sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Com a palavra, o eleitor

A eleição de outubro deverá dar o veredito sobre a opção feita pelo presidente da República após o 8 de janeiro de 2023. O custo das escolhas políticas nunca é zero, e as consequências podem demorar bastante. A única certeza é que um dia elas chegam.

Sem recorrer à conciliação de JK, cuja posse foi assegurada pelo então general Lott depois da contestação da UDN, em 1955, e que anistiou os revoltosos de Jacareacanga no ano seguinte, e sem poder repetir o caminho de Vargas, que após o levante de 1935 endureceu o regime e dois anos depois instaurou o Estado Novo, Lula apostou no presidencialismo de coalizão com um Judiciário fortalecido, que se enxergou como depositário de um poder quase absoluto.

Restava compor com as cúpulas do Congresso conservador, sempre arisco, uma costura somente concluída agora, na véspera da eleição. Esse desenho, somado à antipatia generalizada que a imprensa profissional dedica aos principais adversários do petista, produzia um arcabouço bastante razoável para a tentativa de reeleição. Lula mantinha coesa sua base fiel de sustentação social e preservava no essencial a frente ampla superestrutural que lhe deu a vitória apertada em 2022.

O que poderia dar errado? Aqui é inevitável lembrar a célebre frase “a vida sempre encontra um meio” (ou “um caminho”), dita pelo matemático Ian Malcolm, interpretado por Jeff Goldblum, no filme Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Steven Spielberg, 1993). Na obra, os dinossauros eram criados apenas como fêmeas, para evitar que se reproduzissem por conta própria. Mas a vida encontrou um jeito de implodir a limitação, com todas as trágicas decorrências.

Se quisermos ir mais longe, basta recordar, da mitologia grega, as histórias de Sísifo e Prometeu. Desafiar os deuses é sempre arriscado. E os problemas dos políticos (lato sensu) agravam-se quando eles mesmos passam a se considerar deuses e arriscam atrair a ira do Zeus da política, o eleitor, que alguma hora é chamado a dar seu juízo, mesmo quando o resto do Olimpo se julga imunizado.

Estamos nesse ponto. Ao longo de quase quatro anos, as duras consequências enfrentadas pelos acusados e depois condenados do 8/1, somadas ao opróbrio político e social lançado sobre a direita em geral pelos mecanismos reprodutores da opinião pública, contiveram os desdobramentos costumeiros de tensões produzidas em cenários assim, nas instituições e, principalmente, nas ruas.

Mas parece que o dique se rompeu. E, dado o equilíbrio na correlação de forças produzido pelas revelações recentes, parece que quem terá de cortar esse nó górdio, para um lado ou para o outro, será ele mesmo: o eleitor.

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