sábado, 13 de outubro de 2018

A natural superioridade e irrefutabilidade do que não aconteceu. Porque jamais poderá ser verificado

Um bom método para prevalecer no debate político é tomar como premissa algo que nunca poderá ser verificado, e portanto jamais será derrubado com argumentos factuais. O “se” não joga no futebol, mas na política costuma ter grande utilidade. “Se vocês tivessem feito tudo do jeito que eu disse para fazerem garanto que o resultado seria muito diferente.”

1) Uma alternativa moderada teria mais chance contra Bolsonaro

A tese é atraente, por um ângulo cartesiano. Se a esquerda estivesse apoiando o chamado centro, somar-se-iam os votos de ambos e a direita estaria em apuros. Um problema: esse tipo de candidato ou vem sendo amplamente rejeitado ou no mínimo enfrenta gigantesca resistência do eleitor de Norte a Sul. Vide Anastasia (MG), Paes (RJ) e Rollemberg (DF).

2) O PT teria mais chance se tivesse apoiado Ciro

Pode ser que sim. Mas também pode ser que Bolsonaro tivesse sido eleito no primeiro turno. Isso só não aconteceu porque o PT reteve praticamente todo o eleitorado dele. Quem pode garantir que o petismo transferiria 100% dos votos “Haddad é Lula” para Ciro, sendo que Ciro sempre fez questão de manter uma distância regulamentar, hostil até, do PT e de Lula?

3) Se Dilma não tivesse sido derrubada, o PSDB estaria muito bem

Também pode ser. Mas o PT já demonstrara desde 2006 que com a caneta sabe ganhar eleição presidencial. O PSDB foi prejudicado pela identificação com o governo Temer. Mas suas maiores dificuldades decorrem da #LavaJato e da fadiga de material, isto em São Paulo. No que os dois vetores estariam enfraquecidos se Dilma ainda estivesse sentada na cadeira?

4) Doria teria mais chance que Alckmin de ganhar a eleição

Esta até eu já escrevi. E teria mesmo, pois Doria é quase um Bolsonaro dos Jardins. Mas quando Doria se preparava para entrar na pista Bolsonaro já completara várias voltas. E Doria para presidente precisaria carregar o “fardo PSDB”, algo que claramente se transformou de ativo em passivo. E se Doria fosse tão competitivo não estaria sofrendo tanto agora em SP.

5) Márcio França é a prova da viabilidade do dito centro

Será? São Paulo é exceção. Como em 2012, quando a vitória de Haddad na prefeitura da capital mascarou o declínio do PT. E França vem tendo sorte, algo essencial. O nome mais bolsonarista, Doria, está de breque de mão puxado porque deixou a prefeitura. Mas segurou votos suficientes para impedir o arranque de um bolsonarismo puro, como no RJ e em Minas.

6) Alckmin errou ao atacar Bolsonaro. Deveria ter atacado só o PT

Antes da facada, as críticas de Alckmin a Bolsonaro vinham ajudando a elevar a rejeição ao nome do PSL. A tática parecia funcionar. Funcionaria o suficiente para tornar Bolsonaro alcançável pelo tucano? Ninguém pode garantir, pois dia 6 de setembro teve a facada. E o capitão ganhou duas semanas de trégua. O imprevisível é mesmo muito difícil de prever.

7) Ciro deveria ter aceitado a vice de Lula

Até porque seria imensa a pressão, interna e externa, sobre a direção do PT para que Ciro virasse candidato na saída de Lula. Mas e se desse errado? E se Ciro não aceitasse ser vice de Haddad, renunciasse e abrisse uma crise no lançamento da candidatura petista? Provavelmente, sabe-se agora, Bolsonaro teria caminho livre para ganhar no primeiro turno.

8) O dito centro deveria ter se unificado em torno de um único nome

A dispersão em várias candidaturas foi mesmo um problema, mas o voto útil na reta final do primeiro turno mostrou que o eleitor (dos dois lados) tinha como resolver a coisa. Se tivesse havido (olha aí o “se”, de novo) um candidato simultaneamente “de centro” e antiestablishment saberíamos agora da viabilidade dele. Mas Huck correu da raia e ficaremos sem saber.

9) Se o voto fosse impresso Bolsonaro teria sido eleito no primeiro turno

É a prova mais viva de que contra certos argumentos os fatos não valem nada. E se você continua achando o inverso, que contra fatos não há argumentos, lamento informar que hoje em dia você está por fora.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Um olhar sobre o cenário pós primeiro turno. E a contradição entre o frentismo e a narrativa.

1) Finalmente acabou a Nova República

O primeiro turno fechou a era da Nova República, inaugurada em 1985. Os dois pilares básicos dela finalmente ruíram: o governo dos políticos e a política no governo. O frentismo centrista neste segundo turno é exigido do PT apenas como gesto de capitulação final. Pois não se exige o mesmo do nome do PSL. O vetor dominante agora é antifrentista. A hora é dos bonapartes.

2) Próximo movimento será o Executivo retomar o Poder Moderador

O Brasil já teve um bocado de Constituições, mas nunca deixou de ter um Poder Moderador, como o imposto desde D. Pedro I. Quando Executivo e Congresso foram para o ralo nos acontecimentos recentes a coisa escorreu para o Judiciário e as Forças Armadas. Se o novo presidente quiser governar mesmo, não ser só um figurante, vai ter de retomar esse poder.

3) Narrativas têm consequências. Frentismo? Difícil

Os criadores da narrativa da “ameaça dos extremos” tiveram mais sucesso na difusão da tese na imprensa do que entre os eleitores. Mesmo com a ideia maciçamente martelada na campanha. Mas se poucos dias atrás o sujeito dizia que PT e Bolsonaro eram ameaças iguais, como explicar agora a necessidade de se aliar a um para derrotar o outro? Complexo.

4) O tsunami pegou em cheio quem estava na praia

Se você tem o poder de provocar um terremoto, não é prudente esperar na praia pelo tsunami. O terremoto começou em 2013 e ganhou intensidade em 2015/16. Agora veio a onda, que atingiu muita gente, mas principalmente quem está no governo central. Quem havia sido empurrado para a montanha, mesmo contra a vontade, teve mais chance de sobreviver.

5) Engenharia de obra feita é fácil. E pode ser útil de vez em quando

O “se” não joga. E depois de a coisa acontecer é fácil falar. Mas se o nome do PSDB fosse de direita raiz, e não nutella, é razoável supor que seria mais competitivo e as bancadas não sofreriam tanto. Retrospectivamente, foi errado Alckmin acreditar na teoria do “candidato de centro”, e foi errado Dória não se apresentar para a disputa política aberta dentro do partido.

6) O apreço pela democracia detectado nas pesquisas é duvidoso

As pesquisas garantem que o brasileiro adora a democracia. Mas talvez não se tenha explicado direito aos pesquisados o que é “democracia”. Qual seria o resultado se se perguntasse algo como “você acha aceitável o governo oferecer cargos aos partidos para eles apoiarem o governo, inclusive no Congresso?" Eu tenho um palpite sobre a resposta.

7) Quem quiser ser candidato em 22 tem de começar já

O debate “TV x redes sociais” ainda corre, e sem que haja evidências definitivas a sustentar as opiniões definitivas. Mas uma coisa é certa. Se a campanha eleitoral de 2018 foi longa, a de 2022 será mais longa ainda. Na real, o segundo turno deste ano já é em certa medida um ensaio para daqui a quatro anos. Quem chegar antes no córrego vai beber água limpa.

8) É possível a guerra política contornar a agenda econômica

Mesmo antes da eleição já se nota alguma convergência nas agendas econômicas, como era previsível -e foi previsto. Mas a guerra política terá combustível de sobra na agenda não econômica. Ensaia-se um cenário tipo Trump. Uma quase guerra civil em assuntos não econômicos mas a economia contornando a confusão, pelo menos até certo ponto.

9) As pessoas falam mal das pesquisas mas continuam obcecadas por elas neste segundo turno.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Troca de guarda na direita em ascensão. Esquerda sobrevivendo, mas “no osso”.

1) Direita tem melhor resultado eleitoral desde a redemocratização

O primeiro turno fechou uma época e abriu outra nova para a direita. A liderança do bloco mudou de mãos. O liberalismo e o conservadorismo não estão mais sob o jugo dos liberais progressistas e dos social-democratas ditos de centro. Se Bolsonaro vencer daqui a três semanas (e o caminho para ele parece bem mais simples que para Haddad), isso estará sacramentado.

2) Esquerda tradicional recuou “para o osso”, mas sobreviveu

O PT recuou em todas as regiões e só manteve a liderança, e de aliados, no Nordeste. Quatro anos de LavaJato e a perda do poder tiveram efeito sensível. Mas o PT conseguiu manter-se inquestionável no comando de seu campo político e evitou uma catástrofe que abrisse campo a alternativas em seu bloco. Ciro foi neutralizado e Marina, pulverizada.

3) Tendência de renovação confirma-se

Especialmente no Sudeste, a maior região em população e sempre mais visível para o foco jornalístico, o vento renovador sopra mais forte. Também porque os principais alvos da LavaJato do dito centro para a direita concentram-se na região. Se perder em São Paulo e Minas, o PSDB arrisca-se a desaparecer como polo hegemônico da política nacional.

4) Mas os fatores de continuidade e inércia estão bem presentes

A renovação na Câmara foi ligeiramente maior que a metade da Casa, não tão longe assim da tradição. O vento soprou mais forte no Senado. Mas na Câmara três das quatro maiores bancadas são as clássicas. A taxa de reeleição ou eleição de aliados dos governadores caminha para 100% ou quase no Nordeste. O Sudeste é importante, mas o Brasil não é só São Paulo, Rio e Minas.

5) Ter mantido a base social coesa traz um custo político para o PT

O partido decidiu fechar espaço para alternativas à esquerda e compareceu à eleição mais “puro”. Com isso, Haddad conseguiu votação na faixa de índices "duros” de preferência pelo PT. Foi o suficiente para ir adiante. Não se faz omelete sem quebrar ovos. Mas agora o petismo tenta achar um jeito de arrastar não-petistas sem perder substância na esquerda. Complexo.

6) As equações regionais no segundo turno serão heterodoxas

Márcio França foi de Alckmin até agora e precisa de Paulo Skaf e do PT para enfrentar João Doria. Mas Skaf é Bolsonaro. E Dória também, e com mais entusiasmo ainda pelo capitão. No Rio, Eduardo Paes precisa de apoio da esquerda para ter alguma chance, só que é candidato pelo Democratas. Em MG, o tucano Anastasia não ganha a eleição sem um empurrão do PT. Etc.

7) Articulação da base parlamentar vai exigir mágica

Serão duas dezenas de partidos no Senado e três dezenas na Câmara. Se para Haddad a missão será hercúlea, mesmo para Bolsonaro ela estará longe de ser simples. É provável que dos dois lados do espectro haja algum esforço de formação de blocos, o que poderá ajudar. Mas convém não confiar muito na docilidade de um Congresso de sobreviventes e neófitos.

8) As pesquisas foram bem, num cenário muito desafiador

Bolsonaro teve 34% do total do eleitorado. Haddad, 21%. Ciro, 9%. Mais ou menos o detectado pelas pesquisas. As diferenças no voto válido parecem dever-se mais ao fato de o não voto ter dobrado para os 30% verificado na urna. Os americanos contornam esse desvio porque pesquisam também o universo dos “likely voters”, não só os “registered voters".

9) O PT enfrenta uma batalha morro acima no segundo turno. As pesquisas vão mostrar o ângulo do aclive

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O que não aconteceu e o que aconteceu, até agora, do que foi previsto para esta eleição

1) Não se comprovou por enquanto a força do chamado lulismo

Haddad chegou facilmente ao patamar de 20% e vem mostrando neste primeiro turno boa dificuldade para chegar aos 30% que as pesquisas apontam ser o estoque de eleitores dispostos a votar com certeza num candidato apoiado pelo ex-presidente Lula.

2) Comprovou-se a força do PT

Todas as pesquisas apontam que o partido tem a preferência de pelo menos 20% do eleitorado. Era previsível, e foi previsto, que um candidato do PT teria caminho relativamente livre para chegar a isso. E de fato chegou. O PT é a única força eleitoral clássica expressiva que consegue nesta eleição evitar o desmoronamento de sua base de apoio.

3) Não se comprovou a essencialidade do tempo de TV

Dos candidatos com desempenho satisfatório neste primeiro turno, Bolsonaro, Haddad e Ciro, dois não tiveram tempo de TV expressivo. Um candidato que desempenha muito abaixo da sua “votabilidade”, Alckmin, teve a fatia mais generosa do horário eleitoral compulsório.

4) Comprovou-se a essencialidade do tempo de TV

O principal fator que impede, por enquanto, uma vitória de Bolsonaro no primeiro turno é o PT reter seus 20% de share. Para isso, foi essencial uma comunicação maciça que alavancasse rapidamente Haddad e evitasse o avanço de predadores sobre o eleitorado petista. Só foi possível com o significativo tempo de TV.

5) Não se comprovou a viabilidade de um “centro"

O “centro” era só a tentativa de uma embalagem moderada para o antipetismo. Quando a coisa apertou, foi para a direita sem maiores dificuldades. Faça-se justiça a Alckmin: ele comprou a ideia e teve uma comunicação para buscar o eleitor “de centro”. Como este era uma miragem, o tucano vai ter poucos votos.

6) Comprovou-se que existem direita e esquerda

Ao contrário das frequentes teses a respeito, a divisão entre direita e esquerda não acabou. Se houver segundo turno, a partição ficará ainda mais nítida. Metade do país vota com a esquerda contra a direita e a outra metade com a direita contra a esquerda. Vai ganhar a eleição, agora ou daqui a três semanas, quem for mais capaz de fazer sua base votar.

7) Não se comprovou que esta eleição poderia assistir a um debate mais qualificado

Existia a esperança de que depois de mais um assim chamado “estelionato eleitoral”, em 2014, houvesse alguma evolução civilizatória do debate nas eleições deste ano. De novo, só se discutiram as pesquisas e quem ataca quem. No Brasil, quando se trata de questões civilizatórias, os pessimistas sempre tendem a ter alguma razão. Basta esperar tempo suficiente.

8) Comprovou-se que empresas de pesquisa falarem mal umas das outras é arriscado

Pesquisas erram, por isso têm “margem de erro". E também acertam, e por isso as pessoas importam-se com elas. Evitar falar mal de uma pesquisa ajuda a evitar também que se passe vergonha quando teu resultado se aproxima do resultado da pesquisa que tu criticaste. Porque nas pesquisas, como nos demais aspectos da vida, nunca se sabe o dia de amanhã.

9) Comprovar-se-á o velho ditado de que da mineração, de cabeça de juiz e de urna nunca se sabe exatamente o que vai sair, mesmo que as pesquisas e os estudos ofereçam bons elementos para as previsões

sábado, 29 de setembro de 2018

As pesquisas a uma semana da eleição. E hipóteses para as dificuldades do “centro”

As pessoas que se apaixonam pela política, ou por um lado nas disputas políticas, mantêm a partir daí uma relação igualmente passional com as pesquisas eleitorais: amam as boas para os seus candidatos e odeiam as não tão boas, ou ruins. Amiúde escorregam para a irracionalidade: “eu vejo outra coisa nas ruas.” Será que andaram em ruas suficientes?

A probabilidade de “n” pesquisas com intervalo de confiança de 95% cada estarem igualmente erradas num resultado comum a todas elas é 0,05 elevado à enésima potência. Ou seja, algo que três ou mais pesquisas mostram igual está pertíssimo da verdade. E é razoável então partir dessa premissa para analisar, por exemplo, a sucessão presidencial no Brasil.

Hoje Bolsonaro tem em torno de 30%. Haddad, entre 20 e 25%. Ciro e Alckmin, por volta de 10%. E Marina, uns 5%. Amoêdo, Meirelles e Álvaro ficam entre 2 e 3%, e os demais vêm depois. Bolsonaro está, portanto, a dois dígitos de liquidar a fatura no primeiro turno. Pela aritmética não é tão longe assim, mas pela política está virando uma boa distância.

Onde pescar? Os três candidatos “de centro” do terceiro pelotão já vão bem desidratados. O eleitor médio de Ciro e Marina não tem viés bolsonarista. Sobram os indecisos e Alckmin. Os indecisos nas pesquisas já são poucos. E aí vem o principal abacaxi de Bolsonaro: mesmo em situação complicada, Alckmin está lutando pela sobrevivência política, e tem recursos para lutar.

E o “voto útil” anti-PT? A peculiaridade é haver dois ou três deles disputando esse mercado. Um é a aposta em Bolsonaro decidir tudo no dia 7. Outro é a tentativa de levar Ciro ou Alckmin para o segundo turno, movimento impulsionado pela dúvida sobre a capacidade de Bolsonaro dar-se bem num mano a mano com o petismo.

O “voto útil” mais nítido até agora é o que lipoaspira Marina, joga Boulos na categoria de “outros” e corrói Ciro: o voto deles, ou potencialmente deles, migrando para Haddad. Que parece também estar atraindo um pedaço do antipetismo, dos que começam a considerar o nome do PT um mal menor diante da opção bolsonarista. É vital para o capitão estancar essa fuga.

Uma projeção interessante para avaliar a probabilidade de a coisa resolver dia 7 é olhar os cenários de segundo turno. Se alguém com chances no primeiro turno tem larga vantagem sobre adversários nas simulações de segundo, é razoável concluir que enfrentará menos resistência a arrancar os votos necessários num sprint até domingo. O contrário também é verdade.

Agora é aguardar, e ficar de olho no imprevisível. Um foco de imprevisibilidade são os movimentos policiais-judiciais, que vêm criando fatos políticos em série nos estados. É inédito em eleições brasileiras. Outra variável é a taxa de agressividade. Um eventual segundo turno transcorrerá em altas temperaturas e fortes manifestações de rua. Começou hoje.

*

O dito centro parece a caminho de ficar fora do segundo turno. Os possíveis motivos foram rascunhados aqui num artigo de junho deste ano, “Centro excludente é uma contradição em termos”. O primeiro: o governo é “de centro” e está pessimamente avaliado. A recuperação econômica é lenta e sem impacto real na taxa de emprego, por enquanto.

O segundo: as experiências “de centro” exitosas costumam ser politicamente inclusivas, nunca excludentes. A ideia de opor-se à radicalização só faz sentido quando se acena com a conciliação. Um centro hostil ao que chama de extremos é uma contradição em termos porque perde a capacidade de ganhar massa crítica atraindo gente dos dois lados.

Tancredo Neves pavimentou seu caminho juntando gente, não fazendo uma lista de quem estava a priori fora de seu projeto. O centro não existe por si, é apenas um ponto médio, um lugar geométrico. Para ganhar massa, precisa ter força de atração. Mas na política a capacidade de atrair não depende só de conseguir intimidar. É preciso saber seduzir.

Daí a dificuldade de constituir uma frente antipetista “de centro”. Ou um antibolsonarismo “de centro". Ou algo que tente fazer as duas coisas. O ponto médio nestas eleições está vazio à espera de quem consiga dialogar com o outro lado. Talvez seja uma das chaves para a vitória no hoje provável segundo turno.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O tempo das previsões sobre o fim dos tempos. Os governos possíveis. E o foco da futura crise

Parece que a eleição, como costuma acontecer, entrou na fase das previsões sobre o fim dos tempos, na linha de “o mundo vai acabar se eu não ganhar”. Faz parte. É um recurso sempre à disposição de quem começa a sentir o hálito desagradável da derrota. Um momento perigoso, porque o risco de a racionalidade ir para o brejo testa seus pontos máximos.

É também a hora em que a paixão política e sua coleção de emoções extremas fazem as pessoas esquecerem de um fato corriqueiro: passada a eleição, os mesmos políticos que nos advertem sobre a catástrofe que se avizinha, caso o adversário ganhe, estarão confabulando com o adversário para dividir o poder e tocar adiante pelos próximos quatro anos. #FicaaDica.

Verdade que há exceções, e será sempre prudente deixar espaço para a possibilidade de darem as caras. O período 2015-18 tem sido uma exceção. Mas talvez o retorno obtido pelos que preferiram continuar a disputa eleitoral por outros meios depois de fechada a urna funcione como desestímulo a repetir a experiência. Quem sabe?

Um exercício útil para controlar os impulsos é tentar raciocinar sobre os governos possíveis. No caso brasileiro, há apenas dois. 1) O de Bolsonaro (ou Alckmin, em caso de virada) com o chamado centrão e o MDB ou 2) o de Haddad com Ciro (ou de Ciro com Haddad), e mais o dito centrão e o MDB. A única dúvida é quem liderará o MDB. Se a turma de Temer ou a de Renan.

Eis uma razão por que haverá pouco espaço para guinadas bruscas em política econômica. Um presidente com pouca base própria e que gerar instabilidade entrará imediatamente na zona de risco de queda. Se bem que os principais postulantes já se precaveram, indicando vices que um eventual impeachment faria trocar apenas seis por meia dúzia. Inteligente.

Outro estímulo para a estabilidade no curto prazo, e talvez o mais importante, será a necessidade de o presidente agora eleito acender uma luz no fim do túnel, a luz dos investimentos e da volta do emprego. Essa é a única boa notícia capaz de contrabalançar as ruins: austeridade e reforma da previdência. E investimento depende de capital.

Voltando ao catastrofismo, ele parece ser a arma que sobrou ao autonomeado centro para tentar ir ao segundo turno. Se vai funcionar, só os números saberão. A tarefa parece hercúlea: a maioria do eleitorado até agora não dá sinais de sensibilizar-se com as advertências de que a democracia estará em perigo no caso de vitória de Bolsonaro ou do PT.

Nem mesmo o eleitor dos grupos mais bem situados em renda e instrução parece dar muita bola à tese. Quer mesmo é evitar a volta do PT. E se a ideia de o centro ter mais condições de bater o petismo num segundo turno tem lógica, o problema, de novo, são os números. Não há evidência estatística de que seja verdade. O que tira fôlego do argumento.

Voltando aos possíveis governos, e pelas razões listadas, é provável que a agenda de curto prazo em 2019 seja minimalista e gradualista, mas progressiva. O teto de gastos não será simplesmente revogado, mas revisto. A idade mínima para aposentadorias virá, mas gradualmente e negociada. Onde estariam as diferenças? No sentido da reforma tributária.

Sim, haverá turbulência política. No caso de vitória do PT, por exemplo, a principal preocupação dos adversários não é a possível repetição de erros, mas o fato de o petismo saber agora o que não fazer, se não quiser ser novamente derrubado. Por isso, nessa hipótese, o tempo estará jogando a favor do governo. O que desestimulará eventuais conciliações.

Não há entretanto qualquer sinal de disrupção iminente. Inclusive por uma razão curiosa: a interpretação entre nós do que sejam a Constituição e “a lei” anda tão flexibilizada que tem espaço para todo mundo jogar o jogo “dentro da lei”. Reduz-se assim a possibilidade de a defesa da legalidade ser o pretexto para a ruptura da legalidade. Ao contrário de outros tempos.

Esse é o curto prazo. Conforme crescer a evidência da necessidade de uma nova Constituinte, as temperaturas voltarão a subir. Parece não haver no horizonte consenso sobre quem escreveria a nova Carta. Os constituintes do STF? Os notáveis do general Mourão? Constituintes eleitos pelo povo? Um Congresso cercado? Eis uma boa aposta para o foco da futura crise.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Tempo de TV é importante, sim

Horário eleitoral impulsionou Haddad
Exposição de Bolsonaro foi maciça


As dificuldades de Geraldo Alckmin permitem a conclusão de que não é tão importante assim um grande tempo no horário eleitoral compulsório no rádio e TV. É uma conclusão imediata, lógica e errada. O horário eleitoral e o tempo de TV continuam sendo fundamentais. Dois fatos comprovam.

Um é a subida exponencial de Fernando Haddad, que uma semana apenas após ser oficializado candidato de Lula e do PT já bate em 20% dos votos. Tal velocidade só vem sendo possível pela muito rápida propagação da mensagem de que Haddad é “o candidato do Lula” para fazer “o Brasil feliz de novo”.

E essa ideia não atingiria tanta gente tão rapidamente se fosse só por Facebook, Twitter, Instagram. Foram a TV e o rádio. As redes sociais públicas e privadas ajudaram a propagar a mensagem, inclusive os materiais distribuídos pelo horário eleitoral. Mas sem o rádio e a TV a ascensão haddadista não seria tão aguda.

O outro fato é a resiliência de Jair Bolsonaro. O candidato do PSL teve, com a facada, um “tempo de TV” brutal. Se for calculado, deve ser de longe o maior de todos. E seu “programa eleitoral” foi de alto impacto. Ele de camiseta amarela “Meu partido é o Brasil”, carregado pela multidão e sobrevivendo a uma facada perpetrada por um oponente.

Antes do atentado de Juiz de Fora, a imagem de Bolsonaro vinha em erosão, medida pelo aumento da rejeição. Graças à campanha negativa no horário eleitoral. Contra o que ele não tinha recursos para resistir. Quando a onda negativa teve de parar e veio o tsunami de exposição positiva, as curvas imediatamente fletiram a favor dele.

Mas por que então Alckmin está sofrendo, mesmo com o latifúndio radiofônico e televisivo? Bem, se o tucano ainda tem alguma esperança de reagir, esse é o recurso de que dispõe. Outra coisa: exposição em meios de comunicação de massa é necessário, mas está longe de ser suficiente. Tempo de TV não substitui a política.

O eleitorado tucano vem sendo há anos seduzido por um discurso muito à direita do “PSDB raiz”. E ficou vulnerável à captura por concorrentes externos. Porque Alckmin encaixa mal na nova narrativa. Ela tem mais a ver com João Doria. Nunca saberemos com certeza o que teria sido a campanha “Doria presidente”. Mas dá para intuir.

O PT estaria arriscado a algo semelhante se tivesse deixado seu eleitorado exposto. Provavelmente Guilherme Boulos não estaria dando traço. Ou Ciro Gomes resistiria melhor. Ah sim, e há uma diferença importante entre petistas e tucanos: é mais fácil o PT deslocar-se à esquerda do que o PSDB apresentar-se como abertamente de direita.

E um detalhe importante: o tempo de TV dos presidenciáveis está muito espremido numa floresta de mensagens políticas de candidatos a outros cargos. Para impactar o eleitor, a ideia tem de ser simples e direta. Talvez o PT e Bolsonaro tenham decifrado até agora melhor essa equação.

Mas ainda restam duas semanas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Quem foi bem no Jornal Nacional. O que é “ir bem” no JN. Qual é o propósito dos debates e entrevistas

Parâmetros úteis para responder às questões do título encontram-se num texto de outubro de 2012 de George Friedman, da agência americana Stratfor, The Purpose of Presidential Debates. Corria então muito quente a disputa pela Casa Branca entre o candidato à reeleição, Barack Obama, e o desafiante republicano, Mitt Romney.

Entrevista de candidato a presidente para o Jornal Nacional, da TV Globo, não é formalmente um debate, mas há poucas coisas mais semelhantes a um autêntico debate que candidato a presidente sendo entrevistado na bancada do JN. Não há ali propriamente uma relação jornalista-entrevistado. Há uma disputa aberta pelo poder.

O sujeito tem de ir no JN porque não pode abrir mão da enorme audiência do telejornal. Mas inexiste mesmo almoço grátis, e o preço a pagar é considerável. Corre o risco de ser feito em pedaços por entrevistadores/debatedores sem a menor disposição de serem convencidos de nada, independente dos argumentos que o convidado possa apresentar.

Não seria mais razoável deixar o entrevistado falar com alguma liberdade e expor suas ideias para melhorar o país? Bem, para isso dir-se-á que existe o horário eleitoral compulsório na tv e rádio abertos. E a verdade é que o dia a dia do poder parece mais com uma entrevista no JN que com o desfile de belezinhas dos programas eleitorais.

Gostar ou não da maneira como os entrevistadores/debatedores apertam os candidatos é só questão de gosto. Eu preferiria que houvesse mais tentativas de xeques-mates no mérito, e um pouco menos de exibição de músculos. Aliás, na política, o excesso de halterofilismo costuma ser sintoma de pouco treino para jogar xadrez. Mas é coisa que dá para corrigir.

Num debate eleitoral ou numa entrevista como a do JN, a única coisa importante, para o candidato, é defender sua capacidade de liderar, em primeiro lugar a própria tribo. Ele está ali num duelo, e não pode se deixar matar, ou mesmo permitir que seja ferido com gravidade. Se puder dar uma estocada decisiva e abater o adversário, melhor ainda.

Talvez a principal qualidade exigida do líder político seja não errar -ou errar pouco- quando precisa decidir rápido e sob imensa pressão. Nesse aspecto, Ciro, Bolsonaro e Haddad foram os melhores. Até por serem, os três, personagens dotados da necessária autossuficiência para confrontar essa mesma característica da dupla de entrevistadores.

Autossuficiência e capacidade de agarrar-se às próprias narrativas. A narrativa é a boia do líder político na tempestade. E é também a boia que ele atira aos liderados para se salvar junto com ele. Quem não consegue contar uma história sobre si fica à mercê da história que os adversários contarão. Numa entrevista coletiva, num debate ou numa mesa de bar.

Só ingênuos ou desavisados esperam que um político chegue no JN e diga “puxa, vocês têm razão, eu errei mesmo; obrigado pela dica, da próxima vez vou tentar acertar”. E só desavisados e ingênuos acreditam que os entrevistadores estão ali numa atitude construtiva para oferecer oportunidade real ao entrevistado de expor argumentos. #FicaaDica.

*

Havia dúvidas sobre se daria tempo de outro candidato petista trazer para ele rapidamente votos que seriam de Lula, se este pudesse concorrer. Mas o tempo na política não é rígido. Parece mais com o tempo de Einstein que com o de Newton. Quanto mais perto da eleição, menos tempo vc precisa para difundir eficazmente uma informação.

*

Uma peculiaridade este ano é o fim do oligopólio das pesquisas eleitorais. Certos veículos da imprensa recusam noticiar pesquisas que não as contratadas por eles. É um direito. Mas aí têm dificuldade de explicar possíveis repercussões de pesquisas que não disseram quais são.

O Conselheiro Acácio, sempre útil. As consequências vêm sempre depois.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Agora ficou parecido com 1989

Outsider lidera, PSDB busca espaço
PT e PDT disputam o segundo lugar


Dizia-se que a presidencial de 2018 repetiria 1989, pelo alto número de candidatos com alguma musculatura. Está acontecendo, por enquanto. Mas a semelhança, pelo menos neste momento, vai além. Como então, um outsider de direita lidera e PT e PDT disputam o segundo lugar, que dá uma vaga na final, se houver segundo turno.

Três décadas atrás eram Collor, Lula e Brizola. Hoje são Bolsonaro, Haddad e Ciro. Claro que tem uma diferença. Alckmin é hoje mais competitivo do que eram então Ulysses, Covas, Aureliano e Afif. Sem esquecer de Maluf. Mas agora, como naquela época, o dito “centro” desperta dúvidas sobre sua capacidade de quebrar a polarização.

Em comum aos dois momentos, um certo cansaço com o establishment político. Naquele tempo, decorrente principalmente da decepção com os resultados econômicos da Nova República, que sucedera os governos militares. Hoje, nascido da revolta diante da retração econômica, revolta multiplicada pelos escândalos.

Interessante que agora, como ali, a “renovação” vem pela mão de políticos experientes. Collor era de família tradicional na política e tinha transitado pelo Legislativo e Executivo. Brizola, nem falar. Lula já disputara o governo paulista e fora constituinte. A política não estava desprestigiada. Desgastada mesmo, só a aliança que elegera Tancredo.

Bolsonaro é um veterano do Congresso, Ciro já foi de tudo, inclusive disputou duas vezes o Planalto. E Haddad é Lula. E Alckmin, que tinha sido prefeito, deputado, tem sala no Palácio dos Bandeirantes faz um quarto de século, praticamente sem interrupção. Aliás Alckmin parece ser um Covas desta eleição. Pelas qualidades e pelos problemas.

Covas tentou de tudo para quebrar a lógica Collor x “Brizula”. Seu momento mais criativo foi quanto lançou a ideia do “choque de capitalismo” necessário no Brasil. O establishment entusiasmou-se, mas o povão nunca pensou seriamente em desembarcar do navio comandado pelo "caçador de marajás” que vinha das Alagoas.

Parece ser um pouco o problema de Alckmin. Seu posicionamento encaixa-se bem numa equação racional, ele tem tudo para atrair um público que demanda estabilidade, pacificação e equilíbrio, mas até o momento vem sentindo dificuldade de arrastar votos para essa lógica. O que dificulta a agregação da elite em torno de seu nome.

Mas a corrida está verde ainda. Como evoluirá a saúde de Bolsonaro? Haddad conseguirá votos lulistas suficientes para enfraquecer Ciro decisivamente? Marina parará de cair? Alckmin conseguirá uns pontos adicionais para entusiasmar seu campo e ganhar massa crítica? Amoêdo, Álvaro e Meirelles resistirão ao voto útil?

Aguardam-se os próximos capítulos.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Uma facada como tiro de largada. Um tempo perdido. E os caminhos para o segundo turno.

A facada em Jair Bolsonaro foi um tiro. Ou melhor, dois. Foi um tiro na linha de comunicação do antibolsonarismo “de centro", ao transformar instantaneamente o violento em vítima de violência. E foi também o tiro de largada de fato da corrida presidencial. O antes de quinta-feira pode tranquilamente ser mandado ao arquivo.

Ganham o próprio Bolsonaro e o PT. O capitão ganha um ambiente favorável a pelo menos estancar o aumento da rejeição, quando não a reverter a curva. E o PT, que sorte!, ao fim e ao cabo não ficou mesmo atrasado por causa da tática bifronte Lula e/ou Haddad. Está em tempo, se finalmente decidir nesta segunda a dúvida entre casar ou comprar uma bicicleta.

Na opinião pública do centro para a direita, o ajuste mental e do verbo vem sendo rápido. O discurso sobre a necessidade de evitar os extremos é substituído pela esperança de que o próprio Bolsonaro se apresente como candidato centrista. E a campanha do PSL já percebeu: de quinta para sexta a postura mudou. Saiu de campo o radicalismo, entrou a fofura.

É uma manobra inteligente para evitar que o “centro de raiz” tente agora deslocar o bolsonarismo voltando a se apresentar como alternativa “racional”. Bolsonaro e os seus fazem a flexão de Lula em 2002. Se vai funcionar é outra história, mas estão empenhados. A suave entrevista de sexta do General Mourão bastou para quem quis entender.

Já para o candidato original do “centro de raiz”, Alckmin, o momento é de reencontrar uma picada ao segundo turno. A de antes estava clara: aumentar a rejeição a Bolsonaro agora, para lá na frente ocupar o terreno. Artilharia pesada agora, para mais adiante mandar a cavalaria e a infantaria tomarem um território já afofado pelo bombardeio.

Isso inviabilizou-se porque a artilharia pesada tem de parar, há o risco de sair pela culatra. E fazer o quê? Concentrar-se no propositivismo? Atacar o PT para tentar ir à final contra Bolsonaro? Apresentar-se como o pacificador do país, o que vai evitar a guerra fratricida, esse iceberg cuja ponta viu-se na mineira/carioca Juiz de Fora na quinta-feira?

Tudo terá um custo. Tentar concentrar-se em tirar o PT da final é arriscado, o petismo parece entrincheirado. Uma opção seria acreditar que o PT se dividirá na campanha, mas é duvidoso demais depender disso. Enquanto o petismo tem chance de ganhar a eleição - e ela existe - dificilmente vai mergulhar numa guerra interna. Se perder, isso está contratado para depois.

Ciro vai bem, diante dos parcos recursos disponíveis. Vem numa ascensão suave, especialmente no lulismo menos petista. É preciso ver o limite disso. O candidato do PDT ainda precisa de muita musculatura adicional para sonhar com ir a 28 de outubro. Já Marina parece num momento difícil da corrida. O “centro” anda cada vez mais congestionado.

Um problema adicional para Alckmin é esse congestionamento. Além do tucano e de Marina, já há pelo pelo menos três outros nomes com alguma presença nas pesquisas: Amoêdo, Álvaro Dias e agora Meirelles, que começa a dar as caras, pois está aproveitando bem seu decente tempo na propaganda eleitoral compulsória no rádio e na tevê.

É possível que na hora da decisão haja algum tipo de voto útil nesse campo, mas os nervos precisarão estar fortes até lá. Pois mais de um nome sobe. Voto útil em quem? É uma pressão que também vai aparecer na esquerda, se Haddad estiver precisando dos votos de Ciro, ou este dos votos do PT para ir à decisão.

O primeiro turno tem tudo para ir quente até o final, com uma definição nos últimos dias, horas, ou mesmo na urna. O bolsonarismo sonha com uma vitória em primeiro turno, o que ainda não está no radar. O tucanismo, com um “despertar de centro". O PT, com fazer a disputa da civilização contra a barbárie, ou do governo Lula contra o governo Temer.

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As pesquisas eleitorais têm andado razoavelmente em linha. Mesmo que alguns números divirjam, as tendências apontadas por elas tem coincidido no essencial. Mais uma prova de que é desperdício de tempo e energia umas ficarem falando mal das outras. Na era da big data, já deveriam ter aprendido que se erra menos com muita informação que com pouca.

Existe mesmo uma “transferência de votos"?

O político é dono do eleitor?
Ou o eleitor é dono do político?


Com o início do horário eleitoral compulsório na TV aberta e no rádio, aumenta a ansiedade para saber quem se mexe e quem não. Ou quem se mexe mais ou menos. E se é para cima ou para baixo. Esse costuma ser um período nervoso nas campanhas. Ainda mais agora, com a corrida encurtada, acertar ou errar na comunicação de largada é estratégico. E as próximas pesquisas vão dizer quem errou e quem acertou.

Mas, cuidado: a coisa ainda está muito no começo e o tempo que resta é suficiente para reverter tendências. Vamos recordar 2014. Aécio Neves assumiu a vice-liderança a abocanhou a vaga no 2º turno nos últimos três a dois dias antes da urna. E agora as opções à disposição do eleitor são mais variadas do que quatro anos atrás. Há mais produtos disponíveis na gôndola para quem quiser trocar a mercadoria que já está no carrinho.

As duas variáveis amplamente monitoradas nesta disputa são:

1) a chamada “transferência de votos” de Lula para Fernando Haddad;

2) se Alckmin consegue uma transfusão de eleitores de Jair Bolsonaro, graças também à massacrante disparidade de recursos em favor do tucano.

É razoável supor que a rejeição a Bolsonaro vai aumentar. Resta acompanhar se a perda, mesmo marginal, dar-se-á em benefício do ex-governador paulista.

Mas, e a “transferência” petista? É esperado algum crescimento imediato de Haddad. Seu principal fator limitante é o desconhecimento. À medida que vai ficando mais conhecido, subirá.

Também porque não há motivo sério para o eleitor petista deixar de votar nele. E o PT tem uma fatia própria do eleitorado. E tem Lula, que anda tão resiliente quanto Bolsonaro. O eleitor “duro” de cada um não está nem aí para o que dizem dele os adversários.

Isso pode ser facilmente medido pela decisão de voto. O petismo e o bolsonarismo ostentam os índices mais altos. Talvez porque esta eleição seja a busca por uma liderança política.

A ideia de que o país precisaria mais de gestores que de políticos saiu rapidamente da moda depois de fazer algum sucesso quando a antipolítica andava em alta, uns dois anos atrás. Vamos ver o que trarão os resultados finais, mas aquele discurso parece ter perdido mesmo tração.

É tentador, para os petistas, acreditar que Lula e o PT retomam força eleitoral porque o eleitor se convenceu de que as acusações contra ambos se mostraram vazias. É mais provável que a recuperação do petismo decorra, principalmente, da convicção de o país estar sendo conduzido de maneira errada e para o lado errado. E, por isso, entre um quinto e um terço do eleitorado inclinam-se a dar uma nova oportunidade ao partido.

Também por isso, talvez seja um erro conceitual falar em “transferência dos votos de Lula”. Não há propriamente uma transferência, e os votos não são “de Lula”. Lula e o PT, assim como Alckmin e o PSDB, assim como Bolsonaro, Ciro, Marina e outros, são produtos na gôndola para o eleitor escolher conforme a necessidade do momento. O eleitor não é propriedade do político. É mais razoável compreender que o político é mercadoria à disposição do eleitor.

Verdade que há um processo de “peronização” de Lula, mas isso está longe de ser o principal. Qual seria a taxa de “transferência” se Lula recomendasse o voto em Alckmin? Ou mesmo em Meirelles, que foi ministro de Lula, mas hoje é completamente identificado com o governo Temer? Provavelmente baixa. Muito baixa. Bem mais baixa do que certamente vai acontecer com Haddad.

Currículo tem importância, apoios têm importância, programa de governo tem alguma importância, mas cada uma dessas coisas só adquire maior significado se ajudar a compor uma linha geral, um sentido geral. Uma ideia geral que ilumine o horizonte desejado. O petismo e o bolsonarismo já conseguiram desenhar essa ideia. Os demais ainda têm tempo, mas não podem demorar muito.

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Publicado originalmente em www.poder360.com.br

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O mercado está nervoso. E daí? O novo governo precisará de paz com os empresários

O mercado financeiro anda nervoso por não saber, ou não conseguir prever com razoável margem, o desfecho da sucessão presidencial. Ou por achar que o eventual eleito pode ser tentado a heterodoxias, pois os resultados imediatos da ortodoxia não têm sido bons. Ou por acreditar que o ungido não terá potência para arrancar do pântano e ganhar velocidade.

O nervosismo do mercado nasce da incerteza sobre se 1) o Brasil vai eleger um presidente comprometido com privatizações, desregulamentação e austeridade fiscal; e se, mesmo nesse caso, 2) ele terá força para fazer valer no Congresso seu programa de governo. Junte-se a isso o quadro internacional, e o dólar continua subindo a ladeira.

Um argumento de certo peso contra o programa econômico perseguido por Michel Temer é não ter sido aprovado na urna. Bem, desta vez, caso a eleição produza um presidente de direita, da tonalidade que for, o público estará sabendo do que se trata. Todos os nomes desse campo estão comprometidos com a ponte para o futuro temerista.

Mas infelizmente ainda não apareceu o candidato ideal. Um que simultaneamente defenda a tríade liberal listada mais acima, tenha muitos votos e projete um ambiente de governabilidade estável. Geraldo Alckmin vai bem no primeiro e no terceiro quesitos. Jair Bolsonaro nos dois primeiros. O mercado torce para que o tucano aproveite bem a TV.

Outro complicador são as circunstâncias do PT. O partido precisou pender à esquerda para segurar seu mercado eleitoral, e a operação vem tendo sucesso pelo ângulo político. Não se veem dissensões sérias internas nem desafiantes viáveis externos. Mas não existe almoço grátis, e o petismo manter-se competitivo aguça as naturais inquietações do capital.

E tem também Marina e Ciro. Ela já faz tempo procura cercar-se de economistas de currículo liberal. Há anos ela oferece previsibilidade na economia. É o que vem faltando a ele projetar. Mas talvez não possa ser diferente no caso do pedetista: ele precisa de votos dos dois lados, precisa de alguma ambiguidade se quiser ter chance de passar ao segundo turno.

O mercado está nervoso? Sim, mas e daí? Se o leitor ou leitora deixar as idiossincrasias de lado, verá que a resposta é “e daí nada". Seja quem for o próximo presidente, ele enfrentará constrangimentos orçamentários e políticos que reduzirão a um mínimo sua margem de manobra na economia. Com qualquer resultado, pouca coisa vai mudar, ao menos no curto prazo.

O eleito assumirá com uma preocupação ultraprioritária: criar empregos. Precisará estimular fortemente os investimentos. Para isso, terá de se entender com o empresariado. Ou seja, não vai abrir o mandato arrumando confusão e gerando incerteza. Ao contrário, vai procurar evitar turbulências e inocular otimismo. Até para influir mais no Congresso.

O próximo presidente trará notícias ruins. Corte de gastos, reforma da previdência. Precisará compensar com notícias boas. E a única notícia realmente boa no Brasil de 2019 será que o emprego voltou. Mas se é o trabalho que acrescenta valor à mercadoria, quem cria, ou destrói, postos de trabalho é o capital. Uma verdade contra a qual nunca é inteligente brigar.

Cada um compra e/ou vende dólar na hora que quiser, mas os espertos venderão na turbulência e recomprarão quando o ambiente se desanuviar, lá por novembro e dezembro. E os mais espertos ainda? Estes ocuparão o tempo até lá bolando ou desengavetando projetos que o novo governo possa apresentar como boas notícias para a criação de empregos. #FicaaDica.

E tem outro detalhe: seja qual for o governo, tudo precisará ser negociado com o Congresso, que já se sabe mais ou menos como será.

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As entrevistas com candidatos têm parecido menos entrevista e mais debate eleitoral. O jornalista coloca-se na posição de adversário político do entrevistado. Mas tudo na vida tem dois lados. Quem está acostumado a bater, de repente percebe que também pode ser alvo. Talvez seja inevitável, mas não deixa de ser uma novidade, essa volta do cipó de aroeira.

Não conhece a expressão “a volta do cipó de aroeira"?

Taí ->

https://youtu.be/EGyb11knYYo

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

E se 4, ou 5, permanecerem competitivos?

Se o não voto (branco/nulo/não foi votar) nesta eleição presidencial bater em 35%, o candidato que conseguir 20% do total fará 30% dos válidos. É um desempenho que traz alta probabilidade de ir a um eventual 2º turno, marcado para 28 de outubro. Que só não acontece se alguém fizer metade mais um dos válidos no primeiro. O que ainda parece distante, também pela quantidade de candidatos com pelo menos alguma musculatura.

Há 5 nomes que já passaram a barreira da competitividade. E 2 que estão no limiar de ganhar alguma substância. Bolsonaro, Haddad (o candidato de Lula), Marina, Alckmin e Ciro. E Alvaro Dias e Amoêdo. É muita gente na pista. E com um detalhe: os 5 mais bem colocados têm caminhos possíveis para alcançar o número mágico de 20% do total, ou 30% dos válidos, se confirmada a hipótese que abre este texto.

Bolsonaro já está no patamar. Precisa pelo menos manter-se nele. Se ganhar uns pontinhos, uma gordurinha, fica menos vulnerável à lipoaspiração de que será alvo no horário eleitoral, onde tem desvantagem massacrante. As pesquisas dirão se o capitão usou bem sua aparição na TV esta semana para acumular um extra. Se tiver conseguido, será ótima notícia para ele e, portanto, péssima para quem disputa com ele os votos da direita.

Em todas as pesquisas, o PT aparece com pelo menos 20% da preferência popular. É razoável supor que seja um objetivo viável para o candidato do PT no 1º turno. Sem contar os pelo menos dez pontos percentuais de eleitores que dizem querer votar só em Lula e mais ninguém. Também é racional olhar esse contingente como uma oportunidade de mercado para o candidato do PT.

Nos cenários sem Lula, o tucano Alckmin ou bate nos 10% ou está perto. E tem abundância de recursos, principalmente tempo de tela, para passar sua mensagem. Se não se aproximar dos 20% terá sido por deficiência própria, e não pelas circunstâncias. Também porque tem a simpatia importante, medida em pesquisas, entre o assim chamado establishment ou a elite. O leitor ou leitora escolhe o rótulo que preferir.

Marina fez 20% dos votos válidos em 2010, quando não chegou a ser incomodada na campanha, e 22% em 2014, quando foi soterrada na TV pela aliança tática do PT com o PSDB para tirá-la do 2º turno. Sem Lula, ela está mais ou menos no patamar de quatro anos atrás. Se conseguir algum gás com base na plataforma progressista-liberal, muito na moda, não terá grande dificuldade para acumular uns pontinhos a mais.

Se Haddad não for tão eficiente assim na colheita do voto lulista, Ciro é outro que pode dar as caras na reta final deste 1º turno. Sem contar que Ciro é também palatável para um pedaço do eleitorado que não quer saber de Lula ou do PT, e o candidato do PDT não tem descuidado dessa turma. Ciro corre o risco de não ser totalmente confiável para nenhum lado da polarização? Sim, mas também é inegável que tem trânsito em ambos os campos.

Cada um é livre para apostar no que quiser. Mas é bom colocar as barbas de molho. Não é impensável que cheguemos na reta final do 1º turno com pelo menos 4 candidatos em condições de ir à final. E um detalhe: em 2014, Aécio passou Marina, nos últimos dias, para não dizer nas últimas horas. E São Paulo teve um peso decisivo para isso.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Os mistérios do tempo. O muito tempo de Alckmin na TV e o pouco tempo para o PT fazer Haddad

O debate sobre a eleição tornou-se nos últimos dias um debate sobre o tempo. Se o muito tempo de Geraldo Alckmin na TV e no rádio será decisivo para levá-lo ao segundo turno. E se o pouco tempo, talvez apenas três semanas, para o PT informar o eleitor que Lula é Fernando Haddad, ou o inverso, será suficiente para trazer ao ex-prefeito os votos necessários.

Vamos começar pelo tempo de TV. Claro que ter muito é bem melhor que ter pouco, ou quase nada. As ironias em contrário são só mais do velho “as uvas estão verdes”. Quem não gostaria de ter mais presença no ar? A eleição de 2014 provou que tempo conta. Especialmente para atacar e enfraquecer o quanto possível adversários com quase nada de munição.

Mas mesmo 2014 mostrou que essa variável deve ser vista com inteligência. O PT prevaleceu sim então porque tinha muito tempo, mas principalmente porque usou a vantagem para consolidar uma narrativa verossímil, que tinha aderência à realidade. Pobres x ricos. Também porque os adversários adotaram a tática de acenar ao chamado mercado.

Muito tempo é bom, mas não exime de precisar contar uma história com começo, meio e fim. Alckmin tem larga vantagem no quesito, mas precisa encontrar um jeito de sair da armadilha de ser visto como o candidato que vai continuar o programa do governo de Temer. Até porque ele é mesmo o candidato viável que mais carrega a esperança, ou o risco, dessa continuidade.

A campanha do PSDB está fazendo o possível, ao debitar na conta do PT a catástrofe econômica produzida em 2015/16. Até porque o governo era mesmo do PT. Emplacar esse discurso seria mais fácil se Dilma Rousseff ainda estivesse sentada na cadeira do Planalto. Mas obviamente não se quis arriscar deixar o petismo concorrer de caneta na mão. Tudo tem um preço.

Agora quem está lá é o aliado Temer e seu brutal déficit de imagem. Outro detalhe é que Dilma absorveu o passivo do petismo em política econômica, e deixou o ativo para Lula. Bem, mas foi Lula quem indicou Dilma. Seria algo que o ex-presidente precisaria explicar. Mas ele está preso e não o deixam explicar nada. E o candidato real, Haddad, deve menos explicações ainda sobre isso.

E o PT? Precisará executar uma operação desafiadora, inclusive pelo ineditismo. Tem algum tempo de TV mas poucos dias para a missão, e enfrenta até agora uma Justiça hostil, que não deve estar feliz com a tática petista de quase desobediência civil. É razoável supor que o partido não voará em céu de brigadeiro quando quiser colocar suas mensagens no ar.

A atenuante das dificuldades do PT é que a legenda parece estar unida em torno da tática. Depois de alguma espuma no noticiário sobre as resistências a Haddad no Nordeste, o candidato de facto está há dias na região posando para imagens com os governadores dali. E não parece haver divergência no PT sobre o que fazer quando Lula for sacado da corrida.

Não se vê no petismo ninguém relevante pregando voto nulo se Lula não puder mesmo concorrer. Nem propondo descarregar em Ciro Gomes ou Marina Silva. Ou seja, se o PT terá pouco tempo para a transfusão, pelo menos não precisará desperdiçar uma parte preciosa desse tempo aparando arestas internas e com aliados. Não deixa de ser um alívio.

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Jair Bolsonaro tem um problema aparentemente tão grande quanto o pouco tempo de TV. O noviciado em campanha presidencial. É coisa que costuma levar o sujeito a atravessar a rua para escorregar em casca de banana na outra calçada. Pela primeira vez nesta corrida, o candidato do PSL dá mostras de fragilidade e desconforto com a pressão.

Outro novato, Haddad, está por enquanto protegido pela candidatura de Lula. Mas é lógico supor que irá apanhar que nem gente grande nos debates e entrevistas a partir de quando for oficializado. É improvável que os adversários assistam ao desfile petista como quem acompanha embasbacado uma parada militar do Dia da Vitória.

Já os veteranos Ciro e Marina mostram-se à vontade. Não são alvo de ninguém. Resta saber se vão conseguir aproveitar a calmaria.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Otavio Frias Filho (1957-2018): Uma inteligência se vai

Fui contratado pela Folha de S.Paulo em agosto de 1986. Para cobrir férias na editoria de Internacional. Quem me levou para lá foi Igor Fuser, o então editor e que tinha sido meu correligionário na universidade. Eu vinha do jornal do Partido Comunista Brasileiro, o Voz da Unidade. E militara com Igor no PC do B. E conhecia Otavio Frias Filho do movimento estudantil. Depois da cobertura de férias, uma vaga abriu e acabei ficando no jornal.

Otavio, que no jornalismo era OFF, deu emprego naqueles anos da Folha a toda uma geração de militantes de esquerda que vinham da agitada política universitária no ocaso da ditadura. Ele tinha, e manteria por toda a vida, sérias restrições ideológicas àquela turma que trazia para o jornal. Mas nunca discriminou ou promoveu –que eu me lembre– ninguém por causa de posição política. Só pedia que quem assumisse posto de comando não estivesse em direção de partido.

Ao mesmo tempo, ou talvez por causa disso, Otavio era obcecado por evitar que o jornalista militasse nas páginas da Folha. Quem leu “A Regra do Jogo”, de Cláudio Abramo, e entendeu, poderá contextualizar o zelo do jovem diretor com a imagem de apartidarismo e pluralismo que o jornal queria projetar, na estratégia mercadológica em busca da liderança em tempos de redemocratização.

A realidade costuma ser contraditória, e o modus operandi da Redação naqueles anos gloriosamente tumultuados nada tinha de pluralista. Uma disciplina militar sob comando fortemente centralizado. Uma revolução jornalística conduzida de modo prussiano. Pensando bem, exemplos mais a leste que a Prússia seriam melhores. OFF impôs com mão de ferro o primado da técnica que prometia nos aproximar do limite alcançável da utópica objetividade.

Quando me convidaram para falar este ano no lançamento da nova edição do Manual da Redação, lembrei daqueles dias enlouquecidos e do lema de Juscelino, “cinquenta anos em cinco”. Estar na Redação da Folha de 1986 a 1991 era graduação, mestrado e doutorado, tudo junto e misturado. O sujeito que queria aprender e se empenhava nisso ganhava bagagem para enfrentar quase qualquer desafio na vida profissional.

Claro que fácil não foi. Nem indolor. Quem preferir, pode carregar daquela época as dores e as cicatrizes da guerra. Ou as mágoas. Toda guerra faz vítimas. Eu prefiro lembrar das oportunidades, das lições, das experiências, da sensação boa de participar de algo maior e importante. Sou grato ao Otavio. E sentirei falta dos textos bem elaborados, nos quais eu sempre achava alguma razão para divergir. Quem gosta de inteligência e de ler algo bem escrito vai sentir saudade do OFF. Eu vou.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Para que serve o debate presidencial. E quem precisa tirar coelho da cartola. E quem está protegido.

As pesquisas dizem que eleitor dá muita importância a debates entre candidatos. Porque o eleitor diz que dá muita importância a debates entre candidatos. É prudente não tomar ao pé da letra o que o eleitor diz de si mesmo, mas debates têm sim alguma importância. Em 2006 Lula deixou de ganhar no primeiro turno porque não foi ao debate final. É o que se diz.

A convicção do voto é proporcional ao orgulho que o eleitor sente da sua escolha. Se o candidato “vai bem” no debate, fica mais fácil estufar o peito e defendê-lo no trabalho, na escola, na mesa do restaurante, no almoço da família. Se “vai mal", o eleitor arrisca-se a ser “zoado” nos ambientes sociais que frequenta. Ninguém gosta de passar por situações assim.

Eleições costumam seguir uma lógica tribal. Escolhe-se quem melhor pode liderar a tribo na luta pela sobrevivência e para sobrepujar, dominar ou se possível exterminar as tribos rivais. Quem nunca viu um filme em que dois chefes inimigos lutam até a morte como alternativa racional a uma guerra em que muitos dos chefiados morreriam? #FicaaDica.

“Ir bem” num debate eleitoral é demonstrar qualidades de liderança. Coragem, mas racional. O líder não pode ser corajoso ao ponto de arriscar a sobrevivência do grupo. Autoestima, mas com forte componente de alteridade, a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Do povo. E, sempre, mostrando que o rival não tem essas qualidades.

Por que Lula preso e inelegível mantém-se nos cerca de 30%? Porque o eleitor do ex-presidente continua confiando nele para fazer o que esse eleitor acha que deve ser feito no Brasil: governar com forte preocupação social. Nenhuma acusação até agora contra Lula fez, nem ao menos, cosquinha nesse atributo.

Bolsonaro resiste nos seus cerca de 20% porque ninguém faz sombra a ele na disposição de combater politicamente a esquerda e a influência social e cultural do pensamento de esquerda. O PSDB até que tenta, mas seu pé no progressismo funciona como freio de mão puxado. Não tem a mesma autenticidade, o mesmo “punch”. Bate fofo, como se diz.

Para ir ao segundo turno, Ciro precisa ou 1) mostrar que é mais confiável aos pobres e ao Nordeste que o substituto de Lula (Haddad) ou 2) recolher o eleitor órfão de uma suposta social-democracia não petista, órfã do deslocamento do PSDB para a direita. Os dois caminhos são complicados, mas possíveis. Um problema de Ciro é depender muito do erro alheio.

Já Alckmin precisa 1) mostrar-se mais capaz que Bolsonaro de derrotar a esquerda. Ou então 2) acreditar que existe mesmo um eleitorado centrista. O primeiro caminho seria facilitado se o tucano exibisse mais músculos que o capitão nas simulações de segundo turno. O segundo complicou-se quando Lula indicou Haddad. Sem falar da concorrência de Marina.

A desconstrução de Lula ou do substituto só será possível se os adversários fragilizarem o núcleo da imagem do líder petista. E é duvidoso que os rivais de Bolsonaro enfraqueçam-no decisivamente adotando como tática eleitoral atacar o “despreparo” dele. O eleitorado do capitão não está atrás de “preparo”. Procura quem derrote, se possível elimine, a esquerda.

Alckmin tem instrumentos para vencer a “semifinal” na chave da direita. Tem partidos, dinheiro, tempo de televisão e a simpatia do establishment. Bolsonaro é a sensação desta Copa até agora, mas sensações também tropeçam na hora h. Só que o relógio está correndo. Já Ciro disputa em situação de grande desvantagem material.

Alckmin e Ciro precisam que alguma coisa mude. Já Bolsonaro e o PT jogam ajudados pela inércia, como parecem comprovar as pesquisas, inclusive as que apontam o potencial de transferência de votos de Lula para Haddad. Quem precisa que alguma coisa mude precisa usar os debates para tentar dinamitar na semifinal o pilar que sustenta a imagem do rival.

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Já há algum consenso de que a prisão, se impede Lula de falar às massas, protege-o de ataques, críticas, questionamentos e manifestações contrárias. Mas ainda não tinha ficado claro que a ausência forçada do PT nos debates acabaria tirando o PT do foco, no ringue televisivo entre os candidatos. Não só Lula está por enquanto algo protegido. O PT também.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Chegou a hora do pensamento mágico

É ilusão achar que as eleições trarão paz política
Desejos não produzem necessariamente realidades


Esta hora ia mesmo chegar. Em meio ao emaranhado da confusão política, começam a aparecer não só apelos à conciliação, mas até previsões de que 2019 tem mesmo chance de inaugurar um novo período de concórdia nacional, de união nacional, deixando para trás os tristes tempos de divisão e desentendimento. Atenção: não coloquei as aspas relativizantes, mas o leitor notará que estou apenas estruturando uma narrativa alheia.

E quanto mais aumenta a confusão, mais fértil fica o terreno para vicejar uma certa modalidade de pensamento mágico. Adotem-se ou preservem-se determinados ritos e isso fará alcançar a meta desejada. Proceda-se à eleição, e o rito mandará ao arquivo morto a divisão e a discórdia que infelicitam o corpo e a alma nacionais. Restará então retribuir a graça alcançada, ajudando-se o novo governo a cumprir sua missão de buscar o bem comum.

Simplesmente não vai acontecer. Também porque “bem comum”, como “reforma política", “reforma tributária” e outras generalidades e platitudes, quer dizer ao mesmo tempo tudo e nada. Para uns, o bem comum está expresso na projeção futura de um passado no qual o governo Lula trouxe prosperidade. Para outros, o bem comum será mais facilmente alcançável enquanto Lula estiver preso e inelegível, exatamente para evitar a volta a esse passado.

Mas a prisão e a inelegibilidade de Lula são apenas a ponta do iceberg da discórdia nacional, que divide o país em campos dificilmente conciliáveis, e hoje inconciliáveis. A raiz do problema é mais profunda. A base da estabilidade política na democracia é a percepção consensual, ou amplamente majoritária, de que as regras para chegar ao poder são razoáveis e equilibradas. E acessíveis a todos. Não necessariamente precisa ser verdade. Importante é a percepção.

Estamos muito longe disso, e acho que não é necessário elaborar. Estamos muito longe também de algum consenso sobre quem tem razão na economia. Provavelmente todos farão mais ou menos a mesma coisa se chegarem lá, mas quem perder cavará trincheiras contra o que será feito, mesmo que provavelmente fizesse o mesmo. Governos sempre têm força, mas desta vez, como em 2015, teremos também uma oposição muito forte.

Aqui e ali ouve-se o lamento neosebastianista a recordar nossa Alcácer-Quibir, a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral em 1984. Achava-se que tinha sido uma vitória, mas conforme o tempo passa aumentam as dúvidas a respeito. É prudente esperar antes de avaliar os acontecimentos históricos, mas aquela celebrada transição que nos prometeu liberdade, democracia e prosperidade justa vai tendo seus fundamentos corroídos a cada dia.

Tancredo talvez seja mesmo nosso Dom Sebastião. Foi-se cedo demais, apesar da muita idade, e é cultuado menos pelo que fez e mais pelo que provavelmente teria feito. Entrou de um jeito bonito na História e será sempre evocado quando uma alma piedosa precisar de um exemplo de líder capaz de conciliar e unir gente e grupos distantes. Mas como não chegou a governar, o passivo da Nova República, cujos escombros são a paisagem da hora, ficou para José Sarney.

#FicaaDica.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br #FicaaDica.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

E se na hora decisiva o PT acabar ajudado pela espuma em torno do “centro” e do “novo”?

Era previsível que o PT chegaria competitivo à eleição presidencial. Numa sucessão marcada pela incerteza, há hoje razoável convicção de que a dupla Fernando Haddad-Manuela D’Ávila tem potencial para passar à finalíssima. Assim como o PSDB de Geraldo Alckmin, a aliança PT-PCdoB depende só de si para estar na urna eletrônica em 28 de outubro.

Claro que isso será função da identificação do lulismo com a chapa nascida do impedimento eleitoral do ex-presidente. Segundo o Datafolha, em torno de 30% dizem que votam com certeza num candidato de Lula, e pouco mais de 15% dizem que talvez votariam. Mas quando Haddad é apontado como esse candidato o número total cai para 13% (XP/Ipespe).

Há pelo menos três leituras possíveis, não excludentes, para essa diferença: 1) Lula tem mais eleitores que o PT; 2) O eleitor que gosta de Lula não necessariamente gosta de Haddad; e 3) Haddad é um desconhecido. As três afirmações são evidentemente verdadeiras. A dúvida é saber qual explica melhor a defasagem entre os índices do “candidato de Lula” e de Haddad.

Lula tem sim mais eleitores que o PT, mas o partido voltou ao share de 20% do eleitorado. Ou seja, Haddad, o “candidato de Lula”, ainda tem mercado a abocanhar no universo petista. O que também relativiza a segunda explicação. A conclusão mais razoável: Haddad vai subir conforme for ficando mais conhecido como o nome do PT e de Lula para esta corrida.

Em tese, ele vai para pelo menos uns 20%, a preferência pelo PT e uns dois terços do voto de Lula. Se tiver menos, terá cometido erros; se passar disso, sua campanha de primeiro turno terá sido um sucesso. E se o não voto (branco/nulo/não foi votar) ficar na casa de 33%, Haddad bateria em 30% dos válidos, o que deve dar para estar entre os dois primeiros.

Mas para virar realidade essa teoria exige execução. O que não chega a ser um bicho de sete cabeças. Onde estão os riscos? Um é Ciro Gomes crescer e capturar parte do voto petista-lulista. Pode acontecer, mas o PT tem meios, inclusive tempo de TV e rádio, para blindar seu eleitorado. Se quiser encorpar, Ciro tem de sair do cercado da esquerda. E ele está tentando.

Outro risco é um recrudescimento da #LavaJato contra o petismo, ainda que a operação já tenha descarnado bem essa carcaça. Mas, a não ser que surja algo novo e espetacular contra Haddad, o efeito da #LavaJato sobre o PT já está precificado. A esta altura, potenciais fatos novos gerados no âmbito dela talvez assombrem mais outras candidaturas.

Até por esse detalhe, o entusiasmo pela #LavaJato não é mais o mesmo. Um sintoma é a aliança de Alckmin com o chamado centrão ter recebido apenas críticas protocolares, longe da onda de indignação que se produziria em outros tempos, e se fossem outros os personagens. Mas convém ficar de olho. Se o vento mudar de novo, Marina Silva e Álvaro Dias estão na pista.

O desafio do primeiro turno é equacionável pelo PT. Mais complicado seria um segundo, onde o antipetismo hoje sólido na sociedade teria terreno fértil. Não à toa Lula optou por Haddad e seu figurino algo centrista, ainda que pela esquerda. Se o espaço do “centro” continua aberto, por que Lula deveria abrir mão de repetir o que sempre deu certo para ele?

Não sei se vai acontecer, pois os adversários não estão dormindo, mas seria curioso se, depois de tanta espuma, as platitudes do “centro” e do “novo” acabassem abduzidas pelo petismo em aliança com o PCdoB. Aliás, no segundo quesito, Haddad é o único candidato competitivo com pinta de que vai sobreviver para a presidencial de 2022, com qualquer resultado agora.

Ou seja, Lula está jogando para já, sim. Se não der, já terá jogado também para o futuro. A prisão não parece ter, por enquanto, afetado negativamente sua perícia nesse xadrez.

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A diferença oceânica entre as audiências do debate da Band e do evento paralelo feito pelo PT na internet vai fazendo cair a ficha de quem acreditava que esta eleição seria decidida “nas redes sociais". E, como o noticiário já registra, o PT parece ter percebido que a campanha “alternativa” já deu o que tinha de dar. Hora de virar a chave.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

País escorrega para um neomonarquismo

Legislativo deixa de ter papel
STF virou corte de 11 monarcas

O Senado argentino recusou uma proposta de legalização do aborto que fora aprovada pela Câmara dos Deputados. É improvável que isso tenha encerrado o debate. Ele deverá prosseguir e espera-se que as diversas correntes políticas e religiosas continuem defendendo seus pontos de vista. Nada impede que o tema volte à pauta no Legislativo do país vizinho, instância onde esse tipo de discussão costuma correr.

Já aqui o debate acontece não entre deputados e senadores, mas no Supremo Tribunal Federal. As maiorias conservadoras são consistentes no Congresso e as correntes favoráveis vibram com a possibilidade de contornar essa dificuldade, apoiando a transferência da decisão para o tribunal constitucional. Pegam uma carona na onda de ativismo judicial que o país vem surfando há algum tempo.

O problema do esvaziamento da esfera política em benefício da burocrático-estatal não é só brasileiro. Nos Estados Unidos, a guerra mais cruenta entre democratas e republicanos, numa época de guerras políticas especialmente cruentas, é em torno da composição da Suprema Corte. Se a maioria será conservadora ou liberal (progressista). É uma pauta sem acordo político-parlamentar possível.

O enfraquecimento da chamada democracia é planetário, principalmente pela dificuldade de transformar maiorias sociais em eleitorais, e estas em maiorias político-governamentais. Mas aqui no Brasil a coisa já chegou a outro patamar. O Congresso já deixou de ser visto pela sociedade como o palco primeiro de negociação e solução dos dissensos políticos. E o Legislativo não resiste, vem na prática abrindo mão de seu papel, num mecanismo claro de autodefesa.

Um Congresso acossado por ameaças judiciais-policiais parece preferir a perda de poder, se isso ajudar a afrouxar a corda que enlaça seu pescoço. Some-se a isso o hábito institucionalizado de “perdi uma votação, não aceito e vou recorrer ao Supremo”. Estão criadas as condições para transformar o STF numa instituição que na prática acumula o Poder Legislativo. Com as consequências previsíveis, como, por exemplo, a divisão em bancadas.

A anomalia aqui descrita não é nova. Nem o diagnóstico. O importante é notar um detalhe: os que um dia criticam o excesso de ativismo judicial, quando a Justiça os desagrada, saúdam no dia seguinte esse mesmo ativismo, se calhar de ficarem felizes com a decisão ou mesmo a iniciativa dos tribunais. Esse parece ser o único pacto político em vigor. Estão todos de acordo em enfraquecer ainda mais a representação política eleita na urna.

A direita protesta quando o STF envereda por reescrever a Constituição no tema do aborto, mas curte quando o tribunal pratica um constitucionalismo criativo no tema dos direitos e garantias individuais. Já a esquerda exige fidelidade à letra da Carta no segundo caso, mas saúda que a Corte ensaie “atualizar” o texto no primeiro. O resultado é visível: vamos regredindo de um republicanismo meio mambembe para um neomonarquismo distribuído por onze monarcas.

A cada polêmica, as partes são chamadas a manifestar-se diante do soberano, que em seguida decidirá, não conforme o que foi escrito pelos representantes do povo, mas guiado por uma sabedoria supostamente superior, quem sabe derivada de algo similar ao direito divino dos reis de antigamente. Talvez não seja só coincidência um príncipe da família real deposta em 1889 ter sido cogitado como candidato a vice na corrida presidencial.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Depois de muita conversa, acabou o intervalo para platitudes. E uma janela para a internet.

A crônica política é recheada de expressões tão grandiloquentes quanto vazias. Uma delas é “o político que pensa em primeiro lugar no país". O sujeito que abdicaria voluntariamente de posições de poder em nome de uma causa maior: derrotar o campo adversário. Personagem dificílimo de achar na vida real. Esta eleição comprova mais uma vez.

O espectro do chamado centro para a direita poderia juntar-se em torno de Meirelles e seu currículo em economia, ou de Álvaro Dias e sua impermeabilidade a fatos da LavaJato. A união seria mais complicada em torno de Bolsonaro. No limite, poderiam apoiar Marina, a mais apresentável como “de centro". Mas Alckmin não abriu mão e agrupou as máquinas.

Outro que não abre mão é Lula. Nem Lula nem o PT veem motivo para ceder a liderança, mesmo que isso acomodasse melhor as forças supostamente unificáveis para enfrentar o rolo compressor que derrubou Dilma e sustenta Temer. “Se querem me aposentar que arrumem votos para isso”, parece ser o recado do ex-presidente preso em Curitiba.

Alckmin tem duas vantagens e uma desvantagem. Está bem com o establishment e exibe uma incomparável junção de máquinas. Mas não está de bem ainda com o eleitor. E estes dias Bolsonaro sobreviveu com folga a duas provas jornalísticas, superando em boa medida dúvidas sobre a capacidade de enfrentar situações assim. E parece de bem com seu eleitor.

Já Lula e o PT estão no osso, ou quase. Pela primeira vez desde 2002 vêm destituídos de máquinas relevantes. Mas parecem sintonizados com o eleitor de esquerda. Lula ocupa um latifúndio de 30% e o apoio ao partido está consistente em 20%. Nenhum outro nome ou legenda chega perto. E o petismo buscou fazer valer a força nesta reta final de montagem da chapa.

Outro fator explica a pouca permeabilidade dos partidos tradicionais para ceder espaço: num segundo turno contra Bolsonaro todos acreditam ter boa chance de ganhar. E não é uma aposta totalmente destituída de razoabilidade. O candidato do PSL mostra grande resiliência, mas ainda pouca capacidade de ampliar para fora de seu eleitorado tradicional.

Mas atenção ao “ainda”. As apostas a favor da fragilidade de Bolsonaro têm insistido em não se pagar. Uma das últimas balas na cartucheira é acreditar que ele não resistirá à disparidade de tempos de televisão. Será sufocado como Marina em 2014, esmagada que foi pelo ataque simultâneo do PT e do PSDB, que naturalmente preferiam um ao outro na decisão.

Se o absenteísmo (brancos, nulos e ausências) alcançar 33%, quem tiver 20% dos votos baterá em 30% dos válidos. E estará com um pé na final. Bolsonaro precisa pelo menos manter-se. O PT tem de transferir dois terços do voto de Lula. Alckmin precisa lipoaspirar Bolsonaro e/ou esvaziar Marina e Álvaro. Ciro, Marina e Álvaro precisam tirar coelho da cartola.

Mas quem consegue, em algum cenário, 10% ou pouco menos tem o direito de acreditar que chegará aos 20%. E com isso passar ao segundo turno. Ou seja, uma meia dúzia de candidatos veem-se atravessando a primeira barreira e chegando a 28 de outubro em boa situação de vitória. Difícil convencer alguém a desistir num cenário assim.

O grande político, que às vezes ganha o direito de ser chamado de “estadista", consegue colocar em primeiro lugar seus próprios interesses dando a impressão de estar apenas preocupado em defender os interesses dos outros. Só que agora está difícil. Vamos aguardar a campanha para ver quem consegue desgarrar do pelotão, para adiante.

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Terminadas as preliminares, vem aí uma certa travessia do deserto, o período entre o fechamento das chapas e o início dos programas e propagandas no rádio e na TV. Vai ser uma oportunidade de verificar o real poder da internet na comunicação dos candidatos. Será que vai haver alguma movimentação relevante nas pesquisas?

Eu apostaria que não.

domingo, 5 de agosto de 2018

Governo Geisel ajuda a entender problemas do próximo presidente

O 4º presidente militar do ciclo de 1964, general Ernesto Geisel, tinha um projeto: recuar a tropa aos quartéis e legar uma institucionalidade de ares democráticos e sustentável. A intenção era não deixar possibilidade real de a esquerda chegar ao poder.

Nesse cenário, as eleições de 1974 aconteceram num ambiente paradoxal: enquanto o regime matava os militantes da esquerda, armada ou política, a campanha eleitoral transcorria em razoável liberdade.

A história conta que o plano não deu tão certo assim. O regime duraria ainda uma década, mas aquelas eleições contrataram não apenas seu fim, inviabilizaram sua institucionalização.

A desaceleração depois do milagre econômico e o repique inflacionário, provocado também pelo primeiro choque do petróleo, contribuíram para o MDB conseguir ampla vitória na eleição do Senado e mais de um terço das cadeiras na Câmara. O partido era a única oposição legal.

O resultado bloqueou que o governo fizesse no Congresso reformas constitucionais sem apoio da oposição. Além disso, deixou claro que eleições razoavelmente livres eram um risco.

Na reação, a resposta do regime à derrota de 74 foram seguidos “casuísmos”, manobras para conter o voto oposicionista e seus efeitos práticos. A começar pela chamada “Lei Falcão”, que limitava a propaganda eleitoral a fotos e currículos de candidatos.

Depois veio o Pacote de Abril, um conjunto de medidas antidemocráticas, mas este artigo não pretende comparar aquele período e o atual. As diferenças são evidentes. O objetivo aqui é outro: entender a dificuldade de estabilizar pacificamente um cenário de contradição aberta, entre o que o governo faz, ou quer fazer, e o que o eleitorado quer que ele faça.

Num exercício teórico, teria sido mais fácil para o antecessor de Geisel, Emílio Garrastazu Médici, institucionalizar o regime. No governo dele o PIB cresceu ao que se chama hoje de “ritmo chinês”, mas o foco dos militares ainda era eliminar a resistência armada.

Quando finalmente veio a distensão, a economia tinha parado de “bombar” e o povão ficara mais vulnerável aos argumentos oposicionistas. A resposta surgiu na urna e depois na rua, com o resultado conhecido.

O mau desempenho econômico do governo Michel Temer é um pilar que sustenta a tese de Lula ser vítima de conspiração, de uma tramoia urdida para impedir que dispute e ganhe. A consequência é imediata: o próximo governo já nascerá maculado pelo deficit de legitimidade.

Se der a esquerda, será um desafio ao sistema de poder organizado em torno da Lava Jato e porta-vozes. Se não, a esquerda articulará a resistência aos que só ganharam porque Lula foi proibido.

Como desfazer o nó? Mesmo nos Estados Unidos, paradigma de democracia capitalista de sucesso, declina rapidamente a ideia de que, passada a eleição, cabe ao vencedor governar e ao perdedor trabalhar para a ganhar a seguinte, mas sem atrapalhar muito o país.

Quanto mais no Brasil, onde a fé democrática é bem mais rala e, em meio a um mar de escândalos, o único líder de expressão nacional impedido de concorrer é Lula.

Assim como a crise econômica dos anos 70 e 80 impediu na prática a institucionalização do então regime, ou o próximo governo encontra a chave para fazer a economia e o emprego crescerem ou entrará rapidamente em processo de degradação.

Com a desvantagem, na comparação com o período Geisel, de não ter os instrumentos autoritários e repressivos para pelo menos reduzir a velocidade do processo. E aí aparece uma dificuldade adicional.

Qualquer plano de retomada econômica precisará atacar os privilégios da burocracia estatal e as benesses ao empresariado. Mas como fazer isso se a aliança de um certo empresariado com certa burocracia tem sido a espinha dorsal do bloco de poder pós-2016? Se foi esse pessoal que deu a contribuição decisiva para tirar o PT do Planalto? A direita apoiaria a esquerda no ataque aos privilégios do Judiciário e do Ministério Público? E a esquerda ajudaria os algozes políticos a colocar o poder paralelo de volta na garrafa?

Difícil.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 30 de julho de 2018

A polarização que vai vingar. E duas perguntas simples, que seria bom ter nas pesquisas eleitorais

Desde sempre sabe-se que as eleições deste ano serão disputadas em ambiente de polarização. Até por isso ser algo tautológico. O normal é eleições acabarem polarizadas, mesmo em períodos de dita paz política, quanto mais agora. As exceções são raras. Vender o contrário costuma ser um dos muitos contos-do-vigário da política.

A dúvida nunca é se vai haver ou não polarização, mas que polarização haverá. É como no judô: quem consegue a melhor pegada no quimono adversário mais chance tem de impor o golpe decisivo. No léxico político-eleitoral, quem impõe a pauta tem meio caminho andado para finalmente aplicar o ippon no dia da urna.

A economia vem mandando nas eleições desde há muito. O PSDB ganhou duas disputas presidenciais impondo a economia como pauta central. Era o tempo em que os tucanos sacavam do Real para ter voto nos pobres. Depois o PT ganhou quatro eleições também assim: uma pela insatisfação com o PSDB, e três pela superioridade dos resultados econômicos petistas.

O establishment vinha tentando mudar a lógica desta vez. Houvesse um nome “novo” viável e compromissado com a agenda liberal, seria possível vender a centralidade de renovar a política como veículo da continuidade do programa do governo Michel Temer. Não faltaram tentativas. Mas ninguém com o figurino conseguiu até agora massa crítica.

Marina Silva e Álvaro Dias estão aí, mas a melhor probabilidade de ainda impor essa polarização continua sendo Jair Bolsonaro. Entretanto, ele estar excessivamente à direita faz o establishment desconfiar de sua competitividade. Daí a celebração em torno das amplas alianças costuradas com competência por Geraldo Alckmin.

O establishment acredita que as concessões à "velha política” talvez possam se pagar. E é sempre melhor poder apostar em dois cavalos, ou talvez três, do que depender de um só. Poderiam ser até quatro, se Ciro Gomes tivesse atraído um pedaço da direita. Mas ao fim e ao cabo a turma não quis trocar o certo pelo duvidoso. Um governo do PSDB dificilmente trará surpresas.

Não existe almoço grátis, e Alckmin carregará com ele as frustrações do governo Temer. No fritar dos ovos, ou ele ou Bolsonaro serão “o candidato do Temer” no segundo turno, com algum espaço ainda para Marina e Álvaro Dias. O “candidato do Temer” pode bem ser alguém que passe a campanha atacando o presidente, desde que incorpore a agenda temerista.

E ao “candidato do Temer” é provável que se oponha na decisão um “candidato do Lula”. Pode ser alguém do PT ou o próprio Ciro. Ou, numa hipótese mais remota, até Marina. O nome importa, mas não é tudo. Vale o caráter da polarização. E hoje ela tende a girar de novo em torno da economia e ser esquerda x direita, ainda que esta venha fantasiada de centro.

Por isso, o desafio do establishment continua mais ou menos do mesmo tamanho. Ir ao segundo turno é bom, mas o que interessa mesmo é ganhar. E como ganhar vendendo algo que indica continuidade econômica num ambiente de alta demanda por mudanças? E com um “candidato do Lula” comparando a economia atual com a do ex-presidente?

Alckmin imagina contar com o peso maciço das máquinas federal e da maioria dos governos estaduais. Isso tem se mostrado decisivo nas recentes eleições extras nos estados. Ele terá também ampla simpatia da elite. Quanto pesarão os dois vetores na disputa presidencial? Só haverá uma maneira de ir acompanhando isso ao longo da campanha: as pesquisas.

Um problema é que as pesquisas, ao menos as registradas na Justiça, têm perguntado de tudo, menos o essencial. Poucas têm medido a intenção de voto em um “candidato do Lula” no primeiro e no segundo turnos. E não têm confrontado os candidatos “do Lula” e “do Temer” no segundo turno. Numa eleição sem grandes líderes dotados de voto próprio, seria bom.

Vai ser difícil fugir dessa polarização.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A esquerda já teve faróis melhores

Netflix: ‘The Vietnam War’ é imperdível
É antídoto contra a burrice pandêmica


Vale muito ver a série de 10 episódios sobre a Guerra do Vietnã de autoria de Ken Burns, no Netflix. A obra dele sobre a participação americana na Segunda Guerra Mundial, também disponível no serviço de streaming, já era boa. Esta sobre o conflito no Sudeste Asiático é melhor. Uma aula detalhada de história dos Estados Unidos nos anos 1960 e 1970 do século 20.

A abordagem de Burns é pacifista, mas a série é honesta. Quem viveu aquela época vai concordar. Os diversos pontos de vista estão contemplados. O espectador consegue concluir baseado em fatos. Coisa difícil de achar hoje em dia. E uma conclusão é Richard Nixon ter sido um grande presidente, bem melhor que John Kennedy e Lyndon Johnson.

Pelo menos sob o parâmetro da política externa e do episódio mais importante do período: a guerra contra a guerrilha vietcongue do Vietnã do Sul e as forças regulares do Vietnã do Norte. O republicano Nixon deu um jeito de tirar o país de uma guerra “inganhável”, em que os americanos foram metidos pelos democratas Kennedy e Johnson.

Além disso, Nixon restabeleceu relações com a China, rompidas desde a chegada dos comunistas ao poder. E fechou o primeiro tratado de limitação de armas nucleares com a União Soviética. Sim, Nixon prosseguiu a política de desestabilizar e derrubar governos de esquerda mundo afora, mas nisso ele e os antecessores rezaram pela mesma cartilha.

A série de Burns faz relembrar um dos muitos detalhes macabros da Guerra do Vietnã, talvez o mais macabro deles. Num certo momento, a estratégia do comandante das tropas americanas, William Westmoreland, passou a ser matar guerrilheiros vietcongues em ritmo maior que a velocidade de recrutamento da guerrilha. O objetivo era produzir um impasse e forçar uma negociação de paz.

Lógico que a coisa colocada assim virou uma matança. Para “bater a meta”, chegou uma hora em que se começaram a matar civis em larga escala. A história é conhecida: isso ajudou a engrossar a repulsa dos americanos e do resto do mundo, e no final faltou apoio político para a estratégia militar ser concluída até o efetivo sucesso do plano.

Johnson, o genocida, jamais foi alvo de um processo de impeachment. Deixou o governo em 1968 e foi morrer alguns anos depois na paz do seu rancho texano. E faça-se justiça: Johnson não foi só um genocida. Foi também o presidente que institucionalizou a conquista dos direitos civis pelos negros, apesar e contra a forte resistência no interior de seu próprio partido.

O presidente mais lembrado por iniciativas legais contra a escravidão dos afro-americanos é o republicano Abraham Lincoln. E o mais vistoso símbolo da resistência final dos brancos do Sul à igualdade dos negros foi o democrata George Wallace. A história e a política costumam ser complexas e contraditórias, verdade difícil de aceitar na nossa era de burrice pandêmica da “militância das redes sociais”.

Johnson nunca foi ameaçado de impeachment apesar de genocida, e de isso ser sabido em tempo real. Nixon renunciou pois seria deposto por tentar encobrir a espionagem de adversários por apaniguados dele. Watergate fez a fama do Washington Post e da dupla de jornalistas que tocou o assunto no jornal. Os Papéis do Pentágono não tiveram maior efeito jurídico-criminal.

Os episódios da série de Burns sobre a Guerra do Vietnã são longos, quase duas horas cada, às vezes arrastados. Mas valem cada segundo. Especialmente em tempos nos quais a esquerda mundo afora parece capturada pela agenda do Partido Democrata americano e faz eco ingênuo ao belicismo antirrusso. E faz pouco caso da possibilidade de uma paz honrosa na Coreia.

A esquerda já teve faróis melhores.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 16 de julho de 2018

E se o preço da estabilidade for o imobilismo, o país preferirá a instabilidade? Façam as apostas

A política e as tribos dela dependentes ocupam-se de tentar adivinhar o nome do próximo presidente. O resto do país, alguma hora, vai querer saber o que ele fará. Aliás, o assim chamado mercado já anda entretido com isso. E um valor em alta nos pedidos para o final do ano é a estabilidade. Sem ela não iríamos a lugar nenhum, continuaríamos no pântano.

Às vezes a opinião pública gira em falso, em torno de certezas surgidas não se sabe bem de onde. Uma é que a estabilidade seria indispensável e também suficiente. A simples observação dos fatos derruba o postulado. O governo Michel Temer tem sido o mais estável desde a redemocratização. Resistiu a duas votações na Câmara para derrubá-lo. E daí? E daí nada.

Um governo pode ser ao mesmo tempo muito estável e viver imobilizado, que é o caso. Então, como fazer para o próximo presidente conseguir combinar estabilidade na função e iniciativa política e econômica para enfrentar os desafios do cargo? Começando pela retomada da economia e dos empregos, especialmente para a população mais jovem.

Há aqui problemas antigos e novos. O antigo é um sistema partidário-eleitoral organizado para negar ao chefe do Executivo a maioria automática no Congresso. Melhor dizendo, para negar ao eleitor, na prática, a possibilidade de construir democraticamente na urna maioria congressual para o presidente eleito executar seu programa.

Há todo um portfólio de modelos para resolver isso, mas não há interesse em implementar. A resistência conhecida vem de um sistema partidário feudalizado. Mas essa é a face visível. A invisível é outra: impor compulsoriamente ao presidente estar em minoria no Legislativo tem sido útil para frear a influência “cesarista" do voto majoritário sobre o poder.

Um jeito de dar ao Planalto melhores instrumentos para formar maioria na Câmara seria determinar a verticalização das coligações (o voto vinculado) e distribuir as vagas de deputado de acordo com a votação recebida não pelos deputados, mas pelo presidente. E a base que eventualmente ainda faltasse ao final do primeiro turno seria reunida para o segundo.

Não vai acontecer. E aqui compreende-se melhor por que fracassaram as tentativas de implantar o parlamentarismo entre nós. Onde ele faz sucesso é porque, na real, a eleição do primeiro-ministro acaba sendo “direta". O eleitor vota no partido ou no candidato a deputado já sabendo em quem está votando para governar o país. E consegue.

Mas, além dos problemas antigos há agora os novos. Não bastará ao próximo presidente formar maioria num Congresso balcanizado, precisará recolocar para dentro da jaula a profusão de pólos carnívoros de poder liberados desde 2014 para caçar os políticos. Isso resultou, como era inevitável, num sistema multipolar em que uns neutralizam os outros, e a resultante é zero.

O ambiente político no Brasil está cada vez mais parecido com a Rússia dos Romanov, menos por um detalhe: falta o czar. A profusão de mecanismos de controle e regulação, a produção compulsiva de regulamentos, o empoderamento dos burocratas, o ambiente opressivo, o poder da polícia. Está tudo aí. Só falta alguém capaz de fazer o emaranhado dar em algo útil.

O próximo presidente chegará em 2019 com minoria no Congresso e já tolhido pela impermeabilidade de um Estado que passou a prestar contas só a si mesmo e ao pedaço da elite econômica com acesso ao que se convencionou chamar de opinião pública. E se quiser fazer coisas que esta segunda pede, como reformar a previdência, terá de enfrentar a primeira.

Dos quatro eleitos para a Presidência desde 1989, dois foram derrubados. É humano que o quinto queira fugir disso. Um jeito é compor-se com o poder real e profundo, descrito nos parágrafos anteriores. Isso traria estabilidade. E também imobilismo. Pois as forças que podem prover estabilidade são as mais beneficiadas por nada mudar.

Seria uma fórmula vencedora, não fosse pelo detalhe de que uma hora o circo sozinho não resolve, é preciso distribuir algum pão. O que pode eventualmente levar a sociedade a pedir não estabilidade, mas instabilidade. O momento está próximo? Não parece ainda. Mas é sempre bom ficar de olho em quando e como essa demanda vai surgir.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A conciliação não tem mandato popular

Cada lado acha que pode eliminar o outro
Como ninguém tem força suficiente, há impasse


Uma originalidade desta eleição: ao contrário das anteriores desde o fim dos governos comandados por militares, nenhum campo político definiu ainda seu pole-position. Na esquerda, correm um ainda não designado “candidato do Lula” e Ciro Gomes. Na direita, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. Com um pé em cada barco, Marina equilibra-se ali pelo meio e consegue, até o momento, segurar os votos dela.

Fatos são fatos, e não adianta reclamar. A direita adoraria estar agora unificada em torno de um único concorrente, que já pareasse com o ex-presidente petista em intenção de voto e exercesse forte magnetismo sobre os satélites tradicionais.

A regra, desde pelo menos 2006, era um tucano mostrar-se bem mais competitivo a esta altura. E o PT preferiria estar, como no último quarto de século, no controle absoluto do voto das diversas tonalidades da esquerda.

Mas tudo na vida tem dois lados. A bagunça atrapalha cada um, mas também ajuda. A falta de definição num campo acaba retardando a arrumação no outro, deixando aberta a porta para variadas possibilidades.

Enquanto isso segue o baile, que leva jeito de querer se estender até bem perto do primeiro turno. É razoável projetar, no limite, uma indefinição até as últimas horas sobre quem passa à final. Serão fortes as emoções.

Veja-se o papel de Ciro. Ele produz incerteza sobre a presença de um “candidato do Lula” no segundo turno. Mas ao mesmo tempo impede, por enquanto, que Alckmin ganhe massa crítica, quando o agora pedetista trabalha alianças que a esta altura já deveriam estar na bagagem do PSDB. E não é absurdo imaginar que Bolsonaro também acompanhe esses movimentos com alguma satisfação. Enquanto o dito centro está dividido, ele ganha tempo e espaço para virar opção palatável.

O bolsonarismo resiliente é um problema para o PSDB, mas aqui também tem outro lado. Uma direita nítida e de raiz permite ao conservadorismo brasileiro fantasiar-se de “centro” e vender-se como alternativa moderada num ambiente de alta radicalização. O problema habitual nestes casos? Criar jacaré (Bolsonaro) na piscina de casa é arriscado, principalmente se ele cresce e passa a querer devorar quem o criou. Mas viver é correr riscos.

Claro que uma hora a coisa vai ter de se arrumar, e aí assistiremos às batalhas internas decisivas dentro de cada campo, pela vaga na decisão. Que serão provavelmente sangrentas, com a esquerda em posição algo mais confortável que a direita no caso de dar zebra. É menos problemático ao PT apoiar Ciro do que ao PSDB e demais “de centro” subirem no palanque de Bolsonaro. Mas se for preciso farão, e não seria prudente duvidar.

Especular sobre o desfecho é, por enquanto, apenas isto: especulação. Uma dúvida é sobre se no final vai prevalecer a polarização dura ou algum tipo de conciliação. A favor da segunda, o cansaço progressivo com a crise. A favor da primeira, a falta absoluta de um mandato popular para a segunda.

Cada pedaço do país está convencido de que a saída é eliminar o adversário, e esse espírito percorre a sociedade na vertical e na horizontal.

Uma razão do atual impasse é ninguém ter reunido força suficiente para realizar o desejo de eliminar o inimigo. A rigor, o país está paralisado há anos num empate catastrófico.

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Publicado originalmente em www.poder360.com.br

segunda-feira, 9 de julho de 2018

As circunstâncias da guerrilha e da contra-guerrilha no domingo de escaramuças em torno de Lula

A guerra em torno da liberdade ou não de Lula é assimétrica. Os inimigos dele têm larga vantagem em forças convencionais. Têm hegemonia no Judiciário e na imprensa, e por enquanto maioria nas pesquisas feitas no conjunto da sociedade. É uma correlação de forças que lhes tem permitido manter preso e inelegível o ex-presidente.

É natural portanto que as forças lulistas acabem levadas a táticas de guerrilha, como a que buscou neste domingo libertar o ainda pré-candidato do PT à Presidência. E os efeitos da escaramuça precisam ser vistos à luz de dois critérios: 1) o resultado militar propriamente dito e 2) a resultante propagandística e militar no cenário geral da guerra.

A #LavaJato travou a batalha militar tática para impedir que Lula fosse solto, mesmo que por uns instantes. Mostrou força, o que é sempre importante. E o lulismo conquistou uma primeira vitória propagandística, ao impor ao adversário que este usasse abertamente de métodos pírricos, do tipo que fazem o vencedor sair do conflito mais fraco do que entrou.

Os adversários de Lula acreditam ser mais fácil vencer a eleição com o ex-presidente preso e inelegível. Farão de tudo para manter isso. O problema? O PT gostaria de muito de Lula poder concorrer, mas tem outras opções. Que dependem em última instância de o partido conseguir sustentar uma narrativa favorável, e que alavanque outro eventual nome em outubro.

A primeira vitória de uma guerrilha é sobreviver. No caso, o PT precisa apenas impedir que a situação política do país se estabilize com o poder em mãos adversárias. Por enquanto vem conseguindo. O governo Temer ensaiou consolidar-se e projetar uma expectativa de poder futuro, mas atrapalhou-se no plano policial e os efeitos foram imediatos sobre a economia.

A política é maratona, não corrida de cem metros. Olhe-se o caso mexicano. Uma hora a esquerda iria ganhar, desde que conseguisse impedir a estabilização da hegemonia adversária. E a direita esticou tanto a corda que quando a esquerda finalmente ganhou foi um tsunami, que lhe deu com a Presidência ampla maioria no Legislativo para governar.

Quanto mais o PT conseguir evidências de que a prisão e a inelegibilidade de Lula são produto de uma, como alega, farsa judicial, mais difícil será aos adversários consolidar uma alternativa eleitoral capaz de projetar algum tipo de pacificação política do país. Sem o que é inimaginável a tramitação de reformas impopulares, como as que o campo liberal acredita essenciais.

Uma guerrilha pode chegar ao poder, total ou compartilhado, pela via militar, como em Cuba, ou por um caminho político, como na África do Sul e, de algum modo, na Colômbia. Nesse segundo caso, basta-lhe inviabilizar as saídas que a excluam. E um componente desse “inviabilizar” é obrigar o adversário a usar métodos que drenem a legitimidade da contra-guerrilha.

Uma parte da sociedade acredita que qualquer coisa vale para manter Lula preso e inelegível. É minoria. Outra parte, também minoritária, pensa que Lula é puramente um perseguido político. Os primeiros tomaram a iniciativa quando o governo Dilma se mostrou incapaz de controlar minimamente a política e acender a luz no fim do túnel da economia.

Os segundos vão retomando alguma iniciativa diante da fraqueza progressiva do bloco político que entronizou e mantém Temer. Basta olhar as pesquisas. E quanto mais durar a barafunda política, mais inviável será acelerar a retomada econômica, sem o que qualquer hegemonia do dito centro para a direita será difícil de estabilizar.

Até porque a solução clássica de simplesmente eliminar a guerrilha no plano físico não está à mão. A correlação de forças não permite. Daí que aqui e ali se comece a tatear por um “centro” que busque algum modo de “união nacional”. Mas as experiências anteriores desautorizam otimismo sobre conciliações que partam da exclusão de alguém ainda relevante.

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Não existe almoço grátis, nem para o Judiciário. Manter perenemente o poder absoluto é uma arte, que bem poucos dominaram ao longo da história da humanidade. Regra geral: ser capaz de autocontenção é bem mais útil para preservar a saúde no longo prazo. Mas nem sempre é fácil resistir aos holofotes. O problema é que uma hora a conta do almoço chega.