segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Para que serve o debate presidencial. E quem precisa tirar coelho da cartola. E quem está protegido.

As pesquisas dizem que eleitor dá muita importância a debates entre candidatos. Porque o eleitor diz que dá muita importância a debates entre candidatos. É prudente não tomar ao pé da letra o que o eleitor diz de si mesmo, mas debates têm sim alguma importância. Em 2006 Lula deixou de ganhar no primeiro turno porque não foi ao debate final. É o que se diz.

A convicção do voto é proporcional ao orgulho que o eleitor sente da sua escolha. Se o candidato “vai bem” no debate, fica mais fácil estufar o peito e defendê-lo no trabalho, na escola, na mesa do restaurante, no almoço da família. Se “vai mal", o eleitor arrisca-se a ser “zoado” nos ambientes sociais que frequenta. Ninguém gosta de passar por situações assim.

Eleições costumam seguir uma lógica tribal. Escolhe-se quem melhor pode liderar a tribo na luta pela sobrevivência e para sobrepujar, dominar ou se possível exterminar as tribos rivais. Quem nunca viu um filme em que dois chefes inimigos lutam até a morte como alternativa racional a uma guerra em que muitos dos chefiados morreriam? #FicaaDica.

“Ir bem” num debate eleitoral é demonstrar qualidades de liderança. Coragem, mas racional. O líder não pode ser corajoso ao ponto de arriscar a sobrevivência do grupo. Autoestima, mas com forte componente de alteridade, a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Do povo. E, sempre, mostrando que o rival não tem essas qualidades.

Por que Lula preso e inelegível mantém-se nos cerca de 30%? Porque o eleitor do ex-presidente continua confiando nele para fazer o que esse eleitor acha que deve ser feito no Brasil: governar com forte preocupação social. Nenhuma acusação até agora contra Lula fez, nem ao menos, cosquinha nesse atributo.

Bolsonaro resiste nos seus cerca de 20% porque ninguém faz sombra a ele na disposição de combater politicamente a esquerda e a influência social e cultural do pensamento de esquerda. O PSDB até que tenta, mas seu pé no progressismo funciona como freio de mão puxado. Não tem a mesma autenticidade, o mesmo “punch”. Bate fofo, como se diz.

Para ir ao segundo turno, Ciro precisa ou 1) mostrar que é mais confiável aos pobres e ao Nordeste que o substituto de Lula (Haddad) ou 2) recolher o eleitor órfão de uma suposta social-democracia não petista, órfã do deslocamento do PSDB para a direita. Os dois caminhos são complicados, mas possíveis. Um problema de Ciro é depender muito do erro alheio.

Já Alckmin precisa 1) mostrar-se mais capaz que Bolsonaro de derrotar a esquerda. Ou então 2) acreditar que existe mesmo um eleitorado centrista. O primeiro caminho seria facilitado se o tucano exibisse mais músculos que o capitão nas simulações de segundo turno. O segundo complicou-se quando Lula indicou Haddad. Sem falar da concorrência de Marina.

A desconstrução de Lula ou do substituto só será possível se os adversários fragilizarem o núcleo da imagem do líder petista. E é duvidoso que os rivais de Bolsonaro enfraqueçam-no decisivamente adotando como tática eleitoral atacar o “despreparo” dele. O eleitorado do capitão não está atrás de “preparo”. Procura quem derrote, se possível elimine, a esquerda.

Alckmin tem instrumentos para vencer a “semifinal” na chave da direita. Tem partidos, dinheiro, tempo de televisão e a simpatia do establishment. Bolsonaro é a sensação desta Copa até agora, mas sensações também tropeçam na hora h. Só que o relógio está correndo. Já Ciro disputa em situação de grande desvantagem material.

Alckmin e Ciro precisam que alguma coisa mude. Já Bolsonaro e o PT jogam ajudados pela inércia, como parecem comprovar as pesquisas, inclusive as que apontam o potencial de transferência de votos de Lula para Haddad. Quem precisa que alguma coisa mude precisa usar os debates para tentar dinamitar na semifinal o pilar que sustenta a imagem do rival.

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Já há algum consenso de que a prisão, se impede Lula de falar às massas, protege-o de ataques, críticas, questionamentos e manifestações contrárias. Mas ainda não tinha ficado claro que a ausência forçada do PT nos debates acabaria tirando o PT do foco, no ringue televisivo entre os candidatos. Não só Lula está por enquanto algo protegido. O PT também.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Chegou a hora do pensamento mágico

É ilusão achar que as eleições trarão paz política
Desejos não produzem necessariamente realidades


Esta hora ia mesmo chegar. Em meio ao emaranhado da confusão política, começam a aparecer não só apelos à conciliação, mas até previsões de que 2019 tem mesmo chance de inaugurar um novo período de concórdia nacional, de união nacional, deixando para trás os tristes tempos de divisão e desentendimento. Atenção: não coloquei as aspas relativizantes, mas o leitor notará que estou apenas estruturando uma narrativa alheia.

E quanto mais aumenta a confusão, mais fértil fica o terreno para vicejar uma certa modalidade de pensamento mágico. Adotem-se ou preservem-se determinados ritos e isso fará alcançar a meta desejada. Proceda-se à eleição, e o rito mandará ao arquivo morto a divisão e a discórdia que infelicitam o corpo e a alma nacionais. Restará então retribuir a graça alcançada, ajudando-se o novo governo a cumprir sua missão de buscar o bem comum.

Simplesmente não vai acontecer. Também porque “bem comum”, como “reforma política", “reforma tributária” e outras generalidades e platitudes, quer dizer ao mesmo tempo tudo e nada. Para uns, o bem comum está expresso na projeção futura de um passado no qual o governo Lula trouxe prosperidade. Para outros, o bem comum será mais facilmente alcançável enquanto Lula estiver preso e inelegível, exatamente para evitar a volta a esse passado.

Mas a prisão e a inelegibilidade de Lula são apenas a ponta do iceberg da discórdia nacional, que divide o país em campos dificilmente conciliáveis, e hoje inconciliáveis. A raiz do problema é mais profunda. A base da estabilidade política na democracia é a percepção consensual, ou amplamente majoritária, de que as regras para chegar ao poder são razoáveis e equilibradas. E acessíveis a todos. Não necessariamente precisa ser verdade. Importante é a percepção.

Estamos muito longe disso, e acho que não é necessário elaborar. Estamos muito longe também de algum consenso sobre quem tem razão na economia. Provavelmente todos farão mais ou menos a mesma coisa se chegarem lá, mas quem perder cavará trincheiras contra o que será feito, mesmo que provavelmente fizesse o mesmo. Governos sempre têm força, mas desta vez, como em 2015, teremos também uma oposição muito forte.

Aqui e ali ouve-se o lamento neosebastianista a recordar nossa Alcácer-Quibir, a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral em 1984. Achava-se que tinha sido uma vitória, mas conforme o tempo passa aumentam as dúvidas a respeito. É prudente esperar antes de avaliar os acontecimentos históricos, mas aquela celebrada transição que nos prometeu liberdade, democracia e prosperidade justa vai tendo seus fundamentos corroídos a cada dia.

Tancredo talvez seja mesmo nosso Dom Sebastião. Foi-se cedo demais, apesar da muita idade, e é cultuado menos pelo que fez e mais pelo que provavelmente teria feito. Entrou de um jeito bonito na História e será sempre evocado quando uma alma piedosa precisar de um exemplo de líder capaz de conciliar e unir gente e grupos distantes. Mas como não chegou a governar, o passivo da Nova República, cujos escombros são a paisagem da hora, ficou para José Sarney.

#FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br #FicaaDica.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

E se na hora decisiva o PT acabar ajudado pela espuma em torno do “centro” e do “novo”?

Era previsível que o PT chegaria competitivo à eleição presidencial. Numa sucessão marcada pela incerteza, há hoje razoável convicção de que a dupla Fernando Haddad-Manuela D’Ávila tem potencial para passar à finalíssima. Assim como o PSDB de Geraldo Alckmin, a aliança PT-PCdoB depende só de si para estar na urna eletrônica em 28 de outubro.

Claro que isso será função da identificação do lulismo com a chapa nascida do impedimento eleitoral do ex-presidente. Segundo o Datafolha, em torno de 30% dizem que votam com certeza num candidato de Lula, e pouco mais de 15% dizem que talvez votariam. Mas quando Haddad é apontado como esse candidato o número total cai para 13% (XP/Ipespe).

Há pelo menos três leituras possíveis, não excludentes, para essa diferença: 1) Lula tem mais eleitores que o PT; 2) O eleitor que gosta de Lula não necessariamente gosta de Haddad; e 3) Haddad é um desconhecido. As três afirmações são evidentemente verdadeiras. A dúvida é saber qual explica melhor a defasagem entre os índices do “candidato de Lula” e de Haddad.

Lula tem sim mais eleitores que o PT, mas o partido voltou ao share de 20% do eleitorado. Ou seja, Haddad, o “candidato de Lula”, ainda tem mercado a abocanhar no universo petista. O que também relativiza a segunda explicação. A conclusão mais razoável: Haddad vai subir conforme for ficando mais conhecido como o nome do PT e de Lula para esta corrida.

Em tese, ele vai para pelo menos uns 20%, a preferência pelo PT e uns dois terços do voto de Lula. Se tiver menos, terá cometido erros; se passar disso, sua campanha de primeiro turno terá sido um sucesso. E se o não voto (branco/nulo/não foi votar) ficar na casa de 33%, Haddad bateria em 30% dos válidos, o que deve dar para estar entre os dois primeiros.

Mas para virar realidade essa teoria exige execução. O que não chega a ser um bicho de sete cabeças. Onde estão os riscos? Um é Ciro Gomes crescer e capturar parte do voto petista-lulista. Pode acontecer, mas o PT tem meios, inclusive tempo de TV e rádio, para blindar seu eleitorado. Se quiser encorpar, Ciro tem de sair do cercado da esquerda. E ele está tentando.

Outro risco é um recrudescimento da #LavaJato contra o petismo, ainda que a operação já tenha descarnado bem essa carcaça. Mas, a não ser que surja algo novo e espetacular contra Haddad, o efeito da #LavaJato sobre o PT já está precificado. A esta altura, potenciais fatos novos gerados no âmbito dela talvez assombrem mais outras candidaturas.

Até por esse detalhe, o entusiasmo pela #LavaJato não é mais o mesmo. Um sintoma é a aliança de Alckmin com o chamado centrão ter recebido apenas críticas protocolares, longe da onda de indignação que se produziria em outros tempos, e se fossem outros os personagens. Mas convém ficar de olho. Se o vento mudar de novo, Marina Silva e Álvaro Dias estão na pista.

O desafio do primeiro turno é equacionável pelo PT. Mais complicado seria um segundo, onde o antipetismo hoje sólido na sociedade teria terreno fértil. Não à toa Lula optou por Haddad e seu figurino algo centrista, ainda que pela esquerda. Se o espaço do “centro” continua aberto, por que Lula deveria abrir mão de repetir o que sempre deu certo para ele?

Não sei se vai acontecer, pois os adversários não estão dormindo, mas seria curioso se, depois de tanta espuma, as platitudes do “centro” e do “novo” acabassem abduzidas pelo petismo em aliança com o PCdoB. Aliás, no segundo quesito, Haddad é o único candidato competitivo com pinta de que vai sobreviver para a presidencial de 2022, com qualquer resultado agora.

Ou seja, Lula está jogando para já, sim. Se não der, já terá jogado também para o futuro. A prisão não parece ter, por enquanto, afetado negativamente sua perícia nesse xadrez.

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A diferença oceânica entre as audiências do debate da Band e do evento paralelo feito pelo PT na internet vai fazendo cair a ficha de quem acreditava que esta eleição seria decidida “nas redes sociais". E, como o noticiário já registra, o PT parece ter percebido que a campanha “alternativa” já deu o que tinha de dar. Hora de virar a chave.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

País escorrega para um neomonarquismo

Legislativo deixa de ter papel
STF virou corte de 11 monarcas

O Senado argentino recusou uma proposta de legalização do aborto que fora aprovada pela Câmara dos Deputados. É improvável que isso tenha encerrado o debate. Ele deverá prosseguir e espera-se que as diversas correntes políticas e religiosas continuem defendendo seus pontos de vista. Nada impede que o tema volte à pauta no Legislativo do país vizinho, instância onde esse tipo de discussão costuma correr.

Já aqui o debate acontece não entre deputados e senadores, mas no Supremo Tribunal Federal. As maiorias conservadoras são consistentes no Congresso e as correntes favoráveis vibram com a possibilidade de contornar essa dificuldade, apoiando a transferência da decisão para o tribunal constitucional. Pegam uma carona na onda de ativismo judicial que o país vem surfando há algum tempo.

O problema do esvaziamento da esfera política em benefício da burocrático-estatal não é só brasileiro. Nos Estados Unidos, a guerra mais cruenta entre democratas e republicanos, numa época de guerras políticas especialmente cruentas, é em torno da composição da Suprema Corte. Se a maioria será conservadora ou liberal (progressista). É uma pauta sem acordo político-parlamentar possível.

O enfraquecimento da chamada democracia é planetário, principalmente pela dificuldade de transformar maiorias sociais em eleitorais, e estas em maiorias político-governamentais. Mas aqui no Brasil a coisa já chegou a outro patamar. O Congresso já deixou de ser visto pela sociedade como o palco primeiro de negociação e solução dos dissensos políticos. E o Legislativo não resiste, vem na prática abrindo mão de seu papel, num mecanismo claro de autodefesa.

Um Congresso acossado por ameaças judiciais-policiais parece preferir a perda de poder, se isso ajudar a afrouxar a corda que enlaça seu pescoço. Some-se a isso o hábito institucionalizado de “perdi uma votação, não aceito e vou recorrer ao Supremo”. Estão criadas as condições para transformar o STF numa instituição que na prática acumula o Poder Legislativo. Com as consequências previsíveis, como, por exemplo, a divisão em bancadas.

A anomalia aqui descrita não é nova. Nem o diagnóstico. O importante é notar um detalhe: os que um dia criticam o excesso de ativismo judicial, quando a Justiça os desagrada, saúdam no dia seguinte esse mesmo ativismo, se calhar de ficarem felizes com a decisão ou mesmo a iniciativa dos tribunais. Esse parece ser o único pacto político em vigor. Estão todos de acordo em enfraquecer ainda mais a representação política eleita na urna.

A direita protesta quando o STF envereda por reescrever a Constituição no tema do aborto, mas curte quando o tribunal pratica um constitucionalismo criativo no tema dos direitos e garantias individuais. Já a esquerda exige fidelidade à letra da Carta no segundo caso, mas saúda que a Corte ensaie “atualizar” o texto no primeiro. O resultado é visível: vamos regredindo de um republicanismo meio mambembe para um neomonarquismo distribuído por onze monarcas.

A cada polêmica, as partes são chamadas a manifestar-se diante do soberano, que em seguida decidirá, não conforme o que foi escrito pelos representantes do povo, mas guiado por uma sabedoria supostamente superior, quem sabe derivada de algo similar ao direito divino dos reis de antigamente. Talvez não seja só coincidência um príncipe da família real deposta em 1889 ter sido cogitado como candidato a vice na corrida presidencial.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Depois de muita conversa, acabou o intervalo para platitudes. E uma janela para a internet.

A crônica política é recheada de expressões tão grandiloquentes quanto vazias. Uma delas é “o político que pensa em primeiro lugar no país". O sujeito que abdicaria voluntariamente de posições de poder em nome de uma causa maior: derrotar o campo adversário. Personagem dificílimo de achar na vida real. Esta eleição comprova mais uma vez.

O espectro do chamado centro para a direita poderia juntar-se em torno de Meirelles e seu currículo em economia, ou de Álvaro Dias e sua impermeabilidade a fatos da LavaJato. A união seria mais complicada em torno de Bolsonaro. No limite, poderiam apoiar Marina, a mais apresentável como “de centro". Mas Alckmin não abriu mão e agrupou as máquinas.

Outro que não abre mão é Lula. Nem Lula nem o PT veem motivo para ceder a liderança, mesmo que isso acomodasse melhor as forças supostamente unificáveis para enfrentar o rolo compressor que derrubou Dilma e sustenta Temer. “Se querem me aposentar que arrumem votos para isso”, parece ser o recado do ex-presidente preso em Curitiba.

Alckmin tem duas vantagens e uma desvantagem. Está bem com o establishment e exibe uma incomparável junção de máquinas. Mas não está de bem ainda com o eleitor. E estes dias Bolsonaro sobreviveu com folga a duas provas jornalísticas, superando em boa medida dúvidas sobre a capacidade de enfrentar situações assim. E parece de bem com seu eleitor.

Já Lula e o PT estão no osso, ou quase. Pela primeira vez desde 2002 vêm destituídos de máquinas relevantes. Mas parecem sintonizados com o eleitor de esquerda. Lula ocupa um latifúndio de 30% e o apoio ao partido está consistente em 20%. Nenhum outro nome ou legenda chega perto. E o petismo buscou fazer valer a força nesta reta final de montagem da chapa.

Outro fator explica a pouca permeabilidade dos partidos tradicionais para ceder espaço: num segundo turno contra Bolsonaro todos acreditam ter boa chance de ganhar. E não é uma aposta totalmente destituída de razoabilidade. O candidato do PSL mostra grande resiliência, mas ainda pouca capacidade de ampliar para fora de seu eleitorado tradicional.

Mas atenção ao “ainda”. As apostas a favor da fragilidade de Bolsonaro têm insistido em não se pagar. Uma das últimas balas na cartucheira é acreditar que ele não resistirá à disparidade de tempos de televisão. Será sufocado como Marina em 2014, esmagada que foi pelo ataque simultâneo do PT e do PSDB, que naturalmente preferiam um ao outro na decisão.

Se o absenteísmo (brancos, nulos e ausências) alcançar 33%, quem tiver 20% dos votos baterá em 30% dos válidos. E estará com um pé na final. Bolsonaro precisa pelo menos manter-se. O PT tem de transferir dois terços do voto de Lula. Alckmin precisa lipoaspirar Bolsonaro e/ou esvaziar Marina e Álvaro. Ciro, Marina e Álvaro precisam tirar coelho da cartola.

Mas quem consegue, em algum cenário, 10% ou pouco menos tem o direito de acreditar que chegará aos 20%. E com isso passar ao segundo turno. Ou seja, uma meia dúzia de candidatos veem-se atravessando a primeira barreira e chegando a 28 de outubro em boa situação de vitória. Difícil convencer alguém a desistir num cenário assim.

O grande político, que às vezes ganha o direito de ser chamado de “estadista", consegue colocar em primeiro lugar seus próprios interesses dando a impressão de estar apenas preocupado em defender os interesses dos outros. Só que agora está difícil. Vamos aguardar a campanha para ver quem consegue desgarrar do pelotão, para adiante.

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Terminadas as preliminares, vem aí uma certa travessia do deserto, o período entre o fechamento das chapas e o início dos programas e propagandas no rádio e na TV. Vai ser uma oportunidade de verificar o real poder da internet na comunicação dos candidatos. Será que vai haver alguma movimentação relevante nas pesquisas?

Eu apostaria que não.

domingo, 5 de agosto de 2018

Governo Geisel ajuda a entender problemas do próximo presidente

O 4º presidente militar do ciclo de 1964, general Ernesto Geisel, tinha um projeto: recuar a tropa aos quartéis e legar uma institucionalidade de ares democráticos e sustentável. A intenção era não deixar possibilidade real de a esquerda chegar ao poder.

Nesse cenário, as eleições de 1974 aconteceram num ambiente paradoxal: enquanto o regime matava os militantes da esquerda, armada ou política, a campanha eleitoral transcorria em razoável liberdade.

A história conta que o plano não deu tão certo assim. O regime duraria ainda uma década, mas aquelas eleições contrataram não apenas seu fim, inviabilizaram sua institucionalização.

A desaceleração depois do milagre econômico e o repique inflacionário, provocado também pelo primeiro choque do petróleo, contribuíram para o MDB conseguir ampla vitória na eleição do Senado e mais de um terço das cadeiras na Câmara. O partido era a única oposição legal.

O resultado bloqueou que o governo fizesse no Congresso reformas constitucionais sem apoio da oposição. Além disso, deixou claro que eleições razoavelmente livres eram um risco.

Na reação, a resposta do regime à derrota de 74 foram seguidos “casuísmos”, manobras para conter o voto oposicionista e seus efeitos práticos. A começar pela chamada “Lei Falcão”, que limitava a propaganda eleitoral a fotos e currículos de candidatos.

Depois veio o Pacote de Abril, um conjunto de medidas antidemocráticas, mas este artigo não pretende comparar aquele período e o atual. As diferenças são evidentes. O objetivo aqui é outro: entender a dificuldade de estabilizar pacificamente um cenário de contradição aberta, entre o que o governo faz, ou quer fazer, e o que o eleitorado quer que ele faça.

Num exercício teórico, teria sido mais fácil para o antecessor de Geisel, Emílio Garrastazu Médici, institucionalizar o regime. No governo dele o PIB cresceu ao que se chama hoje de “ritmo chinês”, mas o foco dos militares ainda era eliminar a resistência armada.

Quando finalmente veio a distensão, a economia tinha parado de “bombar” e o povão ficara mais vulnerável aos argumentos oposicionistas. A resposta surgiu na urna e depois na rua, com o resultado conhecido.

O mau desempenho econômico do governo Michel Temer é um pilar que sustenta a tese de Lula ser vítima de conspiração, de uma tramoia urdida para impedir que dispute e ganhe. A consequência é imediata: o próximo governo já nascerá maculado pelo deficit de legitimidade.

Se der a esquerda, será um desafio ao sistema de poder organizado em torno da Lava Jato e porta-vozes. Se não, a esquerda articulará a resistência aos que só ganharam porque Lula foi proibido.

Como desfazer o nó? Mesmo nos Estados Unidos, paradigma de democracia capitalista de sucesso, declina rapidamente a ideia de que, passada a eleição, cabe ao vencedor governar e ao perdedor trabalhar para a ganhar a seguinte, mas sem atrapalhar muito o país.

Quanto mais no Brasil, onde a fé democrática é bem mais rala e, em meio a um mar de escândalos, o único líder de expressão nacional impedido de concorrer é Lula.

Assim como a crise econômica dos anos 70 e 80 impediu na prática a institucionalização do então regime, ou o próximo governo encontra a chave para fazer a economia e o emprego crescerem ou entrará rapidamente em processo de degradação.

Com a desvantagem, na comparação com o período Geisel, de não ter os instrumentos autoritários e repressivos para pelo menos reduzir a velocidade do processo. E aí aparece uma dificuldade adicional.

Qualquer plano de retomada econômica precisará atacar os privilégios da burocracia estatal e as benesses ao empresariado. Mas como fazer isso se a aliança de um certo empresariado com certa burocracia tem sido a espinha dorsal do bloco de poder pós-2016? Se foi esse pessoal que deu a contribuição decisiva para tirar o PT do Planalto? A direita apoiaria a esquerda no ataque aos privilégios do Judiciário e do Ministério Público? E a esquerda ajudaria os algozes políticos a colocar o poder paralelo de volta na garrafa?

Difícil.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 30 de julho de 2018

A polarização que vai vingar. E duas perguntas simples, que seria bom ter nas pesquisas eleitorais

Desde sempre sabe-se que as eleições deste ano serão disputadas em ambiente de polarização. Até por isso ser algo tautológico. O normal é eleições acabarem polarizadas, mesmo em períodos de dita paz política, quanto mais agora. As exceções são raras. Vender o contrário costuma ser um dos muitos contos-do-vigário da política.

A dúvida nunca é se vai haver ou não polarização, mas que polarização haverá. É como no judô: quem consegue a melhor pegada no quimono adversário mais chance tem de impor o golpe decisivo. No léxico político-eleitoral, quem impõe a pauta tem meio caminho andado para finalmente aplicar o ippon no dia da urna.

A economia vem mandando nas eleições desde há muito. O PSDB ganhou duas disputas presidenciais impondo a economia como pauta central. Era o tempo em que os tucanos sacavam do Real para ter voto nos pobres. Depois o PT ganhou quatro eleições também assim: uma pela insatisfação com o PSDB, e três pela superioridade dos resultados econômicos petistas.

O establishment vinha tentando mudar a lógica desta vez. Houvesse um nome “novo” viável e compromissado com a agenda liberal, seria possível vender a centralidade de renovar a política como veículo da continuidade do programa do governo Michel Temer. Não faltaram tentativas. Mas ninguém com o figurino conseguiu até agora massa crítica.

Marina Silva e Álvaro Dias estão aí, mas a melhor probabilidade de ainda impor essa polarização continua sendo Jair Bolsonaro. Entretanto, ele estar excessivamente à direita faz o establishment desconfiar de sua competitividade. Daí a celebração em torno das amplas alianças costuradas com competência por Geraldo Alckmin.

O establishment acredita que as concessões à "velha política” talvez possam se pagar. E é sempre melhor poder apostar em dois cavalos, ou talvez três, do que depender de um só. Poderiam ser até quatro, se Ciro Gomes tivesse atraído um pedaço da direita. Mas ao fim e ao cabo a turma não quis trocar o certo pelo duvidoso. Um governo do PSDB dificilmente trará surpresas.

Não existe almoço grátis, e Alckmin carregará com ele as frustrações do governo Temer. No fritar dos ovos, ou ele ou Bolsonaro serão “o candidato do Temer” no segundo turno, com algum espaço ainda para Marina e Álvaro Dias. O “candidato do Temer” pode bem ser alguém que passe a campanha atacando o presidente, desde que incorpore a agenda temerista.

E ao “candidato do Temer” é provável que se oponha na decisão um “candidato do Lula”. Pode ser alguém do PT ou o próprio Ciro. Ou, numa hipótese mais remota, até Marina. O nome importa, mas não é tudo. Vale o caráter da polarização. E hoje ela tende a girar de novo em torno da economia e ser esquerda x direita, ainda que esta venha fantasiada de centro.

Por isso, o desafio do establishment continua mais ou menos do mesmo tamanho. Ir ao segundo turno é bom, mas o que interessa mesmo é ganhar. E como ganhar vendendo algo que indica continuidade econômica num ambiente de alta demanda por mudanças? E com um “candidato do Lula” comparando a economia atual com a do ex-presidente?

Alckmin imagina contar com o peso maciço das máquinas federal e da maioria dos governos estaduais. Isso tem se mostrado decisivo nas recentes eleições extras nos estados. Ele terá também ampla simpatia da elite. Quanto pesarão os dois vetores na disputa presidencial? Só haverá uma maneira de ir acompanhando isso ao longo da campanha: as pesquisas.

Um problema é que as pesquisas, ao menos as registradas na Justiça, têm perguntado de tudo, menos o essencial. Poucas têm medido a intenção de voto em um “candidato do Lula” no primeiro e no segundo turnos. E não têm confrontado os candidatos “do Lula” e “do Temer” no segundo turno. Numa eleição sem grandes líderes dotados de voto próprio, seria bom.

Vai ser difícil fugir dessa polarização.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A esquerda já teve faróis melhores

Netflix: ‘The Vietnam War’ é imperdível
É antídoto contra a burrice pandêmica


Vale muito ver a série de 10 episódios sobre a Guerra do Vietnã de autoria de Ken Burns, no Netflix. A obra dele sobre a participação americana na Segunda Guerra Mundial, também disponível no serviço de streaming, já era boa. Esta sobre o conflito no Sudeste Asiático é melhor. Uma aula detalhada de história dos Estados Unidos nos anos 1960 e 1970 do século 20.

A abordagem de Burns é pacifista, mas a série é honesta. Quem viveu aquela época vai concordar. Os diversos pontos de vista estão contemplados. O espectador consegue concluir baseado em fatos. Coisa difícil de achar hoje em dia. E uma conclusão é Richard Nixon ter sido um grande presidente, bem melhor que John Kennedy e Lyndon Johnson.

Pelo menos sob o parâmetro da política externa e do episódio mais importante do período: a guerra contra a guerrilha vietcongue do Vietnã do Sul e as forças regulares do Vietnã do Norte. O republicano Nixon deu um jeito de tirar o país de uma guerra “inganhável”, em que os americanos foram metidos pelos democratas Kennedy e Johnson.

Além disso, Nixon restabeleceu relações com a China, rompidas desde a chegada dos comunistas ao poder. E fechou o primeiro tratado de limitação de armas nucleares com a União Soviética. Sim, Nixon prosseguiu a política de desestabilizar e derrubar governos de esquerda mundo afora, mas nisso ele e os antecessores rezaram pela mesma cartilha.

A série de Burns faz relembrar um dos muitos detalhes macabros da Guerra do Vietnã, talvez o mais macabro deles. Num certo momento, a estratégia do comandante das tropas americanas, William Westmoreland, passou a ser matar guerrilheiros vietcongues em ritmo maior que a velocidade de recrutamento da guerrilha. O objetivo era produzir um impasse e forçar uma negociação de paz.

Lógico que a coisa colocada assim virou uma matança. Para “bater a meta”, chegou uma hora em que se começaram a matar civis em larga escala. A história é conhecida: isso ajudou a engrossar a repulsa dos americanos e do resto do mundo, e no final faltou apoio político para a estratégia militar ser concluída até o efetivo sucesso do plano.

Johnson, o genocida, jamais foi alvo de um processo de impeachment. Deixou o governo em 1968 e foi morrer alguns anos depois na paz do seu rancho texano. E faça-se justiça: Johnson não foi só um genocida. Foi também o presidente que institucionalizou a conquista dos direitos civis pelos negros, apesar e contra a forte resistência no interior de seu próprio partido.

O presidente mais lembrado por iniciativas legais contra a escravidão dos afro-americanos é o republicano Abraham Lincoln. E o mais vistoso símbolo da resistência final dos brancos do Sul à igualdade dos negros foi o democrata George Wallace. A história e a política costumam ser complexas e contraditórias, verdade difícil de aceitar na nossa era de burrice pandêmica da “militância das redes sociais”.

Johnson nunca foi ameaçado de impeachment apesar de genocida, e de isso ser sabido em tempo real. Nixon renunciou pois seria deposto por tentar encobrir a espionagem de adversários por apaniguados dele. Watergate fez a fama do Washington Post e da dupla de jornalistas que tocou o assunto no jornal. Os Papéis do Pentágono não tiveram maior efeito jurídico-criminal.

Os episódios da série de Burns sobre a Guerra do Vietnã são longos, quase duas horas cada, às vezes arrastados. Mas valem cada segundo. Especialmente em tempos nos quais a esquerda mundo afora parece capturada pela agenda do Partido Democrata americano e faz eco ingênuo ao belicismo antirrusso. E faz pouco caso da possibilidade de uma paz honrosa na Coreia.

A esquerda já teve faróis melhores.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 16 de julho de 2018

E se o preço da estabilidade for o imobilismo, o país preferirá a instabilidade? Façam as apostas

A política e as tribos dela dependentes ocupam-se de tentar adivinhar o nome do próximo presidente. O resto do país, alguma hora, vai querer saber o que ele fará. Aliás, o assim chamado mercado já anda entretido com isso. E um valor em alta nos pedidos para o final do ano é a estabilidade. Sem ela não iríamos a lugar nenhum, continuaríamos no pântano.

Às vezes a opinião pública gira em falso, em torno de certezas surgidas não se sabe bem de onde. Uma é que a estabilidade seria indispensável e também suficiente. A simples observação dos fatos derruba o postulado. O governo Michel Temer tem sido o mais estável desde a redemocratização. Resistiu a duas votações na Câmara para derrubá-lo. E daí? E daí nada.

Um governo pode ser ao mesmo tempo muito estável e viver imobilizado, que é o caso. Então, como fazer para o próximo presidente conseguir combinar estabilidade na função e iniciativa política e econômica para enfrentar os desafios do cargo? Começando pela retomada da economia e dos empregos, especialmente para a população mais jovem.

Há aqui problemas antigos e novos. O antigo é um sistema partidário-eleitoral organizado para negar ao chefe do Executivo a maioria automática no Congresso. Melhor dizendo, para negar ao eleitor, na prática, a possibilidade de construir democraticamente na urna maioria congressual para o presidente eleito executar seu programa.

Há todo um portfólio de modelos para resolver isso, mas não há interesse em implementar. A resistência conhecida vem de um sistema partidário feudalizado. Mas essa é a face visível. A invisível é outra: impor compulsoriamente ao presidente estar em minoria no Legislativo tem sido útil para frear a influência “cesarista" do voto majoritário sobre o poder.

Um jeito de dar ao Planalto melhores instrumentos para formar maioria na Câmara seria determinar a verticalização das coligações (o voto vinculado) e distribuir as vagas de deputado de acordo com a votação recebida não pelos deputados, mas pelo presidente. E a base que eventualmente ainda faltasse ao final do primeiro turno seria reunida para o segundo.

Não vai acontecer. E aqui compreende-se melhor por que fracassaram as tentativas de implantar o parlamentarismo entre nós. Onde ele faz sucesso é porque, na real, a eleição do primeiro-ministro acaba sendo “direta". O eleitor vota no partido ou no candidato a deputado já sabendo em quem está votando para governar o país. E consegue.

Mas, além dos problemas antigos há agora os novos. Não bastará ao próximo presidente formar maioria num Congresso balcanizado, precisará recolocar para dentro da jaula a profusão de pólos carnívoros de poder liberados desde 2014 para caçar os políticos. Isso resultou, como era inevitável, num sistema multipolar em que uns neutralizam os outros, e a resultante é zero.

O ambiente político no Brasil está cada vez mais parecido com a Rússia dos Romanov, menos por um detalhe: falta o czar. A profusão de mecanismos de controle e regulação, a produção compulsiva de regulamentos, o empoderamento dos burocratas, o ambiente opressivo, o poder da polícia. Está tudo aí. Só falta alguém capaz de fazer o emaranhado dar em algo útil.

O próximo presidente chegará em 2019 com minoria no Congresso e já tolhido pela impermeabilidade de um Estado que passou a prestar contas só a si mesmo e ao pedaço da elite econômica com acesso ao que se convencionou chamar de opinião pública. E se quiser fazer coisas que esta segunda pede, como reformar a previdência, terá de enfrentar a primeira.

Dos quatro eleitos para a Presidência desde 1989, dois foram derrubados. É humano que o quinto queira fugir disso. Um jeito é compor-se com o poder real e profundo, descrito nos parágrafos anteriores. Isso traria estabilidade. E também imobilismo. Pois as forças que podem prover estabilidade são as mais beneficiadas por nada mudar.

Seria uma fórmula vencedora, não fosse pelo detalhe de que uma hora o circo sozinho não resolve, é preciso distribuir algum pão. O que pode eventualmente levar a sociedade a pedir não estabilidade, mas instabilidade. O momento está próximo? Não parece ainda. Mas é sempre bom ficar de olho em quando e como essa demanda vai surgir.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A conciliação não tem mandato popular

Cada lado acha que pode eliminar o outro
Como ninguém tem força suficiente, há impasse


Uma originalidade desta eleição: ao contrário das anteriores desde o fim dos governos comandados por militares, nenhum campo político definiu ainda seu pole-position. Na esquerda, correm um ainda não designado “candidato do Lula” e Ciro Gomes. Na direita, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. Com um pé em cada barco, Marina equilibra-se ali pelo meio e consegue, até o momento, segurar os votos dela.

Fatos são fatos, e não adianta reclamar. A direita adoraria estar agora unificada em torno de um único concorrente, que já pareasse com o ex-presidente petista em intenção de voto e exercesse forte magnetismo sobre os satélites tradicionais.

A regra, desde pelo menos 2006, era um tucano mostrar-se bem mais competitivo a esta altura. E o PT preferiria estar, como no último quarto de século, no controle absoluto do voto das diversas tonalidades da esquerda.

Mas tudo na vida tem dois lados. A bagunça atrapalha cada um, mas também ajuda. A falta de definição num campo acaba retardando a arrumação no outro, deixando aberta a porta para variadas possibilidades.

Enquanto isso segue o baile, que leva jeito de querer se estender até bem perto do primeiro turno. É razoável projetar, no limite, uma indefinição até as últimas horas sobre quem passa à final. Serão fortes as emoções.

Veja-se o papel de Ciro. Ele produz incerteza sobre a presença de um “candidato do Lula” no segundo turno. Mas ao mesmo tempo impede, por enquanto, que Alckmin ganhe massa crítica, quando o agora pedetista trabalha alianças que a esta altura já deveriam estar na bagagem do PSDB. E não é absurdo imaginar que Bolsonaro também acompanhe esses movimentos com alguma satisfação. Enquanto o dito centro está dividido, ele ganha tempo e espaço para virar opção palatável.

O bolsonarismo resiliente é um problema para o PSDB, mas aqui também tem outro lado. Uma direita nítida e de raiz permite ao conservadorismo brasileiro fantasiar-se de “centro” e vender-se como alternativa moderada num ambiente de alta radicalização. O problema habitual nestes casos? Criar jacaré (Bolsonaro) na piscina de casa é arriscado, principalmente se ele cresce e passa a querer devorar quem o criou. Mas viver é correr riscos.

Claro que uma hora a coisa vai ter de se arrumar, e aí assistiremos às batalhas internas decisivas dentro de cada campo, pela vaga na decisão. Que serão provavelmente sangrentas, com a esquerda em posição algo mais confortável que a direita no caso de dar zebra. É menos problemático ao PT apoiar Ciro do que ao PSDB e demais “de centro” subirem no palanque de Bolsonaro. Mas se for preciso farão, e não seria prudente duvidar.

Especular sobre o desfecho é, por enquanto, apenas isto: especulação. Uma dúvida é sobre se no final vai prevalecer a polarização dura ou algum tipo de conciliação. A favor da segunda, o cansaço progressivo com a crise. A favor da primeira, a falta absoluta de um mandato popular para a segunda.

Cada pedaço do país está convencido de que a saída é eliminar o adversário, e esse espírito percorre a sociedade na vertical e na horizontal.

Uma razão do atual impasse é ninguém ter reunido força suficiente para realizar o desejo de eliminar o inimigo. A rigor, o país está paralisado há anos num empate catastrófico.

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Publicado originalmente em www.poder360.com.br

segunda-feira, 9 de julho de 2018

As circunstâncias da guerrilha e da contra-guerrilha no domingo de escaramuças em torno de Lula

A guerra em torno da liberdade ou não de Lula é assimétrica. Os inimigos dele têm larga vantagem em forças convencionais. Têm hegemonia no Judiciário e na imprensa, e por enquanto maioria nas pesquisas feitas no conjunto da sociedade. É uma correlação de forças que lhes tem permitido manter preso e inelegível o ex-presidente.

É natural portanto que as forças lulistas acabem levadas a táticas de guerrilha, como a que buscou neste domingo libertar o ainda pré-candidato do PT à Presidência. E os efeitos da escaramuça precisam ser vistos à luz de dois critérios: 1) o resultado militar propriamente dito e 2) a resultante propagandística e militar no cenário geral da guerra.

A #LavaJato travou a batalha militar tática para impedir que Lula fosse solto, mesmo que por uns instantes. Mostrou força, o que é sempre importante. E o lulismo conquistou uma primeira vitória propagandística, ao impor ao adversário que este usasse abertamente de métodos pírricos, do tipo que fazem o vencedor sair do conflito mais fraco do que entrou.

Os adversários de Lula acreditam ser mais fácil vencer a eleição com o ex-presidente preso e inelegível. Farão de tudo para manter isso. O problema? O PT gostaria de muito de Lula poder concorrer, mas tem outras opções. Que dependem em última instância de o partido conseguir sustentar uma narrativa favorável, e que alavanque outro eventual nome em outubro.

A primeira vitória de uma guerrilha é sobreviver. No caso, o PT precisa apenas impedir que a situação política do país se estabilize com o poder em mãos adversárias. Por enquanto vem conseguindo. O governo Temer ensaiou consolidar-se e projetar uma expectativa de poder futuro, mas atrapalhou-se no plano policial e os efeitos foram imediatos sobre a economia.

A política é maratona, não corrida de cem metros. Olhe-se o caso mexicano. Uma hora a esquerda iria ganhar, desde que conseguisse impedir a estabilização da hegemonia adversária. E a direita esticou tanto a corda que quando a esquerda finalmente ganhou foi um tsunami, que lhe deu com a Presidência ampla maioria no Legislativo para governar.

Quanto mais o PT conseguir evidências de que a prisão e a inelegibilidade de Lula são produto de uma, como alega, farsa judicial, mais difícil será aos adversários consolidar uma alternativa eleitoral capaz de projetar algum tipo de pacificação política do país. Sem o que é inimaginável a tramitação de reformas impopulares, como as que o campo liberal acredita essenciais.

Uma guerrilha pode chegar ao poder, total ou compartilhado, pela via militar, como em Cuba, ou por um caminho político, como na África do Sul e, de algum modo, na Colômbia. Nesse segundo caso, basta-lhe inviabilizar as saídas que a excluam. E um componente desse “inviabilizar” é obrigar o adversário a usar métodos que drenem a legitimidade da contra-guerrilha.

Uma parte da sociedade acredita que qualquer coisa vale para manter Lula preso e inelegível. É minoria. Outra parte, também minoritária, pensa que Lula é puramente um perseguido político. Os primeiros tomaram a iniciativa quando o governo Dilma se mostrou incapaz de controlar minimamente a política e acender a luz no fim do túnel da economia.

Os segundos vão retomando alguma iniciativa diante da fraqueza progressiva do bloco político que entronizou e mantém Temer. Basta olhar as pesquisas. E quanto mais durar a barafunda política, mais inviável será acelerar a retomada econômica, sem o que qualquer hegemonia do dito centro para a direita será difícil de estabilizar.

Até porque a solução clássica de simplesmente eliminar a guerrilha no plano físico não está à mão. A correlação de forças não permite. Daí que aqui e ali se comece a tatear por um “centro” que busque algum modo de “união nacional”. Mas as experiências anteriores desautorizam otimismo sobre conciliações que partam da exclusão de alguém ainda relevante.

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Não existe almoço grátis, nem para o Judiciário. Manter perenemente o poder absoluto é uma arte, que bem poucos dominaram ao longo da história da humanidade. Regra geral: ser capaz de autocontenção é bem mais útil para preservar a saúde no longo prazo. Mas nem sempre é fácil resistir aos holofotes. O problema é que uma hora a conta do almoço chega.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

A mentalidade colonizada contaminou nosso futebol

Garrincha e Pelé: precursores do @NeymarJr
Necessidade de ser ‘bem visto lá fora’ virou patologia


Alguma coisa mudou no futebol. Ou alguma coisa está fora de lugar sobre como o vemos. Ou alguma coisa mudou no psiquismo nacional nestes últimos anos. Ou é o VAR. Ou é tudo isso junto e misturado. Mas que as falas andam meio estranhas, elas andam. Como dizia o velho filósofo, e na época ele não era tão velho assim, tudo que é sólido parece desmanchar-se no ar. A única certeza é a completa perda de referência na maneira como se olha o nosso jogar bola.

Os filmes do saudoso Canal 100 estão aí, e também os vídeos sobre os gols do Brasil na final da Copa de 1958. Quando alguém lembra do Garrincha, a imagem inesquecível é ele parado a uma certa distância do lateral-esquerdo, ameaçando sair para a direita. Uma vez, duas vezes, até que ele finalmente sai. O drible era sempre igual, mas tinha uma grande chance de dar certo. O Botafogo e o Brasil ganharam muita coisa assim.

Se Garrincha jogasse futebol hoje em dia, parando na frente do lateral e ameaçando driblar, até finalmente driblar, o que aconteceria? Seria acusado de humilhar gratuitamente o marcador, o “João” da vez? As faltas violentas contra ele seriam recebidas com compreensão, uma reação natural e legítima às “palhaçadas” do famoso ponta? Não houve e provavelmente não haverá, nunca mais, um palhaço como Garrincha na história do futebol. Não é, “profe” Osorio?

Diz a tradição oral, e vai saber se é isso mesmo, que ele quase foi cortado da seleção em 1958 porque num amistoso pré-Copa resolveu driblar desnecessariamente o adversário em cima da linha do gol, em vez de simplesmente fazer o gol. Eu acompanho futebol há meio século e nunca vi ninguém propondo a “releitura crítica” desta e outras ditas molecagens do Mané. E olha que releituras do passado à luz dos valores do presente estão na moda. Salve Monteiro Lobato.

Verdade que Garrincha nunca divertiu por divertir. Era o jeito de ele jogar e produzir para o time. O Mané era, como se diz hoje em dia, vertical. Driblava humilhantemente o adversário, mas em direção ao gol. Mais ou menos como o @NeymarJr. E o mistério que não consigo decifrar é por que o mesmo comentarista que amava o Garrincha, e cultua a memória do jeito de o Garrincha jogar, odeia o @NeymarJr. Alguém aí vai protestar por eu comparar os dois. Comparo mesmo.

Já vivi o suficiente para saber como é o futebol, pelo qual sou fanático desde que me conheço por gente. Desde que vi na TV branco e preto o Santos virar em 1963 sobre o Milan, sob uma chuva diluviana no Maracanã, e arrancar para o bi mundial. Posso garantir que @NeymarJr é da tradição vitoriosa do futebol brasileiro. Inclusive no que se convencionou chamar de malandragem. E ninguém foi mais malandro que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.

Ele simulava faltas sofridas como ninguém, e abusava da violência quando achava que podia fazer de um jeito que o juiz não visse. Fraturava a perna dos zagueiros sem dó, e usava o cotovelo sem cerimônia para revidar marcações duras. Não lembro de ele ter sido criticado por isso. Em 1970, contra a Inglaterra, o time ficou com medo que Pelé fosse expulso depois de apanhar muito. Aí Carlos Alberto chamou a tarefa de bater num inglês. Foi celebrado.

E se Maradona fosse brasileiro? Do jeito que a coisa vai, provavelmente proporiam devolvermos a Copa de 1986, e fazermos uma autocrítica pelo famoso gol contra a Inglaterra, aquele com la mano de Dios. E o pior é que foi feito contra os ingleses, uma gente tão civilizada. Eles não mereciam ser tratados com tanto desrespeito, não é? Afinal, ali tem a Premiere League, o mais badalado (um verbo sintomático) campeonato nacional de ludopédio.

Talvez o futebol esteja revelando a face mais nítida da definitiva degradação da autoestima nacional. O que antes era visto como o jeito brasileiro de jogar transformou-se em pecado. Driblar é proibido. Especialmente quando alguém, mesmo que seja um zé ninguém, com sobrenome ou sotaque inglês, ou do resto do “primeiro mundo”, vem nos repreender pelo modo incivilizado como nossos dribladores praticam o bullying sobre os driblados.

Os ingleses exploraram até o tutano (dos negros) o tráfico negreiro. Um dia os ventos da Revolução Industrial pediram mão de obra livre. Junto, claro, com a liberdade de o capital dispor da força de trabalho como quisesse. E aí o tráfico virou crime. Os EUA abriram caminho na bala e na corrupção para as empresas deles dominarem os mercados em escala planetária. Quando conseguiram, a corrupção dos concorrentes virou pecado capital não passível de perdão.

O Brasil sempre teve uma necessidade patológica de ser bem falado lá fora, e está disposto a sacrificar seus interesses por isso. Você não vê algo assim entre americanos, ingleses, alemães, franceses. Mas nesta Copa a coisa vai atingindo o paroxismo. Talvez seja um sintoma a mais dos tempos. Também nisso o lastro mental do colonizado nos arrasta para o fundo como âncora. Se o inglês simula, a culpa talvez seja do @NeymarJr e seu mau exemplo.

É capaz de uma hora alguém quebrar propositalmente a perna do @NeymarJr e o nosso jornalismo esportivo acusar que a culpa foi, no fundo no fundo, dele mesmo.

Alguém duvida?

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Publicado originalmente em www.poder360.com.br

sexta-feira, 29 de junho de 2018

O cenário para os pré-candidatos na véspera da largada. E a possibilidade de decidir no 1o. turno

É razoável duvidar de pesquisas eleitorais. Mais razoável ainda é acreditar em todas. Melhor dizendo, acreditar no que todas têm em comum. Se, por exemplo, três pesquisas têm um intervalo de confiança de 95%, então a probabilidade de o dado comum entre elas estar errado é 0,05 elevado ao cubo. Ou seja, há 99% de chance de a coisa estar certa.

O que dizem todas as pesquisas? Que Lula tem perto de 30%, Bolsonaro pelo menos 15%, Marina, Alckmin e Ciro entre 5 e 10% e Álvaro Dias pouco menos de 5%. Os demais orbitam em torno de 1%. Sim, há as pesquisas sem Lula. Elas são hoje apenas parcialmente relevantes porque o voto lulista sem Lula não tenderá à dispersão. Se acontecer, será surpresa.

Quanto Lula transferirá a um candidato? Segundo o Datafolha, praticamente tudo, entre os que votariam com certeza e os que poderiam votar. Segundo a única pesquisa registrada que vem medindo o efeito real do apoio de Lula, a do Ipespe, um eventual candidato Haddad partiria de dois dígitos, em empate técnico com Marina na vice-liderança, atrás de Bolsonaro.

Ou seja, como já dito aqui, 1) o PT depende principalmente de si para chegar ao segundo turno. Mas, 2) precisará de uma execução excelente em pouco tempo, e muito provavelmente sob intenso fogo dos adversários e da opinião pública antipetista. Uma coisa é o potencial de transferência do voto lulista. Outra coisa é transformar esse potencial em voto na urna.

Do lado oposto, Alckmin está num patamar bastante abaixo do que historicamente um tucano tinha nesta época em eleições passadas, mas não sofre ameaça real de nenhum nome “de centro”. Uma incógnita vem de Álvaro Dias, que até agora não avançou no desafio de acumular tempo de TV minimamente razoável, para ter mais chance de sobreviver após agosto.

Um problema sério de Alckmin, detectado pela mesma pesquisa Ipespe, é a pouca atração que a pré-candidatura do tucano exerce sobre eleitores de outros candidatos. É a segunda opção de pouca gente. Alckmin também 1) depende principalmente de si, mas 2) precisa de execução excelente. Precisa principalmente evitar que os partidos de seu campo desgarrem.

Bolsonaro tem mostrado resiliência, mas num patamar perigoso. Se por hipótese um terço do eleitorado decidir pelo não voto, os 15% dele seriam 23% dos votos válidos. Nesse degrau, está arriscado a sofrer uma onda “centrista” no primeiro turno. Não se deve subestimar o esforço que o establishment fará para colocar um dos dele, ou um confiável, na decisão.

Marina está posicionada para surfar nessa onda, mas precisa que as alternativas “centristas” mais palatáveis à elite naufraguem. Assim como Bolsonaro, ela não depende principalmente de si. O mesmo se dá com Ciro. Se ele não for o “candidato de Lula”, precisará de uma execução insuficiente da transferência dos votos lulistas para o novo nome do PT.

As recentes eleições extras no Amazonas e Tocantins mostraram um não voto crescente, tendendo a metade do eleitorado. É pouco provável que esse patamar se repita na presidencial, mas não é absurdo imaginar, nas circunstâncias, um não voto de um terço. Num quadro assim, um candidato com 33% mais um dos votos levaria a eleição no primeiro turno. #FicaaDica.

Variáveis a monitorar:

1) A transferência de votos de Lula para o novo nome do PT,

2) se Bolsonaro, além de não cair, consegue mais uns pontos,

3) como ficará a repartição de tempo de TV entre Alckmin, Ciro e Dias

4) a tendência ao não voto,

5) se a economia traz alguma boa notícia para vitaminar o continuísmo e

6) a #LavaJato

Sobre a última variável, há os efeitos da #LavaJato sobre cada candidato. E há a anabolização do não voto, ou do voto em outsiders. Como o único outsider de raiz é Bolsonaro, ele seria um beneficiário certo da repulsa aos políticos e do desejo de limpar as Cavalariças de Áugias.

Precisa ver se ele tem vocação para Hércules. Pois é improvável que os adversários assistam passivamente à caminhada do capitão.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

A judicialização da política acontece aqui e nos EUA. Isso deveria fazer pensar

Ou seja, a fragmentação partidária aqui não explica tudo

E isso relativiza o papel salvacionista da reforma política


Vamos começar pela Suprema Corte do Estados Unidos, a SCOTUS em inglês. Lá aconteceu o seguinte: o juiz Anthony Kennedy decidiu aposentar-se (a cadeira é vitalícia) e a saída dele abre a possibilidade de o Partido Republicano consolidar uma maioria de 5 a 4 radicalmente conservadora. Hoje a correlação de forças já é um pouco essa, mas o conservador Kennedy vinha sendo flexível em alguns pontos, como por exemplo o casamento gay.

Supremas cortes são sempre importantes, mas a judicialização da política nos Estados Unidos transformou a SCOTUS na instância de resolução das principais divergências políticas. Estes dias mesmo, o tribunal validou decisões de política imigratória do Presidente Donald Trump, restrições à entrada nos EUA de cidadãos de alguns países de maioria muçulmana. As decisões tinham sido contestadas e bloqueadas por juízes de primeira instância.

Volta e meia culpa-se a pulverização partidária no Brasil pela dificuldade de construir maiorias eficazes no Congresso Nacional. Os impasses paralisantes do nosso Legislativo vêm sendo um fato, e o resultado é um Supremo Tribunal Federal empoderado. Na real, hoje os deputados e senadores servem mesmo é para destinar recursos orçamentários a suas bases. Decidir sobre os grandes temas nacionais? Isso passou a ser atribuição do STF.

Ora, aqui a explicação habitual enfrenta um problema. O Brasil deve ter uma das mais fragmentadas representações parlamentares do planeta. Já os Estados Unidos têm um bipartidarismo impermeável. O sistema de dois partidos hegemônicos claudica na Alemanha, no Reino Unido, na França, na Itália. Mas entre os americanos ele está firme como uma rocha, continua inexistindo possibilidade realista de fazer política fora dos dois grandes.

Uma velha piada conta que o sujeito procura alguma coisa no canto iluminado do salão, quando o amigo pergunta o que ele está procurando.

- Meu relógio.
- Você perdeu aqui?
- Não, perdi naquele outro canto.
- E por que você está procurando aqui?
- Porque ali onde perdi está escuro.

A piada é do tempo em que celular não tinha lanterna, mas mesmo assim serve. Talvez o Brasil esteja procurando a solução no lugar errado. É razoável reformar o sistema político para reduzir o número de partidos a uma quantidade racional? Sim. Isso vai ajudar a formar facilmente maiorias capazes de fazer rodar uma agenda qualquer com coerência interna? Muito provavelmente não. Pois talvez o foco do problema não esteja na política, mas na sociedade.

A política está dividida em campos dificilmente conciliáveis menos porque os partidos se dividem assim e mais pela violenta polarização social, que se acirrou muito após a crise financeira de 2008-09. E que se aprofunda em cada país conforme o tempo passa, o horizonte de prosperidade parece inalcançável e cai exponencialmente a possibilidade de convivência pacífica dos opostos. Como resolver então no terreno da democracia? Quem souber que se apresente.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O que muda e o que continua igual nas armas de comunicação na guerra eleitoral este ano?

Não é recomendável um título de análise de conjuntura acabar em ponto de interrogação. Textos assim devem responder a perguntas do leitor, e não perguntar esperando que ele responda. Mas o tema desta semana abre espaço à heterodoxia. Pois permanece a dúvida sobre como os canais de informação vão ajudar a moldar a opinião do eleitorado este ano.

A fórmula suficiente costuma ser aproveitar o tempo de rádio e TV para inicialmente “apresentar propostas”, e logo partir para desconstruir o inimigo, estampando manchetes de jornal e capas de revista difamatórias. Os principais ativos? 1) A capacidade de fazer produzir material jornalístico favorável e 2) uma vantagem decisiva no tempo de tela.

Este último critério é o que aliás orienta as alianças, graças à original fórmula que permite no Brasil aos partidos negociar seu espaço no rádio e TV quando não lançam candidato. Há muito debate sobre as composições regionais, mas elas nunca foram decisivas, pelo menos desde que a regra eleitoral decidiu desvincular as coligações nacionais das estaduais.

É convencional supor que a fórmula “tempo de TV + jornalismo favorável” vá continuar tendo papel fundamental este ano. Todos os estudos mostram, por exemplo, que as disputas nas redes sociais giram no mais das vezes em torno de notícias produzidas pelo jornalismo profissional. É um sistema de comensalismo, como se vê nos oceanos entre tubarões e rêmoras.

Some-se o fato de ter surgido entre nós um sistema de fact-checking deformado, voltado unicamente para fiscalizar, aferir e denunciar o que dizem os políticos ou os veículos jornalísticos de explícita orientação político-partidária. Inexiste um fact-checking do jornalismo profissional, ele está blindado, com a exceção dos raros veículos que mantêm ombusman.

Eis o principal passivo de Bolsonaro, Marina e Ciro. Quando o jogo começar para valer, estarão em desvantagem nos dois quesitos. Nenhum tem a simpatia do establishment ou alianças expressivas. Ciro ainda tenta fechar esta última fenda, mas as perspectivas não são as melhores. E nenhum dos três tem enraizamento social estruturado. Como exibe por exemplo o PT.

Mas, e se houver uma alteração dessa lógica? E se o eleitorado de Bolsonaro continuar resistindo num universo fechado e impermeável às tentativas de desconstrução? E se nem todo o esforço do establishment puder alavancar Alckmin, Doria ou Meirelles? E se Marina mostrar musculatura num cenário de enfraquecimento extremo da capacidade hegemônica da elite?

As experiências recentes são contraditórias. As eleições fora de época no Amazonas e Tocantins vêm confirmando a notável resistência dos candidatos chamados tradicionais, graças também ao aumento exponencial da massa de eleitores que simplesmente não votam em ninguém. Quando o protesto se dispersa no não voto, as máquinas costumam prevalecer.

Mas as pesquisas presidenciais estão congeladas. Lula resistiu à avalanche de noticiário negativo. Bolsonaro segue impávido. Marina também, apesar da pouquíssima exposição. Ciro sobrevive e até desperta algum entusiasmo no centrismo angustiado pela falta de nomes mais mais musculosos vindos da direita. No popular, o centrismo está se agarrando até em fio desencapado.

As experiências internacionais de disrupção e de emergência do novo mostram que isso é mais possível quando o sistema é flexível. No Brasil, Obama jamais derrotaria Hillary dentro do partido, muito menos Trump poderia fazer o que fez com o Grand Old Party. Nem Macron teria os instrumentos para ganhar a presidencial e formar maioria parlamentar.

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E seguem as conversas sobre a possível troca de Geraldo Alckmin por João Doria. Este seria um candidato mais capaz de disputar com Bolsonaro o eleitorado de direita, por vestir naturalmente o figurino. E representaria o passo natural de um bloco político que vai assumindo um perfil cada vez menos social-democrata e mais liberal-conservador.

Mas Alckmin é o presidente do principal partido desse bloco, e só sai se desistir. Nunca se viu isso na política brasileira. E se trocar Alckmin por Doria o PSDB arrisca perder as duas eleições principais este ano: no Brasil e em São Paulo. Com idas e vindas, os quadros tucanos estão nos cargos em São Paulo desde o governo Montoro, há 35 anos.

Seria um risco e tanto.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O Brasil está atolado num jogo de perde-perde

Faltam forças para impor a saída
Tendência é continuar ladeira abaixo

Diz o velho e batido ditado que não se faz omelete sem antes quebrar os ovos. Outra verdade, tão antiga e batida quanto essa: ninguém descobriu ainda como retroagir o ovo cozido, ou frito, ao antigo estado cru. A ação da temperatura sobre a clara e a gema é implacável. E quanto mais cedo a pessoa se conforma menos tempo perderá tentando a impossível façanha. Melhor deixar o desafio para os cientistas. Quem sabe um dia eles conseguem?

Vale para a culinária e vale para a política. Aqui e ali, intelectuais das diversas extrações do liberalismo descobrem, consternados, que a maioria da população brasileira não acredita na necessidade de reformar a Previdência, implantar o teto dos gastos estatais, combater os privilégios das corporações, públicas e privadas, ou dar mais liberdade para o capital. Basta atacar com força a corrupção e o dinheiro vai aparecer.

Esse mesmo senso comum considera também que o melhor remédio contra a corrupção é prender o maior número possível de políticos pelo maior tempo possível. E se as leis atrapalham, ignorem-se, ou “reinterpretem-se”, as leis. Aplique-se aos políticos, portanto, a velha máxima machista, hoje felizmente extirpada das práticas sociais aceitáveis: mesmo que a Justiça não saiba exatamente por que está batendo, eles com certeza sabem por que estão apanhando.

É desperdício de tempo discutir agora quem seria o principal responsável por termos chegado a esse ponto. Se são os políticos, que consolidaram em três décadas um sistema programado para apodrecer. Ou se é a aliança saprófita entre as corporações e a opinião pública, aliança que se alimenta dos tecidos apodrecidos da política para ganhar força e arrebatar o poder moderador da República. Mais útil é olhar os fatos: o país está atolado num jogo de perde-perde.

O Brasil passou a acreditar que destruir o sistema político e instalar a insegurança jurídica disseminada é um preço razoável a pagar para liquidar a corrupção, e a partir daí eliminar o foco infeccioso responsável pela septicemia nacional. Mas o jogo é de perde-perde, pois o processo não cria um mecanismo viável para reconstruir a política a partir das cinzas, e portanto inexiste uma maneira de sair dessa a partir de algum consenso social.

Há duas saídas grosso modo para situações assim: conciliação ou, desculpem, porrada. E como parece não haver força para impor agora nenhuma das duas, mais provável é continuarmos deslizando lentamente ladeira abaixo, até que uma das opções reúna massa crítica. Quanto tempo vai levar, aí já é adivinhação para pitonisas. Uma única certeza: não vai ser em janeiro de 2019. Apesar de o bonapartismo caminhar amplamente favorito na corrida presidencial

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A hora de executar. Os candidatos que só dependem de si. E os que precisam do tropeço alheio

Há seis pré-candidatos à Presidência da República que passam ou roçam o patamar arbitrário de 5% nas pesquisas. Jair Bolsonaro, Marina Silva, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Álvaro Dias e o “candidato do Lula”. Arbitrário porque nada impede um outro nome de arrancar para o segundo turno. Mas o quadro atual é esse, e dele vamos partir.

É possível separar os seis nomes em dois grupos. No primeiro está quem depende essencialmente de si para chegar à rodada final. Estão aqui o “candidato do Lula" e Geraldo Alckmin. Os outros quatro precisam que pelo menos um destes dois erre o suficiente para abrir uma vaga na grande decisão, no mano a mano de 28 de outubro.

A probabilidade de alguém decidir a parada em 7 de outubro não é zero, mas quase. Seis nomes com 5% ou mais fazem uma decisão no primeiro turno estar no terreno da imponderabilidade. Cuidado porém. Como já dito aqui algumas vezes, uma característica do imprevisível é ele ser difícil de prever. Na dispersão atual, se alguém ganha massa crítica pode disparar.

Geraldo Alckmin só depende de si. Ele veste bem a camisa do centro, a mais nova ficção ideológica, hoje hegemônica no universo das narrativas. Eleição não é disputa de fatos, é braço de ferro de histórias. Só quem pode ameaçar Alckmin imediatamente em seu campo é Álvaro Dias, que está atrás. Se o tucano resiste até o início da TV fica em boa situação.

Álvaro Dias precisa que Alckmin não escape, para tentar, quem sabe?, partir de um empate técnico na largada da TV. E daí produzir uma onda. Dias tem sobre os tucanos a vantagem de poder discursar a favor da Lava Jato e não precisar se explicar. Em debates, será uma vantagem e tanto. Mas falta a ele por enquanto tempo de tela. Ter alianças. É seu maior desafio agora.

Já Marina Silva precisa que tudo dê errado para Alckmin e Dias. Precisa que continue a dispersão do centro para a direita e que Bolsonaro não perca substância. Daí a ex-senadora pode tentar atrair o voto útil da direita não bolsonarista na véspera de 7 de outubro. E se conseguir passar ao segundo turno levará com ela o atributo da alta votabilidade.

E Bolsonaro? Seu desempenho até agora é inelástico. Para ir ao segundo turno precisa se manter, o que parece não tão difícil assim, mas também que nenhum dos concorrentes “de centro” cole nele. Porque quem colar pode desencadear uma corrida pelo voto útil, certamente com amplo apoio do establishment, imprensa incluída nisso. #FicaaDica.

Do outro lado da quadra, quem só depende de si é o PT. Mesmo correndo sozinho terá tempo de TV razoável. Se fechar com PCdoB e principalmente PSB ganha mais musculatura e passa um cadeado no Nordeste. As pesquisas dizem que Lula transfere quase tudo, mas mesmo que se dê um desconto o quadro ainda permite razoável otimismo aos petistas.

Para Ciro a coisa é um pouco mais complicada. Ele está bem agora, mas precisa ou ser o “candidato do Lula” ou torcer para que dê errado a operação político-eleitoral de transferir os votos de Lula, e aí herdar o patrimônio. Depender do erro alheio é arriscado. Ciro também corre o risco do isolamento, lipoaspirado de um lado por Alckmin e do outro pelo PT.

A hora é menos de planejar e mais de executar. E quem for melhor nisso agora vai ficar bem na foto.

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Uma novidade na eleição parece ser a movimentação de pedaços do autodenominado centro por um assim chamado pacto democrático. Pactos pela democracia são comuns, mas este agora ensaiado sofre do mesmo problema estrutural que injetou fragilidade na distensão do presidente Ernesto Geisel e na abertura do presidente João Figueiredo.

Ambos imaginaram um pacto democrático no qual o regime mantivesse a prerrogativa de escolher quem teria ou não o direito de participar do pacto. Difícil de executar com sucesso. Em geral, pactos desse tipo só funcionam quando todo mundo está convidado para a mesa. Foi assim em Moncloa (Espanha) e na Aliança Democrática (Brasil). #FicaoutraDica.

Do jeito que a coisa vai, qualquer um eleito este ano encontrará em 2019 uma oposição concentrada prioritariamente em derrubar o governo. Por enquanto, é o pacto que está no radar.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Trump e Kim mostram que realismo é um santo remédio

Todos querem manutenção do status quo
Fórmula serve para outros casos

Se as duas temporadas de Fauda no Netflix ajudam a entender melhor o conflito entre Israel e os palestinos, quem quer saber mais da Guerra da Coreia precisa ver The Battle of Chosin (A Batalha de Chosin), documentário no mesmo serviço de streaming. Numa era em que as pessoas têm, e dão, opinião sobre tudo, é útil conhecer sobre o que se opina.

Na represa de Chosin, o exército americano que se deslocava já na Coreia do Norte rumo à fronteira da China é contido e tem de se retirar num inverno duríssimo e sob o fogo de tropas chinesas vindas em socorro do aliado. O resto da história está nos livros: os soldados do Tio Sam recuaram até o paralelo 38 e o fim da guerra recompôs o status quo de antes dela.

A Guerra da Coreia (1950-53) começou com o Norte invadindo o Sul, tentando reunificar sob o comando do avô de Kim Jong-un, o comunista Kim II-sung, a península dividida entre Moscou e Washington ao final da Segunda Guerra. A vitória parecia ao alcance de Pyongyang quando os EUA, sob a bandeira da ONU, conseguiram desembarcar no único bolsão ainda a salvo.

Aí os americanos passaram a empurrar de volta, e atravessaram a fronteira original no paralelo 38. Quando a vitória e a consequente ocupação militar da Coreia do Norte pareciam ao alcance, a China cruzou a divisa e quem teve de recuar foram os EUA. E o estado de guerra permanece até hoje entre Norte e Sul porque ambos os lados desconfiam que o outro quer eliminá-lo.

Do que depende então a paz na península coreana? Da aceitação estratégica do status quo. É o tipo de problema comum nas relações internacionais. A solução técnica é relativamente simples, pois os intelectuais já dissecaram todo o leque de alternativas. Mas nada acontece se não houver um alinhamento dos astros políticos. O que em geral é bem menos simples de conseguir.

Um acordo definitivo de paz na península coreana está mais próximo do que nunca desde a guerra, porque interessa a todo mundo ali. A capacidade militar norte-coreana eleva demais o custo, material e humano, de um projeto de conquista bélica pelos Estados Unidos e Coreia da Sul. E sempre tem a China do outro lado da fronteira para reequilibrar o jogo.

Pelos mesmos motivos, apenas vistos ao contrário, a reunificação do país sob a ação militar e a liderança de Pyongyang é inviável. Então está criado o ambiente ideal para uma solução, já que nenhum dos lados conseguirá impor na marra sua vontade. Por esse acordo, a Coreia do Norte deixa de ser uma ameaça e recebe em troca compromissos de segurança e prosperidade.

Uma paz definitiva entre Norte e Sul encaixa-se hoje nos planos do Norte, do Sul, da China, da Rússia e do Japão. A opção dos Estados Unidos seria continuar a pressionar pelo “regime change”, mas Washington parece cada vez menos disposta a gastar dinheiro com essas coisas, desde que naturalmente os interesses americanos sejam preservados.

Claro que tudo pode desandar, mas as forças centrípetas aqui são poderosíssimas. Claro que tem o “risco-Líbia”, os norte-coreanos aceitarem a desnuclearização e se darem mal lá na frente. Mas a diferença entre os dois casos é definitiva: quando veio a intervenção da Otan, Gadafi não tinha do outro lado da fronteira um aliado estratégico como a China no qual se apoiar.

Há alguma continuidade entre as visões de Donald Trump e Barack Obama. Ambos foram eleitos presidentes dos Estados Unidos num tempo em que os eleitores dali já estão meio fartos de pagar a conta, em dinheiro e vidas, do papel de polícia do mundo. A diferença é que Obama adotou uma linha de apaziguamento, enquanto Trump prefere o velho “Si vis pacem para bellum”.

Se queres a paz prepara-te para a guerra. Mostra força decisiva e traz o adversário para a mesa de negociação. Talvez o mundo esteja diante de uma oportunidade única para resolver velhas e duras pendências. Os americanos não se metem (muito) na vida do sujeito e o sujeito concorda com um status quo que não confronte decisivamente os interesses americanos.

Realismo, amigos, realismo. Dá para resolver assim o problema entre Israel e os palestinos, acabar com o isolamento do Irã e até desfazer o nó venezuelano. Reconhecer a realidade dos fatos costuma ser mesmo um santo remédio. Vale para a vida pessoal, familiar, profissional. E vale muito para as relações internacionais. #FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Pensamentos sobre o Datafolha. No que a prisão atrapalha Lula. E no que o ajuda a ser o kingmaker

O Datafolha deste domingo confirma que vem diminuindo o voto espontâneo em Lula. Pesquisas devem ser olhadas no conjunto, reduz a chance de errar a análise, mas essa erosão é consistente com a realidade. É provável que a ficha esteja caindo na parte lulista do eleitorado. A chance de Lula concorrer até o fim e chegar elegível à urna é hoje residual.

Os demais dados na pesquisa não são ruins, ou são bons, para o ainda pré-candidato do PT. Ele recolhe entre 57 e 60% dos votos válidos num segundo turno contra Bolsonaro, Marina ou Alckmin. É o desempenho clássico de um petista entre 2002 e 2010. Em 2014 Aécio Neves apertou dramaticamente a margem, mas ela parece estar em recomposição.

E 47% dizem que votam com certeza (30%) ou admitem votar (17%) num nome indicado por Lula, caso não possa concorrer. Aqui os números mantêm consistência: por volta de 30% é a intenção de voto em Lula no primeiro turno, e 47% é uma ordem de grandeza compatível com o desempenho dele no segundo turno, que oscila de 46 a 49%.

51% dizem que não votam de jeito nenhum no candidato de Lula, mas para o anti-Lula ser competitivo num segundo turno precisará atrair com grande força o eleitor que hoje pensa em não ir votar, ou escolher branco ou nulo. Se o desafio do PT é fazer o lulista votar num outro nome, o problema dos adversários é trazer com força o voto inútil anti-PT e antilulista.

Outra constatação é inexistir herdeiro natural, ou inercial, do voto de Lula. Sem alternativa eleitoral explícita e apoiada pelo ex-presidente, a tendência é dispersar, com a maioria indo para o voto inútil. Por enquanto, os números não autorizam otimismo a quem imagina impor uma solução a Lula e ao PT. Ambos ainda jogam com as brancas no tabuleiro eleitoral.

Em síntese, estamos a menos de quatro meses do primeiro turno e Lula mantém o protagonismo, mesmo preso. A cadeia desidratou apenas marginalmente sua liderança, e ele permanece, como se diz em inglês, o principal kingmaker, fazedor de rei, da eleição. Em parte pela própria força, em parte pela frustração com o governo nascido do impeachment.

A cadeia impõe sofrimento pessoal a Lula. Mas política e eleitoralmente os efeitos são contraditórios. Preso, ele não pode fazer comícios, participar de debates ou entrevistas. Tampouco oferece aos adversários a oportunidade de o perseguirem nas aparições externas e questionarem-no diretamente em debates. E tira do jornalismo a chance de apertá-lo em entrevistas.

Se Lula está excluído da campanha eleitoral no mundo exterior, também está momentaneamente protegido da exposição direta aos ataques adversários e aos naturais questionamentos da imprensa. E quem permanece em campanha não é um Lula de carne e osso, mas a memória de seu governo. Que leva vantagem em relação aos demais governos.

Claro que isso não pode ser indefinidamente esticado. Uma hora, o “candidato do Lula” vai ter de aparecer, e começará a apanhar. E a substituição precisará ser a tempo de poder comunicar e convencer o eleitor lulista. A execução não vai ser fácil. Mas por enquanto a resultante ajuda o PT: Lula está protegido e também protege o possível sucessor.

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Na outra metade do campo, o quadro está à espera do final da Copa do Mundo, do início da campanha e dos debates entre os candidatos na TV. A principal variável a monitorar é a resiliência de Jair Bolsonaro, que será mais testada quanto menos alianças, e portanto menos tempo de TV, ele conseguir reunir antes da largada oficial do primeiro turno.

A esta altura, parece bem enfraquecida a hipótese de Bolsonaro desidratar naturalmente. Seu eleitor tem uma lógica parecida com o de Lula: é ideologicamente identificado com o líder e disposto a relevar seus defeitos. Mas será um erro desprezar a hipótese de, alguma hora, o establishment tentar de tudo para levar um nome “de centro” para a decisão.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Centro excludente é uma contradição em termos

Problema não está só na economia
Não se concilia polarizando

É preciso olhar com mais atenção para as origens da anemia do autonomeado centro. Um motivo conhecido é o econômico. Esta retomada, além de lenta, baseia-se principalmente nas exportações e nos ganhos de produtividade. Ou seja, produzir mais com o mesmo tanto de gente, ou até menos. E pagando menos. Isso não oferece melhores perspectivas imediatas para a massa que desceu na escala social durante a brutal recessão.

Mas será só isso mesmo? Reduzir o problema à economia explica tudo? Se é verdade que a economia determina em última instância a política, o “em última instância” não está aí só de enfeite. É preciso atenção às mediações. E para ver o que vai dando errado até agora vale lembrar do que deu certo antes, e buscar as diferenças. Para ficar apenas na história do Brasil, alternativas centristas só tiveram sucesso quando foram politicamente inclusivas.

O principal partido do dito centro é o PSDB. Bem, o PSDB relatou e fez aprovar no Congresso uma reforma trabalhista que, entre outras coisas, cortou a principal fonte de recursos das entidades sindicais dos trabalhadores. E o prejuízo maior ficou para os sindicatos, federações, confederações e centrais que vinham apoiando o PSDB na eterna disputa contra o PT. Não se faz omelete sem quebrar ovos, mas quebrar principalmente os próprios ovos é estranho.

O atual líder do PSDB na Câmara apresentou um projeto de lei para permitir que trabalhadores rurais sejam remunerados com alojamento e comida. Pode haver algum exagero nas muitas denúncias Brasil afora de trabalho em condições análogas à escravidão. E há. Mas uma coisa definitivamente análoga à escravidão é pagar o trabalhador rural com casa e comida. As histórias sobre o vale-barracão estão aí para ninguém esquecer.

São apenas 2 exemplos, e seria até injusto reduzir a constatação ao PSDB. Na largada do governo Michel Temer, a elite política que apoiara o impeachment de Dilma Rousseff foi arrastada pela elite empresarial e pela opinião pública ao agora ou nunca, ao tudo ou nada. Aproveitar a impopularidade do novo presidente para fazer o que, segundo as duas, precisava ser feito. Esqueceram de um detalhe: poderiam pegar impopularidade por contágio.

Sem falar na circunstância particular de o atual centrismo brasileiro ser entusiasta da prisão e inelegibilidade de Lula. Os 2 políticos ditos centristas mais bem-sucedidos entre nós foram Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves. Ambos passaram a vida tentando não queimar pontes com os adversários, procurando trazê-los para perto. Juscelino até demais, quando apoiou a eleição de Castello Branco depois da deposição de João Goulart. Exagerou na dose.

Mas o dito centro não exclui só à esquerda. Também poda à direita, ao apresentar o bolsonarismo como risco às instituições democráticas, o que na prática significa eliminar essa força entre as alternativas aceitáveis num processo eleitoral. Não discuto aqui o mérito do argumento, mas a consequência dele junto à base bolsonarista. É mais ou menos a mesma de carimbar na esquerda o bolivarianismo, ou o risco da venezuelização.

Centro na política é só um ponto geométrico. Não tem dimensão própria. Para ganhar materialidade, precisa reunir pedaços da direita e da esquerda, e absorver pontos programáticos de uns e outros. Mas é pensamento mágico achar que vai roubar o discurso de outros e uns. Não basta juntar ideias. Tem de juntar gente, e para isso tem de saber aceitar o diferente e distribuir poder. Não existe centrismo viável sem forte inteligência emocional, sem alteridade. #FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A fratura entre a direita liberal e a base social antipetista injeta incerteza na sucessão

A greve dos caminhoneiros foi uma batalha entre o governo e a base social dos grupos que sustentam o governo. Quando a esquerda quis entrar, parando a Petrobras, percebeu não ter convite para a festa. O Planalto, mesmo enfraquecido no limite da sobrevivência, arrancou do TST medidas brutais, e os petroleiros recuaram para não serem esmagados.

A esquerda não conseguiu nem ser coadjuvante do drama, e por razões sabidas. Está social e politicamente isolada desde as mobilizações anti-Dilma. Lula lidera as pesquisas com um terço da preferência mas nos outros dois terços o antipetismo viceja. E os movimentos sociais da esquerda têm sido incapazes de colocar na rua gente além deles mesmos.

Mas a esquerda mantém possibilidade de ganhar em outubro, e a greve dos caminhoneiros mostrou por quê. O movimento expôs a fratura entre a direita liberal e a base social alimentada ao longo de anos pelo antipetismo. São dois indivíduos que habitam universos distintos, com representações mentais diferentes, e crescente dificuldade de intercomunicação.

Num universo, aumentar diariamente, ou quase, os combustíveis justifica-se para alavancar a lucratividade da Petrobras e remunerar bem os acionistas. Para evitar o populismo. Independente das consequências. No outro, quebra-se a cabeça para descobrir um jeito de trabalhar, lucrar, progredir ou pelo menos sobreviver num ambiente assim.

Vamos a um exercício de marketing eleitoral básico. Debate presidencial. O candidato do centro defende a política de preços da Petrobras, fala da Venezuela, etc. Daí o adversário pergunta: “Bem, se você defende que a gasolina e o diesel aumentem todo dia, defende também que as passagens de ônibus aumentem todo dia? Pois os ônibus rodam com esse combustível".

A esquerda está mergulhada em suas próprias confusões, entre elas a ilusão de que a prisão de Lula oferece a oportunidade de uma disputa interna pela hegemonia. Mas tem chance de voltar ao Planalto, pois a direita liberal está crescentemente desconectada da realidade. E outro sintoma disso é ela ter regredido à ideia de que a questão social é caso de polícia.

Regrediram cem anos em três, voltaram à República Velha. Reduziram a maciça parada de caminhoneiros a locaute de empresários. Nas análises mais delirantes, advertem que estivemos à beira de um golpe contra as “instituições democráticas”. Seria só maluquice inócua se não embutisse uma lógica perigosa, diante dos quase 90% da população que apoiaram a greve.

Olha aí uma janela de oportunidade para Bolsonaro. Seu desafio é romper a barreira dos 20%. O Lula da direita tem eleitorado fiel, mas parece estancado. Com alguns ajustes de discurso, tem possibilidade real de virar digerível aos eleitores que abominam o PT e a esquerda mas resistem ao papel de ratos de laboratório no experimento ultraliberal.

Novidade? Não. Basta ver o que vai pelo mundo. Os liberais e social-democratas perdem terreno aceleradamente para o nacionalismo de direita e, em escala menor, para a esquerda clássica. Eleição após eleição o quadro se repete. O eleitor médio está em busca de proteção estatal. Quem tiver essa mercadoria para oferecer leva vantagem. Quem não, sinto muito.

É bom prestar atenção aos fatos, mesmo que eles soem desagradáveis. A rejeição a Lula e ao PT declina. Assim como a resistência a Bolsonaro. O eleitor quer liberdade econômica, mas também ser protegido dela. É contra a intolerância, mas quer segurança. Prefere a democracia, mas uma em que a política seja permeável ao povo, e não uma ditadura da opinião pública.

A fratura exposta entre a superestrutura política e intelectual do liberalismo brasileiro e esse eleitor médio é o que injeta incerteza na sucessão presidencial. Estamos a cinco meses da decisão e não sabemos nem direito quem serão mesmo os candidatos. Isso não é obra do acaso. A greve dos caminhoneiros mostrou para quem quis enxergar.

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O STF ressuscitar a possibilidade de reimplantar o parlamentarismo sem plebiscito mostra que no Brasil tudo tem limite, menos a insensatez.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Há um Brasil só de Marias Antonietas

Elite vive em seu universo paralelo
Brioches não suprem a falta de pão


O governo está apanhando porque não deu pelota, ou estava desinformado, para a possibilidade de os caminhoneiros entrarem maciçamente em greve, por vontade própria ou estimulados pelos patrões, neste caso no assim chamado locaute. Governos têm o dever de estar bem informados. Governos informam-se por dois meios: os dele mesmo e a imprensa. Parece que nenhum dos dois funcionou neste caso.

Erros acontecem. A derrota acachapante na eleição de 1974 foi uma surpresa para o governo do presidente Ernesto Geisel no fechamento do seu primeiro ano de mandato. Se o SNI (Serviço Nacional de Informações) do então futuro presidente João Figueiredo tivesse cumprido o papel oficial com a mesma eficiência que tentava organizar a eliminação física de adversários políticos, Geisel, o governo e a Arena não teriam sido surpreendidos pela avalanche de votos no MDB.

Há entretanto diferenças importantes entre as duas situações. Em 1974 a imprensa trabalhava com um liberdade bem menor, não existia a cultura disseminada das pesquisas de opinião, havia censura, e autocensura. Mas o sistema governamental de informações estava à toda, com o Brasil ainda mergulhado numa guerra de verdade entre o regime militar e as organizações de esquerda, principalmente as que tinham decidido tentar derrubá-lo pela via armada.

Erros acontecem, e desdenhar depois é fácil. Tem mais sentido tentar entender o porquê. Em casos como agora e 1974, o motivo principal costuma ser um apego excessivo à construção mental que explica o mundo de modo confortável, e a consequente resistência a atentar aos sinais externos que podem desorganizar o diagnóstico. Daí a utilidade de buscar olhar o que vai contra nossa visão. É difícil, dolorido até para quem gosta demais das próprias ideias, mas muito útil.

É melhor dizer as coisas como são. A elite brasileira, lato sensu, vive num universo paralelo. Nele, até outro dia, Pedro Parente era um gestor exemplar, a Petrobras finalmente havia sido expurgada das influências políticas e passara, graças aos céus, a ser gerida por critérios empresariais, buscando o maior retorno possível para os acionistas, e com seus executivos firmemente a caminho de cumprir as metas e receber o merecido bônus.

Não ocorreu a ninguém que, eventualmente, mudanças quase diárias nos preços dos combustíveis, em geral para cima, pudessem desorganizar completamente a cadeia brasileira de transportes, fortemente alicerçada em rodovias e combustíveis fósseis. Nesse universo paralelo, o valor de mercado da Petrobras e o retorno aos acionistas eram o único parâmetro a considerar, estabelecendo definitivamente a superioridade da técnica sobre a política.

Deu no que deu. Depois de entornado o balde de leite, lamentamos (o plural não é majestático) não ter visto antes a pedra em que tropeçamos. É o caso de perguntar: se agora é possível reduzir o preço do diesel e congelar por 60 dias, por que diziam antes ser impossível? Vamos acordar. Se alguém tivesse avisado Maria Antonieta sobre a inviabilidade de brioches suprirem a falta de pão, talvez ela envelhecesse com a cabeça ainda colada no pescoço. #FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A economia costuma decidir, mas é preciso sempre ter o cuidado de entender o que é “a economia”

As rupturas políticas podem acontecer quando as coisas vão mal.
E também quando melhoram e uma turma percebe que ficou de fora


O que nos diz a greve dos caminhoneiros?

Os debates sobre efeitos da economia nas eleições costumam ser orientados a partir da macroeconomia fria. Crescimento, inflação, taxa de juros, desemprego. Os grandes indicadores alimentam a planilha, mental ou digital, quando se quer saber o efeito do desempenho econômico sobre a urna, por exemplo numa eleição presidencial.

Está cada vez mais óbvio que o ditado de James Carville, “É a economia, estúpido”, precisa ser lido com sofisticação. O voto não convencional espalha-se em escala planetária, bem em meio à recuperação. Depois de ensaiar surpresas na França e na Alemanha, finalmente venceu num grande país europeu, a Itália. E a Espanha vai pelo mesmo caminho.

Cada país tem sua especificidade, mas é possível ao menos especular que o desconforto com a política mundo afora vem sendo anabolizado pela baixa esperança de que a elite política organize as coisas de modo a produzir prosperidade razoavelmente distribuída. Algumas vezes a desesperança aparece como revolta contra a corrupção, mas é bom tomar cuidado.

Uma coisa é o que se diz. Outra é o que se quer, ou sente. No próximo mês vai fazer cinco anos da explosão da nossa rua. Diziam ser principalmente para exigir melhores serviços públicos. Bem, ou os serviços públicos melhoraram demais desde lá, ou então é obrigatório concluir aquela gente toda não foi para a rua exatamente por isso.

O problema na passagem de 2012 para 2013 era a boca do jacaré começando a fechar. Crescimento econômico em queda e inflação em alta. Um ensaio incômodo de frustração de expectativas. Em 2014 o PT ainda ganharia a eleição, mas foi uma vitória de Pirro. Enfraqueceu-se demais e não conseguiu resistir quando os adversários decidiram derrubá-lo.

O novo governo petista sabia em 2015 que a economia ainda precisaria piorar antes de melhorar, e calculou estar vivo para colher política e eleitoralmente a onda positiva que finalmente chegaria. Calculou mal o timing. Os inimigos preferiram eles mesmos estar no poder em 2018, quando a bonança produzida pelo ajuste finalmente sucedesse a recessão.

O que vem dando errado no plano de quem derrubou Dilma? Um fator é a falta de coesão eleitoral. O ex-bloco governista é um balaio de caranguejos. Outro problema são as denúncias contra Michel Temer. Mas, se a recuperação estivesse de vento em popa nem a base estaria em frangalhos nem Temer politicamente tão enfraquecido pelo cerco da polícia.

Mas uma certa recuperação está sim de vento em popa. A Bolsa subiu, as contas externas foram ajustadas, o déficit fiscal parece estabilizado, o PIB vai crescer este ano e o desemprego pelo menos não está aumentando, desenha até alguma queda. Até que as pesquisas mostrassem uma anemia resiliente da direita dita de centro, havia algum otimismo.

Só que não. Não basta os números da Petrobras brilharem se isso implica aumentos brutais e sucessivos no combustível. Não basta as empresas melhorarem o desempenho se esse aumento de produtividade significa fazer mais com menos gente. Faz sentido nos balanços, mas não para quem perdeu o emprego e não consegue um ganhando pelo menos perto.

As rupturas políticas podem se dar quando está tudo mal, mas também quando as coisas começam a melhorar e uma turma razoável percebe que está ficando de fora. Destruições criativas são da lógica do capitalismo, e não adianta reclamar. Mas tampouco adianta chegar para um desempregado e dizer que ele busque se reinventar porque o passado já era.

Há bons argumentos para explicar aos operários do cinturão da ferrugem no Estados Unidos que é mais barato fabricar as coisas na China, e portanto devem se virar para sobreviver com essa realidade. Mas eles não são obrigados a aceitar a explicação, ainda mais se têm a opção de votar em alguém como Donald Trump. #FicaaDica.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O jornalismo é a vítima não contabilizada em Gaza e na Venezuela

A certeza é inimiga do bom jornalismo. Os motores que produzem as melhores obras jornalísticas são a dúvida, a inquietação, o ceticismo, a curiosidade. A indignação é inimiga do bom jornalismo, porque turva a visão.

A grande reportagem sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém não foi para denunciar os crimes dos nazistas, foi para descrever o que a repórter Hannah Arendt entendeu ser a banalidade do mal. O melhor livro já escrito sobre um crime é A Sangue Frio, de Truman Capote. O bom jornalismo é brechtiano. Tem de ter distanciamento.

Vou escrever aqui sobre o jornalismo dos outros. É raro, porque tem poucas coisas mais desagradáveis do que velho jornalista, ou jornalista velho, praticando engenharia de obra feita.

O jornalismo é o exercício diário da imperfeição, e o jornalista que não quiser se chatear não deve reler seus textos, ou rever seus vídeos, ou reouvir seus áudios. Sempre daria para ter feito melhor o que você fez ontem, ou uma hora atrás, ou um minuto atrás. Hoje em dia, pelo menos, você pode corrigir coisas na internet. Melhor do que quando o erro ficava obrigatoriamente como uma cicatriz, para sempre.

Mas tudo tem limite, inclusive a paciência, e já chega de nariz de cera, não é? Então vamos ao que interessa.

As empresas jornalísticas têm defendido uma tese. Informações pouco ou nada confiáveis abundam na internet, particularmente nas redes sociais. Estamos ameaçados por uma epidemia de fake news. E a melhor vacina é refugiarmo-nos nas notícias, interpretações e comentários fornecidos pelo assim chamado jornalismo profissional, ilha de verdades cercada por um oceano infestado de fontes traiçoeiras, que querem a todo custo enganar as pessoas.

Será? Vamos começar pela Venezuela. Ali teve uma eleição presidencial, a maioria da oposição boicotou, e Nicolás Maduro elegeu-se com 68% dos votos válidos, num comparecimento de 46%, o que dá uns 31% do eleitorado. O número é consistente com o apoio que o chavismo ainda recolhe, mesmo na grave crise econômica.

A aritmética não autoriza, portanto, falar em fraudes com impacto decisivo no resultado. Maduro ganhou não por causa de fraudes, teve uma vitória fácil porque as principais correntes e personalidades da oposição ficaram fora da disputa.

Você viu por acaso alguém fazer essa conta simples e questionar as autoridades e políticos, das várias cores, que denunciaram as eleições venezuelanas como ilegítimas? Você viu essa conta e esse raciocínio simples merecerem destaque, nem que fosse para ter algum contraditório, nos noticiários de grande alcance? A oposição denuncia fraudes, mas não oferece comprovações, e o total dos votos dados a Maduro é compatível com o apoio ao governo dele registrado nas pesquisas. Simples e objetivo. Mas não se disse.

Ah, mas esse seria um viés favorável ao Maduro. O equilibrismo a título de isenção virou pretexto para amputar, da realidade descrita, os fatos que não se encaixam na narrativa, na “nossa posição”, como se diz.

Alguém decidiu que a Venezuela é uma ditadura, então as eleições ali são ilegítimas, e com certeza foram fraudadas. Dispensa comprovação. Ah, tem também o argumento de que lá os principais líderes da oposição estão presos e/ou impedidos pela Justiça de concorrer. Bem, parece que há outro país nas redondezas em situação parecida.

Se a eleição na Venezuela foi ilegítima também porque os líderes da oposição não puderam concorrer, o PT tem razão quando diz que a eleição aqui sem o Lula será fraude? Você vai concordar que é uma pergunta razoável de se fazer. Você viu alguém do jornalismo dito profissional fazê-la? Nem que fosse para o interlocutor responder que no Brasil a Justiça é independente, e na Venezuela ela é controlada pelo governo? Essa resposta seria boa, mas perigosa, pois a tréplica é imediata: aqui como lá só quem foi/está impedido de concorrer é gente da oposição com chance real de ganhar.

Ah, mas isso seria um viés favorável ao PT. Então a saída é cortar fora também essa parte da realidade. E de pedaço em pedaço cortado fora, o que sobra para o consumidor de informação é o caroço, a seleção dos fatos capazes de corroborar a “nossa linha” editorial.

Uma maneira de falsificar a realidade é dizer que acontece algo diferente do que está acontecendo. Outro jeito, bem mais esperto, é contar só uma parte da história. Como dizia aquela propaganda, é possível contar um monte de mentiras dizendo apenas a verdade.

Foi o que aconteceu em Gaza. O fato: num dia, cerca de 60 palestinos morreram vítimas de atiradores do exército de Israel. Uma versão: os israelenses atiraram indiscriminadamente em manifestantes pacíficos, num verdadeiro massacre. Outra versão: os atiradores neutralizaram combatentes do Hamas e de outros grupos armados que buscavam romper as barreiras fronteiriças para penetrar em território de Israel, com o objetivo de atingir bases militares e a população das comunidades perto da linha de armistício.

Na terça-feira sangrenta prevaleceu a primeira versão, que recebeu farta cobertura. Mas na quarta, um dirigente do Hamas informou orgulhosamente que 50 dos 60 mortos eram seus combatentes. A Jihad Islâmica reivindicou outros três.

Como assim? 90% dos mortos pertenciam a duas organizações armadas? Bem, isso reforçava a versão israelense. E contradizia a angulação da cobertura anterior. Num jornalismo, digamos, saudável, isso seria notícia. E desencadearia um esforço independente de apuração para tentar saber afinal onde estava a verdade.

Aconteceu o contrário. A notícia foi escondida, ou simplesmente ignorada. Quando publicada, vinha algumas vezes acompanhada de advertências sobre a dificuldade de checar a veracidade dela com fontes independentes. Uma preocupação ausente da cobertura do dia anterior.

Sabem de uma coisa? É até compreensível. Se tivesse sido publicada ou veiculada com destaque, certamente o veículo seria acusado de pender para o lado de Israel. Então, em nome da suposta isenção e do suposto equilíbrio, preferiu-se sonegar a informação ao distinto público.

Sem contar que alguns textos dos dias seguintes continuaram dando livre curso à versão de ter havido um massacre de civis que se manifestavam pacificamente. Nenhuma preocupação de pelo menos avisar da existência de informações contraditórias. Esforço de apuração para descobrir a verdade? Nenhum. Curiosidade e inquietação para saber o que de fato se passou? Nenhuma. Ceticismo diante da fonte? Zero.

Existe mais uma vítima, esta não contabilizada, na tragédia de Gaza e na crise da Venezuela: o jornalismo.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 21 de maio de 2018

As muitas mortes de Osvaldo Aranha

O brasileiro que comandava a ONU em 1947 morre de novo a cada vez que um representante brasileiro vota ali contra Israel

A Praça Vermelha em Moscou ainda tem o mausoléu com o corpo embalsamado de Lenin, o líder da revolução bolchevique. Fora do edifício tudo mudou. O socialismo e a União Soviética acabaram. A Rússia aposentou a foice e o martelo e reabilitou os símbolos do império. O Tratado de Varsóvia é história e a OTAN chega cada vez mais perto de Moscou. A antiga superpotência foi rebaixada a “país emergente” e ocupa modestamente uma cadeira nos Brics.

Mas o Lenin mumificado continua lá no mausoléu, ainda que de vez em quando alguém proponha enterrar o cadáver do revolucionário morto em 1924. A idéia costuma ser rapidamente abandonada, pelo temor da confusão política que a remoção e o sepultamento provocariam. A União Soviética e o socialismo estão em fase de reabilitação na alma russa, até por evocarem um período de glória nacional. Os russos, como se sabe, são muito sensíveis a essas coisas.

Osvaldo Aranha morreu de ataque cardíaco em 1960 após uma vida dedicada à turbulenta política brasileira do período. No ápice da sua projeção internacional comandou a Assembleia Geral da ONU que em novembro de 1947 aprovou a partilha entre dois países, um judeu e um árabe, das terras que vão do Jordão ao Mediterrâneo. Aranha presidiu a sessão e apoiou a resolução. Não se deve subestimar o papel dele, nem superestimar. Ele teve importância.

Assim como Lenin na Moscou pós-URSS, aqui no Brasil exibe-se a memória embalsamada de Aranha quando é conveniente evocar o passado glorioso. No nosso caso, a benigna participação brasileira na votação que ofereceu a base legal para a declaração de independência de Israel. A ONU não criou Israel, o país teria sido fundado de toda maneira, mas a existência de um fundamento jurídico vem tendo peso no reconhecimento internacional do estado judeu, apesar da maciça rejeição árabe e muçulmana.

A favor do Brasil, pode-se argumentar que aqui, ao menos, a memória persiste, mesmo que reduzida a um ritual. Na URSS dos últimos anos de Stalin, com a tardia inclinação dele pelo antissemitismo, e depois da sua morte, o poder procurou insistentemente esconder que 1) os soviéticos votaram a favor da partilha da Palestina, 2) foram os primeiros a reconhecer Israel de jure e 3) armaram o estado judeu para travar e vencer a Guerra de Independência contra os árabes em 1948-49 (1).

A guinada antissionista da União Soviética veio quando os movimentos antimonárquicos e anticoloniais tragaram o mundo árabe e islâmico nos anos 50 do século passado. Na teoria, convinha mais à URSS apoiá-los e ligar-se a eles do que manter boas relações com Israel. O prêmio de ocupar o lugar dos britânicos como potência hegemônica na região era tentador demais. E até os anos 80 o investimento parecia ter retornado com sobras.

No Brasil, numa lógica algo paralela, a virada veio pelas mãos do regime militar, quando cristalizou-se a visão do destino do Brasil-potência vocacionado a disputar espaços com os Estados Unidos. Essa linha percorre todos os governos desde então. Com o estímulo decisivo dos dois choques do petróleo, o filo-arabismo e o filo-islamismo antissionistas consolidaram-se como nossa política de estado. E resistem bravamente a toda alternância de governo.

Resistem inclusive a toda mudança na geopolítica do Oriente Médio. O pan-arabismo deu lugar a uma disputa feroz entre os eixos sunita e xiita. A chamada “Primavera Árabe” atestou que o conflito entre Israel e os palestinos não é o único e nem de longe o principal ali. Mas o Brasil continua aprisionado em seus próprios preconceitos e ortodoxias. Para abusar da metáfora, a política externa brasileira para o Oriente Médio é outra que foi embalsamada.

A segunda das muitas mortes daquele Oswaldo Aranha de 1947 veio quando o Brasil de Ernesto Geisel apoiou em 1975 nas Nações Unidas a resolução que colou no sionismo o rótulo de "racista". Não faz sentido o não-racista apoiar a existência de um estado de maioria judaica e ao mesmo tempo dizer que a tese da libertação nacional dos judeus é uma doutrina racista. A coisa simplesmente não fica em pé. Ainda que política e coerência não costumem andar juntas.

Anos depois a ONU revogou a infâmia, mas a mancha ficou. Até porque a lógica daquele ato persiste até hoje. Algum país árabe ou islâmico apresenta uma proposta qualquer contra Israel e lá corre o Brasil a apoiar. É uma área da política externa brasileira que anda no piloto automático. Um exemplo é o endosso aos textos na Unesco negando, na essência, direitos de Israel à soberania sobre Jerusalém e demais lugares sagrados para os judeus na Terra Santa.

Aqui vale uma constatação. O antissemitismo tradicional diz que os judeus merecem ser castigados porque mataram Jesus Cristo. O fato de Roma ser a potência dominante na Judeia na época não sensibiliza os antissemitas clássicos, mas a acusação tem ao menos o mérito macabro de embutir uma constatação: admite que os judeus estavam ali dois mil anos atrás, antes portanto de Muhammad e da religião que ele criou, o Islã. Isso deveria ser irrefutável.

Não é irrefutável para o antissemitismo contemporâneo, que disfarçado de antissionismo nega qualquer vínculo nacional, histórico, religioso ou espiritual dos judeus com a Terra Santa, Hebron, Belém, e, principalmente, Jerusalém. Essa “interpretação” seria apenas uma aberração, não fosse pela ainda mais aberrante insistência da Unesco de “apagar” a presença judaica na Terra Prometida. E com o igualmente insistente voto favorável do Brasil.

O humor judaico é conhecido pelos traços cáusticos e por fazer graça das situações mais terríveis. Está bem retratado por Roberto Benini em La Vita è Bella, o premiado filme sobre pai e filho judeus italianos num campo de extermínio alemão. Talvez fosse o caso então de pedir aos novos antissemitas: “por favor, acusem-nos de termos matado Cristo; ele morreu em Jerusalém, então pelo menos assim vocês admitem que há dois mil anos nós já estávamos lá”.

Oswaldo Aranha despede-se de novo deste mundo sempre que o representante brasileiro vota na ONU em assuntos relacionados ao estado judeu. A morte mais recente foi quando o Brasil ajudou a condenar a decisão dos EUA de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Possuída por um antissionismo fanático, nossa política externa não notou que o voto agredia os fundamentos dela própria, e também as sistemáticas manifestações brasileiras sobre o conflito.

Na teoria, o Brasil defende o princípio da não-ingerência. E o que exatamente temos a ver com onde os Estados Unidos colocam sua embaixada em Israel? Se o Brasil seguisse neste caso sua própria doutrina, deveria considerar o assunto relativo apenas àqueles dois países. E votar contra a condenação. Como votaria nas situações similares, desde que não envolvessem Israel. Quando o estado judeu entra em pauta, nossos governos mandam às favas todos os alardeados princípios.

O contra-argumento a esse argumento é óbvio. O Brasil não reconhece Jerusalém como a capital de Israel porque se trata de região em litígio. E aí entra o aspecto mais pernicioso da atitude brasileira. Pois se há uma posição consolidada entre nós a respeito das eventuais fronteiras entre Israel e um possível estado palestino, ela defende respeitar a linha de armistício que vigorou entre 1949 e a Guerra dos Seis Dias, de junho de 1967.

Se o Brasil exigisse a implementação da resolução de 1947 defenderia a volta às fronteiras da partilha e a manutenção do status internacional de Jerusalém. Os mapas provam que só lunáticos veem viabilidade nisso. O racional é propor as fronteiras vigentes entre 1949 e 1967. Mas as escolhas têm consequências: durante a Guerra de Independência de 1948-49 Israel conquistou Jerusalém Ocidental, e até 1967 os muros da Cidade Velha eram parte da fronteira com a Jordânia.

Todas as instituições do governo e do estado israelenses ficam em Jerusalém Ocidental, dentro portanto dos limites reconhecidos pelo Brasil como de soberania israelense antes mesmo de 1967. Na Guerra dos Seis Dias Israel conquistou Jerusalém Oriental e a Cidade Velha, onde fica o Muro das Lamentações. Se o Brasil levasse a sério suas próprias declarações, deveria aceitar como legítima a total autoridade de Israel sobre o pedaço de Jerusalém que na prática vem sendo sua capital desde a Independência.

Ao recusar isso, a política externa brasileira envereda pelo curioso e talvez original “princípio da soberania relativa”: está de acordo que os israelenses exerçam a autodeterminação no território que o Brasil reconhece como sendo de Israel, mas desde que os palestinos também estejam de acordo. Dá poder de veto aos palestinos em decisões que deveriam ser soberanas do estado judeu. Ou seja, relativiza a posição brasileira de 1947.

Essa “autocrítica” de 1947 é uma marca registrada. Procurem-se as notas brasileiras de condenação quando líderes muçulmanos e árabes manifestam a intenção de riscar Israel do mapa e aniquilar os judeus dali. É muito difícil e raro ver algo pelo menos parecido com o repúdio que seria natural. Nas relações do Brasil com o Irã, por exemplo, esse é um não assunto. O Brasil exige que Israel aceite a Palestina, mas não exige que o Irã aceite Israel.

A regra tem sido o Brasil valorizar a relação com Israel nos aspectos em que o Brasil é beneficiado. E manter-se insensível ao interesse israelense em todas as outras situações, até nas mais delicadas. Enquanto isso, a memória de Oswaldo Aranha é evocada ritualmente sempre que é preciso cumprir o protocolo e as formalidades para mostrar que algo sobrevive daquele espírito que conduziu o voto brasileiro na ONU no já distante novembro de 1947.

Entretanto, assim como Lenin em seu mausoléu, as reverências e referências a Osvaldo Aranha são apenas o registro daquele mundo que não existe mais.

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(1) "Who Saved Israel in 1947?.” Artigo de Martin Kramer na revista eletrônica Mosaic Magazine. Link-> https://mosaicmagazine.com/essay/2017/11/who-saved-israel-in-1947/

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Publicado originalmente na edição de maio de 2018 dos Cadernos da Confederação Israelita do Brasil