sábado, 8 de junho de 2024

Lentes que não servem mais

É bem conhecido o princípio, de autoria célebre, sobre a pouca racionalidade em repetir sempre os mesmos procedimentos e esperar que deem resultados distintos dos habituais. Talvez seja útil para compreender os possíveis caminhos de solução do enigma político-marquetológico do momento: por que o governo amealha na popularidade pouco ou nada dos resultados econômicos favoráveis?

Já se abordaram nesta análise rotineira razões de caráter subjetivo. Podem ser resumidas no desconforto progressivo que o governo constrói para si na população que resiste à reforma comportamental-moral-doutrinária da sociedade a partir do Estado. Têm também raízes num certo ambiente opressivo sentido pelos que não se alinham 100% ao oficialismo.

Afinal, a variável a sempre medir neste particular é menos a sensação de liberdade de quem apoia o governo, e mais a de quem em graus distinto se opõe a ele.

Como aspectos subjetivos nunca devem bastar na análise de dificuldades político-comunicacionais, é preciso dissecar a economia política, a “anatomia da sociedade civil”, segundo a terminologia clássica. Vale a pena olhar para dois pontos sensíveis: 1) a receita do governo para combinar doses de disciplina fiscal e expansão de gastos e 2) uma certa incapacidade de o PT compreender o país que ajudou a construir desde 2003.

No primeiro, a resultante dos dois vetores são mais impostos. Ou novos ou produto da engorda dos existentes. Isso afeta não apenas os atingidos, mas também os ainda não atingidos, mas temerosos de serem alguma hora. E há uma diferença entre as amplitudes e velocidades do mal-estar provocado pelo furor arrecadatório e as dos benefícios das turbinadas políticas públicas.

Recorde-se o papel dessa assimetria na crise de 2013.

O segundo ponto? O PT parece olhar 2023 com as lentes de duas décadas atrás. Naqueles já distantes anos, Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Planalto como a dupla esperança de renovação pol tica e combate à pobreza. Hoje, não dá para dizer que Lula ou o PT consigam projetar uma imagem de força transformadora, nem as receitas clássicas de redução da desigualdade fazem o mesmo efeito.

Desde 2013, sabe-se que os investimentos sociais e o crescimento da primeira década petista produziram apenas parcialmente um contingente grato a Lula e ao PT. Boa parte, talvez a maioria, dos ascendentes consideram-se responsáveis pela própria ascensão social e almejam não mais Estado, mas um Estado mais eficiente e mais liberdade econômica. Essa é a dura, para o PT, realidade.

O problema é este terceiro mandato de Lula insistir, ou ao menos parecer insistir, numa certa estatolatria, utopicamente voltada para um Estado igualmente utópico, mas na vida real aprisionada pelo Estado brasileiro realmente existente, esta azeitada máquina de concentração de renda, produção de desigualdade e blindagem de privilégios.

E que nos últimos tempos agregou a isso a arrogância dos autonomeados protetores da sociedade e da democracia, que por isso acreditam poder fazer o que bem entendem e viver da maneira que bem entendem, sem dever explicações a ninguém.