A eleição de outubro deverá dar o veredito sobre a opção feita pelo presidente da República após o 8 de janeiro de 2023. O custo das escolhas políticas nunca é zero, e as consequências podem demorar bastante. A única certeza é que um dia elas chegam.
Sem recorrer à conciliação de JK, cuja posse foi assegurada pelo então general Lott depois da contestação da UDN, em 1955, e que anistiou os revoltosos de Jacareacanga no ano seguinte, e sem poder repetir o caminho de Vargas, que após o levante de 1935 endureceu o regime e dois anos depois instaurou o Estado Novo, Lula apostou no presidencialismo de coalizão com um Judiciário fortalecido, que se enxergou como depositário de um poder quase absoluto.
Restava compor com as cúpulas do Congresso conservador, sempre arisco, uma costura somente concluída agora, na véspera da eleição. Esse desenho, somado à antipatia generalizada que a imprensa profissional dedica aos principais adversários do petista, produzia um arcabouço bastante razoável para a tentativa de reeleição. Lula mantinha coesa sua base fiel de sustentação social e preservava no essencial a frente ampla superestrutural que lhe deu a vitória apertada em 2022.
O que poderia dar errado? Aqui é inevitável lembrar a célebre frase “a vida sempre encontra um meio” (ou “um caminho”), dita pelo matemático Ian Malcolm, interpretado por Jeff Goldblum, no filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Steven Spielberg, 1993). Na obra, os dinossauros eram criados apenas como fêmeas, para evitar que se reproduzissem por conta própria. Mas a vida encontrou um jeito de implodir a limitação, com todas as trágicas decorrências.
Se quisermos ir mais longe, basta recordar, da mitologia grega, as histórias de Sísifo e Prometeu. Desafiar os deuses é sempre arriscado. E os problemas dos políticos (lato sensu) agravam-se quando eles mesmos passam a se considerar deuses e arriscam atrair a ira do Zeus da política, o eleitor, que alguma hora é chamado a dar seu juízo, mesmo quando o resto do Olimpo se julga imunizado.
Estamos nesse ponto. Ao longo de quase quatro anos, as duras consequências enfrentadas pelos acusados e depois condenados do 8/1, somadas ao opróbrio político e social lançado sobre a direita em geral pelos mecanismos reprodutores da opinião pública, contiveram os desdobramentos costumeiros de tensões produzidas em cenários assim, nas instituições e, principalmente, nas ruas.
Mas parece que o dique se rompeu. E, dado o equilíbrio na correlação de forças produzido pelas revelações recentes, parece que quem terá de cortar esse nó górdio, para um lado ou para o outro, será ele mesmo: o eleitor.
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Renovação cada vez menor
As taxas de renovação, baixas e cada vez mais baixas, no Congresso Nacional, especialmente na Câmara dos Deputados, são uma característica do sistema eleitoral brasileiro. Mesmo no auge das ondas antipolíticas, esses números nunca oscilaram muito. E mesmo os critérios de “renovação” precisam ser olhados com cuidado. Nesse vagão cabem ex-parlamentares federais, ex-prefeitos, ex-deputados estaduais, ex-vereadores…
Há quatro categorias básicas de parlamentares, de acordo com o apoio do eleitorado: os do “voto de opinião”, cada vez mais escassos; os “trens pagadores”, de vida difícil depois do fim do financiamento empresarial de campanhas; os queridinhos da cúpula partidária, mais beneficiados pelo fundo eleitoral; e os “distritalizados”, que alavancam votações expressivas em bases municipais irrigadas com a verba das emendas ao Orçamento.
O último grupo cresce e tem grande vantagem sobre os demais. Há duas décadas, cada parlamentar contava com um mínimo de R$ 1 milhão anual em emendas, não impositivas, e a luta para acrescentar recursos a esse mínimo era permanente. Duas décadas depois, com o orçamento impositivo e a fragilização do poder presidencial, o montante cresceu cerca de quarenta vezes. Um parlamentar pode passar os quatro anos atacando o governo e, mesmo assim, terá essa verba repassada a seus aliados municipais.
Claro que se trata de uma simplificação — o jogo da política é complexo —, mas a distritalização acelerada do voto para a Câmara dos Deputados, baseada principalmente no poder dos parlamentares de distribuir recursos, é o principal fator que dificulta a renovação política. Uma brecha na represa são os entrantes que convencem a cúpula partidária de que podem servir de puxadores de votos no nosso sistema proporcional aberto, mas mesmo isso não é simples.
Pois a manutenção e a reprodução do poder das cúpulas dos partidos dependem, em boa medida, do apoio das estruturas políticas pré-existentes, especialmente das bancadas federais, que acabam vinculando as bases partidárias municipais pela força das emendas.
A distritalização também acaba sendo reforçada por situações não previstas. Em São Paulo, diversas circunstâncias acabaram por retirar da disputa os campeões de votos da direita nas duas últimas eleições para deputado federal, sem que o espaço fosse preenchido por novas estrelas capazes de eleger a si mesmas e mais uma fileira de indiretamente beneficiados. Para onde se deslocará esse “voto órfão” é uma incógnita.
Há quatro categorias básicas de parlamentares, de acordo com o apoio do eleitorado: os do “voto de opinião”, cada vez mais escassos; os “trens pagadores”, de vida difícil depois do fim do financiamento empresarial de campanhas; os queridinhos da cúpula partidária, mais beneficiados pelo fundo eleitoral; e os “distritalizados”, que alavancam votações expressivas em bases municipais irrigadas com a verba das emendas ao Orçamento.
O último grupo cresce e tem grande vantagem sobre os demais. Há duas décadas, cada parlamentar contava com um mínimo de R$ 1 milhão anual em emendas, não impositivas, e a luta para acrescentar recursos a esse mínimo era permanente. Duas décadas depois, com o orçamento impositivo e a fragilização do poder presidencial, o montante cresceu cerca de quarenta vezes. Um parlamentar pode passar os quatro anos atacando o governo e, mesmo assim, terá essa verba repassada a seus aliados municipais.
Claro que se trata de uma simplificação — o jogo da política é complexo —, mas a distritalização acelerada do voto para a Câmara dos Deputados, baseada principalmente no poder dos parlamentares de distribuir recursos, é o principal fator que dificulta a renovação política. Uma brecha na represa são os entrantes que convencem a cúpula partidária de que podem servir de puxadores de votos no nosso sistema proporcional aberto, mas mesmo isso não é simples.
Pois a manutenção e a reprodução do poder das cúpulas dos partidos dependem, em boa medida, do apoio das estruturas políticas pré-existentes, especialmente das bancadas federais, que acabam vinculando as bases partidárias municipais pela força das emendas.
A distritalização também acaba sendo reforçada por situações não previstas. Em São Paulo, diversas circunstâncias acabaram por retirar da disputa os campeões de votos da direita nas duas últimas eleições para deputado federal, sem que o espaço fosse preenchido por novas estrelas capazes de eleger a si mesmas e mais uma fileira de indiretamente beneficiados. Para onde se deslocará esse “voto órfão” é uma incógnita.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Cury entra no jogo
O crescimento de Augusto Cury na Nexus/BTG desta segunda deu-se num espaço potencial apontado nesta análise há pouco mais de um mês: um certo mercado para candidatos que, em vez de atacar os dois polos, se apresentassem como elemento agregador. Está em As agruras do terceirismo. Há também o eleitor que vota em Flávio Bolsonaro porque não quer Luiz Inácio Lula da Silva, e o que escolhe Lula porque não quer Flávio.
As eleições presidenciais sempre reservam espaço para a tal terceira via, e desta vez Cury atropela na largada dos debates, das entrevistas e do programa eleitoral. Mas será necessário observar se ele consegue consolidar a cabeça de praia e, mais importante, "amaciar" o eleitor hoje cristalizado nos dois campos hegemônicos. Das vezes anteriores não aconteceu. E não cabe comparar com eleições (1989 e 2018) em que as estruturas tinham se liquefeito.
O que pode dar gás a Cury? Eventuais pesquisas que o apontem como mais competitivo num segundo turno contra Lula, na comparação com Flávio, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Expectativa de vitória. Expectativa de poder. Vamos aguardar os números.
Uma consequência imediata é a redução dramática da possibilidade de a corrida terminar no primeiro turno. A Nexus/BTG aponta 53% para os demais candidatos, contra 39% de Lula. E outro dado relevante são os cinco pontos de vantagem da desaprovação do governo sobre a aprovação. Isso precisará ser observado com carinho, pois é habitual governos melhorarem a aprovação em períodos eleitorais, quando podem divulgar com mais amplitude suas realizações.
Cury captura a maior parte da sua subida entre os inclinados a Flávio e eleitores que desaprovam o governo. O que é consistente com a manutenção do empate técnico entre Flávio e Lula nas projeções de segundo turno, pois esse eleitor faz o caminho de volta quando é colocado diante das opções de continuidade e mudança.
E algo que permanecerá inalterado até o final, especialmente se houver mesmo segundo turno, é que, ao fim e ao cabo, o eleitor decidirá entre dar ou não mais quatro anos a Lula e ao PT.
As eleições presidenciais sempre reservam espaço para a tal terceira via, e desta vez Cury atropela na largada dos debates, das entrevistas e do programa eleitoral. Mas será necessário observar se ele consegue consolidar a cabeça de praia e, mais importante, "amaciar" o eleitor hoje cristalizado nos dois campos hegemônicos. Das vezes anteriores não aconteceu. E não cabe comparar com eleições (1989 e 2018) em que as estruturas tinham se liquefeito.
O que pode dar gás a Cury? Eventuais pesquisas que o apontem como mais competitivo num segundo turno contra Lula, na comparação com Flávio, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Expectativa de vitória. Expectativa de poder. Vamos aguardar os números.
Uma consequência imediata é a redução dramática da possibilidade de a corrida terminar no primeiro turno. A Nexus/BTG aponta 53% para os demais candidatos, contra 39% de Lula. E outro dado relevante são os cinco pontos de vantagem da desaprovação do governo sobre a aprovação. Isso precisará ser observado com carinho, pois é habitual governos melhorarem a aprovação em períodos eleitorais, quando podem divulgar com mais amplitude suas realizações.
Cury captura a maior parte da sua subida entre os inclinados a Flávio e eleitores que desaprovam o governo. O que é consistente com a manutenção do empate técnico entre Flávio e Lula nas projeções de segundo turno, pois esse eleitor faz o caminho de volta quando é colocado diante das opções de continuidade e mudança.
E algo que permanecerá inalterado até o final, especialmente se houver mesmo segundo turno, é que, ao fim e ao cabo, o eleitor decidirá entre dar ou não mais quatro anos a Lula e ao PT.
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
A tentação da troca de guarda
A eleição presidencial de 2022 foi decidida em São Paulo. Quem diz é a aritmética. Quatro anos antes, a diferença no estado entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad tinha sido de 8,1 milhões de votos. Em 2022, Bolsonaro liderou sobre Lula entre os paulistas, mas a diferença caiu para 2,7 milhões. Sabendo que Lula ganhou de Bolsonaro nacionalmente por apertado 1,9 milhão, basta fazer as contas.
A mesma análise sobre os demais estados mostra que, em números absolutos, a oscilação de ambos os campos entre as duas eleições teve peso apenas relativo no resultado nacional. O que decidiu foi a forte recuperação do petismo em São Paulo. O andamento desta eleição está bem parecido com o desfecho da anterior, então é razoável colocar o foco em São Paulo para as previsões terem maior probabilidade de acerto.
Uma característica da eleição paulista em 2022 foi o eleitor votar em bloco para governador e presidente. Bolsonaro ficou à frente de Lula por 55,2% a 44,8% e Tarcísio de Freitas venceu Haddad por 55,3% a 44,7%. O alinhamento repetiu-se na capital, onde ganharam Lula e Haddad, e, claro, no interior, onde prevaleceram Bolsonaro e Tarcísio, o que levou ao resultado final de vitória da direita no estado nas duas corridas.
No momento, Tarcísio lidera as projeções de segundo turno com cerca de 60% a 40% sobre Haddad, mas Flávio Bolsonaro só tem cinco pontos percentuais de vantagem sobre Lula em São Paulo. Um complicador para Haddad e Lula é o candidato de ambos a prefeito da capital, Guilherme Boulos, ter sido derrotado pelos mesmos 60% a 40% dois anos atrás pelo incumbente Ricardo Nunes, que tinha o apoio de Tarcísio e Bolsonaro. Isso apesar de, como vimos, a esquerda ter vencido na cidade dois anos antes.
Faz sentido Lula ter lançado Haddad para governador, mesmo com pouca perspectiva de vitória (ainda que, como diz o ditado mineiro, eleição e mineração só depois da apuração), pois perder de pouco em São Paulo é essencial para o petista na corrida contra Flávio Bolsonaro. E um risco real para o presidente é o eleitor de Tarcísio em algum momento concluir que a troca de guarda em Brasília seria boa para São Paulo.
Apesar da evidente, no momento, resistência de parte desse eleitorado a um bolsonarismo mais raiz. Resistência que até agora não cola no governador, cuja campanha está ancorada em entregas, resultados. Uma estratégia que dá sinal de alavancar não apenas Tarcísio, mas também outros incumbentes que pareciam vulneráveis a desafiantes.
A mesma análise sobre os demais estados mostra que, em números absolutos, a oscilação de ambos os campos entre as duas eleições teve peso apenas relativo no resultado nacional. O que decidiu foi a forte recuperação do petismo em São Paulo. O andamento desta eleição está bem parecido com o desfecho da anterior, então é razoável colocar o foco em São Paulo para as previsões terem maior probabilidade de acerto.
Uma característica da eleição paulista em 2022 foi o eleitor votar em bloco para governador e presidente. Bolsonaro ficou à frente de Lula por 55,2% a 44,8% e Tarcísio de Freitas venceu Haddad por 55,3% a 44,7%. O alinhamento repetiu-se na capital, onde ganharam Lula e Haddad, e, claro, no interior, onde prevaleceram Bolsonaro e Tarcísio, o que levou ao resultado final de vitória da direita no estado nas duas corridas.
No momento, Tarcísio lidera as projeções de segundo turno com cerca de 60% a 40% sobre Haddad, mas Flávio Bolsonaro só tem cinco pontos percentuais de vantagem sobre Lula em São Paulo. Um complicador para Haddad e Lula é o candidato de ambos a prefeito da capital, Guilherme Boulos, ter sido derrotado pelos mesmos 60% a 40% dois anos atrás pelo incumbente Ricardo Nunes, que tinha o apoio de Tarcísio e Bolsonaro. Isso apesar de, como vimos, a esquerda ter vencido na cidade dois anos antes.
Faz sentido Lula ter lançado Haddad para governador, mesmo com pouca perspectiva de vitória (ainda que, como diz o ditado mineiro, eleição e mineração só depois da apuração), pois perder de pouco em São Paulo é essencial para o petista na corrida contra Flávio Bolsonaro. E um risco real para o presidente é o eleitor de Tarcísio em algum momento concluir que a troca de guarda em Brasília seria boa para São Paulo.
Apesar da evidente, no momento, resistência de parte desse eleitorado a um bolsonarismo mais raiz. Resistência que até agora não cola no governador, cuja campanha está ancorada em entregas, resultados. Uma estratégia que dá sinal de alavancar não apenas Tarcísio, mas também outros incumbentes que pareciam vulneráveis a desafiantes.
sábado, 15 de agosto de 2026
A raiz da polarização
A campanha oficial começa como terminou a anterior: lulismo e bolsonarismo empatados (na margem de erro). Nem Luiz Inácio Lula da Silva e o PT aproveitaram o mandato para ampliar o apoio, nem os Bolsonaros sofreram corrosão relevante pelo conjunto de atribulações, ancoradas nas consequências do 8 de Janeiro e na condução pouco inteligente da transição de 2022. De mudança mesmo, só a evolução aparentemente imparável do declinio institucional.
Os números são conclusivos. A soma do bolsonarismo “duro” com o menos convicto alcança uns 35% do eleitorado. O mesmo cálculo para o lulismo chega a uns 30%. A rejeição incondicional a ambos oscila em torno de 10%, bom termômetro das dificuldades enfrentadas pelos desafiantes da dupla. Os fatos costumam ser teimosos: por enquanto, essa polarização só é repudiada mesmo em círculos minoritários e bem delimitados.
E por que a polarização resiste? A divisão das sociedades em campos políticos é habitual, e as raízes devem ser buscadas nas escolhas disponíveis de líderes políticos capazes de enfrentar os desafios enxergados pelo público. E a separação de campos no Brasil não tem muito segredo.
De um lado, as pessoas convencidas de que é papel fundamental do Estado aumentar impostos sobre os ricos (conceito elástico) para prover o conjunto da sociedade de oportunidades e serviços capazes de garantir o bem-estar social. Do outro lado, quem vê o Estado brasileiro como uma máquina cínica, corrompida e corruptora, vocacionada unicamente para garantir privilégios a uma elite insensível às agruras do cidadão comum.
Não é preciso muita sofisticação para concluir que a primeira turma se inclina para Lula e a segunda para os Bolsonaros, agora Flávio. Sintetizando, o Brasil se divide entre quem acha que “o governo tem de resolver o meu problema” e quem prefere que, “se o governo não me ajuda, podia pelo menos não me atrapalhar”. Está aí a raiz de uma polarização que resiste às seguidas lamúrias com a frustração das propostas alternativas para “unir o Brasil”.
De uns anos para cá, o segundo campo vem ganhando terreno, por razões objetivas. Os fatos, sempre eles, e a vida material são o combustível. Daí as dificuldades de correntes políticas cada vez menos capazes de conseguir consensos, e por isso crescentemente instadas a recorrer à coerção estatal. Só que coerção estatal não é garantia de voto.
Os números são conclusivos. A soma do bolsonarismo “duro” com o menos convicto alcança uns 35% do eleitorado. O mesmo cálculo para o lulismo chega a uns 30%. A rejeição incondicional a ambos oscila em torno de 10%, bom termômetro das dificuldades enfrentadas pelos desafiantes da dupla. Os fatos costumam ser teimosos: por enquanto, essa polarização só é repudiada mesmo em círculos minoritários e bem delimitados.
E por que a polarização resiste? A divisão das sociedades em campos políticos é habitual, e as raízes devem ser buscadas nas escolhas disponíveis de líderes políticos capazes de enfrentar os desafios enxergados pelo público. E a separação de campos no Brasil não tem muito segredo.
De um lado, as pessoas convencidas de que é papel fundamental do Estado aumentar impostos sobre os ricos (conceito elástico) para prover o conjunto da sociedade de oportunidades e serviços capazes de garantir o bem-estar social. Do outro lado, quem vê o Estado brasileiro como uma máquina cínica, corrompida e corruptora, vocacionada unicamente para garantir privilégios a uma elite insensível às agruras do cidadão comum.
Não é preciso muita sofisticação para concluir que a primeira turma se inclina para Lula e a segunda para os Bolsonaros, agora Flávio. Sintetizando, o Brasil se divide entre quem acha que “o governo tem de resolver o meu problema” e quem prefere que, “se o governo não me ajuda, podia pelo menos não me atrapalhar”. Está aí a raiz de uma polarização que resiste às seguidas lamúrias com a frustração das propostas alternativas para “unir o Brasil”.
De uns anos para cá, o segundo campo vem ganhando terreno, por razões objetivas. Os fatos, sempre eles, e a vida material são o combustível. Daí as dificuldades de correntes políticas cada vez menos capazes de conseguir consensos, e por isso crescentemente instadas a recorrer à coerção estatal. Só que coerção estatal não é garantia de voto.
sábado, 8 de agosto de 2026
O enigma em São Paulo
A temporada de convenções para a presidencial fechou como antevisto. O governo tem uma coalizão dura de partidos mais, digamos, próximos filosoficamente ao situacionismo. E tem uma mais mole e informal de partidos de direita, que quando vão aninhar-se a qualquer poder desengavetam o rótulo de centro independente. Do outro lado, os argumentos orçamentários e policiais-judiciais acabaram sendo intransponíveis. A oposição vai formalmente isolada.
A palavra mais importante do parágrafo anterior é esse “formalmente”, pois é muito improvável que a esmagadora maioria dos eleitores dê qualquer importância a alianças cartoriais. É no voto para presidente que o eleitor se manifesta com maior independência, quase total. Se é razoável que um candidato a deputado, senador ou mesmo governador se eleja por ter o apoio de um postulante à presidência, a recíproca simplesmente não costuma ser verdadeira.
E o que está em disputa? Hoje o presidente da República já governa num semipresidencialismo de coalizão com o Judiciário, desde que o Congresso Nacional aceitou, talvez pelas circunstâncias, reinventar-se em agência de intermediação de emendas parlamentares.
O que traz, além das óbvias vantagens, uma grande vulnerabilidade: dispondo de dezenas de milhões para distribuir, e supondo que a política municipal não seja exatamente um passeio pela ética, essa bolada acaba representando uma arma apontada contra a testa de suas excelências. Ou uma algema de ouro. As emendas existem para, na teoria, aumentar a independência parlamentar, mas a infernal dialética nunca falha: esbaldaram-se e deu o contrário.
E a eleição? O governo joga em casa, a arbitragem é caseira e o estádio tem, como nos clássicos paulistas, torcida única. O governo tem o governo, tem o alinhamento com o Judiciário e conta com uma imprensa sem qualquer simpatia pela oposição. Mas neste momento a disputa se apresenta bastante equilibrada. Bem mais que quatro anos atrás. E, por falar em clássicos paulistas, há a dúvida sobre São Paulo.
Em 2022 as vantagens de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas sobre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad no estado foram quase idênticas. O eleitor votou em bloco. Hoje a diferença paulista de Tarcísio para Haddad é bem maior que a de Flávio Bolsonaro sobre Lula. Esses números persistirão? Tarcísio puxará Flávio para cima? Lula puxará Haddad para cima? Flávio puxará Tarcísio para baixo? Haddad puxará Lula para baixo?
A palavra mais importante do parágrafo anterior é esse “formalmente”, pois é muito improvável que a esmagadora maioria dos eleitores dê qualquer importância a alianças cartoriais. É no voto para presidente que o eleitor se manifesta com maior independência, quase total. Se é razoável que um candidato a deputado, senador ou mesmo governador se eleja por ter o apoio de um postulante à presidência, a recíproca simplesmente não costuma ser verdadeira.
E o que está em disputa? Hoje o presidente da República já governa num semipresidencialismo de coalizão com o Judiciário, desde que o Congresso Nacional aceitou, talvez pelas circunstâncias, reinventar-se em agência de intermediação de emendas parlamentares.
O que traz, além das óbvias vantagens, uma grande vulnerabilidade: dispondo de dezenas de milhões para distribuir, e supondo que a política municipal não seja exatamente um passeio pela ética, essa bolada acaba representando uma arma apontada contra a testa de suas excelências. Ou uma algema de ouro. As emendas existem para, na teoria, aumentar a independência parlamentar, mas a infernal dialética nunca falha: esbaldaram-se e deu o contrário.
E a eleição? O governo joga em casa, a arbitragem é caseira e o estádio tem, como nos clássicos paulistas, torcida única. O governo tem o governo, tem o alinhamento com o Judiciário e conta com uma imprensa sem qualquer simpatia pela oposição. Mas neste momento a disputa se apresenta bastante equilibrada. Bem mais que quatro anos atrás. E, por falar em clássicos paulistas, há a dúvida sobre São Paulo.
Em 2022 as vantagens de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas sobre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad no estado foram quase idênticas. O eleitor votou em bloco. Hoje a diferença paulista de Tarcísio para Haddad é bem maior que a de Flávio Bolsonaro sobre Lula. Esses números persistirão? Tarcísio puxará Flávio para cima? Lula puxará Haddad para cima? Flávio puxará Tarcísio para baixo? Haddad puxará Lula para baixo?
sábado, 25 de julho de 2026
As agruras do terceirismo
Esta eleição presidencial é a primeira em que as propostas de terceira via (na falta de um nome melhor) se alinham à direita. Mas seu sofrimento não vem sendo diferente do vivido pelas versões à esquerda nas eleições anteriores. Todas mostram grande dificuldade para transmitir expectativa de poder. Com pouca militância e organização social frágil, penam para atravessar o deserto e não chegam a reunir massa crítica. E aí não conseguem projetar expectativa de poder.
É um ciclo infernal.
Talvez as dificuldades do terceirismo devam ser buscadas, em primeiro lugar, no conceito em si. Começando pela constatação de que não existe um centro, mas dois. Há os ditos progressistas infelizes com a hegemonia do PT e há os liberais e conservadores incomodados com o domínio bolsonarista sobre o eleitorado do centro para a direita. Não espanta, portanto, a dificuldade que se repete periodicamente quando tentam fazer o casamento do jacaré com a cobra-d’água.
Outro entrave é o centrismo sentir-se obrigado a ser oposição estridente aos dois polos. Condena-se de antemão a restringir seu mercado aos nem-nem. Se o sujeito vai abrir uma pizzaria numa rua em que outras duas já disputam e dividem a clientela, sair falando mal da concorrência não parece ser o mais inteligente. Melhor tentar espalhar o que você oferece de vantagem para o consumidor, por que ele deve experimentar a novidade.
Sem chamar o sujeito de burro por frequentar a pizzaria ao lado.
Pior ainda quando se cai no equívoco de centrar fogo, na primeira oportunidade, em quem está ideológica e politicamente mais próximo, para tentar roubar-lhe o eleitor. No caso da direita, isso tem sido flagrante. O eleitor de direita que até poderia pensar em buscar alternativas ao bolsonarismo olha e conclui que a concorrência está mais interessada em derrotar Flávio do que em impedir que Lula ganhe mais quatro anos no Planalto.
E, como boa parte dos eleitores polarizados pelo petismo e pelo bolsonarismo só estão mesmo interessados em derrotar o outro lado — a velha história de que o eleitor de segundo turno mais quer derrubar alguém do que eleger alguém —, a consequência é aumentar a própria rejeição. Isso talvez explique em parte por que candidatos antes desconhecidos são mais rejeitado quanto mais vão sendo conhecidos.
É um ciclo infernal.
Talvez as dificuldades do terceirismo devam ser buscadas, em primeiro lugar, no conceito em si. Começando pela constatação de que não existe um centro, mas dois. Há os ditos progressistas infelizes com a hegemonia do PT e há os liberais e conservadores incomodados com o domínio bolsonarista sobre o eleitorado do centro para a direita. Não espanta, portanto, a dificuldade que se repete periodicamente quando tentam fazer o casamento do jacaré com a cobra-d’água.
Outro entrave é o centrismo sentir-se obrigado a ser oposição estridente aos dois polos. Condena-se de antemão a restringir seu mercado aos nem-nem. Se o sujeito vai abrir uma pizzaria numa rua em que outras duas já disputam e dividem a clientela, sair falando mal da concorrência não parece ser o mais inteligente. Melhor tentar espalhar o que você oferece de vantagem para o consumidor, por que ele deve experimentar a novidade.
Sem chamar o sujeito de burro por frequentar a pizzaria ao lado.
Pior ainda quando se cai no equívoco de centrar fogo, na primeira oportunidade, em quem está ideológica e politicamente mais próximo, para tentar roubar-lhe o eleitor. No caso da direita, isso tem sido flagrante. O eleitor de direita que até poderia pensar em buscar alternativas ao bolsonarismo olha e conclui que a concorrência está mais interessada em derrotar Flávio do que em impedir que Lula ganhe mais quatro anos no Planalto.
E, como boa parte dos eleitores polarizados pelo petismo e pelo bolsonarismo só estão mesmo interessados em derrotar o outro lado — a velha história de que o eleitor de segundo turno mais quer derrubar alguém do que eleger alguém —, a consequência é aumentar a própria rejeição. Isso talvez explique em parte por que candidatos antes desconhecidos são mais rejeitado quanto mais vão sendo conhecidos.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
A hora das convenções
A tática do presidente da República no confronto com seu homólogo americano parece clara: esticar a corda até um ponto ótimo para auferir os dividendos eleitorais em outubro, mas sem rompê-la.
Depois da reeleição (Lula não trabalha com outra hipótese), torcer para que Donald Trump seja derrotado na eleição de deputados e senadores em novembro e se converta num lame duck (pato manco, aquele que tem mandato, mas não tem mais força política).
Depois, rezar pela vitória do candidato democrata em 2028 e, daí, garantir um ambiente amigável para fazer o sucessor em 2030. Basta recordar o papel do governo Biden na transição brasileira de 2022.
Será necessária alguma cautela para medir efetivamente o efeito dos atritos entre Brasil e Estados Unidos na eleição daqui. Até agora, os números eleitorais exibem razoável estabilidade, apesar dos fatos, ou factoides.
No agregado das pesquisas (o www.pollingdata.com.br faz um bom trabalho nesse aspecto), a distância entre os dois principais candidatos no cenário de segundo turno está apertada e tem insistido em oscilar nas margens de erro.
Neste período antes das convenções, o situacionismo vem sendo competente para produzir turbulências que, até agora, impedem, ou dificultam, a agregação da direita em torno de Flávio Bolsonaro.
Um risco para o petismo é o candidato do PL abrir a campanha oficial com uma coligação ampla e grande vantagem no horário eleitoral e nos recursos oficiais. No momento, esse risco parece minimizado.
Lula chega à véspera das convenções num quadro mais favorável do que se projetava no início do ano. Além da torrente de medidas populares, desfruta um inédito alinhamento institucional. Não há ator relevante na constelação do poder interessado numa mudança.
O problema? Mesmo com todas as condições objetivas favoráveis, as projeções atuais de segundo turno são-lhe bem menos róseas do que as de quatro anos atrás contra o Bolsonaro pai.
E a candidatura do PL vem demonstrando uma interessante resiliência.
Depois da reeleição (Lula não trabalha com outra hipótese), torcer para que Donald Trump seja derrotado na eleição de deputados e senadores em novembro e se converta num lame duck (pato manco, aquele que tem mandato, mas não tem mais força política).
Depois, rezar pela vitória do candidato democrata em 2028 e, daí, garantir um ambiente amigável para fazer o sucessor em 2030. Basta recordar o papel do governo Biden na transição brasileira de 2022.
Será necessária alguma cautela para medir efetivamente o efeito dos atritos entre Brasil e Estados Unidos na eleição daqui. Até agora, os números eleitorais exibem razoável estabilidade, apesar dos fatos, ou factoides.
No agregado das pesquisas (o www.pollingdata.com.br faz um bom trabalho nesse aspecto), a distância entre os dois principais candidatos no cenário de segundo turno está apertada e tem insistido em oscilar nas margens de erro.
Neste período antes das convenções, o situacionismo vem sendo competente para produzir turbulências que, até agora, impedem, ou dificultam, a agregação da direita em torno de Flávio Bolsonaro.
Um risco para o petismo é o candidato do PL abrir a campanha oficial com uma coligação ampla e grande vantagem no horário eleitoral e nos recursos oficiais. No momento, esse risco parece minimizado.
Lula chega à véspera das convenções num quadro mais favorável do que se projetava no início do ano. Além da torrente de medidas populares, desfruta um inédito alinhamento institucional. Não há ator relevante na constelação do poder interessado numa mudança.
O problema? Mesmo com todas as condições objetivas favoráveis, as projeções atuais de segundo turno são-lhe bem menos róseas do que as de quatro anos atrás contra o Bolsonaro pai.
E a candidatura do PL vem demonstrando uma interessante resiliência.
terça-feira, 30 de junho de 2026
O enigma a resolver
À medida que a Copa do Mundo vai atingindo seu auge, e o fim do torneio aponta no horizonte, a campanha eleitoral ganha impulso. Vamos entrando no período de certa restrição à propaganda governamental e algum reequilíbrio na habitual desigualdade de armas esculpida em lei pela bizarra regra trazida por Fernando Henrique Cardoso em benefício próprio: quem concorre àreeleição no Executivo não precisa se desincompatibilizar, mas quem o desafia precisa deixar qualquer cargo e atravessar a campanha na chuva.
Teremos na disputa de 2026 a oportunidade de talvez solucionar um enigma irresolvido de 2022. A esta altura naquele ano, as projeções de segundo turno traziam na média, segundo o ótimo site pollingdata.com.br, Luiz Inácio Lula da Silva treze pontos percentuais àfrente de Jair Messias Bolsonaro. Como se sabe, a diferença final foi de menos de dois pontos. Hoje, a média aponta Lula apenas três pontos acima de Flávio Bolsonaro. O enigma: quatro anos atrás Bolsonaro conseguiu reduzir a distância por mobilizar a direita ou por ser governo?
Se a razão principal foi a primeira, Flávio tem boas perspectivas. Se for a segunda, a tendência é Lula abrir conforme a campanha avançar. Os fatos, sempre teimosos, dirão. E será necessário sempre, por cautela, descontar da contabilidade a tradicional assimetria entre intenção de voto, medida sobre o total do eleitorado, e resultado da urna, assimetria causada pela parcela em torno de 10% do eleitorado dispostos a escolher candidatos em pesquisas, mas que não aparecem no dia para votar. Acontece mais nas camadas de menor renda e escolaridade.
Teremos na disputa de 2026 a oportunidade de talvez solucionar um enigma irresolvido de 2022. A esta altura naquele ano, as projeções de segundo turno traziam na média, segundo o ótimo site pollingdata.com.br, Luiz Inácio Lula da Silva treze pontos percentuais àfrente de Jair Messias Bolsonaro. Como se sabe, a diferença final foi de menos de dois pontos. Hoje, a média aponta Lula apenas três pontos acima de Flávio Bolsonaro. O enigma: quatro anos atrás Bolsonaro conseguiu reduzir a distância por mobilizar a direita ou por ser governo?
Se a razão principal foi a primeira, Flávio tem boas perspectivas. Se for a segunda, a tendência é Lula abrir conforme a campanha avançar. Os fatos, sempre teimosos, dirão. E será necessário sempre, por cautela, descontar da contabilidade a tradicional assimetria entre intenção de voto, medida sobre o total do eleitorado, e resultado da urna, assimetria causada pela parcela em torno de 10% do eleitorado dispostos a escolher candidatos em pesquisas, mas que não aparecem no dia para votar. Acontece mais nas camadas de menor renda e escolaridade.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Solavanco nos números aqui e vento à direita no continente
O efeito "Dark Horse” parece ter sido absorvido e digerido pelo ambiente pré-eleitoral, deixando em aberto a intensidade do vetor antissistema/anticorrupção quando a campanha oficial der a largada com as entrevistas, debates e programas de rádio e tevê. A aposta predominante até agora é relativizar esse veio da disputa, dada a dificuldade de as alternativas aos blocos hegemônicos ganharem impulso. E dada a ubiquidade das encrencas e encrencados.
Os números fazem crer que houve um solavanco, com o incumbente ganhando uns pontos, principalmente por causa das fortes iniciativas econômicas expansionistas e da divulgação maciça que as acompanha. Mas o solavanco não parece produzir uma vantagem mais confortável ao líder, talvez por o governo tentar apenas anestesiar no varejo um problema que pede solução no atacado: libertar as forças produtivas para permitir a aceleração do crescimento.
A eleição está perto demais para o governo operar essa necessária correção de rota. Em certas circunstâncias, tentar desviar do iceberg muito perto dele é mais perigoso que pagar o preço pela inevitável colisão. O exemplo clássico é o Titanic. Mas há consequências por manter a rota. O governo entra na eleição sem uma visão clara de futuro, e eleições são disputas sobre o futuro. E sempre há o risco do desgaste político pós-eleitoral, como a História ensina.
Um detalhe que precisa ser observado com atenção é os ventos soprarem para a direita na América do Sul, como se viu agora no Peru e na Colômbia. Duas situações em que todo o esforço da esquerda para transformar a eleição num plebiscito contra o que chamou de "extrema direita” não foi suficiente para alcançar a vitória na urna. Não é a primeira vez em que o eleitor relativiza a disputa ideológica em favor da solução dos problemas do dia a dia.
Os números fazem crer que houve um solavanco, com o incumbente ganhando uns pontos, principalmente por causa das fortes iniciativas econômicas expansionistas e da divulgação maciça que as acompanha. Mas o solavanco não parece produzir uma vantagem mais confortável ao líder, talvez por o governo tentar apenas anestesiar no varejo um problema que pede solução no atacado: libertar as forças produtivas para permitir a aceleração do crescimento.
A eleição está perto demais para o governo operar essa necessária correção de rota. Em certas circunstâncias, tentar desviar do iceberg muito perto dele é mais perigoso que pagar o preço pela inevitável colisão. O exemplo clássico é o Titanic. Mas há consequências por manter a rota. O governo entra na eleição sem uma visão clara de futuro, e eleições são disputas sobre o futuro. E sempre há o risco do desgaste político pós-eleitoral, como a História ensina.
Um detalhe que precisa ser observado com atenção é os ventos soprarem para a direita na América do Sul, como se viu agora no Peru e na Colômbia. Duas situações em que todo o esforço da esquerda para transformar a eleição num plebiscito contra o que chamou de "extrema direita” não foi suficiente para alcançar a vitória na urna. Não é a primeira vez em que o eleitor relativiza a disputa ideológica em favor da solução dos problemas do dia a dia.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
É a economia
Desde o caso "Dark Horse", mas especialmente desde a combinação de benesses econômicas governamentais e forte presença propagandística para divulgá-las, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a recapturar, ainda que lentamente, parte do voto não alinhado nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, e que dele vinha se afastando. Segundo a pesquisa Nexus divulgada hoje, esse movimento já permite ao incumbente uma leve vantagem numérica na projeção de segundos turnos realistas, expurgando a provável abstenção.
Flávio Bolsonaro vinha se beneficiando do "jogar parado”, mas essa fase do jogo ficou para trás. O momento da corrida presidencial lembra um pouco o primeiro tempo de Brasil x Marrocos: enquanto um time joga, o outro só assiste. A situação permite ao governo manter a iniciativa política, o que também em períodos eleitorais é uma vantagem não desprezível. Em campanhas, como em outras situações, quem perdeu a iniciativa e precisa se explicar já está perdendo.
Apontar o risco de que o festival de bondades produza, no caso de reeleição, um cenário algo semelhante ao colhido por Dilma Rousseff em 2015-16, tem uma vantagem e um problema. A vantagem é refrescar a memória do eleitor para o custo de “fazer o diabo” nas eleições. O problema é abrir espaço para a acusação de que o oposicionismo planeja cortar o oxigênio das medidas e sacrificar a população mais vulnerável.
Mas talvez não reste outro caminho para a oposição, visto que, se a ideia é manter o que está aí, não há muitas razões para os não alinhados votarem pela mudança. E um número que oscila menos é exatamente o que aponta o desejo majoritário por mudança, presente em todas as pesquisas. Por enquanto, a associação entre iniciativas econômicas do governo e alguma perplexidade da oposição freia a conversão de insatisfação em voto.
Nunca é demais, porém, lembrar que a corrida ainda não chegou nem ao fim do começo, quanto mais ao começo do fim. Na eleição mais ciclotímica de todos os tempos, o governo e a oposição ainda têm a atravessar as convenções, as entrevistas, os debates, a campanha de rua, a guerra nas redes sociais, o que na teoria garante alguma paridade de armas. Resta ver como isso se dará na prática.
Flávio Bolsonaro vinha se beneficiando do "jogar parado”, mas essa fase do jogo ficou para trás. O momento da corrida presidencial lembra um pouco o primeiro tempo de Brasil x Marrocos: enquanto um time joga, o outro só assiste. A situação permite ao governo manter a iniciativa política, o que também em períodos eleitorais é uma vantagem não desprezível. Em campanhas, como em outras situações, quem perdeu a iniciativa e precisa se explicar já está perdendo.
Apontar o risco de que o festival de bondades produza, no caso de reeleição, um cenário algo semelhante ao colhido por Dilma Rousseff em 2015-16, tem uma vantagem e um problema. A vantagem é refrescar a memória do eleitor para o custo de “fazer o diabo” nas eleições. O problema é abrir espaço para a acusação de que o oposicionismo planeja cortar o oxigênio das medidas e sacrificar a população mais vulnerável.
Mas talvez não reste outro caminho para a oposição, visto que, se a ideia é manter o que está aí, não há muitas razões para os não alinhados votarem pela mudança. E um número que oscila menos é exatamente o que aponta o desejo majoritário por mudança, presente em todas as pesquisas. Por enquanto, a associação entre iniciativas econômicas do governo e alguma perplexidade da oposição freia a conversão de insatisfação em voto.
Nunca é demais, porém, lembrar que a corrida ainda não chegou nem ao fim do começo, quanto mais ao começo do fim. Na eleição mais ciclotímica de todos os tempos, o governo e a oposição ainda têm a atravessar as convenções, as entrevistas, os debates, a campanha de rua, a guerra nas redes sociais, o que na teoria garante alguma paridade de armas. Resta ver como isso se dará na prática.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Soberania e disputa de rejeições
O direito à soberania nacional segue a regra de que o detentor do direito precisa ter força para garantir o seu exercício. Outro detalhe: o escrito no papel garante alguma legitimidade, mas mesmo esta precisa sustentar-se socialmente. O contra-exemplo clássico é a busca de apoio internacional para combater um regime tirânico, como aconteceu aqui nos governos militares. Vale em situações assim o argumento de defesa da soberania?
O recurso ao soberanismo tem aparecido e desaparecido do discurso político conforme a conveniência eleitoral, alternando com o internacionalismo. A dúvida agora é se, e quanto, a narrativa terá efeito decisivo na nossa corrida pelo voto em outubro. Ajuda o oficialismo a substancial rejeição à figura do atual presidente dos Estados Unidos. Mas atrapalha um pouco o mesmo oficialismo ter desfilado posições flexíveis diante de outras pressões externas.
Como o congelamento da fronteira agrícola. Ou a recusa a explorar adequadamente nossos recursos minerais. É a tal história: de vez em quando, “ninguém se mete na nossa vida”, outras horas vem a angústia com “o que vão dizer da gente lá fora?”.
Mas há poucas atitudes mais ingênuas ou hipócritas na política, ou na crônica política, do que exigir coerência. Ainda que exibir a falta dela por parte do adversário ajude a criar constrangimentos. É um recurso, aí sim, para colocar o adversário na posição de ter de se explicar. E quem precisa se explicar já está perdendo. Daí que acusar o oponente de entreguismo seja sempre uma maneira de manter a iniciativa. O “upper hand”, na linguagem do boxe.
Essa talvez seja a questão central em disputas eleitorais. Quem consegue tomar a iniciativa e manter. Um jeito provado é acusar o adversário de algo muito grave e obrigá-lo a passar a campanha tentando reduzir o dano. E leva vantagem nisso quem tem a polícia eleitoral a seu favor. Poder acusar à vontade, enquanto ao concorrente não é dada a igualdade de armas. É uma vantagem e tanto, muito difícil de reverter.
Eleições em dois turnos costumam ser decididas numa disputa de rejeições. Daí a centralidade das armas à disposição de cada um para falar o diabo de quem está do outro lado.
O recurso ao soberanismo tem aparecido e desaparecido do discurso político conforme a conveniência eleitoral, alternando com o internacionalismo. A dúvida agora é se, e quanto, a narrativa terá efeito decisivo na nossa corrida pelo voto em outubro. Ajuda o oficialismo a substancial rejeição à figura do atual presidente dos Estados Unidos. Mas atrapalha um pouco o mesmo oficialismo ter desfilado posições flexíveis diante de outras pressões externas.
Como o congelamento da fronteira agrícola. Ou a recusa a explorar adequadamente nossos recursos minerais. É a tal história: de vez em quando, “ninguém se mete na nossa vida”, outras horas vem a angústia com “o que vão dizer da gente lá fora?”.
Mas há poucas atitudes mais ingênuas ou hipócritas na política, ou na crônica política, do que exigir coerência. Ainda que exibir a falta dela por parte do adversário ajude a criar constrangimentos. É um recurso, aí sim, para colocar o adversário na posição de ter de se explicar. E quem precisa se explicar já está perdendo. Daí que acusar o oponente de entreguismo seja sempre uma maneira de manter a iniciativa. O “upper hand”, na linguagem do boxe.
Essa talvez seja a questão central em disputas eleitorais. Quem consegue tomar a iniciativa e manter. Um jeito provado é acusar o adversário de algo muito grave e obrigá-lo a passar a campanha tentando reduzir o dano. E leva vantagem nisso quem tem a polícia eleitoral a seu favor. Poder acusar à vontade, enquanto ao concorrente não é dada a igualdade de armas. É uma vantagem e tanto, muito difícil de reverter.
Eleições em dois turnos costumam ser decididas numa disputa de rejeições. Daí a centralidade das armas à disposição de cada um para falar o diabo de quem está do outro lado.
domingo, 31 de maio de 2026
O crime, o espetáculo e a soberania
Evocar o princípio da soberania supõe sempre algum grau de hipocrisia, à esquerda e à direita. Os bolcheviques alistavam-se no exército russo para colocar lenha na fogueira do derrotismo na Primeira Guerra Mundial e, assim, ajudar a derrubar o regime. Aparece em Dr Jivago, o clássico hollywoodiano de 1965. A elite política francesa preferiu capitular à Alemanha na Segunda Guerra, pois tinha mais medo dos compatriotas comunistas que dos nazistas alemães.
A análise política perde-se quando abandona o foco: a luta pelo poder, geralmente travada sem muita consideração pelos princípios. Quando Jimmy Carter pressionou o então presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos humanos dos perseguidos pelo regime militar, a ditadura reagiu invocando o princípio da soberania. O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”.
A classificação pelos Estados Unidos de organizações criminosas brasileiras como terroristas, com todas as consequências políticas e legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de Washington. O governo brasileiro já vinha mostrando flexibilidade tática diante da pressão da administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo estratégico não estava jogado. Está longe de ser um segredo que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina Monroe 2.0.
Só que existe um problema anterior. O avanço por aqui, aparentemente imparável, do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado. Anunciam-se planos, votam-se leis, convocam-se entrevistas coletivas para desfilar soluções, mas a doença ignora o espetáculo e avança. Discutir princípios é importante, mas defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o risco de alguém de fora querer meter o bedelho.
Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou capital político no episódio das tarifas ao lançar mão do discurso da soberania. Vai funcionar quando a disputa é sobre o combate ao crime organizado? Vamos aguardar os números. Eles dirão se o eleitor está mais incomodado com a ingerência externa no Brasil ou com a ingerência do crime sobre a vida dele, eleitor.
A análise política perde-se quando abandona o foco: a luta pelo poder, geralmente travada sem muita consideração pelos princípios. Quando Jimmy Carter pressionou o então presidente Ernesto Geisel em favor dos direitos humanos dos perseguidos pelo regime militar, a ditadura reagiu invocando o princípio da soberania. O Brasil teve ¨O petróleo é nosso”, e teve também “a tortura, as prisões políticas e os desaparecimentos são assunto nosso”.
A classificação pelos Estados Unidos de organizações criminosas brasileiras como terroristas, com todas as consequências políticas e legais, tem, é claro, o objetivo de ajudar a enquadrar o Brasil na órbita geopolítica de Washington. O governo brasileiro já vinha mostrando flexibilidade tática diante da pressão da administração Donald Trump, mas pelo visto o jogo estratégico não estava jogado. Está longe de ser um segredo que a moda no vizinho do norte é uma Doutrina Monroe 2.0.
Só que existe um problema anterior. O avanço por aqui, aparentemente imparável, do crime organizado sobre a economia e, dizem, sobre o Estado. Anunciam-se planos, votam-se leis, convocam-se entrevistas coletivas para desfilar soluções, mas a doença ignora o espetáculo e avança. Discutir princípios é importante, mas defender a soberania para além de um princípio abstrato pressupõe cuidar da casa para reduzir o risco de alguém de fora querer meter o bedelho.
Resta saber o efeito eleitoral. O governo acumulou capital político no episódio das tarifas ao lançar mão do discurso da soberania. Vai funcionar quando a disputa é sobre o combate ao crime organizado? Vamos aguardar os números. Eles dirão se o eleitor está mais incomodado com a ingerência externa no Brasil ou com a ingerência do crime sobre a vida dele, eleitor.
domingo, 24 de maio de 2026
O áudio, as pesquisas e a abstenção
Até a véspera da eleição as pesquisas apresentam seus resultados em porcentagens sobre o total do eleitorado. Um ou dois dias antes do pleito passam a apresentar as projeções de votos válidos, descartando os brancos, nulos e indecisos. Isso foi introduzido de alguns anos para cá, com o objetivo de atenuar os questionamentos sobre as pesquisas, pois os resultados oficiais sempre aparecem em votos válidos.
Em 1998 Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%, sempre sobre o total do eleitorado. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.
Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.
Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.
Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.
A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deveria introduzir alguma prudência nas conclusões.
A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.
Em 1998 Fernando Henrique Cardoso tinha nas últimas pesquisas em torno de 45%, mas apareceu na urna com 34%, sempre sobre o total do eleitorado. A “perda” de Luiz Inácio Lula da Silva foi menor: tinha em torno de 25% nas pesquisas e apareceu com 20%. Quatro anos depois, Lula aparecia com cerca de 44% nas pesquisas e teve 34%. José Serra recebia 19% nas pesquisas e teve 17%. A observação das eleições mostra mesmo que não é raro a quebra ser maior para quem lidera os levantamentos.
Uma parcela da assimetria entre os resultados das boas pesquisas e os números das urnas explica-se pelo absenteísmo. Cerca de 10% do eleitorado escolhe algum candidato na pesquisa estimulada, mas não aparece no dia para votar. Daí a necessidade de sempre prestar atenção no voto espontãneo. E o absenteísmo costuma ser maior nos grupos de menor instrução e renda.
Quatro anos atrás, Lula tinha acima de 45% nas pesquisas de final de primeiro turno e apareceu na urna com 36%. Jair Bolsonaro tinha em torno de 35% e apareceu com 32%. Houve muita reclamação de que a votação do incumbente havia sido subestimada pelas pesquisas. Mas o problema foi outro: a votação de Lula é que foi superestimada.
Havendo segundo turno neste ano, Lula precisa chegar na frente no primeiro turno, e com uma boa diferença, pois o perfil de direita dos nomes que provavelmente não passarão à etapa decisiva deve ajudar o desafiante do atual presidente da República. É improvável que num segundo turno Lula amplie a diferença.
A boa notícia para o presidente nas pesquisas pós-áudio de Flávio Bolsonaro é ele ter ganhado alguma folga no primeiro turno. Entretanto, como vimos no retrospecto, a subestimação do absenteísmo e a anabolização do líder pelas pesquisas deveria introduzir alguma prudência nas conclusões.
A notícia não tão boa para Lula é a ampliação da diferença no segundo turno ter decorrido da ida de poucos pontos percentuais de um candidato para outro, mostrando alguma resiliência do principal pré-candidato da oposição.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Finalmente um fato novo
A semana introduziu o elemento novo que faltava na sucessão presidencial: uma instabilidade com potencial para produzir desequilíbrio. O quadro vinha bem ossificado, aguardando apenas a formalização das alianças e chapas para a largada oficial. E a grande dificuldade dos azarões era uma barreira de entrada aparentemente instransponível, segundo as pesquisas.
Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.
Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a ostentação de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.
Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.
Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.
Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).
De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.
O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).
Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.
Para prestar atenção
A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?
O filme das pesquisas
Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?
A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?
Restava, como no título do célebre filme com Michael Clarke Duncan, ficar à espera de um milagre.
Não que faltassem inquietações, especialmente na direita. Os bons números rapidamente alcançados por Flávio Bolsonaro desestimularam a ostentação de outras ambições, mas elas nunca deixaram de existir, bastava observar a exacerbação das guerras civis costumeiramente exibidas por esse campo político nas redes sociais.
Daí as especulações sobre o papel de um possível fogo amigo no vazamento das informações e dos áudios que tomaram a semana.
Até por não haver clareza sobre o cui bono (a quem beneficia, em latim) do timing. O oficialismo tem ganhos de curto prazo, ainda a medir, mas falta muito tempo para a eleição, suficiente para a direita agrupar-se em torno de alternativas, se for inevitável. E tempo mais que suficiente para a acusação diluir-se, se não for apenas o início das revelações.
Casos assim ou liquidam a fatura de cara (Lunus em 2002) ou precisam virar série (Lava Jato em 2014-18).
De todo modo, a semana mostrou um governo retomando a iniciativa política, depois da derrota no Senado que barrou a indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Além de a oposição ter sido colocada na defensiva no terreno policial, o oficialismo semeou mais bondades pré-eleitorais e moveu mais uma peça na disputa com a direita pelo afeto de Donald Trump.
O Brasil vem jogando inteligentemente a partir de uma obviedade: ao contrário de antecessores, o presidente americano não tem o foco em processos de “regime change”. Na política exterior, o trumpismo repagina o princípio originalmente exposto pelo antecessor Calvin Coolidge há um século: o negócio da América são os negócios (“The business of America is business”).
Lula percebeu que pode se beneficiar da fórmula Delcy Rodríguez. Se o governo petista aceita atender às demandas americanas mais importantes (terras raras, crime organizado, pendências comerciais, limitação da influência chinesa), não há por que Washington investir na troca de guarda. E, se Lula ganhar mais quatro anos, poderá assistir na cadeira à sucessão de Trump em 2028. E, se em outubro a oposição daqui levar, Trump também sai ganhando.
Para prestar atenção
A crise na oposição se aprofunda ou ela sai das cordas?
O filme das pesquisas
Quais serão os novos capítulos da pressão policial-judicial sobre a oposição?
A visita de Trump à China terá desdobramentos na crise com o Irã?
sábado, 9 de maio de 2026
Onde a corrupção dói mais
Os novos capítulos do Caso Master reintroduziram no debate político conjecturas sobre o impacto do tema corrupção na eleição presidencial. Semanas atrás, num momento de alta temperatura do assunto, este chegou a ultrapassar a economia e a segurança pública no ranking das preocupações dos entrevistados em pesquisas. Mas em seguida viu-se uma reacomodação, sinal de resiliência das questões mais capazes de produzir impacto direto e imediato no brasileiro médio.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
E o restrospecto não chega a estimular estratégias centradas na pauta.
O desdobramento das acusações de Roberto Jefferson não impediu a reeleição, com alguma folga, de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. E a Lava Jato já vinha desembestada quando Dilma Roussef ganhou mais um mandato em 2014. Pode-se argumentar que a operação ajudou a criar o ambiente para a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas seria errado subestimar a centralidade dos problemas econômicos que facilitaram a amputação do mandato da petista em 2016.
Verdade que, numa eleição muito apertada - como foi a de 2022 e tende a ser a deste ano -, qualquer punhadinho de votos pode ser decisivo, daí a importância de não descuidar de assuntos auxiliares, como a própria corrupção e a pauta comportamental. Mas é provável que a parada seja mesmo decidida em torno da economia, mais precisamente em torno da disputa sobre o futuro, sobre o assim chamado caminho para a prosperidade.
A disputa sobre se é mais possível prosperar numa economia puxada pelo Estado e crescentemente regulada ou numa puxada pelo investimento privado e com taxas ascendentes de liberdade econômica.
A tradição brasileira é pender para a primeira opção, mas o paradoxo das dificuldades políticas de Lula mesmo com razoáveis números macroeconômicos é o melhor sintoma de algum esgotamento do modelo baseado no gasto/investimento estatal combinado com a forte expansão do crédito, mas sem a concomitante expansão do investimento privado.
Independente das preferências teóricas, o resultado tem sido o endividamento epidêmico da população, combinado com taxas resistentes de inflação e a prevalência de ocupações de qualidade e remuneração inferior no estoque de postos de trabalho.
Vem também daí o desgaste do petismo e do próprio Lula, desgaste potencializado pelo incômodo contraste entre as dificuldades diárias dos cidadãos e a impressão de que Brasília é uma ilha da fantasia onde, como diz o chavão das coberturas jornalísticas, a festa não tem hora para acabar. É aí que a percepção da corrupção bate de maneira mais dolorida.
Com as naturais consequências.
No que prestar atenção
Desdobramentos do Caso Master, com foco nas delações
Possível acordo ou retomada da beligerância entre EUA e Irã
Alguma consequência prática da visita de Lula aos EUA?
Até a semana que vem.
sábado, 2 de maio de 2026
A fé na conta de chegada
Ao adotar suas linhas de ação política e econômica e, principalmente, ao persistir nelas mesmo diante das circunstâncias, o governo federal acaba refém de duas contas de chegada.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
A fé no redistributivismo pela via do aumento da carga de impostos serve para manter razoavelmente coeso o núcleo da base social e aplacar a demanda por responsabilidade fiscal, mas vai consolidando a dificuldade de diálogo com os escalados para pagar a conta.
A rigidez na abordagem do “8 de janeiro” serve para não deixar desmoronar o presidencialismo de coalizão com o Judiciário, e também realimenta a narrativa de defesa da democracia, mas abre espaço para a oposição apropriar-se de uma bandeira poderosa: a luta contra a injustiça.
Especialmente depois de reveladas as conexões do Banco Master.
A esta altura, o governo não tem outro caminho a não ser insistir nessas duas linhas. Governo não é lancha, que pode mudar rapidamente o curso, governo é transatlântico, e a eleição está muito perto. E as pesquisas mostram um Lula competitivo.
Resta a ele apostar que as contas de chegada estejam corretas.
Mas, como as táticas desenvolvem-se produzindo atrito crescente, já que os fatos impõem resistência, são também crescentes os espaços oferecidos à oposição para fazer política.
É fácil de notar, e não apenas por causa das pesquisas: a oposição de direita deixou definitivamente de ser um elemento marginal da conjuntura, ela acumula vitórias parlamentares e está de volta aos ambientes respeitáveis da dita formação de opinião pública.
Alívio nas pesquisas, sofrimento na política
O situacionismo parece ter mostrado reação nos levantamentos quantitativos sobre a eleição de outubro. A dúvida é sobre o real efeito multiplicador, em votos, das medidas econômicas pontuais oferecidas para aliviar o desconforto da cidadania.
Algum efeito terão, mas a esta altura só resta acompanhar os números conforme vão sendo produzidos. E sempre tomando cuidado com a ciclotimia política, um transtorno psicológico potencializado por oscilações de estatísticas dentro da margem de erro.
Os últimos eventos parlamentares exibem um oficialismo com grande dificuldade de ampliar alianças. Sempre que venceu eleições presidenciais o PT contou, formal ou informalmente, com o apoio de pedaços suculentos da direita. O recente encontro nacional petista apontou a necessidade de buscar aliados aí.
Falta saber como, pois o principal adversário também passou a oferecer expectativa de poder. E vai se desenhando o antes impensável. Ao endurecer posições para não deixar escapar fragmentos da base, dando prioridade à consolidação de seu campo, o governismo oferece o espaço “de centro” à oposição de direita.
Assim como no futebol, e adotando a terminologia dos modernos comentaristas, o governo no momento está defendendo com “bloco baixo”, por segurança, mas assim oferece o meio para o adversário articular as jogadas.
No que prestar atenção
Qual será a reação do governo às duas derrotas da semana. Acomodação ou confronto?
Estados Unidos e Irã chegarão a algum acordo, retomarão a guerra ou vão continuar cozinhando em banho-maria?
As vitórias parlamentares acelerarão a convergência da oposição, ou a relativa e aparente fraqueza da situação vão acender apetites (“Por que não eu”)?
Até a semana que vem.
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