Desde o caso "Dark Horse", mas especialmente desde a combinação de benesses econômicas governamentais e forte presença propagandística para divulgá-las, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a recapturar, ainda que lentamente, parte do voto não alinhado nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, e que dele vinha se afastando. Segundo a pesquisa Nexus divulgada hoje, esse movimento já permite ao incumbente uma leve vantagem numérica na projeção de segundos turnos realistas, expurgando a provável abstenção.
Flávio Bolsonaro vinha se beneficiando do "jogar parado”, mas essa fase do jogo ficou para trás. O momento da corrida presidencial lembra um pouco o primeiro tempo de Brasil x Marrocos: enquanto um time joga, o outro só assiste. A situação permite ao governo manter a iniciativa política, o que também em períodos eleitorais é uma vantagem não desprezível. Em campanhas, como em outras situações, quem perdeu a iniciativa e precisa se explicar já está perdendo.
Apontar o risco de que o festival de bondades produza, no caso de reeleição, um cenário algo semelhante ao colhido por Dilma Rousseff em 2015-16, tem uma vantagem e um problema. A vantagem é refrescar a memória do eleitor para o custo de “fazer o diabo” nas eleições. O problema é abrir espaço para a acusação de que o oposicionismo planeja cortar o oxigênio das medidas e sacrificar a população mais vulnerável.
Mas talvez não reste outro caminho para a oposição, visto que, se a ideia é manter o que está aí, não há muitas razões para os não alinhados votarem pela mudança. E um número que oscila menos é exatamente o que aponta o desejo majoritário por mudança, presente em todas as pesquisas. Por enquanto, a associação entre iniciativas econômicas do governo e alguma perplexidade da oposição freia a conversão de insatisfação em voto.
Nunca é demais, porém, lembrar que a corrida ainda não chegou nem ao fim do começo, quanto mais ao começo do fim. Na eleição mais ciclotímica de todos os tempos, o governo e a oposição ainda têm a atravessar as convenções, as entrevistas, os debates, a campanha de rua, a guerra nas redes sociais, o que na teoria garante alguma paridade de armas. Resta ver como isso se dará na prática.
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