segunda-feira, 18 de junho de 2018

A hora de executar. Os candidatos que só dependem de si. E os que precisam do tropeço alheio

Há seis pré-candidatos à Presidência da República que passam ou roçam o patamar arbitrário de 5% nas pesquisas. Jair Bolsonaro, Marina Silva, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Álvaro Dias e o “candidato do Lula”. Arbitrário porque nada impede um outro nome de arrancar para o segundo turno. Mas o quadro atual é esse, e dele vamos partir.

É possível separar os seis nomes em dois grupos. No primeiro está quem depende essencialmente de si para chegar à rodada final. Estão aqui o “candidato do Lula" e Geraldo Alckmin. Os outros quatro precisam que pelo menos um destes dois erre o suficiente para abrir uma vaga na grande decisão, no mano a mano de 28 de outubro.

A probabilidade de alguém decidir a parada em 7 de outubro não é zero, mas quase. Seis nomes com 5% ou mais fazem uma decisão no primeiro turno estar no terreno da imponderabilidade. Cuidado porém. Como já dito aqui algumas vezes, uma característica do imprevisível é ele ser difícil de prever. Na dispersão atual, se alguém ganha massa crítica pode disparar.

Geraldo Alckmin só depende de si. Ele veste bem a camisa do centro, a mais nova ficção ideológica, hoje hegemônica no universo das narrativas. Eleição não é disputa de fatos, é braço de ferro de histórias. Só quem pode ameaçar Alckmin imediatamente em seu campo é Álvaro Dias, que está atrás. Se o tucano resiste até o início da TV fica em boa situação.

Álvaro Dias precisa que Alckmin não escape, para tentar, quem sabe?, partir de um empate técnico na largada da TV. E daí produzir uma onda. Dias tem sobre os tucanos a vantagem de poder discursar a favor da Lava Jato e não precisar se explicar. Em debates, será uma vantagem e tanto. Mas falta a ele por enquanto tempo de tela. Ter alianças. É seu maior desafio agora.

Já Marina Silva precisa que tudo dê errado para Alckmin e Dias. Precisa que continue a dispersão do centro para a direita e que Bolsonaro não perca substância. Daí a ex-senadora pode tentar atrair o voto útil da direita não bolsonarista na véspera de 7 de outubro. E se conseguir passar ao segundo turno levará com ela o atributo da alta votabilidade.

E Bolsonaro? Seu desempenho até agora é inelástico. Para ir ao segundo turno precisa se manter, o que parece não tão difícil assim, mas também que nenhum dos concorrentes “de centro” cole nele. Porque quem colar pode desencadear uma corrida pelo voto útil, certamente com amplo apoio do establishment, imprensa incluída nisso. #FicaaDica.

Do outro lado da quadra, quem só depende de si é o PT. Mesmo correndo sozinho terá tempo de TV razoável. Se fechar com PCdoB e principalmente PSB ganha mais musculatura e passa um cadeado no Nordeste. As pesquisas dizem que Lula transfere quase tudo, mas mesmo que se dê um desconto o quadro ainda permite razoável otimismo aos petistas.

Para Ciro a coisa é um pouco mais complicada. Ele está bem agora, mas precisa ou ser o “candidato do Lula” ou torcer para que dê errado a operação político-eleitoral de transferir os votos de Lula, e aí herdar o patrimônio. Depender do erro alheio é arriscado. Ciro também corre o risco do isolamento, lipoaspirado de um lado por Alckmin e do outro pelo PT.

A hora é menos de planejar e mais de executar. E quem for melhor nisso agora vai ficar bem na foto.

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Uma novidade na eleição parece ser a movimentação de pedaços do autodenominado centro por um assim chamado pacto democrático. Pactos pela democracia são comuns, mas este agora ensaiado sofre do mesmo problema estrutural que injetou fragilidade na distensão do presidente Ernesto Geisel e na abertura do presidente João Figueiredo.

Ambos imaginaram um pacto democrático no qual o regime mantivesse a prerrogativa de escolher quem teria ou não o direito de participar do pacto. Difícil de executar com sucesso. Em geral, pactos desse tipo só funcionam quando todo mundo está convidado para a mesa. Foi assim em Moncloa (Espanha) e na Aliança Democrática (Brasil). #FicaoutraDica.

Do jeito que a coisa vai, qualquer um eleito este ano encontrará em 2019 uma oposição concentrada prioritariamente em derrubar o governo. Por enquanto, é o pacto que está no radar.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Trump e Kim mostram que realismo é um santo remédio

Todos querem manutenção do status quo
Fórmula serve para outros casos

Se as duas temporadas de Fauda no Netflix ajudam a entender melhor o conflito entre Israel e os palestinos, quem quer saber mais da Guerra da Coreia precisa ver The Battle of Chosin (A Batalha de Chosin), documentário no mesmo serviço de streaming. Numa era em que as pessoas têm, e dão, opinião sobre tudo, é útil conhecer sobre o que se opina.

Na represa de Chosin, o exército americano que se deslocava já na Coreia do Norte rumo à fronteira da China é contido e tem de se retirar num inverno duríssimo e sob o fogo de tropas chinesas vindas em socorro do aliado. O resto da história está nos livros: os soldados do Tio Sam recuaram até o paralelo 38 e o fim da guerra recompôs o status quo de antes dela.

A Guerra da Coreia (1950-53) começou com o Norte invadindo o Sul, tentando reunificar sob o comando do avô de Kim Jong-un, o comunista Kim II-sung, a península dividida entre Moscou e Washington ao final da Segunda Guerra. A vitória parecia ao alcance de Pyongyang quando os EUA, sob a bandeira da ONU, conseguiram desembarcar no único bolsão ainda a salvo.

Aí os americanos passaram a empurrar de volta, e atravessaram a fronteira original no paralelo 38. Quando a vitória e a consequente ocupação militar da Coreia do Norte pareciam ao alcance, a China cruzou a divisa e quem teve de recuar foram os EUA. E o estado de guerra permanece até hoje entre Norte e Sul porque ambos os lados desconfiam que o outro quer eliminá-lo.

Do que depende então a paz na península coreana? Da aceitação estratégica do status quo. É o tipo de problema comum nas relações internacionais. A solução técnica é relativamente simples, pois os intelectuais já dissecaram todo o leque de alternativas. Mas nada acontece se não houver um alinhamento dos astros políticos. O que em geral é bem menos simples de conseguir.

Um acordo definitivo de paz na península coreana está mais próximo do que nunca desde a guerra, porque interessa a todo mundo ali. A capacidade militar norte-coreana eleva demais o custo, material e humano, de um projeto de conquista bélica pelos Estados Unidos e Coreia da Sul. E sempre tem a China do outro lado da fronteira para reequilibrar o jogo.

Pelos mesmos motivos, apenas vistos ao contrário, a reunificação do país sob a ação militar e a liderança de Pyongyang é inviável. Então está criado o ambiente ideal para uma solução, já que nenhum dos lados conseguirá impor na marra sua vontade. Por esse acordo, a Coreia do Norte deixa de ser uma ameaça e recebe em troca compromissos de segurança e prosperidade.

Uma paz definitiva entre Norte e Sul encaixa-se hoje nos planos do Norte, do Sul, da China, da Rússia e do Japão. A opção dos Estados Unidos seria continuar a pressionar pelo “regime change”, mas Washington parece cada vez menos disposta a gastar dinheiro com essas coisas, desde que naturalmente os interesses americanos sejam preservados.

Claro que tudo pode desandar, mas as forças centrípetas aqui são poderosíssimas. Claro que tem o “risco-Líbia”, os norte-coreanos aceitarem a desnuclearização e se darem mal lá na frente. Mas a diferença entre os dois casos é definitiva: quando veio a intervenção da Otan, Gadafi não tinha do outro lado da fronteira um aliado estratégico como a China no qual se apoiar.

Há alguma continuidade entre as visões de Donald Trump e Barack Obama. Ambos foram eleitos presidentes dos Estados Unidos num tempo em que os eleitores dali já estão meio fartos de pagar a conta, em dinheiro e vidas, do papel de polícia do mundo. A diferença é que Obama adotou uma linha de apaziguamento, enquanto Trump prefere o velho “Si vis pacem para bellum”.

Se queres a paz prepara-te para a guerra. Mostra força decisiva e traz o adversário para a mesa de negociação. Talvez o mundo esteja diante de uma oportunidade única para resolver velhas e duras pendências. Os americanos não se metem (muito) na vida do sujeito e o sujeito concorda com um status quo que não confronte decisivamente os interesses americanos.

Realismo, amigos, realismo. Dá para resolver assim o problema entre Israel e os palestinos, acabar com o isolamento do Irã e até desfazer o nó venezuelano. Reconhecer a realidade dos fatos costuma ser mesmo um santo remédio. Vale para a vida pessoal, familiar, profissional. E vale muito para as relações internacionais. #FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Pensamentos sobre o Datafolha. No que a prisão atrapalha Lula. E no que o ajuda a ser o kingmaker

O Datafolha deste domingo confirma que vem diminuindo o voto espontâneo em Lula. Pesquisas devem ser olhadas no conjunto, reduz a chance de errar a análise, mas essa erosão é consistente com a realidade. É provável que a ficha esteja caindo na parte lulista do eleitorado. A chance de Lula concorrer até o fim e chegar elegível à urna é hoje residual.

Os demais dados na pesquisa não são ruins, ou são bons, para o ainda pré-candidato do PT. Ele recolhe entre 57 e 60% dos votos válidos num segundo turno contra Bolsonaro, Marina ou Alckmin. É o desempenho clássico de um petista entre 2002 e 2010. Em 2014 Aécio Neves apertou dramaticamente a margem, mas ela parece estar em recomposição.

E 47% dizem que votam com certeza (30%) ou admitem votar (17%) num nome indicado por Lula, caso não possa concorrer. Aqui os números mantêm consistência: por volta de 30% é a intenção de voto em Lula no primeiro turno, e 47% é uma ordem de grandeza compatível com o desempenho dele no segundo turno, que oscila de 46 a 49%.

51% dizem que não votam de jeito nenhum no candidato de Lula, mas para o anti-Lula ser competitivo num segundo turno precisará atrair com grande força o eleitor que hoje pensa em não ir votar, ou escolher branco ou nulo. Se o desafio do PT é fazer o lulista votar num outro nome, o problema dos adversários é trazer com força o voto inútil anti-PT e antilulista.

Outra constatação é inexistir herdeiro natural, ou inercial, do voto de Lula. Sem alternativa eleitoral explícita e apoiada pelo ex-presidente, a tendência é dispersar, com a maioria indo para o voto inútil. Por enquanto, os números não autorizam otimismo a quem imagina impor uma solução a Lula e ao PT. Ambos ainda jogam com as brancas no tabuleiro eleitoral.

Em síntese, estamos a menos de quatro meses do primeiro turno e Lula mantém o protagonismo, mesmo preso. A cadeia desidratou apenas marginalmente sua liderança, e ele permanece, como se diz em inglês, o principal kingmaker, fazedor de rei, da eleição. Em parte pela própria força, em parte pela frustração com o governo nascido do impeachment.

A cadeia impõe sofrimento pessoal a Lula. Mas política e eleitoralmente os efeitos são contraditórios. Preso, ele não pode fazer comícios, participar de debates ou entrevistas. Tampouco oferece aos adversários a oportunidade de o perseguirem nas aparições externas e questionarem-no diretamente em debates. E tira do jornalismo a chance de apertá-lo em entrevistas.

Se Lula está excluído da campanha eleitoral no mundo exterior, também está momentaneamente protegido da exposição direta aos ataques adversários e aos naturais questionamentos da imprensa. E quem permanece em campanha não é um Lula de carne e osso, mas a memória de seu governo. Que leva vantagem em relação aos demais governos.

Claro que isso não pode ser indefinidamente esticado. Uma hora, o “candidato do Lula” vai ter de aparecer, e começará a apanhar. E a substituição precisará ser a tempo de poder comunicar e convencer o eleitor lulista. A execução não vai ser fácil. Mas por enquanto a resultante ajuda o PT: Lula está protegido e também protege o possível sucessor.

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Na outra metade do campo, o quadro está à espera do final da Copa do Mundo, do início da campanha e dos debates entre os candidatos na TV. A principal variável a monitorar é a resiliência de Jair Bolsonaro, que será mais testada quanto menos alianças, e portanto menos tempo de TV, ele conseguir reunir antes da largada oficial do primeiro turno.

A esta altura, parece bem enfraquecida a hipótese de Bolsonaro desidratar naturalmente. Seu eleitor tem uma lógica parecida com o de Lula: é ideologicamente identificado com o líder e disposto a relevar seus defeitos. Mas será um erro desprezar a hipótese de, alguma hora, o establishment tentar de tudo para levar um nome “de centro” para a decisão.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Centro excludente é uma contradição em termos

Problema não está só na economia
Não se concilia polarizando

É preciso olhar com mais atenção para as origens da anemia do autonomeado centro. Um motivo conhecido é o econômico. Esta retomada, além de lenta, baseia-se principalmente nas exportações e nos ganhos de produtividade. Ou seja, produzir mais com o mesmo tanto de gente, ou até menos. E pagando menos. Isso não oferece melhores perspectivas imediatas para a massa que desceu na escala social durante a brutal recessão.

Mas será só isso mesmo? Reduzir o problema à economia explica tudo? Se é verdade que a economia determina em última instância a política, o “em última instância” não está aí só de enfeite. É preciso atenção às mediações. E para ver o que vai dando errado até agora vale lembrar do que deu certo antes, e buscar as diferenças. Para ficar apenas na história do Brasil, alternativas centristas só tiveram sucesso quando foram politicamente inclusivas.

O principal partido do dito centro é o PSDB. Bem, o PSDB relatou e fez aprovar no Congresso uma reforma trabalhista que, entre outras coisas, cortou a principal fonte de recursos das entidades sindicais dos trabalhadores. E o prejuízo maior ficou para os sindicatos, federações, confederações e centrais que vinham apoiando o PSDB na eterna disputa contra o PT. Não se faz omelete sem quebrar ovos, mas quebrar principalmente os próprios ovos é estranho.

O atual líder do PSDB na Câmara apresentou um projeto de lei para permitir que trabalhadores rurais sejam remunerados com alojamento e comida. Pode haver algum exagero nas muitas denúncias Brasil afora de trabalho em condições análogas à escravidão. E há. Mas uma coisa definitivamente análoga à escravidão é pagar o trabalhador rural com casa e comida. As histórias sobre o vale-barracão estão aí para ninguém esquecer.

São apenas 2 exemplos, e seria até injusto reduzir a constatação ao PSDB. Na largada do governo Michel Temer, a elite política que apoiara o impeachment de Dilma Rousseff foi arrastada pela elite empresarial e pela opinião pública ao agora ou nunca, ao tudo ou nada. Aproveitar a impopularidade do novo presidente para fazer o que, segundo as duas, precisava ser feito. Esqueceram de um detalhe: poderiam pegar impopularidade por contágio.

Sem falar na circunstância particular de o atual centrismo brasileiro ser entusiasta da prisão e inelegibilidade de Lula. Os 2 políticos ditos centristas mais bem-sucedidos entre nós foram Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves. Ambos passaram a vida tentando não queimar pontes com os adversários, procurando trazê-los para perto. Juscelino até demais, quando apoiou a eleição de Castello Branco depois da deposição de João Goulart. Exagerou na dose.

Mas o dito centro não exclui só à esquerda. Também poda à direita, ao apresentar o bolsonarismo como risco às instituições democráticas, o que na prática significa eliminar essa força entre as alternativas aceitáveis num processo eleitoral. Não discuto aqui o mérito do argumento, mas a consequência dele junto à base bolsonarista. É mais ou menos a mesma de carimbar na esquerda o bolivarianismo, ou o risco da venezuelização.

Centro na política é só um ponto geométrico. Não tem dimensão própria. Para ganhar materialidade, precisa reunir pedaços da direita e da esquerda, e absorver pontos programáticos de uns e outros. Mas é pensamento mágico achar que vai roubar o discurso de outros e uns. Não basta juntar ideias. Tem de juntar gente, e para isso tem de saber aceitar o diferente e distribuir poder. Não existe centrismo viável sem forte inteligência emocional, sem alteridade. #FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A fratura entre a direita liberal e a base social antipetista injeta incerteza na sucessão

A greve dos caminhoneiros foi uma batalha entre o governo e a base social dos grupos que sustentam o governo. Quando a esquerda quis entrar, parando a Petrobras, percebeu não ter convite para a festa. O Planalto, mesmo enfraquecido no limite da sobrevivência, arrancou do TST medidas brutais, e os petroleiros recuaram para não serem esmagados.

A esquerda não conseguiu nem ser coadjuvante do drama, e por razões sabidas. Está social e politicamente isolada desde as mobilizações anti-Dilma. Lula lidera as pesquisas com um terço da preferência mas nos outros dois terços o antipetismo viceja. E os movimentos sociais da esquerda têm sido incapazes de colocar na rua gente além deles mesmos.

Mas a esquerda mantém possibilidade de ganhar em outubro, e a greve dos caminhoneiros mostrou por quê. O movimento expôs a fratura entre a direita liberal e a base social alimentada ao longo de anos pelo antipetismo. São dois indivíduos que habitam universos distintos, com representações mentais diferentes, e crescente dificuldade de intercomunicação.

Num universo, aumentar diariamente, ou quase, os combustíveis justifica-se para alavancar a lucratividade da Petrobras e remunerar bem os acionistas. Para evitar o populismo. Independente das consequências. No outro, quebra-se a cabeça para descobrir um jeito de trabalhar, lucrar, progredir ou pelo menos sobreviver num ambiente assim.

Vamos a um exercício de marketing eleitoral básico. Debate presidencial. O candidato do centro defende a política de preços da Petrobras, fala da Venezuela, etc. Daí o adversário pergunta: “Bem, se você defende que a gasolina e o diesel aumentem todo dia, defende também que as passagens de ônibus aumentem todo dia? Pois os ônibus rodam com esse combustível".

A esquerda está mergulhada em suas próprias confusões, entre elas a ilusão de que a prisão de Lula oferece a oportunidade de uma disputa interna pela hegemonia. Mas tem chance de voltar ao Planalto, pois a direita liberal está crescentemente desconectada da realidade. E outro sintoma disso é ela ter regredido à ideia de que a questão social é caso de polícia.

Regrediram cem anos em três, voltaram à República Velha. Reduziram a maciça parada de caminhoneiros a locaute de empresários. Nas análises mais delirantes, advertem que estivemos à beira de um golpe contra as “instituições democráticas”. Seria só maluquice inócua se não embutisse uma lógica perigosa, diante dos quase 90% da população que apoiaram a greve.

Olha aí uma janela de oportunidade para Bolsonaro. Seu desafio é romper a barreira dos 20%. O Lula da direita tem eleitorado fiel, mas parece estancado. Com alguns ajustes de discurso, tem possibilidade real de virar digerível aos eleitores que abominam o PT e a esquerda mas resistem ao papel de ratos de laboratório no experimento ultraliberal.

Novidade? Não. Basta ver o que vai pelo mundo. Os liberais e social-democratas perdem terreno aceleradamente para o nacionalismo de direita e, em escala menor, para a esquerda clássica. Eleição após eleição o quadro se repete. O eleitor médio está em busca de proteção estatal. Quem tiver essa mercadoria para oferecer leva vantagem. Quem não, sinto muito.

É bom prestar atenção aos fatos, mesmo que eles soem desagradáveis. A rejeição a Lula e ao PT declina. Assim como a resistência a Bolsonaro. O eleitor quer liberdade econômica, mas também ser protegido dela. É contra a intolerância, mas quer segurança. Prefere a democracia, mas uma em que a política seja permeável ao povo, e não uma ditadura da opinião pública.

A fratura exposta entre a superestrutura política e intelectual do liberalismo brasileiro e esse eleitor médio é o que injeta incerteza na sucessão presidencial. Estamos a cinco meses da decisão e não sabemos nem direito quem serão mesmo os candidatos. Isso não é obra do acaso. A greve dos caminhoneiros mostrou para quem quis enxergar.

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O STF ressuscitar a possibilidade de reimplantar o parlamentarismo sem plebiscito mostra que no Brasil tudo tem limite, menos a insensatez.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Há um Brasil só de Marias Antonietas

Elite vive em seu universo paralelo
Brioches não suprem a falta de pão


O governo está apanhando porque não deu pelota, ou estava desinformado, para a possibilidade de os caminhoneiros entrarem maciçamente em greve, por vontade própria ou estimulados pelos patrões, neste caso no assim chamado locaute. Governos têm o dever de estar bem informados. Governos informam-se por dois meios: os dele mesmo e a imprensa. Parece que nenhum dos dois funcionou neste caso.

Erros acontecem. A derrota acachapante na eleição de 1974 foi uma surpresa para o governo do presidente Ernesto Geisel no fechamento do seu primeiro ano de mandato. Se o SNI (Serviço Nacional de Informações) do então futuro presidente João Figueiredo tivesse cumprido o papel oficial com a mesma eficiência que tentava organizar a eliminação física de adversários políticos, Geisel, o governo e a Arena não teriam sido surpreendidos pela avalanche de votos no MDB.

Há entretanto diferenças importantes entre as duas situações. Em 1974 a imprensa trabalhava com um liberdade bem menor, não existia a cultura disseminada das pesquisas de opinião, havia censura, e autocensura. Mas o sistema governamental de informações estava à toda, com o Brasil ainda mergulhado numa guerra de verdade entre o regime militar e as organizações de esquerda, principalmente as que tinham decidido tentar derrubá-lo pela via armada.

Erros acontecem, e desdenhar depois é fácil. Tem mais sentido tentar entender o porquê. Em casos como agora e 1974, o motivo principal costuma ser um apego excessivo à construção mental que explica o mundo de modo confortável, e a consequente resistência a atentar aos sinais externos que podem desorganizar o diagnóstico. Daí a utilidade de buscar olhar o que vai contra nossa visão. É difícil, dolorido até para quem gosta demais das próprias ideias, mas muito útil.

É melhor dizer as coisas como são. A elite brasileira, lato sensu, vive num universo paralelo. Nele, até outro dia, Pedro Parente era um gestor exemplar, a Petrobras finalmente havia sido expurgada das influências políticas e passara, graças aos céus, a ser gerida por critérios empresariais, buscando o maior retorno possível para os acionistas, e com seus executivos firmemente a caminho de cumprir as metas e receber o merecido bônus.

Não ocorreu a ninguém que, eventualmente, mudanças quase diárias nos preços dos combustíveis, em geral para cima, pudessem desorganizar completamente a cadeia brasileira de transportes, fortemente alicerçada em rodovias e combustíveis fósseis. Nesse universo paralelo, o valor de mercado da Petrobras e o retorno aos acionistas eram o único parâmetro a considerar, estabelecendo definitivamente a superioridade da técnica sobre a política.

Deu no que deu. Depois de entornado o balde de leite, lamentamos (o plural não é majestático) não ter visto antes a pedra em que tropeçamos. É o caso de perguntar: se agora é possível reduzir o preço do diesel e congelar por 60 dias, por que diziam antes ser impossível? Vamos acordar. Se alguém tivesse avisado Maria Antonieta sobre a inviabilidade de brioches suprirem a falta de pão, talvez ela envelhecesse com a cabeça ainda colada no pescoço. #FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A economia costuma decidir, mas é preciso sempre ter o cuidado de entender o que é “a economia”

As rupturas políticas podem acontecer quando as coisas vão mal.
E também quando melhoram e uma turma percebe que ficou de fora


O que nos diz a greve dos caminhoneiros?

Os debates sobre efeitos da economia nas eleições costumam ser orientados a partir da macroeconomia fria. Crescimento, inflação, taxa de juros, desemprego. Os grandes indicadores alimentam a planilha, mental ou digital, quando se quer saber o efeito do desempenho econômico sobre a urna, por exemplo numa eleição presidencial.

Está cada vez mais óbvio que o ditado de James Carville, “É a economia, estúpido”, precisa ser lido com sofisticação. O voto não convencional espalha-se em escala planetária, bem em meio à recuperação. Depois de ensaiar surpresas na França e na Alemanha, finalmente venceu num grande país europeu, a Itália. E a Espanha vai pelo mesmo caminho.

Cada país tem sua especificidade, mas é possível ao menos especular que o desconforto com a política mundo afora vem sendo anabolizado pela baixa esperança de que a elite política organize as coisas de modo a produzir prosperidade razoavelmente distribuída. Algumas vezes a desesperança aparece como revolta contra a corrupção, mas é bom tomar cuidado.

Uma coisa é o que se diz. Outra é o que se quer, ou sente. No próximo mês vai fazer cinco anos da explosão da nossa rua. Diziam ser principalmente para exigir melhores serviços públicos. Bem, ou os serviços públicos melhoraram demais desde lá, ou então é obrigatório concluir aquela gente toda não foi para a rua exatamente por isso.

O problema na passagem de 2012 para 2013 era a boca do jacaré começando a fechar. Crescimento econômico em queda e inflação em alta. Um ensaio incômodo de frustração de expectativas. Em 2014 o PT ainda ganharia a eleição, mas foi uma vitória de Pirro. Enfraqueceu-se demais e não conseguiu resistir quando os adversários decidiram derrubá-lo.

O novo governo petista sabia em 2015 que a economia ainda precisaria piorar antes de melhorar, e calculou estar vivo para colher política e eleitoralmente a onda positiva que finalmente chegaria. Calculou mal o timing. Os inimigos preferiram eles mesmos estar no poder em 2018, quando a bonança produzida pelo ajuste finalmente sucedesse a recessão.

O que vem dando errado no plano de quem derrubou Dilma? Um fator é a falta de coesão eleitoral. O ex-bloco governista é um balaio de caranguejos. Outro problema são as denúncias contra Michel Temer. Mas, se a recuperação estivesse de vento em popa nem a base estaria em frangalhos nem Temer politicamente tão enfraquecido pelo cerco da polícia.

Mas uma certa recuperação está sim de vento em popa. A Bolsa subiu, as contas externas foram ajustadas, o déficit fiscal parece estabilizado, o PIB vai crescer este ano e o desemprego pelo menos não está aumentando, desenha até alguma queda. Até que as pesquisas mostrassem uma anemia resiliente da direita dita de centro, havia algum otimismo.

Só que não. Não basta os números da Petrobras brilharem se isso implica aumentos brutais e sucessivos no combustível. Não basta as empresas melhorarem o desempenho se esse aumento de produtividade significa fazer mais com menos gente. Faz sentido nos balanços, mas não para quem perdeu o emprego e não consegue um ganhando pelo menos perto.

As rupturas políticas podem se dar quando está tudo mal, mas também quando as coisas começam a melhorar e uma turma razoável percebe que está ficando de fora. Destruições criativas são da lógica do capitalismo, e não adianta reclamar. Mas tampouco adianta chegar para um desempregado e dizer que ele busque se reinventar porque o passado já era.

Há bons argumentos para explicar aos operários do cinturão da ferrugem no Estados Unidos que é mais barato fabricar as coisas na China, e portanto devem se virar para sobreviver com essa realidade. Mas eles não são obrigados a aceitar a explicação, ainda mais se têm a opção de votar em alguém como Donald Trump. #FicaaDica.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O jornalismo é a vítima não contabilizada em Gaza e na Venezuela

A certeza é inimiga do bom jornalismo. Os motores que produzem as melhores obras jornalísticas são a dúvida, a inquietação, o ceticismo, a curiosidade. A indignação é inimiga do bom jornalismo, porque turva a visão.

A grande reportagem sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém não foi para denunciar os crimes dos nazistas, foi para descrever o que a repórter Hannah Arendt entendeu ser a banalidade do mal. O melhor livro já escrito sobre um crime é A Sangue Frio, de Truman Capote. O bom jornalismo é brechtiano. Tem de ter distanciamento.

Vou escrever aqui sobre o jornalismo dos outros. É raro, porque tem poucas coisas mais desagradáveis do que velho jornalista, ou jornalista velho, praticando engenharia de obra feita.

O jornalismo é o exercício diário da imperfeição, e o jornalista que não quiser se chatear não deve reler seus textos, ou rever seus vídeos, ou reouvir seus áudios. Sempre daria para ter feito melhor o que você fez ontem, ou uma hora atrás, ou um minuto atrás. Hoje em dia, pelo menos, você pode corrigir coisas na internet. Melhor do que quando o erro ficava obrigatoriamente como uma cicatriz, para sempre.

Mas tudo tem limite, inclusive a paciência, e já chega de nariz de cera, não é? Então vamos ao que interessa.

As empresas jornalísticas têm defendido uma tese. Informações pouco ou nada confiáveis abundam na internet, particularmente nas redes sociais. Estamos ameaçados por uma epidemia de fake news. E a melhor vacina é refugiarmo-nos nas notícias, interpretações e comentários fornecidos pelo assim chamado jornalismo profissional, ilha de verdades cercada por um oceano infestado de fontes traiçoeiras, que querem a todo custo enganar as pessoas.

Será? Vamos começar pela Venezuela. Ali teve uma eleição presidencial, a maioria da oposição boicotou, e Nicolás Maduro elegeu-se com 68% dos votos válidos, num comparecimento de 46%, o que dá uns 31% do eleitorado. O número é consistente com o apoio que o chavismo ainda recolhe, mesmo na grave crise econômica.

A aritmética não autoriza, portanto, falar em fraudes com impacto decisivo no resultado. Maduro ganhou não por causa de fraudes, teve uma vitória fácil porque as principais correntes e personalidades da oposição ficaram fora da disputa.

Você viu por acaso alguém fazer essa conta simples e questionar as autoridades e políticos, das várias cores, que denunciaram as eleições venezuelanas como ilegítimas? Você viu essa conta e esse raciocínio simples merecerem destaque, nem que fosse para ter algum contraditório, nos noticiários de grande alcance? A oposição denuncia fraudes, mas não oferece comprovações, e o total dos votos dados a Maduro é compatível com o apoio ao governo dele registrado nas pesquisas. Simples e objetivo. Mas não se disse.

Ah, mas esse seria um viés favorável ao Maduro. O equilibrismo a título de isenção virou pretexto para amputar, da realidade descrita, os fatos que não se encaixam na narrativa, na “nossa posição”, como se diz.

Alguém decidiu que a Venezuela é uma ditadura, então as eleições ali são ilegítimas, e com certeza foram fraudadas. Dispensa comprovação. Ah, tem também o argumento de que lá os principais líderes da oposição estão presos e/ou impedidos pela Justiça de concorrer. Bem, parece que há outro país nas redondezas em situação parecida.

Se a eleição na Venezuela foi ilegítima também porque os líderes da oposição não puderam concorrer, o PT tem razão quando diz que a eleição aqui sem o Lula será fraude? Você vai concordar que é uma pergunta razoável de se fazer. Você viu alguém do jornalismo dito profissional fazê-la? Nem que fosse para o interlocutor responder que no Brasil a Justiça é independente, e na Venezuela ela é controlada pelo governo? Essa resposta seria boa, mas perigosa, pois a tréplica é imediata: aqui como lá só quem foi/está impedido de concorrer é gente da oposição com chance real de ganhar.

Ah, mas isso seria um viés favorável ao PT. Então a saída é cortar fora também essa parte da realidade. E de pedaço em pedaço cortado fora, o que sobra para o consumidor de informação é o caroço, a seleção dos fatos capazes de corroborar a “nossa linha” editorial.

Uma maneira de falsificar a realidade é dizer que acontece algo diferente do que está acontecendo. Outro jeito, bem mais esperto, é contar só uma parte da história. Como dizia aquela propaganda, é possível contar um monte de mentiras dizendo apenas a verdade.

Foi o que aconteceu em Gaza. O fato: num dia, cerca de 60 palestinos morreram vítimas de atiradores do exército de Israel. Uma versão: os israelenses atiraram indiscriminadamente em manifestantes pacíficos, num verdadeiro massacre. Outra versão: os atiradores neutralizaram combatentes do Hamas e de outros grupos armados que buscavam romper as barreiras fronteiriças para penetrar em território de Israel, com o objetivo de atingir bases militares e a população das comunidades perto da linha de armistício.

Na terça-feira sangrenta prevaleceu a primeira versão, que recebeu farta cobertura. Mas na quarta, um dirigente do Hamas informou orgulhosamente que 50 dos 60 mortos eram seus combatentes. A Jihad Islâmica reivindicou outros três.

Como assim? 90% dos mortos pertenciam a duas organizações armadas? Bem, isso reforçava a versão israelense. E contradizia a angulação da cobertura anterior. Num jornalismo, digamos, saudável, isso seria notícia. E desencadearia um esforço independente de apuração para tentar saber afinal onde estava a verdade.

Aconteceu o contrário. A notícia foi escondida, ou simplesmente ignorada. Quando publicada, vinha algumas vezes acompanhada de advertências sobre a dificuldade de checar a veracidade dela com fontes independentes. Uma preocupação ausente da cobertura do dia anterior.

Sabem de uma coisa? É até compreensível. Se tivesse sido publicada ou veiculada com destaque, certamente o veículo seria acusado de pender para o lado de Israel. Então, em nome da suposta isenção e do suposto equilíbrio, preferiu-se sonegar a informação ao distinto público.

Sem contar que alguns textos dos dias seguintes continuaram dando livre curso à versão de ter havido um massacre de civis que se manifestavam pacificamente. Nenhuma preocupação de pelo menos avisar da existência de informações contraditórias. Esforço de apuração para descobrir a verdade? Nenhum. Curiosidade e inquietação para saber o que de fato se passou? Nenhuma. Ceticismo diante da fonte? Zero.

Existe mais uma vítima, esta não contabilizada, na tragédia de Gaza e na crise da Venezuela: o jornalismo.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 21 de maio de 2018

As muitas mortes de Osvaldo Aranha

O brasileiro que comandava a ONU em 1947 morre de novo a cada vez que um representante brasileiro vota ali contra Israel

A Praça Vermelha em Moscou ainda tem o mausoléu com o corpo embalsamado de Lenin, o líder da revolução bolchevique. Fora do edifício tudo mudou. O socialismo e a União Soviética acabaram. A Rússia aposentou a foice e o martelo e reabilitou os símbolos do império. O Tratado de Varsóvia é história e a OTAN chega cada vez mais perto de Moscou. A antiga superpotência foi rebaixada a “país emergente” e ocupa modestamente uma cadeira nos Brics.

Mas o Lenin mumificado continua lá no mausoléu, ainda que de vez em quando alguém proponha enterrar o cadáver do revolucionário morto em 1924. A idéia costuma ser rapidamente abandonada, pelo temor da confusão política que a remoção e o sepultamento provocariam. A União Soviética e o socialismo estão em fase de reabilitação na alma russa, até por evocarem um período de glória nacional. Os russos, como se sabe, são muito sensíveis a essas coisas.

Osvaldo Aranha morreu de ataque cardíaco em 1960 após uma vida dedicada à turbulenta política brasileira do período. No ápice da sua projeção internacional comandou a Assembleia Geral da ONU que em novembro de 1947 aprovou a partilha entre dois países, um judeu e um árabe, das terras que vão do Jordão ao Mediterrâneo. Aranha presidiu a sessão e apoiou a resolução. Não se deve subestimar o papel dele, nem superestimar. Ele teve importância.

Assim como Lenin na Moscou pós-URSS, aqui no Brasil exibe-se a memória embalsamada de Aranha quando é conveniente evocar o passado glorioso. No nosso caso, a benigna participação brasileira na votação que ofereceu a base legal para a declaração de independência de Israel. A ONU não criou Israel, o país teria sido fundado de toda maneira, mas a existência de um fundamento jurídico vem tendo peso no reconhecimento internacional do estado judeu, apesar da maciça rejeição árabe e muçulmana.

A favor do Brasil, pode-se argumentar que aqui, ao menos, a memória persiste, mesmo que reduzida a um ritual. Na URSS dos últimos anos de Stalin, com a tardia inclinação dele pelo antissemitismo, e depois da sua morte, o poder procurou insistentemente esconder que 1) os soviéticos votaram a favor da partilha da Palestina, 2) foram os primeiros a reconhecer Israel de jure e 3) armaram o estado judeu para travar e vencer a Guerra de Independência contra os árabes em 1948-49 (1).

A guinada antissionista da União Soviética veio quando os movimentos antimonárquicos e anticoloniais tragaram o mundo árabe e islâmico nos anos 50 do século passado. Na teoria, convinha mais à URSS apoiá-los e ligar-se a eles do que manter boas relações com Israel. O prêmio de ocupar o lugar dos britânicos como potência hegemônica na região era tentador demais. E até os anos 80 o investimento parecia ter retornado com sobras.

No Brasil, numa lógica algo paralela, a virada veio pelas mãos do regime militar, quando cristalizou-se a visão do destino do Brasil-potência vocacionado a disputar espaços com os Estados Unidos. Essa linha percorre todos os governos desde então. Com o estímulo decisivo dos dois choques do petróleo, o filo-arabismo e o filo-islamismo antissionistas consolidaram-se como nossa política de estado. E resistem bravamente a toda alternância de governo.

Resistem inclusive a toda mudança na geopolítica do Oriente Médio. O pan-arabismo deu lugar a uma disputa feroz entre os eixos sunita e xiita. A chamada “Primavera Árabe” atestou que o conflito entre Israel e os palestinos não é o único e nem de longe o principal ali. Mas o Brasil continua aprisionado em seus próprios preconceitos e ortodoxias. Para abusar da metáfora, a política externa brasileira para o Oriente Médio é outra que foi embalsamada.

A segunda das muitas mortes daquele Oswaldo Aranha de 1947 veio quando o Brasil de Ernesto Geisel apoiou em 1975 nas Nações Unidas a resolução que colou no sionismo o rótulo de "racista". Não faz sentido o não-racista apoiar a existência de um estado de maioria judaica e ao mesmo tempo dizer que a tese da libertação nacional dos judeus é uma doutrina racista. A coisa simplesmente não fica em pé. Ainda que política e coerência não costumem andar juntas.

Anos depois a ONU revogou a infâmia, mas a mancha ficou. Até porque a lógica daquele ato persiste até hoje. Algum país árabe ou islâmico apresenta uma proposta qualquer contra Israel e lá corre o Brasil a apoiar. É uma área da política externa brasileira que anda no piloto automático. Um exemplo é o endosso aos textos na Unesco negando, na essência, direitos de Israel à soberania sobre Jerusalém e demais lugares sagrados para os judeus na Terra Santa.

Aqui vale uma constatação. O antissemitismo tradicional diz que os judeus merecem ser castigados porque mataram Jesus Cristo. O fato de Roma ser a potência dominante na Judeia na época não sensibiliza os antissemitas clássicos, mas a acusação tem ao menos o mérito macabro de embutir uma constatação: admite que os judeus estavam ali dois mil anos atrás, antes portanto de Muhammad e da religião que ele criou, o Islã. Isso deveria ser irrefutável.

Não é irrefutável para o antissemitismo contemporâneo, que disfarçado de antissionismo nega qualquer vínculo nacional, histórico, religioso ou espiritual dos judeus com a Terra Santa, Hebron, Belém, e, principalmente, Jerusalém. Essa “interpretação” seria apenas uma aberração, não fosse pela ainda mais aberrante insistência da Unesco de “apagar” a presença judaica na Terra Prometida. E com o igualmente insistente voto favorável do Brasil.

O humor judaico é conhecido pelos traços cáusticos e por fazer graça das situações mais terríveis. Está bem retratado por Roberto Benini em La Vita è Bella, o premiado filme sobre pai e filho judeus italianos num campo de extermínio alemão. Talvez fosse o caso então de pedir aos novos antissemitas: “por favor, acusem-nos de termos matado Cristo; ele morreu em Jerusalém, então pelo menos assim vocês admitem que há dois mil anos nós já estávamos lá”.

Oswaldo Aranha despede-se de novo deste mundo sempre que o representante brasileiro vota na ONU em assuntos relacionados ao estado judeu. A morte mais recente foi quando o Brasil ajudou a condenar a decisão dos EUA de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Possuída por um antissionismo fanático, nossa política externa não notou que o voto agredia os fundamentos dela própria, e também as sistemáticas manifestações brasileiras sobre o conflito.

Na teoria, o Brasil defende o princípio da não-ingerência. E o que exatamente temos a ver com onde os Estados Unidos colocam sua embaixada em Israel? Se o Brasil seguisse neste caso sua própria doutrina, deveria considerar o assunto relativo apenas àqueles dois países. E votar contra a condenação. Como votaria nas situações similares, desde que não envolvessem Israel. Quando o estado judeu entra em pauta, nossos governos mandam às favas todos os alardeados princípios.

O contra-argumento a esse argumento é óbvio. O Brasil não reconhece Jerusalém como a capital de Israel porque se trata de região em litígio. E aí entra o aspecto mais pernicioso da atitude brasileira. Pois se há uma posição consolidada entre nós a respeito das eventuais fronteiras entre Israel e um possível estado palestino, ela defende respeitar a linha de armistício que vigorou entre 1949 e a Guerra dos Seis Dias, de junho de 1967.

Se o Brasil exigisse a implementação da resolução de 1947 defenderia a volta às fronteiras da partilha e a manutenção do status internacional de Jerusalém. Os mapas provam que só lunáticos veem viabilidade nisso. O racional é propor as fronteiras vigentes entre 1949 e 1967. Mas as escolhas têm consequências: durante a Guerra de Independência de 1948-49 Israel conquistou Jerusalém Ocidental, e até 1967 os muros da Cidade Velha eram parte da fronteira com a Jordânia.

Todas as instituições do governo e do estado israelenses ficam em Jerusalém Ocidental, dentro portanto dos limites reconhecidos pelo Brasil como de soberania israelense antes mesmo de 1967. Na Guerra dos Seis Dias Israel conquistou Jerusalém Oriental e a Cidade Velha, onde fica o Muro das Lamentações. Se o Brasil levasse a sério suas próprias declarações, deveria aceitar como legítima a total autoridade de Israel sobre o pedaço de Jerusalém que na prática vem sendo sua capital desde a Independência.

Ao recusar isso, a política externa brasileira envereda pelo curioso e talvez original “princípio da soberania relativa”: está de acordo que os israelenses exerçam a autodeterminação no território que o Brasil reconhece como sendo de Israel, mas desde que os palestinos também estejam de acordo. Dá poder de veto aos palestinos em decisões que deveriam ser soberanas do estado judeu. Ou seja, relativiza a posição brasileira de 1947.

Essa “autocrítica” de 1947 é uma marca registrada. Procurem-se as notas brasileiras de condenação quando líderes muçulmanos e árabes manifestam a intenção de riscar Israel do mapa e aniquilar os judeus dali. É muito difícil e raro ver algo pelo menos parecido com o repúdio que seria natural. Nas relações do Brasil com o Irã, por exemplo, esse é um não assunto. O Brasil exige que Israel aceite a Palestina, mas não exige que o Irã aceite Israel.

A regra tem sido o Brasil valorizar a relação com Israel nos aspectos em que o Brasil é beneficiado. E manter-se insensível ao interesse israelense em todas as outras situações, até nas mais delicadas. Enquanto isso, a memória de Oswaldo Aranha é evocada ritualmente sempre que é preciso cumprir o protocolo e as formalidades para mostrar que algo sobrevive daquele espírito que conduziu o voto brasileiro na ONU no já distante novembro de 1947.

Entretanto, assim como Lenin em seu mausoléu, as reverências e referências a Osvaldo Aranha são apenas o registro daquele mundo que não existe mais.

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(1) "Who Saved Israel in 1947?.” Artigo de Martin Kramer na revista eletrônica Mosaic Magazine. Link-> https://mosaicmagazine.com/essay/2017/11/who-saved-israel-in-1947/

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Publicado originalmente na edição de maio de 2018 dos Cadernos da Confederação Israelita do Brasil

Pressões para o PT apoiar Ciro são peça de um jogo maior: viabilizar o centro, mas pela esquerda

Uma parte conhecida do jogo político é o sistema de gôndolas. Os grupos sociais, hegemônicos ou subordinados, buscam alternativas nas facções políticas, para construir as maiorias eleitorais ou parlamentares indispensáveis à concretização dos chamados projetos de poder. Como quem escolhe produtos na gôndola do supermercado.

Assim, as facções político-parlamentares deslocam-se conforme sopra o vento, de olho principalmente na própria sobrevivência imediata. É um fenômeno que na literatura clássica recebeu o nome de cretinismo parlamentar. A força do desejo vai produzindo uma cegueira progressiva para o que existe fora do microcosmo. E o curto prazo esmaga o longo.

Claro que isso tem um custo, para quem flutua: logo à frente ele é descartado, e na primeira oportunidade, conforme deixa de ter utilidade. Mas o pássaro na mão costuma ser suficientemente tentador para desestimular a troca pelos dois que voam. E o ritual se repete em ciclos, sempre com novos atores. Não costuma faltar produto na gôndola.

Talvez estejamos vivendo um desses momentos. O nó da eleição está no fato de o establishment não ter um candidato que, ao mesmo tempo, empolgue a massa e se comprometa com a continuidade estrita do programa econômico e geopolítico do governo Michel Temer. Já se tentou de tudo. Ou, pensando bem, quase tudo. Ainda existem pelos menos duas cartas na manga.

Já se tentou construir a alternativa por dentro do governo Temer. Ela viria na onda do sucesso da economia e teria o nome de Henrique Meirelles. Mas a onda parece ser fraca, e politicamente quebrou cedo. E se viesse forte o presidente perguntaria, como perguntou: “por que não eu?". Então a coisa anda mal parada, tanto que a especulação passou a ser Meirelles vice.

Teve também a fase do novo. No começo era Luciano Huck, o que faria os liberais se conectarem ao povão pela primeira vez desde o Plano Real. Mas faltou couro grosso. Na hora h o astro percebeu que a relação entre o benefício e custo não seria boa. Huck precificou o risco e a inteligência prevaleceu sobre a vaidade. E ele caiu fora. Como Joaquim Barbosa depois.

A fraqueza do governo e o esvaziamento dos ensaios de novidade abrem uma nova janela de oportunidade para o PSDB. Bem ou mal, Geraldo Alckmin roça os dois dígitos, o partido tem musculatura, experiência com alianças políticas, tradição de algum diálogo com os adversários e a confiança absoluta do establishment. É, sem dúvida, a primeira carta na manga agora.

Alckmin e o PSDB enfrentam vento contra, por serem de algum modo sócios-fundadores do governo Temer e não estarem imunes aos estilhaços da Lava-Jato. É um erro pensar que o PSDB está fora do jogo, mas o partido e o candidato vão travar uma batalha morro acima. Além de tudo tem Bolsonaro e mais um punhado de gente no pelotão que disputa os votos da direita.

O establishment nunca aposta num único cavalo. E se Alckmin não decolar? Marina Silva parece frágil, e Bolsonaro é risco sério de derrota num segundo turno contra a esquerda. Álvaro Dias ainda precisa provar competitividade. Por que então não voltar ao supermercado e procurar uma esquerda que dê tonalidades populares a essa coisa de centro? Lula poderia ser isso, mas está fora.

Então por que não Ciro Gomes? Uma aliança com Ciro representaria para o PT a possibilidade de recomposição com o establishment, mas numa posição subordinada. Faz sentido para os governadores candidatos à reeleição. E faz sentido para petistas com perfil para a vice de Ciro. Mas não faz tanto sentido assim para Lula, que antes de tudo quer continuar mandando na própria tropa.

E o PT está preso a Lula, porque é ele quem tem os votos. E enquanto tiver isso estará politicamente vivo, mesmo preso. Ou seja, o preço que o establishment cobra para apoiar a esquerda, a morte política de Lula, é proibitivo para quem na esquerda tem garrafas para entregar, o próprio Lula. Esse é o principal complicador da segunda carta na manga.

Há sempre a alternativa de isolar o PT e tentar construir uma aliança apresentável como de centro-esquerda. O risco, como aconteceu em 2014, é direita e esquerda se juntarem taticamente para neutralizar o risco da quebra da polarização clássica, ou de repaginação da polarização.

E segue o jogo.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Preso, Lula mantém a iniciativa na disputa eleitoral

O mercado financeiro anda nervoso, dizem, com as últimas pesquisas. Uma razão, dizem também, é a anemia dos candidatos ditos de centro. Talvez devêssemos pedir um desconto na compra dessa versão, pois o nervosismo cambial parece afetar os emergentes em bloco. Mas alguma coisa está dando errado no roteiro das conexões projetadas entre economia e política.

O motivo parece claro: os resultados da ponte para o futuro, do consórcio que fez trocar Dilma Rousseff por Michel Temer, não parecem sensibilizar o eleitor a ponto de convencê-lo a decidir pela continuidade. E, assim como a maioria do eleitorado apoiou dois anos atrás aquela mudança, os levantamentos de intenção de voto indicam propensão a uma nova troca de guarda.

Importa menos aqui argumentar que a dose do remédio foi insuficiente, ou que o tratamento dará certo se o paciente esperar mais tempo pelos resultados: infelizmente, os dois turnos da eleição estão marcados para outubro. Isso implica que o resultado da urna será fortemente impactado pelo estado de ânimo do eleitor em agosto/setembro. É como as coisas funcionam.

Daqui até lá, os candidatos precisarão treinar ideias e colocar algumas propostas no forno, que ajudem a responder isto: para a economia crescer e gerar empregos, em quantidade e de qualidade, a melhor receita é mais Estado ou mais mercado? E tem os corolários, um deles como fazer para melhorar a situação da previdência social, esse abacaxi e tanto.

Em mais uma constatação de que não existe almoço grátis, se Dilma ainda estivesse no Planalto o PT estaria enredado no desafio de explicar por que produziu uma recessão recorde, e o liberalismo econômico estaria confortável em vender-se como a salvação da lavoura. Mas o governo Dilma foi para os arquivos, e o argumento eleitoral do PT serão os oito anos de Lula.

E atacar o PT, Lula, Dilma, terá efeito apenas relativo. É um engano achar que o petismo mostrou resiliência no poder porque atacou Fernando Henrique e o PSDB. O PT no poder ganhou três eleições seguidas porque seus resultados foram melhores, na percepção. As circunstâncias ajudaram? Isso não tem a menor importância como argumento de venda para o eleitor.

As pesquisas mostram um cenário em boa medida congelado, com um terço pelo menos do eleitorado à espera da definição de se Lula será candidato. Ou, numa proporção menor, quem será o candidato apoiado por Lula. Aqui, interpretações de viés messiânico vão errar: o pessoal não está aguardando cegamente a palavra do líder, espera pelo portador de alguma boa nova.

A opinião pública anda entretida com ideias vazias de significado popular, como o tal “centro”, ou então teses que impactam muito lateralmente, como o "novo”. Esqueceram que precisam responder o “para fazer o quê?". E o PT aproveitou esse lapso, de tempo e de ideias, para consolidar no eleitorado dele a saudade dos tempos de Lula, e da figura de Lula.

Eis por que o ex-presidente, preso, continua com a iniciativa. E isso dá sentido à tática petista de lançar a candidatura dele e ir com ela o mais longe possível. E ir observando os acontecimentos. E, na hipótese razoável de nenhum outro conseguir encarnar com força a esperança de dias melhores para o povão, aparecer, aí sim, com uma novidade. Esse parece ser o desenho.

Se vai funcionar, os fatos, sempre eles, dirão. Tudo sempre pode dar errado. Ainda mais num cenário confuso e complexo. Mas algum otimismo petista é justificável, pois os outros atores têm dado uma boa ajuda.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

domingo, 13 de maio de 2018

Os problemas de cada um na corrida pela vaga no segundo turno. E a lógica de Lula da prisão.

Vamos começar pela esquerda.

Ela tem alguns ativos: Lula e a má avaliação do governo Michel Temer e da política econômica. E tem problemas graves: Lula está preso e ficará inelegível quando a candidatura dele for registrada. Para complicar, sem Lula e sua liderança natural cada pedaço da esquerda enxerga a janela de oportunidade para deixar a sombra do PT.

Outro obstáculo é o isolamento político. O PT e aliados venceram as últimas quatro eleições presidenciais tendo também o apoio de pedaços da direita. Hoje isso é mais difícil. O PT perdeu o governo, e sua expectativa de poder é um ponto de interrogação. E a dificuldade de convergir o progressismo também dificulta atrair quem só se preocupa em acertar o ganhador.

Uma velha piada dos anos 70, quando se debatia interminavelmente na esquerda se a tática política deveria incluir alianças com não esquerdistas mas adversários da ditadura, os na época chamados de liberais: “Sabe a diferença entre o cara de direita e o liberal? Liberal é o cara de direita que nos apoia. Direita é o liberal que não quer nos apoiar." Desce o pano.

Neste 2018, quatro décadas depois, está em falta o não esquerdista que tope aderir a um projeto político capitaneado pela esquerda. Por duas razões. O capitalismo nacionalista foi abduzido de fora ou triturado, e deixou de ter capacidade de projetar subimperialismos. E o liberalismo dito centrista virou coadjuvante e se submete à hegemonia ideológica da direita.

Agora vamos olhar para a direita.

Ela tem dois ativos: o desgaste do PT e a inelegibilidade de Lula. E tem um problema grave, além da falta de resultados populares na economia: o radicalismo abre espaço a que o PT e a esquerda voltem a ter mercado eleitoral potencial em segmentos que vinham progressivamente buscando distância de Lula e aliados. A direita também corre o risco de isolar-se no fim.

Sobre a economia, o problema da direita é a recuperação em curso estar fortemente baseada em ganhos de produtividade. Ninguém, ou quase ninguém, está recontratando no ritmo das demissões da recessão. Por isso, a retomada só é bonita nas páginas do jornalismo econômico. Quem está desempregado ou caiu degraus na escala social do trabalho não acha graça.

Outro problema: Nas últimas quatro eleições o PSDB perdeu mas manteve a hegemonia em seu campo porque conseguiu, em algum momento, apresentar-se como a expectativa mais palpável de poder. Um desafio de Geraldo Alckmin é descolar do bolo de um dígito e, a partir daí, passar a atrair os outros pedaços da direita que se vestiram de centro para a festa da eleição.

E tem Jair Bolsonaro. A resiliência dele cria um obstáculo aritmético para os desafiantes em seu campo. A velha lógica diz que ele perderá substância quando a campanha começar, pelo pouco tempo de televisão. Mas, e se a lógica tiver mudado? Como fazer? Bater nele? Nos concorrentes “de centro”? No PT? Não bater? Um desafio e tanto para o marketing.

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Na esquerda, o aliancismo lamenta que Lula e o PT estejam aferrados à tática de esticar a corda até o final e segurar o jogo. Mas, se a viabilidade da aliança depende do PT e de Lula, por que estes deveriam se submeter à lógica política de quem tem menos garrafas para entregar?

As manifestações de Lula da prisão são óbvias: ninguém está obrigado a segui-lo, mas se quiser seguir será nos termos dele, que é quem tem os votos.

Não tem bonzinho na política, outro ramo da atividade humana onde quem pode mais chora menos. E se alguém chora mais é porque pode menos.

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Talvez o mais inacreditável na história do documento da CIA sobre Ernesto Geisel, João Figueiredo e a política de extermínio de adversários políticos é o papel ser público desde 2015 e ter sido descoberto só agora, por acaso. Engenharia de obra feita, pelos outros, é fácil. Dito isso, cada um que tire suas próprias conclusões sobre o episódio.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

As boas intenções nos levam ao inferno

Joaquim Barbosa saiu da disputa presidencial e (surpresa!) culpou o sistema político. Mais ou menos como fizera Luciano Huck. Assim, até eu. Quando o jogo é à vera e fica difícil, caio fora e não brinco mais. A vida é dura, camaradas.

Huck desistiu duas vezes da candidatura, e o farto noticiário secou. Barbosa está filiado ao PSB, e daqui até agosto pode ser especulado para outras posições. Deve continuar frequentando, agora talvez como moeda de troca do partido.

O sistema político brasileiro é mesmo bastante impermeável à renovação. E aqui vale o velho ditado, de que de boas intenções está cheio o inferno. Os recentes movimentos para melhorar só têm ajudado a piorar.

A opinião pública exigiu fidelidade partidária. Exigiu o fim do financiamento empresarial das campanhas e partidos. Conseguiu ambos. O resultado: a política brasileira consolidou seu traço cartorial. Consolidou o poder dos proprietários de legenda.

Se o sujeito não quiser enveredar pelo crime nem ser fantoche de milionário entediado que resolve gastar um troco para brincar de renovar a política, o único caminho é submeter-se a algum dono de partido.

Para poder concorrer e ter recursos na campanha. Daí por que todas as previsões apontem taxa de renovação baixa este ano no Congresso. Pois o dinheiro do fundo eleitoral será canalizado preferencialmente para quem já tem mandato. #FicaaDica.

Verdade que nossa opinião pública lutou bravamente contra o fundo público eleitoral. Mas aí também já seria demais. Fazer política sem dinheiro é quase tão possível quanto, por exemplo, fazer jornalismo sem dinheiro. A realidade acaba por prevalecer.

De um jeito ou de outro. E ela prevaleceu. Não completamente, como lembrou na 3ª feira ao Poder360 um aliviado Jair Bolsonaro, quando perguntado como fazer para diminuir o excessivo número de partidos.

Singelamente, o atual líder nas pesquisas sem Lula respondeu que se houvesse menos partidos –outra exigência da opinião pública– possivelmente ele não conseguiria ser candidato. Você não precisa curtir o Bolsonaro para aceitar essa verdade.

Se ao quadro atual acrescentarmos a cláusula de barreira, aí sim o serviço estará completo. E isso já está contratado, para daqui a 4 anos. E a opinião pública poderá, como Nero, tocar harpa enquanto Roma pega fogo.

A causa de o Brasil ter muitos partidos não é legislação frouxa. Os partidos multiplicam-se porque é impossível desafiar os donos de legenda por dentro das estruturas.

Aqui Barack Obama jamais teria derrotado Hillary Clinton, muito menos Donald Trump conseguiria tratorar todo o establishment do Grand Old Party. O resultado é a multiplicação das siglas pelo que na biologia se chama de cissiparidade. Quando o ser vivo nasce do outro por uma simples mitose.

E mesmo essa fresta será em boa medida bloqueada, pois a partir de 2022 os novos partidos não terão mais dinheiro nem tempo de televisão. Sem poder arrecadar de empresas ou comprar publicidade, quem quiser desafiar o sistema terá de lutar em condições completamente desiguais.

Ou meter-se a negociar com o oligopólio partidário. E teremos regredido na política ao estágio tribal. Vai ser divertido assistir o pessoal tentando desatar o nó.

Não seria tão difícil assim de resolver. Bastaria impor mecanismos para democratizar a vida partidária-eleitoral. Por exemplo, exigindo que os candidatos sejam escolhidos em eleições internas com direito a voto de todos os filiados. E limitando o direito de veto a filiações. E proibindo o partido de ter candidato onde só tenha comissão provisória. E voltando o financiamento empresarial, mas com duros controles. E permitindo a compra de publicidade.

Dá para fazer. Seria um avanço civilizatório para a nossa democracia. E seria glorioso ver varridos para a lixeira todos os “aperfeiçoamentos” recentes. Vai acontecer? Duvido. Os sabichões da opinião pública precisariam admitir que fracassaram e que suas brilhantes ideias produziram o oposto do que prometiam. Não sei se estão preparados para tanto.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Álvaro Dias corre por fora. Se encostar em Alckmin, ganha músculos para disputar o projeto dito centrista

Poucas vezes no Brasil foi tão verdade a máxima do mineiro Magalhães Pinto, da política como as nuvens no céu. “Você olha, e está de um jeito; você olha de novo, e está de outro.” Em especial no chamado centro, que procura se ajeitar para tirar ou a esquerda ou a direita de raiz do quase certo segundo turno, dado o número de candidatos com razoável intenção de voto.

A semana foi boa para Geraldo Alckmin, que vê murchar rapidamente a viabilidade de um adversário governista puro na eleição. As atribulações jurídicas atrapalham Michel Temer e a pasmaceira econômica é um obstáculo a Henrique Meirelles. Nada é definitivo, mas qualquer um dos dois terá de enfrentar batalha morro acima para demover o MDB de não ter candidato.

A tática de Alckmin é boa. Garantir uma coligação com algum músculo e esperar pelo esvaziamento dos adversários em seu campo. Com o governismo, isso já está encaminhado. Restam porém dois problemas: o polo Marina Silva/Joaquim Barbosa e, menos falado, o projeto do senador Álvaro Dias. O primeiro está sujeito aos humores do PSB. Vamos então tratar do segundo.

A pré-campanha de Dias vai em relativo silêncio, mas tem ganhado terreno. Seu Podemos atraiu parlamentares, ele mantém consistentemente um patamar não desprezível nas pesquisas e está bem fincado no Sul, especialmente no seu estado, o Paraná, essa Canudos da Lava-Jato. Tem experiência na administração, foi governador, e percorre longa carreira legislativa.

Uma desvantagem de Dias para Alckmin, no momento, é São Paulo. Mas o ex-governador paulista enfrenta em seu reduto um Jair Bolsonaro que parece entrincheirado. Se e quando conseguirá finalmente esvaziar o balão do capitão, é uma incógnita. Em 2014 Aécio Neves conquistou São Paulo só na última semana do primeiro turno, e por absoluta falta de adversário.

Outro problema de Dias é a relativa fraqueza partidária. Que ajuda a vender a ideia de uma candidatura “nova”, mas traz também desvantagens operacionais e políticas, como a a dúvida que assola a dupla Marina-Barbosa: “Vai conseguir governar?". Horror aos políticos e à política é chique antes da eleição. Depois de eleito, passa a ser um passivo.

Se bem que 2019 trará, caso vingue a eleição de um dito centrista, a pressão furiosa do establishment, imprensa incluída, para o Legislativo absorver, sem grande resistência, os projetos do vencedor. “É agora ou nunca.” A passividade algo bovina do atual Congresso diante da desenvoltura legislativa-constituinte do Supremo Tribunal Federal faz crer que a tática pode colar.

Poucas vezes se viu um Congresso tão disposto a abrir mão de poder, para proteger-se. Diante do movimento em pinça da Lava-Jato e do STF sobre o Legislativo, a reação dos deputados e senadores tem sido o não-confronto. Se isso se mantiver após janeiro, um presidente dito centrista poderia ter a oportunidade de tentar governar por meio de um bonapartismo de elites.

Mas é prudente um candidato a presidente procurar costurar alguma base política. Quem está mais adiantado nisso é Alckmin. Se Dias atrair o PRB de Flávio Rocha e avançar na disputa do Democratas, entra decisivamente no jogo. E se Dias encostar nas pesquisas em Alckmin pode criar uma onda, ou pelo menos uma janela de moda. Se vai aproveitar ou não, é outra história.

Só uma coisa é certa: o establishment fará o diabo para empurrar um mais autêntico dos seus ao segundo turno. Onde o antipetismo, a rejeição a Bolsonaro ou a anemia político-programática de Marina ou Barbosa serão usados maciçamente para definir a eleição. A peça está escolhida, o teatro também, e entramos agora na fase da seleção do elenco.

A economia entra no período eleitoral como um passivo. A não ser que haja um milagre daqui até outubro, os condutores dela deverão ter de explicar o que deu errado. Especialmente na reforma trabalhista, que reduziu custos do capital mas não implicou retomada da força de trabalho. Um desafio e tanto para os jornalistas e publicitários das campanhas.

E um problema para Alckmin, pois a reforma trabalhista é mais até do PSDB que do governo Temer.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Ortodoxos de mau humor, um sintoma de que as coisas não vão bem

Um indicador importante do andamento da política econômica é o humor dos economistas que defendem a política econômica. E eles estão de mau humor, com razão. O Poder360 listou os números mais recentes 2ª feira, bem no meio do feriado prolongado, e são desanimadores.

Na imprensa e nas redes sociais, os chamados ortodoxos têm escorregado para a desqualificação dos adversários. É sempre um sintoma.

A escolha dos adversários do PT em 2015/2016 não era simples. A economia do 2º mandato de Dilma Rousseff estava em frangalhos, produzia-se uma recessão de tempos de guerra.

O PT chegaria à eleição de 2018 com a missão duríssima e monotemática: responder por que tinha conduzido o país ao desastre. Mas deixar o PT no poder era arriscado. O partido já tinha mostrado 3 vezes que no governo tem o know-how para ganhar eleição.

O que aconteceu todo mundo sabe, e o governo Michel Temer assumiu com um objetivo: melhorar a economia e chegar a 2018 com o mérito de ter salvo o país do desastre produzido pelo PT.

O argumento eleitoral seria automático. “Você quer que o Brasil continue se recuperando ou prefere a volta de quem quebrou o Brasil e produziu a recessão e o desemprego?” Para alcançar o alvo, a receita era mais disciplina fiscal e forte estímulo ao investimento privado.

Só que parece não estar funcionando. Nesta véspera de eleição a economia vai mal, o governo e o Congresso patinam e a oposição tem a oportunidade de fazer do debate um julgamento da política econômica de viés liberal.

Uma única bala para atingir 3 adversários: o do governo, Geraldo Alckmin e o próprio Jair Bolsonaro, que terceirizou o assunto para Paulo Guedes. Sem contar outros hoje menos votados, como João Amoêdo e Flávio Rocha.

É tentador demais. “Por que a economia afundou no governo Dilma? Porque ela abriu mão de impostos, acreditou que os empresários investiriam e gerariam emprego, mas os empresários preferiram colocar o dinheiro a juros. Aí a situação das contas públicas se deteriorou, o desemprego explodiu, o consumo despencou e a economia foi para o abismo. Se a gente ganhar em outubro, a política econômica vai ser a do Lula, e não a da Dilma.”

Note, leitor ou leitora, as aspas. Não discuto aqui se esses argumentos estão “certos” ou “errados”. Ou quanto de honestidade intelectual há nas teses lado a lado. Vou deixar isso para o interminável debate entre liberais e keynesiano-marxistas, polêmica que promete se prolongar até o fim dos tempos.

A discussão aqui é sobre percepção, o elemento decisivo nas campanhas eleitorais. Já que, para desgosto dos especialistas, a eleição é decidida pelos leigos.

O liberalismo entra em desvantagem na porfia. Terá de explicar que o resultado não é bom porque a dose do remédio foi insuficiente. Ou que a política atrapalhou a economia. Vão soar como desculpinhas.

A saída? Tentar deslocar o debate eleitoral da economia para a corrupção, sempre um tema popular. O problema? Uma disputa eleitoral centrada na denúncia da corrupção política não seria o melhor ambiente para um candidato “de centro”. #FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A maior dificuldade para o "centro" é ser, até o momento, indistinguível da opção mais autêntica: Bolsonaro

O espaço noticioso e analítico ocupado até agora pelo autonomeado centro (eliminaremos doravante as aspas por economia de espaço) anda diretamente proporcional à indiferença do eleitorado diante de ter ou não um candidato centrista competitivo. O fenômeno não chega a ser novo. De tempos em tempos nossa nata intelectual se refugia num universo paralelo.

Essa fuga resulta também de certa conhecida compulsão sebastianista, de buscar num passado que nunca volta velhas soluções para um presente recheado de problemas algo originais. E o problema novo do centrismo é ter perdido a hegemonia sobre seu bloco, ter perdido a capacidade de subjugar pacificamente a direita de raiz, como fazia desde a redemocratização.

Ou desde pelo menos 1994, quando Fernando Henrique Cardoso se aliou ao PFL para, impulsionado pelo Real, derrotar Lula. Bater o líder petista ali e dali a quatro anos deu não só dois mandatos presidenciais ao PSDB: deu-lhe o comando sobre um bloco histórico, posição que resistiu à passagem de um quarto de século, e a três derrotas em disputas presidenciais.

Mas parece não estar resistindo à quarta. Assistimos à rebelião da direita contra o PSDB, e a resiliência de Jair Bolsonaro é uma expressão. Em parte porque os tucanos compartilham com o PT fragmentos do DNA e da visão de mundo, como Jessé de Souza explica. Em parte porque a direita desconfia de que pôr as fichas no PSDB arrisca uma quinta decepção no pano verde.

É difícil a equação do PSDB. Se acenar à esquerda, corre o risco de alienar decisivamente uma massa eleitoral que lhe dá competitividade desde FHC. Se ceder ainda mais à bolsonarização, abre espaço a que o PT, ou algum satélite petista, apareça, numa armadilha típica da política, com alternativas eleitorais palatáveis ao centrismo. Será que Lula está nessa?

Foi sintomático FHC lamentar dias atrás não ter mantido pontes melhores com a esquerda. Tem algo de Fausto entristecido quando o tinhoso traz a conta depois da longa juventude, mas não deixa de ser interessante. O ex-presidente tucano deve estar desconfortável como aiatolá ainda oficial de uma legenda cujos novos líderes preferem o MBL a Max Weber.

FHC é cada vez mais apenas um retrato na parede, tratado com respeito, mas de influência residual. O PSDB hoje é João Doria, Nelson Marchezan, Nilson Leitão e Rogério Marinho. Vem também daí parte das dificuldades de Geraldo Alckmin, que talvez sintetize melhor o centrismo à procura de uma cadeira depois que a música parou de tocar de repente.

O que distingue exatamente hoje o discurso e o programa do PSDB, e de outros candidatos à cadeira do centro, do bolsonarismo? Quem tiver tempo e paciência, que se aventure na missão de procurar. Na economia, talvez uma dose a mais de liberalismo. Para azar, os últimos resultados da política econômica não são exatamente animadores eleitoralmente aos liberais.

Sobre a Lava-Jato, PSDB, centristas menos votados e bolsonaristas estão alinhados no apoio entusiástico à prisão e à inelegibilidade de Lula. O que faz mais complicada a missão de algum petista, talvez Fernando Haddad, disposto a reconstruir aquele sonho do final dos anos 80 e início dos 90, de uma aproximação com os tucanos em torno de teses social-democratas.

Restam os temas identitários e ambientais. Aí poderia ter jogo. O tucanismo poderia eventualmente reinventar-se como macronismo, juntando liberalismo econômico, identitarismo e ambientalismo. Não por acaso é a pauta feroz e recorrente de onze entre dez dos nossos principais órgãos de imprensa. Talvez seja o sonho secreto de FHC. Mas não seria fácil de operar.

Faltam os atores adequados na direita e no dito centro. Joaquim Barbosa? Veremos como se desenvolve a campanha. Mas as pesquisas mostram que não é coisa simples demolir os blocos ideológicos alinhados de cada lado, apesar do esforço da opinião pública, a advertir toda hora sobre o risco do extremismo. Quatro anos de Lava-Jato deram bom gás aos radicais.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Agitar a miragem do novo é o que há de mais velho

O debate em torno do centro veio substituir a discussão sobre o novo, que agora volta com força pelas mãos da provável candidatura de Joaquim Barbosa. Que nos sonhos da direita autodita centrista fundiria as duas qualidades: ser apresentada como a novidade de centro. No popular, juntaria o útil ao agradável, ou a fome com a vontade de comer.

E assim segue o debate eleitoral, orientado por miragens, como o novo ou o candidato de centro, sem nunca tocar no essencial: o que o indigitado vai fazer caso o eleitor decida dar a ele 4 anos no Palácio do Planalto. Até agora, os adjetivos e aparentados dominam a cena. Os substantivos, coitados, estão muito atrás na fila. Com boa chance de nunca serem chamados.

A esperança é a última que morre, então tenhamos esperança de que num belo dia o diálogo eleitoral apareça recheado de substantivos e verbos, esses elementos que injetam vida na comunicação. Já fui mais otimista, mas confesso que as últimas semanas diluíram meu otimismo. E a culpa, claro, é da esquerda e do PT.

Mesmo sob fogo cerrado, a esquerda e o PT conseguiram chegar até aqui exibindo músculos suficientes para a competitividade eleitoral. Diante disso, a direita, sempre desconfiada da própria capacidade de bater a esquerda num mano a mano transparente sobre como cada um vai governar, escapole para a velha fórmula do novo, agora atualizada pelo ingrediente centrista.

Em vez de discutir reforma da previdência, é muito mais fácil fazer campanha dizendo que todos os políticos são corruptos e o Brasil está seriamente ameaçado pelo extremismo. A solução, portanto, seria recorrer a alguém moderado e de fora do sistema, para inocular benignidade numa política tomada pela praga maligna da corrupção. E do extremismo. Depois da urna virá a conta, mas aí o serviço estará feito.

Se os propagadores dessa linha parassem para pensar com alguma honestidade intelectual (só os ingênuos acreditam que a política pode ser conduzida assim), ou pelo menos cuidassem de evitar passar vergonha mais adiante, admitiriam que poucas coisas são mais velhas na política brasileira do que aparecer na véspera da eleição brandindo a foto do novo que vai acabar com os políticos corruptos. Foi a fórmula de Jânio em 1960 e a de Collor em 1989.

Mas é preciso reconhecer: é inteligente tentar repetir o estratagema, pois das outras vezes deu certo. “Primeiro a gente elege ele, para evitar a vitória dos esquerdistas. Depois, se precisar, a gente derruba. ”Foi assim com Jânio, para acabar com a longevidade do getulismo. Foi assim com Collor, escalado contra o “monstro Brizula”, o pesadelo de ter Brizola e Lula na final.

E o detalhe curioso: três décadas separaram Jânio Quadros e Fernando Collor. E três décadas passaram desde a eleição do primeiro presidente pós-1964. Que assumiu pouco mais de três décadas após a revolução de 1930.

Talvez a mistificação do novo esteja de algum modo vinculada a fins de ciclo, e à incapacidade de o sistema se auto-renovar. Por que diachos a política brasileira vive de soluços? Bom tema para outra análise.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O primeiro tempo da final realista e fantástica acabou. Está 1 a 1. E vai ser jogo duro até o fim. Ou até depois

O juiz apitou o fim da primeira etapa e a partida vai empatada em 1 a 1. Lula está preso e a tentativa insistente de fazê-lo concorrer nas eleições será apenas um esticar de corda. Mas Lula também conseguiu sair das ruas querido pelos dele, em vez de apenas apedrejado, cuspido e xingado pelos adversários. O jogo que era para estar decidido continua aberto.

É improvável que a prisão tenha corroído decisivamente o capital político de Lula, do PT e do bloco de esquerda. No outro lado, a narrativa que consolida é a de Bolsonaro, dificultando descontruí-lo, e portanto tornando mais complexa a missão do autonomeado centro. O centrismo e o bolsonarismo ainda não são indistinguíveis, mas andam cada vez mais parecidos.

Já o juiz da partida parece ter suas próprias circunstâncias. Apita sem se sentir obrigado a seguir a International Board. E é sensível à pressão para dar um jeito de os dois times perderem. O que poderia eventualmente produzir a situação inédita de alguém da arbitragem levantar a taça. Pois nada deve ser descartado neste torneio de realismo fantástico.

E as coisas estranhas de um jogo estranho não param aí. O chefe do policiamento deu de opinar sobre como prefere que o juiz apite. E na tribuna de imprensa, em vez do barulho do teclado das máquinas (coisa antiga, sei), só se ouve o alarido da torcida para o juiz expulsar o máximo possível de jogadores de cada lado, mesmo que isso leve a decisão para o STJD.

Não é impossível os 90 minutos (ou a prorrogação, ou os pênaltis) conseguirem chegar ao final e alguém sobreviver para erguer o troféu. A inércia é poderosa. Mas engana-se quem acha que a coisa acaba aí. O perdedor vai ao tribunal. E a possibilidade de uma solução boa é mais ou menos a mesma de Flamengo e Sport conseguirem acordo sobre quem foi campeão em 1987.

Haja metáforas. Vamos à vaca fria. Com Lula fora, a esquerda precisará deixar de lado o faz-de-conta e decidir o que quer da eleição. Se é só "marcar posição” ou usá-la para preservar força política institucional. E a direita precisará começar a depurar seu amplo leque de opções, para tentar reduzir o risco de não comer o bolo depois de comandar toda a festa.

Os problemas de cada lado são visíveis. O único terreno em que a esquerda consegue unidade de ação é na luta para ver Lula livre. Conforme o processo eleitoral caminhar, precisará dar um jeito de apresentar ao distinto público uma alternativa de poder. Quem gosta de voto de protesto é intelectual, diria Joãosinho Trinta. Povo gosta mesmo é de governo que resolva.

Na direita, continua o desafio de vencer a eleição dizendo o que vai fazer se ganhar. Seu programa não é em si popular. No governo, a direita brasileira só faturou eleições quando a economia ia bem. E se a recessão parece mesmo ter acabado, nada indica que a recuperação virá com forte redução do desemprego e aumento de renda, a tempo de influir na urna.

Sem contar, e ainda tem isso, a permanente ressureição do “novo”. Marina relançou-se, mas o nome da vez é Joaquim Barbosa. Ele terá uma posição privilegiada no segundo turno, se chegar lá. É razoavelmente votável pela esquerda contra a direita, e também pela direita contra a esquerda. Por isso, ambas certamente farão tudo para acabar com ele no primeiro.

Há hoje cinco nomes com chance real de ir ao segundo turno. O candidato de Lula, Bolsonaro, Marina, um nome “de centro” e Barbosa. Ciro entra no grupo se atrair o apoio da esquerda. Se esta operar bem, tem vantagem para ocupar uma das vagas. O que faz crer numa guerra do outro lado. Com Bolsonaro e Marina, principalmente, trabalhando para lipoaspirar o PSDB.

E sempre tem o governo. Pego emprestada a frase: governo no Brasil é que nem cobra, até morta pode matar. Sarney, no chão, quase embaralhou a eleição de 1989 com a candidatura de Silvio Santos. Em meio à confusão, aliás, uma estrutura razoavelmente operacional continua sendo a administração Temer. Não tem prestígio, mas sobra-lhe munição.

Em meio ao caos, uma força organizada leva vantagem. Está aí a chave da conjuntura e do processo eleitoral. Quem conseguir se arrumar antes para apresentar-se ao eleitor como um produto viável para enfrentar os grandes desafios nacionais pode conseguir boa vantagem na largada. E se o circuito revelar-se de ultrapassagens difíceis, isso pode ser decisivo.

Haja metáforas. Talvez o número delas seja proporcional à confusão.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O PT entre o PowerPoint e o Excel

Faltaram a Lula e ao PT no STF força própria e alianças. É exatamente o risco que ameaça o partido na eleição de outubro. A legenda encara dois desafios: 1) reagrupar em torno de outra alternativa os cerca de 30% que se mostra(va)m dispostos a votar no ex-presidente e 2) montar chapas nos estados para recolher os cerca de 20% que declaram o PT a sigla preferida. Nenhuma das duas empreitadas será simples, especialmente com Lula imobilizado e desconectado do mundo exterior.

A favor do partido, resta a até agora bem-sucedida operação de politizar ao máximo todo o episódio de caça e condenação. Isso rendeu uma narrativa essencial para atravessar o deserto. Falta ainda saber quanto de espetáculo haverá na captura e no recolhimento do ex-presidente à prisão, e o efeito disso no eleitorado. Uma vez Lula preso, entretanto, a vida prática imporá ao grupo político por ele liderado a necessidade de organizar a batalha de outubro. No cenário positivo, buscando a vitória. No outro, a sobrevivência como ator relevante do palco institucional.

Segundo todas as pesquisas, Lula tem forte influência e capacidade de convencimento em um pedaço do eleitorado medido entre 25% e 30%. Mas isso é, por enquanto, potencial. Precisará ser realizado. O desafio estará na execução. Como em outras atividades, não é pequena a distância entre os slides do PowerPoint de planejamento estratégico e os números frios da última linha do Excel com os resultados da vida real. Uma coisa é a pesquisa dizer que 25% votariam no candidato do Lula. Outra é 25% votarem. Demandará muito trabalho.

O risco de dispersão não é pequeno. É da natureza da política, e da natureza humana, que os demais nomes do chamado campo progressista sejam pressionados pelos seus respectivos grupos a tocar a vida, enquanto o PT fica às voltas com a busca de uma alternativa à inviabilizada candidatura do ex-presidente. E quanto mais o petismo esticar esse enredo, para extrair da vitimização o máximo de dividendos, mais se complicará a vida dos alternativos. Fazer campanha normal ou manter-se na órbita do movimento petista de esticar a corda?

O outro lado

Se Lula fora da disputa remove parte do estímulo à polarização com Bolsonaro, o efeito mais visível da caça judicial e política ao ex-presidente vem sendo uma, digamos, bolsonarização do campo oposto. O episódio todo vem comprovando o caráter ficcional, ainda que baseado em fatos reais, da ideia de existir um “centro” na política brasileira em 2018. Ao contrário, é Bolsonaro que cada vez mais se torna mainstream. Não por estar se deslocando ao centro. Mas pelo “centro” estar navegando para a direita. Basta olhar o que vai, por exemplo, pelo PSDB.

Outro efeito provável da decapitação eleitoral de Lula será o “por que não eu?”. Reduz-se o estímulo a convergências do outro lado. A dispersão abre a possibilidade de ir ao segundo turno alguém, ou mesmo dois, com baixa votação, o que acende ambições em projetos por enquanto flácidos ou até anêmicos. Marina, Alckmin, Álvaro Dias, Temer, Rodrigo Maia, Meirelles, Rabello de Castro, Amoêdo, Flávio Rocha etc. A lógica diz que alguns destes sairão e outros serão vices. Mas a tendência no momento é centrífuga.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

De omelete em omelete, vão acabando os ovos da democracia constitucional. E alguma Constituinte vem aí

O Brasil contempla a demolição explícita do edifício democrático-constitucional erguido na passagem que fechou o período de hegemonia militar (1964-85). Essa transição culminou na Carta de 1988, feita pelo Congresso com poderes constituintes eleito em 1986. A nova ordem ainda não nasceu, mas a velha já morreu. Ainda que de vez em quando pareça estar viva.

É sintomático que o respeito à letra da Constituição tenha deixado de ser argumento importante para decisões judiciais mais relevantes. Aqui, as formalidades importam pouco: quando o julgador descumpre uma norma constitucional a pretexto de estar interpretando um princípio constitucional abstrato qualquer, apenas reveste a coisa de alguma elegância.

A Carta de 88 mal veio e já entrou na linha de tiro. Imediatamente, o liberalismo econômico abriu campanha contra os aspectos corporativos, estatizantes e distributivos dela. Restavam porém relativamente intocados alguns mecanismos sociais conservadores. E os um dia reverenciados direitos e garantias individuais, que a faziam “uma das mais modernas do mundo”.

Agora não mais. Cada pedaço do texto passou a ser alvo de desconstrução. A moda vinha ganhando novas cores desde os anos 90, quando a esquerda se acostumou a ir ao STF sempre que derrotada nas reformas pró-capitalistas do governo do PSDB. E a tendência só se reforçou. Hoje, o Supremo virou no dia-a-dia casa revisora e “vetadora” do Congresso e do Executivo.

Uma aberração, mas lógica. A esquerda exige do STF respeito à letra da Constituição contra a obrigatoriedade da prisão após condenação em segunda instância, no contexto do respeito às garantias e direitos individuais. E festeja quando o tribunal, e não vê contradição nisso, revoga as normas constitucionais antiaborto e em defesa da chamada família tradicional.

Já o jornalismo levanta-se em armas na luta pelas liberdades de expressão e imprensa, mas aceita bem relativizar qualquer outro direito individual ou coletivo, se for necessário para combater a corrupção. Vale, para quem não é da casa, o “não se faz o omelete sem quebrar os ovos”. De vez em quando lamentam-se “excessos”, por atrapalharem a empreitada. E só.

A direita nunca chegou a curtir o texto de 1988, pelos motivos já apontados, mas o abandono dele pela esquerda e pela imprensa vem sendo fatal. O resultado mais bizarro é transformar o STF numa espécie de regência de onze regentes, e com amplos poderes constituintes. Uma completa anomalia pelo ângulo da assim chamada democracia representativa.

Este status quo é insustentável, e os exemplos históricos indicam que deverá ser substituído por alguma forma centralizada de poder político, quando a sociedade estiver esgotada da bagunça, pela absoluta impossibilidade de essa bagunça produzir prosperidade e paz social razoavelmente sustentáveis no tempo. A dúvida é quem vai cortar o nó górdio desta vez.

O apodrecimento político do Brasil de 2018 é exatamente função de nenhum ator ter a força para promover a ruptura, amputar o membro gangrenado. O nome mais lógico para a missão será o presidente eleito em 2018, um candidato a Bonaparte, ainda que trazido pela urna. Não chegará a ser uma novidade para nós, mas só estará disponível em janeiro de 2019.

Ele vai enfrentar entretanto inimigos formidáveis. Um são as corporações de Estado empoderadas e endeusadas pela opinião pública que viu nelas, com alguma razão, o instrumento disponível para mudanças políticas que não deu para fazer pelo voto. Ou alguém acha que STF, MPF, TCU etc vão se recolher apenas por haver um novo presidente saído da urna?

Outro desafio será um país plenamente convencido, após anos de doutrinação, à esquerda e à direita, de que os corruptos são a razão maior de o Estado não ter dinheiro para resolver os problemas da saúde, da educação, da segurança, dos transportes públicos. E que portanto basta eleger um governo honesto para os recursos aparecerem.

Como não basta, o novo presidente precisará tirar algum coelho da cartola para a frustração popular não se voltar contra ele bem cedo. Um coelho disponível, já que a Constituição foi para o vinagre e o processo constituinte está em curso aos trancos e barrancos, é pegar uma carona nele, tomando a liderança e chamando a sociedade para participar.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Mais fácil achar o ET de Varginha que uma saída para a crise

A esta altura, parece termos chegado a um consenso: o Brasil entrou em excepcionalidade político-jurídica. Alguns apontam um estado de exceção já instalado, com objetivo eleitoral. Para outros, seguir as leis e a Constituição ao pé da letra facilita a impunidade dos corruptos e, portanto, deve-se ler a Carta não à luz do nela escrito, ou das intenções do constituinte, mas pelo lado do interesse social.

Essa segunda visão introduz o problema clássico: quem decide qual é o “interesse social"? A resposta certa é conhecida: define "interesse social” quem tem força para impor sua vontade ao conjunto do país. Desculpe o leitor a crueza, mas ela é pedagógica: debater “quem tem razão” na política costuma ser fútil e inútil. Tem razão na política, como diria o He-Man, quem tem a força.

Mas a discussão não acaba aqui. Ela mais é complexa, pois tentar convencer de que se tem razão ajuda a acumular força para, no final, ter razão. Daí os prolongados debates sobre legitimidade e outros substantivos vistosos e abstratos. Se consigo fazer acreditar que estou dentro das regras, mesmo estando fora, meu argumento adquire estatura moral. O que me dá um gás adicional para transgredir as normas fingindo respeitá-las.

Períodos excepcionais costumam acontecer na história brasileira, mas desta vez complicou um pouco: a atual excepcionalidade político-jurídica introduziu vetores novos, de informalidade e dispersão. Os militares foram mais inteligentes no tempo deles, talvez fruto do conhecido apego ao formalismo: quando queriam, ou precisavam, descumprir a Constituição, outorgavam uma nova ou produziam um ato institucional. Ou as duas coisas. E na última instância mandava um só.

Isso trazia uma bela vantagem: se alguém manda e o ato de exceção é formal, o líder mantém o poder de revogá-lo, e por isso controla o processo. Porque uma hora a excepcionalidade cansa e o poder precisa de saídas organizadas. Quando Raymundo Faoro pediu ao presidente Ernesto Geisel o restabelecimento do habeas corpus, essencial para proteger os presos políticos contra a tortura, o general teve como atender, bastou canetar numa folha de papel.

Claro que é uma simplificação. A coisa ali foi mais complicada que isso. Mas nada que se compare ao emaranhado de hoje. Uns querem tirar as castanhas do fogo com a mão de gato do Judiciário, pois se todas as opções estiverem disponíveis ao eleitor o resultado pode sair do controle. O outro lado quer resolver tudo no voto, deixando claro que a urna tem prevalência sobre a toga. O que a urna decidir está decidido. Posições inconciliáveis.

Isso explica também a impossibilidade, até o momento, de constituir um “centro” político no Brasil de 2018. Centro não é brincadeira de Carnaval em que o sujeito põe uma camiseta escrita "me beija: não sou de esquerda nem de direita”. Centrismo, necessariamente conjuntural, é oferecer alternativas para contemplar os dois lados do espectro. Por enquanto, não tem como fazer. Também porque não tem quem possa fazer. Olha a encrenca.

Uma solução seria todos combinarem que vão aceitar o resultado da eleição. Quem ganhar governa, e quem perder faz oposição no Congresso. Se você acredita que isso pode acontecer nas atuais circunstâncias, #ficaadica: procure antes pelo Monstro do Lago Ness, pelo Abominável Homem das Neves ou pelo E.T. de Varginha. Vc terá mais chance de sucesso.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 26 de março de 2018

Naturalização da violência política é, até agora, o fato novo deste processo eleitoral. E o tempo não recua

Uma incógnita importante nesta eleição presidencial é a resistência que o deputado Jair Bolsonaro conseguirá opor ao movimento dos concorrentes no seu campo para lipoaspirar os votos dele, hoje cerca de um quinto do eleitorado. Há algum consenso de que a turma de Lula tem boas chances de colocar alguém na decisão, e daí sobraria apenas uma vaga.

As fragilidades de Bolsonaro vêm sendo bem descritas. Pouca estrutura partidária, pouco tempo de televisão, pouco dinheiro e muito radicalismo. As três primeiras continuam na mesma. Mas há uma mudança em curso na quarta, uma mudança cultural inédita: pela primeira vez desde a redemocratização, o radicalismo político de direita disputa a hegemonia.

Era algo que já acontecia com o radicalismo político da esquerda, e que agora se estende para o outro lado. Foi pedagógico acompanhar as reações à morte de Marielle Franco, reações na internet e fora dela. Apesar da extensa e intensa condenação da opinião pública, os bolsões da direita ficaram impermeáveis à comoção.

Como já analisado anteriormente, o brutal assassinato da vereadora do PSOL criou um ruído momentâneo entre o bolsonarismo e os movimentos autodefinidos como “de centro” (a partir daqui, por economia, vou dispensar as aspas). Mas a reação destes foi em boa medida protocolar, do tipo “precisamos dizer algo para podermos dizer que dissemos algo”.

Em outros tempos, seria um acontecimento disruptivo. Mas não está sendo. Um fato provoca disrupção quando quebra a coesão de pelo menos um campo político, e assim abre caminho para o realinhamento significativo de forças. Isso simplesmente não está acontecendo. Por uma razão central, entre outras: o Brasil vai pouco a pouco naturalizando a violência política.

Para a análise política no Brasil de 2018, não importa tanto olhar o aspecto civilizatório, ético ou moral. Interessa tentar entender o efeito eleitoral. O principal: Bolsonaro vai adquirindo uma taxa de “votabilidade” inexistente no início da corrida. Conforme o ambiente se radicaliza e a violência se naturaliza, o voto nele vai se tornando mais mainstream.

O candidato já havia tomado providências para acelerar essa “normalização”. A mais visível foi nomear seu porta-voz em economia um economista respeitado dos meios acadêmico-empresariais. Ganhou com isso um salvo-conduto parecido com o que Lula recebeu pela Carta aos Brasileiros em 2002. Paulo Guedes é para Bolsonaro o que Palocci foi para o petista.

Resta agora romper o isolamento político-ideológico. E ele vai sendo rompido conforme aumenta a rejeição do público, em todas as camadas, às formas democráticas de governo e também às garantias e direitos previstos na Constituição. Se as instituições são ilegítimas e os direitos servem de escudo aos bandidos, por que aceitar o monopólio da violência pelos governos?

É um cenário progressivamente complicado para o centro. Não impossível, mas complicado. Para capturar votos de Bolsonaro, precisará deslocar-se para a direita, mas com cuidado, pois lá na frente talvez precise fazer meia volta para decidir a eleição num eventual segundo turno contra a esquerda ou, numa hipótese menos provável, contra o próprio Bolsonaro.

Dois argumentos eleitorais fortes estão no cardápio contra as possibilidades de Bolsonaro: 1) ele não seria capaz de derrotar no segundo turno o PT ou alguém apoiado pelo PT e 2) ele não conseguiria governar, pela fragilidade da base política e o radicalismo das propostas, e visão de mundo. São dois bons argumentos, mas de outro tempo.

O primeiro argumento depende de surgir um candidato capaz de desempenhar melhor que ele nas pesquisas contra Lula ou alguém apoiado por Lula. É cedo para concluir, mas ainda não aconteceu. E dizer que Bolsonaro não tem apoio de políticos reforça hoje em dia um atributo. Mas o mais importante: a visão de mundo dele está em alta. Goste-se disso ou não.

Claro que tudo pode mudar a partir de uma bem azeitada campanha de opinião pública para “salvar o Brasil dos radicalismos”. Mas dar um cavalo-de-pau nesse transatlântico não será simples, nem trivial. Não será um passeio no parque. Também e especialmente porque o tempo é a única dimensão que não recua.

quarta-feira, 21 de março de 2018

É o fim de uma era para a esquerda

Quem viveu os (ou ouviu falar dos, ou leu sobre os) meados dos anos 1970 sabe das polêmicas que consumiam a esquerda brasileira naquele tempo. As iniciativas guerrilheiras vinham de ser todas derrotadas no terreno militar, e pouco a pouco os partidos, grupos e movimentos eram colocados diante da realidade dura: o único caminho que restara para alcançar objetivos políticos, ao menos os táticos, eram as eleições.

O PCB (Partido Comunista Brasileiro), que se reinventaria como PPS depois do colapso da União Soviética, já vinha na batida desde pelo menos 1967, quando em seu 6º Congresso definiu a linha de resistência política pacífica contra o regime militar. O PCdoB migrou depois da derrota no Araguaia. E os grupos mais influenciados pela Revolução Cubana concluíram a passagem quando o PT foi fundado, no início dos anos 1980.

Se a realidade havia resolvido a polêmica sobre via armada ou política, restavam pontos cruciais no debate. Os dois mais importantes: 1) a possibilidade de uma transição sem rupturas revolucionárias da democracia assim chamada “burguesa" para o socialismo e 2) a possibilidade de alianças táticas ou estratégicas com o empresariado nacional. Se é que havia mesmo um empresariado “nacional”. Esta era outra polêmica.

A história está muito distante de andar em linha reta, e aqui não foi diferente. Por razões que podem ser mais bem explicadas num texto específico, aconteceu no Brasil um fenômeno curioso: o PT, que vinha da tradição sindical-eclesiástica-insurrecional, foi absorvendo com o tempo a linha política dos partidos tradicionais da esquerda, enquanto estes se enfraqueciam (ou deixavam de ser fortalecer).

De um modo deformado, dirão os críticos, mas a seu modo, o petismo levou tão longe quanto pôde a política de frentes e a aposta num desenvolvimento capitalista de viés soberano, vocacionado até para um subimperialismo regional, vestido com as cores bonitas da integração, sul e latino-americana. Isso combinado com a disputa e ocupação progressiva dos instrumentos estatais. Mas o Estado "republicano" em que o PT tanto investiu virou a arma decisiva de seus algozes.

De um jeito todo particular, o PT explorou ao máximo a lógica que Antonio Gramsci produziu nos textos da prisão. Não dá para saber até que ponto o italiano achava mesmo que seu pensamento poderia transformar efetivamente o sistema, mas o PT foi o partido mais “gramsciano" que a esquerda brasileira fabricou neste quase um século desde a fundação do PCB, em 1922. É conhecido, por exemplo, o espanto do então metalúrgico Lula quando lhe perguntavam, por volta da fundação do PT, se o partido seria “tático" ou “estratégico”.

O colapso do atual projeto petista, desenvolvido principalmente nas últimas duas décadas, de amplas alianças e apostar num capitalismo soberano e inclusivo, produziu um vácuo na esquerda. Até porque o recuo não é só no Brasil, é regional. Argentina e Equador são outros exemplos. A sobrevivência do bolivarianismo venezuelano é uma incógnita. Tem agora em maio um desafio eleitoral complicado, mesmo com boa parte da oposição juridicamente fora de combate.

Os historiadores discutem se a explosão das duas bombas atômicas americanas sobre o Japão foi o último ato da Segunda Guerra Mundial ou o primeiro da Terceira. Por esse ângulo, como enxergar a candidatura, tão forte quanto inviável, de Lula à presidência? É uma última fresta de esperança de manter vivo o atual PT gramsciano? Ou o primeiro movimento de "superação das ilusões”? A derrota se deu por falta de gramscismo ou por excesso?

Se a esquerda sobrevive até em países socialmente bem mais justos, era uma ilusão algo boba acreditar que no Brasil, um paradigma mundial de desigualdade e todo tipo de injustiça, a Lava Jato destruiria Lula, o PT ou a esquerda. Estas forças estão isoladas, mas sobrevivem. E em algum momento voltarão. Pode ser até nestas eleições. Será interessante observar para que lado da história vai acontecer a superação do período que agora se fecha.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br