sábado, 2 de julho de 2022

A polarização e o estertor da Nova República

Há um certo quê de Velho do Restelo no lamento permanente contra a polarização política, que a narrativa aponta como acontecendo agora numa escala inédita. E à lamentação costuma seguir-se uma fúria santa, o apelo à solução mágica: cada um busca eliminar da polarização o incômodo “outro”. Mais pedregosa é a missão do autodenominado centro, que se impôs em algum momento a tarefa de remover da cena não um, mas os dois polos.

Talvez não haja sintoma mais definitivo da agonia da Nova República, cujo pilar central, ou um dos, era a premissa de que todos os grupos políticos teriam o direito de existir e disputar o poder. E, naturalmente, revezar-se nele. Mas os fatos das últimas décadas acabaram revelando (como se precisasse ser revelado) que esse “direito universal” seria, na prática, não tão universal assim.

Tudo começou com o impeachment de Fernando Color de Mello, em que as evidências de um “crime de responsabilidade” formal eram ainda mais escassas do que viriam a ser no caso Dilma Rousseff. Collor não foi ejetado por eventuais crimes, mas por faltar-lhe base política, já que era “de fora” do bloco vitorioso em 1985. Bloco que vinha de fracassar espetacularmente nas eleições presidenciais de 1989, mas mantinha hegemonia no Congresso e na sociedade civil.

Quando a passagem do tempo der uma desbastada nas paixões que contaminam a análise histórica, ver-se-á aquele impeachment na origem da dinâmica política que acabou levando ao passamento da Nova República. Foi a semente da ideia, agora amplamente disseminada, de que vale tudo para eliminar o adversário da cena. O curioso, ainda que previsível, é a “defesa da Nova República” servir hoje para justificar exatamente o contrário dela.

A Nova República buscou substituir a autocracia por um regime democrático-constitucional em que o Legislativo fosse o palco para alcançar as maiorias e consensos possíveis. Hoje, recebe-se com naturalidade que esse papel seja transferido ao Judiciário, o único dos três poderes não eleito diretamente pelo povo. E se você mexe na realidade ela também o transforma: o Supremo Tribunal Federal virou um mini-Congresso.

A Nova República veio para restaurar a imunidade parlamentar e proteger os mandatos contra as cassações arbitrárias. Hoje, a cultura do cancelamento contaminou a representação política e cassar mandatos virou algo aceitável e até rotineiro. O aspecto mais estupefaciente é o próprio Legislativo receber com passividade a invasão de suas atribuições. Nós tempos do regime militar, pelo menos ouviam-se bons discursos de protesto quando mandatos eram cassados.

Os exemplos são muitos. Um evidente está na criminalização da liberdade de expressão, a pretexto de proteger contra as “ideias erradas”. E por aí seguimos. A situação que vai se criando é confortável para quem, em certo momento, está em situação vantajosa na batalha permanente para a supressão do adversário. Aí ouvem-se, do lado mais fraco, os apelos ao respeito aos direitos e garantias previstos na Carta. Quando o vento muda, mudam de lado os argumentos. E com a maior naturalidade.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Eleição das comparações

A dúvida do momento, e deverá ser assim até a eleição, é para onde vai eleitorado que votava no PT, deslocou-se progressivamente para o outro campo ao longo dos mandatos petistas e há quatro anos acabou apoiando Jair Bolsonaro.

Eram tempos de auge da Lava-Jato e da janela de oportunidade para a agenda liberal, que os percalços do terminal governo Michel Temer não tinham chegado a ferir de morte.

É razoável supor que as chances de vitória em outubro dependam em boa medida da capacidade de dialogar com essa turma, que por um viés metodológico recebe o rótulo de “centrista”.

Mas oscilar entre a esquerda e a direita não faz de alguém um centrista.

O “de centro” raiz é quem que, no vocabulário da moda (já esteve mais), rejeita “os extremos”. As pesquisas de melhor método mostram essa fatia de mercado girando abaixo de 15%.

Eis uma das dificuldades da terceira via. Se você diz que o grande problema do Brasil é o “extremismo de esquerda”, está chamando de bobo o eleitor de Luiz Inácio Lula da Silva. Se diz que é o “de direita”, o alvo da depreciação passa a ser o eleitor de Bolsonaro.

E se o discurso é “contra os dois extremismos” você entra na disputa brigando com três quartos do eleitorado. Discorda? Lamento. Os projetos centristas vitoriosos sempre procuraram dialogar respeitosamente com outros campos políticos.

Centrismo excludente é contradição em termos.

A propósito, será que o desafio dos dois líderes está em deslocar-se para o centro? Será que se diluir é a melhor tática para a vitória no cenário específico de agora?

Talvez não. É possível que a eleição se decida pela percepção do eleitor a respeito de quem vê em melhores condições, pessoais e políticas, para combater os dois principais problemas do momento: a inflação e o desemprego.

É onde Lula está, por enquanto, levando vantagem sobre Bolsonaro. No currículo. Na comparação das realizações de cada governo. Detalhe reforçado por uma particularidade: é a primeira vez que o presidente e um ex concorrem juntos à cadeira.

Claro que há as circunstâncias, e elas contam que Lula governou quase todo o tempo em ambiente de bonança, e quando o clima virou deu um jeito de fazer o tsunami virar uma marolinha. Provisória, mas marolinha.

Já Bolsonaro topou com dois anos de pandemia e uma guerra na Europa, dois fatos destrutivos para a economia global.

Mas quem gosta de discutir circunstâncias são analistas e militantes. Eleitor comum quer saber é de entregas.

Uma diferença, que pode estar ajudando a fazer a diferença: na crise de 2008 Lula reagiu rapidamente e assumiu a paternidade incondicional das medidas anticíclicas, enquanto Bolsonaro frequentemente dá a impressão de estar algo desconfortável com esse tipo de medida, sem contar a lentidão para reagir.

A guerra na Ucrânia começou faz quatro meses, e as providências para combater a alta nos preços dos combustíveis ainda tentam ganhar tração. E já passou mais da metade do tempo para a eleição.

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Publicado na revista Veja de 06 de julho de 2022, edição nº 2.792

sábado, 25 de junho de 2022

O dragão e a eleição

Todos os levantamentos apontam que a economia é e será a principal preocupação do eleitor nestes pouco mais de três meses que restam para o primeiro turno. Por “economia” leia-se “inflação”, até porque a atividade e o emprego mostram algum fôlego.

O que está pegando mesmo são os preços. O problema é global em boa medida, mas isso não resolve o sufoco da dona Maria e do seu João na hora de encarar as compras no mercado.

Toda eleição traz o tema do “mercado”, mas quando a expressão entra em debate o foco da pauta costuma ser o mercado financeiro. Não para a massa, em particular quando a alta dos preços queima aceleradamente o poder aquisitivo. Quando o salário ou a renda não alcançam o final do mês.

A inflação derrotou a Arena de Ernesto Geisel em 1974 após um ciclo de crescimento brilhante no Milagre. Depois deu as mãos à estagnação e, com o nome de estagflação, enfraqueceu decisivamente João Figueiredo. E o fez perder o controle da sucessão.

A inflação estava quase derrubando José Sarney quando o Plano Cruzado estabilizou a política e deu ao PMDB uma vitória arrasadora em 1986. A volta da inflação transformou Sarney num pato manco e derrotou em 1989 todos os candidatos mais identificados com a Nova República.

Aí veio Fernando Collor, que dizia ter uma única bala para matar o dragão. A bala falhou. A isso juntaram-se 1) a falta de base parlamentar e 2) o ressentimento dos derrotados na urna. O resultado foi o impeachment.

O vice de Collor, Itamar Franco, sobreviveu na cadeira porque aceitou virar um presidente decorativo e entregar o poder de fato ao ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Cujo Plano Real salvou o governo e garantiu a ascensão dele próprio à Presidência em 1994.

As raspas do tacho do Real garantiram também a inédita reeleição de FHC em 1998.

Mas o custo do estelionato eleitoral foi alto. Um segundo mandato medíocre e, em 2002, a perda do poder para o PT. Na campanha, o PSDB dizia que a inflação, já nos dois dígitos, era culpa das incertezas políticas trazidas pelo petismo. Não funcionou.

O eleitor até tem algum interesse em saber de quem é a culpa, mas vai atrás mesmo é de quem ele acha ter melhores condições para resolver o problema.

Luiz Inácio Lula da Silva assumiu e deu logo a pancada. Superávit primário duro e um chute para valer nos juros, para cima. Tirou o oxigênio do dragão e, com programas sociais turbinados, ganhou musculatura para sobreviver aos escândalos, reeleger-se e eleger Dilma Rousseff.

Que vinha confortável, até que na virada de 2012 para 2013 as curvas do PIB e da inflação deram jeito de querer cruzar, a primeira para baixo e a segunda para cima. O mau humor começou a represar, e todo mundo sabe o que aconteceu em junho.

Dilma, como FHC, ainda conseguiu raspar o tacho e reeleger-se, mas, ao contrário do tucano-rei, não tinha um colchão político para atravessar os quatro anos de vacas magras. E veio o segundo impeachment da redemocratização, abrindo o período turbulento que deu em Jair Messias Bolsonaro.

Que topou pela proa com dois anos de pandemia e uma guerra na Europa de consequências planetárias, especialmente na economia. E, para não variar, sofre por estar no comando e ter ele de dar as respostas ao principal problema do povão hoje: a inflação.

Repetindo: o eleitor até tem algum interesse em saber de quem é a culpa, mas vai atrás mesmo é de quem ele acha ter melhores condições para resolver o problema. Daí que períodos de inflação alta acabem favorecendo o ambiente para uma troca de guarda.

Mas governo é governo e tem os instrumentos para lutar. Se vai saber ou conseguir usar, aí já é outra conversa.

sábado, 18 de junho de 2022

As circunstâncias políticas da inflação

Resta pouca dúvida de que a inflação do momento é um fato global. Ela decorre, na origem, de dois acontecimentos centrais: a quebra de cadeias produtivas na Covid-19 e a maciça injeção de liquidez para enfrentar o tranco do breque trazido pela pandemia. A isso se somou, mais recentemente, a guerra na Ucrânia.

Explicar a origem dos fenômenos econômicos é missão para economistas, acadêmicos, jornalistas e curiosos, não necessariamente nessa ordem de prioridade.

tarefa central de cada governo é oferecer soluções para os problemas enfrentados pela respectiva população.

De governos, espera-se que tenham convicção e força. Perigoso, para o governo, é quando ele se concentra em tentar justificar-se, em vez de gastar o tempo e os neurônios para apontar os caminhos de saída da encrenca.

Tudo piora se o edifício institucional e as circunstâncias políticas funcionam como obstáculos a encontrar alguma solução razoavelmente eficaz. No Brasil, neste momento, os diversos agentes parecem orientados somente pelo interesse eleitoral de curto prazo.

Não é uma crítica, seria até pueril. Afinal, este é nosso sistema político, escolhido e amplamente aceito há mais de quatro décadas.

O debate sobre a inflação, a grande eleitora de outubro próximo, segue Ortega y Gasset: tem sido ele mesmo e suas circunstâncias. O governo diz que não tem culpa, está tentando de tudo, mas outros atores (a situação mundial, a Petrobras, os governadores) atrapalham. A oposição, naturalmente, diz que a culpa é do governo. E assim segue o baile, à espera de quem terá mais garrafas para entregar no dia da urna.

O que ninguém explica, por enquanto, é como fazer para evitar a propagação inflacionária e uma maciça reindexação da economia mantendo, simultaneamente: 1) o teto de gastos, 2) a paridade interna com os preços internacionais do petróleo e 3) a autonomia da Petrobras sem, last but not least, 4) produzir uma forte retração econômica bem no momento em que a atividade e o emprego mostram sinais de querer superar a paralisia.

Porque o Banco Central legalmente autônomo não vai ficar assistindo de camarote. E 5) a lei que garantiu autonomia à autoridade monetária impede o governo de esquentar a chapa sob os pés dela como está fazendo com a Petrobras.

O arcabouço institucional brasileiro obriga qualquer governo a entrar nesse tipo de luta de boxe com uma mão amarrada nas costas. Mas não é só isso. Esta administração foi eleita também com o compromisso de manter e aperfeiçoar a agenda liberal, e cavalos-de-pau programáticos nesse terreno não são nunca indolores, Dilma Rousseff que o diga.

Mas guinadas podem dar certo, como quando o megabilionário auxílio emergencial foi aprovado e unanimemente aplaudido ali na largada da Covid-19.

Eram outras as circunstâncias, duas em particular: 1) o risco de uma maciça quebra empresarial e 2) a vontade da oposição de enfraquecer a agenda vitoriosa em 2018. O primeiro fator sempre relativiza as mais sólidas convicções liberais. Mas o que prevalece agora é a ausência do segundo elemento.

A prioridade de momento da oposição é enfraquecer não a agenda, mas o governo e o incumbente candidato à reeleição.

A oposição de centro-direita cobra do governo coerência e manter os fundamentos econômicos prevalentes desde 2015. Até por não se incomodar, ao contrário, com as consequências que isso terá para a recandidatura de Jair Bolsonaro.

E na oposição que se esforça para apresentar-se como centro-esquerda o ideal agora é não aprofundar um debate econômico potencialmente capaz de provocar rachaduras na Arca de Noé.

As oposições tocam a bola de lado e de vez em quando fazem faltas para truncar o jogo, enquanto esperam o apito final. Quem está na dependência de fazer gol é o governo. Pois reclamar do juiz, do gramado e das vaias da torcida não vai mexer no placar. 

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Todos trabalham por Lula

As transições na política costumam ser contraditórias, rupturas com boa dose de continuidade. E, como as referências materiais precisam ser buscadas no passado, mesmo as utopias têm o hábito de deitar raízes na experiência vivida. Daí as rupturas virem habitualmente revestidas da idealização do que ficou para trás.

Não deixa de ser curioso o presidente Jair Messias Bolsonaro estar com um problema semelhante ao de João Baptista Figueiredo, o último presidente do ciclo militar. Vai se criando no país um estado psicossocial semelhante ao que desembocou na Nova República.

Um sintoma é a “tancredização” de Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas é uma tancredização de novo tipo, por um detalhe. 

A exemplo de Tancredo Neves, Lula vai fagocitando quem pode e incorporando à composição, deixando para lá o que foi feito no verão passado. A exceção, até agora, é o núcleo operacional da Lava Jato, mas os políticos que lhe deram sustentação e nela surfaram vão sendo todos “anistiados” pelo petismo. Desde que apoiem Lula.

Há, porém, uma originalidade no método lulista em 2022.

Ao contrário do que propõe a sabedoria convencional, o ex-presidente evita, por enquanto, inclinar-se programaticamente ao centro. Uma hipótese é o petista querer atrasar esse movimento o máximo possível, para reduzir o alcance das inevitáveis concessões. Mas há outra explicação, pragmática: Lula não modera o discurso e o PT não lipoaspira seu programa porque, simplesmente, não precisam fazer isso.

Ciro Gomes anda empacado na sua fatia de mercado tradicional, já exibida em três eleições presidenciais. O pedetista ameaça ser mais uma vítima da fantasia de haver um extenso contingente de eleitores dispostos a rejeitar simultaneamente Bolsonaro e Lula. E a outra fração da terceira via, a centro-direita, parece acreditar que demolições são o método mais eficaz para construir um edifício.

O centro tem sido um balaio de caranguejos. Quando alguém ameaça subir, os demais puxam para baixo.

Diante da anemia das alternativas, é da natureza da política que a pressão informacional antibolsonarista acabe anabolizando, por gravidade, a musculatura político-eleitoral de Lula. Ele aparece como o produto disponível para quem deseja impedir um segundo mandato do atual ocupante da cadeira principal no terceiro andar do Planalto.

O PT está aproveitando a onda para tentar liquidar a fatura no primeiro turno. Ou ficar tão perto de conseguir isso que o segundo turno seja quase uma formalidade.

Se bem que segundos turnos sempre ameaçam com surpresas.

Esse é o quadro, à espera de algum fato novo capaz de romper a inércia. Descartado o Sobrenatural de Almeida, romper a inércia depende de o governo conseguir, em três meses, reverter num grau suficiente o pessimismo com a economia, especialmente na percepção do povão, e principalmente no tema da inflação.

Este é coração da atual corrida pelo poder. Ou Bolsonaro decifra a esfinge ou vai depender do imprevisível.

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Publicado na revista Veja de 22 de junho de 2022, edição nº 2.790

sábado, 11 de junho de 2022

O difícil caminho de Tebet

Há um achado interessante na trajetória da terceira via, essa tentativa de construir um caminho eleitoral alternativo a Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva: quando nomes saem de cena, as intenções de voto dos desistentes não necessariamente convergem para os centristas remanescentes. Acabam indo em sua maior parte para os hoje líderes da corrida.

Uma terceira via cujos candidatos lá atrás somavam mais de 20% das intenções de voto hoje ronda em torno da metade disso. Ciro Gomes responde pela ampla maioria. Os apoios outrora dados a Sergio Moro e João Doria ainda estão longe de ser atraídos por Simone Tebet. Claro que isso até o momento. A eleição ganha-se, e perde-se, na campanha.

Quando apenas um nome é oferecido ao eleitor além de Lula e Bolsonaro, Ciro chega a roçar os 15%. Os demais tentam encostar nos dois dígitos. É pouco como patamar de chegada, mas não desprezível para a largada de uma campanha ao menos digna. O problema é preliminar: a falta de unidade, em contraste com a coesão da esquerda e do bolsonarismo.

Um dos problemas da terceira via foi imaginar haver uma larga fatia do mercado eleitoral que rejeita simultaneamente o presidente e o ex. A premissa estava errada por basear-se mais na aritmética que na política. Quando lá atrás Lula e Bolsonaro somados tinham 60% das intenções de voto, isso não significava que os restantes 40% rejeitassem ambos.

Como o tempo encarregou-se de mostrar.

Quando se cruzam as rejeições, a intersecção dos dois sempre oscilou entre 10% e 20% de rejeição simultânea. Não por coincidência, é a ordem de grandeza das intenções de voto se há um único terceiro nome na cartela. Tampouco é coincidência ter sido a ordem de grandeza das votações de Marina Silva quando se apresentou como solitária terceira via.

Se Simone Tebet resistir às armadilhas no MDB e conseguir manter o apoio do PSDB, tem a possibilidade de abrir a campanha oficial com números melhores que os minguados atuais, mesmo estando longe dos líderes. E aí vai ficar à mercê do imprevisível, esperando que algum dos ponteiros desmorone e que Ciro seja minado, ou desmontado.

Não chega a ser animador, mas é melhor que nada.

Até lá, Tebet tem pouco menos de sessenta dias para costurar um esboço de programa. Pois o que nunca se soube da terceira via é o que vai fazer no governo. Só há a certeza de ser uma turma que não curte nem Lula nem Bolsonaro. Seria suficiente se os dois não fossem campeões de voto. Contra dois líderes com base popular consolidada, tem sido insuficiente.

Um flanco programático-eleitoral da terceira via é ela estar de acordo, essencialmente, com o aspecto do governo Bolsonaro mais problemático hoje na visão do eleitor: a política econômica liberal e a confiança em que as forças de mercado vão dar um jeito na inflação. Pois, se o atual estado de espírito inverter-se até a urna, é mais provável que o próprio presidente faça a colheita.

sábado, 4 de junho de 2022

E a Covid-19?

Todas as pesquisas mostram que a Covid-19 vai cedendo ou já cedeu, rapidamente, terreno à economia nas preocupações do eleitor, e portanto nos fatores para a decisão de que botões este vai apertar na urna eletrônica. Mas seria um erro acreditar que a pandemia e o tratamento por ela recebido das autoridades tenham deixado de influir no desfecho da corrida eleitoral. Seus efeitos estão impregnados no quadro da disputa, a quatro meses do primeiro turno.

Já foi dito e repetido aqui: Jair Bolsonaro mantém firme com ele a fatia de mercado que o acompanhou no primeiro turno de 2018, cerca de um terço. Tampouco é novidade que o principal obstáculo ao incumbente é a dificuldade de trazer apoios fora do núcleo mais consolidado. E a atitude do presidente na pandemia certamente ajudou a anabolizar as desconfianças a respeito da perícia dele diante de outros assuntos vitais, como a economia.

Onde Bolsonaro acertou e onde não?

O presidente acertou ao projetar que, em algum momento, as curvas de preocupação das pessoas com a pandemia e a economia se cruzariam e que a segunda seria dominante no período eleitoral. Mas talvez não tenha tido suficiente prudência, ou ceticismo diante dos otimistas, sobre quanto duraria a fase crítica e qual seria o custo em vidas de não adotar a meta de “Covid zero”. Ao final, a fase durou cerca de dois anos, e as mortes já passam 660 mil.

Há países muito bem considerados cujo desempenho foi igual ou pior, mas na maioria deles os governantes alinharam-se à tríade máscaras, distanciamento e vacinas e atravessaram a correnteza. Especialmente no caso das vacinas, a associação da imagem do líder ao esforço em busca do imunizante e ao estímulo à vacinação em massa vem trazendo retorno em capital político. Por aqui, o governo federal tem alguma dificuldade para recolher esse dividendo.

Um caso a estudar é a disputa entre Bolsonaro e o então governador de São Paulo, João Doria. Este teve que desistir da disputa ao final, por estar extremamente enfraquecido na política. E isso apesar de carregar o mérito de ter sido um dínamo na vacinação. Mas é possível notar que a vitória de Bolsonaro sobre Doria teve uma boa dose de pírrica, pois acabou consumindo forças que hoje fazem falta ao presidente contra Luiz Inácio Lula da Silva.

Não é por acaso que a saída do tucano da corrida tenha, segundo pesquisas, beneficiado, ainda que momentaneamente, o petista.

Um aspecto paradoxal é Bolsonaro ter acertado na previsão de que muito provavelmente teríamos de conviver com o vírus em circulação, sem que esse acerto lhe traga por enquanto qualquer benefício político. Talvez seja útil na campanha, quando Bolsonaro terá à disposição mais e maiores janelas de presença nos veículos, nem que apenas no horário eleitoral que caberá à coligação apoiadora do presidente da República.