sábado, 22 de junho de 2024

Uma briga combinada?

As orientações políticas e econômicas no Brasil parecem presas, há décadas, num labirinto de contradições, sem chance de encontrar a rota de saída. Daí o país viver eternamente seu Dia da Marmota, seu “Groundhog Day”, o também eterno clássico de 1993 com Bill Murray e Andie McDowell. Com uma diferença: o filme tem um desfecho.

A Constituição de 1988 apresenta-se, e é apresentada, como o esteio da nossa dita democracia, mas todo presidente que entra traz como primeira iniciativa mudar a Constituição. O texto caminha para as quatro décadas de vida, mas não se passou um dia desde então sem que o debate econômico girasse também em torno da necessidade de mexer profundamente nele.

Fora da economia, há bem menos iniciativas por mudar a Carta produzida pela última Constituinte, mas a vida, como o rio diante de uma barreira, acaba encontrando seus caminhos. Um deles é a metamorfose informal do Supremo Tribunal Federal (STF) em corte Constituinte, em vez de Corte constitucional, a pretexto de interpretar e atualizar o escrito. Coisas do Brasil.

A obra dos constituintes legou-nos também a combinação genial (ironia) entre 1) o Pacote de Abril de 1977; 2) um generoso pluripartidarismo; 3) o voto proporcional em lista aberta; e 4) eleições presidenciais em dois turnos. O resultado prático? Nenhum presidente consegue eleger com si mesmo uma maioria parlamentar.

Repare o leitor que todo governo brasileiro atravessa o mandato enroscado com dois problemas: as "inadiáveis reformas" (a do momento é a tributária, mas já, já vem aí de novo a previdenciária) e os meandros de uma articulação política paralisante. E todo governo aceita essa ordem de prioridades como fato determinado.

Mais ou menos como a turma presa dentro da mansão em outro clássico, “O Anjo Exterminador” (1962), de Luis Buñuel (o final não deixa de apontar dicas de saídas para o impasse brasileiro). E qual o resultado da relativa impotência? Acelerar a tendência contemporânea de as narrativas ocuparem completamente o lugar das ações na alimentação das percepções.

Sobre este último aspecto, é interessante notar que já são alguns dias desde a retomada, em outro patamar, da refrega entre os presidentes da República e do Banco Central, sem que uma dúvida preliminar se esclareça. Por que os indicados de Luiz Inácio Lula da Silva votaram com Roberto Campos Neto para interromper a sequência de quedas da taxa básica de juros?

Bem, ou 1) era isso mesmo que, tecnicamente, tinha de ser feito para evitar a corrosão acelerada da moeda, que seria politicamente fatal para o governo; ou 2) os nomeados por Lula capitularam diante dos neoliberais e das pressões do mercado. No segundo caso, esperava-se que a bancada do atual governo no BC entrasse na linha de tiro do oficialismo. Mas não. Só quem apanha é o presidente do banco.

E as personalidades governamentais que mantêm abertos os vasos comunicantes com a banca sustentam, com seu silêncio, as posições da autoridade monetária. Resta ao observador suspeitar que, na impossibilidade de sair do labirinto, estamos diante de mais uma cena do permanente teatro da política brasileira.

Uns falam para as bases, outros para o dinheiro. No final, o poder se protege de todos os lados.

É uma hipótese a demonstrar, mas que seria coerente com a velha máxima atribuída ao chefe da Constituinte de 1987-88, Ulysses Guimarães. Ele dizia que em Brasília até a briga é combinada.

*

Em férias. Até a volta.

sábado, 8 de junho de 2024

Lentes que não servem mais

É bem conhecido o princípio, de autoria célebre, sobre a pouca racionalidade em repetir sempre os mesmos procedimentos e esperar que deem resultados distintos dos habituais. Talvez seja útil para compreender os possíveis caminhos de solução do enigma político-marquetológico do momento: por que o governo amealha na popularidade pouco ou nada dos resultados econômicos favoráveis?

Já se abordaram nesta análise rotineira razões de caráter subjetivo. Podem ser resumidas no desconforto progressivo que o governo constrói para si na população que resiste à reforma comportamental-moral-doutrinária da sociedade a partir do Estado. Têm também raízes num certo ambiente opressivo sentido pelos que não se alinham 100% ao oficialismo.

Afinal, a variável a sempre medir neste particular é menos a sensação de liberdade de quem apoia o governo, e mais a de quem em graus distinto se opõe a ele.

Como aspectos subjetivos nunca devem bastar na análise de dificuldades político-comunicacionais, é preciso dissecar a economia política, a “anatomia da sociedade civil”, segundo a terminologia clássica. Vale a pena olhar para dois pontos sensíveis: 1) a receita do governo para combinar doses de disciplina fiscal e expansão de gastos e 2) uma certa incapacidade de o PT compreender o país que ajudou a construir desde 2003.

No primeiro, a resultante dos dois vetores são mais impostos. Ou novos ou produto da engorda dos existentes. Isso afeta não apenas os atingidos, mas também os ainda não atingidos, mas temerosos de serem alguma hora. E há uma diferença entre as amplitudes e velocidades do mal-estar provocado pelo furor arrecadatório e as dos benefícios das turbinadas políticas públicas.

Recorde-se o papel dessa assimetria na crise de 2013.

O segundo ponto? O PT parece olhar 2023 com as lentes de duas décadas atrás. Naqueles já distantes anos, Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Planalto como a dupla esperança de renovação pol tica e combate à pobreza. Hoje, não dá para dizer que Lula ou o PT consigam projetar uma imagem de força transformadora, nem as receitas clássicas de redução da desigualdade fazem o mesmo efeito.

Desde 2013, sabe-se que os investimentos sociais e o crescimento da primeira década petista produziram apenas parcialmente um contingente grato a Lula e ao PT. Boa parte, talvez a maioria, dos ascendentes consideram-se responsáveis pela própria ascensão social e almejam não mais Estado, mas um Estado mais eficiente e mais liberdade econômica. Essa é a dura, para o PT, realidade.

O problema é este terceiro mandato de Lula insistir, ou ao menos parecer insistir, numa certa estatolatria, utopicamente voltada para um Estado igualmente utópico, mas na vida real aprisionada pelo Estado brasileiro realmente existente, esta azeitada máquina de concentração de renda, produção de desigualdade e blindagem de privilégios.

E que nos últimos tempos agregou a isso a arrogância dos autonomeados protetores da sociedade e da democracia, que por isso acreditam poder fazer o que bem entendem e viver da maneira que bem entendem, sem dever explicações a ninguém.

sábado, 25 de maio de 2024

A dura vida da bailarina

Há certos debates de viés filosófico que acabam tendo impacto imediato na política. O do momento é sobre o conceito de “verdade”. Buscam-se mecanismos que impeçam a contaminação do tecido social pela “não verdade”, e o caminho tateado é estabelecer normas para tanto e instâncias que as apliquem, premiando a verdade e punindo seu oposto.

Como se trata de um caso típico em que falar é mais fácil do que fazer, a tentativa por aqui vem atolando no pântano dos fatos, da correlação de forças e das malvadas contradições, sempre elas. Dois problemas imediatos já bem identificados: 1) achar os critérios que definam com alguma precisão qual é a verdade em cada caso e 2) quem ficará encarregado de julgar, premiar e punir.

Daí também um certo impasse legislativo em torno do tema, pois impor “a verdade” sem permitir que ela nasça a partir da observação da realidade e do confronto aberto entre opostos só é possível, e mesmo assim de maneira imperfeita e temporária, pelo terror. E, como mostra o retrospecto, todo regime que se sustenta apenas com base na violência tem encontro marcado com o colapso.

Já que estamos tratando da verdade, eis mais uma: é mais confortável deixar a racionalidade para lá, ou ignorar Werner Heisenberg e seu Princípio da Incerteza, e buscar o conforto do pensamento único. O curioso, mas não inesperado, é essa obsessão hoje ser marca de quem atravessou os anos 90, após o colapso do socialismo real na Europa, reclamando e se lamentando por causa da tentativa de impor o fim da história e a hegemonia liberal.

Mas exigir coerência na política é ingenuidade ou hipocrisia, não percamos tempo.

A análise vem se espantando com a resiliência da polarização. Como já dito em textos aqui, há algum equívoco em absolutizar, pois muitos governadores e prefeitos, talvez a maioria, conseguem escapar da própria bolha e lançar pontes ao campo dos que não votaram neles.

Porém a ossificação é um fato na esfera nacional. Talvez pelo protagonismo da política mais ideológica. Vai saber…

Talvez tenha a ver com uma lógica atualmente hegemônica, mais voltada a criminalizar ideias e ações políticas dos adversários do que a derrotá-los com algum uso da razão. Quando discutia sua prisão, Luiz Inácio Lula da Silva argumentava que retirá-lo de circulação não resolveria o problema dos oponentes, pois ele tinha deixado de ser apenas uma pessoa. Tinha se transformado numa ideia.

Se vale para ele, quem sabe valha também para os contra ele.

*

E as armadilhas no caminho de quem tenta se apresentar como político guiado por princípios genéricos?

Nesta semana, o procurador no Tribunal Penal Internacional pediu a prisão de dois líderes israelenses e três do Hamas. O que causou certo desconforto entre parte dos críticos de Israel na Esplanada. Como festejar uma parte do parecer e criticar outra? Complicado. Ainda mais quando o presidente da Rússia também teve sua prisão decretada pelo TPI.

É mesmo dura a vida da bailarina.

sábado, 18 de maio de 2024

Tragédia e oportunidade. E o bilhete esquecido da Mega-Sena

Há pouca dúvida de que o Rio Grande do Sul é vítima principalmente não dos arroubos da mãe natureza, mas das ações, ou inações, de seus governantes. A prova definitiva está em que já tinha havido ali um evento climático de dimensões semelhantes, em 1941. E outros de menor intesidade são comuns.

Se a Holanda conseguiu e consegue há tanto tempo ganhar terras do mar, por que não seria possível proteger por aqui de maneira permanente áreas como a do Guaíba e da Lagoa dos Patos, tão potencialmente vulneráveis à subida das águas?

Sobre isso, há relatos de incúria estatal recente, descaso e desleixo, que serão objeto de investigação, e naturalmente resultarão conclusões convenientes para quem, à época, tiver mais força política para conduzi-la.

De todo modo, está aberta uma janela animadora de oportunidade em terras gaúchas para políticos que apareçam com propostas, e credibilidade, de como resolver os gravíssimos problemas imediatos e evitar, ou pelo menos tentar evitar, que se repitam.

A tragédia das inundações no Rio Grande do Sul é o que se pode chamar, neste caso com justiça, de evento politicamente disruptivo. Talvez ainda não nacionalmente, mas com certeza na esfera local. É possível (talvez agora eu esteja sendo otimista) que, por isso, as próximas disputas ali consigam escapar do ramerrame recente, para não dizer pantomima, das eleições brasileiras.

Repetindo, é uma janela de oportunidade fantástica para quem consiga se colocar numa perspectiva de futuro.

Também por isso, soam algo ridículas as lamúrias de que os atores estão se conduzindo politicamente. Luiz Inácio Lula da Silva e o PT têm agora a oportunidade de romper o isolamento político numa capital e num estado que já governaram e onde mais recentemente acabaram amputados da expectativa real de poder por forças políticas que agora amargam a desmoralização.

Seria também impensável Lula não se animar com a possibilidade de colocar uma cunha na região Sul, a que mais vem se opondo ao PT nas eleições. Imaginem qual seria a animação do campo oposto se algo similar atingisse algum estado do Nordeste e oferecesse a oportunidade de construir alternativa política a partir de necessidades vitais de um eleitorado levado ao desespero.

A tragédia no Sul é também uma oportunidade de Lula mostrar serviço para o conjunto e romper o cercadinho político-ideológico de seu campo político. Isso tem imposto a ele perda de capacidade hegemônica interna e relevância externa. Em 2022, o presidente ganhou na Mega-Sena da política, mas dá a impressão de não lembrar onde guardou o bilhete, e sem isso fica difícil sacar o prêmio.

sábado, 4 de maio de 2024

"É a política, estúpido"

O governo federal encontra alguns percalços pelo caminho. Isoladamente, não chegam a ter grande impacto, mas no conjunto acabam provocando sensação de desconforto. E a abordagem do governo tem sido tópica. O ato do Primeiro de Maio foi fraco? Culpa da fraca convocação. As relações com o Congresso andam pedregosas? Herança maldita de Jair Bolsonaro, que cedeu poder demais ao centrão. As pesquisas preocupam? Falta comunicar-se melhor.

A administração Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta ainda uma dificuldade adicional. Na esteira do ambiente produzido pelo 8/1, toda crítica contundente corre o risco de ver-se criminalizada, visto a declarada prioridade de proteger as instituições nacionais. Há poucas coisas mais perigosas para governos do que o apoio e a proteção praticamente consensuais na opinião pública. Pois nem os aplausos unânimes nem a interdição do debate conseguem represar eternamente os problemas ou o sentimento popular.

É a velha história do canário na mina de carvão.

São bem conhecidas na historiografia e na bibliografia as situações em que tudo parece estar sob controle, até que um dia, de repente, o poder topa com a urna ou com a rua. Ou com as duas. Os relâmpagos em céu azul.

Olhar para a política é o movimento mais prudente quando os problemas parecem chegar em série.

Certa leitura mecânica do impacto da economia na aritmética eleitoral tende a produzir determinismos perniciosos. Nem sempre uma economia positiva produz pesquisas, ou urnas, decisivamente a favor. Um exemplo é Joe Biden agora. Os números econômicos ali são bons, o incumbent sempre será competitivo, mas por enquanto a aprovação dele vai mal e ele come poeira para Donald Trump.

Outro exemplo é o próprio Bolsonaro. Chegou à disputa da reeleição com a economia recuperando-se bem, isso até permitiu a ele manter-se competitivo, mas não foi suficiente para compensar uma rejeição que pouco ou nada tinha a ver com a condução econômica. Recorde-se, por falar em bolso, que o então presidente mais que triplicou o valor do Bolsa Família, renomeado Auxílio Brasil, mas isso não lhe rendeu qualquer avanço substancial em votos no público beneficiado.

Nem sempre o “é a economia, estúpido,” (crédito ao Carville) é quem decide. Em eleições como a nossa para o Executivo, quando disputadas em dois turnos, é preciso ter 50% mais um dos votos. 50% menos um não adianta nada.

É possível que o governo Lula tenha partido de um diagnóstico pouco preciso quanto ao país que decidiu dar a ele este novo mandato. Na narrativa oficial, o Brasil precisava ser reconstruído. Mas talvez a vitória em 2022 tenha decorrido principalmente de uma rejeição à pessoa de Bolsonaro, nem tanto ao governo que ele presidia. O que talvez exigisse mais cuidado no manejar a polarização e mais esforços para a busca de pontos de contato e possíveis consensos entre os campos político-sociais.

Isolar o campo da direita e exercer o poder principalmente por meio da coerção jurídica têm tido alguma eficácia operacional, mas parecem reduzir a possibilidade da busca de consensos. Antonio Gramsci desenvolveu bem a relação entre coerção, consenso e conquista da hegemonia. Até numa ditadura propriamente dita é dificílimo governar contra metade da população. Quanto mais num regime político que mantém traços de democracia constitucional.

E o argumento de que a polarização estaria cristalizada não resiste ao teste empírico, pois diversos governadores e prefeitos da direita e da esquerda têm conseguido avançar sobre o eleitorado que preferiu o campo oposto na última eleição. Basta olhar os números atuais de avaliação e aprovação deles.

E tem também a combinação de vetores dos interesses da Fazenda (exibir disciplina fiscal) e do restante do Executivo (gastar, investir), sem que um e outro demonstrem qualquer preocupação com conter o gasto público ineficiente. A única resultante possível é a pressão para arrecadar mais. O governo sempre repete que a ideia é taxar os ricos, mas a cidadania acaba desconfiando, com alguma razão, que o esforço arrecadatório sairá do bolso dos de sempre e acabará no bolso dos de sempre.

sábado, 20 de abril de 2024

Um esboço de (começo de) autópsia

Merecerá estudos, algum dia, a transição da promessa de uma democracia constitucional pluralista, base do otimismo histórico da redemocratização de 1984-85, para nosso atual ensaio de “democracia hobbesiana”, em que a única disputa real é sobre que lobo conseguirá, ao fim e ao cabo, eliminar a possibilidade de alternância no poder.

Tais reflexões deverão necessariamente dissecar a paradoxal absorção hoje em dia das narrativas excepcionalizantes do regime militar pelos que um dia se opuseram a ele e foram construindo, ao longo dos anos 1970 e 80, o movimento afinal vitorioso, cristalizado na Constituição de 1988. Um debate essencial se dará sobre se a deriva era inevitável ou se foi uma escolha.

Talvez ainda seja cedo para concluir a autópsia da ordem político-institucional produzida ali, apesar de ela jazer sem vida, mas vale começar a especular a respeito de onde começou a desandar. É natural que a esquerda finque o primeiro landmark na crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson em 2005. E que aponte especial destaque à Operação Lava-Jato e ao impeachment de Dilma Rousseff.

Assim como será natural, no futuro, os atuais movimentos da Justiça brasileira serem destaque na historiografia de direita.

Mas há dois acontecimentos, com suas circunstâncias, que exigirão um olhar mais detido, apesar de hoje estar algo ausentes das narrativas em choque. Um é o impeachment/renúncia do primeiro presidente eleito diretamente após o fim da ditadura, Fernando Collor de Mello. As mesmas forças que haviam saído às ruas em 1984 para exigir as diretas lideraram a derrubada dele.

Também por Collor representar, em algum grau, o ancien régime.

Se há argumentos para defender que Dilma foi vítima de um processo sem base substancial, qualquer um que se detenha nos motivos para a deposição de Collor notará a mesma, ou maior, vacuidade de elementos. A diferença é faltar ao ex-presidente quem esteja interessado em reabilitar a imagem histórica dele. No limite, falta-lhe um partido.

Ou talvez a origem do desandar precise ser buscada um pouco antes, no ambiente político que cercou o mandato de José Sarney. Quando a democracia liberal constitucional mostrou sua cara, junto veio um fabricado horror a seus aspectos menos elegantes. Especialmente a necessidade de o Executivo buscar maioria parlamentar por meio de negociação política que obrigatoriamente envolvesse concessões materiais.

É de então a ojeriza seletiva ao “toma lá dá cá” e o celebrizar de expressões como “fisiologismo”, hoje em conveniente desuso. Mas sempre ali na gaveta para qualquer necessidade.

Combinada aos fracassos na luta anti-inflacionária daqueles tempos, a repulsa à “política realmente existente” foi o tiro de largada, o “big bang” dos sucessivos surtos de neogolpismo dos antes não golpistas, ou antigolpistas. E um dos primeiros capítulos se deu quando os democratas radicais de 1984-85 tentaram amputar na Constituinte em dois anos o mandato de Sarney. No fim, conseguiram cortar um.

O que levou à eleição “solteira” de 1989, à vitória “bonapartista” de Collor e a todas as consequências que, como advertia o Conselheiro Acácio, vieram depois. Na base de tudo, aquela ojeriza à política e o veto a alternâncias reais. E aqui estamos.

sábado, 6 de abril de 2024

O debate econômico costeia o alambrado

O debate sobre o papel da economia no atual desgaste do governo vem “costeando o alambrado”, como diria Leonel Brizola. A razão é política. O ministro da Fazenda tem o mérito de conquistar para si alguma blindagem em áreas empresariais potencialmente mais refratárias a Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT. No que, por tabela, acaba ajudando o presidente e o partido. Pois, ao fim e ao cabo, apoiar o ministro é apoiar o governo.

Deve-se também a esse fator a aceitação algo passiva da lógica que comanda a equação econômica em curso. Já que Lula não quer nem ouvir falar em cortar gastos, ao contrário, e já que Fernando Haddad deve boa parte da sustentação política dele na sociedade ao compromisso com alguma disciplina fiscal, a pauta da inevitabilidade de medidas que anabolizem receitas governamentais vem descendo goela abaixo da opinião pública com menos aspereza do que seria se os personagens fossem outros.

Adaptando Ortega y Gasset, as opiniões, no mais das vezes, são elas próprias combinadas com suas circunstâncias.

Em outras circunstâncias, a crítica do mainstream estaria voltada para a “sanha arrecadatória” e a resistência a melhorar a produtividade da máquina pública. Mas, nas condições dadas da conjuntura, o laser está apontado para o Congresso quando este resiste à pressão por mais impostos, mesmo que resultantes só do fim de renúncias fiscais. Pouca atenção se dá às dúvidas em torno da premissa: a resultante de aumentar agora a receita como proporção do PIB é boa ou ruim para a economia?

Justiça se faça a Lula, ele cansou de dizer que colocaria "os pobres no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda”. Aqui não tem estelionato nenhum, a orientação econômica do governo é uma social-democracia clássica: promover mais justiça social redistribuindo, via Estado, parte do valor socialmente produzido e concentrado. O desafio? Combinar esse distributivismo com a necessidade de um crescimento econômico robusto, que depende quase totalmente do investimento privado.

A social-democracia não está exatamente na moda no berço dela, a Europa. Nos Estados Unidos, enfrenta a dura oposição de um liberalismo econômico que casou com o conservadorismo dito cultural. E esses são países e regiões cujo nível da economia coloca até menos pressão na necessidade de desenvolvimento. Entre nós, o modelo social-democrata até agora passa longe de explicar como combinar o distributivismo com o estímulo a que os capitalistas invistam.

O governo Lula diz ter a solução: expandir o poder de compra da população expande o mercado e, portanto, é um chamado ao investimento privado. Um caminho diferente seria apostar principalmente na formação de poupança e no investimento produtivo privados, a trilha que a Ásia tomou para estar onde está. Menos social-democracia e mais capitalismo na veia.

Independentemente do caminho a seguir, o governo parece pouco capaz de entender certas características do Brasil que governa, produto até das anteriores administrações petistas. As razões histórico-econômicas merecem um detalhamento, mas o Brasil é, ou se acha, muito mais de classe média do que duas décadas atrás.

E, quando o governo e Lula falam em -e agem para- “colocar o pobre no Orçamento e o rico no Imposto de Renda”, e como o Brasil não tem tantos ricos assim para sustentar um distributivismo mais agressivo, é natural que acenda uma luz amarela diante da classe média, ou de quem se enxerga na classe média.

sábado, 30 de março de 2024

Agruras da política externa

Era previsível, e foi previsto, que o Brasil deste novo mandato petista encontraria algumas encruzilhadas complicadas na política exterior. Resultado principalmente de certa compulsão por protagonismo, mesmo nas situações em que nossa sede por liderar não encontra bases objetivas para pelo menos parecer natural.

Deve-se considerar aqui o compreensível desejo do presidente da República por retomar certo papel pessoal em escala planetária. Um problema nesse particular tem sido a assimetria entre as aspirações de Luiz Inácio Lula da Silva e a capacidade real de o Brasil projetar poder.

No popular, o risco de dar pitaco onde não foi chamado.

Essa assimetria leva o presidente a ficar excessivamente exposto ou, como se diz em linguagem militar, com as linhas mais estendidas do que recomendaria a prudência.

De todo modo, “o Brasil voltou” vem sendo pilar fundamental da política externa deste governo, até num certo paralelismo com o “America is back” de Joe Biden. No caso do vizinho do norte, a materialização do slogan não tem revelado resultados propriamente brilhantes. Afeganistão, Ucrânia e Gaza que o digam.

Óbvio que, ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil está isento de ser acusado de provocar a eclosão de qualquer guerra. O problema aqui é outro: o rebatimento para o cenário interno das ações do Itamaraty e de Lula não tem trazido capital político ao governo e ao presidente, ao contrário.

Há, ainda, mais um problema insolúvel nesse aspecto da ação governamental, além da já citada desconexão entre o que o Brasil é o que Lula quer ser: qualquer política exterior que se apresente como fundada em princípios morais a seguir ferreamente revela-se alguma hora contraditória e até hipócrita, ou mesmo farsesca.

O que a enfraquece.

É caso da posição brasileira sobre as eleições na Venezuela. É visível ali que o presidente Nicolás Maduro procura aproximar a vitória eleitoral alijando da disputa os adversários potencialmente mais capazes de derrotá-lo. A suavidade e o cuidado do Brasil diante disso trazem rachaduras na tese de que, por aqui, a aliança entre governo Lula e STF em defesa da legitimidade do processo eleitoral vem sendo o alicerce da defesa da democracia.

A propósito de Gaza, as declarações de Lula que parecem contribuir para alguma erosão na popularidade governamental vêm sendo explicadas a posteriori pela indignação do presidente diante do sofrimento humano ali. O problema é essa indignação só aparecer em algumas situações politicamente convenientes, quando o lado a acusar não inclui companheiros de viagem.

Uma seletividade que tira força do argumento.

A boa notícia é as soluções para os tropeços estarem à mão. O assunto Venezuela poderia ser facilmente contornado se o Brasil se limitasse a dizer que as eleições ali são assunto interno e que vamos nos relacionar com qualquer governo eleito pelos venezuelanos. A velha ferramenta do respeito à autodeterminação dos povos.

Bandeira que já foi popular entre a esquerda.

O problema? Se o princípio vale para as relações com a Venezuela, deveria valer também para a Argentina de Javier Milei. E para muitos outros casos. Até porque governante e comentarista de política internacional são atividades bem distintas, que não se confundem.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Propósito e pertencimento, os dois pês

Os últimos levantamentos recolocam na roda o debate sobre o peso da economia nas decisões do eleitorado. A primazia do vetor econômico é quase um dogma desde que Bill Clinton derrotou George H W Bush em 1992, com o “é a economia, estúpido”, o lema interno da equipe da campanha vitoriosa.

Tal dogmática, entretanto, não explica os cenários quando a economia vai bem, mas mesmo assim o governo sofre perdas estatísticas no apoio. Como parece ser o caso agora aqui no Brasil, situação que ainda não se sabe se é pontual ou tendência.

Uma explicação envereda pela tese de que a polarização acaba secundarizando os efeitos políticos da economia.

A tese ainda espera comprovação, e há dados político-eleitorais recentes que lançam pontos de dúvida sobre ela. Um deles é a boa avaliação dos prefeitos em geral, situação que em certa medida se repete com os governadores, ressalvada uma ou outra exceção. A avaliação dos governadores e prefeitos parece menos contaminada pela polarização.

Sobre a economia, uma hipótese a analisar é sua importância crescer na eleição quando 1) a economia vai mal ou quando 2) vai bem e há a ameaça real de piorar se o governo mudar de mãos. Quando políticas econômicas propostas por governo e oposição apontam para rumos parecidos, diminui a letalidade eleitoral provocada pelo medo da mudança.

Outro cuidado a tomar é sobre o que se quer dizer com “a economia”. Ela pode estar indo bem nos números macro que abastecem as manchetes, mas é sempre prudente olhar para o microcosmo das pessoas e das famílias, se se quer fazer um diagnóstico mais preciso. E nunca se deve perder de vista a equação “resultado - expectativa = satisfação”.

Quando um governo só olha para suas entregas, e se esquece de comparar com as expectativas que criou, pode ser surpreendido pela queda na satisfação do eleitorado.

Debater a economia é fundamental, ela sempre tem grande peso na decisão do voto. Mas talvez valha a pena olhar também para outras variáveis. Especialmente quando, como agora, não se vislumbra que as possíveis trocas de guarda no Brasil trariam mudanças radicais na condução econômica.

Também por a área econômica deste governo e sua orientação continuarem recebendo sustentação maciça em meios informativos tradicionais. Os mesmos que no passado ofereciam sua rede de segurança para autoridades às quais o PT se opunha na época. Excetuadas as turbulências trazidas por declarações e decisões presidenciais pontuais, reina na área boa dose de paz.

Sem subestimar a economia, tampouco é demais olhar para aspectos mais subjetivos dos mecanismos de produção de opiniões políticas. O capital político dos governos sempre se beneficia de dois pês: propósito e pertencimento. Quando está claro a que veio o governo, e quando ele passa a sensação de querer o bem de todo mundo, e não só de sua turma.

Acirrar as contradições e estimular a guerra de todos contra todos pode ser útil para reforçar o poder momentâneo, mas um efeito colateral é produzir sensação de exclusão em áreas que o andamento da economia pode até, eventualmente, estar beneficiando.

Por isso se diz que a política tem de andar de mãos dadas com a economia, para que a safra eleitoral não decepcione.

sábado, 9 de março de 2024

Qualquer gordurinha pode fazer falta

As pesquisas recentes deram visibilidade ao fim do período de graça deste terceiro governo Luiz Inácio Lula da Silva, graça cuja extensão foi diretamente proporcional à durabilidade e ao brilho dos percalços jurídicos do antecessor. Não que o fim da graça a Lula faça descer as cortinas para o contraponto a Jair Bolsonaro, ao contrário, mas doravante a atual administração estará cada vez mais pressionada a dizer a que veio.

Seria precipitado creditar o brusco fim da graça a um único vetor. Como na surrada comparação com acidentes aéreos, é mais prudente olhar para uma cesta de variáveis que foram, e estão, amadurecendo devagar, até um dia o acúmulo quantitativo produzir a alteração qualitativa.

Elementos que contribuem para incrementar dificuldades do governo:

1) Algum grau de desaceleração da economia, combinada com a pressão dos preços da comida. Os bons números do PIB de 2023 foram carregados principalmente pela largada do ano e pelo agronegócio. Todas as previsões, ou ao menos a maioria, são algo otimistas para o desempenho da economia em 2024, mas, ao contrário do ano passado, a previsão é que os números só ficarão mais lustrosos na medida em que o ano avançar.

2) O mercado de trabalho melhorou em 2023, mas persiste o velho problema da baixa qualidade dos empregos. Os setores intensivos em mão de obra não lideram a recuperação da economia.

3) O aspecto mais visível da orientação econômica é o desejo de aumentar a arrecadação de impostos. Mesmo que o governo repise o mantra de taxar os ricos para dar aos pobres, nunca se deve esquecer que o Brasil é um país de classe média numerosa. E todo mundo sabe que para efeito de aumentar imposto governos costumam extremamente flexíveis na definição de “rico”.

4) O governo talvez esteja transmitindo a impressão de ocupar-se muito com assuntos a que a população dá menos importância. E pouco com os temas mais sensíveis ao eleitorado. A população, segundo as pesquisas, parece não ver maiores entregas reais nas áreas que tradicionalmente se revezam no topo da preocupação popular, com destaque para a saúde e a segurança pública.

5) A posição do governo basileiro em relação a Israel ajuda a repaginar a oposição. O noticiário sobre Bolsonaro e os dele vinha girando só em torno da agenda judicial. A importação, por Lula, da ultrapolaridade na guerra Israel x Hamas, temperada por outras abordagens igualmente “fora da caixa” sobre política exterior, oferece à oposição temas mais nobres, que ela naturalmente agarra. O ato de 25/2 em São Paulo foi um bom termômetro.

Entretanto, até o momento, o que Lula perdeu principalmente foi apoio numa camada de gente que não votou nele em 2022, mas vinha dando seu voto de confiança ao presidente e ao governo. Por enquanto, o governo e o presidente só queimaram gordura.

O problema é que num cenário de divisão eleitoral acirrada qualquer gordurinha pode fazer falta lá adiante. Sem contar que, quando a gordura acaba, o organismo acaba tendo de consumir tecidos mais nobres.

domingo, 3 de março de 2024

Sai a dialética, entra a aritmética

O tamanho, a coesão política e a dirigibilidade da manifestação liderada por Jair Bolsonaro em 25/2 na cidade de São Paulo deixaram mais visível uma inversão de papéis. No passado não tão distante era a esquerda quem trabalhava para ocupar as ruas e mostrar poder de mobilização, restando à direita depreciar a contabilidade adversária e ameaçar com a polícia.

O observador algo atento nota, faz anos, que a esquerda vem frequentando mais as antessalas do Ministério Público e dos tribunais, e menos os locais de trabalho onde poderia estabelecer contato com quem declara representar. A fraqueza dos sindicatos e entidades associativas dos trabalhadores fala por si.

Não que não haja na mesma esquerda inquietação e perplexidade a respeito. Algumas explicações apontam para as mudanças estruturais no mercado de trabalho. Elas têm seu papel, mas também ajudam a dar imerecido protagonismo a um confortável fatalismo determinista.

Outro viés é o circular. “Estamos desconectados das bases porque não damos suficiente atenção ao contato com as bases.” Verdade, mas não ajuda. É um sistema possível e indeterminado. Admite infinitas soluções. O que não resolve o problema de quem persegue “a” solução.

O terceiro viés é a fuga para adiante. Acreditar que falta à massa de trabalhadores a iluminação de compreender a necessidade do autogoverno. O pensamento talvez reflita um estágio superior de desconexão entre intelectuais e povo. Deve haver assunto mais ausente dos desejos da massa, mas encontrá-lo seria desafio e tanto.

Uma dificuldade que atrapalha muito é o abandono da saudável tradição polemista-argumentativa. Ela saiu de cena e deu lugar à ditadura das narrativas, uma variante do terraplanismo aplicado à política.

“Fazer a disputa” ultimamente resume-se a reunir mais apoio para martelar teses de laboratório até colher o relatório que mostra você em vantagem sobre o oponente nas redes sociais. A aritmética substituiu a dialética.

Por que terraplanismo? Porque a Terra não se tornaria plana nem se toda a humanidade comparecesse ao ex-Twitter (hoje “X”) para afirmar que o planeta é, na verdade, um disco bem achatado.

Talvez não haja assunto mais instigante, e inquietante, nos meios ditos progressistas do que o avanço da direita sobre os grupos sociais que a esquerda julgava historicamente reservados para si. E, quando o problema entra em pauta, vem junto a circularidade entre o “falta trabalho de base” e o “falta consciência”.

É possível que o desvendar da incômoda equação esteja mais à mão do que parece. Depende, entretanto, de a esquerda aceitar que a realidade talvez não ande bem encaixada nos desejos. Ajuda, também, procurar aprender com a experiência, olhar para o que já aconteceu e tentar, se possível, dar crédito ao que dá certo e desconfiar do que costuma dar errado.

A esquerda moderna, até como rótulo, nasceu na Revolução Francesa, com os ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade”. Mais adiante, a filosofia da práxis vinculou a terceira consigna à busca do desenvolvimento. Deixando para trás, num primeiro momento, o ludismo, e, muito depois, quando a China se livrou da Revolução Cultural, um igualitarismo a-histórico.

Não estivéssemos em plena era de terraplanismo político, deveria despertar curiosidade intelectual a direita ter tomado da esquerda as bandeiras da liberdade e do desenvolvimento, e até da igualdade. Já a esquerda defende restringir a primeira, adverte que o segundo vai destruir a vida no planeta e reinterpreta a terceira revestimdo de opressores boa parte dos que um dia disse serem oprimidos.

Uma certa repulsa à modernidade, que, sem surpresas, traz junto teratologias como o “socialismo dos tolos”, tão bem descrito por August Bebel.

Outra mudança, talvez até mais estrutural, é o abandono pela esquerda, e a captura pela direita, da ideia de emancipação nacional. Isso fica para uma próxima.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Na caixa de brita

O Oriente Médio e as redondezas são uma cumbuca daquelas de macaco velho evitar pôr a mão. Seguem abaixo cinco exemplos de agora mesmo:

1) O Irã talvez seja o principal aliado operacional da Rússia no conflito ucraniano. Só Belarus emparelha, em alguma medida. E a Rússia deve sediar esta semana em Moscou uma cúpula política das principais correntes palestinas. Ao mesmo tempo, Israel e Rússia mantêm um acordo que permite aos israelenses atacar alvos iranianos no aliado-chave de Vladimir Putin ali, a Síria, sem ser ameaçados pelo potente armamento antiaéreo russo.

2) O Azerbaijão, de maioria xiita e fronteira com o Irã, é aliado firme de Israel. As relações no terreno militar e de energia são fortíssimas. Um pouco disso ficou comprovado nos conflitos recentes com a Armênia pelo controle de Nagorno-Karabakh. E armênios acusam a Rússia de ajudar, mesmo que indiretamente, os azeris, apesar de Moscou ter um acordo militar com Yerevan, que por sua vez ameaça arrastar uma asa para a Otan.

3) Transcorridos quase cinco meses da guerra entre Israel e o Hamas, não se nota até o momento (atencao para o Ramadã na Esplanada das Mesquitas) quase nenhuma reação da “rua árabe”. Protestos anti-Israel concentram-se no Ocidente. Na Cisjordânia, frustraram-se por enquanto as expectativas de um levante popular a partir de 7/10. A explicação: a Fatah, rival do Hamas, espera que Israel complete a missão, total ou parcialmente, para, com apoio norte-americano, a Autoridade Palestina tentar retomar Gaza a custo quase zero.

4) Países árabes que estabeleceram relações com Israel nos Acordos de Abraão, na presidência de Donald Trump, não tomaram nenhuma decisão drástica contra Jerusalém até o momento.

5) Precisou haver uma guerra de verdade ali para se perceber que o bloqueio e as restrições à entrada e saída de material militar em Gaza são uma ação conjunta de Israel e do Egito.

A esta altura, a leitura atenta já detectou meu uso abusivo do “por enquanto”, do “até o momento” etc. A prudência obriga. Afinal, estamos tratando do Oriente Médio e arredores, onde as alianças e afastamentos são mais dinâmicos até do que no nosso Congresso Nacional.

Aquilo é material com que mesmo os profissionais se atrapalham, vide a catastrófica falha da inteligência israelense no 7/10, que muito provavelmente levará à aposentadoria de Benjamin Netanyahu (outro erro dos analistas é achar que a mudança de guarda ali trará mudança importante de políticas).

Se os profissionais enrolam-se, tanto mais os amadores. Ficará na história o também catastrófico erro de cálculo de Yahia Sinwar, que fez a leitura completamente errada do grau de desagregação política interna em Israel e do estado das alianças globais do país.

Erros e falhas que carregam na sua contabilidade a tragédia dos mortos, dos feridos, das vidas destroçadas.

O Oriente Médio é um lugar (vou recorrer aos lugares-comuns) onde o apressado come cru e para todo problema complexo alguém aparece com uma solução simples, e errada. Uma hora a pessoa se entusiasma, calcula mal a tomada da curva, derrapa, sai da pista e atola na caixa de brita. E daí acelera e acelera em busca do retorno salvador ao providencial asfalto, sem entretanto sair do lugar. E fazendo atolar junto um monte de gente que em nada contribuiu para a derrapada.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Encaixado na narrativa

O teatro da política brasileira tem vivido de recorrer à troca de máscaras. A cada ato, o desafio preliminar é saber se o personagem é bom ou mau, nas circunstâncias dadas do enredo. Um exemplo é o presidente da Câmara, Arthur Lira, afagado ou execrado dependendo do alinhamento ou não com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

É preciso acompanhar com acuidade o debate público para, em todo momento, saber quem está do lado certo e deve ser apoiado e não se desatualizar.

É raro, entretanto, que os ciclos escapem completamente ao sincronismo eleitoral. Em geral, a cada semiperíodo do pêndulo os personagens mantêm sua persona razoavelmente íntegra, a não ser que se metam, ou sejam metidos, em episódios com potencial para inverter radicalmente papéis. Foi o caso de Michel Temer, que, de timoneiro da salvação nacional, repentinamente passou a vilão.

Na política, além de ser bom, é preciso ter sorte. E talvez a maior sorte na política seja o alinhamento das frequências, que no popular é a pessoa certa estar no lugar certo na hora certa. É quando os elementos se conjugam para um pequeno empurrão fazer o balanço oscilar bem para cima. É a ressonância do tal “encaixar-se na narrativa”.

A estabilidade política deste governo Lula decorre de ele estar quase perfeitamente encaixado na narrativa do momento, de salvação da democracia. Uma situação radicalmente diferente do período 2013-2018, quando o eixo organizador da discussão política era a luta contra a corrupção, e ao PT impôs-se a máscara do malvado favorito da opinião pública.

Decorre principalmente daí o visível desconforto dos candidatos a críticos, que, com pouquíssimas exceções, precisam fazer mesuras e quase pedir desculpas quando apontam algo que acham desagradável nas ações do governo federal. No mais das vezes, apressam-se a pagar o pedágio básico de ressaltar que também criticam, e muito, o antecessor recém-removido de palácio.

Aqui e ali começam a surgir sinais esporádicos de desconforto com pontos de contato entre métodos de agora e o demonizado lavajatismo, mas nada que interrompa a tendência. E Lula, experiente, trabalha bem o encaixe entre as circunstâncias e a narrativa, trazendo junto ao peito, e bem protegidas, as cartas de personagem central do combate ao bolsonarismo.

Não chega a ser novidade, aliás é bem antigo, dizer que, na política, mais importante que escolher os aliados é escolher o adversário. Jair Bolsonaro agrega para Lula a vantagem decisiva de o presidente manter para si a sincronicidade com o Zeitgeist.

Lembrando que sempre há a possibilidade de uma hora o vento virar, como virou para Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Lula, além de tudo, tem-se reinventado em torno das pautas globais do momento. E mantém o discurso de não deixar o passado voltar, uma vaca que lhe deu tonéis de leite em três eleições contra os tucanos.

O risco potencial, para 2026? Além de algum desconforto provocado pela conjugação de mediocridade econômica, sanha arrecadatória e sinais exteriores de poder brasiliense usufruído em excesso, a ressurgência de um resiliente nacionalismo conservador, sempre potencialmente presente.

O exemplo norte-americano mostra que é uma variável crítica a monitorar. E nunca desconsiderar.

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Mare (Paranoá) nostrum

É um desafio conseguir lembrar algum momento no passado em que a harmonia entre os poderes em Brasília tenha sido tão harmônica. Pode haver, e há, divergências, mas nada que esgarce o funcionamento ritmado e sincrônico das instituições. No momento, Executivo, Legislativo e Judiciário remam todos para o mesmo lado, com pouca ou nenhuma resistência ou crítica da imprensa ou do que se convencionou chamar de sociedade civil.

De vez em quando algum ator mostra-se desconfortável diante de algum detalhe e vem uma crítica, sempre pontual, que pipoca para logo ser engolfada pelas ondas de opinião situacionista sob a capa da defesa da democracia. Não há oposição política organizada com expressão e capacidade real de convocatória no establishment. Jair Bolsonaro continua popular, é bem recebido pelos apoiadores, tem a simpatia de uns 40%, mas perdeu poder de mobilização na elite, lato sensu.

E o autodenominado centro democrático, depois de perder a eleição, perdeu agora para o PT a bandeira da luta "contra o extremismo”.

Daí uma pax quase romana, o Lago Paranoá ter virado um mare nostrum.

Brasília vive a era dos consensos. O primeiro é sobre a necessidade e a justeza de aumentar a receita com impostos. A divergência que resta é uma, bastante administrável, entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional para ver quem comanda quanto da destinação da verba. O segundo consenso, conjugado ao primeiro, é em torno da desnecessidade de cortar ou controlar a expansão das despesas, mesmo as de custeio.

O terceiro consenso sustenta a legitimidade de medidas excepcionais para defender a democracia e, com tal objetivo, algum grau, não tão bem definido, de judicialização da política. Alguns poucos observadores se incomodam por isso hoje ser vocalizado por quem ontem se opunha à dita judicialização, mas talvez valha lembrar que na ética da política realmente existente a coerência não é necessariamente uma virtude.

O quarto consenso é sobre a premência de restringir a liberdade de expressão, liberdade hoje amplificada pelas possibilidades explosivas do mundo digital e potencializada pela inteligência artificial. Este consenso é particular e especialmente possível pelo já descrito alinhamento de astros institucionais. A dúvida que precisará ser destrinchada são duas: como isso será feito e quem fará o tal controle.

Nesse cenário pacificado, a turbulência possível é sempre a mesma: na eleição, único momento em que a base da sociedade pode de fato expressar algum sentimento de oposição aos arranjos da cúpula. Nada indica até agora que a disputa municipal deste ano vá ser nacionalizada, à exceção de São Paulo, mas o PT deseja, legitimamente, recuperar espaço nas cidades, e resta ver como o partido e o governo administrarão as tensões com os aliados.

Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição por margem bem estreita. É natural que busque ao longo do primeiro mandato acumular musculatura adicional para depender menos de aliados em 2026, para o que 2024 é passo importante. A economia anda estável em torno de um desempenho médio, mas os exemplos aqui dentro e lá fora mostram que guerras culturais e em torno da oposição modernidade x antimodernidade têm potencial para produzir surpresas.

E o imprevisível? Já disse aqui, mais vezes do que seria suportável: é o mais difícil de prever.