domingo, 12 de julho de 2020

Segue o jogo entre o bolsonarismo e "o sistema"

Vai aqui uma linha do tempo político do governo Jair Bolsonaro.

Foi eleito numa onda de bonapartismo (governar com o que considera "o povo", por cima das instituições). Na largada, satisfez esse desejo do eleitorado e não teve problemas reais com o Congresso e o Judiciário em 2019. Seu único transtorno real era a ação da direita não bolsonarista, que removera Dilma Rousseff mas fora derrotada na eleição.

Aí este ano veio a Covid-19, com suas crises sanitária e econômica. Aí o sistema (doravante sem aspas) viu uma oportunidade para contra-atacar. Aí o presidente contra-contra-atacou radicalizando contra o sistema por meio de apoio tácito a apoiadores verborrágicos e desejosos de coisas como fechamento do Congresso, fechamento do STF e intervenção militar com Bolsonaro no poder.

Aí Bolsonaro viu danificado o argumento dele de defensor da liberdade (por ele mesmo definida) e o sistema contra-contra-contra-atacou. Aí reforçou-se o sonho de uma frente ampla antibolsonarista. Aí Fabrício Queiroz foi preso. Aí o presidente acelerou a aproximação com o dito centrão e enveredou por uma linha tática de moderação verbal. Aí a frente ampla começou a perder musculatura.

Mas o sistema continuou ganhando protagonismo, agora com a providencial ajuda do poder de polícia do STF, e é o estágio em que estamos. Uma etapa de equilíbrio entre o bolsonarismo e o sistema. Se perdurar, deslizaremos para a assim chamada guerra de posição. Que ainda não é um “empate catastrófico”.

Esse empate se dá quando o equilíbrio entre antagonistas paralisa o processo. Não é o caso. O bolsonarismo momentaneamente liderado pela fração dita realista e pragmática pode perfeitamente recompor-se com a maioria congressual e o establishment para fazer avançar a agenda, especialmente a econômica, mesmo que agora temperada com pitadas de social. O “Renda Brasil” vem aí.

Mas nem isso garantiria com certeza - atenção - uma estabilidade estável, pois o front judicial opera com algum grau de autonomia, pelas suas características heterogêneas. São muitos ali os postulantes a protagonista nas múltiplas frentes: o Supremo, o TSE, o TCU, o STJ etc. Sem falar do arranca-rabo no MP.

É muita variável operando simultaneamente. Precisaria de um maestro dos bons. Até o primeiro governo Dilma a ascendência do Executivo sobre os demais poderes vinha funcionando. O Executivo cumpria bem o papel. O bonapartismo de Bolsonaro veio como tentativa de restaurar isso depois que Dilma e Michel Temer deixaram o poder escorrer pelos dedos.

O governo vai indo meio aos trancos e barrancos, em algumas áreas melhor e noutras pior. O Congresso não mostra disposição real de confronto, no máximo alguns brilharecos em entrevistas coletivas e atos heterodoxos de alcance político limitado, mas sempre capazes de gerar manchetes. Onde está o problema? No Judiciário. Ali são vários os candidatos a herói.

E tem ela, a Covid-19. Que parece ter entrado num planalto de mortes. Quem pagará a conta política? O núcleo duro do eleitorado bolsonarista, cerca de um terço do estoque, parece firme, até agora. Os governadores vinham com alguma folga, mas é preciso ver como será a administração da popularidade deles na reabertura ainda com o SARS-CoV-2 forte por aqui.

E tem a economia... Sempre ela.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Dar vazão à represa

Num aparente platô de novos óbitos diários, São Paulo acelera a reabertura da economia (leia). É o paradoxo já relatado aqui: quando o tal achatamento da curva parece funcionar para valer, chega uma hora em que se tem de operar a volta às atividades mesmo antes de a linha dos falecimentos diários começar a cair.

Era uma conta feita desde o começo. O achatamento da curva sempre teve por objetivo impedir o colapso dos hospitais e UTIs. Mas impunha um preço: estender o período de paradeira econômica. Até que ponto a sociedade estaria disposta a pagar esse preço para preservar a integridade dos serviços de saúde?

Isso está sendo respondido na prática. Quando chega a hora de os políticos decidirem, a “ciência” dá lugar ao cálculo. Em todos os cálculos dos políticos encarregados de tomar decisões Brasil afora, parece ter chegado a hora de dar vazão às águas da represa antes que ela transborde e leve a barragem de roldão.

Quando vamos acordar?

O país onde a doutrina liberal deu mais certo quando levada à prática foram os Estados Unidos da América. Do outro lado do mundo, um caso em que os mecanismos de mercado tiveram resultado expressivo é a República Popular da China. Convém olhar o que funcionou nesses dois exemplos, para copiar acertos. De erros, temos portfólio próprio.

Esse é um exemplo de narrativa. Verdade que existem sempre hiatos, gaps, entre narrativas e fatos. De vez em quando, ou quase sempre, narrativas são instrumento útil para simplificar e embelezar uma realidade, com o propósito de construir argumentos para a disputa ideológica. Assim foi e continuará sendo a humanidade. Para todo o sempre.

Mas narrativas são importantes sim. Elas ajudam a forjar coesão social e política, sem o que nenhum agrupamento humano alcança objetivos. Disputas sobre valores e rumos não são jogos retóricos vazios. Constituem armas, especialmente quando as ideias nascidas da reflexão sobre os fatos conseguem elas próprias transformar-se em força material.

Dois pilares são estruturantes na ideia que a sociedade norte-americana faz dela própria: 1) não aceitar passivamente o apetite crescente do Estado por impostos. E 2) dar grande importância ao império da lei, que ali chamam de “rule of law”. E o grande programa social da China, responsável por tirar mais de um bilhão de seres humanos da pobreza, é o emprego.

Emprego criado especialmente na, e pela, iniciativa privada.

Por aqui, talvez nunca as ideias liberais tenham enfrentado tão pouca resistência quando neste Brasil de Jair Bolsonaro. E nunca houve entre nós tanto consenso majoritário de que cabe aos capitalistas ser o motor principal da retomada da prosperidade. Há debates em torno disso, mas nenhuma visão realista consegue apresentar alternativa com o mínimo de viabilidade.

Mas o discurso fica diferente quando se passa à fase de tirar as ideias do papel. Não sei se há algum outro lugar em que economistas liberais estejam propondo aumento de impostos em meio à recessão econômica provocada pela Covid-19. E num aspecto, reconheço, não somos originais: no apoio a episódios de manipulação da Justiça com objetivos político-eleitorais.

Por aqui a “rule of law”, como dizem, ainda está devendo. Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei.

E o emprego, o esquecido? Qual é a iniciativa real para fazer avançar a indústria, única capaz de produzir bons postos de trabalho em quantidade para absorver o estoque excedente de mão de obra, especialmente a mais jovem? O que estamos fazendo para aproveitar, neste ponto, o real desvalorizado e dar um grande salto também na exportação de manufaturados?

Os Estados Unidos chegaram onde chegaram com a “rule of law” e a poupança privada. Há alguma mitologia nisso? Sim, mas a narrativa reflete algo da realidade. A China construiu o maior programa social do mundo, e se apresenta como a nova superpotência do século 21, gerando empregos principalmente pela exportação de bens manufaturados.

E nós, vamos acordar quando?

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Publicado originalmente na revista Veja 2.695, de 15 de julho de 2020

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O problema é a bagunça

Brasília vive o vaivém das decisões judiciais e do Executivo sobre abrir ou não abrir (leia). Pode até ser um caso relativamente pouco frequente em âmbito nacional, mas é sintomático de um dos nossos principais problemas no enfrentamento da Covid-19.

O problema é a bagunça. Ninguém sabe exatamente quem manda e qual será a decisão que estará valendo amanhã. Troca-se o planejamento, nos limites do que é possível planejar num quadro como o da pandemia, pela canetada conforme o humor do momento.

E tudo sempre abrigado na casamata de uma hipotética “ciência”.

Não deve ser coincidência que os dois países mais afetados, em valores absolutos, sejam as duas nações no momento mais mergulhadas em guerras políticas intermináveis, duas federações em que “federação” parece ter virado sinônimo de fragmentação.

Uma parte da responsabilidade pela desorganização cai na conta da liderança. No fim das contas, o líder sempre é o responsável em última instância. Mas é inegável que certos sistemas políticos têm sido piores que outros para enfrentar esta emergência.


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Focalização?

Os números de hoje da Covid-19 não são bons. Estão neste boletim para você conferir. Se não há uma explosão, os óbitos continuam num platô elevado, e pressionam para cima. O outro lado (literalmente) da moeda? O comércio varejista cresceu forte em maio em relação a abril (leia), apesar de ainda correr atrás dos números registrados ano passado.

Uma parte deve-se certamente ao chamado auxílio emergencial (leia), que não só manteve algum poder de compra nos mais pobres, mas inclusive aumentou. A dúvida? Como vai ser quando alguma hora isso tiver de parar, ao menos no volume em que é feito hoje. De todo modo, a experiência já oferece um argumento e tanto aos defensores da dita focalização.

Estes defendem que o Estado não precisa necessariamente investir mais em programas sociais, precisa investir melhor. Não deixam de ter alguma razão. Como já demonstrado em estudos, o Brasil consegue a façanha de ter gastos sociais que concentram renda.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Queijo suíço

As últimas horas não foram só de boas notícias no front científico da luta contra o SARS-CoV-2. Cientistas agora suspeitam que o vírus pode se propagar “pendurado” em partículas suspensas no ar (leia).

E em Israel constatou-se que alguns recuperados da Covid-19 simplesmente não apresentam traço de anticorpos para o novo coronavírus (leia). Não é que apresentem baixa quantidade de anticorpos: a taxa é zero.

Tudo ainda precisa ser confirmado, ou definitivamente afastado, mas uma coisa, para usar o chavão, salta aos olhos. A ciência está aprendendo a pilotar o avião da pandemia em pleno voo.

E não seria mesmo diferente, pois é um vírus novo. Mas talvez a situação devesse fazer trocar a arrogância pela humildade, admitir que não se sabe muita coisa sobre o vírus e sua ação. Deixar isso claro.

Só que não combina com a necessidade patológica que os políticos têm de estar sempre certos. E desta vez usando a “ciência” como escudo. E isso quando a mesma dá a impressão de queijo suíço.

Cheia de buracos.


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Achatamento longo?

Sempre é possível a surpresa, e elas têm acontecido, mas o Brasil parece mesmo ter achatado a curva de mortes. Ainda que num patamar altamente desconfortável.

É o que mostra o gráfico do Financial Times (veja abaixo) com a escala logarítmica da média móvel de óbitos dos sete dias mais recentes.

O gráfico mostra a comparação entre países de certa dimensão que estão agora no olho do furacão. Já os Estados Unidos, que vinham pior, parecem ter fletido para baixo a curva. Ainda que de modo suave.

Resta torcer para que embiquemos logo para baixo, graças inclusive a não ter havido entre nós até agora - que continue assim - colapso hospitalar, inclusive nos cuidados intensivos.

O mais realista, porém, será adotar planejamentos para um achatamento longo. Já saímos do trecho exponencial, mas não levamos jeito de sair tão cedo do trecho com cara de progressão aritmética. 



sábado, 4 de julho de 2020

Um desfecho pouco glorioso

Outro dia num bate-papo informal e algo provocativo propus uma solução meio piadista e meio séria para a polêmica que divide a oposição: se a aliança contra Jair Bolsonaro deve ser uma frente ampla democrática ou uma frente de esquerda. “Façam como no Uruguai: criem uma frente de esquerda e chamem de Frente Ampla.”

Claro que não solucionaria o cisma, hoje distante de solução, mas seria um truque do tipo que Tancredo Neves e Magalhães Pinto operaram na passagem dos anos 1970 para os 80. Criaram um partido de centro-direita e chamaram do nome que na época era cogitado para rotular uma eventual frente de esquerda: Partido Popular. Roubaram a marca. Acontece.

A história conta que depois o presidente João Figueiredo e seu PDS, sucessor da Arena, impuseram o voto vinculado, e na urna de 1982 o eleitor seria obrigado a votar de vereador a governador em candidatos do mesmo partido. Aí os liberais sentiram-se traídos e a maioria deles reagruparam-se no PMDB, que sucedera o MDB do bipartidarismo.

Essas histórias hoje já antigas ajudam a compreender que o dito centro tem esse nome exatamente porque pendula conforme a circunstância, mas sem nunca perder a identidade, que aponta mais para a direita que para a esquerda. Aliás esse locus político tem como vocação principal não exatamente apoiar outros, mas recolher apoio.

A frente ampla até vinha razoavelmente bem, daí Bolsonaro resolveu jogar mais o jogo da política. Como se pode notar a partir dos fatos, esses teimosos, as defecções nela agora têm sido mais frequentes. Vão desde os que caíram fora da live do “Direitos Já” até quem de repente mudou de ideia e passou a defender que não, não é hora de pensar em impeachment.

Mas a prova de fogo vai ser mesmo nas eleições. O que vai prevalecer, em especial onde terá segundo turno? A frente contra a esquerda ou a frente contra a direita? Ou não vai ter uma regra, uma tendência? Ou vai predominar, dentro de cada campo, a guerra fratricida de olho na necessidade de atrapalhar o fortalecimento excessivo de algum “aliado”?

Na real, não existe frente sem programa político. Frentes “de resistência” são frágeis, também porque são óbvias. Uma ampla frente político-social opõe-se, por exemplo, aos movimentos que pedem o fechamento do Congresso Nacional e do STF. E do mesmo modo que facilmente se agrupa, desmancha-se quando o “que fazer?” é colocado na mesa.

O MDB e depois o PMDB dos idos do regime militar tinham objetivos programáticos claros. O principal era, no caso do primeiro, a revogação da legislação excepcional. Do segundo, a volta das eleições diretas em todos os níveis. Ambos foram vitoriosos, o AI-5 acabou em 1978 e as diretas voltaram em duas etapas: 1982 e 1989.

Depois o PMDB teve um momento brilhante, no Plano Cruzado que lhe deu safra gorda na eleição de 1986. Daí produziu uma Constituição, que hoje agoniza, e entrou em declínio.

No momento, seus diversos spin-offs misturam-se aos derivados da velha Arena para formar a constelação que a imprensa chama de centrão, quando não aceita que negociem com o governo de turno. E que chama de “partidos de centro” quando um governo que ela apoia precisa negociar para obter apoio no Congresso.

Não chega a ser um desfecho glorioso.


sexta-feira, 3 de julho de 2020

O que falta resolver no MEC

E lá vamos nós para a terceira troca no Ministério da Educação, do qual tiraram a Cultura mas continua sendo chamado de MEC.

Até porque ME (dito assim: “eme é”) sempre foi o jeito de chamar o movimento estudantil. Que nem sempre esteve de boas com o ministro e o ministério da área.

Nunca é tarde para tentar acertar, e a regra vale também para o MEC. O problema fundamental da educação brasileira, e que mereceria atenção total das autoridades da área, é conhecido: as escolas não são boas. 

Nossos estudantes, na média, costumam ranquear atrás dos de muitos outros países. E o defeito fundamental está no ensino do mesmo nome.

Já se tentou de tudo. Já se culpou quase todo mundo. O que ninguém disse até agora foi como fazer nossas crianças pobres saírem da escola sabendo Português, Matemática, Ciências e História. 

O ministro brasileiro da Educação que desatar esse nó poderá, quem sabe?, até aspirar ao Nobel. Ou, quem sabe?, virar candidato a presidente da República.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Velho companheiro?

Amostras de esgoto da capital catarinense, Florianópolis, de novembro do ano passado apresentaram presença do SARS-CoV-2 (leia).

É um achado importante, mas não chega a ser páreo para Barcelona, onde foi detectada presença do novo coronavírus em amostras de esgoto de março de 2019 (leia).

Com a palavra os especialistas. Que mais credibilidade têm quando mais facilmente admitem muita coisa ainda não sabida sobre a Covid-19. Já entre os leigos a moda parecem ser as certezas absolutas. 

Fariam melhor se seguissem a máxima de Sócrates (o ateniense): “Só sei que nada sei.”

Entrementes, o debate mundo afora divide-se entre a “segunda onda” (leia) e a organização da volta (leia). Ou da passagem ao "novo normal". 

A respeito disso, Beatriz Kira, brasileira em Oxford, produziu um relatório interessante sobre a situação aqui: “Is Brazil ready to relax COVID-19 response policies?” (leia).

A saída é informar-se e raciocinar. E praticar algum ceticismo. E não descolar da realidade. 


quarta-feira, 1 de julho de 2020

Sucesso e fracasso

Certo dia no agora longínquo março de 2020 a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que 70% da população do país dela seriam contaminados pelo SARS-CoV-2 (leia). Chocou. Mas era um consenso já naquela época, o índice necessário para o vírus não encontrar gente a quem contaminar no período em que ainda é capaz de causar dano.

As porcentagens podem mudar conforme o tempo passa e a pandemia é mais bem estudada, mas o que não mudou foi a constatação do óbvio: as políticas de afastamento e isolamento social têm só o objetivo de desacelerar o contágio, para evitar o colapso da rede hospitalar, especialmente das unidades de tratamento intensivo.

Para saber se afinal as coisas estão ou não funcionando, se as políticas são um sucesso ou um fracasso, olhar o número de casos é inútil. Eles vão crescer até se chegar a alguma porcentagem crítica de imunizados, naturalmente ou pela vacina. Mais útil será tentar enxergar se o achatamento das curvas está protegendo mesmo a rede hospitalar.

A taxa de ocupação de UTIs, a esta altura, é o que interessa acompanhar.


terça-feira, 30 de junho de 2020

O problema

Qual é o principal problema político do governo Jair Bolsonaro? As pendências na Justiça? A confusão em torno do agora ex-ministro da Educação? A ensaiada “frente ampla” antigovernista?

Não. O maior desafio do governo é achar um jeito de alguma hora deixar de pagar o assim chamado auxílio emergencial (leia).

Cada parcela custa ao redor de R$ 50 bi. É ilusão imaginar que poderá ser mantido por tempo suficiente para esperar a economia recuperar 100%.

No cenário ótimo a volta econômica será “em V”, mas não é prudente apostar todas as fichas nisso.

As dificuldades de crédito estão levando à destruição de forças produtivas em escala não negligenciável no pequeno e no médio negócios.

Que são quem mais emprega.

E a confiança do consumidor não vai bem.

Por outro lado (sempre tem um outro lado), é nítido que na economia mais popular a retomada vem sendo mais vigorosa. As pessoas estão, como se diz, votando com os pés.

Agora, se o governo errar no timing, se suspender o auxílio antes de a roda voltar a girar para valer, aí sim veremos o que é crise.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Ativismo judicial?

Disputa institucional pouca é bobagem, então o Congresso Nacional acaba de abrir um novo capítulo na tensão entre os poderes.

Agora é a Câmara dos Deputados quem apela ao Supremo Tribunal Federal para impedir que o Senado mande direto à sanção do presidente da República matérias modificadas pelos senadores (leia).

Tem aí uma sutileza. Quando o Senado apenas retira trechos do material aprovado pelos deputados federais ele parece se ver no direito de considerar que foi cumprida a norma constitucional de ambas as casas terem de aprovar um texto antes de ser sancionado.

Seria diferente se, por exemplo, os senadores acrescentassem alguma coisa. Pelo menos é no que o Senado parece acreditar.

Mas os deputados podem naturalmente considerar que algo aprovado na Câmara tem sua lógica vinculada a sua integridade. E que remover pedaços mexe no conjunto.

Os políticos não se entendem, então que a Justiça decida de novo. E depois reclamam do “ativismo judicial”.

(Atualização, dois dias depois: Parece que a Câmara desistiu de ir ao STF e vai tentar resolver na base da conversa com o Senado...)

domingo, 28 de junho de 2020

Votando com os pés

"Cresce o número de casos da Covid-19." A rigor isso não seria notícia, pois é provável que uma alta porcentagem da população, seja em que país for, acabe contaminada pelo SARS-CoV-2. Dado que a vacina provavelmente só começará a vir em 2021.

E ainda tem o tempo que vai levar para fabricar, distribuir... Não vai ser de um dia para o outro.

O que é notícia? A capacidade ou não de o sistema hospitalar absorver quem precisa de internação ou, mais sensível, de tratamento intensivo.

Ao que se nota, o isolamento e o afastamento sociais parecem estar dando resultado. As nossas curvas, nacional e estaduais, levam jeito de achatadas.

Outra coisa que ainda precisa ser bem estudada: o quanto o uso de máscaras ajuda a retardar a propagação do novo coronavírus. Calcular se reaberturas com o uso maciço de máscaras são diferentes das demais. Isso ajudaria a organizar a retomada, que a esta altura é irreversível.

Ou autorizada, ou clandestina. Para usar uma velha máxima, o povão está opinando com os pés.

Estados mentais. E um pouco de bom humor

O processo político conduzido e produzido na era da Lava Jato pela ampla aliança que impulsionou a operação apontava para o fortalecimento de uma saída bonapartista. Na narrativa dos novos tempos, negociação política, governo de coalizão, entendimento, interpretação literal dos direitos e garantias previstos na Constituição, todas eram coisas a combater, se possível extirpar.

Bem como a tal independência e harmonia dos poderes.

Quem melhor soube interpretar esse espírito do tempo foi o candidato Jair Bolsonaro. Talvez mais por intuição que fruto de elaboração, pouco importa. O fato é que ele estava bem posicionado e equilibrou-se na prancha para pegar com muita felicidade a onda decisiva no mano a mano final em 2018. Assim como tivera a competência, e a sorte, para chegar à decisão.

Bolsonaro é portando não apenas agente, mas também e talvez principalmente resultante da construção de uma narrativa. Que está aí, essencialmente íntegra. As concessões do presidente ao “sistema” para sobreviver parecem ser recebidas pelos fiéis a ele como a velha operação de entregar os anéis para não perder os dedos. É o que mostram as pesquisas.

Aconteceu algo semelhante com Luiz Inácio Lula da Silva no caminho para chegar ao poder e consolidá-lo. As concessões que precisou fazer aos grupos dominantes, principalmente na economia, nunca enfraqueceram o núcleo central da narrativa do petista, porque em nenhum momento ele teve arranhada a imagem de compromisso com o combate à pobreza.

É possível especular se a transição do PT para Bolsonaro não representou mesmo certa mudança de estado mental coletivo em que combater a corrupção e a “porex” (política realmente existente) passaram a ser mais centrais que combater a pobreza. Se a hipótese estiver correta, Sergio Moro eventualmente poderá até deslocar a esquerda e tirá-la da decisão em 2022.

Mas 2022 está longe, concentremo-nos no agora. De volta às narrativas, a única que a oposição a Bolsonaro está produzindo é que a luta contra o presidente é para salvar a democracia. Não à toa Bolsonaro guinou ao centro (até quando ele suportará?) e alguns gestos singelos já neutralizaram parte da oposição moderada, que no limite se confunde com a situação moderada.

Se a oposição não cuidar de construir uma linha estratégica, suas táticas correm o risco de escapar entre os dedos como a água que o sujeito tenta carregar nas mãos. O PT só foi derrotado quando sua narrativa hegemônica recebeu pela frente uma contranarrativa, consistente e bem conectada ao tal espírito do tempo.

O partido pode até dizer que foi derrotado pelas fake news, mas se acreditar nisso é autoengano.

*

Segue animado o debate sobre a frente pela democracia, sobre sua conveniência e viabilidade. Para (não) variar, nela nem tudo são flores. Há os afagos mas também as cotoveladas. Coisa fácil de resolver. Basta, por exemplo, todos que dizem defendê-la se comprometerem a apoiar no segundo turno em 2022 qualquer um da frente que tenha chegado à decisão.

Análise política fica meio maçante sem um pouco de bom humor.

sábado, 27 de junho de 2020

Poupança

A Instituição Fiscal Independente, do Senado Federal, diz que o déficit do INSS, que paga os benefícios e as aposentadorias do setor privado, deve fechar o ano em R$ 306,2 bilhões (leia).

Um aumento de R$ 92,3 bilhões em relação ao buraco de 2019, três vezes o crescimento de R$ 30 bi projetado lá atrás pelo Ministério da Economia.

O que mudou?

A arrecadação caiu, algo esperado no contexto da pandemia que surpreendeu todos, inclusive os especialistas em projeções econômicas.

Qual é a solução, então?

Duas: aumentar impostos e/ou fazer a economia crescer.

Como a primeira hipótese geraria uma grave tensão política, além de não resolver o problema, o governo certamente estará quebrando a cabeça para ver como faz acontecer a segunda.

Os investimentos privados continuam sendo a aposta da equipe econômica. Há algum ceticismo quanto a isso, porém um detalhe anima: o desempenho do agronegócio.

São contextos diferentes, mas nunca é demais recordar que a lavoura cafeeira ofereceu a poupança que criou a indústria paulista.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Missão nada trivial

O Datafolha (leia) e o DataPoder360 (leia), com metodologias diferentes, dão o mesmo resultado: Jair Bolsonário estável em seu cerca de um terço de fiéis (ótimo+bom), com a coluna regular algo emagrecida em favor do ruim+péssimo.

Um quadro com jeito de parado neste momento.

Há algumas movimentações, como certa troca que o presidente faz de um eleitorado de maior instrução por um de menor. Mas tampouco é tendência aparecida agora. E era até esperado.

Se um governo tem políticas para os mais pobres isso se reflete na popularidade. Até onde Bolsonaro avançará nessa camada social? 

Será suficiente para contrabalançar a corrosão que parece progressiva na outra ponta do espectro?

E a pergunta mais importante. Considerando que o chamado auxílio emergencial é insustentável no tempo no volume atual, conseguirá a política econômica produzir crescimento e prosperidade saudáveis em prazo suficientemente curto para que a transição seja suave?

E portanto sem perda de capital político?

Uma missão nada trivial para a equipe econômica.

Um pouco de criatividade

Dois elementos têm destaque entre as causas da nossa crônica turbulência institucional. 1) O presidente vitorioso na urna nunca consegue eleger com ele uma maioria partidária na Câmara dos Deputados. E, combinada a isso, 2) a prerrogativa de o Executivo legislar por medida provisória vem se tornando um foco de instabilidade. Para acrescentar, conforme passa o tempo o Judiciário fica progressivamente tentado a se oferecer como poder moderador. Tudo meio fora de lugar.

Vai aqui uma primeira ideia para consertar o primeiro problema: as cadeiras obtidas pelo partido em cada estado para a Câmara deveriam ser calculadas não pela votação dos candidatos a deputado, mas pela votação do candidato a presidente no estado. A mesma lógica valeria para Assembleias e Câmaras Municipais. As coligações para o Legislativo já estão proibidas. Essa medida simples eliminaria as coligações para o Executivo. Se o partido não lançasse candidato a presidente, governador ou prefeito não elegeria deputado federal, estadual ou vereador.

Os votos nos candidatos ao Legislativo continuariam valendo, mas só para definir a ordem de preenchimento das vagas conquistadas pela legenda.

Jair Bolsonaro (então no PSL) e Fernando Haddad (PT) tiveram juntos pouco mais de 75% dos votos válidos no primeiro turno. Os dois partidos elegeram somados apenas 21% da Câmara dos Deputados. A diferença é autoexplicativa. Quem hoje está na oposição vai torcer o nariz para um cenário em que Jair Bolsonaro teria maioria sólida na Câmara. Mas fica a pergunta: como lá na frente um governo de quem hoje é oposição conseguirá governar e ter alguma estabilidade mantidas as atuais regras do jogo?

E o segundo problema? Antes, uma recapitulação. A medida provisória, herdeira do decreto-lei usado no regime militar, entrou na Constituição de 1988 também por ser parte da arquitetura planejada para o parlamentarismo. Com uma maioria permanente, o chefe do gabinete governaria por MPs. Se alguma delas caísse, abrir-se-ia a crise de governo. Solucionável ou por rearranjo congressual ou por uma nova eleição. Mas o parlamentarismo não passou nem na Constituinte nem no plebiscito após a revisão da Carta.

Para oferecer uma solução mais abrangente de estabilidade sem despotismo talvez seja adequado dar outro passo e acabar também com as medidas provisórias. Cortar o nó górdio. Hoje elas oferecem a sensação e alguma possibilidade de poder, mas são, a cada dia mais, buracos no casco da autoridade do governante. Ele tenta governar por MPs para contornar seus problemas com o Legislativo, apenas para adiante bater no muro do protagonismo dos presidentes do Congresso e dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

E num modelo em que o presidente eleito elegesse com ele uma maioria parlamentar o fim das MPs atenuaria os impulsos despóticos presidenciais. E sempre haveria a possibilidade, já prevista na Constituição, de o governo propor projetos de lei em regime de urgência.

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Publicado originalmente na revista Veja 2.693, de 1o. de julho de 2020 


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Para o centro?

Nenhum personagem, até o formalmente mais poderoso, atua na política com autonomia diante da correlação de forças. Ao contrário, são as circunstâncias que costumam oferecer o fator limitante aos atos políticos.

Jair Bolsonaro é ele mesmo e as circunstâncias dele. E as circunstâncias passaram a ter um grau de complicação maior após a prisão de Fabrício Queiroz. O presidente começa a sentir o vento quente da possibilidade de um isolamento crítico.

Isolamento comandado por quem um dia pareceu ser aliado.

Então o Bolsonaro das últimas horas, premido pela correlação desfavorável de forças, pende em direção a um certo centro. Talvez para alguma surpresa de quem imaginava que o presidente assistiria passivamente ao progressivo isolamento dele próprio.

Mas análise de conjuntura no Brasil da pandemia de 2020 é perecível como mosquinha de banana. Como reagirá a novíssima moderação do presidente da República a um eventual, e provável, fato novo incômodo?

Aguardam-se os próximos e emocionantes capítulos.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Escolhas

Donald Trump está pagando o preço (clique aqui) por duas escolhas: 1) a subestimação inicial da pandemia e 2) a falta de sensibilidade para compreender a dimensão e a repercussão dos conflitos raciais desencadeados com o assassinato de George Floyd.

E ainda tem a debacle da economia por causa da parada brusca.

A eleição está longe, e as pesquisas não têm sido especialmente felizes nos últimos tempos, mundo afora. Mas a situação eleitoral de Trump exige cuidados.

Jair Bolsonaro parece ter mais sorte. A subestimação da pandemia ajuda a fazer sofrer os números da sua popularidade, é o que dizem as pesquisas, mas eleição mesmo só daqui a dois anos.

Talvez algum dia a história registre que nesta coisa de subestimar a Covid-19 Bolsonaro possivelmente tenha sido atraído para uma armadilha por confiar demais nos julgamentos do seu parceiro Trump.

E o americano ainda tem outro problema. O pipocar de focos da Covid-19 territorialmente distribuídos num país continental (clique aqui). Será que vai ser a mesma coisa por aqui?


terça-feira, 23 de junho de 2020

Abertura mental

Enquanto segue a corrida pela vacina (clique aqui), em outras frentes científicas verifica-se que a chamada “imunização de rebanho” talvez nunca tenha sido mesmo uma alternativa razoável.

Pois estudos começam a apontar que a imunização obtida pelo contato com o SARS-CoV-2 talvez não seja duradoura (clique aqui).

Numa boa notícia para as mulheres, outro estudo ainda inicial mostra que um remédio comum no tratamento de diabetes tem efeito bastante positivo em pacientes graves do sexo feminino (clique aqui).

São notícias diversas, de fontes diversas, mas que compõem um quadro cada vez mais nítido. Ele revela que os profissionais estão correndo a aprender a lidar com a Covid-19 como quem conserta um avião em pleno voo.

Aprendendo a atirar em pleno combate. Coisa que não chega a ser surpresa. Se o vírus é novo até no nome, não haveria mesmo como saber tudo sobre ele com antecedência.

Mas isso tem consequências. Será que não seria hora de um pouco mais de humildade? Menos certezas peremptórias? Um pouco mais de curiosidade e de abertura mental ao contraditório?

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Divergência para sempre

Pesquisa do Instituto Paraná detectou 4% dos entrevistados para os quais o novo coronavírus simplesmente não existe, é uma invenção. Isso sem contar os 2,4% que responderam “não sei” ou não quiseram opinar.

Os 93,7% que responderam “sim” quando questionados sobre a existência dos SARS-CoV-2 oferecem, portanto, algum conforto espiritual para os apologistas da racionalidade. Nem tudo está perdido.

Mas o público anda desconfiado, como revelam as respostas quando o entrevistador pergunta se os casos da Covid-19 estão sub ou superestimados. Dois terços (66,1%) dizem que os números divulgados pelos governos não são confiáveis.

E aí caímos na polarização. 35,6% acham que os casos estão subestimados, e 35,7% que estão superestimados.

Apostaria que os primeiros são os influenciados pela blitz comunicacional em que o governo Bolsonaro foi acusado de tentar esconder os números reais. E os segundos devem ser os convictos de que os governadores anabolizam as estatísticas.

Uma divergência para sempre. Essa nem o tempo vai dirimir.


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Truque renovado

O exercício do poder recomenda instalar fusíveis que possam ser descartados quando alguma coisa dá errado. Para preservar o comando central, e o próprio comandante. Na pandemia da Covid-19 Jair Bolsonaro ficou sem fusível para queimar. Não seria melhor para ele se hoje um ainda ministro Luiz Henrique Mandetta tivesse de responder pelos trágicos números?

Exercer e exibir poder pode ser prazeroso, mas traz custo. Aliás os maiores obstáculos e armadilhas enfrentados pelo presidente têm resultado quase sempre das decisões dele mesmo. Foi Bolsonaro quem decidiu chamar Sergio Moro para o ministério. Tivesse ficado em Curitiba, o ainda juiz estaria dando dor de cabeça só aos adversários do ocupante do Planalto.

Foi também Bolsonaro quem na formação do governo resolveu dar ouvidos ao canto de sereia da dita nova política. Fazer média com o eleitor-torcedor intoxicado pela antipolítica. Agora tem de consertar o avião em voo, trazendo de forma meio atabalhoada uma base capaz de evitar na Câmara dos Deputados o impeachment, ou a autorização para o processo no Supremo Tribunal Federal.

Mas Bolsonaro também foi prudente, pelo menos num caso. Quando decidiu ignorar a eleição interna da corporação e nomeou um de fora da lista tríplice para procurador-geral da República. Como estaria o morador do Alvorada se o comando da PGR estivesse, como inaugurado pelo PT, sob controle da guilda dos procuradores? O risco persiste, claro, mas menor.

Outra coisa arriscada: montar governo excessivamente com base em afinidade ideológica. O senso comum diz que os ideologicamente alinhados serão aliados mais fiéis. Quando o amor acaba, costuma ser o contrário. Os mais próximos no critério ideológico revelam-se os adversários mais ferozes. Desde Caim e Abel sabe-se: ódio entre irmãos é letal.

Eis minha engenharia da obra feita.

Mas talvez o principal problema do presidente resulte de um equívoco analítico: o erro na análise da conjuntura, da disposição das forças. Na identificação do inimigo mais perigoso. Enquanto Bolsonaro se dedica a infernizar a esquerda, quem lidera a operação de cerco e (tentativa de) aniquilamento contra ele são a direita e o dito centro atropelados na eleição presidencial de 2018.

A esquerda está fora da linha de sucessão. E o objetivo das diversas frações dela é ganhar a eleição de 2022 surfando no desgaste do bolsonarismo. A alternativa seria confiar na tempestade perfeita em que 1) o Tribunal Superior Eleitoral cassa a chapa Bolsonaro-Mourão, 2) o STF referenda e 3) no processo de liquidação do atual governo forma-se uma maioria eleitoral de esquerda.

Para a turma que pende à direita o caminho parece menos pedregoso. Poderiam por exemplo trabalhar mais firmemente o impeachment e a proposta de um governo de “união nacional” em torno do vice. Uma dificuldade dessa saída é Hamilton Mourão não parecer disposto a conspirar contra o chefe.

Diferente de recentes situações.

E tem sempre a alternativa do TSE, seguida do renovado truque de tentar a união em torno de um bolsonarismo sem Bolsonaro.

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Publicado originalmente na revista Veja 2.691, de 17 de junho de 2020

Sinuca

O mercado estima que o déficit primário (contas governamentais antes do pagamento de juros) será de quase R$ 709 bilhões este ano. Para o próximo ano a estimativa é R$ 200 bi. O déficit primário em 2019 foi R$ 62 bi.

Ou seja, estamos diante de um cenário de emergência fiscal gravíssimo. E qual será a tentação do governo para enfrentar o desafio? Não perderá dinheiro quem apostar que Brasília desejará aumentar os impostos.

Pois há dois jeitos de aumentar a arrecadação: um é a economia crescer o suficiente, o outro é crescer a carga tributária. Como a primeira opção parece irrealista, segundo todas as previsões, é razoável imaginar que o governo vai se debruçar sobre a segunda.

Se é que já não está se debruçando.

Onde está o problema? Aumentar impostos num quadro de altíssimo desemprego, queda de renda e forte sofrimento das empresas não cria propriamente um cenário estimulante para novos investimentos privados. E tem potencial social e político explosivo.


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Montanha-russa

O mercado financeiro está como o brinquedo emocionante dos parques de diversões. Um sobe-e-desce só. Hoje no Brasil não funcionou, por causa do feriado. Mas nos Estados Unidos os índices de bolsa mergulharam.

Duas razões fortes: 1) as taxas de desemprego ali devem permanecer altas e 2) novos e renovados focos da Covid-19. O segundo fator dá um gás no primeiro, na medida em que estimula novas quarentenas e lockdowns.

Os sabidos ganharam na subida das últimas semanas, e se foram sabidos mesmo deram um jeito de realizar. Porque o otimismo desenfreado diante da pandemia tem boa dose de irrealismo. Antes da vacina não haverá normalidade.

Pois setores inteiros da economia global continuam parados, a confiança do consumidor continua em baixa e as empresas continuam concentradas em defender o caixa. É, sim, hora de oportunidade para quem estiver disposto a tomar risco. Mas quem?

Uma saída é os governos encontrarem maneiras criativas de gerar empregos.   Deveria ser a prioridade. Sem isso, nem pensar em recuperação.


quarta-feira, 10 de junho de 2020

Mortes em excesso

O especialista do Financial Times John Burn-Murdoch atualizou hoje seu gráfico de excesso de óbitos em relação a anos anteriores, medido por país. E ele acrescentou o Brasil.

É um parâmetro bom para avaliar o impacto de uma epidemia, ou pandemia. Porque permite ter noção não apenas da subnotificação, mas também do excesso de mortes por outras causas.

Pois numa pandemia a sobrecarga dos serviços de saúde é fatal não só para os portadores da doença específica, como por exemplo a Covid-19. Sofrem todos que têm problemas graves de saúde.

No balanço até maio não estávamos tão mal assim. Olhe o gráfico. Ainda que os números devam ser vistos com cautela, também pela provável desatualização. Melhor pegar mais dados. Por exemplo do estudo de Thomas Fujiwara, de Princeton.

Esse parâmetro será muito útil ao final para saber como fomos. E será prudente esperar a poeira baixar um pouco para avaliar com mais precisão nosso desempenho. O debate anda muito contaminado pela política.


terça-feira, 9 de junho de 2020

Perguntas

O gráfico abaixo do Financial Times, média móvel das novas mortes nos últimos sete dias, traz constatações que merecem alguma indagação. E alguma explicação.

Por que as curvas (logarítmicas) da Itália, Espanha e Reino Unido são tão semelhantes na subida e na descida? E por que em cada um desses países o pico girou perto de mil mortes registradas diariamente?

Aliás, se o Brasil estiver de fato perto do (ou no) pico, por que nos países mais atingidos em números absolutos de óbitos pelo SARS-CoV-2 as mil mortes parecem ser uma referência de teto, em ordem de grandeza? A exceção são os Estados Unidos.

E por que Estados Unidos, Itália, Espanha e Reino Unido levaram perto de 30 dias (após as primeiras três mortes) para bater no teto enquanto o Brasil levou pelo menos 70 para atingir o numeral misterioso?

Essa é aliás uma razão para o esgotamento entre nós do isolamento social.

E por que o teto nos Estados Unidos parece ter sido de 2 mil mortes? A proporção populacional não explica.

E por que a curva do México é tão parecida com a do Brasil?

 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

A marca social

Hoje o presidente da República disse que o problema do Brasil são as nascentes manifestações contra o governo dele. Jair Bolsonaro e equipe estão preocupados, sabe-se, com a possibilidade de a insatisfação social produzida pela recessão econômica funcionar como fogo no palheiro e produzir movimentação ponderável nas ruas.

O Planalto teme especialmente um “quadro chileno”, e o presidente tem dito isso em reserva e em público. Manifestações de massa que desdobram em atos violentos. Como as que no Chile fizeram mergulhar a popularidade do presidente Sebastián Piñera e agora nos Estados Unidos começam a queimar, segundo todas as pesquisas, a gordura (política) de Donald Trump.

Mas o governo não está parado esperando o tsunami. Também hoje o ministro da Economia falou a deputados que a administração Bolsonaro vai repaginar o Bolsa Família. Vai tentar fazer do novo projeto uma ponte para a baixa renda e os informais atravessarem a corredeira do pós-Covid. De quebra, o governo ganharia o que a marquetagem chama de “marca social”.


domingo, 7 de junho de 2020

A pegada no quimono

Tudo indica a volta da dinâmica das ruas na disputa política. O bolsonarismo vinha desfilando sozinho, mas agora o outro lado também resolveu dar de ombros para o distanciamento social e vai garantir notícia, foto e vídeo para os colegas jornalistas de plantão nos fins de semana.

Estava na cara que o monopólio das ruas pelo bolsonarismo não era para sempre. E agora promete esquentar. Hoje as manifestações contra o presidente foram visivelmente maiores que as a favor. Aguardemos a resposta.

Desafiado, o situacionismo vai querer dar o troco. Veremos quem tem garrafas para entregar. No processo que levou à queda de Dilma Rousseff, os pró-impeachment ganharam com tranquilidade. A esquerda só levava para a rua os dela mesma. E olhe lá.

A dúvida agora é sobre quem arrastará, se é que alguém vai conseguir arrastar, a turma que de vez em quando está de um lado e de vez em quando do outro. Será um bom termômetro para saber com quem anda a iniciativa, quem encaixou melhor a pegada no quimono alheio.


sábado, 6 de junho de 2020

Incontrolável

A ação é localizada, mas não deixa de refletir o que vai pelo território nacional. O governo do Distrito Federal restringiu por 72 horas, depois de ter reaberto, as atividades em duas regiões onde os casos de contaminação pelo SARS-CoV-2 aceleraram: Ceilândia e Estrutural. A medida parece preceder um possível lockdown se as coisas não melhorarem.

Para usar um já chavão, é bom ir se habituando ao "novo normal”. Idas e vindas, dúvidas, certezas temporárias e vacilações. As medidas de isolamento social já esgotaram o público mas ainda não parecem ter surtido efeito suficiente. O resultado? Algum caos na saída, mesmo que fantasiado de “obediência a critérios técnicos e científicos”.

Para usar outro chavão, na “batalha da comunicação” vai ganhar quem conseguir convencer o distinto público de que opera com algum método em meio à desorientação geral. Na boa, os governantes nos diversos níveis Brasil afora estão sendo arrastados pelos fatos. A única diferença entre uns e outros: maior ou menor capacidade de fingir algum controle sobre o incontrolável.


A útil maquiagem do passado

Idealizar e embelezar o passado é um método útil para construir narrativas cujo objetivo é alicerçar propostas políticas no presente. A última moda na oposição é reescrever a história das Diretas Já, movimento político que deu um gás na transição do último general a ocupar a presidência da República, João Figueiredo, para o governo civil de Tancredo Neves (que morreu antes de assumir) e José Sarney.

O tema costuma ser introduzido nos debates como se em certo momento o conjunto dos líderes oposicionistas tivesse deixado as diferenças de lado para juntar forças pelo objetivo comum de restaurar a democracia. É uma maneira de ver. Outra: numa certa ocasião, todos os potenciais candidatos da oposição a suceder Figueiredo uniram esforços para que o sucessor fosse escolhido não no Colégio Eleitoral mas na urna.

Parece a mesma coisa, mas a diferença existe, apesar de sutil. Uma sutileza que esconde o essencial. O que move os políticos profissionais não é principalmente um idealismo programático, mas a busca (ou manutenção) do poder. Quando têm sorte, esse objetivo converge para a onda do momento. A sabedoria está em saber surfar a onda certa no momento certo. Ou evitar a onda agora para tentar pegar uma mais favorável adiante.

Raramente a narrativa lembra que quando as diretas pararam no plenário da Câmara dos Deputados foi cada um para um lado. Leonel Brizola lançou no ar a prorrogação por dois anos do mandato de Figueiredo, e diretas em 1986. Luiz Inácio Lula da Silva caiu fora e o PT não votou a favor de Tancredo na indireta. Os deputados que votaram ou saíram ou foram saídos. Sobraram na aliança, de expressivos, o PMDB e a dissidência do PDS (ex-Arena).

Pouco menos de cinco anos depois, Lula e Brizola disputaram a vaga no segundo turno para enfrentar Fernando Collor. Os candidatos herdeiros da Aliança Democrática vitoriosa em 1985 ficaram literalmente na poeira. Todos vitimados pelo fracasso de Sarney na luta contra a inflação e pelas acusações de corrupção e “fisiologismo”, expressão celebrizada na época por quem pretendia ganhar músculos explorando o ódio à “Porex” (política realmente existente).

Não se trata aqui de comparar momentos históricos. Há diferenças claras. Ali a ideia de ditadura sofria uma natural fadiga de material. Hoje ela é introduzida com alguma desenvoltura no debate, apesar de ainda enfrentar barreiras difíceis de transpor: a oposição da opinião pública e da maioria da sociedade, conforme evidenciam todas as pesquisas que procuram saber o que acha o eleitor sobre o assunto.

Mas é o caso de comparar sim a motivação dos personagens. Os líderes que precisariam ser reunidos para a formação de uma frente ampla contra Jair Bolsonaro estão todos amarrados ao próprio cálculo. Para uns o melhor é o impeachment. Para outros a cassação da chapa pelo TSE. Para Lula nada disso adianta se ele permanecer inelegível. Para os demais não interessa de jeito nenhum Lula elegível. É o gato da “luta contra os extremismos” escondido com o rabo de fora.

E para o presidente da Câmara, que tem na mão a chave da largada do impeachment, o destino dos antecessores que comandaram impeachments de sucesso (Ibsen Pinheiro, cassado; Eduardo Cunha, cassado e preso) não chega a ser propriamente estimulante.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Dança da cadeira

Países não têm amigos, têm interesses. Líderes idem. Hoje Donald Trump atirou Jair Bolsonaro às feras na operação para livrar a própria pele. E o mais curioso é que ambos vêm seguindo a mesma receita, e escolhendo também os mesmos adversários.

Ambos minimizaram de saída o SARS-Cov-2, demoraram a entender a gravidade do quadro, decidiram lutar pela reabertura dos negócios mesmo antes de a Covid-19 estar controlada, depositam fé na cloroquina, brigam com os governadores adeptos do isolamento social.

Trump rompeu com a Organização Mundial da Saúde. O Brasil ameaça copiar.

Para azar dos dois (ou também pelos seus atos?), EUA e Brasil caminham para liderar o ranking negativo em números absolutos. Sempre haverá quem argumente com números proporcionais, mas na guerra de propaganda é ingenuidade depender da boa vontade do adversário.

No velho divertimento da dança da cadeira, alguém sempre acaba sobrando quando a música para. Os suecos e Trump já deram um jeito de fazer autocrítica, aberta ou dissimulada, antes de ficarem sozinhos em pé quando todo mundo já está sentado.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

São Paulo "americana"

O Instituto FSB pesquisa fez um estudo mais detalhado da situação da Covid-19 em São Paulo, quebrando os dados por capital, região metropolitana e interior. A íntegra do documento (em PDF) está aqui.

Um dado que chama a atenção é o índice de mortes por milhão de habitantes. O slide está aqui. Caminhando para o número 400, a capital paulista ombreia em ordem de grandeza com os Estados Unidos, país recordista em números absolutos tanto de casos quanto de mortes.

Claro que tem alguma injustiça em comparar um formigueiro humano com um país. Fica a ressalva.

Dito isso, sigamos.

A contabilidade nacional é importante, e tem sido foco de disputas políticas. Mas talvez devêssemos olhar com mais cuidado os números por localidade. Para poder inclusive discutir cientificamente (o termo da moda) o que tem funcionado melhor ou pior.

Porque ciência e dogmatismo são antagônicos. Ainda que usar a primeira como muleta para o segundo pareça estar algo na moda.


quarta-feira, 3 de junho de 2020

Passado em disputa

As medições nas redes sociais reproduzem de alguma maneira o observado nas pesquisas. A área de influência do bolsonarismo anda extremamente combativa, mas vem sendo pouco a pouco rodeada pela oposição. Que agora transbordou para (bem) além da esquerda.

Na oposição, o debate do momento é sobre a frente ampla, sempre difícil de formar quando não há lideranças consensualmente aceitas ou quando cada um dos vários líderes acredita que chegou sua vez.

Nota-se aqui e ali uma certa idealização na releitura da Diretas Já. Ela pôde unir tanta gente diferente por uma única razão: cada um achava que se daria bem na eventual eleição, mas precisavam juntar-se para saltar um último obstáculo.

De Montoro a Ulysses. De Brizola a Lula.

Só quem nunca acreditou para valer em diretas e sempre jogou no ponto futuro do Colégio Eleitoral foi Tancredo Neves. E levou a taça. Além do PT na época, mais um punhado de gente resistiu a embarcar na canoa tancredista.

Era o movimento Só Diretas. Vale uma pesquisa nos arquivos.


terça-feira, 2 de junho de 2020

O que fazer?

Aqui e ali vão sendo prorrogadas medidas de isolamento social, quarentenas e lockdowns. Mas cada vez menos rígidas. A torcida é para termos realmente atingido e ultrapassado o ápice da curva de mortos pelo SARS-CoV-2.

Os números de hoje não foram bons, diferentemente dos últimos dias.

De todo jeito, as prorrogações têm sido progressivamente mais curtas, conforme diminui a resistência de governantes à resiliente realidade: antes do longo prazo não haverá um “fim da pandemia”, e é bastante provável que até a vacina chegar precisemos conviver com repiques da Covid-19.

Analisar um país continental é sempre mais complexo, pois a interiorização e os múltiplos focos relativizam a relevância dos dados tomados nacionalmente.

Os dados dos próximos (muitos dias) serão decisivos para uma avaliação. Já tivemos momentos de otimismo que a realidade se encarregou de derrubar.

O fato: bons governos deveriam estar agora mais concentrados em organizar esse longo prazo, apesar das cobranças todas serem a respeito do curto.