domingo, 24 de maio de 2026

O áudio, as pesquisas e a abstenção

Até a véspera da eleição as pesquisas apresentam seus resultados em porcentagens sobre o total do eleitorado. Um ou dois dias antes do pleito passam a apresentar as projeções de votos válidos, descartando os brancos, nulos e indecisos. Isso foi introduzido de alguns anos para cá, com o objetivo de atenuar os questionamentos sobre as pesquisas, pois os resultados oficiais sempre aparecem em votos válidos.

Em 1998, Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.

Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.

Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.

Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.

A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deve introduzir alguma prudência nas conclusões.

A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.

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