a falta dela por parte do adversário ajude a criar constrangimentos. É um recurso, aí sim, para colocar o adversário na posição de ter de se explicar. E quem precisa se explicar já está perdendo. Daí que acusar o oponente de entreguismo seja sempre uma maneira de manter a iniciativa. O “upper hand”, na linguagem do boxe.

Essa talvez seja a questão central em disputas eleitorais. Quem consegue tomar a iniciativa e manter. Um jeito provado é acusar o adversário de algo muito grave e obrigá-lo a passar a campanha tentando reduzir o dano. E leva vantagem nisso quem tem a polícia eleitoral a seu favor. Poder acusar à vontade, enquanto ao concorrente não é dada a igualdade de armas. É uma vantagem e tanto, muito difícil de reverter.

Eleições em dois turnos costumam ser decididas numa disputa de rejeições. Daí a centralidade das armas à disposição de cada um para falar o diabo de quem está do outro lado.

domingo, 31 de maio de 2026

O crime, o espetáculo e a soberania

Evocar o princípio da soberania supõe sempre algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita. Os bolcheviques alistavam-se no exército russo para colocar lenha na fogueira do derrotismo na Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar a derrubar o regime. Aparece em Dr Jivago, o clássico hollywoodiano de 1965. A elite política francesa preferiu capitular à Alemanha na Segunda Guerra, pois tinha mais medo dos compatriotas comunistas que dos nazistas alemães.

A análise política perde-se quando abandona o foco: a luta pelo poder, geralmente travada sem muita consideração pelos princípios. Quando Jimmy Carter pressionou o então presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos humanos dos perseguidos pelo regime militar, a ditadura reagiu invocando o princípio da soberania. O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”.

A classificação pelos Estados Unidos de organizações criminosas brasileiras como terroristas, com todas as consequências políticas e legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de Washington. O governo brasileiro já vinha mostrando flexibilidade tática diante da pressão da administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo estratégico não estava jogado. Está longe de ser um segredo que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina Monroe 2.0.

Só que existe um problema anterior. O avanço por aqui, aparentemente imparável, do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado. Anunciam-se planos, votam-se leis, convocam-se entrevistas coletivas para desfilar soluções, mas a doença ignora o espetáculo e avança. Discutir princípios é importante, mas defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o risco de alguém de fora querer meter o bedelho.

Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou capital político no episódio das tarifas ao lançar mão do discurso da soberania. Vai funcionar quando a disputa é sobre o combate ao crime organizado? Vamos aguardar os números. Eles dirão se o eleitor está mais incomodado com a ingerência externa no Brasil ou com a ingerência do crime sobre a vida dele, eleitor.

domingo, 24 de maio de 2026

O áudio, as pesquisas e a abstenção

Até a véspera da eleição as pesquisas apresentam seus resultados em porcentagens sobre o total do eleitorado. Um ou dois dias antes do pleito passam a apresentar as projeções de votos válidos, descartando os brancos, nulos e indecisos. Isso foi introduzido de alguns anos para cá, com o objetivo de atenuar os questionamentos sobre as pesquisas, pois os resultados oficiais sempre aparecem em votos válidos.

Em 1998 Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%, sempre sobre o total do eleitorado. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.

Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.

Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.

Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.

A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deveria introduzir alguma prudência nas conclusões.

A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Finalmente um fato novo

A semana introduziu o elemento novo que faltava na sucessão presidencial: uma instabilidade com potencial para produzir desequilíbrio. O quadro vinha bem ossificado, aguardando apenas a formalização das alianças e chapas para a largada oficial. E a grande dificuldade dos azarões era uma barreira de entrada aparentemente instransponível, segundo as pesquisas.

Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.

Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a ostentação de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.

Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.

Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.

Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).

De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.

O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).

Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.

Para prestar atenção

A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?

O filme das pesquisas

Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?

A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?

sábado, 9 de maio de 2026

Onde a corrupção dói mais

Os novos capítulos do Caso Master reintroduziram no debate político conjecturas sobre o impacto do tema corrupção na eleição presidencial. Semanas atrás, num momento de alta temperatura do assunto, este chegou a ultrapassar a economia e a segurança pública no ranking das preocupações dos entrevistados em pesquisas. Mas em seguida viu-se uma reacomodação, sinal de resiliência das questões mais capazes de produzir impacto direto e imediato no brasileiro médio.

E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.

O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.

Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.

A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.

A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.

Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.

Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.

Com as naturais consequências.

No que prestar atenção

Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações

Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã

Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?

Até a semana que vem.

sábado, 2 de maio de 2026

A fé na conta de chegada

Ao adotar suas linhas de ação política e econômica e, principalmente, ao persistir nelas mesmo diante das circunstâncias, o governo federal acaba refém de duas contas de chegada.

A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.

A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.

Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.

A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.

Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.

Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.

É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.

Alívio nas pesquisas, sofrimento na política

O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.

Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.

Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.

Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.

Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.

No que prestar atenção

Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?

Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?

As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?

Até a semana que vem.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Batom na estátua

É possível que o governo Luiz Inácio Lula da Silva subestime o custo político de apoiar incondicionalmente a atuação do Supremo Tribunal Federal nos processos contra os acusados de 8 de janeiro de 2023. Não é tão difícil entender o potencial dano eleitoral do contraste entre a liberdade proporcionada a tantos envolvidos em comprovados crimes graves e a dureza granítica das atuais punições aos manifestantes que depredaram as sedes dos três poderes, uma ação obviamente condenável.

Na guerra de narrativas, o 8/1 foi para uns grave atentado contra a democracia. Mas para uma fração significativa do eleitorado, ainda minoritária, foi só um ato de depredação de edifícios públicos. Não é preciso tanta inteligência ou capacidade preditiva para saber que o primeiro grupo tende a diminuir e o segundo a crescer. Ainda por cima se a segunda narrativa vem embalada em exemplos que o homem comum pode facilmente interpretar como flagrante injustiça.

Uma dúvida razoável é por que o governo não influi para expurgar da onda inquisitorial as aberrações mais aberrantes. Talvez porque, na ausência de base parlamentar mais sólida, tema enfraquecer o “presidencialismo de coalizão com o Judiciário”. Talvez porque tenha se tornado, ele próprio, prisioneiro da sua narrativa. É uma dessas situações em que o sujeito, para manter de pé uma versão, passa a agir contra seus próprios interesses.

Para o sistema punitivo, é vital manter uma conexão entre o 8/1 e as comprovadas movimentações do então presidente, derrotado nas urnas, para invalidar o desfecho da eleição. O 8/1 permite à acusação dizer que a ruptura não foi apenas desejada, mas efetivamente tentaram colocá-la em prática. As evidências materiais dessa conexão são frágeis até o momento. Mas, como se diz, “é o que temos para hoje”. 

Daí a dificuldade política de expurgar da marcha penal situações como o batom na estátua. Sem o “batom na cueca”, resta o batom na estátua.

Não fosse por isso, a separação entre os participantes de delitos menores e os demais acusados já teria sido feita há tempos, evitando que o governo perdesse o timing, o que permitiu à oposição fincar pé na acusação de injustiça. Lutar contra injustiças sempre permite ao lutador alguma iniciativa, mesmo em situações desfavoráveis.

É verdade que, com isso, a oposição deixa para o governo a oportunidade de ocupar-se sozinho do que interessa mais ao povão: o preço das coisas. E o governo ganha tempo. está à espera de que, enquanto fala mal do Banco Central (BC), o BC faça o serviço para o situacionismo e derrube a inflação.

Além do mais, o Planalto conta com a docilidade dos mecanismos de formação da opinião, eles próprios encaixotados no temor de não parecerem suficientemente alinhados na defesa da democracia.

*

Pela nova regra do consignado, o trabalhador pega um empréstimo no banco, para pagar juros e o principal, dando como garantia 10% do seu FGTS.

Fica uma dúvida: por que não simplesmente deixar o trabalhador sacar 10% do seu FGTS?

Até para o trabalhador não passar pela estranha situação de ter de pagar ao banco juros por tomar emprestado um dinheiro que é dele mesmo.

terça-feira, 4 de março de 2025

Esquerda em apuros. E a conversa fiada sobre a guerra

É visível e mensurável a ascensão de forças políticas nacionalistas em escala global. A base material foi desencadeada pela crise financeira de 2008-09, quando a chamada globalização apresentou suas primeiras graves rachaduras. Como tudo na História, o andamento não é linear, tem idas e vindas, mas parece caminhar bem, sem que tendências contrárias mostrem energia suficiente para reverter.

A maioria da esquerda, aparentada da social-democracia, é a principal perdedora neste round.

Aos fatos. Em certo momento ela abandonou a luta 1) pela soberania nacional, 2) pelo desenvolvimento, 3) pela igualdade e 4) pela liberdade. Trocou seus melhores episódios desde a Revolução Francesa por uma mistura mal ajambrada de kautskysmo (teoria do “ultraimperialismo”), malthusianismo, tribalismo identitário e ânsia repressora.

Como essa mixórdia de pontos desconexos não é capaz de proporcionar às massas trabalhadoras um horizonte de elevação consistente do seu padrão de vida, estas se voltam para a direita em busca de luz. Direita que recolhe as bandeiras acima de 1 a 4 para capturar uma base social antes hostil, ampliar sua potência eleitoral e abrir caminho para chegar ao poder.

O nacionalismo têm papel central nessa disputa. Defender a nação como espaço de proteção, liberdade e prosperidade vem se mostrando mais eficaz para mobilizar os povos do que um universalismo até agora incapaz de deixar o terreno da utopia. As pessoas não são estúpidas. Qualquer um compreende perfeitamente a diferença entre os graus de liberdade do capital e do trabalho quanto tentam cruzar as fronteiras entre o primeiro e o terceiro mundos.

A resultante é a contradição grotesca entre o discurso da esquerda em defesa da democracia e sua inclinação à repressão pura e simples para manter-se no poder. Recorrendo a uma expressão cara a esse campo, é óbvio que não tem a mínima sustentabilidade.

***

O governo dos Estados Unidos não parece disposto a continuar financiando a fundo perdido na Ucrânia uma guerra inganhável. A aposta europeia e do governo Joe Biden deu errado. As sanções não arruinaram a economia da Rússia, também por uma razão: a China jamais permitiria ao Ocidente subjugar os russos e impor-lhes o Versailles que se impôs à então União Soviética.

Resta, então, como caminho para uma vitória total sobre Moscou, o militar. Alguns problemas aqui. A Rússia é a maior potência nuclear do planeta. E, ao contrário dos últimos momentos da URSS, mostra coesão política interna para evitar a capitulação.

Mais ainda: numa guerra convencional, é impensável que os ucranianos derrotem os russos. Para melhorar a probabilidade desse desfecho, seria necessário europeus e americanos toparem ir morrer nos campos de batalha, além de empenhar todas as economias na empreitada. E mesmo assim o desfecho mais provável seria uma conflagração nuclear planetária.

Diante disso, a melhor saída é buscar um acordo, que naturalmente deverá levar em conta a realidade no terreno da guerra. “Ah, mas e a soberania? E o direito dos países à integridade territorial?”. É hora de retirar do baú uma velhíssima lição da História. Os países têm direito à soberania e à integridade territorial na exata medida da força que eles e suas alianças têm para garantir a soberania e a integridade territorial.

O resto é conversa fiada.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Guerra por procuração é mais fácil

A acusação dos europeus de que Donald Trump se inclina pelo “apaziguamento” da Rússia na guerra entre russos e ucranianos enfraquece-se por causa de um ponto preliminar: quem morre na guerra são ucranianos e russos. A Europa decidiu guerrear a Rússia por procuração. Por isso não fica tão doído assim, para os europeus, defender que a guerra precisa se estender “até a vitória final”.

A memória histórica sempre tem alguma utilidade, daí a conveniência de lembrar que oito décadas atrás a Europa caiu como uma fileira de peças de dominó diante dos exércitos de Adolf Hitler, sendo ao final salva de si mesma pelas dezenas de milhões de mortos soviéticos e pelas tropas provenientes do outro lado do Oceano Atlântico.

Se não se deve subestimar a importância das guerrilhas europeias que resistiram ao nazismo, seria irrealista imaginar que a Europa teria dado sozinha conta do problema.

É verdade também que europeus e norte-americanos são sócios-fundadores do desastre contemporâneo no Donbass e em Kursk. Basta recapitular. Finda a Guerra Fria, o bloco atlantista tinha duas opções: absorver a Rússia numa "Europa ampliada”, com as devidas garantias de segurança, ou garrotear o urso ferido para arrancar dele tudo que fosse possível e reduzi-lo a colônia. Ou continuar seu desmembramento.

Como se isso fosse realista.

A crise ucraniana é produto, antes de tudo, da falta de prudência do Ocidente. Em 2014, bastava esperar a eleição em Kiev, pois a derrota do bloco pró-russo era bola cantada, e a Ucrânia entraria na União Europeia sem maiores traumas. Mas os estrategistas da Casa Branca e do Departamento de Estado, secundados pelas potências europeias, decidiram insuflar o golpe contra o impopular presidente Viktor Yanukovitch.

O resultado foi a secessão da Crimeia, que caiu nas mãos de Vladimir Putin como uma fruta madura cai do galho, e os movimentos secessionistas no Donbass. Aí Kiev entrou em guerra contra Donetsk e Lugansk e passou a bombardear sistematicamente a população civil dali, majoritariamente de origem russa. E todas as tentativas de resolver a pendenga na mesa de negociações pararam no desejo europeu de impor à Rússia uma derrota militar e política estratégica.

Aí Putin errou grosseiramente na análise da correlação de forças, achou que suas tropas seriam recebidas na Ucrânia como libertadoras, quando o nacionalismo ucraniano vinha de ser sistematicamente anabolizado desde a dissolução da URSS. Subestimou também a quedinha da Europa do Leste pelo sonho europeu. Esqueceu-se ainda de que, quando a Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, a Wehrmacht teve recepção de gala na Ucrânia ocidental, só vindo a enfrentar resistência quando se aproximou do leste ucraniano.

O resultado está à vista de todos. A Europa imagina ter força para evitar a absorção da Ucrânia pela Rússia, mas sabe faltarem-lhe recursos políticos, materiais e humanos para uma vitória decisiva. A Rússia, parece, já entendeu que o mesmo se dá do lado dela. Seria portanto uma hora boa para negociar a paz. O maior obstáculo é os políticos europeus terem prometido a seus povos que era possível impor uma derrota estratégica, sem aspas, a Moscou.

Outro obstáculo é que, na prática, a paz agora implica reconhecer conquistas territoriais de Putin e Zelensky na guerra. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos.

domingo, 27 de outubro de 2024

O peso do centrismo

O segundo turno das eleições municipais obedeceu a uma regra, excluídas as exceções que a confirmam: ganhou quem conseguiu avançar sobre um certo centro político, da centro-direita à centro-esquerda. Apesar de alguns insucessos, nesta rodada, de candidatos “do coração” do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi o PT quem mais sofreu com a dificuldade de atrair votos centristas.

E o que esse peso do centrismo projeta para 2026? A mesma lógica: Os dois polos atraem a ampla maioria do eleitorado, mas, em situações de relativo equilíbrio, uma minoria de certa dimensão acaba tendo papel decisivo. Pois quem tem um piso eleitoral alto pode perfeitamente exibir um teto eleitoral insuficiente para atingir a maioria absoluta necessária para eleições majoritárias.

Em 2024, a direita exibe mais capacidade de atrair o contingente que pendula entre os campos ideológicos, diferentemente de 2022. Por algumas razões principais. Duas delas 1) não se pode alegar no cenário político maiores ameaças à institucionalidade; e 2) o governo federal não chega a cultivar a frente política que lhe deu a apertada vitória de dois anos atrás.

Algumas análises do primeiro turno creditaram a onda de vitórias do chamado centrão a um acesso privilegiado a recursos orçamentários provenientes das emendas parlamentares. Pode até ser uma explicação em municípios menores ou alguns médios em regiões mais dependentes de verba federal, mas é uma tese insuficiente na ampla maioria das cidades em que pode haver segundo turno.

Passada a eleição, as atenções voltam-se para o Congresso Nacional, em dois pontos: a pauta de votações e a sucessão nas mesas diretoras das duas casas. No primeiro, a curiosidade é se o governo vai ajustar a rota para algo mais centrista, ao olhar as derrotas eleitorais, ou se vai operar uma fuga para adiante, guinando à esquerda. Alguns sinais apontam na primeira direção.

Na troca de comando das mesas, o Senado parece momentaneamente pacificado em torno da recondução de Davi Alcolumbre (União-AP), mas a Câmara dos Deputados ainda apresenta algum grau de incerteza, mesmo que os ventos soprem a favor de Hugo Motta (Republicanos- PB). Resta saber qual será o desfecho das ambições dos demais pré-candidatos, se haverá consenso ou algum grau de disputa.

Parece improvável que, diante dos fracos resultados eleitorais, o governo deixe a eleição das mesas no Congresso enveredar para disputas que poderiam enfraquecê-lo e até, no limite, trazer para seu colo derrotas à semelhança da que o PT sofreu para Eduardo Cunha em 2015. Por mais que a ideologia possar falar alto, mais alto falará o instinto de sobrevivência de Luiz Inácio Lula da Silva e do partido.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Uma janela para Boulos

A semana trouxe novidades nas pesquisas públicas da eleição paulistana, tendências que já vinham detectadas nos trackings reservados. As principais mudanças não estão nos números, são políticas. Em resumo, o ensaio de guerra civil no bolsonarismo oferece ao campo petista-psolista a possibilidade de, por enquanto, jogar parado e concentrar-se em reduzir a rejeição de seu candidato à Prefeitura de São Paulo.

O principal problema de Guilherme Boulos (PSOL) não está no primeiro turno, pois é improvável que alguém roube dele fatia substancial dos votos de seu campo.

O desafio está nas simulações de segundo turno, em que invariavelmente aparece bem atrás do prefeito Ricardo Nunes (MDB). A ida de Pablo Marçal (PRTB) à decisão ofereceria ao psolista uma narrativa mais verossímil na tentativa de reeditar a “frente ampla” que fez Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad chegarem na frente, respectivamente, de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas na capital paulista dois anos atrás.

Pois é óbvio ser bem mais viável carimbar Marçal como “bolsonarista” do que fazer isso com Nunes, até porque o prefeito não oferece características para classificá-lo com qualquer viés político-ideológico.

A conturbação no campo da direita paulistana tem algumas raízes no estilo de liderança de Bolsonaro, algo caótica e inclemente. Isso deixou nos últimos seis anos um rastro de ressentimentos e diversos quadros feridos pelo caminho, que agora veem a oportunidade de voltar a ocupar espaço no afeto político do capitão reformado, guerreando contra a turma hoje prestigiada. Mas a janela não se abriria sozinha sem povo, daí a importância de Marçal.

Até ontem, quem se recusava em algum momento a seguir fielmente alguma diretriz bolsonarista acabava sem oxigênio político, pois os votos eram do próprio Bolsonaro, e de mais ninguém. Veremos se Marçal consegue romper a maldição. E ele está se esforçando para fugir de ser caracterizado como traidor, carimbo que amputou promissoras carreiras políticas na direita pós-2018.

Marçal não teria ambiente para fazer o que faz, na escala em que faz, não fosse por dois outros elementos da conjuntura.

O primeiro é um crescente incômodo popular com o universo paralelo brasiliense, em que os atores se movimentam como se não devessem explicações a ninguém e como se não houvesse amanhã. Isso vai reavivando as brasas da antipolítica, que um dia já se chamou “nova política”, mas vai se convertendo em rejeição da política em geral, dado que esta parece estar, de ponta a ponta, 100% abduzida pelo establishment.

Esse vetor acaba potencializando outro, o maximalismo de uma base social de direita, que se parece em algum grau com a esquerda lá atrás, quando esta imaginava ter um bilhete sem escalas ao ponto final de seu projeto. As agruras da vida domesticaram a esquerda, que aprendeu a suportar as paradas, mesmo rangendo os dentes, mas sempre de olho no destino sonhado.

A massa de direita ainda vive num estágio espiritual anterior.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

As emendas da discórdia

O que a disputa em torno das emendas parlamentares, agudizada esta semana, não é? Não é uma pendenga 1) entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal; ou 2) entre a irracionalidade e a racionalidade nas decisões de investimento com recursos do Orçamento; ou 3) entre a pulverização improdutiva e o direcionamento estratégico dos investimentos; ou 4) entre o enfraquecimento e o fortalecimento da capacidade de investir do governo.

O que ela é, então? Basicamente, uma batalha da guerra entre o Executivo e o Legislativo em torno de apenas um objetivo: reduzir ou aumentar a independência dos parlamentares diante do presidente da República. O que toma maior importância quando a eleição produz, como agora, o claro desalinhamento de orientações político-ideológicas entre o chefe do Palácio do Planalto e as maiorias da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

Se o Brasil, o governo ou o STF estivessem mesmo preocupados com o engessamento orçamentário e a pouca racionalidade na destinação dos recursos públicos, notar-se-ia um movimento para reduzir as vinculações orçamentárias. Até porque as emendas parlamentares são uma fração menor do gasto público, apesar de se terem tornado parte cada vez mais significativa do que se pode investir discricionariamente.

O problema é outro: dado que o sistema eleitoral brasileiro está organizado para impedir o presidente eleito de levar com ele a Brasília uma maioria parlamentar própria, restam ao vencedor três mecanismos principais para disciplinar o Legislativo: 1) a Justiça/polícia; 2) a distribuição de cargos; e 3) as emendas parlamentares. O primeiro ativo serve para coerção, e, como ninguém governa só com base nisso, os outros dois ajudam a construir algum consenso.

Seria porém complicado demais para qualquer governante lotear o grosso dos cargos entre seus adversários político-ideológicos, até pelo risco de eles o engolirem lá na frente. Resta, como arma disponível mais eficaz, a distribuição de dinheiro às bases dos parlamentares. Em resumo, se você vota comigo, você tem mais recursos para distribuir aos seus prefeitos. Se preferir fazer oposição, infelizmente terei de prestigiar seus adversários na base eleitoral.

Só que o fio dessa espada do Planalto anda cada vez mais cego, pelo avanço dos mecanismos impositivos no pagamento das emendas parlamentares. Traduzindo, uma parcela cada vez mais expressiva das emendas é de execução obrigatória. Aí o parlamentar eleito em oposição a Luiz Inácio Lula da Silva fica mais livre para não acompanhar o governo nas votações. E corre menos risco de desgaste na base e de ver surgir concorrência à direita quando tentar se reeleger.

E um detalhe curioso: dependendo do governo de turno, o leitor poderá observar interessantes pendulações na opinião pública. Os que num dia criticam o uso das emendas parlamentares por “comprar” deputados e senadores no outro criticam o Congresso Nacional por ampliar a execução obrigatória, e assim “retirar do presidente da República a capacidade de governar”. E vice-versa.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

“Cleaners” de Tarantino no teatro da política

Para candidatos a posar de mediador, o enrosco venezuelano apresenta alto grau de dificuldade no momento, pois a barreira entre as posições ainda é intransponível. A divergência central é sobre quem fica no poder. De um lado, a oposição tem até agora todos os elementos para informar que venceu na urna por larga margem. Do outro, o governo mantém o controle da autoridade eleitoral e, aparentemente, da força armada.

O objetivo de organizar uma transição pacífica em Caracas não é, por enquanto, uma meta intermediária entre os desejos das partes. O governo declara-se vencedor e busca musculatura militar para impor os números anunciados por sua fiel entidade eleitoral. Há também o complicador de a situação atual já ter sido fruto de uma negociação, e seu desfecho pouco ou nada acrescenta à credibilidade de uma nova rodada de entendimento.

Enquanto isso, segue o pingue-pongue sobre legitimidades. Chama atenção o argumento de respeitar a soberania da Venezuela, os países reconhecerem o governo de fato sem se imiscuir nos assuntos internos dali. Seria um argumento, não fosse pelo detalhe incômodo de ter sido ignorado lá atrás quando um dia o então governo petista usou contra o Paraguai a mesma lógica dos hoje adversários do petismo no imbroglio venezuelano.

Em 2012, o presidente paraguaio, Fernando Lugo, alinhado à esquerda, sofreu um impeachment-relâmpago heterodoxo, ainda que sustentado na letra da Constituição. A oposição aqui ao então governo petista exigiu respeitar a soberania do vizinho, mas a administração Dilma Rousseff enxergou a janela de oportunidade para incorporar a Venezuela ao Mercosul, o que vinha sendo bloqueado pelo Congresso em Assunção, de viés conservador. 

A soberania paraguaia foi deixada de lado pelo Mercosul, o Paraguai foi suspenso e os demais introduziram Caracas no bloco, num “gol de mão". Depois os paraguaios voltaram ao grupo, mas o objetivo já fora atingido. 

Os ovos já tinham virado omelete.

Aí chegou o ano da graça de 2016, e um momentâneo consenso subcontinental de governos à direita suspendeu a Venezuela, situação que persiste.

Fica a lição sobre a ingenuidade de levar excessivamente a sério as argumentações baseadas em doutrinas e princípios. Nas relações entre países, e em outras esferas da política, o argumento que costuma prevalecer é a força. Resta aos ideólogos e propagandistas tentar copiar o inesquecível Winston Wolfe, “The Cleaner” (limpador, ou faxineiro) no Pulp Fiction (1994) de Quentin Tarantino.

Harvey Keitel interpreta o sujeito que chega para limpar e dar sumiço na sujeira sanguinolenta produto de um homicídio cometido dentro de um carro. A frieza, objetividade e competência do “The Wolf” entraram para a história do cinema.

*

Por falar em teatro na política, e só para retomar um assunto inconcluso, segue o mistério. Luiz Inácio Lula da Silva e o PT descem a ripa em Roberto Campos Neto, mas os diretores do Banco Central nomeados pelo atual governo, incluído o suposto favorito para assumir a presidência do BC, votam alinhados com o presidente do banco.

sábado, 3 de agosto de 2024

Enrosco venezuelano

O impasse em torno da eleição na Venezuela aprisionou a política exterior brasileira na contradição que esta corteja há tempos: qual a prioridade do Brasil no âmbito regional, expandir a hegemonia político-ideológica do campo alinhado ao petismo ou consolidar a liderança brasileira numa região que pendula, mas exibe um pluralismo bastante resiliente?

O dilema jogou um papel relevante na crise que tragou o PT na Operação Lava- Jato. Mas isso é passado, é história.

Sobre a disputa venezuelana, Luiz Inácio Lula da Silva vê-se diante de problemas intrincados.

Cabe ao governo de Caracas provar que ganhou mesmo a eleição, mas os dados das atas de urna jogam contra. E o governo dos Estados Unidos reconheceu a vitória da oposição. Seguir o caminho oposto levará o Brasil a um confronto aberto com Washington.

O que não seria tão complicado se Donald Trump estivesse na Casa Branca, porém Lula tem uma fatura aberta com Joe Biden por causa do apoio recebido em 2022 e no início de 2023, quando Jair Bolsonaro contestou a vitória do petista.

E Lula ambiciona voltar a um certo protagonismo global desfrutado nos primeiros mandatos. Aí precisa equilibrar-se entre 1) cortejar o campo político liderado por China e Rússia (para o que contribui sua inclinação estratégica pelo Irã na disputa de hegemonia no Oriente Médio); e 2) preservar o bom trânsito no campo atlantista.

De olho no segundo objetivo, o presidente brasileiro dispõe de três boas cartas na manga: a COP 30, o acordo Mercosul-União Europeia e a liderança regional.

A primeira vai melhor do que o segundo, mas a expectativa europeia de abocanhar o mercado brasileiro e sul-americano em troca apenas de arrochar um pouco seus próprios agricultores pode amortecer eventuais dissonâncias.

Só que tem também o terceiro ponto.

Lula não é um principiante na arte do equilibrismo, mas pequenas aporrinhações de vez em quando atrapalham.

O governo brasileiro conviveria sem maiores problemas com a Venezuela governada pela centro-direita, especialmente se Brasília tivesse um papel na estabilização política em Caracas. Mas, e as íntimas relações históricas com o chavismo? Daí, aparentemente, o Planalto ter adotado a linha de deixar o assunto resolver-se por si só.

Ainda que tudo seja provisório numa conjuntura tão instável.

Dias atrás Biden trocou umas ideias com Lula sobre o enrosco, pouco antes de o Departamento de Estado reconhecer que a oposição venezuelana ganhou no voto. É improvável que o americano não tenha avisado o brasileiro das suas intenções. Tampouco é provável que não se tenham acertado em algum grau.

Afinal, um dos papéis que Washington reserva a Lula é tomar conta da área. O Brasil, a Colômbia e o México ajudaram a derrotar na Organização dos Estados Americanos a demanda para que o governo da Venezuela apresente as atas de urna que comprovem sua declarada vitória, mas logo depois soltaram um comunicado pedindo exatamente a mesma coisa.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

As voltas da História e o rei nu

A troca palaciana forçada de Joe Biden por Kamala Harris na chapa situacionista para as eleições presidenciais norte-americanas oferece a oportunidade de comparações na História.

Uma referência possível é 1968, quando, no auge na onda de mobilizações desencadeadas pelo Maio parisiense, pelos protestos contra a Guerra do Vietnã e pelo prestígio das revoluções armadas, o Partido Democrata do liberal (ali isso significa esquerda) Hubert Horatio Humphrey Jr foi derrotado pelos republicanos de Richard Milhous Nixon.

Para refinar ainda mais os paralelismos, Humphrey era vice do incumbente, Lyndon Johnson, que desistira de concorrer precisamente por causa do desgaste trazido pela guerra no Sudeste Asiático. Dizem que a desistência foi apenas uma manobra e que Johnson imaginava retomar gloriosamente a indicação apresentando-se na hora "h" como a única alternativa ao caos entre os democratas.

Dizem também que ele foi demovido da ideia depois que o Serviço Secreto não lhe garantiu as necessárias condições de segurança para comparecer à conflagrada convenção partidária.

O ambiente agora entre os democratas parece bem mais pacificado, mas a disputa com o campo oposto será algo parecida, até por alguma semelhança reputacional entre Nixon e o atual desafiante republicano. Quem vai levar? O liberalismo cosmopolita de Kamala Harris ou o conservadorismo patriótico de Donald Trump?

Se a comparação mais imediata é com 1968, vale também dar uma olhada no que aconteceu quatro anos depois, quando o conflito vietnamita já caminhava para uma derrota calamitosa dos americanos e apareciam as primeiras sombras de Watergate. Mesmo assim, Nixon conseguiu a reeleição vencendo o democrata ultraliberal George Stanley McGovern em todos os estados, com exceção de Massachusetts e da capital (DC). Um landslide.

Claro que nestes nossos tempos acelerados meio século faz diferença, e os EUA hoje não são uma cópia do país de então. Estamos, como o culto a certa modernidade gosta de ressaltar, "em pleno século 21". De todo jeito, a disputa será uma medida de quanto os Estados Unidos mudaram ou continuam iguais.

Vale observar e verificar se Kamala Harris conseguirá agrupar a aliança social que deu vitórias recentes aos democratas, juntando uma base trabalhadora-sindical tradicionalista e o “wokismo” de elites liberais, financeiras e intelectuais. Ou se o radicalismo pretensamente modernizante empurrará, como em 2016, uma fração decisiva do antigo operariado para favorecer Trump em estados-chave pendulares.

Não à toa a demografia ali ganha terreno sobre a marquetagem. Isso muito se deve ao protagonismo dos resultados eleitorais estaduais naquele país, algo particularíssimo. Mas os grandes movimentos do eleitorado americano não refletem uma realidade apenas local. A Europa que o diga.

*

Ainda sobre a troca de candidatos no Partido Democrata, é relevante que a fragilidade mental de Biden para governar só tenha sido admitida por seu campo político depois de escancarada no primeiro debate.

Um típico caso de “o rei estava nu”, para recorrer ao clássico sobre a roupa nova do monarca. Um exemplo paradigmático de como ter lado (e todo mundo tem um) acaba limitando a capacidade de o jornalismo cumprir sua primeira missão: contar o que realmente acontece.

O Poder360 fez uma matéria interessante sobre isso.

E restará para sempre a dúvida se a agora ex-campanha de Biden não era só uma operação política para eleger Kamala sem ela precisar disputar no voto.