quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Estamos no jogo

A cobertura da imprensa traz o ritmo da vacinação no Brasil (leia) e mundo afora (leia). Apesar dos pesares, especialmente apesar da barafunda política, não estamos tão para trás. Esta tabela (clique aqui) mostra bem. Com um pouco de sorte, e quando a fabricação por aqui estiver no ritmo, poderemos dizer que se acendeu a luz no fim do túnel. Enquanto isso, seguem as medidas restritivas (leia).

A boa notícia é que nos países onde a vacinação vai mais acelerada (EUA, Reino Unido, Israel) se nota um declínio consistente do número de novos casos (leia). O quanto isso se deve à vacina ou à transmissão viral propriamente dita, cabe aos cientistas dizer. Mas não deixa de ser um alívio notar a melhora nos lugares que vacinam suas populações de modo mais agressivo, ou eficiente.

Por falar em eficiência, ou ineficiência, quem não vai bem no quesito é a Europa (leia). Em parte porque os laboratórios não estão entregando os imunizantes no ritmo prometido. Em parte por causa da desconfiança de segmentos em relação às vacinas. Este último problema, causado por desinformação e comunicação precária.

Não chega a ser um alívio completo, mas, olhando os números frios, estamos no jogo.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Dia de recuperação

Hoje as ações da Petrobras recuperaram num dia algo em torno da metade do que haviam perdido ontem. Uma explicação é o papel ter ficado barato. Outra, complementar, é talvez o bicho não ser tão feio quanto pintaram na véspera.

Será prudente acompanhar os próximos movimentos. Se a variação de preços for apenas suavizada, sem ônus excessivos à companhia, e se o resultado para os acionistas for devidamente cuidado, é razoável esperar recuperação das ações, ainda que deva levar um tempinho.

Com o passar dos dias, e a partir da normalização do cenário na Petrobras, é provável que o foco da disputa política se desloque para o Congresso, onde já aparece um fruto apetitoso a ser colhido pela equipe econômica: a desvinculação dos gastos orçamentários.

Ela é o troféu que o comando do Legislativo e o Planalto oferecem para mostrar a sobrevivência da agenda liberal. A trepidação na Petrobras teve efeito centrífugo na elite empresarial. É esperado que o governo agora vitamine as forças centrípetas.

Do episódio, uma leitura vai sedimentando: o recado de Bolsonaro é “toquem a agenda, mas não coloquem em risco meu mandato agora e minhas possibilidades de reeleição daqui a pouco menos de dois anos”.

Nota-se certa decepção com esse limite colocado aos movimentos do ministro da Economia. Mas seria irrealista esperar algo diferente. Em todo governo, como em toda instituição, qualquer subordinado precisa negociar com o chefe as questões mais delicadas.

E quando num governo, qualquer governo, você começar a ouvir falar em “superministro”, saiba que ele está a caminho de ser enquadrado ou de cair. Os mais inteligentes costumam encaixar-se na primeira opção.

Vamos além disso acompanhar as possíveis outras mudanças nos escalões superiores da República. Que certamente estarão voltadas para fortalecer o projeto presidencial para 2022. E ver como, e se, o Congresso entrega o desengessamento orçamentário.

E qual vai ser afinal o volume de gastos com o novo auxílio emergencial.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Covax em xeque

A Organização Mundial da Saúde informou que precisa de recursos para o Covax, o mecanismo internacional de compra e distribuição de vacinas contra a Covid-19 pelo planeta. Mas a OMS diz que enfrenta um problema adicional: por mais que haja, ou venha a existir, dinheiro, ele não resolverá os problemas se não houver vacinas para adquirir (leia).

O principal obstáculo, diz a OMS, é que países desenvolvidos estão comprando de modo muito agressivo, o que complica não apenas os acordos ainda por fechar entre a Covax e os laboratórios mas inclusive os já fechados. Como em geral acontece quando vêm as grandes crises, quem tem a força acaba impondo sua vontade por cima de qualquer mecanismo multilateral.

Se o diferencial entre os países ricos e os demais na vacinação continuar se ampliando, haverá ainda outro efeito colateral daninho: para se proteger das populações vindas de países com menor vacinação, os demais certamente vão endurecer as restrições ao ingresso de pessoas destes lugares. O que, além do custo humanitário imediato, será um freio para a recuperação econômica global.

Cabo de guerra

O mercado reagiu como esperado, e como previsto, ao anúncio da troca no comando da Petrobras. A queda nas ações da companhia estendeu-se a outras estatais e impactou o desempenho do mercado de capitais.

Um temor do mercado é quanto as pressões do governo para a suavização dos reajustes dos preços dos combustíveis vão refletir nos resultados da empresa, e portanto também nos dividendos distribuídos aos acionistas. Outra dúvida é sobre a continuidade dos planos de desinvestimento, especialmente das refinarias.

Aparentemente, ao precisar decidir entre um cabo de guerra com o mercado e o risco de uma greve de caminhoneiros em plena pandemia, o presidente da República preferiu a primeira alternativa. Agora que conseguiu estabilizar a relação com o Congresso, especialmente com a Câmara, Jair Bolsonaro parece querer fugir do risco da queda abrupta de apoio social.

Recorde-se, por exemplo, o mergulho de popularidade de Dilma Rousseff causado pelas manifestações de junho de 2013, e que foram apenas isso, manifestações. Qual seria o efeito, para o apoio ao presidente na população, de um colapso do abastecimento em plena pandemia e com a economia projetando recuo neste primeiro trimestre?

Hoje, a pesquisa CNT/MDA mostra ótimo+bom presidencial algo estável na ordem de grandeza de um terço do eleitorado (leia). Sem base orgânica de apoio no Legislativo, Jair Bolsonaro certamente não deseja sofrer uma corrosão de popularidade como a de Dilma na largada do segundo mandato. Seria a senha para uma crise política grave.

Michel Temer também viu o apoio popular mergulhar num certo momento, mas ao contrário de Dilma e de Bolsonaro mantinha base congressual sólida . Sem isso, um presidente impopular ou vira pato manco, como dizem os norte-americanos, ou cai.

Mas não convém tampouco apostar numa radicalização sem limites. Mais provável é o novo presidente da Petrobras procurar um caminho de conciliação, intermediário, entre os objetivos dos acionistas minoritários e os do majoritário. Resta acompanhar como será essa operação.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Como anda a luta pelo poder

Os dois principais acontecimentos políticos ao longo da semana ajudaram a sedimentar a configuração de poder em Brasília a esta altura do agitado mandato presidencial. O desenho passa, naturalmente, pelo presidente da República; pela relação cada vez mais estreita dele com os oficiais-generais da reserva que as crises vão aspirando para a máquina; e pelo domínio que hoje se pode chamar de absoluto dos partidos do dito centrão sobre o Congresso Nacional, especialmente sobre a Câmara.

O episódio do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) vem sendo exemplar. O parlamentar entrou numa briga que não era dele, com o objetivo de catapultar musculatura política. Deu tudo errado. Acabou oferecendo ao antes acossado Supremo Tribunal Federal a oportunidade de um contra-ataque no ponto mais vulnerável do front adversário, o Legislativo. Mas isso abriu para o presidente da Câmara uma via rápida de cristalização da autoridade sobre os pares. 

E atraiu para ele a simpatia de um setor da opinião pública que o via com um pé atrás. Ou, pelo menos, tirou-o momentaneamente da linha de tiro.

O segundo fato, a mudança no comando da Petrobras, ainda em curso, traz ao presidente da República a brecha para, finalmente, colocar uma cunha na, lá atrás, toda poderosa equipe econômica. Erros têm consequências, e a insensibilidade da petroleira diante da possibilidade de sua política de preços provocar uma greve nacional de caminhoneiros acabou custando a cabeça do presidente da estatal. Trocado convenientemente por um general, ex-ministro da Defesa e atual presidente de Itaipu.

Uma greve de caminhoneiros em meio às seriíssimas dificuldades provocadas pela pandemia teria forte potencial de desestabilização. É natural que os adversários desejem e estimulem. E é esperado que o Planalto procure evitar.

Vida que segue. Se tudo se passar como habitual no Brasil, haverá ainda alguma turbulência nos dois casos, mas rapidamente o mundo político-jornalístico retornará para o infindável debate sobre as vacinas da Covid-19 e sobre o novo auxílio emergencial, com que nome for. E o Congresso, agora mais arrumado politicamente, não deixará fechar a janela das reformas. Que precisarão ser negociadas, claro, mas cuja esperança de aprovação é o respirador a manter acesas duas luzes: a tranquilidade do Legislativo e o protagonismo do ministro da Economia.

Tudo pode desandar, dar errado para o Planalto? Sempre pode, mas a impressão de momento é as melancias continuarem se ajeitando na carroceria do caminhão conforme os solavancos da estrada. Um problema é o encolhimento da popularidade presidencial, causado pela atitude diante da pandemia e pela parada nas medidas de apoio emergencial. Mas em alguns meses estão previstas vacinas abundantes, da Fiocruz e do Butantan. E o Congresso vai acabar dando um jeito no socorro econômico. 

E quedas de popularidade, algo sempre arriscado no Brasil, podem ser mais confortavelmente administradas quando há aliados comandando as casas congressuais.

Para o projeto de Bolsonaro, o prestígio dele só precisa estar tinindo daqui a um ano e meio. O risco da popularidade baixa no meio do mandato é atiçar os apetites pelo impeachment. Isso está, no momento, muito distante depois das eleições no Legislativo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Vem aí a polêmica do "passaporte imunológico"

Israel é uma espécie de laboratório global dos efeitos da vacinação em massa, pela acelerada velocidade com que vem aplicando o imunizante na população nacional. E um experimento ali certamente despertará polêmica: a instituição de "passaporte imunológico" para os vacinados (leia).

Que naturalmente desfrutarão de privilégios sobre os não-vacinados. Acesso a diversos serviços e direito de circular por certas áreas e frequentar certos estabelecimentos, como bares e restaurantes. E a coisa pretende ser toda controlada por meios digitais, por um app a ser baixado no smartphone.

Claro que é país pequeno, com população inferior à da cidade de São Paulo. Mas é provável replicarem o método por aí. E vão surgir as inevitáveis dúvidas éticas. Uma delas decorrente da notória desigualdade nos ritmos de vacinação entre o mundo desenvolvido e o resto.

E não só. A ordem da vacinação dentro de cada país não é definita aleatoriamente. E portanto será inevitável criar grupos privilegiados no direito de ir e vir, e de frequentar locais de diversão e lazer. Como cada sociedade vai lidar com isso?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Austrália enfrenta as big techs

Facebook e Google decidiram adotar respostas diferentes para a iniciativa legislativa da Austrália que determinou às big techs compartilhar com produtores de conteúdo noticioso a receita obtida em publicidade e outras modalidades de remuneração nesses materiais (leia).

O Google topou adaptar-se, mas o FB não. E inclusive retirou do ar páginas de veículos de comunicação australianos. Uma briga boa, e ela vai se espalhar planeta afora. Pois a equação de uns terem os custos com a produção mas outros faturarem com a exposição não fecha.

E as disputas pelo mundo envolvendo as big techs não ficarão restritas ao faturamento.  Essa polêmica se acoplará àquela outra, sobre liberdade de expressão, já quente desde quando Donald Trump foi literalmente limado das redes sociais depois de apoiadores dele invadirem o Capitólio em 6 de janeiro.

Hoje, as big techs abocanham a parte do leão do mercado publicitário sem precisar produzir nada de material noticioso, e além disso decidem por conta própria quem pode e quem não pode frequentar o espaço público praticamente monopolizado por elas.

Está na cara que não continuará sendo assim indefinidamente.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Ultraconcentração de vacinas

Segundo a Organização das Nações Unidas, dez países concentram 75% das vacinas já aplicadas até agora contra a Covid-19. E 130 países ainda não aplicaram vacina nenhuma (leia). Os números foram trazidos por Antônio Guterres, secretário-geral do órgão, e expostos em reunião do Conselho de Segurança.

Ele apelou ainda ao G20, que reúne as principais economias do planeta, para enfrentar essa ultraconcentração. Que apenas ajuda a reforçar uma conclusão óbvia: a dita globalização subordina-se às lógicas nacionais. Segundo as quais, quem pode mais chora menos.

Além disso, tem outra complicação. Os países desenvolvidos vacinarem-se em massa mas deixarem o resto do mundo para trás só vai funcionar bem para eles se fecharem a fronteira a quem vem das nações dos "sem vacina". Ou, pelo menos, se dificultarem a circulação. 

Mas mesmo isso não vai ser garantia de nada. Se o SARS-CoV-2 tiver livre trânsito no mundo em desenvolvimento, como bem advertiu Guterres, isso facilitará o surgimento de novas cepas, eventualmente resistentes às vacinas conhecidas.

Dúvidas existenciais

Desde o início da pandemia, são poucas as ocasiões em que outro assunto ganha protagonismo. Hoje é um desses dias, com o contencioso entre o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) e o Supremo Tribunal Federal. Não se sabe ainda qual será o destino político do parlamentar, mas ele já colocou a Câmara numa sinuca.

Se revogam a prisão em flagrante, os deputados arriscam-se a aquecer os ânimos no STF contra os representantes do povo, muitos dos quais têm pendências na Corte. Se não revogam, endossam a criação de uma jurisprudência que pode atingir qualquer um deles mais à frente.

A situação é complexa especialmente para o PT. Suprimir um adversário político é sempre tentador, e já se nota o açodamento nas hostes petistas. De quebra, o partido faz um gesto para ministros a quem não tem dedicado palavras particularmente amistosas nos últimos anos.

Mas e se o STF sai, como se diz, empoderado desta pendenga? E se lá na frente mantém as condenações de Curitiba e do TRF-4 contra Luiz Inácio Lula da Silva? O PT vai aceitar e dizer que "decisão do STF não se discute, cumpre-se"? Ou vai espernear?

E qual será o limite aceitável do jus sperniandi?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Covid Longa

Uma coalizão de hospitais realiza estudo sobre efeitos de longo prazo em quem foi infectado pelo SARS-CoV-2. Tenha tido a forma grave da Covid-19 ou mesmo as formas leves. O leitor saberá mais detalhes aqui (leia). É uma das múltiplas frentes de investigação mundo afora.

Se estamos no começo da vacinação (veja aqui o andamento dela pelo Brasil), mais incipiente ainda vai o conhecimento sobre a doença. A segunda onda global, por exemplo, foi em boa medida uma surpresa. Uma explicação é ela ter sido provocada pelo relaxamento após a primeira onda.

Mas essa é apenas uma tentativa de explicação. Na Gripe Espanhola, de cem anos atrás, uma hipótese bem aceita é a segunda onda (a mais mortal das três) ter sido provocada por mutação do vírus para uma forma bem mais agressiva (leia). Será igual aqui?

Como vai ser o desenrolar da Covid-19 diante do surgimento de novas cepas, mais infecciosas e mais letais? Enquanto se quebra a cabeça para responder, a humanidade corre atrás das vacinas. E torce para o espectro delas ser amplo o suficiente, pois o vírus não está "parado".




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

É cada um por si. Mesmo

E o estado de São Paulo já registra seus casos da "cepa brasileira", a nossa variante do SARS-CoV-2 (leia). Uma boa quantidade está no município de Araraquara, que entrou em lockdown (leia). Era esperado. O vírus é paciente. Ou o rastreamento e o isolamento são radicais, como tem sido no Oriente, especialmente na China, ou uma hora o vírus dá um jeito de replicar.

E agora? Na hipótese otimista, as vacinas já desenvolvidas vão dar conta também das novas cepas. Aí talvez os imunizantes criados a partir do vírus inteiro levem vantagem. Por exemplo a CoronaVac do consórcio Sinovac-Butantã. Vamos torcer para isso. Seria uma beleza, até por termos a caminho uma fábrica aqui.

Essa é a variável-chave. Países que fabricam o imunizante estão mais confortáveis no processo de vacinação de suas populações. Os que não, estes dependem da boa vontade alheia. E apesar de três décadas de conversa sobre a globalização irrefreável e a obsolescência dos estados nacionais, na hora do aperto está cada governo cuidando em primeiro lugar de quem o elege, ou derruba (leia).


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

A frente ampla e a margem de manobra de Bolsonaro

As pesquisas convergem para duas constatações sobre 2022. O presidente Jair Bolsonaro permanece competitivo e tem uma reserva para ir ao segundo turno. Claro que nas condições normais, e atuais, de temperatura e pressão. Por outro lado, todos os levantamentos indicam um segundo turno duríssimo para ele. As margens hoje sobre os desafiantes são estreitas, além do que seria saudável para um incumbent, como dizem os americanos.

O estilo e a linha do presidente, sabe-se, têm dois efeitos. Garantem a fidelidade de um núcleo duro, mas também estimulam a aproximação entre os potenciais adversários. Este segundo movimento hoje acontece numa velocidade compatível com a era digital. A dúvida? Qual será a capacidade de o desafiante escolhido no primeiro turno agrupar o antibolsonarismo no segundo.

Trata-se do repisado tema da “frente ampla”. O benchmark mais abrangente é a coalizão formada na transição para a Nova República em 1985. O caso histórico bem conhecido do deslocamento para o oposicionismo de personagens que haviam apoiado a deposição de João Goulart em 1964. Na estocada final, um pedaço inteiro do governista PDS (antes Arena) juntou-se ao PMDB (antes MDB) com a marca de Frente Liberal. Depois viraria partido (PFL, hoje Democratas).

Mas ali foi a culminância de uma caminhada de duas décadas, na qual a esquerda e os progressivamente convertidos foram se aproximando ao longo de sucessivas eleições e movimentos político-sociais antirregime. Dois (quatro?) anos não são vinte. Ainda que, como foi dito, a velocidade seja bem maior no mundo da internet. E tem outro aspecto, ainda mais significativo. Ali havia um acordo: todos os grupos oposicionistas aceitavam-se na frente.

Mesmo Luiz Inácio Lula da Silva, que depois no PT construiria um caminho próprio, apoiou Fernando Henrique Cardoso (MDB) para o Senado em 1978.

Sobre aquela época, pode-se argumentar que a aceitação mútua era facilitada por um detalhe: a hegemonia ali estava pré-estabelecida, havia um único partido permitido de oposição e era completamente controlado pelo que hoje se chama de “centro”. Ainda que persistisse no MDB uma disputa entre “autênticos” e “moderados”. Estes últimos dispostos a uma eventual negociação com o regime em torno da transição.

Tem mais. Do emedebismo raiz à esquerda, todos estavam excluídos do poder. E aí certa hora juntaram-se para fazer a passagem. É possível argumentar que o PT não votou em Tancredo Neves. Verdade. Mas talvez tenha sido também porque a vitória do mineiro era garantida. Nunca saberemos - e esta afirmação leva a vantagem de não poder ser derrubada pelos fatos -, mas é possível que se os votos do PT fossem decisivos contra Paulo Maluf a posição do partido teria sido outra.

Mais um detalhe. Havia na oposição razoável consenso sobre a necessidade de uma política econômica à época rotulada de heterodoxa. Foi a era de ouro dos economistas nacionalistas, defensores do papel do Estado. Depois deu errado. José Sarney atravessou sucessivas borrascas econômicas, editou sucessivos planos econômicos, que fracassaram todos, e quase caiu. Até cruzar a linha de chegada com a língua de fora. Mas isso foi depois.

Hoje 1) uma gorda parte da possível frente ampla está aninhada no Estado, 2) não há acordo básico sobre, por exemplo, os de fora do segundo turno apoiarem quem for à decisão e 3) o neo-oposicionismo apoia resolutamente a condução da economia pela dupla Bolsonaro-Paulo Guedes.

São obstáculos intransponíveis para a formação da frente? Não. Mas indicam que, mesmo com todas as dificuldades, o governo mantém margem de manobra. Resta saber como, e se, vai usar.

PIB-2020

E o ensaio para a medida final da retração do nosso Produto Interno Bruto em 2020 está em -4,05%, diz o Banco Central (leia). Deve ficar por aí mesmo. Ruim, porque recessão é sempre uma desgraça, mas vai representar metade do que previram os analistas em certo momento.

A situação mundo afora, especialmente em alguns países desenvolvidos, está bem mais aguda (leia). Mas não chega a ser consolo para nós, especialmente porque vínhamos de anos complicados, com recessão feroz (2015-16) ou quase estagnação (2017-19)

Em resumo, o 2020 da Covid-19 veio coroar mais uma "década perdida". Com pequenos lapsos de exceção, é o cenário desde o processo redemocratizador dos anos 1980. Aliás, aquela transição foi catalisada pela tristeza com a inflação e a recessão. Deu-se um jeito na primeira, mas não na segunda.

E veio o cansaço com a Nova República, nascida ali. E vieram os surtos recentes de disrupção, que atingiram o ápice em 2018. A curiosidade? No que vão dar, desta vez, o cansaço e a frustração com a perenização da mediocridade econômica, na hipótese de isso se confirmar?

Governos têm de funcionar

Passada a eleição municipal e empossados os escolhidos, começa a corrida pela vaga de Jair Bolsonaro. Competição da qual participa o próprio, muito disposto a suceder a ele mesmo. As municipais são nossas “midterm”. Nos Estados Unidos, elas elegem todos os deputados, uma parte dos senadores e dos governadores. Aqui, todos os prefeitos e vereadores. O ponto médio do período de quatro anos é a largada para a eleição seguinte.

O universo da política gira sempre em torno de eleições. Daí haver certa ingenuidade (ou malandragem) quando se diz ao governante, nos diversos níveis, “desça do palanque e governe”. Mais honesto seria admitir: quem desce do palanque está arriscado a enfraquecer-se. Pior. Dada a quase impossibilidade, aqui, de o eleito trazer com ele da eleição a maioria parlamentar, se descer do palanque, aumenta o risco de ser derrubado.

Quem desce do palanque não governa, ou enfrenta imensas dificuldades, inclusive porque a periodicidade e a assiduidade das eleições exigem o reabastecimento permanente e atento da expectativa de poder, o que pede ao político alimentar uma projeção de futuro. Isso é mais fácil para quem está na oposição. Pois a pergunta “se está dizendo que vai fazer, por que não fez ainda?” vive exposta na prateleira do supermercado mercadológico eleitoral.

É sempre possível, claro, dizer que não fez ainda porque não deu tempo, porque pegou a situação com muitos problemas e precisa de mais quatro anos para completar a obra. Esse discurso colar depende de algumas coisas, duas delas muito importantes: a vida dos eleitores estar algo confortável e haver operadores eficientes empenhados na construção da narrativa “as alternativas não são boas, com elas a coisa poderia estar muito pior”.

Mas, regra geral, quem carrega a tocha da esperança é a oposição, então o governo precisa estar sempre mostrando serviço e com uma defesa bem articulada. Para fazer do presente a ponte da esperança de um futuro mais bonito. No caso de agora, Bolsonaro precisa, em 2021, mostrar serviço nas suas duas frentes principais: a vacinação e o suporte econômico aos mais vulneráveis na pandemia. Sem isso, será alvo fácil em 2022.

Todos dizem que é provável termos vacinas em grande quantidade a partir ainda deste semestre, e que isso é certo para o próximo. Se acontecer, colaborará para “retomar a retomada” econômica (até o governo já prevê retração neste começo de ano). O que pode fazer o povo chegar à eleição com um certo alívio. Se a turma estiver vacinada e a economia crescendo, o candidato a continuar terá credibilidade para falar de um futuro melhor.

Também por isso a vitória de Arthur Lira (PP-AL) foi tão estratégica. Permite a Bolsonaro atravessar estes meses mais delicados sem estar ameaçado pela guilhotina do impeachment. Se desse Baleia Rossi (MDB-SP), apesar de todas as declarações apaziguadoras, já se estaria armando o cadafalso habitual no Brasil. Mas, vamos repetir, o governo precisa funcionar. Nada, ou quase nada (na política o “quase” é importante), pode substituir isso.

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Publicado na revista Veja de 17 de fevereiro de 2021, edição nº 2.725

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Um palpite sobre o teto

Parecem convergir as preocupações dos políticos e das autoridades econômicas. O presidente da Câmara dos Deputados pede que o governo encontre rapidamente um caminho para retomar alguma modalidade de auxílio emergencial, mesmo com outro nome (leia). Natural.

Mas o presidente do Banco Central foi quem trouxe a novidade. Segundo ele, a queda da atividade decorrente do fim do auxílio emergencial está além do esperado (leia). Engenharia de obra feita é relativamente confortável, dirão, mas não era tão difícil assim imaginar que aconteceria.

Inexiste terceira opção. Ou a economia volta a operar num bom ritmo, e isso implica abrir mão de lockdowns mais amplos, ou se encontra espaço fiscal para apoiar os mais vulneráveis, e não só eles. Tem as empresas, os estados, os municípios...

E o teto de gastos, norma constitucional que deveria valer por vinte anos? Já não valeu em 2020, por causa da pandemia. Tampouco vai, pelo jeito, valer este ano. A explicação será a mesma. E o mundo político está em busca de uma solução permanente para situações de calamidade.

Querem um palpite? A próxima exceção serão os investimentos. Só esperar.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

As fichas vão caindo

E o governo federal vai continuar ajudando as prefeituras em 2021, o segundo ano da pandemia da Covid-19. Foi o que disse hoje o presidente da República (leia). Tem lógica. A doença leva todo o jeito de querer atravessar o ano. A vacina certamente vai ajudar a mitigar, mas é bom ir se habituando à convivência com o vírus até pelo menos 2022.

Outra ficha que já caiu foi a da necessidade de prorrogar o auxílio emergencial, tanto faz se com outro nome, e ainda que falte decidir o valor exato. Os fatos são teimosos. O comércio teve em dezembro a maior retração em duas décadas, mesmo que no acumulado do ano tenha mostrado um pequeno avanço sobre 2019 (leia). Mas o dezembro ruim é prenúncio de números complicados neste começo de 2021.

E chegamos às duas conclusões inescapáveis. A Covid-19 não irá embora tão cedo e o poder público precisará endividar-se para ajudar as pessoas, as famílias e as empresas. E tem uma terceira. Começa a balançar o teto de gastos, previsto para um período de normalidade (ainda que prever 20 anos de normalidade no Brasil tenha sido ousado) e agora confrontado com a vida real.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A OMS em Huanan

A delegação da Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou à conclusão de não haver elementos factuais para afirmar que o epicentro da Covid-19 tenha sido o mercado de Huanan onde se descobriu o primeiro grupo conhecido de infecções em Wuhan, China (leia).

Tampouco é razoável, diz a OMS, asseverar que o SARS-CoV-2 tenha sido produzido em laboratório e vazado, ou escapado. Logo, a ciência segue em busca da certeza sobre como afinal o novo coronavírus transitou dos animais para a espécie humana.

Cada um é livre para acreditar no que bem entender, mas vai ficando claro que a origem da Covid-19 continua um razoável mistério. Até porque já existem faz tempo evidências de o vírus ter estado em circulação antes mesmo de ser oficialmente detectado na China pouco mais de um ano atrás.

Assim, vão perdendo força as explicações mais baseadas nas convicções e conveniências ideológicas e geopolíticas do que na ciência. Elas não ajudaram a salvar a reeleição de Donald Trump, apesar de todo o esforço dele. Sobreviverão, claro, nas franjas do debate político. E só.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O dia da Covid

O governo estuda formas de estender o auxílio emergencial, outras contrapartidas e, principalmente, outros valores (leia). Não tem mesmo muita saída. Várias previsões projetam alguma retração da economia neste primeiro trimestre (leia). E até que pelo menos uns 60% da população estejam imunizados a recuperação econômica robusta é pouco provável.

A boa notícia de hoje nesse sentido veio da Pfizer. Segundo a big pharma, a vacina dela neutraliza recentes variações do SARS-CoV-2 (leia). Por enquanto em laboratório, mas de qualquer jeito é um começo. Espera-se que as demais vacinas, especialmente no nosso caso as mais acessíveis aos países em desenvolvimento, consigam o mesmo efeito.

Enquanto isso, pouco a pouco, os estudantes vão voltando às aulas Brasil afora, espremidos em pinça pela política, ou politicagem, e pelo sindicalismo. Neste recomeço, a frequência ainda não está a mil (leia), mas tem sido só questão de tempo. Afinal, é cada vez mais complicado explicar por que as escolas deveriam ser o último universo a reabrir as portas, e não o contrário.


sábado, 6 de fevereiro de 2021

Instabilidade ou estabilidade?

Vitoriosas as candidaturas apoiadas pelo Planalto na eleição das mesas do Congresso Nacional, abriu-se o debate sobre a solidez da aliança entre Jair Bolsonaro e o assim chamado centrão. O discurso corrente é o pacto tender à fragilidade, pela contradição entre o programa liberal e austero, capitaneado pelo ministro da Economia, e uma dita tendência gastadora e estatista da coalizão parlamentar vencedora em 1º de fevereiro.

Ou seja, o vetor dominante seria de instabilidade.

Antes de entrar nessa discussão, vale notar que a “frente ampla” antibolsonarista mostrou bem mais vigor nas páginas da cobertura política pré-eleitoral do que na urna eletrônica propriamente dita. Arthur Lira (PP-AL) teve cerca de quinze a vinte votos além do que lhe davam as medições mais calibradas, mas Baleia Rossi (MDB-SP) recolheu no mínimo uns cinquenta a menos. Que provavelmente vazaram na maior parte para candidatos sem chance.

Ao final, a esmagadora maioria dos votos de Rossi vieram dos partidos “de oposição mesmo”, da esquerda e da rotulada centro-esquerda. A direita e a assim chamada centro-direita ficaram com Lira. A ideia de uma coligação tática entre, vamos simplificar, a esquerda e setores antibolsonaristas da direita não passou nem da fase de grupos neste primeiro teste. E aí irrompeu, como habitual, a explicação mais fácil: as verbas e os cargos.

E disso nasceu a suposição de que a união entre o presidente da República e a maioria reunida em torno de Lira e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) [o Senado não tem tanta utilidade assim para a análise, pois ali até o PT apoiou o vencedor] é frágil, baseada apenas na troca de favores. O futuro dirá, mas essa visão corre o risco de estar mais influenciada pela insatisfação com o desfecho da refrega do que pelos fatos à disposição do analista.

Por falar neles, os fatos, um é que a Câmara tem hoje, como vem tendo tradicionalmente, pelo menos dois terços de deputados eleitos do ponto médio para a direita, sobrando um terço para o outro campo. Como alguns segmentos da direita apoiavam os governos petistas em troca de espaço na Esplanada e poder sobre recursos orçamentários, floresce a teoria de que seriam parlamentares, digamos, sem lado, sem cor ideológica.

Será? Um problema sério da candidatura Baleia Rossi foi deputados do MDB, DEM e PSDB precisarem administrar nas suas bases estar aliados ao PT e à esquerda. Isso ajudou a induzir à ruptura do Democratas e quase levou à ruptura do PSDB. Aliás, basta relembrar qual tinha sido o clima nos municípios em que emedebistas, tucanos e demistas tiveram de enfrentar adversários da esquerda no ainda recente novembro de 2020.

Notou-se também na segunda feira, abertos os resultados, que se a oposição de verdade tivesse lançado um candidato do seu bloco possivelmente teria ficado em segundo lugar. E se houvesse segundo turno teria perdido nele para Lira. Aliás, o apoio da esquerda a Rossi foi explicado também pela impossibilidade de o chamado centro votar na esquerda. No fim, ele votou mesmo foi de cara no candidato do governo. Um banho de realidade.

A força centrípeta exibida pelo bolsonarismo na eleição das mesas deveria produzir alguma cautela nas previsões de instabilidade na relação com o Congresso. Se a popularidade de Bolsonaro não descer pelo ralo, a tendência é o presidente ir ao segundo turno em 2022 (na hipótese de haver dois turnos). Isso dá a ele uma expectativa de poder que serve de ímã. E não haveria dificuldade maior de a massa parlamentar acoplar-se a Bolsonaro na eleição.

O que poderia instabilizar essa fórmula? O surgimento, do outro lado, de uma força eleitoral capaz de expressar possibilidade real de poder. A correlação de forças está à espera desse adversário. É como a política funciona.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Um em cada cinco

Exames laboratoriais em uma amostra populacional concluíram que quase um terço da cidade de São Paulo carrega anticorpos contra o SARS-CoV-2 (leia). Ou seja, já teve contato com o novo coronavírus. Acontece que o número de casos comprovados da Covid-19 na capital paulista é algo como 20% disso.

Portanto, a crer no levantamento, a testagem só captura um em cada cinco infectados. E é razoável supor que a esmagadora maioria dos que continuam incógnitos sejam assintomáticos. Um lado da moeda é que talvez se esteja testando pouco. O outro é que talvez nunca se venha a testar o suficiente.

E além dos que carregam anticorpos, dizem os cientistas, mais gente pode estar protegida, por mecanismos de defesa celular (leia). Bem, os dados do estudo e outros devem sempre ser relacionados às taxas de curvas e mortes (leia) para tentar entender sua real dimensão.

De todo jeito, e sendo otimista (e é sempre útil ter um pouco de otimismo), se a taxa de infectados Brasil afora não estiver tão longe assim dos números de São Paulo (capital), e se a vacinação ao longo dos próximos meses caminhar bem, talvez possamos certa hora falar em luz no fim do túnel.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A OMS na China

A missão da Organização Mundial da Saúde que está na China analisando a origem do SARS-CoV-2 informa não haver, por enquanto, sinais de que a coisa tenha sido fabricada e vazada deliberadamente. Vamos aguardar os resultados finais da expedição (leia).

O debate em torno da Covid-19 politizou-se a tal grau (era inevitável) que a discussão está em grande medida esvaziada de racionalidade. Se a OMS mantiver ao final essa conclusão, certamente alguns vão dizer que tudo faz parte de uma grande conspirata.

Paciência. Mas a irracionalidade tem um custo.

A falta de racionalidade, de ceticismo e de curiosidade diante de achados inesperados drena a possibilidade de diagnósticos mais realistas, e mais rapidamente. O que vai dificultar atingir com mais agilidade um estágio de conhecimento superior sobre a pandemia.

A politização da ciência impõe a ela a lógica da política. A narrativa importa mais que os fatos, e quando estes contrariam aquela trata-se de ignorá-los. Mais ou menos como seria se num teste de vacina os cientistas omitissem que ela talvez não tenha funcionado tão bem em certos casos.

Seria uma fraude, não é?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O que muda e o que fica igual

Finalmente elegeram-se por completo as mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Comandam ambas aliados do presidente da República. Se não aliados históricos, ao menos personagens que chegaram lá também pela força do governo.

O que muda em relação à situação anterior? Pela primeira vez em seis anos, haverá uma sincronia maior entre o Executivo e o Legislativo. E o risco de impeachment caiu verticalmente. Essa eventualidade depende agora de um desarranjo político ainda fora do radar.

Ou de surgir o assim sempre chamado (e por alguns esperado) fato novo. Que na política brasileira nunca é conveniente descartar. Mas ainda não está no horizonte. Uma possível fonte é o Judiciário, ainda que a Operação Lava Jato esteja no ocaso.

Ou seja, tudo indica que a pauta legislativa vai andar. Os juízes não vão mais travar o jogo. Mas o desafio maior continua do mesmo tamanho. O governo precisará reunir os votos. Foi competente para fazer isso na eleição das mesas. Vai ter a mesma competência para aprovar suas propostas?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Olimpíada em 2021?

A Olimpíada que era para ter acontecido ano passado vai ser feita este ano, independentemente da evolução da pandemia. Quem diz são os organizadores no Japão. A questão, informam, não é "se", mas "como". Faz sentido. Alguém pode garantir quando finalmente o mundo estará livre da Covid-19? 

Se a resposta é "não", trata-se de encontrar as formas de organizar a vida social para minimizar os riscos da pandemia e ao mesmo tempo permitir algum grau de volta à normalidade. Vamos confiar que os japoneses encontrarão um meio de fazer sua Olimpíada segura. Confiar e torcer.

A favor do otimismo, registre-se que o desempenho de certas nações asiáticas no enfrentamento da Covid-19 está bem acima da média mundial. As razões ainda precisam ser explicadas, mas números são números. E certamente um dos fatores é a maior disciplina social, e independe até do regime político.

Testar, detectar, rastrear, isolar, acompanhar, liberar na hora certa, tudo em grande escala, são procedimentos que para serem eficazes exigem mesmo disciplina. Não apenas do Estado, mas de quem precisa obedecer as regras para que a coletividade esteja mais protegida.

Já em outros lugares, oscila-se entre o paroxismo do lockdown "até a vitória final" e relaxamentos que mais parecem o estouro da boiada. E os números são autoexplicativos para dizer quem está certo e quem está errado na metodologia.

Vento a favor do governo

O governo e o presidente Jair Bolsonaro conseguiram na tarde e na noite de ontem duas vitórias decisivas: ver eleitos para a presidência das casas do Congresso dois aliados. Haverá naturalmente a necessidade de negociações políticas em torno da pauta legislativa, mas essa é uma realidade posta permanentemente.

Serão negociações duras, porém com uma diferença em relação ao quadro anterior, principalmente na Câmara. Serão negociações feitas com aliados.

A chamada centro-direita votou em Jair Bolsonaro no segundo turno em 2018 para derrotar o PT, mas previsivelmente foi se afastando do presidente ao longo dos dois primeiros anos do mandato. Em parte por diferenças na condução das políticas governamentais, e na maior parte pelo desejo de buscar alternativa própria em 2022.

Não à toa, a oposição mais vitriólica a Bolsonaro passou a ser a da direita, ou centro-direita, tradicional. E que para a eleição de ontem apostou tudo no candidato apoiado pelo agora ex-presidente da Câmara dos Deputados. Apenas para ver o grosso das suas bases capturadas pela agressiva articulação política do Palácio do Planalto.

A aliança da direita não bolsonarista com a esquerda na tentativa de fazer o presidente da Câmara enfrentava um problema estrutural. Nos estados, essas duas correntes são habitualmente adversárias. Diz a sabedoria que toda política é em última instância local.

Se não foi simples para o PT explicar por que apoiava quem liderou o impeachment de Dilma Rousseff, tampouco era fácil para o PSDB, o MDB e o DEM explicar por que estavam aliados ao PT. O primeiro ainda pôde argumentar com o antagonismo entre o presidente da República e o governador de São Paulo, candidato ao Planalto. O segundo tinha o postulante à vaga em disputa ontem.

Mas para o Democratas certamente não era natural. A realidade comprovou.

Ainda restam a preencher os demais cargos da mesa, e distribuir as presidências das comissões. Será preciso esperar para ver como vai ser desatado o nó regimental em que o novo presidente da Câmara se baseou para anular a escolha ontem dos outros postos. Talvez seja resolvido ainda hoje.

Mas algumas coisas já podem ser ditas. O impeachment de Jair Bolsonaro transformou-se numa escalada de rocha vertical para a oposição. Fatos políticos geram tendências inerciais. A vitória de ontem faz o processo político agora correr a favor e não contra o presidente da República. A oposição precisará de bem mais do que tem hoje para reverter isso.

E as reformas? O governo se verá na contingência de negociá-las com o Congresso. Mas essa já era a realidade anterior. Bolsonaro nunca teve uma maioria automática e continua não tendo. A diferença agora é que o comando da Câmara não mais é parte de uma articulação cujo objetivo central é criar problemas para ele e no limite removê-lo.

É provável que os dois primeiros pontos de atenção do Congresso sejam novas medidas emergenciais econômicas para a pandemia e a vacinação contra a Covid-19. Outras reformas, estruturais, devem entrar na pauta, mas sempre de forma negociada com o comando das casas e com os líderes. Vamos aguardar para ver a ordem de prioridades.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Olhar a leste

Países europeus voltam-se para leste a fim de encontrar vacinas em quantidade para seus cidadãos, pois depender somente do Ocidente não está se mostrando razoável (leia). Governantes sabem que uma hora vão entrar em zona de risco se por circunstâncias geopolíticas deixarem seus povos sem imunizante.

Ainda não se sabe exatamente mundo afora quanto cada vacina vai funcionar, mas de uma coisa tem-se certeza: é melhor estar vacinado do que não estar. O debate científico é fundamental, as porcentagens são importantíssimas, mas o povão prefere não esperar pelo veredito final dos cientistas.

Até porque a sentença definitiva pode demorar muito para vir.

Hoje decidem-se os comandos dos dois pratos do Congresso Nacional para os próximos dois anos. Incertezas à parte sobre os próximos dias, semanas e mesmo meses, uma coisa está absolutamente garantida: o debate sobre a vacinação é candidato forte a estrela na reabertura dos trabalhos.

Se o governo for inteligente, deve fazer como estão fazendo, por exemplo, os insuspeitos alemães. Ir buscar vacina contra a Covid-19 onde ela estiver disponível, e brigar pelo abastecimento. Fica a dica.


sábado, 30 de janeiro de 2021

Chegou a hora

Num passado algo remoto, as eleições para as mesas do Congresso Nacional não costumavam produzir noticiário tão abundante e atraente. A rotina era o partido majoritário e governista indicar os presidentes, de seus quadros ou de algum aliado, e as demais agremiações encaixarem-se nos outros cargos conforme a proporcionalidade. E a Câmara dos Deputados e o Senado Federal estavam habituados a viver numa "harmonia subordinada" ao Executivo.

A coisa começou a mudar, ainda timidamente, quando o PT nos anos 90 decidiu disputar com candidato próprio a presidência da Câmara, uma tática de demarcação de limites com o então governo tucano. Mas a ação se esgotava no terreno da propaganda, acabava não tendo efeito prático, visto que a ampla maioria governista terminava se impondo, mesmo quando vivia tensões internas.

O caldo desandou pela primeira vez em 2005, no primeiro governo petista, pois um racha no PT acabou permitindo a vitória de Severino Cavalcanti (PP-PE) na Câmara. Veio uma chacoalhada, mas o mandato dele durou pouco (teve de renunciar sob acusações de corrupção) e o governo conseguiu fazer o sucessor, numa votação apertada. Dali em diante, o PT, gato escaldado, buscou uma aliança-seguro com o então PMDB nos deputados.

Disso, em algum grau, também resultou a presença de Michel Temer na vice dos dois últimos mandatos petistas. Anos depois, esse “seguro-PMDB” não se comprovou tão funcional assim para o PT, mas aí já entraríamos em outro assunto. Que vale a pena discutir, mas é outro assunto.

Nunca mais, porém, o país voltou aos tempos da monotonia de antigamente. E chegamos onde chegamos. Em parte por causa da pulverização partidária. Não existe mais "partido majoritário". Mas também porque os dois impeachments entre os quatro presidentes eleitos antes de Jair Bolsonaro acabaram transformando o presidente da Câmara quase num dos árbitros supremos da República. Sem falar de seu poder para pautar ou deixar de pautar os assuntos de interesse do Executivo.

É esperado, portanto, que o ocupante do Palácio do Planalto lute para colocar aliados no comando do Legislativo, especialmente da Câmara. E a luta eleitoral de agora foi se tornando mais cruenta na medida em que ficou claro o objetivo dos candidatos oposicionistas: estimular a anabolização de um ambiente favorável a colocar a corda política em torno do pescoço do presidente da República. Esqueçam dos discursos de fachada: é só disso que se trata.

A candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP) trouxe novidades. É um primeiro ensaio de reaproximação entre a esquerda e a direita não bolsonarista, em alguns casos já francamente antibolsonarista. Veremos os músculos que a aliança será capaz de mostrar neste primeiro teste de fogo. E veremos se o PT conseguirá voltar à mesa da Câmara, claramente o objetivo principal, e põe "principal" nisso, do partido em todo esse agir frentista.

Se Rossi ganhar, a dinâmica do processo político acabará impondo que ele abra o caminhar do impedimento de Bolsonaro. Se der Arthur Lira (PP-AL), o governo ganha, se não um seguro (na política isso não existe em termos absolutos), pelo menos uma boa margem inicial de manobra para: 1) respirar em meio ao recrudescimento da Covid-19, 2) negociar em condições mais favoráveis a eventual extensão do auxílio emergencial e 3) resistir às múltiplas tentativas de criação de CPIs.

Agora é esperar a contagem dos votos.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Volta às aulas

E segue a batalha em torno da volta ou não às aulas presenciais. Misturam-se e brigam decisões governamentais, nos diversos níveis, com sentenças judiciais. Um retrato da confusão institucional instalada no país com a pandemia. As maiores vítimas? Os estudantes e suas famílias.

Faz sentido manter as escolas fechadas até que a coisa toda passe, até que a maioria da população esteja imunizada? Para quem acha que sim, o problema é não se saber quanto tempo vai levar. O risco é os estudantes acabarem perdendo pelo menos dois anos de aulas presenciais.

Mas quem responde "não" também precisa colocar a mão na consciência, e em alguns casos fazer uma autocrítica. Se é razoável retornar às aulas agora, mesmo que os números da Covid-19 tenham voltado aos piores momentos da primeira onda, por que mesmo as escolas ficaram fechadas ao longo do semestre passado?

Os governantes não quiseram correr o risco de desgaste político abrindo as escolas antes da eleição municipal. Deveriam ter de explicar por que querem abrir agora, quando as estatísticas voltaram a piorar.

Deveriam.

Teste de resiliência

Este ano de 2021 vai merecer um rótulo já bem usado: “decisivo”. Atravessar politicamente vivo é condição sine qua non para Jair Bolsonaro chegar a 2022 competitivo. E vai ser um ano daqueles. Mesmo que a vacinação se prove um sucesso, seus efeitos macro só devem ser sentidos em (muitos) meses. Um período suficientemente longo para os adversários trabalharem com afinco o desgaste presidencial.

Três ameaças rondam o Palácio do Planalto. Um agravamento da Covid-19, um repique da recessão e uma instabilidade institucional. Esta última podendo vir do Legislativo ou do Judiciário. Para atravessar o ano, o presidente e seu governo precisarão mostrar capacidade operacional e política num cenário de turbulências, em que deixar o avião no piloto automático não será opção.

Sobre o agravamento dos índices da pandemia aqui no Brasil, mesmo países com vacinações muito mais agressivas enfrentam pioras de curto prazo nos índices da Covid-19. E há as novas variações do SARS-CoV-2. E junto vêm a dúvida sobre se as vacinas produzidas a partir do vírus “velho” servem para combater os novos. Ou quanto tempo levará para adaptar os imunizantes, se isso for necessário para serem eficazes contra as novas variantes.

A segunda onda da Covid-19 terá necessariamente impacto na economia. Pois a reação natural das autoridades locais vai ser apertar o torniquete do isolamento e do distanciamento sociais. Haverá reação popular, então podem-se prever movimentos de sístole e diástole, por um período em que a única certeza será a incerteza sobre que medida governadores e prefeitos vão tomar no dia seguinte ao anúncio de novos números.

E tem o fim do auxílio emergencial e demais medidas protetoras da economia popular na pandemia. Aqui, é previsível o Congresso Nacional recriar algo parecido. Mas os parlamentares tentarão impedir que Jair Bolsonaro, ao contrário da vez anterior, fature politicamente sozinho as benesses para o povão. A dúvida? Qual será a reação do mercado financeiro a um eventual furo no teto de gastos?

E a chacoalhada institucional? Ela estará contratada se os candidatos apoiados pelo presidente não vencerem as disputas pelo comando das duas Casas do Congresso Nacional. Principalmente da Câmara dos Deputados. Saberemos em dias o que vai acontecer. Mesmo vitórias oficialistas não devem impedir que a oposição, agora anabolizada pela aliança entre a esquerda e a direita não bolsonarista de olho em 2022, coloque minas prontas a explodir no campo presidencial.

Se Jair Bolsonaro sair vitorioso das votações do dia 1º, poderá contar com a pressão do empresariado para o Legislativo voltar a dar foco à agenda liberal, em vez de paralisar-se numa guerra política sem solução de curto prazo. Já os políticos, mais ainda os que disputam com o presidente o apoio do establishment, têm planos próprios e não vão dar trégua.

Também por saberem que Bolsonaro mostrou em ocasiões anteriores resiliência, capacidade de voltar à forma e ao tamanho originais depois de uma crise.

E talvez ele nunca tenha precisado tanto disso quanto vai precisar agora.

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Publicado originalmente na revista Veja 2.723, de 03/02/2021

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Duas leituras no emprego

Os números do emprego divulgados hoje podem ser lidos de duas maneiras, de acordo com a conveniência política do interessado. O desemprego continua alto, 14,1% no trimestre entre setembro e novembro, segundo o IBGE. Mas está em leve declínio desde a metade do ano passado (leia).

Já segundo o Caged, o Brasil conseguiu atravessar o ano um da pandemia sem reduzir o estoque de empregos formais. Até criou um tantinho a mais do que destruiu. Por outro lado, a não criação de empregos em quantidade mantém o desemprego alto, especialmente entre os jovens (leia).

O governo comemora os números, claro. E garante que comprovam a recuperação econômica em V (depois da queda aguda, retomada aguda). Já a oposição adverte que o fim do auxílio emergencial vai, entre outros prejuízos, comprometer o relançamento econômico.

É provável que a partir de fevereiro o Congresso se debruce sobre o tema da continuidade do auxílio, em algum grau. O governo já disse que aceita, desde que se cortem outras despesas. De todo modo, política à parte, 2020 não foi no fim das contas tão ruim assim na economia, para um ano de pandemia.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Passaporte furado

Sobre a Covid-19, vale cada vez mais a velha máxima "tudo que é sólido desmancha no ar". Um exemplo são países antes exemplo e agora assolados pela doença. Brilham no topo Portugal, Argentina e Alemanha. Mas as surpresas não param. 

Agora, cientistas em Israel colocam em dúvida a validade do tal "passaporte verde" baseado na presença de anticorpos contra o SARS-CoV-2 (leia).

Pela simples razão de que, segundo o estudo, a pessoa pode perfeitamente estar imune ao vírus sem apresentar anticorpos no sangue. Mesmo após a taxa de anticorpos recuar a zero em alguns meses após a doença ou a vacina, o indivíduo pode continuar protegido contra o novo coronavírus (leia).

Israel é no momento um grande laboratório e observatório da Covid-19, por ser um dos únicos que já vacinou boa parte da população (leia). E mesmo ali os fatos mostram que é preciso cautela. 

As curvas de casos e mortes vão em alta, e o próprio premiê, apesar de se reconhecer um não especialista, mas informado por eles, disse hoje que se trava uuma corrida entre as vacinações e as mutações (leia).



terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Gastar e cortar

O fim do auxílio emergencial pago ao longo de 2020 por causa da pandemia é talvez a ameaça mais imediata à recuperação econômica ensaiada no final do ano passado. E a reinstalação de um auxílio emergencial com cara de permanente será sinal claro de fraqueza política do governo.

Daí que o ministro da Economia tenha aparecido hoje ao lado do presidente da República para defender que, se pensam em novas despesas, deem um jeito de cortar das já existentes (leia). E o presidente aproveitou para dizer que as reformas liberais vão andar, inclusive as privatizações.

Na luta de vida ou morte em torno do comando da Câmara dos Deputados, ninguém quer perder o apoio empresarial. Depois de definida essa refrega, o Congresso se verá às voltas com outro tipo de pressão, a popular. Se a economia sofrer nesta largada de 2021, essa pressão vai subir muito.

A economia depende de imunizar a população, já havia lembrado o ministro da Economia (leia). Se é assim, melhor ter cautela. Vamos esperar para ver que bicho dá na Câmara e como vai andar a vacinação. E mesmo se tudo der certo para o governo nas duas frentes ainda será um processo de, no mínimo, meses.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Lacrou

Agora, quando a pandemia dá sinais de pretender durar mais tempo que o inicialmente projetado, e quando os efeitos globais mais abrangentes da vacinação estão previstos apenas para o final deste ano, governos e sociedades veem-se às voltas com a pergunta clássica: o que fazer?

No cenário utópico, a vida social seria congelada até atingir-se a taxa de imunes que inviabilizaria a circulação viral. Porém, dado ser uma impossibilidade prática, governantes são empurrados a fazer algo, qualquer coisa, mesmo que apenas para dizer que estão fazendo.

Por enquanto, quem lidera a corrida dos factoides é o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, que enfrenta em março (mais) uma dura eleição. Na era da lacração, ele literalmente decidiu lacrar o país por uma semana. Ninguém entra. Para evitar a chegada de novas variantes do SARS-CoV-2, diz (leia).

Como não há estudo científico que preveja o desaparecimento delas daqui a algumas semanas, depreende-se que o movimento de Bibi (apelido dele) é para dar uma freada que lhe permita chegar no dia da urna com números não tão ruins.

Israel é líder mundial em vacinação, mas o resultado não é imediato. Nem seria sensato esperar uma solução instantânea. E Israel acaba de passar o Brasil na taxa de novas mortes proporcionalmente à população.

Depois de ultrapassada a eleição, aí será menos custoso dar a real ao eleitor, como aliás fez estes dias Joe Biden. Na campanha, ele dissera "ter um plano" (sempre lembro do filme "Parasita" quando alguém diz ter um plano). Agora informa que nada pode mudar a trajetória da pandemia nos EUA nos próximos meses (leia). 

E isso porque lá se está vacinando em massa. Como aliás deve mesmo ser feito. Mas sem enganar o povo.



sábado, 23 de janeiro de 2021

Impeachments (e ensaios de impeachment) comparados

E o governo Jair Bolsonaro chegou naquele momento bastante comum no Brasil dos últimos trinta anos, desde a volta das diretas, quando a popularidade cai e a oposição joga o impeachment na roda para mobilizar a rua. Cada situação específica tem seus predisponentes e desencadeantes, mas o cenário por aqui costuma repetir-se. É interessante então traçar as comparações. Bolsonaro está melhor ou pior que os antecessores nessa hora?

Está, sem dúvida, melhor que Fernando Collor de Mello. Ao menos por enquanto. Collor vinha de ver falhar o plano econômico com o qual pretendera matar a superinflação. A popularidade tinha despencado. E seu apoio orgânico na imprensa tendia a zero. E seu projeto de Brasil Novo, do qual a “nova política” é legítima descendente, pressupunha a rejeição aos políticos e ao chamado fisiologismo, rótulo recentemente repaginado com o nome de velha política.

Quando Collor foi emparedado pelas acusações do irmão Pedro, faltaram-lhe redes de proteção.

Bem diferente de Fernando Henrique Cardoso no episódio do chamado estelionato eleitoral de 1998-99.

Depois de reeleger-se cavalgando o real forte, FHC viu desvalorizar a moeda na largada do segundo mandato. Sua popularidade ruiu. O impeachment chegou a ser aventado por grupos petistas não majoritários no partido, mas FHC beneficiou-se de quatro fatores: apoio empresarial, de imprensa e parlamentar sólidos e uma certa aversão social a ”impichar” o segundo presidente eleito na redemocratização, pouco depois de terem feito isso com o primeiro.

Luiz Inácio Lula da Silva tomou pela proa uma ameaça de impeachment na crise de 2005, desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson. Mas nunca perdeu o núcleo de sua base de sustentação social, e um ano antes tinha começado o movimento de abrir o primeiro escalão à participação do que hoje se chama de partidos de centro. Depois de navegar em mar turbulento naquele ano, Lula entrou em 2006 com águas bem mais tranquilas.

E Dilma Rousseff?

Mesmo com a popularidade declinante após as manifestações de 2013, conseguiu reeleger-se em 2014 imputando aos adversários a intenção de uma economia duramente austera. Quando ela própria aplicou algo assim, a oposição aproveitou o colapso do apoio social ao governo para derrubá-la. Ajudaram para isso as circunstâncias do então presidente da Câmara dos Deputados. Que fora eleito contra a presidente da República.

Dilma não teve em 2016 as redes de proteção de FHC em 1999.

E é bom lembrar também as diferentes atitudes dos vices. Se o vice não é parte da articulação, a missão de remover o titular fica bem mais complicada.

E Jair Bolsonaro? O núcleo da base social dele está preservado em termos numéricos. Há alguma corrosão por causa do manejo da Covid-19, mas será preciso acompanhar para saber se o presidente voltará a mostrar resiliência ou se desta vez vai continuar murchando. A barragem de imprensa é forte, mas ele tem seus canais para articular alguma resistência. E no parlamento os candidatos dele têm boas chances por enquanto de presidir as duas Casas.

O que não chega a ser garantia absoluta, mas é útil quando o jogo começa.

Este é o quadro no momento. E essas são as variáveis a acompanhar.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O pilar da sabedoria

O premiê Boris Johnson deu a má notícia da sexta-feira. A mortalidade provocada pela nova cepa do SARS-CoV-2 detectada inicialmente no Reino Unido pode ser uns 30% ou 40% maior que a produzida pelo vírus na primeira onda (leia). 

Já se sabia que a transmissão era bem maior, de 30 a 70%. Mas é a primeira vez que se fala em mais mortalidade.

A Covid-19 continua portanto uma caixinha de surpresas. Não é o caso de aderir ao relativismo, mas talvez seja prudente aceitar que se sabe ainda pouco sobre o patógeno.

Algumas coisas são conhecidas, claro. Distanciamento e isolamento sociais dificultam a propagação do vírus. E vacinas ajudam a pelo menos evitar as formas mais graves da doença provocada por ele. Mas não dá para o mundo todo ficar trancado e isolado em casa até todo mundo ser vacinado. Infelizmente.

O que fazer então? Uma coisa útil é lembrar sempre de Sócrates (o ateniense). E entender que a consciência da própria ignorância talvez seja o pilar fundamental da sabedoria.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O mar, os rochedos e o marisco

Segundo a Reuters, a Índia começa amanhã exportar a vacina AstraZeneca/Oxford para países que contrataram o imunizante. Começando por Brasil e Marrocos. Na sequência, África do Sul e Arábia Saudita. É a boa notícia do dia (leia).

Todo esse episódio das vacinas para a Covid-19 deveria levantar um debate. Já faz algum tempo, os países depositam a segurança do abastecimento farmacêutico na conta da neutralidade da divisão técnica internacional do trabalho. Faz sentido economicamente.

O problema é que a geopolítica não segue estritos critérios econômicos, ainda mais em tempos de fricção crescente entre as potências pela hegemonia planetária. Por isso, recordando o antigo adágio, vem o risco de na briga entre o mar e os rochedos quem acabar se dando mal é o marisco.

Não dá para cada país produzir tudo do que precisa, é lógico. Mas tampouco é razoável que países da dimensão do nosso sejam tão dependentes de importar coisas tão estratégicas. Infelizmente, é mais uma consequência de quase quatro décadas de desindustrialização.

Ou, pelo menos, de falta de atenção à industrialização.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Soft power

A aguda demanda global por vacinas anti-Covid-19 é uma bela oportunidade para o exercício do soft power. Mas mesmo isso tem um limite: a óbvia premência de os países produtores atenderem em primeiro lugar suas próprias populações. Ter amigos mundo afora é sempre bom, essencial até, mas quem coloca ou derruba os governos são em última instância seus próprios povos.

Porém a oportunidade de soft power é real, e vem sendo mais bem aproveitada por três jogadores: Índia, Rússia e China. E o motor fundamental nessa disputa em escala mundial é a capacidade de fornecer vacinas na quantidade e velocidade desejadas, diante das circunstâncias. A partir daí, talvez seja precipitado achar que esses países vão sonegar o imunizante para fazer política (leia).

Mais provável é os três concorrerem entre si para ver quem faz mais amigos mundo afora com a vacina.

E a janela de oportunidade está aberta também pela situação do presidente americano hoje empossado, Joe Biden. O principal desafio dele no curto prazo é vacinar em massa nos Estados Unidos, país mais afetado em números absolutos pelo SARS-Cov-2. Não é demais suspeitar que ele vai gastar pelo menos uns 20 a 25% deste mandato quebrando a cabeça em torno do assunto.

E segurando o que puder de vacinas para aplicar lá mesmo.


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Saúde pública

Com o início da vacinação em larga escala mundo afora, começam a aparecer alguns problemas. Nada muito grave por enquanto, mas a situação naturalmente merece atenção. Há casos de efeitos colaterais importantes (leia), possíveis achados de reinfecção pelas novas cepas, mais contagiosas, em quem já tinha anticorpos (leia) e dúvidas sobre a efetividade anunciada pelos fabricantes (leia).

É absolutamente esperado que essas circunstâncias deem a cara quando a vacina de fato começa a rodar em grandes populações. Afinal, estamos terminando de montar o avião em pleno voo. Mas vale a pena. Vacinas não precisam ser infalíveis. Precisam reduzir significativamente o número de infectados, e portanto de hospitalizados, e portanto de falecidos.

É isso que interessa. Pois vacinas são importantes para proteger o indivíduo, e mais fundamentais ainda para proteger populações. E indivíduos tomados isoladamente estão tão mais protegidos quanto mais protegida está a população no seu conjunto. Vacinações são antes de tudo campanhas de saúde pública. Essa é a ideia que nunca deveria ser esquecida.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Maratona

O ínicio da aplicação de vacinas anti-Covid-19 no Brasil e mundo afora vai abrir uma janela de oportunidade para responder certas perguntas ainda em aberto. Mas para isso precisaremos esperar pela vacinação em grande escala, o que ainda vai levar alguns meses.

Uma coisa é certa: as vacinas reduzem o número das pessoas que adoecem, e por isso também reduzem o número das que morrem. Só por isso já valem a pena. Quando tivermos um grande número de vacinados saberemos medir melhor o efeito. Então que se vacine o maior número possível.

Vamos torcer também para as recentes mutações do vírus, para formas mais contagiosas, estarem cobertas pela capacidade protetora das vacinas produzidas a partir do vírus "velho". Se isso for confirmado, teremos evitado um problemão.

A largada da vacinação produz compreensivelmente um alívio de momento. Mas com o tempo a realidade vai acabar impondo-se. Há ainda muitas perguntas no ar e novas certamente vão aparecer conforme o andar da carruagem. Elas devem ser um estímulo para a ação, não para a inação.

E os cuidados precisam continuar. Isso é maratona, não corrida de cem metros.


sábado, 16 de janeiro de 2021

A urgência faz a diferença

A pandemia da Covid-19 está demorando mais a passar do que inicialmente se previa, ou sonhava. A gripe espanhola durou mais de dois anos. Nessa hipótese, estamos a meio caminho no ciclo. E se a duração projetada está mudando, ou se a ficha está caindo (tanto faz), mudam junto os cenários políticos. Alguns personagens entram em zona de risco e outros veem abrir-se a janela de oportunidade. E na política não tem mercê.

Se olhados só os números, uma bela quantidade de países estão mal na foto, ou ficando mal. Quem ainda navega bastante bem é a Nova Zelândia, sempre lembrada como exemplo positivo. Mas é uma pequena ilha, ou um conjunto de pequenas ilhas. Fácil controlar a entrada e a saída. Claro que não é só isso, há muitas outras ilhas sem os mesmos bons resultados. Mas ajuda bem.

O Brasil nunca esteve bonito nos números da Covid-19. Porém algumas estrelas na largada agora também sofrem. Um exemplo é a Argentina, do lockdown mais longo e rígido (pelo menos no papel). Quase um ano depois, os vizinhos estão numericamente acima do Brasil em mortes por milhão de habitantes e terão registrado ano passado uma recessão mais que o dobro da nossa. A notícia boa? Os números da pandemia ali parecem estar caindo. Sorte aos hermanos.

Um país em que a curva de mortes vai firme para cima é a Alemanha, cuja chanceler é um prodígio global de construção de imagem, pois vai passando incólume por este último grande teste de management e popularidade do seu longo reinado. Outro ex-exemplo de eficiência é Portugal, que nas taxas proporcionais de mortes pela Covid-19 anda junto com seu irmão maior e mais poderoso da União Europeia.

O que Argentina, Alemanha e Portugal têm em comum, além dos números ruins e de seus governantes estarem apesar disso atravessando a borrasca só com escoriações leves, até agora? Claro que as simpatias político-ideológicas explicam em parte, mas creditar só a isso teria algo de teoria da conspiração. Melhor procurar outras razões. Uma? Seus líderes costumam exibir na pandemia um sentimento de urgência, até quando erram.

Na véspera das festas de fim de ano, a chanceler alemã fez um apelo dramático para as pessoas não confraternizarem presencialmente com os entes queridos de mais idade. Nunca se saberá se foi atendida, mas pelo menos mostrou estar preocupada. Mesmo quem não a atendeu - e os números destes dias podem ser um indicador de que muitos não deram mesmo pelota - notou que Angela Merkel estava sinceramente preocupada. Ou pelo menos parecia.

Se além de mostrar preocupação o líder também consegue agir, aí já sobe para outro patamar. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta crises políticas sucessivas provocadas por acusações seriais de corrupção e precisa sobreviver mostrando serviço. A Covid-19 para ele foi um achado. É lockdown atrás de lockdown, e agora opera a maior (proporcionalmente), mais rápida e mais bem propagandeada vacinação do planeta.

Ninguém está certo o tempo todo, e errar é humano. Mais que provar que estão com a razão, governos precisam mesmo é mostrar nas grandes crises que têm senso de urgência e estão tomando providências. Do contrário, viram alvos fáceis para o inimigo. E a política, de novo, é como a guerra: quem pode mais chora menos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Manaus

A tragédia em Manaus leva jeito de ter na raiz, além de eventuais crimes, o surgimento de uma variante bem mais contagiosa do SARS-CoV-2, a precariedade crônica da infraestrutura e a subestimação dos riscos ainda presentes da Covid-19.

Parece haver também casos de reinfecção. Será o caso de fazer duas perguntas aos especialistas (que parecem ainda não ter respostas): 1) Os anteriormente infectados e curados estão imunizados contra a nova variante do vírus? e 2) As vacinas disponíveis funcionam contra ele?

De todo modo, os novos acontecimentos do Reino Unido, África do Sul e Manaus mostram que a guerra será prolongada. Qualquer ilusão de vencê-la no curto prazo é só ilusão mesmo. E a vitória depende de clareza estratégica, firmeza, capacidade operacional e também bom senso.

Já foi dito aqui mas não custa repetir, pela urgência: precisamos de um plano que combine a vacinação em massa e a volta progressiva às atividades com medidas sanitárias e de distanciamento social que possam ser aplicadas, realisticamente falando.

Difícil para um país tão politicamente bagunçado.

E o interesse nacional?

O debate público sofre quando é inteiramente capturado pela fratura política, e daí a independência do pensamento entra em bloqueio. Uma consequência é o efeito-manada, as pessoas são arrastadas pela turba e frequentemente acabam indo contra o próprio interesse.

Acontece agora, no episódio do cartão vermelho das big techs para Donald Trump.

Alguns até pararam para pensar “o que eu ganho se as big techs, sob a batuta -ou com medo- da Casa Branca e do Capitólio, tiverem o poder de eliminar qualquer um do espaço de formação da opinião pública?”. Entretanto são poucos os sinceramente preocupados. A esmagadora maioria do campo antitrumpista, lá e aqui, vibrou.

Mas e nós? Se o Brasil fosse um jogador potente na corrida global da alta tecnologia, ainda vá lá. Poderíamos ser sócios minoritários da inédita concentração de poder pelos monopólios tecnológicos sediados nos Estados Unidos. 

Porém neste jogo nós temos força apenas relativa. Interessa ao Brasil que decisões de tamanha gravidade sejam tomadas sem que ninguém mais no mundo, além da Casa Branca e do Capitólio, possa influir?

Trump não foi apenas banido das redes. Sites e aplicativos ligados ao campo político que ele representa passaram a ser excluídos do acesso ao hardware indispensável às operações. E a gravidade da coisa foi tanta que levou líderes como Angela Merkel, insuspeita de simpatia ao trumpismo, a demonstrar insatisfação.

Um ponto de quem apoia o banimento é as redes sociais serem propriedade de empresas privadas, podendo portanto decidir o que vão, ou não, deixar postar. Mas se as empresas devem ter essa liberdade, junto deve vir a responsabilidade pelo conteúdo que elas permitem veicular em suas plataformas. 

Além do mais, elas operam em regime de monopólio. Não cabe aqui o argumento do livre-mercado.

As big techs querem ser tratadas estritamente como empresas de telecomunicações e tecnologia? Então o jogo será outro. A companhia telefônica não pode ser responsabilizada pelos que dizemos ao telefone, ou escrevemos nas mensagens de texto. Em compensação, tampouco pode cortar a linha do assinante por discordar do que ele diz ou escreve.

Só o Estado, por meio da Justiça, deve ter tal poder. Exatamente pelo fato de Estado e a Justiça não serem propriedade privada. Pelo menos na teoria.

Talvez seja ilusão pedir que este debate aconteça aqui no Brasil em torno de princípios e convicções, num tempo em que eliminar o adversário é a única regra válida do jogo político, um jogo aliás no qual ambos os lados se pretendem gladiadores em defesa da liberdade. Seria cômico se não fosse trágico.

Então que pelo menos não sejamos inteiramente submissos como nação a um poder que nos escapa.

Somos um país grande, com território, população e recursos econômicos suficientes para pretender um bom grau de autonomia nacional e projeção global. Mas este episódio exibe qual é talvez nosso principal obstáculo: a absoluta incapacidade de enxergar por cima das momentâneas disputas políticas e entender onde está o interesse nacional.

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Publicado originalmente na revista Veja 2.721, de 20/01/2021


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Planejar o longo prazo

Situações de stress extremo induzem à busca de soluções milagrosas e imediatas, com o pensamento mágico servindo de motor. É normal, portanto, o que vemos agora na pandemia da Covid-19: a ilusão de que a largada da vacinação vai trazer um alívio quase instantâneo.

Haverá algum alívio, sim, mas por enquanto ele estará restrito principalmente aos limites da psicologia. Na vida real, o vírus continuará circulando firme, fazendo adoecer e infelizmente matando, até a maioria da população estar imunizada. 

A partir daí é que se poderá falar em algum controle em grande escala. É o que dizem os especialistas (leia).

Então preparemo-nos para um 2021 duro. No qual não será possível trancar todo mundo em casa até a próxima São Silvestre nem será sensato fingir que o problema não existe. Precisamos de uma política de volta progressiva às atividades e que combine com as necessárias medidas de distanciamento social.

Isso é particularmente urgente na Educação (leia). As maiores vítimas da guerra político-judicial e da ausência de qualquer coordenação nacional para a retomada têm sido nossas crianças e jovens. Especialmente os da escola pública.



Clandestinidade

Costumo recorrer amiúde ao Conselheiro Acácio, personagem imortalizado na literatura por Eça de Queiroz, porque até hoje não achei expressão melhor que "as consequências vêm sempre depois" para descrever certas situações. Uma agora é isso de banir, ou quase, o trumpismo das redes sociais abertas. O que aconteceu? Ele vai migrando para a clandestinidade ou semiclandestinidade digital.

Aliás a clandestinidade pode ser um meio excelente para a multiplicação de militantes, com a vantagem de dificultar o rastreamento e monitoramento desses movimentos. Os exemplos históricos são abundantes. Um movimento político não precisa ser necessariamente grande para ser importante. Se for coeso e bem organizado, estará a postos para emergir quando a conjuntura política exigir, e permitir.

Mas nem sempre a racionalidade prevalece. Nem sempre se enxergam lances à frente no tabuleiro. A verdade é que as duas correntes, o trumpismo e o antitrumpismo, permanecerão vivas. O melhor para o sistema seria absorvê-las e fazê-las disputar a política por dentro da institucionalidade. Vale para os Estados Unidos mas vale também para o Brasil.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Sejamos otimistas

O governo federal empenha todo o seu poder de logística para iniciar semana que vem a vacinação contra a Covid-19. Aviões vão à Índia buscar milhões de doses da AstraZeneca/Oxford. E tem também os outros milhões da CoronaVac já aqui no Brasil. A palavra final da Anvisa está prevista para domingo.

Quando começar a vacinação, começará também o novo round da guerra de narrativas, sobre quem "sempre teve razão". Mas, para suas excelências, o cidadão e a cidadã comuns, isso pouco importará: a brasileira e o brasileiro querem é ser vacinados.

E como isso vai repercutir em 2022? Se Deus quiser, até ali a vacinação já terá imunizado a grande maioria, e a vida terá retornado ao quase normal. O "quase" fica por conta da necessária desconfiança, pois a ponte para o futuro está sendo construída com os carros já passando por cima dela.

Sejamos otimistas. Pensemos no melhor cenário. Nele, chegaremos a 2022 com os candidatos aos diversos cargos, a começar da Presidência, tendo de procurar outro assunto para brigar, pois a Covid-19 será bananeira que deu cacho.

Não custa sonhar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Números relativos

Israel já vacinou mais de 20% da população, e uns 80% dos idosos. Claro que não dá para comparar um país de nove milhões de habitantes (bem menos que a cidade de São Paulo) com um das dimensões do Brasil, mas é campo interessante para acompanhar resultados da vacinação.

A vacina ali aplicada é a da Pfizer e alguns resultados iniciais mostram taxas de infecção entre os vacinados caindo cerca de 50% catorze dias após a primeira dose. Há porém números concorrentes. Outro estudo diz que essa queda é de 33%. Um outro diz que é de 60%.

Fica a dica: qualquer certeza absoluta sobre números a esta altura é perigosa, muito perigosa. Na prática, os estudos sobre efeitos das vacinas estão caminhando junto com a vacinação, dado o caráter de emergência do problema sanitário global trazido pela Covid-19.

No mundo ideal, deixaríamos o marketing e as disputas políticas para depois e procuraríamos vacinar a maior população possível o mais rapidamente possível. Não sabemos que número vai dar no final, mas podemos ter certeza de que mais gente vai sobreviver à doença se fizermos isso.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Que comece o jogo

Como já foi dito aqui, uma vantagem da disputa política entre o governo federal e o paulista em torno da vacinação contra a Covid-19 é a corrida ter entrado no estágio em que ambos querem mostrar serviço. Bom para a população que precisa ser vacinada. Afinal de contas, que os políticos briguem, mas o cidadão e a cidadã comuns querem mesmo é uma vacina segura e eficiente.

O ministro da Saúde informou que os estados receberão as vacinas três a quatro dias após a chegada delas ao país ou a liberação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) (leia). Que este dia chegue o mais rápido possível. Há muita espuma no debate, mas ainda estamos em tempo, na comparação com outros países da dimensão do nosso.

E temos uma vantagem: uma máquina de vacinação construída e azeitada ao longo de décadas. Basta que a entropia política dê uma folga e as autoridades se concentrem na missão de fazer a coisa acontecer. Pois, ao fim e ao cabo, elas serão julgadas nas urnas de 2022 pelo que fizeram ou deixaram de fazer, e não tanto pelo que se disse delas.

Acabou o pré-jogo, agora a decisão é em campo.


sábado, 9 de janeiro de 2021

Para a defesa de interesses, manobras complexas

Governos que se mantêm apesar das crises induzem a celebrar e elogiar a institucionalidade; já governos que fracassam e caem têm sempre a tentação das teorias conspiratórias. Mas a realidade, em última instância, é uma só: cabe a qualquer governo cuidar de suas bases de sustentação, sem elas está fadado à ruína. Seja qual for a "institucionalidade".

E quando a ruína vem, abre-se a possibilidade de uma ofensiva do inimigo, que costuma ser implacável e brutal. E que só freia quando se estabelece uma nova correlação de forças, mais equilibrada. Ainda não chegamos a esse ponto nos Estados Unidos. A coalizão política, social e cultural organizada pelo Partido Democrata contra Donald Trump só começou seu avanço.

E com a ordem de não fazer prisioneiros.

E a ofensiva ali se espalhará por todos os fronts. A guerra cultural será particularmente cruenta, na tentativa de ajustar as contas com as raízes mesmo da formação nacional norte-americana e daí buscar uma legitimidade de tipo completamente novo. Até chegar o dia em que tudo isso vai cansar e os robespierres de hoje forem encaminhados à guilhotina.

Claro que em pleno século 21 essa é apenas uma figura de linguagem. Mas os precedentes históricos são vários.

E o que temos a ver com isso, tirando o óbvio interesse pelo espetáculo? O que os americanos vão fazer com o país deles é assunto deles, mas o problema é se tratar de uma superpotência, a maior, e com armamento capaz de destruir a civilização algumas vezes. E qual será o melhor meio para os novos detentores do governo ali buscarem mais apoio num país fraturado?

Além de fazer a revolução interna, tentar restabelecer a liderança planetária que vai escorrendo pelo ralo do fantasma da decadência econômica.

A política de Donald Trump para fazer a América grande de novo sustentava-se no resgate das raízes nacionais e, principalmente, no buy american and hire american. Os americanos comprarem produtos americanos e produzirem em casa. Joe Biden repete o buy american, mas a ambição dele é maior: remontar a hegemonia planetária.

Aí cada país, dos maiores aos menores, precisará entrar num jogo de manobras complexas, buscando no todo e em cada situação defender seus próprios interesses, e ao mesmo tempo adaptar-se aos interesses de quem tem a vantagem da força. Porque, novamente, nunca é prudente subestimar a correlação de forças.

E qual o desafio maior do Brasil na nova conjuntura? Talvez saber qual é exatamente o interesse nacional neste momento da nossa história. Dificuldade que aliás começa pela dúvida, espalhada sistematicamente na periferia do sistema global: faz sentido falar em “interesse nacional” já passadas duas décadas deste novo século?

Fazendo um certo reducionismo caricatural, o Brasil parece estar dividido entre quem preferia engatar incondicionalmente nosso vagão na locomotiva trumpista e quem agora está pronto a bater continência à nova ordem, também de modo incondicional, desde que receba de fora o apoio suficiente para fazer aqui dentro seu próprio ajuste de contas.

Não chega a ser animador.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Lição de Brasil

De vez em quando é preciso ser otimista. E hoje é um dia assim. Depois da espera, não um, mas dois registros de vacinas contra a Covid-19 foram pedidos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. 

Da CoronaVac, parceria entre a chinesa Sinovac e o Butantan, e da AstraZeneca/Oxford, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz. A primeira é a aposta do governo de São Paulo (João Doria). A segunda é a aposta principal do governo federal (Jair Bolsonaro).

Está instalada a competição, começou a corrida. Em disputa, não apenas os imunizantes, mas a estrutura e os instrumentos, principalmente as seringas. Quem vai ganhar ao final? Quem mais eficazmente realizar a missão nos próximos meses. E a vacina que se provar mais efetiva no essencial: imunizar a população contra o SARS-CoV-2, inclusive suas novas variantes.

Restam dúvidas? Que sejam esclarecidas pela Anvisa, perfeitamente equipada para tanto.

O episódio é mais uma lição de Brasil. Sobre nosso país, nunca convém otimismo excessivo sobre as possibilidades, mas tampouco é conveniente ceder ao catastrofismo. É o caso agora. A Covid-19 não vai desaparecer num passe de mágica por aqui, mas não seria sensato supor que ficaríamos para trás enquanto o mundo todo já estivesse se vacinando em massa.



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Free speech e controle

O Facebook e o Twitter cortaram temporariamente a possibilidade de o presidente Donald Trump postar nas redes sociais dos dois conglomerados. É um dos mais nítidos sinais de já haver, na prática, um novo governo em Washington.

Ao longo do mandato de Trump, as redes conviveram bem com a utilização desses canais pelo presidente, inclusive quando ele propagava informações não comprovadas, ou não comprováveis. As sobre a pandemia são um exemplo. A preocupação com o combate às fake news só apareceu depois que ele perdeu a reeleição.

Seria ingenuidade imaginar que mesmo os maiores conglomerados econômicos não precisem, em algum momento, bater continência para o poder. Mais confortável é quando podem fazer isso alegando a "defesa da democracia e das liberdades". É o best-case scenario de agora.

Do episódio, fica pelo menos uma preocupação. Quem define o que pode ou não ser postado nas redes? Dar esse poder aos governos parece excessivo? E dar esse poder às próprias empresas, é aceitável? E como o direito ao free speech sobreviverá a tudo isso?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Uma data (realmente) histórica

Todo fenômeno histórico precisa, quando estudado, receber uma data fundadora, com um acontecimento determinado. É apenas uma convenção, mas útil para estudar a explicar o andamento da história em termos mais didáticos.

Foi assim com o século 20, dito o século curto, pois teria começado na Primeira Guerra Mundial e terminado no colapso da União Soviética. E a metodologia vale sempre, com a vantagem de conferir ao analista e estudioso o poder de ajeitar o calendário para fundamentar uma tese.

Hoje é um dia assim, ficará disponível para os historiadores quando precisarem explicar os acontecimentos que contribuíram para a disfuncionalidade da democracia nos Estados Unidos. Pois nunca antes ali os derrotados recusaram reconhecer a vitória do adversário depois de abertas as urnas.

Outros poderão argumentar que não, que a confusão toda começou quando os democratas tiraram do baralho a carta da "conspiração russa que elegeu Trump", e que levou ao impeachment dele. Bem, fica a critério de cada um, e cada um tem o direito de ter suas preferências.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Torcendo pelo empate

Segundo o Banco Mundial, a economia global deve crescer 4% este ano após ter encolhido 4,3% ano passado (leia). Previsões de como o ano vai terminar feitas assim no comecinho devem ser vistas com reservas. Mas um número é sempre um número. E quem faz as previsões tem bastante tempo para ir depois ajustando a vela conforme a direção do vento.

Se bem que a própria previsão contrata um seguro-calamidade. Se a pandemia piorar e a vacinação tropeçar, o banco diz que a recuperação global pode ficar em minguados 1,6%. Assim não é tão difícil acertar previsão. É o óbvio ululante: a recuperação econômica depende de as pessoas se sentirem seguras para produzir e, mais que tudo, consumir.

Puxada pela China (previsão de 7,9% em 2021), a economia dos emergentes deve escalar 5%, o dobro do que contraiu em 2020. Pena que no Brasil, na melhor das hipóteses, a subida este ano só vai compensar a queda do ano passado. Esse "só" é exagero meu. Se conseguirmos o empate, será motivo de queima do fogos no -esperamos- animado réveillon de 2022.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O túnel é comprido

É humano o animar com o início da aplicação, mundo afora, das vacinas contra a Covid-19. É uma luz no fim do túnel. O problema? O túnel é bem comprido. Normalidade? Talvez em 2022. Pois será necessário que mais da metade da humanidade esteja vacinada. E isso vai demorar.

Países menores e mais organizados, como Israel, levam vantagem. Mesmo que Israel esteja mergulhado numa crise política crônica. Por razões historicamente óbvias, persistem ali uma capacidade operacional do Estado e uma certa coesão social. Mesmo quando os políticos brigam.

Por aqui, segue a contenda. Quem vai levar? Um troféu irá para o que primeiro começar a vacinar, mas a maior taça está reservada para as mãos de quem bem resolver a coisa no macro: com vacinas, seringas, postos de vacinação e profissionais treinados, tudo Brasil afora.

E tem também agora o debate em torno das clínicas privadas de vacinação. Que querem importar vacina da Índia. Diz o Ministério da Saúde que precisarão respeitar a ordem de grupos prioritários estabelecida para a população em geral (leia). Tem lógica.



sábado, 2 de janeiro de 2021

A sorte, o azar e o calendário

Na política, às vezes a sorte ou o azar estão conectados ao calendário. Barack Obama teve sorte quando a crise financeira de 2008 estourou na véspera das eleições presidenciais. Azar do John McCain. Donald Trump teve azar quando a eleição do ano passado aconteceu já com uma montanha de mortos ali pela Covid-19 mas antes de as vacinas entrarem em campo. Sorte do Joe Biden.

Se as coisas no Congresso Nacional não desandarem antes para Jair Bolsonaro – um round fundamental será jogado na eleição para presidente da Câmara dos Deputados –, o ponto a monitorar serão as projeções para a situação do presidente e candidato à reeleição em meados do segundo semestre de 2022. Como estarão ali as três variáveis mais presentes hoje em qualquer análise prospectiva?

São elas, não necessariamente na ordem de importância: 1) a assim chamada guerra cultural, 2) a economia e 3) a Covid-19. Sobre a primeira, é visível que pelo menos no plano internacional a corrente a que o bolsonarismo se filia sofre revezes. O mais vistoso foi a derrota de Trump, porém não o único. 2022 ainda vai politicamente longe, mas não se enxergam por enquanto possibilidades que revertam essa tendência até lá.

Sobre a economia, os dados de atividade, emprego e confiança apontam recuperação. A dúvida é se o paciente continuará recuperando depois de extubado do auxílio emergencial e demais medidas extraordinárias. E ainda tem a inflação a acompanhar, com uma possível elevação de juros no horizonte. Os mercados andam otimistas, mesmo descontado o fator excesso de liquidez.

E a Covid-19? O cenário mais provável é chegarmos a meados do segundo semestre de 2022 com uma contabilidade estonteante de mortes, mas também com o grosso da população brasileira vacinado. O que vai prevalecer? A polêmica sobre quem foi o culpado pelos números trágicos? Ou o alívio pelo sucesso da imunização? Sempre supondo, é claro, que a vacina seja mesmo um sucesso. Mas não custa otimismo de vez em quando.

Por enquanto, o presidente leva a melhor na guerra das narrativas, como mostrou o Datafolha. Só 8% acham que ele é o principal culpado pelas mortes da pandemia. E 52% acreditam que ele não tem culpa nenhuma. Um aspecto intrigante nesses números é eles estarem descolados da clássica divisão do eleitorado em três terços: pró, contra e centristas. Ou seja, os números da pesquisa não foram capturados pela dita polarização.

Cada um que faça seu prognóstico. O meu é que a Covid-19, e quem foi o culpado pelas mortes por ela provocadas, talvez não venha a ser o filé mignon da campanha de 2022. E se a economia estiver razoável, tampouco esta será. É possível que a eleição aqui mimetize em algum grau a americana do ano passado, onde a chave foi a formação de uma frente sócio-política-cultural anti-Trump cujo único ponto de convergência era tirá-lo do poder.

Por isso, não basta ao presidente chegar forte e competitivo em 2022, com a economia bem e senhor da narrativa que coesiona seu campo. Trump chegou e perdeu, também pelo azar com o calendário. E apesar dos sucessos na economia. Bolsonaro precisará dar um jeito de evitar a convergência do oposicionismo. Por enquanto, ele vem trabalhando para fazer o contrário, para juntar os que a ele se opõem. 

O primeiro grande sinal é a ensaiada união do PT com os algozes de Dilma Rousseff no impeachment dela.