sábado, 15 de agosto de 2026

A raiz da polarização

A campanha oficial começa como terminou a anterior: lulismo e bolsonarismo empatados (na margem de erro). Nem Luiz Inácio Lula da Silva e o PT aproveitaram o mandato para ampliar o apoio, nem os Bolsonaros sofreram corrosão relevante pelo conjunto de atribulações, ancoradas nas consequências do 8 de Janeiro e na condução pouco inteligente da transição de 2022. De mudança mesmo, só a evolução aparentemente imparável do declinio institucional.

Os números são conclusivos. A soma do bolsonarismo “duro” com o menos convicto alcança uns 35% do eleitorado. O mesmo cálculo para o lulismo chega a uns 30%. A rejeição incondicional a ambos oscila em torno de 10%, bom termômetro das dificuldades enfrentadas pelos desafiantes da dupla. Os fatos costumam ser teimosos: por enquanto, essa polarização só é repudiada mesmo em círculos minoritários e bem delimitados.

E por que a polarização resiste? A divisão das sociedades em campos políticos é habitual, e as raízes devem ser buscadas nas escolhas disponíveis de líderes políticos capazes de enfrentar os desafios enxergados pelo público. E a separação de campos no Brasil não tem muito segredo.

De um lado, as pessoas convencidas de que é papel fundamental do Estado aumentar impostos sobre os ricos (conceito elástico) para prover o conjunto da sociedade de oportunidades e serviços capazes de garantir o bem-estar social. Do outro lado, quem vê o Estado brasileiro como uma máquina cínica, corrompida e corruptora, vocacionada unicamente para garantir privilégios a uma elite insensível às agruras do cidadão comum.

Não é preciso muita sofisticação para concluir que a primeira turma se inclina para Lula e a segunda para os Bolsonaros, agora Flávio. Sintetizando, o Brasil se divide entre quem acha que “o governo tem de resolver o meu problema” e quem prefere que, “se o governo não me ajuda, podia pelo menos não me atrapalhar”. Está aí a raiz de uma polarização que resiste às seguidas lamúrias com a frustração das propostas alternativas para “unir o Brasil”.

De uns anos para cá, o segundo campo vem ganhando terreno, por razões objetivas. Os fatos, sempre eles, e a vida material são o combustível. Daí as dificuldades de correntes políticas cada vez menos capazes de conseguir consensos, e por isso crescentemente instadas a recorrer à coerção estatal. Só que coerção estatal não é garantia de voto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário