segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Tarefa para profissionais

A indicação de John Kerry à posição de enviado especial de Joe Biden para assuntos do clima acaba de desenhar o quadro que já se previa complexo para o Brasil diante da nova administração norte-americana. 

Entre os temas que o novo presidente dos Estados Unidos poderia escolher para buscar restabelecer alguma hegemonia global, este era o mais óbvio.

Ainda que no ponto específico talvez haja mais alinhamentos do que desalinhamentos com a China.

Não é o caso do Brasil. Por aqui, Jair Bolsonaro estará logo logo sob pressão para decidir como encarar o desafio, dado o Brasil ter se colocado como alvo óbvio de ações norte-americanas que se pretendam exemplares. 

Um "sitting duck", para usar a terminologia militar (aqui a explicação).

De duas uma: ou o Brasil se dobra ao diktat de Washington ou busca relativizar o alinhamento estratégico com os americanos. Ou tenta achar um ponto intermediário, enquadrando-se mas livrando a cara aqui dentro no aspecto sempre sensível da soberania.

Uma tarefa para profissionais.

sábado, 21 de novembro de 2020

As dúvidas sobre o frentismo em 2022

Confirmou-se que o primeiro turno das eleições municipais trouxe a capilarização dos partidos da base do governo, e que por isso tinham, e aproveitaram melhor, o acesso ao orçamento federal. Viu-se também um certo movimento de continuidade, natural e esperado em meio a uma pandemia. Notou-se ainda a resiliência da esquerda, fenômeno facilmente detectável na manutenção dos votos para vereador e na votação significativa nos grandes centros.

O debate agora é sobre o que o resultado de 2020 projeta para 2022. Com os necessários cuidados, pois não há transposições mecânicas. E falta muito tempo político. Feitas as ressalvas, a dúvida que fica é sobre os possíveis blocos e alinhamentos. E para esse debate é útil a observação do que vai se dar no segundo turno, daqui a uma semana. Pois ficará claro o estágio atual da disposição dos diversos atores para alianças e formação de coalizões. Informação essencial para definir a tática.

Já está explícito, por exemplo, que mesmo as frações mais resistentes a alianças e frentismos na esquerda estão dispostas a votar em qualquer candidato não bolsonarista para derrotar o bolsonarismo. A opção do presidente da República por manter o discurso e a prática alinhados ao que podemos chamar de núcleo ideológico facilita um agrupamento quase automático de forças contrárias quando só há duas opções.

Mas, atenção, desde que o adversário seja palatável aos que em 2018 votaram Bolsonaro ou se abstiveram, e agora procuram outro caminho.

E se em 2022 o presidente for ao segundo turno contra alguém da esquerda? Neste momento, não é excessivo supor que ele deverá arrastar de volta pelo menos uma parte dos arrependidos. Ou será que não? Duas das disputas neste segundo turno são um termômetro para tirar a dúvida. Vitória (ES), onde o PT está no segundo turno, e Belém, onde o adversário do candidato bolsonarista é do PSOL.

Em Fortaleza, o cirismo parece ter formado com facilidade a frente antibolsonarista. Veremos o resultado na urna. Mas, e em Vitória e Belém, o autonomeado centrismo ficará de que lado?

De todo modo, 2022 projeta forte pulverização de candidaturas majoritárias, pelos menos das forças com pouco acesso a orçamentos públicos. Porque o voto majoritário é uma ferramenta preciosa para puxar o voto proporcional, e não custa lembrar sempre que daqui a dois anos a cláusula de desempenho na votação para a Câmara dos Deputados estará colocada alguns centímetros acima do que em 2018.

E a votação para deputado federal, além de definir se o partido fica na Série A ou cai para a B, acaba também definindo quanto a legenda terá de espaço no horário eleitoral e verba do fundo eleitoral em 2024 e 2026. Não é pouca coisa em jogo.

Portanto, é ilusão imaginar alianças muito amplas na largada. Cada um precisará caminhar com suas próprias pernas. Talvez haja alguma convergência entre MDB, PSDB e Democratas, notam-se ensaios. E entre as legendas do chamado centrão, estrito senso, e talvez em torno do presidente da República. O que dependerá, obviamente, da popularidade de Jair Bolsonaro quando chegar a hora de tomar as decisões.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Problemático novo ano

Estamos chegando ao final do ano, então as projeções começam a convergir para a realidade dos fatos. Aliás, não é tão complicado assim fazer em novembro previsões para o ano que está acabando, não é?

Bem, hoje, mais uma vez, o governo ajustou sua previsão para o déficit primário (receitas menos despesas antes do pagamento de juros) em 2020 (leia). Pelo jeito, a coisa vai girar em torno de 850 bilhões de reais. Uma ordem de grandeza de dez vezes a previsão orçamentária inicial.

Claro que a responsabilidade foi da Covid-19 e dos gastos extraordinários por ela provocados. Aliás já tem quem diga que 600 reais de auxílio emergencial foi excessivo, que algo em torno de 200 teria sido suficiente para manter a renda das pessoas e famílias.

Mas Inês é morta e o governo tem diante dele o desafio de fazer o pouso suave do auxílio, previsto para acabar na passagem do ano. Conseguirá? Além de tudo, há também a barafunda congressual, onde não se consegue instalar a Comissão de Orçamento, por causa da guerra na sucessão das Mesas.

Quando acabar o entretenimento eleitoral municipal, o novo ano trará problemas graúdos. Sem contar que ainda não há luz no fim do túnel da Covid.


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Em busca de uma explicação

Enquanto por aqui os políticos, especialmente onde há segundo turno, procuram relativizar a possibilidade de estarmos vivendo a formação de uma segunda onda de casos e mortes pela Covid-19, em Nova York as escolas voltarão a ser fechadas para tentar estancar o avanço da doença (leia).

O SARS-Cov-2 parece mesmo bem resiliente. E faz sentido se usarmos uma lógica até relativamente simples. Mundo afora, as curvas declinaram por uma combinação adequada de um certo grau de imunidade coletiva com algum índice de isolamento e distanciamento social.

Daí o isolamento e o distanciamento foram naturalmente atenuados, até pela duração das medidas, e o vírus voltou a circular mais fortemente e a mais facilmente encontrar receptores sensíveis à infecção. O resultado são as curvas ascendentes mundo afora.

Sem contar situações como a da Argentina, que apesar do duríssimo e extensíssimo lockdown já supera o Brasil na contabilidade de mortos por milhão de habitantes. Um caso ainda em busca de alguma explicação.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A chave da vitória

Quase ninguém está prestando atenção, mas a apuração dos votos continua na eleição para presidente dos Estados Unidos. No estado de Nova York, por exemplo, falta apurar mais de 10% dos votos. 

Daí poucos atentarem para o fato de Joe Biden estar recolhendo, por enquanto, uns 13 milhões de votos a mais que Hillary Clinton em 2016. E Donald Trump estar contabilizando mais de 10 milhões de votos sobre o obtido quatro anos atrás.

E no fim das contas, segundo os números nos estados (leia), talvez as pesquisas não tenham errado tanto assim.

O voto antecipado e o voto pelo correio, além do registro maciço de novos eleitores, deu ali o "drible da vaca" (expressão antiga do futebol) na Covid-19. Já por aqui, a abstenção subiu. Se foi a pandemia ou o desinteresse crescente pelas eleições, ainda não está claro.

Uma coisa é certa: cada vez mais, o desafio para partidos e candidatos será fazer o eleitor votar. O acréscimo, ou decréscimo, no eleitorado ativo de cada um tende a ser a chave para a vitória.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

O número que mais explica

É da natureza humana escolher os fatos que corroboram nossas teses, e ignorar os que não. Tem sido assim nesta eleição. Uns destacam o número de prefeituras conquistadas. Outros, em quantas grandes cidades o partido foi competitivo. Outros ainda, que campo ideológico prevaleceu.

Qual número você prefere? Eu prefiro os votos recebidos na eleição de vereador. É o dado que mostra a real inserção de cada legenda. Pois o partido pode não ter lançado candidato a prefeito, pode ter indicado o vice, pode não ter eleito vereador mesmo com uma boa votação na legenda, por não ter feito o quociente.

Mas para medir a capilaridade, só a votação dos vereadores.

E o que dizem os números (leia)? O DEM, o PSD, o Republicanos (ex-PRB), o PL (ex-PR) e o Progressistas (ex-PP) cresceram bem, o PSDB e o MDB caíram, o PT ficou mais ou menos como estava. Isso entre as maiores legendas. 

Em algum grau, essa contabilidade vai se refletir na eleição proporcional daqui a dois anos.

Ou seja, cresceram os partidos mais estruturados do campo governista, as legendas com mais acesso ao Orçamento Geral da União. Não só por caisa disso, claro. Mas com certeza ajudou bem.


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ainda sobre a eleição

A eleição municipal evidenciou que o movimento rumo à direita das urnas de 2018 capilarizou nas cidades. E saíram-se bem os partidos que conseguiram surfar nas duas ondas, a ideológica antiesquerda e a das relações privilegiadas com quem tem as chaves do Orçamento Geral da União.

Era previsível, e foi previsto, que as legendas do chamado centrão, portanto, estivessem em posição privilegiada para a colheita municipal da semeadura feita por Jair Bolsonaro dois anos atrás. Ganhando terreno inclusive dos fugazmente (2016-18) hegemônicos (P)MDB e PSDB.

E a esquerda viu prosseguir seu desgaste, inclusive porque a onda conservadora passou a varrer o Nordeste, também como efeito da troca de guarda na máquina federal. Mas a esquerda permanece entrincheirada, e ensaia algum protagonismo no Sul-Sudeste, mesmo ainda longe de virar o jogo.

E 2022? Se Bolsonaro retiver a capacidade hegemônica sobre seu campo, esse "centro" agora vitaminado não terá como deixar de endossá-lo, nem que seja num eventual segundo turno. A principal ameaça, por enquanto? Os ensaios de um "bolsonarismo sem Bolsonaro".

Um pessoal que aliás tem motivos para comemorar o resultado das urnas.