terça-feira, 29 de setembro de 2020

Dono da bondade e da maldade

Os meios de comunicação explicaram ad nauseam que o governo queria um auxílio emergencial de 200 reais e quem forçou o aumento para 600 foi o Congresso. Resultado? Quem vem faturando politicamente é o governo, mais precisamente o presidente da República. E não os deputados e senadores.

O povo é sabido. Sabe que quando o governo não quer soltar um dinheiro ele, governo, luta até o último homem para segurar a coisa na boca do caixa. Ou seja, se pagaram os 600 por mês foi porque o governo concordou. Então parabéns ao governo.

Pela mesma lógica, é ilusão imaginar o povão caindo na conversa de que eventuais "medidas amargas" (leia) serão culpa do Legislativo. O Palácio do Planalto pode correr mas não conseguirá fugir. Os efeitos de aumento de impostos e corte de benefícios no humor coletivo vão em algum grau bater na porta dele.

E deixar para depois da eleição é brincar com fogo. Estelionatos eleitorais têm custo. Se for para fazer, é melhor assumir, explicar e preparar-se para o impacto. Ou alguém acha que os candidatos e militantes da oposição não vão desde já bater na tecla de que o eleitor está mais uma vez a caminho de ser enganado?

domingo, 27 de setembro de 2020

A enésima morte da nova política

A ideia da necessidade de uma política de tipo inteiramente novo não é novidade na política nacional. Basta lembrar do “Brasil novo” prometido pelo então candidato a presidente Fernando Collor de Mello, três décadas atrás. A tentação é permanente. Quem não gostaria de resolver os próprios problemas e aporrinhações simplesmente apertando o botão de reset?

De tempo em tempos, mais agudamente em crises que esgotam a paciência, o eleitor cai nessa. É arrastado pela promessa de que a ponte para superar os impasses é trocar as pessoas erradas pelas certas. E nunca faltam candidatos a preencher a necessidade. E acabam chegando ao poder carregados da esperança de que vão finalmente passar o sistema a limpo.

Mas tão previsível quanto o apelo cíclico das promessas de renovação é o poderoso efeito permanente da inércia. Se até nas rupturas dignas do nome ela opera com impacto decisivo nas políticas pós-revolucionárias, quanto mais em transições de superfície, como às que nosso país está habituado na sua já relativamente longa história.

O Brasil é quase um laboratório permanente de experimentação da teoria que adverte sobre o peso opressor das ideias mortas sobre as ações dos seres vivos que se imaginam como o novo. Nada é mais previsível por aqui que a alternância entre a euforia diante da novidade e o conformismo quando o velho finalmente volta a se impor.

O surto mais recente de ansiedade por uma nova política vem de 2014, impulsionado pela explosão de junho de 2013, o embrião do momento por que o país passa hoje. Mas se ao longo destes anos você fosse perguntando às pessoas “afinal, o que é a nova política”, provavelmente constataria, surpreso, que ninguém tinha a menor ideia da resposta.

Ao final, a nova política acabou se vestindo de algo bastante velho, o clássico bonapartismo. O culto ao poder unipessoal exercido em ligação direta com o desejo difuso das massas. O obstáculo? Este projeto unipessoal precisaria impor-se na prática aos bolsões de poder estabelecido.

No Brasil isso é praticamente impossível, ou muito difícil, por várias razões. Uma singela: o sistema está organizado para impedir qualquer presidente de eleger com ele a maioria parlamentar. Presidente, governadores e prefeitos. O problema está nos três níveis da federação. Na teoria, trata-se de um sistema de freios e contrapesos. Na prática, a garantia de que nada vai mudar.

Neste final da metade do (primeiro?) governo Jair Bolsonaro, assistimos ao enésimo enterro de um ensaio da possibilidade de uma política inteiramente nova. Mas, a exemplo de Luiz Inácio Lula da Silva, o atual presidente teve a inteligência, e a prudência, de mandar a coisa toda do "novo" às favas enquanto ainda tinha força suficiente para dissuadir “a velha política” de tentar derrubá-lo.

Pois a coisa anda perigosa. Invocar questiúnculas para derrubar governantes que perderam a (ou nunca tiveram a) maioria parlamentar parece estar virando, como se diz, carne de vaca. Comprova-se, de maneira ineditamente disseminada, que governos “técnicos” estão sempre a caminho de cair. Ainda mais com a atual exuberância de um Judiciário inebriado de poder.

E de Legislativos que perceberam que podem derrubar quem for sem enfrentar reação ponderável.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Fechados

A cidade de São Paulo vai fechar o último hospital de campanha que ainda estava aberto para atender pacientes de Covid-19 (leia). Não são mais necessários, pois a pandemia claramente refluiu na capital paulista, como mostra o gráfico organizado pelo deputado federal Eduardo Cury (PSDB-SP) (veja).

Na real, o pico das mortes na cidade de São Paulo foi atingido em meados de junho. De lá para cá, o que se viu foi um relaxamento progressivo do isolamento social na capital paulista. Que na teoria deveria ter trazido um repique dos casos e portanto de mortes. Mas não aconteceu.

Se as premissas desenvolvidas desde o início da pandemia pelos especialistas estiverem certas - e não há motivo para não estarem - desde junho a cidade de São Paulo deve estar combinando graus razoáveis de distanciamento social e de imunidade coletiva. Não há outra explicação.

E como a presença de anticorpos contra o SARS-CoV-2 ali nunca superou uma ordem de grandeza de 20%, só se pode concluir que, a depender da eficiência do distanciamento social, a imunidade coletiva pode mesmo ser atingida com bem menos que os inicialmente previstos 60% de infectados.

Ou vai ver tudo isso está errado e estamos na iminência de uma segunda onda forte de casos. O futuro dirá.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Pesquisas

Duas pesquisas divulgadas hoje trazem dados interessantes. A do Ibope para a CNI reforça a resiliência (propriedade de voltar à forma original após uma deformação elástica) do presidente da República (leia). 

Já segundo o Datafolha, entre os grandes cabos eleitorais, Jair Bolsonaro é o que menos agrega votos a um candidato que apoie para prefeito de São Paulo (leia).

A contradição pode ser apenas aparente, porque a própria CNI mostra que a aprovação ao presidente não é tão brilhante assim na região Sudeste, onde São Paulo pesa bem. Força mesmo ele mostra no Sul. E recupera terreno no Nordeste, apesar de ainda ser a pior região para ele.

A vida dirá qual será, no fritar dos ovos, o peso de cada apoio na eleição municipal. Uma coisa é o eleitor dizer que vai votar no candidato apoiado por alguém. Outra coisa é colocar o voto na urna. Aguardemos.

Outra curiosidade é saber como reagirão os beneficiados pelo auxílio emergencial quando este acabar. Mesmo que surja um novíssimo programa social, ele não deverá ter a cobertura e a dimensão do auxílio.

Que venham os próximos capítulos.


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

A força

O debate em torno da substituição de Ruth Bader Ginsburg na Suprema Corte dos Estados Unidos é uma lição imperdível de realpolitik. Vale por um curso de Ciência Política. 

Quando Barack Obama quis nomear um juiz para a SCOTUS no último ano de mandato dele a maioria republicana bloqueou, com o argumento de que se deveria esperar pela eleição. 

Agora os democratas pedem coerência aos adversários. 

E os republicanos respondem com o argumento da força. Se eles têm os votos, por que arriscar deixando para depois?

Quem apostaria um picolé na hipótese de que se os democratas tivessem maioria numa situação invertida deixariam de fazer valer sua força política?

Na política, regra geral, pode-se ter certeza de uma coisa: o argumento da coerência costuma aparecer exatamente quando falta força. Já quando se tem a força, sempre é possível produzir narrativa que ofereça alguma argumentação coerente capaz de embalar o que se quer fazer.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Doria x Bolsonaro

Qual vai ser o efeito da Covid-19 na eleição municipal? A polêmica sobre as atitudes de Jair Bolsonaro promete ter impacto apenas relativo, pois a eleição é para prefeito e vereador e não para presidente. 

É provável que agora em novembro o eleitor julgue os candidatos mais pelo que fizeram de prático, ou deixaram de fazer, no combate à pandemia.

Mas há outro front na guerra política, este voltado a 2022: a vacina. O político que arrumar vacina, que funcione, para os governados em larga escala vai largar com combustível de primeira. Um trunfo e tanto.

Aqui, no momento, João Doria parece estar com algum gás. Promete nos próximos meses vacina Coronavac em quantidade suficiente para todo mundo que mora em São Paulo (leia).

Mas o Ministério da Saúde de Jair Bolsonaro também corre (leia). O problema são as dúvidas sobre a vacina preferida do governo federal (leia).

É o risco do efeito-bumerangue. A vacina que der zebra na hora da aplicação em massa, ou que acabar não sendo liberada por possíveis danos à saúde, pode ter o efeito eleitoral de uma arma de destruição em massa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Rádio, TV e Internet

Definidas as chapas, chegou a hora de começar a prestar alguma atenção nas eleições municipais. A campanha no rádio e TV só dá a largada em outubro mas mesmo antes disso a coisa deve começar a dar uma esquentada na Internet e na imprensa. 

Bem, uma das curiosidades deste ano será verificar o peso específico de cada meio para definir o posicionamento do eleitor.

Até 2018 o horário eleitoral jogava papel preponderante, na maioria dos casos. Mas naquele ano o latifúndio televisivo e radiofônico do candidato do PSDB não foi suficiente para alavancá-lo. 

Por outro lado, a TV e o rádio foram essenciais para informar ao eleitor do PT quem era o candidato apoiado por Luiz Inácio Lula da Silva. E isso permitiu uma escalada rápida do nome petista, e assegurou-lhe o direito de ir ao segundo turno.

E agora, como vai ser? Assistiremos à consolidação do protagonismo das redes sociais ou os meios tradicionais farão valer seu peso histórico?

Façam suas apostas.

sábado, 19 de setembro de 2020

Números, narrativas e certezas absolutas

A ciência gosta de calcular por meio de porcentagens a letalidade de um fenômeno qualquer. Até o momento, as mortes por Covid-19 pelo mundo resvalam em 0,1% da população nos casos mais agudos. É relativamente aceitável? Não chega a ser motivo para manchetes. Mas, e se você disser que o Brasil deve passar das 200 mil mortes pela ação do SARS-CoV-2? É bem mais impactante.

Perdas humanas são sempre trágicas, mas não se engane o leitor, ou leitora: para os políticos, lato sensu, elas são apenas uma variável da função que define o grau de sustentação do poder. Outra variável é a narrativa para explicar as fatalidades. Uma boa narrativa pode, em consequência, neutralizar um alto número de mortes, quando se calcula o efeito político delas.

Eis por que o governo federal se agarra à denúncia da resistência dos adversários à cloroquina. Há alguma evidência de que o uso precoce dela teria reduzido as contabilidades fatais? Nenhuma. A ciência já largou de mão faz tempo. Mas isso pouco importa. Interessa antes de tudo fornecer argumentos a quem vai te defender, na mesa do bar ou na reunião da família.

Mas seria injusto particularizar a caracterização no governo federal. Veja-se por exemplo a situação de São Paulo. Até sexta-feira o estado tinha 728 mortes por milhão de pessoas. São Paulo desde o início escalou uma profusão de celebridades científicas para dar cobertura à política. Depois implantou um sistema labiríntico para a saída da quarentena, o Plano São Paulo.

Bem, com suas 728 mortes por milhão, São Paulo está pior que o Brasil no seu conjunto, onde o número até sexta-feira estava em 641. É razoável deduzir então que o enfrentamento da Covid-19 vem sendo pior em São Paulo que no resto do país? Fica a dúvida. Mas é inegável que a performance de “culto à ciência” está ajudando, e bem, o Bandeirantes a atravessar a borrasca.

Voltemos aos 0,1%. Suponhamos que a China tivesse deixado a doença seguir seu curso natural, como fizeram em grande medida o Brasil e os Estados Unidos. É razoável projetar que teríamos então mais de um milhão de chineses mortos pela ação do SARS-CoV-2. Explica-se portanto o duríssimo rigor das autoridades ali. Seria um número de alta letalidade política e propagandística.

Números são números. E aí os políticos levam uma vantagem sobre os cientistas. Podem mudar de conversa de um instante para outro, pois no primeiro ramo a coerência não chega a ser um valor vital. Já no ramo científico espera-se que o dito hoje tenha ver com o dito ontem. Se não tiver, é obrigatório explicar por quê.

Uma explicação que os divulgadores científicos estão a dever é sobre o atingimento da imunidade de rebanho. Lá no começo da pandemia afirmava-se que seria necessário contaminar uns 60% da população para as curvas de casos e mortes entrarem na descendente. Bem, elas estão caindo por aqui sem que a população dotada de anticorpos ultrapasse 20%.

Pode ser que haja gente resistente à coisa mesmo sem exibir anticorpos. Ou pode ser que o número estivesse errado. Ou outra hipótese qualquer. Há muitas por aí. Certamente um dia será explicado. De lição, fica apenas constatar, novamente, que ciência de verdade não combina com certezas absolutas a respeito de assuntos que ainda não se conhece bem.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Para todos os gostos

Um fenômeno disseminado nesta pandemia da Covid-19 é a crescente falta de correlação entre casos e mortes. A letalidade do vírus parece estar reduzindo-se. Isso é mais visível em países que enfrentam uma clara "segunda onda".

Um caso forte de segunda onda é Israel. Que em pleno Ano Novo judaico entrou em um severo lockdown (leia).

As hipóteses são variadas, mais um sintoma de que a ciência, em larga medida, ainda tateia na busca de explicações. Pode ser que os indivíduos mais vulneráveis já tenham sido vitimados na primeira onda. Pode ser que o vírus se adapte para matar menos, e assim preservar seu estoque de "infectáveis".

Pode ser também que o uso intensivo de máscaras reduza a quantidade de vírus que atingem o indivíduo, a ponto de este acabar imunizando-se sem apresentar sintomas graves. A hipótese foi bem dissecada no episódio 51 do Luz no Fim da Quarentena, podcast da revista Piauí (ouça).

Tem explicações para todos os gostos.


A luta do centrismo

Uma característica destas eleições municipais, além da pulverização das candidaturas a prefeito trazida pelo fim das coligações para vereador, é a movimentação do centrismo para construir a base de alternativas competitivas na eleição presidencial. Acontece na esquerda e na direita. Nesta, nota-se a atração mútua entre PSDB, MDB e Democratas. Naquela, entre PSB e PDT.

O objetivo de cada um é quebrar a hegemonia em seu campo. Na direita, reina soberano por enquanto Jair Bolsonaro. Na esquerda, apesar dos pesares, nenhum desafiante chega perto de Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo consideradas as atribulações jurídicas do ex-presidente. Ciro Gomes ainda consegue alguma musculatura. Mas João Doria come poeira.

E Sérgio Moro por enquanto é incógnita.

Em condições normais de temperatura e pressão a primeira fila no grid para 2022 estará portanto ocupada. O que pode porém mudar? No centrismo de esquerda, uma esperança é que desta vez o eleitorado de Lula, se ele não puder concorrer, não marche para o candidato de Lula. No centrismo de direita, o sonho é que Bolsonaro seja removido antes da largada por algum fato ainda fora do radar.

Daí que, num apenas aparente paradoxo, o foco da pancadaria de cada um seja o “aliado” potencial, e não o adversário eleitoral. O objetivo principal de tucanos, democratas e emedebistas nesta eleição de prefeito e vereador é derrotar o bolsonarismo. E o esforço maior de pessebistas e pedetistas é maximizar as dificuldades político-eleitorais do PT para impor ao partido de Lula o maior desgaste possível.

Observadores cartesianos da cena podem até achar estranho, mas assim é a política. Qualquer análise desta que não tenha como centro a luta crua pelo poder é desperdício de tempo e energia intelectual. E ninguém chega a um segundo turno sem passar pelo primeiro. E o principal obstáculo no primeiro turno costuma ser exatamente aquele “amigo”, para o eleitor de quem você vai ter de pedir apoio e voto quando chegar a hora da decisão.

Daí por que se compreende o presidente da República resistir a colocar o cacife dele na mesa dos primeiros turnos nos municípios. A não ser quando for importante para, desde agora, enfraquecer diretamente seus possíveis adversários em 2022. Já no caso de Lula, a prioridade parece ser evitar que o PT se dilua em alianças que podem fortalecer quem deseja aposentar o ex-presidente.

Não que ambos, Bolsonaro e Lula, dependam tanto assim do resultado deste novembro. Ele é vital para seus concorrentes, mas os dois podem sobreviver bastante bem a revezes de sua tropa. Pois eleição presidencial tem características de eleição solteira. O eleitor não vota no presidente porque o deputado ou o governador mandaram, mas pode muito bem decidir votar no governador ou no deputado porque são apoiados pelo candidato a presidente.

E tem outra: quanto mais cada partido, o bolsonarista e o lulista, vier a sofrer agora, mais precisará do líder para comandar a colheita na urna daqui a dois anos. Fica a dica.

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Publicado originalmente na revista Veja número 2705, de 23 de semebro de 2020

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Jaboticabal

A Folha de S.Paulo faz uma coisa diferente. Escolheu uma cidade no interior de São Paulo para realizar uma cobertura completa da sucessão municipal. É Jaboticabal (leia). Iniciativa interessante. Normalmente, a cobertura eleitoral dos jornais ditos nacionais é 100% concentrada nos maiores centros.

Milhares de municípios, mesmo grandes, ficam completamente nas sombras do trabalho jornalístico dos maiores veículos. E não só nas eleições. O que sabemos, por exemplo, do andamento da Covid-19 no interior do Brasil? Só as estatísticas, e mesmo isso é preciso escarafunchar.

Já se disse do Brasil que nunca deixará de ser um país litorâneo, considerando-se "litoral", quem sabe?, o espaço que vai até uns 100 km da costa. Este texto é curto para dissecar o fenômeno, mas nossa interiorização não teve a profundidade e a intensidade, por exemplo, da dos Estados Unidos. Infelizmente.

De todo modo, é saudável sempre olhar o Brasil como um todo. E eleições para prefeito e vereador são uma excelente oportunidade para lançar a vista além do que se costuma olhar. Pois conhecer o cenário completo é o melhor meio de minimizar a possibilidade de errar na análise.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Exercício inútil

Exigir coerência na política é um exercício inútil de ingenuidade. Aliás, coerência não chega a ser um valor em si nesse ramo de atuação. Se o governante está errado, espera-se que ele corrija o rumo, sob pena de conduzir os governados à catástrofe, se não o fizer. A história está repleta de exemplos.

Num dia o presidente da República diz não querer nem ouvir falar no Renda Brasil. No outro, dá sinal verde para o Congresso Nacional achar um espaço orçamentário adequado a um eventual novo programa social (leia). É incoerente? Sim. Mas, e daí?

Qual é a divergência? Aparentemente, a equipe econômica vê na criação do novo programa social um cavalo de troia que carregaria na barriga maldades compensatórias. O presidente, que ao contrário do mercado depende de voto, não quer nem ouvir falar.

Mas se suas excelências no Parlamento descobrirem de onde tirar dinheiro, e sem praticar maldades, claro que Jair Bolsonaro não vai se opor. E poderá saborear então uma doce derrota. Como o auxílio emergencial, proposta na qual ele foi derrotado nas manchetes mas faturou no povão.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A corda

Não tem escapatória. Ideias econômicas estão sempre subordinadas às circunstâncias políticas do governo que precisa pilotar o transatlântico da economia. Quando os "gestores" econômicos têm dificuldade para compreender isso, preparam a corda do próprio enforcamento.

A última que acreditou poder fazer um ajuste fiscal #supermegablaster porque, afinal, teria muito tempo para recuperar depois a popularidade foi Dilma Rousseff. O desfecho daquele projeto é conhecido. Parece que Jair Bolsonaro não cultiva a pretensão de ter a cabeça oferecida em sacrifício aos deuses do mercado.

O problema: parte dos que o elegeram esperam ainda ver ele cumprir a promessa de delegar 100% da política econômica. Mesmo ao custo de ter de deitar o pescoço na guilhotina. Trata-se de uma contradição de difícil equacionamento nos marcos da paz (leia).

A reeleição traz seus problemas, mas mesmo se o mandato fosse único o presidente, nas regras de agora, estaria sempre sob risco de perder a maioria congressual e cair. A questão é outra: para ter liberdade de praticar políticas duras, para qualquer lado, o presidente precisaria eleger com ele a maioria do Congresso.

Mas aqui o sistema está organizado para evitar isso.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Lixando-se

Em algumas áreas, o serviço público deveria estar iniciando o retorno às atividades mas não está, devido a decisões judiciais e posicionamentos particulares (leia). O mais espantoso é que os envolvidos já tiveram mais de meio ano para se organizar. E para pensar como seria a volta. E nada.

No final das contas, estão se lixando para o cidadão comum.

O contraste entre as praias lotadas e, por exemplo, a recusa dos profissionais a atender o público no INSS é chocante. O mesmo se dá com o contraste entre as praias lotadas e as escolas vazias. Estas últimas poderiam até ser lidas como um exemplo de preocupação com a saúde. Se não fosse, repito, o contraste.

Sem falar na teia de decisões judiciais contraditórias entre si, movidas, ao menos no que aparentam, mais por interesses particulares que pelo interesse coletivo. Ainda que venham fantasiadas de ações "em nome do bem comum".

Sintomas de um país doente.

sábado, 12 de setembro de 2020

Uma dúvida para 2021

Resta pouca dúvida de que o auxílio emergencial teve um formidável efeito-tampão sobre duas variáveis na conjuntura: a atividade econômica, em particular no comércio, e a sustentação popular de Jair Bolsonaro. Produziu também, junto com o real fraco e a voracidade estrangeira por estoques, algo de carestia em alimentos básicos. O governo aposta que este efeito será passageiro e não vai se propagar.

Certa dúvida porém tende a colocar uma pulga atrás da orelha daqui até dezembro. Qual será o efeito do fim do auxílio, pois no momento o governo não quer que ele entre em 2021. Há o projeto do Renda Brasil, mas ainda está no forno e não tem nem de longe a dimensão do auxílio emergencial. Nas condições normais de temperatura e pressão, a cidadania vai ter de voltar a andar com as próprias pernas depois que a São Silvestre passar.

Partamos então da premissa de que vai ser assim mesmo. Uma dúvida: como o povão vai reagir? Vai voltar-se contra o governo por este ter esticado a coisa até a eleição e depois tirado? Ou vai sentir-se grato por o governo ter encontrado uma solução de emergência na pandemia e assim evitado o colapso econômico e social? Quem tiver certeza, que faça sua aposta. Não é um jogo de previsão simples.

Concessões e benefícios são fáceis de dar, e difíceis de tirar. Eis uma verdade, mesmo que não seja novidade. Mas é verdade também que uma conta mensal de R$ 50 bi não tem sustentação fiscal, ainda mais numa economia há uma década oscilando entre regressões brutais e crescimentos medíocres. Distribuir dinheiro funciona, mas precisa vir junto com aumento da produção ou da importação. Ou as duas coisas. Sem isso, é crise contratada.

A história recente traz dois casos em que governantes esticaram o conto de fadas até passar a eleição, depois tiveram de dar a real e viram a popularidade despencar: José Sarney e Fernando Henrique Cardoso. Há também o cavalo de pau de Dilma Rousseff entre o primeiro e o segundo mandatos. Os dois primeiros tinham base no Congresso e no establishment. Sobreviveram. Dilma pagou o preço por não fazer os amigos certos na época das vacas gordas.

Mas a história política brasileira é também pródiga em situações nas quais a gratidão popular acaba falando mais alto. Governantes que implementam programas de forte apelo junto ao povão acabam ganhando uma gordura de popularidade para queimar nas horas difíceis. E Jair Bolsonaro tem um trunfo: diferente de Sarney com o Cruzado e FHC com o dólar -- e o frango -- a um real, ninguém poderá dizer dele que prometeu o auxílio-emergencial para sempre.

O governo acaba de organizar uma base no Congresso Nacional, mais na Câmara dos Deputados que no Senado Federal. O ministro da Economia parece acreditar na solidez dela, mas as ironias de Rodrigo Maia deveriam acender uma luz amarela no Planalto. Na última linha da planilha, a administração e o próprio presidente da República dependem do que deles acha o povão. Daí a importância da dúvida para 2021.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Dois indícios

As curvas de casos e mortes por Sars-CoV-2 trazem dois indícios sobre países que apresentam uma assim chamada segunda onda: 1) as taxas de letalidade são inferiores às da primeira e 2) costumam acontecer em países que mais rigidamente contiveram a propagação do vírus na fase inicial.

O segundo fator é relativamente fácil de explicar, ou ao menos especular. Países que mais decisivamente atuaram para conter a propagação do vírus na largada provavelmente têm mais população suscetível. Não existe mesmo almoço grátis. Tudo na vida tem dois lados.

Ditos os clichês, vamos à menor letalidade. Duas hipóteses. Uma é que a Medicina já sabe melhor como enfrentar o problema. Outra: talvez o vírus tenha se adaptado para matar menos gente e portando não abater a sua galinha dos ovos de ouro. Vírus precisam de seres vivos para sobreviver.

Certezas? A única por enquanto é que vamos conviver com o vírus por um bom tempo. Ainda mais com a escalada do antivacinismo. A coisa é especialmente preocupante em países de sistema político bagunçado e em guerra interna eterna. Como por exemplo os Estados Unidos e o Brasil.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Uma dúvida para o pós

As vendas do comércio registram forte recuperação (leia). O motivo é cristalino: o auxílio emergencial que repôs e em muitos casos multiplicou de um dia para o outro o poder de compra das pessoas e das famílias.

Uma consequência indesejada é a inflação nos preços dos alimentos. Que certamente é sazonal. O risco é ela se propagar para o restante da economia. Mas será que isso vai mesmo acontecer se a confiança do consumidor continuar em baixa?

As gentes estão indo ao supermercado ou ao mercadinho comprar arroz, feijão, ovos, carne, óleo. Mas será que um consumidor cabreiro com a possibilidade de perder o emprego, ou de não arrumar um, vai sair por aí comprando bens mais caros? Os chamados supérfluos.

Uma dúvida no pós-pandemia, ou no pós fase crítica da pandemia, é se o novo consumidor vai mudar a proporção entre o que poupa e o que gasta. O Brasil não é propriamente conhecido pela propensão a poupar. Mas será que vai continuar sendo assim?

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

A ciência que interessa

A suspensão dos testes com a vacina da AstraZeneca desencadeou uma guerra de informação e contrainformação, conflito em que a confiança do público é o alvo principal. 

Será ingenuidade acreditar que no mundo multibilionário das vacinas para a Covid-19 as ações, inclusive as das bolsas de valores, vão flutuar apenas com base na busca do bem e da verdade. 

O buraco é sem dúvida mais embaixo.

O leitor ou leitora são suficientemente inteligentes para notar os diferentes tratamentos dados pelo universo informacional às diversas vacinas, e para fazer a correlação com os interesses geopolíticos envolvidos. 

Melhor não se enganar: é briga de cachorro grande.

Numa outra esfera, algo deve preocupar. O fato de o diz-que-diz-que e de o "minha vacina é que é a boa" poder, quem sabe?, dar um gás ao antivacinismo. 

Para que a sociedade esteja protegida é preciso que a vacinação atinja obrigatoriamente um certo percentual. E isso será definido pela ciência.

Que preferencialmente não deve ser a ciência política. Ou a crendice política.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

A bolha

Há certas coisas sobre as quais se pode ter certeza absoluta, pelo menos pelo tempo que a vista alcança. Uma é o sol nascer e se pôr todos os dias. Outra é que, com a chegada da internet, de tempos em tempos teremos uma bolha nos ativos relacionados à alta tecnologia. Outra ainda é que toda bolha um dia estoura.

A Nasdaq por estes dias apenas confirma a certeza (leia). É um acumulado de problemas. Com a Tesla (que perdeu US$ 70 bi em valor de mercado em duas semanas), com a ameaça de Donald Trump de cortar todos os laços de negócios com a China e também por causa do mercado inundado de dinheiro posto a circular para enfrentar a crise desencadeada pela pandemia.

O excesso de dinheiro em circulação é como uma esquadrilha de aviões todos no ar mas que em certo momento precisam pousar. Aí os ativos se valorizam. Mas uma hora quem comprou começa a achar que talvez seja o momento de vender antes dos demais, porque se ficar para trás pode dar ruim.

É que nem naquela tradicional dança das cadeiras. Ninguém quer sobrar. Ninguém quer ficar com o mico na mão. E a coisa sempre começa de um jeito discreto. Depois acelera. E aí é o salve-se quem puder. O jeito é torcer para desta vez ser diferente. Sonhar não custa nada.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Usado em alta

Pandemias trazem, conforme diz o já batido clichê, um "novo normal". Nos Estados Unidos, um aspecto da nova vida pós emergência da Covid-19 é o aumento da demanda - e portanto do preço - de carros usados (leia). E as razões são duas.

Uma, naturalmente, é a queda da oferta de carros novos, resultado da paradeira na indústria. Mas a segunda é mais interessante: a disposição de trocar o transporte coletivo pelo individual. Ou trocar o Uber pelo carro próprio.

Aliás, quem anda de Uber - e não opta pela absurda possibilidade de impedir o condutor de abrir a boca - sabe como caiu a demanda pelo serviço depois da chegada do SARS-CoV-2.

Mas se a compra de carros "seminovos" aponta para o alto nos EUA é também porque o transporte coletivo ali é largamente utilizado pela classe média que tem carro - ou poderia ter - mas prefere deixar em casa. Definitivamente, não é o caso aqui.

Um campo interessante de estudos será o consumo no pós-pandemia, ou após a fase mais aguda dela. Disso dependerá, e muito, a recuperação econômica. Bom ficar de olho. 


sábado, 5 de setembro de 2020

O passado e o futuro

Já foi dito aqui que a tendência da eleição municipal é a pulverização partidária, causada pela proliferação de candidaturas a prefeito, esta por sua vez provocada também pelo fim das coligações na eleição de vereador. Além disso, não se antevê nenhum partido, ao menos por enquanto, surfando com vantagem sobre os demais na onda da renovação, uma parteira tradicional de votos nas eleições aqui.

Mas se no âmbito das legendas a força resultante parece ser centrífuga, é razoável também supor que no funil dos segundos turnos, e em alguns primeiros, possa estabelecer-se a polarização entre campos políticos nacionais. Que hoje distribuem-se grosso modo assim: bolsonarismo/centrão, direita não Bolsonaro, esquerda não petista e petismo+psolismo. 

Claro que é um esquema, e como qualquer esquema possui limitações.

Essa distribuição tem porém sua lógica interna, até por seguir de algum modo a disponibilidade das principais pré-candidaturas presidenciais: Bolsonaro, Moro/João Doria, Ciro, Lula/Haddad/Dino. Não se trata entretanto de um cenário pronto. Os blocos ainda vão rearranjar-se conforme a água vai passando por baixo da ponte. 

Jogo jogado só em 2022. Tem muito tempo, e espaço, para deslocamentos.

A esquerda vem na defensiva desde o impeachment de Dilma Rousseff, e com a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 foi lançada numa defensiva estratégica. Suas bases sociais têm sido meticulosamente enfraquecidas, desorganizadas e desidratadas pela nova hegemonia, uma aliança informal mas efetiva desde o autonomeado centro até o bolsonarismo mais raiz.

Essa defensiva, paradoxalmente, ou dialeticamente, desencadeou uma luta sem quartel pela hegemonia no dito campo progressista. Aqui renova-se a utilidade de às vezes colocar a política no "mudo". Enquanto se digladiam nas palavras sobre o caráter da frente de oposição a Bolsonaro (ampla ou de esquerda), nos atos os partidos da velha aliança progressista seguem cada qual seu caminho. As exceções apenas reforçam a regra.

Tal peculiaridade, dizem as pesquisas, leva a que a esquerda possa ficar fora na maioria das, ou pelo menos nas mais expressivas, disputas municipais. O que a levaria em certas situações críticas a ter de optar pelo apoio à direita não Bolsonaro em eventuais segundos turnos ou resignar-se à neutralidade. Opção também à mão do chamado centro se precisar decidir entre o bolsonarismo e o PT. Ou o PSOL.

Qual é a dúvida? Se as eleições de 2020 representarão apenas o epílogo da desagregação da antiga “frente democrática” que construiu a Nova República e com ela gangrenou, ou se já trarão pelo menos sinais embrionários das alianças para 2022. Se precisarão ainda servir de instrumento para o inevitável ajuste de contas com o passado, ou se darão à luz os primeiros sinais para o futuro.

Quem está no momento mais bem posicionado no xadrez é o centrismo, que poderá agir com o agudo e já tradicional senso de oportunidade ao se apresentar de um lado como estuário para o antibolsonarismo e de outro como desaguadouro para o antipetismo. Nunca se deve subestimar essa equação. Ela tem garantido, por exemplo, décadas de hegemonia em São Paulo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Gamaleya

A gritaria segue, mas a caravana continua passando. Tem a turma que é contra vacinas. E tem o pessoal que é contra vacinas de países ideológica ou geopoliticamente “suspeitos”.

Ao fim e ao cabo, tiradas as operações de contra-informação motivadas por interesses comerciais, a disputa é mesmo entre a luz e as trevas.

E tem a falsa oposição entre direitos individuais e coletivos. Ora, vacinação em massa não é para proteger apenas os indivíduos que se vacinam, mas o conjunto da população.

Vacinação coletiva tem o objetivo de produzir imunidade coletiva, algo só alcançado quando um certo percentual da coletividade se protege com a vacina.

E parabéns ao Instituto Gamaleya (conheça), cuja vacina Sputnik 5 vem passando nos testes mais complicados.

Esperteza que engole o dono

O noticiário relata que os presidentes do Senado e da Câmara buscam um atalho para se candidatarem à reeleição, mesmo no meio da legislatura. A Constituição proíbe expressamente isso, mas argumenta-se que o tema é interno às casas legislativas. Assunto interna corporis, a ser resolvido entre os candidatos e seus eleitores (deputados e senadores).

Se o Brasil não tivesse sido transformado, e sempre sob as anunciadas melhores intenções, num paraíso da insegurança e do criacionismo jurídicos, a tese continuísta seria rechaçada sem piedade. Mas aqui a pessoa acorda de manhã sem saber que trecho da Constituição está vigorando, ou se algo foi introduzido durante a noite na Carta “porque é justo”.

Nessas horas é prudente recorrer à sabedoria do Conselheiro Acácio, o personagem de Eça de Queiroz que nos advertiu sobre as consequências virem sempre depois. Se os presidentes das duas Casas do Congresso podem pleitear um novo mandato contra a letra expressa da Carta, argumentando ser "assunto interno" do Legislativo, por que não usar o mesmo critério para o presidente da República e os eleitores dele?

Se alguém pode ter direito a uma reeleição que a Constituição proíbe, bastando para isso que assim o queiram os eleitores envolvidos, por que negar ao ocupante do Palácio do Planalto a possibilidade de se submeter ao julgamento do eleitorado para tentar obter um terceiro mandato? Ou um quarto? Ou um quinto? E por que não a possibilidade da reeleição ilimitada?

Afinal, se o povo não estiver de acordo, que derrote o presidente-candidato.

Seria só a extensão para o conjunto dos eleitores de um direito antes reservado aos membros do colégio eleitoral que escolhe os presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. Se suas excelências do Congresso Nacional podem outorgar-se essa possibilidade, por que negar ao povo?

Foi aliás o argumento de Evo Morales para driblar a consulta popular que o derrotara e tentar buscar um novo mandato de presidente na Bolívia. O resultado é conhecido. Como se diz, esperteza quando é muita vira bicho e come o dono.

O Brasil não é propriamente um exemplo de apego à letra da lei. O estado de direito por aqui costuma ser, digamos, flexível. Coisa exacerbada nesta era de bonapartismos, quando o pessoal que pede respeito às regras é visto como uma gente chata que abusa do mimimi.

No rumo atual vamos deslizando perigosamente para o predomínio de uma única lei: a do mais forte. Sabe-se hoje que as portas do inferno foram abertas lá atrás com a aprovação da reeleição no Executivo. O que veio depois foi só consequência. Não tem mesmo jeito, sempre acabamos voltando à sabedoria do Conselheiro.

Poderia ser o contrário. Poderíamos aproveitar o momento para dar um basta na reeleição ou pelo menos estabelecer regras mais justas. Por que um governador ou prefeito precisam renunciar ao mandado para poder concorrer contra um presidente que pode lutar pela reeleição confortavelmente sentado na cadeira e com a caneta na mão?

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Publicado originalmente na revista Veja 2.703, de 09 de setembro de 2020

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Cansou?

Um périplo pelos jornais digitais nesta tarde trouxe a grande novidade: a Covid-19 parece ter deixado de ser notícia. 

Um paradoxo, pois as mortes diariamente registradas ainda estão no patamar, por exemplo, dos momentos mais graves da pandemia na Itália, primeiro país do hemisfério ocidental a expressar em números a dimensão da doença. 

Mas hoje no Brasil a página parece ter sido virada.

E a substituição não foi por algo assim tão atraente: uma proposta de reforma administrativa cujos efeitos práticos só serão sentidos, se aprovada, bem lá adiante. Mas paciência, o espetáculo precisa continuar. E quando o assunto da hora cansa, qualquer coisa serve para tentar atrair a atenção.

É inegável que o momento traz algum otimismo. As últimas estatísticas mostram que o crescimento do número de casos desacelerou na ampla maioria dos grandes municípios (leia). É uma boa notícia, ainda que a contabilidade de casos seja um número de precisão bastante duvidosa. Mas não deixa de ter utilidade.


quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Teatral e artificial

O fivethirtyeight.com, dirigido por Nate Silver (@natesilver538), é um serviço bacana para acompanhar as estatísticas e probabilidades relacionadas à política norte-americana. Claro que pode errar. Todo mundo erra. Ainda mais nas eleições recentes mundo afora. Mas o serviço do "538" é bom.

A constatação interessante deles: houve sim este ano o tradicional efeito das convenções partidárias, cada candidato cresceu depois da respectiva, mas no caso de Trump foi relativamente leve e está virando fumaça com uma certa rapidez (leia).

Uma explicação possível é o ambiente de polarização permanente produzir um clima de campanha eleitoral permanente, e solenidades específicas acabam influindo menos para oscilações das curvas. Outra: convenção virtual é moderna, mas na prática não mobiliza.

Nos espetáculos esportivos de arquibancada vazia o barulho do público tem sido substituído por gravações. Para quem está jogando ou vendo pela tevê, ajuda a movimentar. Ainda não introduziram esse recurso na política. E sem massa, sem aplauso, sem vaia, a política tende a ficar ainda mais teatral e artificial.

Contra isso, vai crescer a importância dos debates.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Remédio de uso contínuo

E veio finalmente o número ruim do PIB do segundo trimestre, menos 9,7%. Era esperado, pois entre março e junho de fato o Brasil parou. E ficamos ali pelo meio numa tabela de países de todo o planeta (leia). Não foi bom, mas tampouco amargamos a rabeira. Certamente os números do trimestre atual serão melhores, dada a retomada progressiva da atividade. Vamos aguardar.

Se o retrato do que ficou para trás não é assim tão aterrador, mais preocupante é o que pode vir pela frente. A aposta dos otimistas é uma retomada em V, rápida, mas a previsão encara desconfianças. As exportações até que vão bem, turbinadas pelo real fraco, mas o mercado interno não dá qualquer sinal de querer voltar rapidamente aos tempos de exuberância.

A economia brasileira vem atravessando razoavelmente a tempestade graças principalmente às doses maciças do medicamento que recebe na UTI: o auxílio emergencial. Mas agora é que vem o desafio. O auxílio irá progressivamente dizendo adeus, e a dúvida é se a terapia vai ser adequadamente substituída pelo melhor remédio de uso contínuo: o emprego.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Brasil e Argentina

O gráfico abaixo (Financial Times, óbitos, média móvel de sete dias) registra o que se espera seja mesmo o início da descida da ladeira no Brasil. E registra também a subida constante da ladeira na Argentina. 

Neste momento, proporcionalmente à população, aqui e ali as mortes diariamente registradas (não confundir com mortes diárias) parecem equivaler.

Pelo visto a quarentena radical argentina retardou a corrida morro acima, e vamos torcer para que o formato da curva seja diferente do nosso. Vamos torcer para que os hermanos comecem logo a descida. 

A permanência durante muito tempo em patamares altos (sempre proporcionalmente à população) cobra uma contabilidade final trágica.

Espera-se portanto que o radicalismo argentino tenha valido a pena. O que só saberemos quando os fatos finalmente se impuserem. Até lá, só resta mesmo torcer.


 

domingo, 30 de agosto de 2020

Ciência e bate-boca

A mais importante disputa pré-eleitoral nos Estados Unidos é pela narrativa-mestre: se vai ser a deficiência do governo de Donald Trump no enfrentamento da pandemia da Covid-19 ou a acusação republicana de que os democratas de Joe Biden são lenientes com a violência das manifestações #BlackLivesMatter. O andamento das coisas dirá quem levou vantagem.

Contra a linha propagandística de Trump pesa o fato de todas as pesquisas mostrarem simpatia majoritária pela rebelião dos pretos contra os recentes eventos de viés racista. Mas os números mais novos trazem algum estreitamento da vantagem democrata. Se é só o normal do pós-convenção republicana ou algo mais estrutural, novamente apenas o tempo dirá.

Sobre a Covid-19 e o efeito dela na eleição será preciso também esperar para ver como estarão as coisas em novembro. Depois de criticar e depreciar a vacina russa por ter queimado etapas o Ocidente cogita fazer a mesma coisa: queimar etapas para não ficar para trás. E se Trump aparecer com uma vacina antes da eleição a sensação de algum alívio melhorará o ambiente para ele.

Por aqui na América do Sul parece que a Covid-19, por enquanto, leva jeito de querer equalizar estratégias. Proporcionalmente, a curva do registro diário de mortes na Argentina parece querer cruzar a do Brasil. Sendo que a Argentina tem a mais longa e uma das mais rígidas quarentenas do planeta. O Brasil? Uma das mais descoordenadas nacionalmente.

Argentina e Brasil são dois países com distribuição populacional muito diferente. Ali o grosso da população concentra-se na Grande Buenos Aires, a província. Parece que agora a pandemia vai migrando para o interior. Sobre o Brasil, outra curiosidade. A curva de registro de óbitos no país está num platô bem elevado desde junho, mas parece ser um achado só estatístico.

O G1 tem uma página diariamente atualizada com as médias móveis de casos e falecimentos pelo Brasil e nos estados (leia). A curiosidade: a somatória dos estados vai num platô, mas os estados em si exibem flutuações mais agudas. No final, a resultante fica estável, e com uma esperança de queda diante dos números mais recentes.

Por falar em números, eles ajudam a relativizar certas disputas. Se é legítimo, por exemplo, estabelecer uma correlação entre o governo Jair Bolsonaro e as cifras nacionais, também será razoável fazer isso nos estados. Mas a São Paulo do governador João Doria, adversário figadal do presidente, tem, em números redondos, proporcionalmente, um resultado em mortes bastante semelhante ao resto do país.

O que isso permite concluir: talvez seja saudável dar um desconto nas conclusões epidemiológicas baseadas na ciência política. Ainda que pedir racionalidade na política seja amadorismo, ou quixotismo, tanto faz. O fato? Talvez essa tal Covid-19 tenha mistérios para além das certezas que desfilam todos os dias pelas alas da polarização.

Um mistério continua sendo a tal imunidade de rebanho. Por que as curvas de casos e mortes se estabilizam e caem se a presença de anticorpos detectados na população está muito longe dos 50, 60, 70% que se diziam indispensáveis para o R mergulhar abaixo de 1? Quem tiver a resposta definitiva, para esta e outras dúvidas, que se apresente. 

Enquanto isso fiquemos com o bate-boca, que também é divertido.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O limite da mesmerização

Na medida em que a política se judicializa, a Justiça politiza-se. Ou partidariza-se. Se alguém interfere na realidade para modificá-la, acaba também modificado por ela. Mas é melhor olhar essas coisas com certa frieza, enxergá-las como um dado da realidade. E buscar as decorrências. Por exemplo: qual será desta vez o papel da "luta contra a corrupção" no processo eleitoral que vem aí?

Uma aposta é que a onda da "faxina" vista em 2018 vai continuar. Seria lógico, até pela lei da inércia. Mas tem um problema. O empoderamento absoluto de juízes e procuradores produziu seu efeito colateral. A rotinização. Todo mundo ou quase todo mundo da política acabou -- ou acabará -- tomando algum tiro, proposital ou de bala perdida. Olhe em volta. Difícil achar quem não tenha pelo menos uma cicatriz.

Ainda sobre as tensões, está claro que o show precisa continuar, mas vai ficando também claro que o público parece meio cansado da repetição do espetáculo. Talvez estejamos chegando a um certo limite da mesmerização, da hipnose coletiva. Com o jogo meio que assim zerado, talvez a pergunta da hora na cabeça do povão venha a ser "afinal, quem é o mais capaz de começar a resolver meus problemas?".

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A cor do gato

O governo do Distrito Federal de Ibaneis Rocha (MDB) entabula conversas com a embaixada russa para trazer a vacina Sputnik 5 e aplicar nos habitantes da capital do país (leia). 

E o governo de São Paulo de João Doria (PSDB) recorre ao Ministério da Saúde de Jair Bolsonaro (ex e talvez futuro PSL) para ter recursos e assim conseguir mais rapidamente aplicar a vacina chinesa Coronavac na população residente em seu estado (leia).

Parece que pelo menos neste assunto da vacina o pragmatismo e a objetividade têm boa chance de prevalecer entre nós. Lembrando sempre o ditado do então líder chinês Deng Xiaoping, de que não importa a cor do gato, desde que ele cace ratos.

No caso específico, não importa o partido do governante ou a bandeira, ou ideologia, da vacina, desde que ela esteja disponível e imunize as pessoas contra o SARS-CoV-2.

A obrigação de nossos governos, federal e estaduais, é aproveitar o fato de termos boas relações com todos os países empenhados na corrida da vacina e trazer para cá o produto que esteja à disposição. 

E um detalhe: deixando para lá as cotoveladas rumo a 2022.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A mão que afaga...

E o governo notou que ainda não descobriram como juntar numa única equação 1) o teto de gastos, 2) a manutenção de um auxílio emergencial, 3) os programas sociais, 4) uma projeção declinante para a dívida pública e 5) a preservação do ritmo ascendente da popularidade do presidente da República. 

Que, dotado de faro político, sentiu o cheiro de queimado (leia).

Talvez Jair Bolsonaro não queira repetir o experimento Dilma Rousseff. A então presidente alinhou sua política econômica no início do segundo mandato ao que lhe pedia o chamado mercado. Fez um ajuste daqueles. Mas, infelizmente para ela, em vez de colher o apoio do mercado e dos políticos e atores da chamada sociedade civil que louvam o mercado 24 x 7, colheu o impeachment.

Mesmo se Bolsonaro não fosse politicamente esperto, o recente infortúnio da antecessora talvez já servisse para acender-lhe a luz amarela. Como dizem os versos clássicos, a mão que afaga é a mesma que apedreja. Sem base orgânica no Congresso ou no establishment, Bolsonaro sabe que não pode ver a popularidade desabar. 

A não ser que queira ter a cabeça servida na bandeja.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Insustentável

Olha aí o auxílio emergencial: diz a FGV que o Brasil tem hoje 13,1 milhões de pobres a menos do que em 2019 (leia). E surfando a onda dos novos programas sociais do bolsonarismo, o governo manda ao arquivo o Minha Casa Minha Vida de Dilma Rousseff e lança o Casa Verde e Amarela (leia). 

O foco são regiões na última eleição resistentes a Bolsonaro, Nordeste e Norte.

Sai governo, entra governo, cada um procura passar uma borracha no que fizeram os anteriores -- especialmente se foram de desafetos -- e abrir capítulos completamente novos na missão de atrair os mais pobres para a base social de apoio. 

Algo que naturalmente ajuda a ampliar e consolidar a base parlamentar.

Mas a vida real é mais complexa, e além de pensar em como engordar a coluna das despesas o governo precisará cuidar das receitas, pois do contrário a coisa fica insustentável. 

O crescimento saudável da receita governamental é quando a robustez da atividade é o motor. 

Entretanto, o mar não está para peixe. Só no segundo trimestre um em cada dez estabelecimentos comerciais fechou definitivamente as portas (leia).

Como resolver a equação?


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Cansaço

Esta semana tem a convenção do Partido Republicano nos Estados Unidos, e pelo jeito Donald Trump vai falar todos os dias. Normalmente o candidato a presidente fala só no último dia. Veremos o efeito. 

Um possível problema de Trump nestas eleições talvez seja o cansaço com a rebelião antissistema (ouça). Porque o "antissistemismo" já não é tão novidade e porque a Covid-19 quem sabe tenha feito as pessoas lembrar que de vez em quando governantes experientes podem fazer uma diferença no resultado final.

O efeito "anti-antissistema" foi bem abordado por Celso Barros na coluna dele hoje na Folha de S.Paulo (leia). E uma consolidação de pesquisas do jornal digital Poder360 mostra que a direita não bolsonarista aparece bem neste momento nos levantamentos das capitais (leia). 

Ainda falta muita estrada para a eleição, mas as pesquisas são sempre uma fonte de informação a ser levada em conta. Se a tendência de um certo "conservadorismo administrativo" confirmar-se, será o caso depois de pensar como isso rebaterá em 2022.

domingo, 23 de agosto de 2020

A cadeira no terceiro andar do Planalto

Algo muito perigoso em análises de conjuntura é partir de premissas equivocadas. É como um trem que entra no trilho errado: não dá para fazer o retorno no momento em que se deseja. Tem de esperar pelo próximo trecho onde a operação de mudança de trilho seja mecanicamente viável. Bem, depois de um ano e meio, já é possível listar premissas sobre o governo Jair Bolsonaro que não se realizaram.

1. O governo seria politicamente instável.

Essa premissa talvez se baseasse na personalidade do ex-capitão, ou no fato de ele nunca ter tido preocupação orgânica na política, ou na constatação de que as posições dele são consideradas extremistas pelo establishment, ou na ausência de uma base parlamentar própria, ou no desprezo dele pelo mainstream da chamada sociedade civil.

Ou em todas essas variáveis combinadas.

O fato, entretanto, é que um ano e meio depois o governo, no que interessa, tem com ele três quintos da Câmara dos Deputados, retém nas pesquisas a fatia de mercado eleitoral que o elegeu e resiste bem ao bombardeio que vem principalmente do setor que liderou o impeachment de 2016 mas depois perdeu a eleição. E ainda está tendo uma recessão e uma pandemia no meio do caminho. Sem pelo jeito sofrer politicamente com isso.

2. O governo faria uma política econômica de ruptura.

Se Bolsonaro se desviasse desse caminho, o ministro da Economia pediria o chapéu e o governo acabaria. Tampouco aconteceu. Bolsonaro, Paulo Guedes e todo o entorno estão no momento empenhados em criar impostos para ajudar a financiar programas de renda mínima mais amplos que os do PT.

Outra ideia é desonerar a folha de pagamentos para empregos de baixa renda (e portanto de baixa qualidade). Haverá alguma privatização, mas não do “trio de ferro” — Petrobras, Banco do Brasil e Caixa. E aprofundar as concessões será o caminho para tentar alavancar a taxa de investimento.

Não há maiores novidades aí. O que talvez seja bom. Pois nem tudo que é bom é novo, e tampouco tudo que é novo é bom.

3. O viés dito autoritário do presidente estimularia formar uma ampla frente de oposição.

Por enquanto, a frente mais ampla em vigor é a que sempre se apresenta para apoiar as iniciativas econômicas do governo e portanto impedir qualquer desestabilização. Do outro lado, a oposição caminha para as eleições municipais mais fragmentada que nunca.

Verdade que o fim das coligações na eleição de vereador tem efeito centrífugo, mas isso não explica tudo.

Os movimentos para formar a frente ampla de oposição não resistiram a um ajuste mínimo na atitude presidencial. Foi Bolsonaro amenizar o discurso e ela se desmanchou antes de existir.

Um bom termômetro do alinhamento de forças será observável no segundo turno municipal. Veremos, por exemplo, qual será a porcentagem de situações de reta final em que o autonomeado centro apoiará candidatos da esquerda contra o bolsonarismo. E vice-versa.

4. Bolsonaro seria tutelado por Paulo Guedes, Sérgio Moro e pelos generais palacianos.

A premissa que mais espetacularmente virou fumaça.

Moro saiu do governo arrastando com ele maciçamente o que Roberto Campos chamava de “a opinião publicada". Ao final, a montanha pariu um rato.

Guedes no momento luta para arrumar dinheiro para programas sociais bolsonaristas que vitaminem as possibilidades reeleitorais do presidente. Talvez embalado pela promessa de que num segundo mandato, aí sim, as coisas serão como foi sonhado.

E os fardados palacianos da reserva influem, mas longe de deter qualquer poder de veto.

Hoje em dia no Planalto, como sempre, quem manda é quem está sentado naquela cadeira do terceiro andar.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Transição longa

Num hipotético torneio de chavões trazidos pela pandemia da Covid-19, um que brilharia é "novo normal". Ninguém sabe exatamente como será, mas todo mundo fala nele. E talvez faça sentido mesmo, pois vai ficando claro a cada dia que é apenas ilusão esperar pelo momento em que o SARS-CoV-2 vai ser repentinamente neutralizado.

Manter o isolamento social até a chegada da vacinação em massa com uma vacina que ainda nem existe é sonho. Simplesmente não vai acontecer. Uma torcida é para a tal "imunidade de rebanho" estar mesmo bem abaixo do inicialmente previsto (leia). No mínimo, a desaceleração da curva de casos em certas situações mostra que medidas de distanciamento (e não só isolamento) têm um papel para reduzi-la.

Será preciso ver também como irá mudando o comportamento do vírus conforme a pandemia avança. Tratou-se disso aqui ontem (leia). Apenas uma coisa é certa: é melhor todo mundo se preparar para uma transição sem data de término. Máscaras, distância, higiene redobrada. Negacionismos à parte, todas essas coisas vieram para ficar. 

E depois de dezembro?

Há uma explicação fácil para a resiliência de Jair Bolsonaro: ele estaria sobrevivendo às más notícias porque a boa vontade do povão vem sendo comprada por meio do auxílio emergencial. Diz o ditado que para toda questão complexa há sempre pelo menos uma explicação simples, e errada. Parece ser o caso aqui.

A aprovação a Bolsonaro é sim maior entre os beneficiários do auxílio, mas isso não explica por que o presidente resiste em torno de um terço de bom e ótimo e uns 40% de aprovação. Talvez seja mais útil inverter a pergunta: por que exatamente o eleitor de Bolsonaro deveria ter desistido dele após um ano e meio de governo?

Sim, porque a fatia dos que o consideram ótimo ou bom corresponde grosso modo ao eleitorado que votou no presidente no primeiro turno, e o percentual de “aprova” cobre o apoio no segundo turno. Houve alguma troca, de alguns "ricos" por pobres, de alguns mais escolarizados por outros menos, mas nenhum terremoto político-eleitoral.

Verdade que um pedaço se agastou na demissão de Sérgio Moro. Mas as pesquisas, todas elas, são cristalinas: o sofrimento político de Bolsonaro com a cisão morista não esvaziou a base social de apoio ao presidente da República. A principal dificuldade de um eventual candidato Moro não estaria no segundo turno, mas no primeiro.

O bolsonarismo é hoje um exército de ocupação desde o centro até os confins da direita. Mas ainda faltam dois anos e tanto para a eleição, e tem água para correr sob a ponte. O desafio mais imediato do governo é encontrar um jeito de pousar o avião do auxílio emergencial de um jeito suave. O contrário provavelmente terá, aí sim, efeito negativo, e não apenas no universo de quem hoje recebe o dinheiro.

A explicação simples, e errada, diz que o governo comprou a simpatia do eleitor por 600 reais ao mês. Talvez a explicação certa seja mais sofisticada. O auxílio ajudou a evitar um colapso econômico e social com repercussões muito além da população que recebe o benefício. Pois a economia continuou rodando e a recuperação parece mais rápida que o esperado.

O desafio do governo é ir retirando o auxílio sincronizadamente com a retomada da atividade e, principalmente, do emprego. Este, aliás, já vinha capengando mesmo antes da Covid-19. Como o governo vai fazer, só ele sabe, se é que sabe. Mas é uma operação estratégica, a não ser que o Planalto queira repetir as experiências de José Sarney e Fernando Henrique Cardoso.

Ambos surfaram em planos econômicos que melhoraram o poder aquisitivo da massa, e foram esticados para influir em eleições. Fizeram a colheita eleitoral, mas precisaram dar um choque de realidade na sequência. A popularidade deles foi ao buraco e só resistiram na cadeira por terem amplíssima base política e simpatia irrestrita no establishment. Coisas que Jair Bolsonaro não tem.

E talvez o mais importante: eram tempos em que ou não tinha internet (Sarney) ou ela era tão incipiente que nem fazia cosquinha nos políticos e nos governos (FHC). Definitivamente, não é o caso agora.

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Publicado originalmente na revista Veja 2.701, de 26 de agosto de 2020

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Darwin

Paralelamente à propagação da Covid-19, propaga-se também a ansiedade sobre quando, e como, a pandemia será contida. Um front é a guerra das vacinas (leia), na qual interesses econômicos e operações de comunicação embricam-se numa confrontação tão feroz quanto qualquer refrega travada em campos de batalha propriamente ditos.

Mas precisar esperar pela vacina para atingir a imunidade coletiva não chega a ser notícia animadora, especialmente porque a coisa não é instantânea. Entre confirmar que uma vacina funciona mesmo, produzir em massa, distribuir e aplicar irá um tempo. E nada indica que o ponto final da linha esteja tão próximo assim.

De todo modo, a ciência vai estudando este avião em pleno voo. Aparentemente, uma certa mutação do SARS-CoV-2 é mais infecciosa, mas menos letal (leia). Vírus precisam de seres vivos para se reproduzirem. Então, a seleção natural acaba selecionando os microorganismos que, digamos, assim, matam menos as galinhas dos ovos de ouro.

Viva Charles Darwin. E segue o jogo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Uma boa notícia

O achado do Imperial College de que a taxa de transmissão (R) da Covid-19 no Brasil está ligeiramente abaixo de 1 (leia) é consistente com  a estabilização dos novos casos diários (veja no gráfico do Financial Times). 

Mas o quadro nacional varia muito de estado para estado. Há acelerações, declínios e estabilidades, tudo distribuído pelo território nacional. Não dá para relaxar.

O R abaixo de 1 é claro produto de uma combinação de fatores. Em parte por causa do isolamento e do afastamento social, em parte provavelmente por uma parte já ponderável da população ter sido imunizada pelo contato com o SARS-CoV-2.

Ainda sobre a pandemia, o Distrito Federal alterou a metodologia de divulgação dos óbitos. Vai informar também quantas mortes aconteceram efetivamente a cada dia (leia).

Para o distinto público, a única coisa que interessa é saber de tudo. Até porque os números reais sempre acabam aparecendo.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Desafio

O governo tem um desafio complexo: como fazer a transição do auxílio emergencial para uma modalidade de renda mínima preservando alguma coerência fiscal e evitando o solavanco político. Não será trivial, e daí o bate-cabeça nas hostes do Palácio do Planalto (leia).

O que seria ideal, claro que do ângulo governista? Se a interrupção ou a drástica redução do auxílio viessem sincronizadas com a retomada do emprego. Mas essa última variável não parece assim tão animadora, e inclusive a última pesquisa XP/Ipespe traz uma percepção de que a economia não vai bem, apesar de a percepção melhorar (leia).

A eleição presidencial ainda vai longe, dois anos e alguma coisa, mas a dinâmica política começa a entrar naquela fase em que o governante desejoso de permanecer precisa mostrar serviço. E é visível que o governismo está se esforçando para tanto. 

Mas também é a hora em que a paciência popular ameaça encurtar se houver contratempos.



segunda-feira, 17 de agosto de 2020

E na Europa...

O gráfico abaixo é cristalino. Países europeus que tiveram bons e rápidos resultados após a adoção do isolamento social para combater a pandemia da Covid-19 enfrentam uma segunda onda de casos. 

A torcida é para que a letalidade da doença tenha caído desde a primeira onda. Também porque a ciência já não está mais tratando com um inimigo completamente desconhecido.

Até que se consiga uma imunização de rebanho, natural ou induzida pela vacina, é razoável supor que novas acelerações de casos sejam desencadeadas pelas medidas de flexibilização do isolamento. 

Afinal, o vírus é paciente, ele não vai simplesmente desistir de esperar porque as pessoas estão trancadas em casa ou tomando os cuidados de higiene recomendados.

A alternativa seria um rigoroso lockdown até a chegada da vacina, mas parece que quase um semestre após o início do isolamento social não há disposição do público nem adaptabilidade da economia para tanto.


domingo, 16 de agosto de 2020

Números capturados pela polarização

Já faz algum tempo as pesquisas mostram a tendência de retorno ao padrão de um país dividido em três pedaços aproximadamente equivalentes na avaliação do governo. O movimento anterior tinha sido um leve sofrimento do “bom e ótimo”, e deslocamento do “regular” em direção ao “ruim e péssimo”. Aparentemente, dizem todas as pesquisas, Jair Bolsonaro volta a mostrar resiliência, a propriedade de reassumir a forma original após uma deformação elástica.

Os números mais recentes do Datafolha trouxeram alguma surpresa, pois vieram logo após a blitz sofrida pelo presidente da República quando as mortes pela Covid-19 bateram na trágica casa dos 100 mil. Mas a própria pesquisa explicou a razão: quase metade da população não responsabiliza nem remotamente Jair Bolsonaro pela contabilidade fatal da pandemia por aqui. E os que o consideram o principal culpado não passam de 11%.

Para compreender melhor o Datafolha, será útil recorrer a um número de outra entidade de pesquisas, o PoderData, do jornal digital Poder360. O último levantamento quinzenal dele mostrou empate entre aprovação e reprovação do presidente. Na margem de erro, uma divisão ao meio entre quem aprova e quem reprova. Aliás é a pergunta certa a fazer para saber a aprovação, pois sempre uma parte do “regular” aprova a administração quando é perguntada sobre isso.

O que está acontecendo? Uma hipótese: quando certo assunto é capturado pela polarização político-partidária, o público tende a distribuir-se, grosso modo, conforme a distribuição das convicções partidárias e eleitorais. Os efeitos da agitação e da propaganda, a favor ou contra, tendem a ficar confinados dentro da respectiva “bolha”.

A política não é principalmente uma disputa de argumentos. É esgrima de interesses e fidelidades em que os argumentos e a propaganda são armas para manter íntegro o próprio exército e tentar dividir o do adversário. Até agora, decorrido um ano e meio de governo, as forças bolsonaristas e antibolsonaristas preservam o tamanho exibido nas eleições. O “bom e ótimo” reproduz o market share do candidato Bolsonaro no primeiro turno, e o “aprova” oscila em torno do desempenho do presidente eleito no segundo turno.

O que seria capaz de alterar substancialmente o quadro? A radical degradação do quadro econômico? Foi evitada pelo auxílio emergencial de 600 reais. Um colapso dos serviços de saúde na pandemia e que pudesse ser debitado na conta do governo federal? Simplesmente não aconteceu. Tudo indica que estados e municípios estão fazendo seu trabalho e, notavelmente, não há queixas significativas de governadores e prefeitos quanto à atuação do Ministério da Saúde.

No mais, o eleitorado possivelmente encara com naturalidade os críticos culparem o presidente pelas mortes e dizerem que a atuação dele é um desastre na pandemia. Estranho seria os críticos não o culparem. O “Caso Queiroz”? É anterior ao mandato. Traz algum prejuízo, mas não atinge o cerne do discurso presidencial sobre a corrupção. Pois não há, por enquanto, acusações relevantes de corrupção ao governo propriamente dito.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Antivacinismo

Segue a polêmica sobre quanto da população precisa estar imunizada para que se atinja a chamada "imunidade de rebanho", aquela porcentagem de gente já com anticorpos que faz a curva de casos e mortes de determinada epidemia estabilizar e uma hora entrar em declínio.

A estimativa inicial na Covid-19 para esse número estaria em torno de 60%, mas há sinais de ser menos. E é bom que seja assim, porque do jeito que vai a polarização sobre tomar ou não vacinas é bastante possível que parte significativa da população decida não se vacinar.

Foi a conclusão, por exemplo, de uma pesquisa nos Estados Unidos (NPR-PBS NewsHour-Marist). Mais de um terço dos entrevistados disseram que não vão tomar a vacina contra o SARS-CoV-2. Um indicador da forte penetração do "antivacinismo" na população daquele país.

E o problema fica potencialmente ainda mais grave em países como o Brasil, onde o alinhamento com tal ou qual vacina passou a ser parte indissociável da guerra política. Isso fará com que haja ainda maior resistência na hora em que vierem as vacinas A, B ou C. Um quadro preocupante.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Mortes em NYC

Gente boa do ramo da epidemiologia defende uma tese: o excesso de mortes, na comparação com períodos semelhantes antes da pandemia causada pelo SARS-CoV-2, é um parâmetro válido para medir o impacto real da Covid-19 no número de óbitos.

Porque o dado pega não só os que faleceram por causa do novo coronavírus, mas também quem perdeu a vida por culpa de um sistema de saúde sobrecarregado. Pega também gente cuja morte teria sido evitada se procurasse um serviço de saúde. E não procurou de medo de pegar a Covid-19.

Sobre isso, a publicação oficial da Associação Médica Americana (JAMA) publicou uma interessante comparação entre o excesso de mortes em Nova York durante a Gripe Espanhola em 1918 e o mesmo parâmetro agora na pandemia da Covid-19. Vale a pena dar uma olhada (leia).

Como era esperado, o debate sobre a Covid-19 nos diversos países, aqui inclusive, vem sendo capturado pela polarização política, em escala nacional e global. Mas se você quiser entender mesmo o que se passa, um bom caminho é tentar olhar os números da pandemia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

No mudo

O governo tem uma equação desafiadora na economia. A seguir, como garante, a cartilha, ele precisa combinar: 1) austeridade para frear o crescimento da dívida, 2) dinheiro para os programas sociais e 3) dinheiro para os investimentos. Juntar essas três variáveis numa equação que faça sentido não é trivial.

A tese governamental é que a disciplina fiscal atrairá capitais privados que vão relançar a economia. Esqueçam do declaratório: se os capitais privados aparecerem para criar negócios e empregos, a chamada ala liberal do governo vai levar a taça; se não, abrir-se-á espaço para o neodesenvolvimentismo.

E dificilmente o presidente da República vai deixar de querer ter dinheiro para as marcas sociais do bolsonarismo. Não consta que Bolsonaro, acossado pela opinião pública, queira oferecer-se em sacrifício para aplainar o terreno a um desafeto em 2022.

Ou seja, nesta corrida que divide os intestinos do poder, vai levar a melhor quem aparecer com dinheiro para investimentos. Não será dificil portanto monitorar a coisa. E será conveniente de vez em quando colocar o teatro da política econômica no "mudo".

Prestar mais atenção no que é feito e menos no que é dito.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Sputnik 5

E chegou a primeira vacina contra o SARS-CoV-2, a russa Sputnik 5. Com ela veio o ceticismo, real ou forçado, por ela ter pulado etapas. Mas as dúvidas têm prazo de validade. A vacina começa a ser aplicada em massa a partir de janeiro, e aí se saberá quanto ela vale. Não só em termos monetários, em capacidade de imunização.

A onda de ceticismo explica-se também por a corrida da vacina ter se tornado uma bateria da disputa entre o Ocidente (conceito geopolítico), liderado pelos Estados Unidos, e a aliança de fato entre China e Rússia. Mas neste caso específico da vacina o cavalo ocidental favorito é britânico, de Oxford.

Sua excelência, o cidadão comum, não está obviamente nem aí para a política, ou para a politicagem: quer uma vacina que funcione. A seguir todas as etapas religiosamente, só teríamos vacina daqui a anos. E esperar alguns anos não é o cenário mais confortável. Bem longe disso.

Então é razoável supor que todas as vacinas acabarão tomando algum atalho. De que adiantará, inclusive comercialmente, alguém aparecer com "a melhor vacina" daqui a quatro ou cinco anos? Nada, ou muito pouco, se as anteriores tiverem conseguido imunizar, digamos, pelo menos uns 50% dos vacinados.

Até porque, convenhamos, a "imunidade de rebanho" da Covid-19 leva jeito de andar bem abaixo disso. Como vimos ontem (leia).

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Rebanho

Mais um dado aparece para juntar-se ao debate sobre a "imunização de rebanho" na Covid-19, aquele tanto da população que precisa estar imunizado, por contágio ou vacina, para as curvas de casos e, portanto, de mortes começarem a cair. Na cidade de São Paulo, a porcentagem dos portadores de anticorpo contra o SARS-CoV-2 anda estável (leia), assim como o número de novos óbitos registrados diariamente.

Bem, se a velocidade de evolução da curva diminuiu, é provável que cada infectado esteja infectando em média apenas mais um indivíduo. Mas um detalhe chama a atenção: as projeções iniciais calculavam que pelos menos 50% da população precisariam estar imunizados para chegarmos a esta situação. E chegamos nela, segundo o estudo paulistano, com o número em torno de 18%.

Caberá aos cientistas decifrar o enigma. Haverá gente imune ao novo coronavírus mesmo sem portar anticorpos? Ou gente que já teve anticorpos detectáveis e não tem mais? Especulações à parte, é um alívio notar que taxas de imunidade mais baixas que as inicialmente previstas conseguiram, pelo menos, segurar a escalada da curva de casos e mortes entre nós. Não é tudo, mas já é alguma coisa.

domingo, 9 de agosto de 2020

A dúvida municipal

O que vai decidir a eleição para prefeito e vereador em novembro? O quadro local ou o nacional? Ou vai ser uma coisa em alguns lugares e a outra em outros? E quais serão os requisitos para alguém alcançar a maioria absoluta dos votos, indispensável a quem deseja a vitória já no primeiro turno? E o perfil mais encaixado nos desejos do eleitor médio em meio a esta pandemia? Assuntos para daqui até novembro.

Começando pelo final, há quem aposte numa onda de candidatos médicos ou das demais carreiras da saúde. A economia preocupa, mas a principal angústia das pessoas neste momento concentra-se em escapar da perseguição do SARS-CoV-2 e sobreviver à onda da Covid-19. Analistas já intuem: assim como em 2018 tivemos a onda de candidatos ligados à segurança, talvez 2020 seja a hora dos identificados com a saúde.

Mas os nomes anticrime de 2018 surfaram a insatisfação popular diante dos índices de violência e da ameaça potencial à vida e ao patrimônio. O intrigante neste momento da Covid-19 é não existir uma maré montante de insatisfação ou revolta popular contra as autoridades. Ao contrário, o eleitor médio parece considerar que os governos estão de algum modo agindo.

Contribui para isso o sistema hospitalar não ter entrado em colapso. Mérito do Sistema Único de Saúde (SUS) e das medidas de isolamento e afastamento social, que segundo a epidemiologia produziram achatamento das curvas de casos e mortes. As curvas estão num patamar alto, mas relativamente estáveis. Pressiona para um lado a tragédia dos números fatais. Para o outro, os números não estarem em escalada aguda.

Outra curiosidade é se virá uma “nova onda” política e qual seria. O PMDB sucedeu a Arena, o PSDB sucedeu o PMDB e o PT sucedeu o PSDB. Daí veio Bolsonaro, mas já está rompido com o partido da eleição, o PSL. Assim, se a onda bolsonarista tiver continuidade municipal, virá pulverizada em múltiplos partidos. Neste fim de semana o presidente disse que vai ficar fora do primeiro turno. Ou seja, vai entrar firme no jogo quando vier a polarização.

Aí a trágica contabilidade de mortes da Covid-19 será um trunfo do antibolsonarismo. A narrativa já vem sendo bem trabalhada, uma semeadura que talvez permita boa colheita em novembro. Do outro lado, o governo tem um trunfo na economia. Os números aqui tampouco são bons, mas o dinheiro distribuído como auxílio emergencial vai ter seu papel. Principalmente no até agora grande reduto da oposição, o Nordeste.

São os fatores da nacionalização. Mas não será prudente subestimar o localismo. O melhor palpite por enquanto é apostar fichas na racionália de que prefeitos e candidatos serão julgados pelo que fizeram ou deixaram de fazer, em particular neste último período pandêmico. Enquanto políticos e analistas gastam o miolo em torno do “fator nacional”, o eleitor talvez queira saber o que pode melhorar a vida dele no local onde mora.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A dura vida do marisco

 A volta ou não às aulas é a bola da vez no braço de ferro entre os adeptos da retomada e os militantes do #ficaemcasa. Brasília é um exemplo (leia). Já São Paulo jogou a coisa para outubro (leia). A verdade: ninguém parece saber direito o que fazer, como decidir com base em critérios racionais. 

Prevalece o medo. O cidadão tem medo de ficar doente, e de ver o filho adoecer. E o político tem medo de ser responsabilizado por uma eventual escalada, bem na antessala das eleições municipais adiadas para novembro. 

E assim segue a vida num país, o Brasil, onde a descoordenação entre as autoridades e a interferência aleatória do Judiciário são a marca registrada nesta pandemia. A falta de coordenação e o terreno fértil para arbitrariedades têm consequências óbvias, especialmente nas atividades econômicas. 

Uma delas são as escolas particulares, que ficam como o marisco, sofrendo por causa dos choques entre o mar e o rochedo.

Como isso se resolverá? Talvez, a exemplo das coisas que já abriram, certo dia, esgotadas, as autoridades nos diversos níveis deixem a vida seguir seu passo. Ou decidam finalmente manter todos os alunos em casa à espera da hora em que será aplicada em massa uma vacina que ainda não existe.


A pax bolsonariana: até quando?

As críticas à Lava-Jato vão sendo novamente matizadas, apesar dos percalços. A aliança da operação com os vetores dominantes da opinião pública volta a mostrar vigor, e agora vitamina-se de um novo alinhamento: num lado, o Palácio do Planalto e a Procuradoria Geral da República; no outro, a Lava-Jato e quem flerta com amputar o mandato de Jair Bolsonaro antes do prazo, evitando assim preventivamente também a possibilidade de reeleição.

Quem levará a melhor? A aliança encabeçada pela Lava-Jato vem de vitórias históricas, a começar do impeachment de Dilma Rousseff e da condenação, e inelegibilidade, de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas enfrenta uma atribulação no plano tático: as pressões e manobras do Executivo para retomar o poder moderador, o que em linguagem mais delicada ganha o nome de “governabilidade”. E esta passa pela contenção dos polos que floresceram na Brasília do declínio de Dilma Rousseff e Michel Temer.

Num desses polos, o Congresso Nacional, as coisas para o oficialismo bolsonarista parecem ir razoavelmente bem. Ainda há chacoalhadas e rusgas, mas o sentido geral é de pacificação. O impeachment hiberna, e a reforma tributária é o novo brinquedo posto a entreter o Legislativo. E os parlamentares estão às voltas com outros dois assuntos apetitosos: as eleições municipais e a renovação das mesas da Câmara e do Senado.

Nisso, a única coisa que o governo precisa evitar é perder. O ideal para o Planalto serão presidentes alinhados 100% com Bolsonaro, mas Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre continuarem nas cadeiras seria, para o governo, o “problema já conhecido”. Diz a sabedoria: nunca se apresse a eliminar um problema já conhecido, pois o risco é aparecer um novo, e potencialmente mais complicado. Como por exemplo o comando do Congresso nas mãos de personagens inteiramente originais e com apetite por protagonismo.

No Ministério Público e no Legislativo, o cenário para Jair Bolsonaro parece o menos pior desde a posse, inclusive por as disputas da hora serem internas em ambos. E isso enquanto o Executivo vive uma inédita pax bolsonariana, após alguns “expurgos brancos” e a ocupação de espaços estratégicos pelos quadros provenientes das Forças Armadas, da reserva e da ativa. E que estão ali por outra regra da vida política: quando há vácuo, este suga alguém para consertar a anomalia. É o que se passa com os fardados.

O momento de calmaria para o presidente da República decorre também de um fator relativamente inesperado, e de outro previsível. Era pouco esperado que a popularidade do presidente resistisse à dramática contabilidade das mortes da Covid-19. Por alguma razão está resistindo. O previsível era a dispersão das esquerdas, que sintomaticamente voltaram a ser nomeadas no plural. Aqui, um paradoxo: quanto mais na oposição se fala em frente, mais avança a fragmentação dela própria. Por exemplo na disputa das prefeituras.

O que pode interromper a paz? Afinal, estamos no sempre potencialmente complicado agosto.

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Publicado originalmente na revista Veja 2.699, de 12 de agosto de 2020

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Duas variáveis cruzadas

O site de notícias G1, entre outros, mantém um levantamento estado por estado da média móvel de óbitos pela Covid-19 (veja). É atualizado diariamente. Vale a pena acompanhar. Pelos dados de hoje no meio da tarde, parece haver uma correlação geográfica, relacionada à latitude. Nos estados mais ao sul a tendência é de alta na curva. Nos mais ao norte, de baixa.

Duas variáveis embaralham-se aqui. É preciso saber, por exemplo, se os estados mais ao sul estão subindo agora a ladeira fatal por causa do inverno ou porque foram os últimos a engatar a subida. Idem para os mais ao norte. Estão caindo por causa da localização geográfica ou porque foram os primeiros a escalar o trágico morro?

Entrementes, segue a disputa política. Em cada nível da federação, o oposicionismo acusa o governismo de principal responsável pela trágica contabilidade de mortes. E vai ser assim na disputa eleitoral das prefeituras, até a decisão. A política é como ela é. Resta aguardar que os cientistas, pelo menos os que não foram tragados pelas guerras partidárias, resolvam esta e as demais charadas trazidas pelo SARS-CoV-2.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Campanhas remotas

O candidato democrata, Joe Biden, participará remotamente da convenção que o nomeará candidato à presidência dos EUA. O republicano Donald Trump parece que também (leia). As convenções partidárias norte-americanas sempre foram um ícone da política daquele país. No assim chamado, e já batido, "novo normal", são mais uma tradição que vai ficando na poeira.

Tive a oportunidade de escrever um capítulo sobre os partidos políticos no livro "O Mundo Pós-Pandemia", organizado por José Roberto de Castro Neves (veja). Vai se tornando cada vez mais evidente que parte significativa das atividades político-partidárias após a chegada do SARS-CoV-2 acontecerá pela internet. Filiações, debates, escolha de candidaturas, campanhas. Quem ficar para trás, um abraço.

Vai ser melhor ou pior? Certamente será diferente. Um aspecto positivo: transgredir ficará mais arriscado. A vigilância eletrônica é onipresente em nosso novo mundo, mas pela rede ela é ainda mais fácil. Um negativo: não há o que possa substituir o contato entre as pessoas. E "fabricar" candidatos de acordo com o mercado eleitoral e pouco vulneráveis à crítica será uma tentação.

Mas não adianta reclamar. Melhor sempre acender uma luz do que lamentar a escuridão. 


terça-feira, 4 de agosto de 2020

E se não for a economia?

Os norte-americanos continuam achando que Donald Trump tem méritos na condução da economia. Mas as previsões são de que ele enfrenta uma batalha morro acima na busca pela reeleição em novembro (leia). Sempre restará aos inconformados dizer que as pesquisas têm errado muito. É um fato. Mas não existe metodologia melhor para medir o humor do eleitorado.

A ideia de que a economia é sempre o elemento-chave para decidir uma eleição para a chefia do governo ficou popular depois da vitória de Bill Clinton ali em 1992. Foi quando James Carville cunhou o "A economia, estúpido". Mas alguns detalhes ficaram esquecidos. Um deles: o independente Ross Perot teve então quase 20% dos votos (leia). Um estoque que fez muita falta a George Bush, pai.

Os levantamentos agora informam que dois assuntos passaram a contar muito, até o momento, para a decisão do eleitor nos EUA: a Covid-19 e a fratura racial cada vez mais exposta da sociedade americana. Talvez Trump consiga ganhar uns pontos no primeiro ponto, especialmente se a vacina vier a tempo. O desafio maior dele está em neutralizar a desvantagem no segundo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Duas guerras

Duas perguntas da hora, respectivamente no mundo e no Brasil: "quando o público em geral terá acesso a uma vacina confiável que imunize contra o SARS-CoV-2?" e "quando o governo brasileiro vai conseguir interromper o pagamento do auxílio emergencial de 600 reais?".

Sobre a vacina, as coisas andam bem ciclotímicas. Num dia vem a notícia de que ela está quase para chegar. No outro, a OMS diz que ela talvez nunca chegue (leia). Quem tem razão? Eis uma dúvida que só será dirimida pelos fatos da vida. Até lá será o diz-que-diz-que.

E o auxílio? Ele custa 50 bilhões de reais a cada parcela. Mesmo se for cortado pela metade vai sair pela bagatela de 300 bilhões de reais por ano. O governo quebra a cabeça sobre o assunto, e a pressão da política é sentida em seu esplendor no ano eleitoral (leia).

São duas guerras, contra a Covid-19 e contra as consequências econômicas. A luz ainda não apareceu no fim do túnel em nenhuma delas. E numa guerra vale sempre a velha máxima: é bem mais fácil entrar nela do que sair bem.

domingo, 2 de agosto de 2020

Trump, Biden e Bolsonaro

Qual será ao fim e ao cabo o efeito de uma eventual vitória do democrata Joe Biden nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil? Nesta semana o assunto ganhou alguma tração quando um deputado do partido de Biden criticou o apoio aberto de familiares de Jair Bolsonaro ao incumbent Donald Trump.

O Brasil é ponto focal dos Estados Unidos na América do Sul. Um momento explícito foi quando o então presidente Richard Nixon disse que para onde pendesse o Brasil penderia a América Latina. É razoável portanto partir da premissa: a preocupação americana pelo que se passa aqui sobreviveria bastante bem à troca de guarda ali.

Amizades e inimizades pessoais jogam seu papel, mas seria um erro superestimar. A chave decisiva para a análise é outra: de que maneira as relações entre ambas as nações ajudam ou atrapalham o projeto de poder do segmento líder em cada um dos dois países. E projetos de poder invariavelmente vêm conectados a projetos nacionais.

Nos tempos da primeira Guerra Fria a relação de troca sempre foi cristalina: os Estados Unidos ajudavam por aqui a manter uma arquitetura social e política enquanto o Brasil somava forças com o Ocidente no trabalho de contenção da influência da União Soviética. As exceções, quando essa lógica deixava de prevalecer em termos absolutos, apenas confirmavam a regra.

Uma exceção foi no governo Ernesto Geisel. O rápido reconhecimento da Angola soberana e o acordo nuclear Brasil-Alemanha, no âmbito da ideia de “Brasil potência”, são fatos da história. Assim como o rompimento do acordo militar com os EUA em represália, segundo Geisel, às pressões do então presidente Jimmy Carter em torno do tema dos direitos humanos.

O momento hoje parece bem distinto daquele interregno geiselista. Não se nota nas elites brasileiras, lato sensu, maior desconforto com o alinhamento aos Estados Unidos. A divisão é outra: uns preferem acoplar-se a Trump e suas políticas, outros gostariam de engatar-se a Biden e à agenda do Partido Democrata, gostariam que a hegemonia norte-americana se desse apoiando outros atores e contemplando uma pauta mais antenada.

Não se nota por aqui hoje em dia maior ambição de protagonismo independente. Que implicaria jogar um jogo mais inteligente diante da “nova Guerra Fria”, entre os Estados Unidos e uma China em ascensão. Só o que se vê, no máximo, são lamentos diante da possibilidade de o alinhamento com o trumpismo atrapalhar os negócios do agronegócio.

E neste ponto é preciso admitir que se o Brasil precisa da China a China também se beneficia das boas relações com Brasil. Não à toa o atual momento comercial entre os dois países é o mais expressivo desde sempre. Nunca a China teve tanta participação nas exportações brasileiras. Manter as coisas pelo menos como estão interessa muito a Brasília mas também a Beijing.

Mas até quando?

O alarido diante dos factoides não deve enganar: há muito tempo não se via no Brasil tanta disponibilidade para uma acomodação ao jogo que é jogado pela Casa Branca. Pouca razão haveria para um possível presidente Biden arrumar encrenca com o Brasil por causa de Bolsonaro. Ainda mais se o horizonte para 2022 continuar como está.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A política em rede e das redes

As redes sociais pouco a pouco vão ocupando o centro do noticiário nas disputas geopolíticas globais e nas pendengas jurídico-políticas nacionais. Na queda de braço entre Estados Unidos e China a bola da vez é o chinês TikTok, que parece estar em tratativas para ser vendido para a Microsoft (leia). No Brasil, o estranhamento da hora é entre o Facebook e o Supremo Tribunal Federal (leia).

Não é certo que operações tópicas contenham o ímpeto antichinês de um Donald Trump cada vez mais pressionado por pesquisas desfavoráveis na corrida reeleitoral. E vamos ver como o ministro Alexandre de Moraes desenrola o novelo do arranca-rabo com o gigante das redes, que diz seguir a lei em cada país onde atua mas também que o STF não pode determinar o que o Facebook vai fazer em outros países.

Quando a moderna Internet nasceu já se falava de que a política do futuro se organizaria em rede. Mas a coisa evoluiu bem além. As lutas pelo poder sempre tiveram na disputa pela informação, e pela capacidade de informar, um foco estratégico. É ao que estamos assistindo agora, em escala global e local. E só uma coisa é certa. Lá e cá, no final vai chorar menos quem puder mais.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Com a outra mão

São muitos números, então é melhor ir direto para a explicação completa (leia). O fato é que o déficit primário explodiu e as previsões para este ano são astronômicas (leia). O que era para ser uma consistente política de austeridade sustentada foi abalroado pela pandemia da Covid-19. 

Paciência, dirão, o imprevisível é sempre muito difícil de prever.

É razoável supor que quando a pandemia passar (quando?) ficaremos sim com um problema de estoque de dívida, mas o fluxo vai talvez normalizar-se. Dirão os pessimistas que é muito otimismo, mas não custa ter algum. Qual é a dúvida, então? Como fazer para servir a dívida que cresceu esse tanto, mas de um jeito que não implique tirar o oxigênio da recuperação econômica.

Se o governo estiver de olho apenas em aumentar a arrecadação a todo custo, vai asfixiar a economia. O melhor seria subir a receita graças a um belo aumento da atividade. Mas isso não está no horizonte próximo, todas as pesquisas mostram um consumidor cabreiro. Quando a desconfiança do consumidor em relação ao futuro vai passar? Na boa, ninguém sabe.

O governo busca recursos para o Renda Brasil. Mas nenhum programa social terá efeito milagroso para 2022 se, com a outra mão, o governismo garrotear quem está um pouco acima na escala social.