quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O barquinho vai…

Já faz quase dez anos que a turma de House of Cards tuitou admitindo que era difícil concorrer com o nosso realismo fantástico (a referência a Gabriel García Márquez fica por minha conta). O que diriam agora, com o país hipnotizado pela revelação e descrição, com detalhes espantosos, das conexões entre o ex-banqueiro e altos escalões políticos, judiciais e policiais da República?

Daqui a menos de um mês tem eleição, e o transe coletivo desencadeado por mais este striptease institucional tem tudo para ocupar o palco de forma duradoura. Vão sendo empurrados para o segundo plano o debate e a disputa sobre como tirar a economia brasileira da pasmaceira e trocar, por uma mais intensa, a luz fraquinha no fim do túnel. Não chega a ser inédito. Debates racionais e disputas programáticas são raridade nas eleições entre nós.

Não deveriam ser. Enquanto o escândalo consome o noticiário, é a economia que decide o voto — e é nela que está o enigma mais interessante desta eleição. É impossível analisar as dificuldades eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sem enveredar por aí. Até ele deve estar surpreso com o paradoxo: enfrenta talvez sua eleição mais difícil desde 1998, mesmo exibindo números econômicos bastante razoáveis e tendo com ele, ou no mínimo contra os adversários, a esmagadora maioria dos mecanismos de formação da opinião pública.

Após o 8 de janeiro de 2023, seria ridicularizado quem dissesse que, a despeito de um crescimento do PIB em torno de 2%, inflação rodando abaixo do teto da meta e plena ocupação (falta mão de obra), Lula estaria com taxas de avaliação insatisfatórias e intenção de voto na zona de risco a menos de um mês da tentativa de reeleição. Mas os números estão aí. É certo que sempre haverá a tentação de recorrer a outras explicações, mas seria mais um escapismo. É preciso olhar para a economia.

E o enigma complica-se quando se mede a percepção popular. A situação e as perspectivas econômicas do país não chegam a entusiasmar, mas a resposta dos entrevistados nas pesquisas fica longe de ser catastrófica, apesar das preocupações com as contas públicas. E até melhora quando se pergunta não sobre a economia do país, mas a respeito da situação econômica pessoal. Tampouco há um ambiente de pessimismo generalizado.

Onde estaria então o problema?

Uma hipótese é a combinação de dois fatores: o esgotamento de o modelo social-democrata produzir prosperidade e crescimento sustentados, e a revolta contra as deformidades de um Estado corrompido e vocacionado principalmente para blindar privilégios de uma minoria e concentrar renda. A face visível do antipetismo é ideológica, mas os alicerces estão na rejeição à preferência, pelo petismo, de uma estatolatria quase religiosa e à sua incapacidade de compreender o papel do capital e da poupança privados na produção de progresso e bem-estar no atual estágio do Brasil.

Daí que narrativas e iniciativas amplamente apoiadas em tese, como o aumento dos impostos sobre os ricos e a distribuição do dinheiro aos mais pobres, acabem rendendo pouco lucro político quando trazidas para a vida real. Qualquer um que passe 24 horas em Brasília percebe imediatamente que é baixíssima a probabilidade de um real a mais arrecadado do contribuinte acabar no bolso do pobre. Outro exemplo é a redução da jornada de trabalho sem cortar a remuneração. Quem não quer trabalhar menos ganhando a mesma coisa? Só que talvez o brasileiro médio esteja mais ansioso para ganhar mais do que trabalhar menos.

Como não parece haver por aqui um Deng Xiaoping para explicar à esquerda que não importa a cor do gato, desde que cace ratos, ela não está preparada para compreender que no estágio atual do capitalismo brasileiro, ainda que o trabalho é quem gere valor, são os capitalistas que podem produzir prosperidade, gerar empregos de boa qualidade e expandir a economia de modo a absorver as legiões de jovens que um dia o PT fez sonhar com a ascensão social.

A consequência está na preferência dos eleitores. O PT e a esquerda resistem nos públicos atendidos pelos programas sociais e nas áreas mais dependentes do Estado, mas vão minguando cada vez mais nos polos dinâmicos da economia. É tradição entre os partidos brasileiros que um dia sonham ser hegemônicos: nascidos nos grandes centros, vão sendo empurrados para os grotões conforme amoldam-se ao statu quo.

E chegamos a 2026. A disputa entre governo e oposição, entre esquerda e direita, pode ser contada, à luz desse cenário, como uma corrida entre dois barcos. Partem do mesmo ponto do rio, um deles rio abaixo e o outro rio acima, e vence quem primeiro percorrer certa distância, a mesma para os dois. Rio acima, contra a correnteza, segue o barco da situação petista, empurrado pelo motor de ser governo. Rio abaixo, a favor da água, vai o barco da oposição de direita, sem aquele motor, mas arrastado pela corrente.

E a correnteza, aqui, é o crescente ceticismo de que o Estado possa ser o impulsionador do progresso e da prosperidade, uma ideia que já foi dominante entre nós. O situacionismo tem o motor estatal, mas o oposicionismo tem o zeitgeist, o espírito do tempo. E este lhe tem sido suficiente para enfrentar o borrasca que o engoliu, em boa parte por seus próprios erros, na esteira da atabalhoada transição presidencial de 2023.

Sem motor e sem pressa, e enquanto a tardinha cai, o barquinho da oposição vai.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Com a palavra, o eleitor

A eleição de outubro deverá dar o veredito sobre a opção feita pelo presidente da República após o 8 de janeiro de 2023. O custo das escolhas políticas nunca é zero, e as consequências podem demorar bastante. A única certeza é que um dia elas chegam.

Sem recorrer à conciliação de JK, cuja posse foi assegurada pelo então general Lott depois da contestação da UDN, em 1955, e que anistiou os revoltosos de Jacareacanga no ano seguinte, e sem poder repetir o caminho de Vargas, que após o levante de 1935 endureceu o regime e dois anos depois instaurou o Estado Novo, Lula apostou no presidencialismo de coalizão com um Judiciário fortalecido, que se enxergou como depositário de um poder quase absoluto.

Restava compor com as cúpulas do Congresso conservador, sempre arisco, uma costura somente concluída agora, na véspera da eleição. Esse desenho, somado à antipatia generalizada que a imprensa profissional dedica aos principais adversários do petista, produzia um arcabouço bastante razoável para a tentativa de reeleição. Lula mantinha coesa sua base fiel de sustentação social e preservava no essencial a frente ampla superestrutural que lhe deu a vitória apertada em 2022.

O que poderia dar errado? Aqui é inevitável lembrar a célebre frase “a vida sempre encontra um meio” (ou “um caminho”), dita pelo matemático Ian Malcolm, interpretado por Jeff Goldblum, no filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Steven Spielberg, 1993). Na obra, os dinossauros eram criados apenas como fêmeas, para evitar que se reproduzissem por conta própria. Mas a vida encontrou um jeito de implodir a limitação, com todas as trágicas decorrências.

Se quisermos ir mais longe, basta recordar, da mitologia grega, as histórias de Sísifo e Prometeu. Desafiar os deuses é sempre arriscado. E os problemas dos políticos (lato sensu) agravam-se quando eles mesmos passam a se considerar deuses e arriscam atrair a ira do Zeus da política, o eleitor, que alguma hora é chamado a dar seu juízo, mesmo quando o resto do Olimpo se julga imunizado.

Estamos nesse ponto. Ao longo de quase quatro anos, as duras consequências enfrentadas pelos acusados e depois condenados do 8/1, somadas ao opróbrio político e social lançado sobre a direita em geral pelos mecanismos reprodutores da opinião pública, contiveram os desdobramentos costumeiros de tensões produzidas em cenários assim, nas instituições e, principalmente, nas ruas.

Mas parece que o dique se rompeu. E, dado o equilíbrio na correlação de forças produzido pelas revelações recentes, parece que quem terá de cortar esse nó górdio, para um lado ou para o outro, será ele mesmo: o eleitor.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Renovação cada vez menor

As taxas de renovação, baixas e cada vez mais baixas, no Congresso Nacional, especialmente na Câmara dos Deputados, são uma característica do sistema eleitoral brasileiro. Mesmo no auge das ondas antipolíticas, esses números nunca oscilaram muito. E mesmo os critérios de “renovação” precisam ser olhados com cuidado. Nesse vagão cabem ex-parlamentares federais, ex-prefeitos, ex-deputados estaduais, ex-vereadores…

Há quatro categorias básicas de parlamentares, de acordo com o apoio do eleitorado: os do “voto de opinião”, cada vez mais escassos; os “trens pagadores”, de vida difícil depois do fim do financiamento empresarial de campanhas; os queridinhos da cúpula partidária, mais beneficiados pelo fundo eleitoral; e os “distritalizados”, que alavancam votações expressivas em bases municipais irrigadas com a verba das emendas ao Orçamento.

O último grupo cresce e tem grande vantagem sobre os demais. Há duas décadas, cada parlamentar contava com um mínimo de R$ 1 milhão anual em emendas, não impositivas, e a luta para acrescentar recursos a esse mínimo era permanente. Duas décadas depois, com o orçamento impositivo e a fragilização do poder presidencial, o montante cresceu cerca de quarenta vezes. Um parlamentar pode passar os quatro anos atacando o governo e, mesmo assim, terá essa verba repassada a seus aliados municipais.

Claro que se trata de uma simplificação — o jogo da política é complexo —, mas a distritalização acelerada do voto para a Câmara dos Deputados, baseada principalmente no poder dos parlamentares de distribuir recursos, é o principal fator que dificulta a renovação política. Uma brecha na represa são os entrantes que convencem a cúpula partidária de que podem servir de puxadores de votos no nosso sistema proporcional aberto, mas mesmo isso não é simples.

Pois a manutenção e a reprodução do poder das cúpulas dos partidos dependem, em boa medida, do apoio das estruturas políticas pré-existentes, especialmente das bancadas federais, que acabam vinculando as bases partidárias municipais pela força das emendas.

A distritalização também acaba sendo reforçada por situações não previstas. Em São Paulo, diversas circunstâncias acabaram por retirar da disputa os campeões de votos da direita nas duas últimas eleições para deputado federal, sem que o espaço fosse preenchido por novas estrelas capazes de eleger a si mesmas e mais uma fileira de indiretamente beneficiados. Para onde se deslocará esse “voto órfão” é uma incógnita.