segunda-feira, 9 de abril de 2018

O primeiro tempo da final realista e fantástica acabou. Está 1 a 1. E vai ser jogo duro até o fim. Ou até depois

O juiz apitou o fim da primeira etapa e a partida vai empatada em 1 a 1. Lula está preso e a tentativa insistente de fazê-lo concorrer nas eleições será apenas um esticar de corda. Mas Lula também conseguiu sair das ruas querido pelos dele, em vez de apenas apedrejado, cuspido e xingado pelos adversários. O jogo que era para estar decidido continua aberto.

É improvável que a prisão tenha corroído decisivamente o capital político de Lula, do PT e do bloco de esquerda. No outro lado, a narrativa que consolida é a de Bolsonaro, dificultando descontruí-lo, e portanto tornando mais complexa a missão do autonomeado centro. O centrismo e o bolsonarismo ainda não são indistinguíveis, mas andam cada vez mais parecidos.

Já o juiz da partida parece ter suas próprias circunstâncias. Apita sem se sentir obrigado a seguir a International Board. E é sensível à pressão para dar um jeito de os dois times perderem. O que poderia eventualmente produzir a situação inédita de alguém da arbitragem levantar a taça. Pois nada deve ser descartado neste torneio de realismo fantástico.

E as coisas estranhas de um jogo estranho não param aí. O chefe do policiamento deu de opinar sobre como prefere que o juiz apite. E na tribuna de imprensa, em vez do barulho do teclado das máquinas (coisa antiga, sei), só se ouve o alarido da torcida para o juiz expulsar o máximo possível de jogadores de cada lado, mesmo que isso leve a decisão para o STJD.

Não é impossível os 90 minutos (ou a prorrogação, ou os pênaltis) conseguirem chegar ao final e alguém sobreviver para erguer o troféu. A inércia é poderosa. Mas engana-se quem acha que a coisa acaba aí. O perdedor vai ao tribunal. E a possibilidade de uma solução boa é mais ou menos a mesma de Flamengo e Sport conseguirem acordo sobre quem foi campeão em 1987.

Haja metáforas. Vamos à vaca fria. Com Lula fora, a esquerda precisará deixar de lado o faz-de-conta e decidir o que quer da eleição. Se é só "marcar posição” ou usá-la para preservar força política institucional. E a direita precisará começar a depurar seu amplo leque de opções, para tentar reduzir o risco de não comer o bolo depois de comandar toda a festa.

Os problemas de cada lado são visíveis. O único terreno em que a esquerda consegue unidade de ação é na luta para ver Lula livre. Conforme o processo eleitoral caminhar, precisará dar um jeito de apresentar ao distinto público uma alternativa de poder. Quem gosta de voto de protesto é intelectual, diria Joãosinho Trinta. Povo gosta mesmo é de governo que resolva.

Na direita, continua o desafio de vencer a eleição dizendo o que vai fazer se ganhar. Seu programa não é em si popular. No governo, a direita brasileira só faturou eleições quando a economia ia bem. E se a recessão parece mesmo ter acabado, nada indica que a recuperação virá com forte redução do desemprego e aumento de renda, a tempo de influir na urna.

Sem contar, e ainda tem isso, a permanente ressureição do “novo”. Marina relançou-se, mas o nome da vez é Joaquim Barbosa. Ele terá uma posição privilegiada no segundo turno, se chegar lá. É razoavelmente votável pela esquerda contra a direita, e também pela direita contra a esquerda. Por isso, ambas certamente farão tudo para acabar com ele no primeiro.

Há hoje cinco nomes com chance real de ir ao segundo turno. O candidato de Lula, Bolsonaro, Marina, um nome “de centro” e Barbosa. Ciro entra no grupo se atrair o apoio da esquerda. Se esta operar bem, tem vantagem para ocupar uma das vagas. O que faz crer numa guerra do outro lado. Com Bolsonaro e Marina, principalmente, trabalhando para lipoaspirar o PSDB.

E sempre tem o governo. Pego emprestada a frase: governo no Brasil é que nem cobra, até morta pode matar. Sarney, no chão, quase embaralhou a eleição de 1989 com a candidatura de Silvio Santos. Em meio à confusão, aliás, uma estrutura razoavelmente operacional continua sendo a administração Temer. Não tem prestígio, mas sobra-lhe munição.

Em meio ao caos, uma força organizada leva vantagem. Está aí a chave da conjuntura e do processo eleitoral. Quem conseguir se arrumar antes para apresentar-se ao eleitor como um produto viável para enfrentar os grandes desafios nacionais pode conseguir boa vantagem na largada. E se o circuito revelar-se de ultrapassagens difíceis, isso pode ser decisivo.

Haja metáforas. Talvez o número delas seja proporcional à confusão.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O PT entre o PowerPoint e o Excel

Faltaram a Lula e ao PT no STF força própria e alianças. É exatamente o risco que ameaça o partido na eleição de outubro. A legenda encara dois desafios: 1) reagrupar em torno de outra alternativa os cerca de 30% que se mostra(va)m dispostos a votar no ex-presidente e 2) montar chapas nos estados para recolher os cerca de 20% que declaram o PT a sigla preferida. Nenhuma das duas empreitadas será simples, especialmente com Lula imobilizado e desconectado do mundo exterior.

A favor do partido, resta a até agora bem-sucedida operação de politizar ao máximo todo o episódio de caça e condenação. Isso rendeu uma narrativa essencial para atravessar o deserto. Falta ainda saber quanto de espetáculo haverá na captura e no recolhimento do ex-presidente à prisão, e o efeito disso no eleitorado. Uma vez Lula preso, entretanto, a vida prática imporá ao grupo político por ele liderado a necessidade de organizar a batalha de outubro. No cenário positivo, buscando a vitória. No outro, a sobrevivência como ator relevante do palco institucional.

Segundo todas as pesquisas, Lula tem forte influência e capacidade de convencimento em um pedaço do eleitorado medido entre 25% e 30%. Mas isso é, por enquanto, potencial. Precisará ser realizado. O desafio estará na execução. Como em outras atividades, não é pequena a distância entre os slides do PowerPoint de planejamento estratégico e os números frios da última linha do Excel com os resultados da vida real. Uma coisa é a pesquisa dizer que 25% votariam no candidato do Lula. Outra é 25% votarem. Demandará muito trabalho.

O risco de dispersão não é pequeno. É da natureza da política, e da natureza humana, que os demais nomes do chamado campo progressista sejam pressionados pelos seus respectivos grupos a tocar a vida, enquanto o PT fica às voltas com a busca de uma alternativa à inviabilizada candidatura do ex-presidente. E quanto mais o petismo esticar esse enredo, para extrair da vitimização o máximo de dividendos, mais se complicará a vida dos alternativos. Fazer campanha normal ou manter-se na órbita do movimento petista de esticar a corda?

O outro lado

Se Lula fora da disputa remove parte do estímulo à polarização com Bolsonaro, o efeito mais visível da caça judicial e política ao ex-presidente vem sendo uma, digamos, bolsonarização do campo oposto. O episódio todo vem comprovando o caráter ficcional, ainda que baseado em fatos reais, da ideia de existir um “centro” na política brasileira em 2018. Ao contrário, é Bolsonaro que cada vez mais se torna mainstream. Não por estar se deslocando ao centro. Mas pelo “centro” estar navegando para a direita. Basta olhar o que vai, por exemplo, pelo PSDB.

Outro efeito provável da decapitação eleitoral de Lula será o “por que não eu?”. Reduz-se o estímulo a convergências do outro lado. A dispersão abre a possibilidade de ir ao segundo turno alguém, ou mesmo dois, com baixa votação, o que acende ambições em projetos por enquanto flácidos ou até anêmicos. Marina, Alckmin, Álvaro Dias, Temer, Rodrigo Maia, Meirelles, Rabello de Castro, Amoêdo, Flávio Rocha etc. A lógica diz que alguns destes sairão e outros serão vices. Mas a tendência no momento é centrífuga.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

De omelete em omelete, vão acabando os ovos da democracia constitucional. E alguma Constituinte vem aí

O Brasil contempla a demolição explícita do edifício democrático-constitucional erguido na passagem que fechou o período de hegemonia militar (1964-85). Essa transição culminou na Carta de 1988, feita pelo Congresso com poderes constituintes eleito em 1986. A nova ordem ainda não nasceu, mas a velha já morreu. Ainda que de vez em quando pareça estar viva.

É sintomático que o respeito à letra da Constituição tenha deixado de ser argumento importante para decisões judiciais mais relevantes. Aqui, as formalidades importam pouco: quando o julgador descumpre uma norma constitucional a pretexto de estar interpretando um princípio constitucional abstrato qualquer, apenas reveste a coisa de alguma elegância.

A Carta de 88 mal veio e já entrou na linha de tiro. Imediatamente, o liberalismo econômico abriu campanha contra os aspectos corporativos, estatizantes e distributivos dela. Restavam porém relativamente intocados alguns mecanismos sociais conservadores. E os um dia reverenciados direitos e garantias individuais, que a faziam “uma das mais modernas do mundo”.

Agora não mais. Cada pedaço do texto passou a ser alvo de desconstrução. A moda vinha ganhando novas cores desde os anos 90, quando a esquerda se acostumou a ir ao STF sempre que derrotada nas reformas pró-capitalistas do governo do PSDB. E a tendência só se reforçou. Hoje, o Supremo virou no dia-a-dia casa revisora e “vetadora” do Congresso e do Executivo.

Uma aberração, mas lógica. A esquerda exige do STF respeito à letra da Constituição contra a obrigatoriedade da prisão após condenação em segunda instância, no contexto do respeito às garantias e direitos individuais. E festeja quando o tribunal, e não vê contradição nisso, revoga as normas constitucionais antiaborto e em defesa da chamada família tradicional.

Já o jornalismo levanta-se em armas na luta pelas liberdades de expressão e imprensa, mas aceita bem relativizar qualquer outro direito individual ou coletivo, se for necessário para combater a corrupção. Vale, para quem não é da casa, o “não se faz o omelete sem quebrar os ovos”. De vez em quando lamentam-se “excessos”, por atrapalharem a empreitada. E só.

A direita nunca chegou a curtir o texto de 1988, pelos motivos já apontados, mas o abandono dele pela esquerda e pela imprensa vem sendo fatal. O resultado mais bizarro é transformar o STF numa espécie de regência de onze regentes, e com amplos poderes constituintes. Uma completa anomalia pelo ângulo da assim chamada democracia representativa.

Este status quo é insustentável, e os exemplos históricos indicam que deverá ser substituído por alguma forma centralizada de poder político, quando a sociedade estiver esgotada da bagunça, pela absoluta impossibilidade de essa bagunça produzir prosperidade e paz social razoavelmente sustentáveis no tempo. A dúvida é quem vai cortar o nó górdio desta vez.

O apodrecimento político do Brasil de 2018 é exatamente função de nenhum ator ter a força para promover a ruptura, amputar o membro gangrenado. O nome mais lógico para a missão será o presidente eleito em 2018, um candidato a Bonaparte, ainda que trazido pela urna. Não chegará a ser uma novidade para nós, mas só estará disponível em janeiro de 2019.

Ele vai enfrentar entretanto inimigos formidáveis. Um são as corporações de Estado empoderadas e endeusadas pela opinião pública que viu nelas, com alguma razão, o instrumento disponível para mudanças políticas que não deu para fazer pelo voto. Ou alguém acha que STF, MPF, TCU etc vão se recolher apenas por haver um novo presidente saído da urna?

Outro desafio será um país plenamente convencido, após anos de doutrinação, à esquerda e à direita, de que os corruptos são a razão maior de o Estado não ter dinheiro para resolver os problemas da saúde, da educação, da segurança, dos transportes públicos. E que portanto basta eleger um governo honesto para os recursos aparecerem.

Como não basta, o novo presidente precisará tirar algum coelho da cartola para a frustração popular não se voltar contra ele bem cedo. Um coelho disponível, já que a Constituição foi para o vinagre e o processo constituinte está em curso aos trancos e barrancos, é pegar uma carona nele, tomando a liderança e chamando a sociedade para participar.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Mais fácil achar o ET de Varginha que uma saída para a crise

A esta altura, parece termos chegado a um consenso: o Brasil entrou em excepcionalidade político-jurídica. Alguns apontam um estado de exceção já instalado, com objetivo eleitoral. Para outros, seguir as leis e a Constituição ao pé da letra facilita a impunidade dos corruptos e, portanto, deve-se ler a Carta não à luz do nela escrito, ou das intenções do constituinte, mas pelo lado do interesse social.

Essa segunda visão introduz o problema clássico: quem decide qual é o “interesse social"? A resposta certa é conhecida: define "interesse social” quem tem força para impor sua vontade ao conjunto do país. Desculpe o leitor a crueza, mas ela é pedagógica: debater “quem tem razão” na política costuma ser fútil e inútil. Tem razão na política, como diria o He-Man, quem tem a força.

Mas a discussão não acaba aqui. Ela mais é complexa, pois tentar convencer de que se tem razão ajuda a acumular força para, no final, ter razão. Daí os prolongados debates sobre legitimidade e outros substantivos vistosos e abstratos. Se consigo fazer acreditar que estou dentro das regras, mesmo estando fora, meu argumento adquire estatura moral. O que me dá um gás adicional para transgredir as normas fingindo respeitá-las.

Períodos excepcionais costumam acontecer na história brasileira, mas desta vez complicou um pouco: a atual excepcionalidade político-jurídica introduziu vetores novos, de informalidade e dispersão. Os militares foram mais inteligentes no tempo deles, talvez fruto do conhecido apego ao formalismo: quando queriam, ou precisavam, descumprir a Constituição, outorgavam uma nova ou produziam um ato institucional. Ou as duas coisas. E na última instância mandava um só.

Isso trazia uma bela vantagem: se alguém manda e o ato de exceção é formal, o líder mantém o poder de revogá-lo, e por isso controla o processo. Porque uma hora a excepcionalidade cansa e o poder precisa de saídas organizadas. Quando Raymundo Faoro pediu ao presidente Ernesto Geisel o restabelecimento do habeas corpus, essencial para proteger os presos políticos contra a tortura, o general teve como atender, bastou canetar numa folha de papel.

Claro que é uma simplificação. A coisa ali foi mais complicada que isso. Mas nada que se compare ao emaranhado de hoje. Uns querem tirar as castanhas do fogo com a mão de gato do Judiciário, pois se todas as opções estiverem disponíveis ao eleitor o resultado pode sair do controle. O outro lado quer resolver tudo no voto, deixando claro que a urna tem prevalência sobre a toga. O que a urna decidir está decidido. Posições inconciliáveis.

Isso explica também a impossibilidade, até o momento, de constituir um “centro” político no Brasil de 2018. Centro não é brincadeira de Carnaval em que o sujeito põe uma camiseta escrita "me beija: não sou de esquerda nem de direita”. Centrismo, necessariamente conjuntural, é oferecer alternativas para contemplar os dois lados do espectro. Por enquanto, não tem como fazer. Também porque não tem quem possa fazer. Olha a encrenca.

Uma solução seria todos combinarem que vão aceitar o resultado da eleição. Quem ganhar governa, e quem perder faz oposição no Congresso. Se você acredita que isso pode acontecer nas atuais circunstâncias, #ficaadica: procure antes pelo Monstro do Lago Ness, pelo Abominável Homem das Neves ou pelo E.T. de Varginha. Vc terá mais chance de sucesso.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 26 de março de 2018

Naturalização da violência política é, até agora, o fato novo deste processo eleitoral. E o tempo não recua

Uma incógnita importante nesta eleição presidencial é a resistência que o deputado Jair Bolsonaro conseguirá opor ao movimento dos concorrentes no seu campo para lipoaspirar os votos dele, hoje cerca de um quinto do eleitorado. Há algum consenso de que a turma de Lula tem boas chances de colocar alguém na decisão, e daí sobraria apenas uma vaga.

As fragilidades de Bolsonaro vêm sendo bem descritas. Pouca estrutura partidária, pouco tempo de televisão, pouco dinheiro e muito radicalismo. As três primeiras continuam na mesma. Mas há uma mudança em curso na quarta, uma mudança cultural inédita: pela primeira vez desde a redemocratização, o radicalismo político de direita disputa a hegemonia.

Era algo que já acontecia com o radicalismo político da esquerda, e que agora se estende para o outro lado. Foi pedagógico acompanhar as reações à morte de Marielle Franco, reações na internet e fora dela. Apesar da extensa e intensa condenação da opinião pública, os bolsões da direita ficaram impermeáveis à comoção.

Como já analisado anteriormente, o brutal assassinato da vereadora do PSOL criou um ruído momentâneo entre o bolsonarismo e os movimentos autodefinidos como “de centro” (a partir daqui, por economia, vou dispensar as aspas). Mas a reação destes foi em boa medida protocolar, do tipo “precisamos dizer algo para podermos dizer que dissemos algo”.

Em outros tempos, seria um acontecimento disruptivo. Mas não está sendo. Um fato provoca disrupção quando quebra a coesão de pelo menos um campo político, e assim abre caminho para o realinhamento significativo de forças. Isso simplesmente não está acontecendo. Por uma razão central, entre outras: o Brasil vai pouco a pouco naturalizando a violência política.

Para a análise política no Brasil de 2018, não importa tanto olhar o aspecto civilizatório, ético ou moral. Interessa tentar entender o efeito eleitoral. O principal: Bolsonaro vai adquirindo uma taxa de “votabilidade” inexistente no início da corrida. Conforme o ambiente se radicaliza e a violência se naturaliza, o voto nele vai se tornando mais mainstream.

O candidato já havia tomado providências para acelerar essa “normalização”. A mais visível foi nomear seu porta-voz em economia um economista respeitado dos meios acadêmico-empresariais. Ganhou com isso um salvo-conduto parecido com o que Lula recebeu pela Carta aos Brasileiros em 2002. Paulo Guedes é para Bolsonaro o que Palocci foi para o petista.

Resta agora romper o isolamento político-ideológico. E ele vai sendo rompido conforme aumenta a rejeição do público, em todas as camadas, às formas democráticas de governo e também às garantias e direitos previstos na Constituição. Se as instituições são ilegítimas e os direitos servem de escudo aos bandidos, por que aceitar o monopólio da violência pelos governos?

É um cenário progressivamente complicado para o centro. Não impossível, mas complicado. Para capturar votos de Bolsonaro, precisará deslocar-se para a direita, mas com cuidado, pois lá na frente talvez precise fazer meia volta para decidir a eleição num eventual segundo turno contra a esquerda ou, numa hipótese menos provável, contra o próprio Bolsonaro.

Dois argumentos eleitorais fortes estão no cardápio contra as possibilidades de Bolsonaro: 1) ele não seria capaz de derrotar no segundo turno o PT ou alguém apoiado pelo PT e 2) ele não conseguiria governar, pela fragilidade da base política e o radicalismo das propostas, e visão de mundo. São dois bons argumentos, mas de outro tempo.

O primeiro argumento depende de surgir um candidato capaz de desempenhar melhor que ele nas pesquisas contra Lula ou alguém apoiado por Lula. É cedo para concluir, mas ainda não aconteceu. E dizer que Bolsonaro não tem apoio de políticos reforça hoje em dia um atributo. Mas o mais importante: a visão de mundo dele está em alta. Goste-se disso ou não.

Claro que tudo pode mudar a partir de uma bem azeitada campanha de opinião pública para “salvar o Brasil dos radicalismos”. Mas dar um cavalo-de-pau nesse transatlântico não será simples, nem trivial. Não será um passeio no parque. Também e especialmente porque o tempo é a única dimensão que não recua.

quarta-feira, 21 de março de 2018

É o fim de uma era para a esquerda

Quem viveu os (ou ouviu falar dos, ou leu sobre os) meados dos anos 1970 sabe das polêmicas que consumiam a esquerda brasileira naquele tempo. As iniciativas guerrilheiras vinham de ser todas derrotadas no terreno militar, e pouco a pouco os partidos, grupos e movimentos eram colocados diante da realidade dura: o único caminho que restara para alcançar objetivos políticos, ao menos os táticos, eram as eleições.

O PCB (Partido Comunista Brasileiro), que se reinventaria como PPS depois do colapso da União Soviética, já vinha na batida desde pelo menos 1967, quando em seu 6º Congresso definiu a linha de resistência política pacífica contra o regime militar. O PCdoB migrou depois da derrota no Araguaia. E os grupos mais influenciados pela Revolução Cubana concluíram a passagem quando o PT foi fundado, no início dos anos 1980.

Se a realidade havia resolvido a polêmica sobre via armada ou política, restavam pontos cruciais no debate. Os dois mais importantes: 1) a possibilidade de uma transição sem rupturas revolucionárias da democracia assim chamada “burguesa" para o socialismo e 2) a possibilidade de alianças táticas ou estratégicas com o empresariado nacional. Se é que havia mesmo um empresariado “nacional”. Esta era outra polêmica.

A história está muito distante de andar em linha reta, e aqui não foi diferente. Por razões que podem ser mais bem explicadas num texto específico, aconteceu no Brasil um fenômeno curioso: o PT, que vinha da tradição sindical-eclesiástica-insurrecional, foi absorvendo com o tempo a linha política dos partidos tradicionais da esquerda, enquanto estes se enfraqueciam (ou deixavam de ser fortalecer).

De um modo deformado, dirão os críticos, mas a seu modo, o petismo levou tão longe quanto pôde a política de frentes e a aposta num desenvolvimento capitalista de viés soberano, vocacionado até para um subimperialismo regional, vestido com as cores bonitas da integração, sul e latino-americana. Isso combinado com a disputa e ocupação progressiva dos instrumentos estatais. Mas o Estado "republicano" em que o PT tanto investiu virou a arma decisiva de seus algozes.

De um jeito todo particular, o PT explorou ao máximo a lógica que Antonio Gramsci produziu nos textos da prisão. Não dá para saber até que ponto o italiano achava mesmo que seu pensamento poderia transformar efetivamente o sistema, mas o PT foi o partido mais “gramsciano" que a esquerda brasileira fabricou neste quase um século desde a fundação do PCB, em 1922. É conhecido, por exemplo, o espanto do então metalúrgico Lula quando lhe perguntavam, por volta da fundação do PT, se o partido seria “tático" ou “estratégico”.

O colapso do atual projeto petista, desenvolvido principalmente nas últimas duas décadas, de amplas alianças e apostar num capitalismo soberano e inclusivo, produziu um vácuo na esquerda. Até porque o recuo não é só no Brasil, é regional. Argentina e Equador são outros exemplos. A sobrevivência do bolivarianismo venezuelano é uma incógnita. Tem agora em maio um desafio eleitoral complicado, mesmo com boa parte da oposição juridicamente fora de combate.

Os historiadores discutem se a explosão das duas bombas atômicas americanas sobre o Japão foi o último ato da Segunda Guerra Mundial ou o primeiro da Terceira. Por esse ângulo, como enxergar a candidatura, tão forte quanto inviável, de Lula à presidência? É uma última fresta de esperança de manter vivo o atual PT gramsciano? Ou o primeiro movimento de "superação das ilusões”? A derrota se deu por falta de gramscismo ou por excesso?

Se a esquerda sobrevive até em países socialmente bem mais justos, era uma ilusão algo boba acreditar que no Brasil, um paradigma mundial de desigualdade e todo tipo de injustiça, a Lava Jato destruiria Lula, o PT ou a esquerda. Estas forças estão isoladas, mas sobrevivem. E em algum momento voltarão. Pode ser até nestas eleições. Será interessante observar para que lado da história vai acontecer a superação do período que agora se fecha.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 19 de março de 2018

Caso Marielle: Em eleições, o primeiro elemento decisivo é a capacidade de reunir a própria tropa.

A precondição de competitividade nas eleições, como em qualquer tipo de batalha, é o exército. Se não tiver outro jeito, recrutem-se mercenários. Mas isso não é o preferível. A tropa luta melhor quando pode exibir uma causa, quando está munida da -olha aí a palavra da moda- narrativa. Ainda que o objetivo último seja o butim, causas trazem o indispensável glamour.

Uma coisa é dizer que se apoia tal candidato porque ele vai arrumar um emprego, ou uma casa, ou uma cirurgia, ou um empréstimo camarada no BNDES. Outra coisa é dizer que o Brasil precisa ser salvo do PT, ou de Bolsonaro, ou dos populistas, ou dos fascistas, ou dos bolivarianos, ou dos racistas, ou dos gastadores, ou dos neoliberais. Essa lista é infinita.

Narrativa eleitoral precisa ter 1) fácil compreensão e 2) aderência à realidade, ser verossímil. O argumento que o militante vai desenvolver na mesa do bar a favor do candidato tem de ser simples de manejar e encaixar no conjunto de fatos. Vale aqui a velha máxima do debate: tudo o que precisa ser muito explicado não é bom.

Quando um acontecimento encaixa na narrativa, ele tem a capacidade de potencializar a rearrumação das forças. Algumas vezes decisivamente. A morte de João Pessoa ajudou a deflagrar a insurreição de 1930. Quando se conheceram melhor os detalhes do assassinato, a revolução política que levou Getúlio Vargas ao poder já era um fato.

O fuzilamento de Marielle Franco trouxe à narrativa da esquerda um ingrediente poderoso de verossimilhança, e isso terá efeito. A ideia de que Dilma Rousseff foi removida do poder fraudulentamente, por forças cujo objetivo é aprofundar as desigualdades e injustiças que marcam a sociedade brasileira, ganhou um ponto de agregação visível e facilmente compreensível.

Enquanto Marielle estava viva, a batalha das narrativas vinha algo equilibrada. Segundo a direita, o impeachment de Dilma foi constitucional e tirou do Planalto um governo que afundou a economia e quebrou a Petrobras. E as reformas agora estão ajudando a recuperar os empregos, e precisam continuar com o novo presidente a partir de 1o. de janeiro de 2019.

Já para a esquerda, foi um golpe antinacional e antipopular, que instalou ilegalmente um governo programado para entregar nossas riquezas ao imperialismo e reverter a ascensão social dos pobres. E a intervenção federal na segurança do Rio é uma face desse componente demofóbico, bem exibido na ideia de que mais repressão é a melhor receita contra o crime.

Enquanto o jogo de narrativas estava parelho, vinha também equilibrada a coesão ideológica de ambos os campos. A morte de Marielle mudou essa conta. A direita não bolsonarista agora procura mais distância do líder nas pesquisas sem Lula. E a brutalidade do assassinato da vereadora deu cores vivas à explicação de mundo que vem dos porta-vozes da esquerda.

Hoje está mais fácil a esquerda ser ouvida com atenção na mesa do boteco. Isso não é pouco. Se, ou quando, Lula for preso, um partidário terá mais plateia para explicar que ele não está condenado por causa da corrupção, pois todos os acusados de partidos da direita estão soltos, mas por ter governado para os pobres. "Viu o que aconteceu com a Marielle?”

É mais provável que as eleições presidenciais sejam decididas no segundo turno. Dois fatores serão fundamentais, e estão interligados: 1) a capacidade de levar seu eleitor para votar e 2) a capacidade de construir uma narrativa eficaz para demonizar o outro lado. A centralidade do tema da corrupção facilitava a vida da direita. Agora a coisa se complicou.

Inclusive pelas circunstâncias do jornalismo. Abrir espaço para causas de minorias ou maiorias socialmente massacradas tem sido válvula de escape para neutralizar acusações de reacionarismo. Isso acabou reforçando um jornalismo de causas e narrativas, marcado pelo efeito-manada. Mas quando a onda vira, quem até ontem ria passa a não achar tanta graça assim.

Então o jogo está jogado? Não. Melhor é ter cautela. Uma característica do efeito-manada, como naqueles filmes de faroeste com búfalos, é que a correria pode inesperadamente mudar a direção. E fazer vítimas entre quem desencadeou a coisa. O equilíbrio político no Brasil é instável. E as eleições ainda estão longe. Mas que a esquerda ganhou um fôlego, isso é inegável.

terça-feira, 13 de março de 2018

“Fake news” é fake news

Acontecerá no debate sobre as “fake news” o mesmo da polêmica dos transgênicos. Aos poucos, o assunto deixará as manchetes e escorregará para a irrelevância. Com o tempo, ficará evidente que, assim como no caso dos organismos geneticamente modificados (OGM), as “fake news” são menos uma ameaça real à saúde da democracia e mais uma desculpa para impulsionar certas agendas políticas e comerciais.

“O risco dos transgênicos” resiste nos bolsões de obscurantismo acadêmico e de corporativismo burocrático, mas deixou de ser notícia. Por um motivo singelo: após décadas de dramáticos alertas sobre os gravíssimos riscos corridos pelos consumidores de comida geneticamente modificada, não se conhece nenhum caso real de dano à saúde. No Brasil, a soja transgênica é o exemplo mais impactante. Se ela não fosse saudável, seríamos um povo à beira de extinção.

Era esperado que o debate dos OGM acabasse assim. A engenharia genética apenas faz mais sistemática e rapidamente as mutações que a natureza já produz sozinha desde o surgimento da vida na Terra. E, na digestão, as moléculas naturais e artificiais são igualmente quebradas. E já que os componentes são os mesmos, acaba não havendo diferença entre comer a comida produzida por D’us ou pelo homem.

A mentira existe desde que o ser humano passou a se comunicar. Com a internet, ela se propaga mais rapidamente. Mas não há nenhum fato, número ou evidência de que mentir na era da internet tenha ampliado os efeitos do ato de mentir. Há opiniões, palpites, certezas subjetivas politicamente interessadas. Há uma histeria artificial sobre o tema. Assim como no caso dos transgênicos, prova não há nenhuma.

Vamos recapitular. Donald Trump derrotou Hillary Clinton no colégio eleitoral, contrariando 99,99% das previsões. Sabido o resultado, ainda houve algumas tentativas jornalísticas de entender o acontecido. Rapidamente porém esse ensaio foi substituído pela narrativa que a Casa Branca democrata pôs a circular: de que a vitória trumpista fora resultado de uma conspiração com os russos. Entre outras coisas, com os amigos de Putin espalhando notícias falsas pela rede.

Só podia ser verdade. Afinal, não era possível os jornalistas e analistas sabichões terem se enganado tão estupidamente. Daí a refugiarem-se todos na zona de conforto foi um passo. E essa passou a ser a verdade oficial. Ou a mentira oficial. Que no ranking de fake news produzidas pela Casa Branca neste século só é páreo, até agora, para as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Em tempo de guerra, mentira como terra, diz o velho ditado.

Na era das “narrativas”, não custa nada raciocinar de vez em quando. Os gastos com propaganda nas eleições americanas andam sempre na casa dos muitos bilhões de dólares. Se fosse possível convencer o eleitor americano flutuante, e decidir a eleição de presidente dos EUA, gastando apenas alguns milhares de dólares no Facebook, as ações da empresa de Mark Zuckerberg valeriam provavelmente bem mais que a soma de todos os outros papéis da Nasdaq.

O próprio Trump deu um gás na bobajada quando carimbou “fake news” na testa da CNN, e, depois, do resto dos veículos que lhe fazem oposição. E a expressão colou. Aí entrou em cena mais uma esperteza. A imprensa profissional viu a janela de oportunidade para vender a tese de que, num planeta gravemente ameaçado pela difusão de notícias falsas, só o jornalismo profissional merece a atenção de quem busca informação confiável.

Ninguém nunca perdeu dinheiro superestimando a ingenuidade alheia, a estratégia comercial é legítima, e acredita nessa fantasia quem quiser, mas talvez a imprensa esteja atirando no próprio pé. Pois o combate à “grave ameaça das fake news” tem tudo para tornar-se uma ofensiva de censura e restrição da liberdade de expressão. Quando se chama a polícia para reprimir a mentira, ou a suposta mentira, o resultado nunca é bom.

Um dia esse assunto simplesmente desaparecerá, mas o problema são as vítimas que deixará pelo caminho. Na boa, é mais negócio defender o direito de todos mentirem quanto quiserem. Se for esse o preço a pagar pela liberdade, é um preço barato. Até porque, convenhamos, sempre que alguém está muito preocupado em proibir a mentira alheia, é bom verificar se o dito cujo não quer mesmo é a prerrogativa de mentir sozinho.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 12 de março de 2018

Maior problema do sonho centrista é ele não interessar hoje nem à esquerda nem à direita, os atores de fato

Políticos-candidatos em busca de musculatura buscam distanciar-se de hipotéticos extremismos, e assim preencher espaços eleitorais teoricamente “de centro". A presença forte de Bolsonaro e a estigmatização do PT oferecem a oportunidade de ocupar um locus narrativo de equilíbrio, pacificação, diálogo, de busca de consensos para desatar nós, agudos e crônicos.

Na teoria, é uma comunicação lógica. O eleitor médio não quer saber de confusão. Quer emprego, salário, segurança, boa escola para os filhos e um sistema eficiente de saúde pública. Coisas teoricamente mais acessíveis se o país não estiver mergulhado numa guerra fratricida e sem quartel entre facções cuja única esperança de sobrevivência é a eliminação do inimigo.

O problema, sempre eles, são os fatos. Vamos recapitular. O PT estava bem adaptado aos mecanismos brasileiros clássicos de produção e reprodução do poder. Quando o partido se enfraqueceu criticamente e os adversários decidiram que era conveniente aproveitar a janela de oportunidade extra-agenda, precisaram, para removê-lo, implodir todo o edifício institucional.

O “centro” eleitoral para 2018 nada mais é que a esperança de reverter esse omelete para ovo cru. Não deixa de ser uma ideia, pois pelo jeito o omelete deu uma desandada. O cansaço com a confusão é perceptível. Mas existem obstáculos. O principal deles: ninguém descobriu ainda como fazer o ovo cozido ou frito voltar ao estado em que saiu da galinha.

A política brasileira faz lembrar passados recentes. A esquerda parece estar na segunda metade dos anos 60 do século passado. A ofensiva adversária é mortal, mas ela prefere ver no desastre anunciado uma oportunidade de disputa de hegemonia. A direita está nos anos 70. Sonha com um país politicamente pacificado, mas com o caminho do poder fechado aos adversários.

Centro político é algo imaterial. Esquerda e direita chegam a soluções intermediárias, necessariamente temporárias, quando há um interesse objetivo comum e a opção de simplesmente eliminar o oposto se mostra inexequível. O exemplo mais recente entre nós foi a transição negociada de 1984/85, que produziu três décadas de relativa paz antes de agora colapsar.

Há na direita hoje qualquer interesse de buscar um pacto de pacificação com o PT? Não, pois implicaria aceitar que o PT possa disputar o poder em condições de igualdade. Sem isso, a pacificação tampouco interessa ao partido de Lula, que tem hegemonia absoluta na esquerda real e uma narrativa capaz de manter reunido seu mercado eleitoral.

Daí que todas as tentativas de anabolizar um “centro” tenham falhado, ou estejam patinando. Falta espaço material para essa construção. A hora ainda é dos ulysses, não chegou o momento dos tancredos. Se é que vai chegar. A direita está apavorada com a resiliência de Lula e a esquerda está inclinada a achar que acreditou demais na democracia burguesa.

Acenos centristas são vistos à direita como ilusões de kerenskys, e à esquerda como patetices de gorbatchevs. Esses ensaios ou são apenas farsescos, lobos-maus vestidos de vovozinha para abocanhar a chapeuzinho vermelho, ou são movimentos sinceros mas desprovidos de significado real. Mesmo se vitoriosos, seriam abduzidos por um dos polos da disputa de fato.

Abdução já visível nas estruturas tradicionais que ao longo destas três décadas representaram, em maior ou menor grau, essa visão de um “centro democrático”. Alckmin talvez seja um dos últimos moicanos. Será o candidato, mas montado numa estrutura que nada mais tem a ver com a antiga ambição social-democrata do PSDB. Basta olhar quem vem atrás dele na fila.

Já no PT, que depende mais de Lula do que os outros dependem de seus líderes, mesmo Lula não tem mais a mesma liberdade de voo. O partido acabará fazendo o que o ex-presidente mandar, mas a inquietação é perceptível. Há sempre um custo para o líder quando as escolhas dele conduzem a armadilhas. Ainda mais quando ele não sabe bem como sair delas.

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Há outro complicador. Na política, acordos são obrigatoriamente políticos. Reconhece-se a legitimidade alheia e reparte-se poder. Mas toda a pressão da opinião pública stricto sensu é para deslegitimar as duas coisas. Bonito agora é governar com viés absolutista esclarecido. Sendo que o “esclarecido” significa seguir bovinamente essa mesma opinião pública.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Uma eleição sem spoilers

A coisa está mais para Walking Dead do que para House of Cards

A conjuntura mostra uma aparente assincronia entre os movimentos da política e do eleitorado. Os atores produzem fatos e factoides em ritmo 24x7x365, para ocupar o noticiário e manter o alvoroço de uma opinião pública que beira a dependência química.

Por enquanto, o eleitor parece não estar nem aí. Não há movimentação substancial nas pesquisas de intenção de voto, como mostrou a CNT. Não tem gente na rua. E a Lava-Jato vai deixando de ser tema da mesa do bar.

Pelo jeito, o cidadão/eleitor decidiu dar um tempo. É esperado que volte a prestar atenção nesse "Show de Truman" quando estiver chegando a hora de votar. Até lá, os candidatos e os profissionais da eleição têm um hiato para construir narrativas. E matéria-prima não vai faltar.

A federação de pequenos (ou não tão pequenos) déspotas em que o Brasil se transformou é uma usina de alta produtividade. Tem notícia toda hora, e para todos os gostos e lados.

Um elemento-chave da vitória do PT nas quatro últimas eleições foi a dificuldade de os adversários construírem narrativas com começo, meio e fim. Em 2014, ensaiou-se algo diferente, mas o ensaio acabou soterrado com rara competência. Também, mas não só, pela brutal disparidade de forças a favor do petismo. Foi o canto do cisne.

Este ano haverá disputa real entre dois discursos, com outros menos cotados lutando para conseguir uma beirada de atenção.

Teremos finalmente candidatos de direita. Defenderão o capitalismo na economia, o conservadorismo moral e muita dureza contra o crime. Parece que já encantam pelo menos uns 25% do eleitorado. É provável que seja mais.

Se o PSDB mantiver algo de seu tradicional discurso social-liberal, talvez essa aritmética possa ser lida na urna com alguma clareza. É a esperança dos analistas e politólogos mais preocupados em entender que em influir.

Na esquerda, o discurso básico também está pronto. Será o de sempre. A humanização do capitalismo, a proteção do país contra outras ambições imperiais, o protagonismo das lutas identitárias, e políticas públicas para alternativas ao mercado do crime.

Isso tem o apoio de cerca de um terço do eleitorado, autodefinido progressista, em oposição ao dito regressista. O PT quer manter a parte do leão desses votos, mesmo sem Lula. Mas outros se apresentam.

Claro que tudo deverá estar embalado para consumo de massa, com a ajuda das cores vibrantes proporcionadas pela Lava Jato, pela recessão, pelo impeachment, pela crise venezuelana, pela intervenção no Rio etc.

Espera-se também a entrada em cena dos vários matizes do autodeclarado centrismo, à esquerda e à direita. Que buscarão fazer cada um a sua colagem, escolhendo em cada gôndola o que mais convém. E terão o trunfo do apelo contra o radicalismo.

Há algumas variáveis críticas a monitorar daqui até outubro. Em que proporção o eleitor cansado da política escolherá um candidato, ou decidirá protestar não votando em ninguém? Em que medida um impedido Lula transferirá votos? O PSDB e o governo/MDB vão se juntar? Se sim, quando? Lipoaspirar Bolsonaro vai ser fácil ou difícil? Como estará a economia na hora da definição do voto? Quem mais, além de Lula, será impedido de concorrer?

Lamento pelos ansiosos.

Se nunca é cedo demais para chutar, ainda é muito cedo para ter as respostas. Você tem paciência para ver séries? Curte apreciar cada episódio, ou assiste direto o último? Encare dessa maneira e o ano será mais leve e divertido. Até porque os episódios desta eleição não estão ainda todos disponíveis na rede. Vai ser semana a semana. Mais para The Walking Dead do que para House of Cards. Inclusive na história e nos personagens.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 5 de março de 2018

A intervenção na segurança do Rio já é um sucesso de comunicação. Vamos aguardar os reflexos na política.

É pueril criticar governos que governam criando fatos comunicacionais. Governar é decidir e saber comunicar a decisão. Há poucas coisas mais ingênuas, ou espertalhonas, que dizer “o governante deve ser um gestor”. Trata-se de uma tautologia, pois gerir é liderar e comunicar. E voltamos à ideia-matriz deste parágrafo introdutório.

Depois disso, que no jornalismo é chamado nariz-de-cera, vamos ao que interessa: a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro já é um sucesso de comunicação político-governamental. Não sei se a avaliação de Michel Temer deixou o fundo do poço, mas o ambiente sofreu uma mudança sensível. Pelo menos o ambiente jornalístico em torno do governo.

Recapitulando. Quando interveio no Rio, Temer estava na véspera de perder a votação da reforma da previdência. A certeza dessa derrota nasce de um fato: por que o governo não esperou alguns dias para decretar a intervenção? A tal “situação crítica” não era nem mais nem menos crítica que o habitual. Não havia nenhum “caos” inédito na rua. Talvez no noticiário. A tal comunicação.

Derrotado na previdência, ou se ela deixasse de ser votada por falta de votos, o governo entraria numa dinâmica ruim. Os analistas econômicos anunciariam o fim dos tempos, a oposição celebraria uma vitória, o noticiário seria tomado pela eleição e os atuais donos do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios ver-se-iam às voltas com o clássico cafezinho frio.

A jogada de mestre (sem aspas, foi de mestre mesmo) mudou o cenário. Governantes que pareciam destinados ao ostracismo jornalístico passaram a ser novamente assediados em busca de lides e manchetes. Veio a profusão de entrevistas e a produção em massa de coisas noticiáveis. Generais sentiram-se autorizados a exigir coletivas só com perguntas escritas.

Os custos humanos vão sendo empurrados para fora do notíciário.

E o mercado não parece estar nem aí pela previdência não ter ido a voto.

Há críticas, é claro. Constituiu-se uma oposição ideológica à intervenção, pela esquerda e pela direita. Essa resistência dará frutos no médio e longo prazos, quando vier o cansaço com a coisa e se verificar que ela não deu resultados espetaculares. O cálculo das Forças Armadas é estar fora dali quando tal momento chegar. O do governo, é a eleição já ter passado.

No curto prazo a coisa está funcionando. O céu pode ainda não ser de brigadeiro, mas ficou algo azul. O objetivo imediato de comunicação foi atingido, com a volta do “tem que dar certo” do Plano Cruzado. A intervenção no Rio ajudará o governo a sobreviver até dezembro e a aumentar sua influência no processo eleitoral. Do ângulo do poder, é uma conquista.

Mesmo as eventuais complicações neste início poderão ser explicadas pelo remédio não ter sido dado em maior dose. Pela falta, por exemplo, dos mandados coletivos de busca e apreensão. Ou por os soldados não poderem atirar em qualquer um que esteja indevidamente armado. O tratamento preconizado a combatentes inimigos numa guerra.

Outra coisa pueril em política é subestimar governos. Mesmo em estado terminal, eles têm poder de fogo, e às vezes é letal. Sarney estava politicamente desenganado em 1989, aí inventou a candidatura de Silvio Santos, articulada pelos aliados Edison Lobão, Marcondes Gadelha e Hugo Napoleão. Se a Justiça não tivesse bloqueado, tinha bagunçado bem a eleição.

O objetivo político-comunicacional imediato da intervenção no Rio foi atingido. Ao mostrar iniciativa num tema muito sensível ao eleitor, e mais sensível ainda ao eleitor mais pobre, Temer recolocou-se no jogo. O ridículo da Tuiuti já é história. Se vai ser candidato, se vai lançar outro nome pelo MDB ou se vai emplacar o vice numa chapa mais forte, são detalhes. Os fatos dirão.

As pesquisas imediatas podem até ser algo decepcionantes, mas isso não deve iludir. Privatização e austeridade fiscal não são populares, mas a caça aos bandidos é. Temer deu um gás à narrativa da direita para este processo eleitoral, e subestimar será um erro. É visível, aliás, que a esquerda ainda não encontrou uma resposta adequada ao novo cenário.

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Da entrevista de Lula à Folha de S.Paulo deduz-se que o PT terá ou apoiará um candidato, e que estará aberto ao diálogo com os que eram seus aliados e hoje são aliados de Temer. Há porém um problema: pela primeira vez desde 1998, o PT está isolado. E quase sem máquina. Em 1989 tinha a prefeitura de São Paulo, e em 2002 também. Sem falar de 2006, 2010 e 2014.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

As instituições não estão funcionando

“As instituições estão funcionando” é a platitude do momento. Num aspecto, é obrigatório reconhecer que elas funcionam bastante bem: nosso sistema de freios e contrapesos anda tão azeitado que o mecanismo travou. Em cada ação possível, há travas suficientes para impedir que qualquer coisa aconteça. O sistema político-institucional parece uma moto, ou um carro, sobre cavaletes e de motor ligado: queima combustível e não sai do lugar.

Mas nem tudo está perdido. As eleições vêm aí e teremos novos governantes em janeiro. É a boa notícia. E a má? Bem, o sistema brasileiro de freios e contrapesos produziu uma anomalia: quem é eleito não manda, e quem manda não é eleito. As intenções dos constituintes foram as melhores, mas o produto do trabalho deles acabou não sendo bom: na ânsia de enfraquecer o poder, erraram na dose e criaram uma engrenagem vocacionada à ingovernabilidade.

Só o papel não seria, porém, capaz sozinho de produzir o desastre. O definhamento da democracia brasileira é obra de múltiplas mãos desde o colapso das “Diretas já”, que obrigou a uma transição negociada, para a qual muitos torceram o nariz. Abriu-se então o longo período de apedrejamento que hoje colhe seus frutos mais carnudos. Três décadas de ataques à política, pela esquerda e pela direita, escancararam as portas do inferno para os salvadores da pátria.

Os políticos ajudaram bastante. Principalmente quando consolidaram um sistema rentável e imune à renovação e à alternância. E a coisa foi piorando a cada “aperfeiçoamento” exigido pela “opinião pública”. O resultado é uma política monopolizada por cartórios fossilizados. É impossível disputar com chances o comando desses cartórios. E eventuais desafiantes do establishment político precisam antes de tudo ter um cartório para chamar de seu.

Entre os fatores na raiz dos nossos impasses, um merece destaque especial. O descolamento entre os graus de liberdade e de democracia. Uma não se confunde com a outra. A saúde de uma democracia mede-se também por quanto a vontade da maioria influi na execução governamental e na produção congressual. E é bem possível conviverem por um tempo altas taxas de liberdade e graus apenas relativos de democracia.

O Brasil está meio assim. Convertido numa federação de déspotas supostamente esclarecidos e bem protegidos do voto. Por serem portadores da verdade e do bem, acumulam o poder de impor sua vontade de modo absoluto. Estão espalhados por todos os lugares, e não apenas na burocracia estatal. Legislam, julgam e executam de acordo apenas com o que decidiram ser o melhor para nós. São os mini-sovietes de si mesmos, mas para todos. O que isso tem a ver com democracia?

Toda obra política precisa de uma narrativa legitimadora. Gramsci explicou que sem algum consenso não há coação que dê conta. E a narrativa-candidata é, surpresa!, a “crítica ao populismo”. O “governo ideal” é o capaz de agir independente da, ou mesmo contra a, vontade popular. “Aproveite a impopularidade e faça o que tem de ser feito, presidente”. E se a esmagadora maioria for contra? “A situação é grave. Não é hora de ceder ao populismo.“

Há duas críticas do “populismo”. A primeira, mais elegante, usa a expressão para caracterizar um sistema totalizante. “Democracia não é só voto, é alternância. Se se bloqueiam todos os canais de alternância, accountability, pressão etc., a democracia degringola. E o populismo tende a fazer justamente isso.” Essa é a teoria. Na vida real, o termo é usado para carimbar políticos que governam de olho não no que é “certo e racional”, mas na popularidade.

E tudo estaria bem organizado a partir da “crítica ao populismo”, não fosse o probleminha incômodo: as eleições. Elas introduzem o desconforto de ter de convencer o eleitor. E se o eleitor não se convencer? Bem, então será o caso de fazer, mesmo que ele não esteja convencido. Para que servem então as eleições? Pergunta complicada. Talvez seja hora de chamar os especialistas em teorias igualmente complicadas sobre a “crise da democracia representativa”.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O estado das variáveis-chave neste momento da corrida pela sucessão presidencial

O candidato do PT. Lula, a não ser que os tribunais superiores recusem uma liminar que o deixe concorrer. O que vai acontecer depende de com quem cair a coisa, e se o (in)felizardo terá coragem para decidir de um jeito ou de outro. Se Lula não puder disputar, o PT tende a substituir por um petista e Jaques Wagner é o mais provável. Mas Ciro Gomes corre por fora.

Se Lula for eliminado da corrida a menos de 20 dias da eleição, o PT não pode mais substituir: ou apoia alguém de fora ou boicota. Se houver uma ação eficaz de transferência, Lula repassa pelo menos 80% da intenção de voto, o que levará o apoiado ao segundo turno. Como sempre, o desafio mora nos detalhes. Executar isso não será simples. Mas é bem possível.

A resiliência de Bolsonaro. O senso comum diz que Bolsonaro vai emagrecer por falta de dinheiro, tempo de TV e apoios. Vale porém acompanhar melhor. O eleitorado dele é bastante coeso ideologicamente e parece pouco influenciável pelos canais tradicionais de difusão de informação. E ele está fechando o flanco do “despreparo” na economia. Bom ficar de olho.

Se Bolsonaro for lipoaspirado por uma ação combinada do governo, dos partidos habituais da direita (ou de seu genérico, o "centro") e da imprensa, o establishment precisará evitar um efeito centrífugo. Impedir que uma parte migre direto para a esquerda e outra refugie-se no não voto, no branco e no nulo. Se Lula for impedido, este será um problema também para o PT.

Os arrufos entre o governo e o PSDB. O PMDB foi linha auxiliar e coadjuvante dos tucanos durante os oito anos de FHC e dos petistas nos quase 14 anos de Lula e Dilma. Agora tem a caneta e não vai entregar sem luta. Temer espera que a intervenção no Rio rompa a inércia negativa. Se não, tem a opção de buscar um nome leve. Subestimar o governo é sempre um risco.

Já para Alckmin as coisas têm melhorado. Huck correu ao primeiro rugido do leão, Dória queimou a largada e foi punido no grid, Arthur Virgílio retirou-se atirando balas de festim. O tal espaço para um “centro” que salve o país da suposta ameaça do radicalismo vai caindo no colo do governador. O desafio dele é empolgar o eleitor com um discurso centrista. Não é trivial.

O cenário ideal para Alckmin é o cansaço com a bagunça nacional superar o cansaço com os políticos e, em outubro, o eleitor decidir escolher alguém rodado, para tentar acabar com a confusão crônica. A, até agora, anemia do “novo” ajuda o governador. Aliás, uma característica desta pré-eleição é o sistemático envelhecimento precoce do “novo" não bolsonarista.

A coesão ou a dispersão do “centro”, e o efeito-Freixo. Se PMDB e PSDB racharem o “centro", a aritmética se complica. Se o candidato do governo, Alckmin e Marina consolidarem, cada um, em torno de 10%, e se Álvaro Dias pelo menos mantiver os 3 ou 4%, pode acontecer o efeito caranguejo no balaio. Toda vez que alguém tentar subir, os demais vão puxar para baixo.

Na eleição do Rio em 2016 era provável que Pedro Paulo, Osório ou Índio fossem para o segundo turno. Aí o voto centrista dividiu-se bem entre os três, e quem passou à decisão foi Freixo. O candidato a “Freixo” agora é Bolsonaro. Diz a lógica que o estoque de votos centristas uma hora vai convergir. Mas política não é geração espontânea. Precisa de execução.

Uma centelha pode incendiar a pradaria. A melhora (ou a não piora) da situação econômica favorece algum equilíbrio político, mas este é instável. É provável que o apedrejamento maciço e sistemático da representação política e a louvação dos salvadores da pátria continuem na campanha. E uma centelha pode incendiar essa pradaria seca.

O que seria? Um “novo” atropelar do nada e arrastar a maioria do atual estoque de brancos/nulos/não sei/não vou votar? A reação popular, não nas ruas mas na urna, à cassação da candidatura de Lula? Uma onda antipetista que junte a direita, o “centro” e o não voto, para impedir a volta do PT ao poder? Nesta eleição, convém aumentar a atenção sobre o imprevisível.

O problema é que, como já dito aqui algumas vezes, o imprevisível costuma ser muito difícil de prever.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Ação no Rio e Huck: a guerra é pelo voto do pobre

O PT ganhou as três primeiras eleições presidenciais pelo mesmo placar: arredondando, 60% a 40%. 2014 foi mais apertado, porque no segundo turno a terceira via descarregou em parte no adversário do PT. As três primeiras tiveram resultados bem parecidos, mas as semelhanças escondem diferenças essenciais que ajudam a entender acontecimentos de agora. Como o canto da sereia para Luciano Huck e a intervenção no Rio.

Fernando Henrique bateu duas vezes Lula com boa ajuda dos pobres e do Nordeste. O Plano Real, como o Cruzado de Sarney, provou-se investimento de alto retorno eleitoral. Mesmo em 2002, quando o PT finalmente chegou ao Planalto, parte grande desse estoque foi para o candidato do PSDB. Lula ganhou com forte apoio das camadas médias nos grandes centros urbanos. O PT era então o partido diferente dos outros.

A crise desencadeada pelas acusações/revelações do deputado Roberto Jefferson em 2005 ajudou a operar uma mudança fundamental na coalizão social do assim chamado lulismo. Saíram os grupos do meio da pirâmide antes atraídos pela promessa de “ética”. Entraram os contingentes beneficiados pelo emprego, pelo aumento do salário mínimo e também pelos programas sociais. Tal troca já foi bem estudada e analisada pelos especialistas.

Desde 2006, é essa a aliança social que sustenta as vitórias eleitorais do PT e da esquerda aliada. E, segundo as pesquisas, é o pilar fundamental da resiliência atual de Lula. E da sua capacidade teórica para alavancar outro nome na disputa presidencial. É só olhar os números: se nada for feito, esse estoque de apoio popular levará um candidato da esquerda ao segundo turno, onde ele será competitivo. Nas circunstâncias, seria um feito e tanto.

A conclusão é óbvia. Não bastará a um candidato da direita (ou de seu genérico, o “centro”) recolher os votos do antipetismo. Não foi suficiente antes e não será agora. Ou ela entra firme nos pobres e no Nordeste, ou a situação eleitoral será de risco. De novo, é só olhar os números. Lula não estará na cédula eletrônica, mas confiar cegamente nisso é complicado. Vai que, como em 2010, o eleitorado lulista decide dar mais um voto de confiança ao líder…

Daí a caça a um candidato ou a uma política pública que sensibilizem o pobre e o Nordeste, onde tem mais pobre que a média nacional. O candidato era Luciano Huck, o comunicador de biografia supostamente generosa para os “mais humildes”. Não deu certo. Jamais saberemos se funcionaria. Agora temos a intervenção federal na segurança do Rio. É inteligente, também na teoria. Será que vai funcionar? A resposta, é claro, estará na execução. Como costuma ser.

Adaptando Joãosinho Trinta, quem gosta de discurso sobre como melhorar a segurança pública é intelectual. Pobre gosta mesmo é de segurança pública. É ele quem mais sofre com a falta dela. Esse é um flanco que a esquerda tem imensa dificuldade para fechar, também por cegueira ideológica. A esquerda não deve porém se desesperar. Considerando-se a perícia necessária e a complexidade da operação proposta, a chance de flopar é real.

Sempre há, entretanto, o risco de confiar demais na incompetência alheia. Mas viver é correr riscos.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A mega UPP de Temer no Rio e seus efeitos no que interessa na política: a disputa eleitoral

É zero a probabilidade de a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro produzir uma solução estrutural e aplicável aos demais estados. Na prática, trata-se de uma mega UPP, a ocupação do território por forças da ordem ainda prestigiadas (as Forças Armadas) para pacificar uma situação de conflito que produz desgaste para as autoridades.

Mas não se deve subestimar o efeito político positivo de uma momentânea descompressão. Será inteligente por parte do crime organizado um recuo, recomendado quando na guerra assimétrica a correlação de forças é decisivamente desfavorável. Uma maneira de produzir paz é exibir músculos suficientes para provocar o esperado efeito-dissuasão. Está nos manuais.

Além disso, as autoridades não precisam de estratégias que perdurem para todo o sempre, precisam apenas de algo que reduza a turbulência daqui até a eleição. A intervenção na segurança do Rio é uma espécie de "Plano Cruzado" da segurança. Se mudar algo para melhor no curto e no médio prazos, terá cumprido os objetivos. As primeiras coisas primeiro, diz o ditado.

Mas talvez o aspecto mais interessante da iniciativa seja a mudança de ambiente para as narrativas. Se a inabilitação eleitoral (só) de Lula mais o baixo crescimento da economia mais a reforma da previdência mais a impopularidade presidencial vinham sendo um meio quase ideal para a esquerda, a inoculação da segurança no centro da pauta dá um gás e tanto para a direita.

Todas as pesquisas mostram que a maioria do eleitorado concorda com a esquerda nos assuntos da economia, do tamanho do estado e na maneira de buscar a melhora dos serviços públicos. E a maioria do eleitorado concorda com a direita nos temas do enfrentamento da criminalidade e das políticas de segurança pública, e nas medidas para proteger o cidadão comum contra os bandidos.

Até porque é histórica a incapacidade de a esquerda enfrentar o debate da segurança. A tese "mais justiça social significa automaticamente menos crime" não resiste à realidade. Nos governos do PT o Nordeste cresceu e distribuiu renda como nunca. E nos governos do PT a criminalidade no Nordeste cresceu como nunca, com exceções que apenas confirmam a regra.

Eis por que a intervenção no Rio seja possivelmente a primeira chacoalhada num cenário antes coagulado. Lula e a esquerda vinham defendendo bem seu mercado eleitoral colocando no centro da agenda temas em que a população pende para a esquerda. Mas como a esquerda e o PT atravessariam uma campanha eleitoral em que a segurança pública estivesse no foco?

É previsível que a oposição denuncie a incapacidade de essas medidas enfrentarem e resolverem estruturalmente os desafios na segurança. Mas essa é uma colheita para o futuro. Se esse futuro chegar antes da eleição, por a intervenção ter falhado redondamente, o cenário será um. Se, assim como no Cruzado, a coisa sobreviver até a urna, o cenário será outro.

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As Forças Armadas acabam de ser convidadas para uma dança que não desejavam mas não têm como recusar. É emblemático que o general responsável pela intervenção no Rio vá se reportar diretamente ao presidente da República. A esta altura os fardados devem estar quebrando a cabeça em busca de uma estratégia de saída.

Militar não entra na guerra sem alguma ideia de como sair dela. A vitória total, com a eliminação do crime dentro das fronteiras do Rio, é uma impossibilidade. Por isso, o desejável será conseguir sair em ordem em algum momento e devolver o abacaxi ao poder civil. A eleição, num cenário otimista, pode facilitar por trazer um novo personagem, zerado.

Até porque, convenhamos, criar um ambiente em que as Forças Armadas possam lá na frente recuar em ordem interessa a todos os atores que contam no teatro de operações. Todos sem exceção.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

2018 não é nem de longe igual a 1989

A fotografia da corrida eleitoral mostra uma pulverização inédita nas últimas três décadas. Há seis eleições PT e PSDB fazem a final, no primeiro ou no segundo turno. Agora, parece que vamos chegar a outubro com múltiplas opções, quase uma loteria. O que poderia, quem sabe?, fazer a decisão desvestir o figurino esquerda x direita e abrir as portas para algo diferente. Mas em que condições isso poderia acontecer?

A premissa básica para o fracasso da esquerda ou da direita clássicas, ou de ambas, na disputa pela presidência será a falha na construção e consolidação de seu respectivo campo de alianças. Isso pode soar convencional, mas a experiência prática com os outsiders, aqui e lá fora, mostra que não basta um ambiente de rejeição à política. É preciso também que a política esteja desorganizada. Onde isso não acontece, as novidades brilham mas não chegam.

Os políticos sabem disso, então a atual dança de múltiplos candidatos deve ser vista com alguma cautela. Do assim chamado centro para a direita, por exemplo, temos Bolsonaro, Alckmin, Alvaro Dias, Rodrigo Maia, Meirelles, eventualmente Temer, Amoêdo. Na esquerda, temos Ciro Gomes, Jaques Wagner ou outro indicado por Lula, Manuela D’Ávila, Boulos. Sem falar de Marina, cujo eleitorado se divide entre os 2 campos, numa proporção ainda incógnita.

É possível que a corrida chegue assim fragmentada na urna? Sempre é, mas talvez seja algo precipitado afirmar que vamos repetir 1989. O ambiente de agora é parecido com aquele no aspecto da pulverização, mas só. No resto, é tudo diferente. A começar pela ausência do bonito consenso democrático da festa na primeira eleição direta da redemocratização. Teve caneladas, como em toda eleição, mas nada que se compare com a polarização de hoje.

É duvidoso que o establishment vá assistir passivamente à dispersão de forças entre seus cavalos, num páreo em que Lula mostra potencial de transferência de votos e Bolsonaro exibe resiliência. E é também improvável que os partidos de esquerda não enxerguem em algum momento a necessidade de aglutinar para, pelo menos, alcançar resultados razoáveis no Legislativo, mesmo em caso de uma derrota presidencial.

Se perder a Presidência e ficar muito fraca no Congresso, a esquerda provavelmente verá quatro anos de perdas e recuos, o que será agravado pelo visível declínio de sua capacidade de resistência nas ruas. E, se caminhar fragmentada até o fim, a direita bem poderá ser vitimada por uma convergência tática informal entre, de um lado, a mobilização eleitoral do lulismo e, de outro, a tendência ao não voto ou ao voto inútil que floresce nos ecossistemas da antipolítica.

Então, não estamos em 1989. Naquela eleição, perder fazia parte do jogo. Era aceitável. Agora não. Quem perder saberá que vai passar quatro anos numa intempérie brava, sujeito ao ímpeto liquidacionista do vencedor. É outro ambiente, o pacto democrático costurado pela convivência na Constituinte é história, além de um detalhe importante: aquela eleição foi solteira. Desta vez, errar na presidencial terá impacto negativo nos resultados para os outros cargos.

Em 1989, marcar posição para convergir apenas no segundo turno era uma opção de baixo risco. Um ano depois haveria eleições para governador, deputado, senador. Agora é tudo junto, num momento em que as diversas forças políticas estão numa guerra pela sobrevivência, permanentemente ameaçadas por ações policiais e processos judiciais. É outro mundo.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A disputa entre o comunicador e o político para derrotar o lulismo. E a tensão dos liberais com as corporações

A maratona eleitoral entrou na fase de acotovelamentos à direita e à esquerda para ver quem ganha massa crítica e se desgarra do pelotão. Na esquerda, parece haver consenso de que o assim chamado lulismo sobreviverá e tem boa chance de pegar uma vaga no segundo turno. Precisará de competência para reagrupar seus votos, mas é viável.

Já na direita e em seu genérico, o centro, a coisa está algo mais nebulosa, desde que a ultraprovável ausência de Lula na urna deflagrou o “por que não eu?”. Meia dúzia de nomes disputam, e o único a se destacar por enquanto é Jair Bolsonaro. Os ditos especialistas dizem que ele tem teto e vai murchar. Mas convém esperar para ver, pois especialistas também erram.

Bolsonaro é uma pedra no caminho do centro. Até agora, os nomes preferidos, Geraldo Alckmin e Luciano Huck, comem a poeira do capitão. Para não falar em Michel Temer e Rodrigo Maia. Mas é pule de dez que um dito centrista será abençoado pelo establishment como a grande esperança de manter e aprofundar o programa econômico deste governo.

Quem será? Temer e Maia movimentam-se, mas o braço de ferro do momento é entre Alckmin e Huck. O governador de São Paulo está bem posicionado na máquina partidária, só que enfrenta a tentação tucana de recorrer à velha receita: surfar na indignação popular contra a corrupção para tentar “o diferente”. Se deu certo com Jânio e Collor, por que não agora?

Jânio e Collor “deram certo”? Sim. A política sempre comanda. Jânio cumpriu a missão de vencer a aliança PSD-PTB, o que a UDN jamais conseguira. E foi uma façanha histórica: a frente getulista nunca mais voltou ao poder pela urna. Já a vitória de Collor impediu a ascensão da dupla Lula-Brizola e atrasou por mais de uma década a chegada do PT ao Planalto.

Alckmin, Huck ou outro ungido receberiam um mandato para 1) promover a liquidação definitiva (até onde pode haver algo “definitivo” em política) do PT ou algum similar como alternativa de poder futuro e 2) completar as reformas liberais iniciadas por Temer. De preferência, de um jeito que tornasse quase impossível revertê-las num horizonte visível. O modelo chileno.

Quais são os obstáculos ao projeto, em ordem cronológica? O primeiro é ganhar a eleição com um programa liberal. Pode acontecer, mas seria mais fácil sem o impeachment. As urnas provavelmente se vingariam do governo Dilma e de seu alardeado estatismo. Agora vão julgar também a administração Temer, e os resultados deste breve ensaio de medidas pró-empresariais.

Vencida a barreira, a seguinte seria governar com o programa defendido na campanha. E aí os liberais precisariam enfrentar a resistência do Congresso e da burocracia estatal. Hoje em dia, o Judiciário tem bem mais musculatura do que qualquer outro ator para resistir à lipoaspiração do Estado. Ainda que aqui e ali apareçam movimentos para colocar limites a esse poder.

O dilema do centrismo: se um comunicador leve está mais aparelhado para navegar na eleição, a experiência de Temer prova que um político de couro grosso pode ser útil para sobreviver à guerra contra a burocracia megaempoderada. O ideal para a direita seria juntar as três coisas: liderança popular, liderança política e confiabilidade. Mas não está fácil de achar.

Não será uma escolha simples. Nada adianta ter o melhor nome para governar, e perder a eleição. E o eventual fiasco no governo de mais uma especulação com a novidade pela novidade avivaria fantasmas que se quer enterrar. Pois se há uma coisa absolutamente garantida quanto ao futuro é que ele sempre chega. Essa é outra regra que não admite exceção.

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As pesquisas eleitorais mostram uma divisão, grosso modo, meio a meio do eleitorado entre lulistas e antilulistas. Parece que será uma eleição novamente decidida no detalhe. E o que seria melhor para o lulismo? Lula solto podendo fazer campanha, ou preso e elevado à categoria de perseguido político pela narrativa de seus herdeiros?

Quem disser que tem certeza da resposta provavelmente está mentindo.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Sem Lula, cenário eleitoral perde uma referência

A mais que provável inelegibilidade de Lula não desorganiza só a esquerda, chacoalha a paisagem geral que o establishment político e econômico vem tentando construir. A narrativa de vitaminar o centro para evitar a polarização eleitoral entre extremistas perdeu uma das pernas: Lula. E numa perna só é difícil ficar em pé. Claro que a eventual anabolização de Bolsonaro nas pesquisas pode reaquecer o mercado do salvacionismo centrista. Aguardemos.

Lula não era apenas o ponto focal de organização de seu campo político. Sua ausência revelará que ele organizava em algum grau todo o cenário. Aliás, vinha sendo seu papel desde que ultrapassou Brizola para ir ao segundo turno em 1989. Todas as eleições desde então giram em torno dele, direta ou indiretamente. Há quase 30 anos a disputa presidencial no Brasil é decidida num mano a mano entre Lula e o anti-Lula.

É possível, até provável, que essa lógica mostre resiliência lá na frente e a liderança do ex-presidente ocupe novamente o centro do palco, levando um nome ao 2º turno. Aí teríamos o duelo entre o candidato de um Lula inelegível, talvez preso, e a alternativa construída pelos adversários “para evitar a volta do PT”. Mas, se projetar esse futuro tem lógica, o momento político é de rearranjos. Sem Lula, todo mundo tem o direito de acreditar nas próprias chances.

Na esquerda, o jogo é algo delicado. Não ficaria bem para os concorrentes do PT passar a impressão de estarem se beneficiando do que denunciam como manobra golpista contra o ex-presidente. Mas a política é objetiva, e o vácuo nunca dura muito. A esperança do PT é a liderança de Lula reforçar-se na resistência à adversidade do momento. E assim recolocar as coisas em seu devido lugar: a continuidade da hegemonia petista.

No outro lado, a remoção do musculoso adversário vai induzir e estimular o “por que não eu?”. O PSDB é conhecido por sempre largar na eleição presidencial com a certeza da vitória. Mais ainda agora que o adversário líder nas pesquisas está sendo barrado pela Justiça. E é natural também que os demais na direita sintam-se estimulados pelo desgaste e pelas momentâneas dificuldades dos tucanos. E nada indica que o governo esteja fraquejando no projeto de ter candidato.

A atual etapa, portanto, será de luta interna em cada campo enquanto se aguarda o desfecho da novela judicial. E, como ela promete durar ainda um certo tanto, é improvável uma reorganização rápida do tabuleiro. Na esquerda, persistirá a tensão entre insistir com Lula e buscar outros caminhos. Na direita, não se enxerga um reagrupamento instantâneo em torno do nome tucano. Aliás, diferente das eleições recentes, essa convergência está longe de acontecer.

Cada um com sua crise, que também é uma oportunidade. Vai levar vantagem quem conseguir se apresentar antes e melhor ao eleitor com massa crítica para ganhar a eleição e governar. Não parece prudente, nesta eleição, esperar que a inércia crie fatos consumados e imponha hegemonias inevitáveis. Quem ficar só esperando corre o sério risco de perder o bonde.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Abre-se o espaço para um líder político rumo a 2019. E quem ganha com a saída de Lula da corrida

Lula está fora da candidatura presidencial. A chance de ele ser autorizado a participar é 1%. Os adversários trabalharão para que fique fora também da campanha. Se for preso, não poderá subir em palanques, articular apoios ou gravar. Será uma baixa de peso para seu campo, ao menos no curto prazo. Sem Lula na operação, cresce o risco (ou esperança) de dispersão.

Até 24 de janeiro, a esquerda vinha trabalhando a disputa eleitoral com parâmetros algo normais. Lula esticaria o enredo até quase o final, daí escolheria um estepe, os nomes alternativos teriam cada um sua votação, e se juntariam todos no segundo turno. Mas o ambiente da decisão do TRF-4 fez cair a ficha: usar padrões de normalidade em épocas anormais tem custo.

A novidade na conjuntura pós-TRF-4 é que a esquerda passou a compartilhar o principal problema da direita: a dificuldade de convergir rapidamente para um nome e ganhar massa crítica antes do outro campo. Quem junta massa crítica primeiro passa a exercer força gravitacional sobre possíveis dissidências do lado inimigo. Assim se ganham, e se perdem, as eleições.

Se antes o maior risco da esquerda era Lula ser definitivamente impugnado a menos de vinte dias da urna, quando a lei já não permite substituir, agora isso se inverteu. Lula está na prática inviabilizado eleitoralmente e não se vislumbra uma solução rápida de substituição. E a tática “Eleição sem Lula é fraude” será um ruído adicional na hora de vender um possível substituto.

Se a eleição estava mais ou menos desenhada de um lado, mas algo bagunçada do outro, agora a bagunça espalhou-se. E quem vai se dar bem no novo cenário? As pesquisas vão mostrar, mas é legítimo projetar que a vantagem estará com o nome que exibir capacidade de exercer liderança política. Se um líder sai, é razoável acreditar que haverá espaço para outro.

A rigor, até 24 de janeiro havia dois líderes: Lula e Bolsonaro, e não me refiro a líderes de pesquisa. Agora, só resta por enquanto um: Bolsonaro. Não é totalmente fora de propósito especular, inclusive, que o deputado ultraconservador herde um pedaço do espólio lulista. Assim como é possível Marina recolher uma fatia. Essa deve ser a configuração provisória imediata.

Que será chacoalhada se e quando aparecer um novo líder pela esquerda, ou um líder “por transferência”, e/ou quando e se surgir um desafiante musculoso para Bolsonaro na direita. Não precisa ser imediato. Mas os dois lados tampouco têm todo o tempo do mundo. E, de novo, quem chegar antes no riacho vai beber água limpa. Para isso terá de trabalhar. E já.

A demanda pelo líder cresce à medida que se frustram as expectativas de uma recuperação econômica vistosa. Disso dependeria a força gravitacional da continuidade. E o apelo eleitoral do “gestor”. Sem isso, a mudança prevalece. E a demanda por mudança anaboliza precisamente o cacife dos líderes, gente especializada em materializar a esperança de um bom futuro.

Assim, chegamos à hora em que a competência política separará os homens, ou as mulheres, dos meninos, ou meninas. No vácuo pós-TRF-4, largará na frente quem aparecer com uma solução que acenda antes a fagulha da esperança e, ao mesmo tempo, tenha os pés no chão da governabilidade. A configuração ótima. Mas sem o ótimo haverá sempre mercado para o bom.

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Debate-se muito sobre o próximo presidente, na ilusão de que chegando ao Planalto com a força do voto ele terá músculos para “fazer o que precisa ser feito”. Só que não. Prestar atenção na composição do próximo Congresso e em como vai evoluir até lá a relação entre o Judiciário e os demais poderes talvez seja tão importante quanto.

O principal risco político de 2019 não está na possível eleição de A ou B, mas na quase certa extrema dificuldade que B ou A terão para exercer o poder numa Brasília feudalizada e onde pululam centros alternativos de força, que só estão de acordo entre si na manutenção dos próprios privilégios. Uma democracia progressivamente disfuncional, tendente à paralisia.

Feliz 2018 a todos.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Boas intenções dos juízes pavimentam caminho da crise

Em “A Ditadura Encurralada”, Elio Gaspari conta quando Golbery do Couto e Silva concluiu que, de tanto mandar, a ditadura já não mandava mais nada. O então chefe da Casa Civil do presidente Ernesto Geisel saíra de uma reunião interministerial para decidir o reajuste dos preços cobrados pelos táxis em Curitiba. “Concentramos o poder de tal forma que produzimos um buraco negro, capaz de absorver qualquer energia.”

Gaspari relata também que, na época, o Ministério da Agricultura fez publicar no Diário Oficial o tamanho obrigatório das caixas em que deveriam ser comercializados os pepinos: 495 mmX 230 mm X 355 mm. Quem quisesse vender pepinos em caixas de outros tamanhos precisaria requerer licença à Pasta. Aqueles tempos eram mesmo estranhos.

Voltamos a 2018. Qual é a probabilidade de uma decisão do governo federal, sobre qualquer assunto, encontrar pela frente a antipatia ou a rejeição de pelo menos um juiz, de primeira ou outra Instância, e ser bloqueada? Não sou estatístico, mas deve beirar os 100%. Com a elevação do Judiciário a poder moderador da República, é o que vem acontecendo. Bem, mas diante dos problemas da política é preciso fortalecer o Judiciário, certo?

Se a história passada vale para alguma coisa, é razoável concluir que o excesso de protagonismo dos juízes provavelmente acabará produzindo mais fraqueza que força, empoderando (como se diz hoje em dia) os contravetores. O exercício sábio do poder costuma equilibrar situações em que é usado, com outras em que é economizado. Até porque, no popular, o poder segue a lógica do salame: a cada fatia degustada ele fica um pouco menor.

Claro que também aqui a culpa última é dos políticos. Lá atrás aprovaram uma Constituição árvore de Natal, cheia de princípios genéricos e lotada de mecanismos para proteger os mais variados “direitos adquiridos”. Com o tempo, a coisa só piorou: novos direitos vão sendo acrescentados e, junto com isso, institucionalizou-se a cultura do “perdi uma votação no Congresso, vou recorrer ao Supremo”.

O resultado é uma democracia crescentemente disfuncional, em que o eleitor é chamado de tempos em tempos para escolher governantes que conseguem governar cada vez menos, enquanto quem governa cada vez mais são pessoas que ocupam suas posições por concurso público, “notório saber” ou escolha política indireta. E como não precisam se submeter ao crivo do eleitor, adotam referências de nicho, como a “opinião pública” e as redes sociais.

De vez em quando os jornais fazem pesquisas para saber a opinião dos leitores sobre os mais diversos assuntos. É frequente que o resultado seja oposto ao encontrado quando se ouve uma amostra representativa de toda a população. É legítimo, portanto, suspeitar que essa parceria da “opinião pública” com instâncias de poder “não políticas” vá acabar produzindo uma política mais oligárquica do que a oligárquica política que se pretendeu combater.

Algum tempo atrás, dizia-se que a crise da democracia representativa poderia dar lugar a um sistema mais participativo. Mesmo na teoria, já tinha cheiro de engodo, pois uma característica da democracia dita participativa é que dela participa menos gente que da representativa. Ensaios assim costumam evoluir (sic) para algum tipo de ditadura de grupos de pressão. Essa regra não conhece exceção.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O estado e as variáveis da corrida presidencial na virada de um ano animado para outro que promete

O que esperar e observar daqui até a eleição?

Oposição de esquerda. A variável decisiva será mesmo Lula. O ex-presidente atingiu por enquanto um objetivo: manter a autoridade absoluta no seu campo político. Os petardos da Justiça e da imprensa sobre ele e o PT, não necessariamente nesta ordem, poderiam ter enfraquecido a hegemonia sobre o conjunto da esquerda. Não aconteceu.

Há aqui e ali ensaios de alternativa. Mas não mostram por enquanto força para desafiar a ordem unida do chefe da tribo. Parecem mais movimentos para se fazerem ouvir por Lula e pelo PT, não polos reais de contestação à liderança tradicional. Se o PT não se complicar, os alternativos certa hora serão bem pressionados a caminhar com a formação principal.

A tática petista para enfrentar a quase certa inelegibilidade de Lula é inteligente, ou a única possível: levar a candidatura às últimas consequências e transformar os processos contra o ex-presidente em fatos 100% da política, terreno bem mais fácil para Lula defender-se. Mas a tática embute um risco importante. Os prazos podem conspirar contra o plano.

Um partido só pode trocar de candidato ao Executivo a até vinte dias da eleição. Se a impugnação definitiva de Lula vier antes, ele possivelmente indicará um substituto no PT. Mas, e se for depois? Lula e o partido ficarão espremidos entre boicotar e eleição ou apoiar um nome das legendas que estiverem na disputa. Ou substituir antes de a Justiça decidir. Complicado.

Se não será simples resolver, menos ainda executar. Outro fator é que se Lula for recondenado pelo TRF-4 e impugnado é provável que aumentem as pressões para tirá-lo não apenas da eleição mas também de circulação. Impedi-lo de fazer campanha e articular por um eventual substituto. Especialmente se as pesquisas futuras confirmarem as atuais sobre transferência.

Situação e novos. No estoque de votos não lulistas e fora da esquerda clássica, as variáveis a monitorar serão 1) a convergência ou não entre PSDB e PMDB/governo, 2) a resiliência de Bolsonaro, 3) o potencial de crescimento de Marina e Álvaro Dias, 4) as incógnitas, como João Amoêdo. O cenário projeta que aqui a pulverização deve permanecer até pelo menos agosto.

Ainda é cedo para dizer que o governo entrou em trajetória de recuperação de imagem, mas se as próximas pesquisas confirmarem vai esquentar a disputa para ver quem será o candidato oficial, mesmo com Temer amargando más avaliações. A narrativa de manter a reanimação da economia e evitar a volta do PT seria competitiva tanto num como noutro turno.

O risco principal para Lula e os dele é o campo governista aparecer com um novo no velho, um nome leve mas montado em ampla aliança de partidos e contando com o apoio de um governo que já não esteja em situação desastrosa. A vida do PT também complica se tucanos e peemedebistas convergirem. Mais ainda se for em torno do tal nome leve. Mas não está fácil.

Sobre os novos sem máquina, têm como fazer alguma colheita na forte rejeição à política e aos políticos. E devem contar com a ajuda talvez involuntária, mas objetiva, de novos e espetaculares fatos na esfera policial-judicial. Entretanto, além de lhes faltar apoio político estruturado, enfrentam ainda outra barreira: a aparente resiliência de Bolsonaro. Ele durará?

Todas as projeções apostam na economia rodando acima de 3% ao ano na eleição. Mesmo que não leve às nuvens um candidato do governismo, isso enfraqueceria o apelo para mudanças radicais, tanto pelo PT como pelo novo. O desejo de continuidade é diretamente proporcional ao risco de perda. Foi assim que o PT ganhou as últimas eleições.

E tem o imprevisível. Como já se disse aqui algumas vezes, uma característica do imprevisível é a dificuldade de prever quando ou como vem. Mas é sempre bom contar com ele na hora de fazer projeções.

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Se tudo correr conforme o roteiro, esta análise de conjuntura volta quando o processo eleitoral for precipitado pelo julgamento do recurso de Lula no TRF-4. Ou antes, se algum fato exigir.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O parlamentarismo que os parlamentaristas não curtem

O parlamentarismo volta e meia dá as caras como panaceia para enfrentar as crises de falta de hegemonia do Executivo. É preciso mesmo resolver esse problema. O Brasil virou um país cronicamente ingovernável, e é urgente restabelecer o poder moderador da chefia de governo. O atual "caos de baixa intensidade” é também resultado da movimentação muitas vezes atabalhoada dos demais poderes e do Ministério Público para tentar preencher o vácuo.

No parlamentarismo cresce em tese o estímulo a que o Congresso se alinhe ao Executivo, para evitar o risco de dissolução e convocação de novas eleições. Claro que na prática é possível um parlamentarismo com seguidas trocas de governo, ao sabor dos realinhamentos no Legislativo, mesmo entre dois pleitos. Ainda mais com nossa grande quantidade de partidos. Mas na teoria seria um sistema com menos freios para o Planalto tocar suas políticas.

Um complicador: a coisa já foi rejeitada duas vezes quando se chamou o eleitor brasileiro a decidir em plebiscito. A razão é sabida. Foram duas tentativas de mexer na soberania popular, transferindo poderes de presidentes (ou vices) eleitos diretamente, para Congressos de baixíssimo prestígio. Da última vez, o apoio do establishment econômico, político e comunicacional foi maciço, mas insuficiente para convencer o eleitor. O instinto da massa prevaleceu de novo.

As tentativas de implantar o parlamentarismo no Brasil costumam carregar um fardo: o de virem pelas mãos de quem quer muito o poder mas tem pouco voto. A exceção que confirmou a regra: os parlamentaristas não lembraram de implantar o sistema quando chegaram ao Palácio do Planalto. O PSDB poderia ter tomado a iniciativa no governo de Fernando Henrique Cardoso. Preferiu introduzir a reeleição para presidente. Isso deve querer dizer algo.

Um mesmo conceito pode virar do avesso em novas circunstâncias. O parlamentarismo nasceu como instrumento para impor a soberania popular contra monarquias absolutistas. Onde teve esse papel acabou emplacando, em certos casos até hoje. Quando se tenta fazer o contrário, limitar o poder do povo sobre o governo, o contexto passa a ser completamente outro. Por isso, dizer que “vai funcionar aqui porque funciona em países desenvolvidos” é bobagem.

Se os parlamentaristas querem convencer de que o parlamentarismo é bom, precisam primeiro dar um jeito de ele vir para aumentar a influência da população sobre o governo, e não diminuir. E não é tão difícil assim construir argumentos. Numa contribuição ao debate, segue abaixo um punhadinho de mexidas que ajudariam a reduzir a resistência do povão, acho eu. Só não sei se os parlamentaristas vão curtir, mas sugerir não tira pedaço.

Poderiam começar estendendo para a Câmara dos Deputados o princípio de “um homem, um voto”, que hoje já vale na eleição de presidente. Cada estado teria deputados federais na exata proporção do eleitorado. Em caso de voto distrital, cada distrito teria aproximadamente o mesmo número de eleitores, em todo o país. Se o voto de todos é igual para eleger o presidente no presidencialismo, é justo que seja igual para indicar o primeiro-ministro no parlamentarismo.

Num segundo passo, a eleição dos primeiros-ministros ficaria bem parecida com a de presidente hoje, mas ligada à formação do Congresso. Ao votar no premiê, o eleitor daria automaticamente o voto a uma lista estadual de deputados federais ou a um candidato distrital. Cada partido ou coalizão teria um nome nacional na disputa de primeiro-ministro. Lula lideraria um bloco. Alckmin poderia liderar outro. Nesse sistema, até FHC se animaria, quem sabe?, a testar sua liderança.

Com essas duas medidas singelas o financiamento das campanhas estaria bem encaminhado. Cada partido ou coalizão teria os mesmos recursos e tempo de TV, desde que tivesse recebido, digamos, 5% dos votos das eleições anteriores para a Câmara dos Deputados. Todas as legendas ou alianças que não tivessem atingido os 5% no último pleito poderiam arrecadar de pessoas físicas e empresas até o limite da cota partidária.

Mas tenho dúvidas se os parlamentaristas topam. Você, leitor, que é inteligente, já percebeu por quê. Porque haveria o risco de eleger primeiro-ministro no parlamentarismo quem de todo modo se elegeria presidente no presidencialismo, só que com mais chance de ter maioria parlamentar para governar tranquilo. Mas não é isso que os parlamentaristas querem? Governo com maioria parlamentar que lhe dê estabilidade? Sim, mas só se for o governo deles. Eis a questão.

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Publicado originalmente no www.poder.com.br

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Dois vetores opostos sobre a reforma da previdência no ano eleitoral. E uma dica de Mark Twain

O senso comum faz concluir que é mais difícil votar em ano eleitoral uma reforma da previdência redutora de direitos. É verdade. Os deputados e senadores candidatos à reeleição ou a outra coisa ficam mais sensíveis à sensibilidade do eleitor. E a maioria dos eleitores brasileiros são contra as mudanças previdenciárias propostas pelo governo de Michel Temer.

O mesmo senso comum diz que em ano de eleição de presidente os candidatos ao cargo serão pressionados a dizer o que farão nos principais temas da pauta econômica, se chegarem lá. E a reforma da previdência é o principal ponto da agenda proposta para estabilizar ou até trazer para baixo a curva que mostra a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto.

Três pontos parecem favoritos a polarizar o debate presidencial de 2018, não necessariamente nesta ordem. Quem é mais honesto. Quem vai mudar os métodos de governar. E o que fazer para acelerar a retomada do crescimento econômico e da criação de empregos. Outros itens, como por exemplo a segurança, prometem produzir mais barulho do que decisão de voto.

O emperramento da reforma da previdência pode acabar criando um problema para o candidato finalmente vitorioso. Por isso, a esquerda esbraveja contra, mas tem esperança de ganhar a eleição e no íntimo torce para que Temer consiga passar algo que libere o novo presidente dessa pauta. Estelionatos eleitorais têm consequências, sabe-se cada vez melhor.

Do outro lado, o cenário é mais complexo. Uma bandeira desse campo serão as reformas liberais. E a disputa pelo apoio do establishment a um ou outro candidato se dará também em função de que nome vai ser mais capaz de vencer e reunir apoio político para dar andamento à agenda proposta pelas forças que depuseram Dilma Rousseff em 2016.

Eis por que, para o governo Temer, tentar passar a reforma ao longo do todo o ano de 2018 talvez seja tão importante, ou até mais importante, do que obter uma vitória rápida. Esta teria certamente bons efeitos na economia, mas o alongamento do debate daria de mão beijada uma narrativa pronta a um eventual candidato do governo ao Planalto.

Em condições normais de temperatura e pressão, a cadeira cativa de candidato liberal-reformista estaria já ocupada pelo PSDB. Mas os tropeços tucanos abrem caminho a outras possibilidades. Geraldo Alckmin ainda pode reagrupar seu campo político habitual. Entretanto, se o governo achar um candidato leve em outro partido a coisa pode complicar-se para os tucanos.

O PMDB comeu poeira do PSDB nos oito anos de Fernando Henrique. Comeu poeira do PT nos oito de Lula e nos quase seis de Dilma. É impensável que o núcleo de governo não esteja pensando num jeito de não voltar à situação de coadjuvante. E a falta de apoio do PSDB à reforma da previdência é uma oportunidade de ouro para alimentar a tentação de abrir outro caminho.

Some-se o fato de que nunca desde 1989 o PSDB largou tão atrás na corrida presidencial, e com tantos problemas. Ou seja, o governo neste momento não enfrenta ainda um adversário consolidado em seu campo. É uma baita janela de oportunidade. Os movimentos do ministro da Fazenda são o melhor sintoma de que alguém já entendeu o essencial do cenário da guerra.

Há portanto dois vetores opostos agindo sobre o andamento da votação da reforma. Vai crescer o medo de votar, para não chatear o eleitor. E vai crescer também o interesse do governo de mostrar que tem compromisso com ela. E o andar do tempo vai aumentar a pressão sobre o PSDB para ajudar a passar uma medida que o partido sempre disse ser indispensável.

Seria prudente adotar para a reforma da previdência a máxima de Mark Twain, quando certo dia anunciaram erradamente que ele tinha morrido. “As notícias sobre minha morte foram muito exageradas", brincou o escritor. De tanto que já anunciaram o fim do mundo e não aconteceu, será inteligente a cada anúncio esperar para ver se o mundo vai acabar mesmo.

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Se o PT tivesse de planejar o cenário ideal para dar verossimilhança à narrativa de que foi e está sendo vítima de um golpe de estado continuado, dificilmente faria melhor do que fazem por ele os adversários e inimigos nas várias esferas. Lula, que curte as metáforas futebolísticas, sabe que não basta o goleiro ser bom, precisa ter sorte. Disso ele não pode se queixar.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A divisão entre herbívoros e carnívoros mudou de lado

Tempos atrás havia um debate sobre hábitos alimentares da esquerda latino-americana. Tinha a carnívora, liderada pelo venezuelano Hugo Chávez e inspirada em Fidel Castro. E tinha a herbívora, comandada por Luiz Inácio Lula da Silva e mais ideologicamente alinhada com o socialismo europeu ocidental. A separar as duas, o grau de aceitação do capitalismo e da democracia que os clássicos do marxismo chamavam de "burguesa".

Depois que, pelo menos no Brasil, a preferência por uma alimentação puramente vegetal foi insuficiente para evitar o cerco e a tentativa de aniquilamento, a distinção perdeu muito da utilidade prática. Quem ainda tiver dúvidas, faça a experiência: compareça a um encontro qualquer do PT para defender que o PSDB continua, como na origem, uma força política de centro-esquerda. Disponível portanto para alianças progressistas.

Se a classificação pelo tipo de dieta vai perdendo substância na esquerda, ela reaparece agora com esplendor do outro lado, neste prefácio de sucessão presidencial. As engrenagens de modelagem ideológica vão construindo a tese de haver uma direita carnívora, bem retratada por Jair Bolsonaro, em oposição a uma herbívora. Diante da clássica dificuldade de a direita pátria assumir-se como tal, ela sobe ao palco da política com a novíssima narrativa do “centro”.

O que seria esse centro? Talvez uma política econômica de direita com concessões à esquerda nos campos comportamental e ambiental. A combinação da “racionalidade" econômica com a luta "contra todo tipo de preconceito” e “em defesa do meio ambiente". Essa construção avança na disputa pela hegemonia, facilitada desde que a esquerda, pragmaticamente, trocou a velha luta de classes por disputas em que o capitalismo, até o mais voraz, pode adotar o "lado do bem” a um custo baixíssimo (1).

As consequências são nítidas no debate e no noticiário, políticos e econômicos. O nacionalismo era marca registrada da esquerda, mas foi quase abandonado, depois de ter sido carimbado pela direita como sintoma de “atraso”, por recusar a inevitável marcha da história. O curioso é que acreditar em uma “inevitável marcha da história” era até outro dia ridicularizado como sintoma de fossilização intelectual... da esquerda! Quem se beneficia desse abandono da questão nacional? A direita nacionalista, claro.

A esquerda vem sendo tangida para o cercadinho da luta por uma globalização mais humana, mais justa e mais ambientalmente responsável. Longe vão os dias em que o “outro mundo possível” saía no braço nas reuniões do G-8, contra o Fundo Monetário Internacional, contra o Banco Mundial e outros menos votados. Agora estão todos de mãos dadas, sempre diligentes para cuidar que a exploração do homem pelo homem aconteça de um jeito “sustentável”.

Os ideólogos teriam mais trabalho para vender a miragem centrista se nossa esquerda estivesse atenta a temas como: o altíssimo spread bancário (um recorde mundial), os juros escorchantes, a concentração da terra, a necessidade de uma reforma urbana. Qual foi a última vez em que você viu uma liderança expressiva da esquerda hegemônica falando dessas coisas?

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(1) O melhor que li disso, quando já matutava sobre o tema, foi “From Progressive Neoliberalism to Trump - and Beyond”, de acadêmica Nancy Fraser (New School for Social Research, de Nova York). Vale a leitura. O link -> https://americanaffairsjournal.org/2017/11/progressive-neoliberalism-trump-beyond/.

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Publicado originalmente no poder.com.br

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A batalha morro acima do PSDB e um possível efeito-bumerangue da condenação e inabilitação de Lula

Desde 1994, quando o PSDB conquistou a hegemonia no campo que ocupa as faixas do meio para a direita, tem sido possível prever com razoável certeza o desfecho das corridas presidenciais: um tucano contra um petista. Na esquerda, a hegemonia está definida desde 1989, quando Lula superou Brizola por diferença estreitíssima e foi ao segundo turno.

Há perturbações de tempos em tempos. A rejeição ao governo Fernando Henrique fez Serra passar aperto com Garotinho e Ciro em 2002. Marina apareceu com votos em 2010, e ameaçou Aécio em 2014. Mas no fim a inércia acabou impondo-se e a disputa sempre convergiu para a polarização entre vermelhos e azuis.

Lula e o PT consolidaram a liderança absoluta em seu campo quando, no governo, conquistaram os pobres e o Nordeste. Há pobres e “nordestes” espalhados por todo o país. E, até o impeachment de Dilma, o PSDB vinha sacando confortavelmente da conta aberta quando Fernando Henrique, montado no Real, aliou-se ao PFL para ser o anti-Lula e ganhar a eleição.

2018 ensaia uma certa perturbação no enredo clássico. O paradoxo é a desorganização aparecer no lado vencedor das recentes batalhas políticas. O “se” não resolve nada, mas se Dilma tivesse conseguido ir até o fim é provável que o lado de Lula estivesse agora tão bagunçado quanto. Ou pelo menos algo bagunçado. Até agora, as contestações a ele são residuais.

Já o candidato do PSDB, muito provavelmente Alckmin, tem problemas novos a resolver. Começa atrás, pelo menos, de Marina e Bolsonaro. E precisa ganhar musculatura para trazer o apoio do PMDB e/ou dos partidos que apoiam o governo do PMDB. Só conseguirá se mostrar força e competitividade no campo da direita para desestimular outras ambições.

Para tirar votos de Bolsonaro, o PSDB precisa falar ao eleitor de Bolsonaro. Para tirar de Marina, precisa falar ao dela. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo é complexo. Parece que o governador decidiu nesta primeira etapa mirar o hoje vice-líder nas intenções de voto. Tem lógica, mas talvez não vá ser tão simples. O eleitor de Bolsonaro leva jeito de estar entrincheirado.

Bolsonaro oscila em torno dos 10% na pesquisa espontânea. É um estoque bem razoável nesta altura do campeonato. É metade de um Lula. E o eleitor de Bolsonaro é mais convicto que a média. E está pouco propenso a mudar de opinião. E é bem mais militante, hoje, que o eleitor do PSDB. Basta olhar as redes sociais para perceber.

A opção seria tentar sacar do estoque de brancos, nulos, não sei e não vou votar, mas é pouco provável que o voto da antipolítica se converta à política nos primeiros momentos da corrida. Talvez adira no final, não para eleger alguém, mas para evitar a volta de alguém. Por isso, Alckmin é, na teoria, um candidato melhor para o segundo turno do que para o primeiro.

Assim como Lula parece melhor para o primeiro do que para o segundo. Dos nomes do PT e da esquerda, se Lula tem de longe mais chances de passar ao turno final, é o que mais deve enfrentar dificuldades para fechar a eleição. “Evitar a volta do Lula” pode, sim, mobilizar um pedaço ainda adormecido do eleitorado e portanto facilitar a vida dos adversários.

Duvidar do que dizem os políticos é sempre saudável. Os tucanos dizem preferir enfrentar Lula na urna a vê-lo impugnado. É o contrário: eles preferem o petista fora da eleição e esperam o muito provável, que o TRF-4 confirme a primeira instância. Até porque sem Lula a disputa no primeiro turno passa a ser, pelo menos no começo, por duas vagas e não uma só.

Mas, se as pesquisas estiverem certas, e se forem confirmadas, um “candidato de Lula” tem boas chances de passar à decisão. Uma vez ali, com menor rejeição que o ex-presidente, pode ter até mais facilidade para reunir os apoios necessários. Sim, uma eventual inabilitação de Lula pode ter efeito-bumerangue. A beleza da política está também na volatilidade.

E tem Marina, posicionada para colher os frutos da aversão ao establishment político. Ela já tem massa crítica e pode ser um desaguadouro quando, e se, as danças em torno do “novo” derem em nada.