segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O barquinho vai…

Já faz quase dez anos que a turma de House of Cards tuitou admitindo que era difícil concorrer com o nosso realismo fantástico (a referência a Gabriel García Márquez fica por minha conta). O que diriam agora, com o país hipnotizado pela revelação e descrição, com detalhes espantosos, das conexões entre o ex-banqueiro e altos escalões políticos, judiciais e policiais da República?

Daqui a menos de um mês tem eleição, e o transe coletivo desencadeado por mais este striptease institucional tem tudo para ocupar o palco de forma duradoura. Vão sendo empurrados para o segundo plano o debate e a disputa sobre como tirar a economia brasileira da pasmaceira e trocar, por uma mais intensa, a luz fraquinha no fim do túnel. Não chega a ser inédito. Debates racionais e disputas programáticas são raridade nas eleições entre nós.

Não deveriam ser. Enquanto o escândalo consome o noticiário, é a economia que decide o voto — e é nela que está o enigma mais interessante desta eleição. É impossível analisar as dificuldades eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sem enveredar por aí. Até ele deve estar surpreso com o paradoxo: enfrenta talvez sua eleição mais difícil desde 1998, mesmo exibindo números econômicos bastante razoáveis e tendo com ele, ou no mínimo contra os adversários, a esmagadora maioria dos mecanismos de formação da opinião pública.

Após o 8 de janeiro de 2023, seria ridicularizado quem dissesse que, a despeito de um crescimento do PIB em torno de 2%, inflação rodando abaixo do teto da meta e plena ocupação (falta mão de obra), Lula estaria com taxas de avaliação insatisfatórias e intenção de voto na zona de risco a menos de um mês da tentativa de reeleição. Mas os números estão aí. É certo que sempre haverá a tentação de recorrer a outras explicações, mas seria mais um escapismo. É preciso olhar para a economia.

E o enigma complica-se quando se mede a percepção popular. A situação e as perspectivas econômicas do país não chegam a entusiasmar, mas a resposta dos entrevistados nas pesquisas fica longe de ser catastrófica, apesar das preocupações com as contas públicas. E até melhora quando se pergunta não sobre a economia do país, mas a respeito da situação econômica pessoal. Tampouco há um ambiente de pessimismo generalizado.

Onde estaria então o problema?

Uma hipótese é a combinação de dois fatores: o esgotamento de o modelo social-democrata produzir prosperidade e crescimento sustentados, e a revolta contra as deformidades de um Estado corrompido e vocacionado principalmente para blindar privilégios de uma minoria e concentrar renda. A face visível do antipetismo é ideológica, mas os alicerces estão na rejeição à preferência, pelo petismo, de uma estatolatria quase religiosa e à sua incapacidade de compreender o papel do capital e da poupança privados na produção de progresso e bem-estar no atual estágio do Brasil.

Daí que narrativas e iniciativas amplamente apoiadas em tese, como o aumento dos impostos sobre os ricos e a distribuição do dinheiro aos mais pobres, acabem rendendo pouco lucro político quando trazidas para a vida real. Qualquer um que passe 24 horas em Brasília percebe imediatamente que é baixíssima a probabilidade de um real a mais arrecadado do contribuinte acabar no bolso do pobre. Outro exemplo é a redução da jornada de trabalho sem cortar a remuneração. Quem não quer trabalhar menos ganhando a mesma coisa? Só que talvez o brasileiro médio esteja mais ansioso para ganhar mais do que trabalhar menos.

Como não parece haver por aqui um Deng Xiaoping para explicar à esquerda que não importa a cor do gato, desde que cace ratos, ela não está preparada para compreender que no estágio atual do capitalismo brasileiro, ainda que o trabalho é quem gere valor, são os capitalistas que podem produzir prosperidade, gerar empregos de boa qualidade e expandir a economia de modo a absorver as legiões de jovens que um dia o PT fez sonhar com a ascensão social.

A consequência está na preferência dos eleitores. O PT e a esquerda resistem nos públicos atendidos pelos programas sociais e nas áreas mais dependentes do Estado, mas vão minguando cada vez mais nos polos dinâmicos da economia. É tradição entre os partidos brasileiros que um dia sonham ser hegemônicos: nascidos nos grandes centros, vão sendo empurrados para os grotões conforme amoldam-se ao statu quo.

E chegamos a 2026. A disputa entre governo e oposição, entre esquerda e direita, pode ser contada, à luz desse cenário, como uma corrida entre dois barcos. Partem do mesmo ponto do rio, um deles rio abaixo e o outro rio acima, e vence quem primeiro percorrer certa distância, a mesma para os dois. Rio acima, contra a correnteza, segue o barco da situação petista, empurrado pelo motor de ser governo. Rio abaixo, a favor da água, vai o barco da oposição de direita, sem aquele motor, mas arrastado pela corrente.

E a correnteza, aqui, é o crescente ceticismo de que o Estado possa ser o impulsionador do progresso e da prosperidade, uma ideia que já foi dominante entre nós. O situacionismo tem o motor estatal, mas o oposicionismo tem o zeitgeist, o espírito do tempo. E este lhe tem sido suficiente para enfrentar o borrasca que o engoliu, em boa parte por seus próprios erros, na esteira da atabalhoada transição presidencial de 2023.

Sem motor e sem pressa, e enquanto a tardinha cai, o barquinho da oposição vai.

Nenhum comentário:

Postar um comentário