sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

E o interesse nacional?

O debate público sofre quando é inteiramente capturado pela fratura política, e daí a independência do pensamento entra em bloqueio. Uma consequência é o efeito-manada, as pessoas são arrastadas pela turba e frequentemente acabam indo contra o próprio interesse.

Acontece agora, no episódio do cartão vermelho das big techs para Donald Trump.

Alguns até pararam para pensar “o que eu ganho se as big techs, sob a batuta -ou com medo- da Casa Branca e do Capitólio, tiverem o poder de eliminar qualquer um do espaço de formação da opinião pública?”. Entretanto são poucos os sinceramente preocupados. A esmagadora maioria do campo antitrumpista, lá e aqui, vibrou.

Mas e nós? Se o Brasil fosse um jogador potente na corrida global da alta tecnologia, ainda vá lá. Poderíamos ser sócios minoritários da inédita concentração de poder pelos monopólios tecnológicos sediados nos Estados Unidos. 

Porém neste jogo nós temos força apenas relativa. Interessa ao Brasil que decisões de tamanha gravidade sejam tomadas sem que ninguém mais no mundo, além da Casa Branca e do Capitólio, possa influir?

Trump não foi apenas banido das redes. Sites e aplicativos ligados ao campo político que ele representa passaram a ser excluídos do acesso ao hardware indispensável às operações. E a gravidade da coisa foi tanta que levou líderes como Angela Merkel, insuspeita de simpatia ao trumpismo, a demonstrar insatisfação.

Um ponto de quem apoia o banimento é as redes sociais serem propriedade de empresas privadas, podendo portanto decidir o que vão, ou não, deixar postar. Mas se as empresas devem ter essa liberdade, junto deve vir a responsabilidade pelo conteúdo que elas permitem veicular em suas plataformas. 

Além do mais, elas operam em regime de monopólio. Não cabe aqui o argumento do livre-mercado.

As big techs querem ser tratadas estritamente como empresas de telecomunicações e tecnologia? Então o jogo será outro. A companhia telefônica não pode ser responsabilizada pelos que dizemos ao telefone, ou escrevemos nas mensagens de texto. Em compensação, tampouco pode cortar a linha do assinante por discordar do que ele diz ou escreve.

Só o Estado, por meio da Justiça, deve ter tal poder. Exatamente pelo fato de Estado e a Justiça não serem propriedade privada. Pelo menos na teoria.

Talvez seja ilusão pedir que este debate aconteça aqui no Brasil em torno de princípios e convicções, num tempo em que eliminar o adversário é a única regra válida do jogo político, um jogo aliás no qual ambos os lados se pretendem gladiadores em defesa da liberdade. Seria cômico se não fosse trágico.

Então que pelo menos não sejamos inteiramente submissos como nação a um poder que nos escapa.

Somos um país grande, com território, população e recursos econômicos suficientes para pretender um bom grau de autonomia nacional e projeção global. Mas este episódio exibe qual é talvez nosso principal obstáculo: a absoluta incapacidade de enxergar por cima das momentâneas disputas políticas e entender onde está o interesse nacional.

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Publicado originalmente na revista Veja 2.721, de 20/01/2021


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Planejar o longo prazo

Situações de stress extremo induzem à busca de soluções milagrosas e imediatas, com o pensamento mágico servindo de motor. É normal, portanto, o que vemos agora na pandemia da Covid-19: a ilusão de que a largada da vacinação vai trazer um alívio quase instantâneo.

Haverá algum alívio, sim, mas por enquanto ele estará restrito principalmente aos limites da psicologia. Na vida real, o vírus continuará circulando firme, fazendo adoecer e infelizmente matando, até a maioria da população estar imunizada. 

A partir daí é que se poderá falar em algum controle em grande escala. É o que dizem os especialistas (leia).

Então preparemo-nos para um 2021 duro. No qual não será possível trancar todo mundo em casa até a próxima São Silvestre nem será sensato fingir que o problema não existe. Precisamos de uma política de volta progressiva às atividades e que combine com as necessárias medidas de distanciamento social.

Isso é particularmente urgente na Educação (leia). As maiores vítimas da guerra político-judicial e da ausência de qualquer coordenação nacional para a retomada têm sido nossas crianças e jovens. Especialmente os da escola pública.



Clandestinidade

Costumo recorrer amiúde ao Conselheiro Acácio, personagem imortalizado na literatura por Eça de Queiroz, porque até hoje não achei expressão melhor que "as consequências vêm sempre depois" para descrever certas situações. Uma agora é isso de banir, ou quase, o trumpismo das redes sociais abertas. O que aconteceu? Ele vai migrando para a clandestinidade ou semiclandestinidade digital.

Aliás a clandestinidade pode ser um meio excelente para a multiplicação de militantes, com a vantagem de dificultar o rastreamento e monitoramento desses movimentos. Os exemplos históricos são abundantes. Um movimento político não precisa ser necessariamente grande para ser importante. Se for coeso e bem organizado, estará a postos para emergir quando a conjuntura política exigir, e permitir.

Mas nem sempre a racionalidade prevalece. Nem sempre se enxergam lances à frente no tabuleiro. A verdade é que as duas correntes, o trumpismo e o antitrumpismo, permanecerão vivas. O melhor para o sistema seria absorvê-las e fazê-las disputar a política por dentro da institucionalidade. Vale para os Estados Unidos mas vale também para o Brasil.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Sejamos otimistas

O governo federal empenha todo o seu poder de logística para iniciar semana que vem a vacinação contra a Covid-19. Aviões vão à Índia buscar milhões de doses da AstraZeneca/Oxford. E tem também os outros milhões da CoronaVac já aqui no Brasil. A palavra final da Anvisa está prevista para domingo.

Quando começar a vacinação, começará também o novo round da guerra de narrativas, sobre quem "sempre teve razão". Mas, para suas excelências, o cidadão e a cidadã comuns, isso pouco importará: a brasileira e o brasileiro querem é ser vacinados.

E como isso vai repercutir em 2022? Se Deus quiser, até ali a vacinação já terá imunizado a grande maioria, e a vida terá retornado ao quase normal. O "quase" fica por conta da necessária desconfiança, pois a ponte para o futuro está sendo construída com os carros já passando por cima dela.

Sejamos otimistas. Pensemos no melhor cenário. Nele, chegaremos a 2022 com os candidatos aos diversos cargos, a começar da Presidência, tendo de procurar outro assunto para brigar, pois a Covid-19 será bananeira que deu cacho.

Não custa sonhar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Números relativos

Israel já vacinou mais de 20% da população, e uns 80% dos idosos. Claro que não dá para comparar um país de nove milhões de habitantes (bem menos que a cidade de São Paulo) com um das dimensões do Brasil, mas é campo interessante para acompanhar resultados da vacinação.

A vacina ali aplicada é a da Pfizer e alguns resultados iniciais mostram taxas de infecção entre os vacinados caindo cerca de 50% catorze dias após a primeira dose. Há porém números concorrentes. Outro estudo diz que essa queda é de 33%. Um outro diz que é de 60%.

Fica a dica: qualquer certeza absoluta sobre números a esta altura é perigosa, muito perigosa. Na prática, os estudos sobre efeitos das vacinas estão caminhando junto com a vacinação, dado o caráter de emergência do problema sanitário global trazido pela Covid-19.

No mundo ideal, deixaríamos o marketing e as disputas políticas para depois e procuraríamos vacinar a maior população possível o mais rapidamente possível. Não sabemos que número vai dar no final, mas podemos ter certeza de que mais gente vai sobreviver à doença se fizermos isso.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Que comece o jogo

Como já foi dito aqui, uma vantagem da disputa política entre o governo federal e o paulista em torno da vacinação contra a Covid-19 é a corrida ter entrado no estágio em que ambos querem mostrar serviço. Bom para a população que precisa ser vacinada. Afinal de contas, que os políticos briguem, mas o cidadão e a cidadã comuns querem mesmo é uma vacina segura e eficiente.

O ministro da Saúde informou que os estados receberão as vacinas três a quatro dias após a chegada delas ao país ou a liberação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) (leia). Que este dia chegue o mais rápido possível. Há muita espuma no debate, mas ainda estamos em tempo, na comparação com outros países da dimensão do nosso.

E temos uma vantagem: uma máquina de vacinação construída e azeitada ao longo de décadas. Basta que a entropia política dê uma folga e as autoridades se concentrem na missão de fazer a coisa acontecer. Pois, ao fim e ao cabo, elas serão julgadas nas urnas de 2022 pelo que fizeram ou deixaram de fazer, e não tanto pelo que se disse delas.

Acabou o pré-jogo, agora a decisão é em campo.


sábado, 9 de janeiro de 2021

Para a defesa de interesses, manobras complexas

Governos que se mantêm apesar das crises induzem a celebrar e elogiar a institucionalidade; já governos que fracassam e caem têm sempre a tentação das teorias conspiratórias. Mas a realidade, em última instância, é uma só: cabe a qualquer governo cuidar de suas bases de sustentação, sem elas está fadado à ruína. Seja qual for a "institucionalidade".

E quando a ruína vem, abre-se a possibilidade de uma ofensiva do inimigo, que costuma ser implacável e brutal. E que só freia quando se estabelece uma nova correlação de forças, mais equilibrada. Ainda não chegamos a esse ponto nos Estados Unidos. A coalizão política, social e cultural organizada pelo Partido Democrata contra Donald Trump só começou seu avanço.

E com a ordem de não fazer prisioneiros.

E a ofensiva ali se espalhará por todos os fronts. A guerra cultural será particularmente cruenta, na tentativa de ajustar as contas com as raízes mesmo da formação nacional norte-americana e daí buscar uma legitimidade de tipo completamente novo. Até chegar o dia em que tudo isso vai cansar e os robespierres de hoje forem encaminhados à guilhotina.

Claro que em pleno século 21 essa é apenas uma figura de linguagem. Mas os precedentes históricos são vários.

E o que temos a ver com isso, tirando o óbvio interesse pelo espetáculo? O que os americanos vão fazer com o país deles é assunto deles, mas o problema é se tratar de uma superpotência, a maior, e com armamento capaz de destruir a civilização algumas vezes. E qual será o melhor meio para os novos detentores do governo ali buscarem mais apoio num país fraturado?

Além de fazer a revolução interna, tentar restabelecer a liderança planetária que vai escorrendo pelo ralo do fantasma da decadência econômica.

A política de Donald Trump para fazer a América grande de novo sustentava-se no resgate das raízes nacionais e, principalmente, no buy american and hire american. Os americanos comprarem produtos americanos e produzirem em casa. Joe Biden repete o buy american, mas a ambição dele é maior: remontar a hegemonia planetária.

Aí cada país, dos maiores aos menores, precisará entrar num jogo de manobras complexas, buscando no todo e em cada situação defender seus próprios interesses, e ao mesmo tempo adaptar-se aos interesses de quem tem a vantagem da força. Porque, novamente, nunca é prudente subestimar a correlação de forças.

E qual o desafio maior do Brasil na nova conjuntura? Talvez saber qual é exatamente o interesse nacional neste momento da nossa história. Dificuldade que aliás começa pela dúvida, espalhada sistematicamente na periferia do sistema global: faz sentido falar em “interesse nacional” já passadas duas décadas deste novo século?

Fazendo um certo reducionismo caricatural, o Brasil parece estar dividido entre quem preferia engatar incondicionalmente nosso vagão na locomotiva trumpista e quem agora está pronto a bater continência à nova ordem, também de modo incondicional, desde que receba de fora o apoio suficiente para fazer aqui dentro seu próprio ajuste de contas.

Não chega a ser animador.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Lição de Brasil

De vez em quando é preciso ser otimista. E hoje é um dia assim. Depois da espera, não um, mas dois registros de vacinas contra a Covid-19 foram pedidos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. 

Da CoronaVac, parceria entre a chinesa Sinovac e o Butantan, e da AstraZeneca/Oxford, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz. A primeira é a aposta do governo de São Paulo (João Doria). A segunda é a aposta principal do governo federal (Jair Bolsonaro).

Está instalada a competição, começou a corrida. Em disputa, não apenas os imunizantes, mas a estrutura e os instrumentos, principalmente as seringas. Quem vai ganhar ao final? Quem mais eficazmente realizar a missão nos próximos meses. E a vacina que se provar mais efetiva no essencial: imunizar a população contra o SARS-CoV-2, inclusive suas novas variantes.

Restam dúvidas? Que sejam esclarecidas pela Anvisa, perfeitamente equipada para tanto.

O episódio é mais uma lição de Brasil. Sobre nosso país, nunca convém otimismo excessivo sobre as possibilidades, mas tampouco é conveniente ceder ao catastrofismo. É o caso agora. A Covid-19 não vai desaparecer num passe de mágica por aqui, mas não seria sensato supor que ficaríamos para trás enquanto o mundo todo já estivesse se vacinando em massa.



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Free speech e controle

O Facebook e o Twitter cortaram temporariamente a possibilidade de o presidente Donald Trump postar nas redes sociais dos dois conglomerados. É um dos mais nítidos sinais de já haver, na prática, um novo governo em Washington.

Ao longo do mandato de Trump, as redes conviveram bem com a utilização desses canais pelo presidente, inclusive quando ele propagava informações não comprovadas, ou não comprováveis. As sobre a pandemia são um exemplo. A preocupação com o combate às fake news só apareceu depois que ele perdeu a reeleição.

Seria ingenuidade imaginar que mesmo os maiores conglomerados econômicos não precisem, em algum momento, bater continência para o poder. Mais confortável é quando podem fazer isso alegando a "defesa da democracia e das liberdades". É o best-case scenario de agora.

Do episódio, fica pelo menos uma preocupação. Quem define o que pode ou não ser postado nas redes? Dar esse poder aos governos parece excessivo? E dar esse poder às próprias empresas, é aceitável? E como o direito ao free speech sobreviverá a tudo isso?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Uma data (realmente) histórica

Todo fenômeno histórico precisa, quando estudado, receber uma data fundadora, com um acontecimento determinado. É apenas uma convenção, mas útil para estudar a explicar o andamento da história em termos mais didáticos.

Foi assim com o século 20, dito o século curto, pois teria começado na Primeira Guerra Mundial e terminado no colapso da União Soviética. E a metodologia vale sempre, com a vantagem de conferir ao analista e estudioso o poder de ajeitar o calendário para fundamentar uma tese.

Hoje é um dia assim, ficará disponível para os historiadores quando precisarem explicar os acontecimentos que contribuíram para a disfuncionalidade da democracia nos Estados Unidos. Pois nunca antes ali os derrotados recusaram reconhecer a vitória do adversário depois de abertas as urnas.

Outros poderão argumentar que não, que a confusão toda começou quando os democratas tiraram do baralho a carta da "conspiração russa que elegeu Trump", e que levou ao impeachment dele. Bem, fica a critério de cada um, e cada um tem o direito de ter suas preferências.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Torcendo pelo empate

Segundo o Banco Mundial, a economia global deve crescer 4% este ano após ter encolhido 4,3% ano passado (leia). Previsões de como o ano vai terminar feitas assim no comecinho devem ser vistas com reservas. Mas um número é sempre um número. E quem faz as previsões tem bastante tempo para ir depois ajustando a vela conforme a direção do vento.

Se bem que a própria previsão contrata um seguro-calamidade. Se a pandemia piorar e a vacinação tropeçar, o banco diz que a recuperação global pode ficar em minguados 1,6%. Assim não é tão difícil acertar previsão. É o óbvio ululante: a recuperação econômica depende de as pessoas se sentirem seguras para produzir e, mais que tudo, consumir.

Puxada pela China (previsão de 7,9% em 2021), a economia dos emergentes deve escalar 5%, o dobro do que contraiu em 2020. Pena que no Brasil, na melhor das hipóteses, a subida este ano só vai compensar a queda do ano passado. Esse "só" é exagero meu. Se conseguirmos o empate, será motivo de queima do fogos no -esperamos- animado réveillon de 2022.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O túnel é comprido

É humano o animar com o início da aplicação, mundo afora, das vacinas contra a Covid-19. É uma luz no fim do túnel. O problema? O túnel é bem comprido. Normalidade? Talvez em 2022. Pois será necessário que mais da metade da humanidade esteja vacinada. E isso vai demorar.

Países menores e mais organizados, como Israel, levam vantagem. Mesmo que Israel esteja mergulhado numa crise política crônica. Por razões historicamente óbvias, persistem ali uma capacidade operacional do Estado e uma certa coesão social. Mesmo quando os políticos brigam.

Por aqui, segue a contenda. Quem vai levar? Um troféu irá para o que primeiro começar a vacinar, mas a maior taça está reservada para as mãos de quem bem resolver a coisa no macro: com vacinas, seringas, postos de vacinação e profissionais treinados, tudo Brasil afora.

E tem também agora o debate em torno das clínicas privadas de vacinação. Que querem importar vacina da Índia. Diz o Ministério da Saúde que precisarão respeitar a ordem de grupos prioritários estabelecida para a população em geral (leia). Tem lógica.



sábado, 2 de janeiro de 2021

A sorte, o azar e o calendário

Na política, às vezes a sorte ou o azar estão conectados ao calendário. Barack Obama teve sorte quando a crise financeira de 2008 estourou na véspera das eleições presidenciais. Azar do John McCain. Donald Trump teve azar quando a eleição do ano passado aconteceu já com uma montanha de mortos ali pela Covid-19 mas antes de as vacinas entrarem em campo. Sorte do Joe Biden.

Se as coisas no Congresso Nacional não desandarem antes para Jair Bolsonaro – um round fundamental será jogado na eleição para presidente da Câmara dos Deputados –, o ponto a monitorar serão as projeções para a situação do presidente e candidato à reeleição em meados do segundo semestre de 2022. Como estarão ali as três variáveis mais presentes hoje em qualquer análise prospectiva?

São elas, não necessariamente na ordem de importância: 1) a assim chamada guerra cultural, 2) a economia e 3) a Covid-19. Sobre a primeira, é visível que pelo menos no plano internacional a corrente a que o bolsonarismo se filia sofre revezes. O mais vistoso foi a derrota de Trump, porém não o único. 2022 ainda vai politicamente longe, mas não se enxergam por enquanto possibilidades que revertam essa tendência até lá.

Sobre a economia, os dados de atividade, emprego e confiança apontam recuperação. A dúvida é se o paciente continuará recuperando depois de extubado do auxílio emergencial e demais medidas extraordinárias. E ainda tem a inflação a acompanhar, com uma possível elevação de juros no horizonte. Os mercados andam otimistas, mesmo descontado o fator excesso de liquidez.

E a Covid-19? O cenário mais provável é chegarmos a meados do segundo semestre de 2022 com uma contabilidade estonteante de mortes, mas também com o grosso da população brasileira vacinado. O que vai prevalecer? A polêmica sobre quem foi o culpado pelos números trágicos? Ou o alívio pelo sucesso da imunização? Sempre supondo, é claro, que a vacina seja mesmo um sucesso. Mas não custa otimismo de vez em quando.

Por enquanto, o presidente leva a melhor na guerra das narrativas, como mostrou o Datafolha. Só 8% acham que ele é o principal culpado pelas mortes da pandemia. E 52% acreditam que ele não tem culpa nenhuma. Um aspecto intrigante nesses números é eles estarem descolados da clássica divisão do eleitorado em três terços: pró, contra e centristas. Ou seja, os números da pesquisa não foram capturados pela dita polarização.

Cada um que faça seu prognóstico. O meu é que a Covid-19, e quem foi o culpado pelas mortes por ela provocadas, talvez não venha a ser o filé mignon da campanha de 2022. E se a economia estiver razoável, tampouco esta será. É possível que a eleição aqui mimetize em algum grau a americana do ano passado, onde a chave foi a formação de uma frente sócio-política-cultural anti-Trump cujo único ponto de convergência era tirá-lo do poder.

Por isso, não basta ao presidente chegar forte e competitivo em 2022, com a economia bem e senhor da narrativa que coesiona seu campo. Trump chegou e perdeu, também pelo azar com o calendário. E apesar dos sucessos na economia. Bolsonaro precisará dar um jeito de evitar a convergência do oposicionismo. Por enquanto, ele vem trabalhando para fazer o contrário, para juntar os que a ele se opõem. 

O primeiro grande sinal é a ensaiada união do PT com os algozes de Dilma Rousseff no impeachment dela.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Só lá na frente

Assim é a política. O quase ex-presidente Donald Trump acha pouco os US$ 600 que o Congresso quer dar a título de auxílio a milhões de americanos por causa da crise provocada pela Covid-19. Trump quer que sejam US$ 2.000. O problema? O valor aprovado foi fruto de um suado acordo neste pedregoso fim de ano entre deputados e senadores democratas e republicanos (leia).

Para quem está indo embora, jogar para a plateia e provocar confusão tem um custo apenas relativo. No caso de Trump, com um ingrediente adicional: ele está muito longe de pretender se aposentar, e um de seus alvos principais desde agora são os homens e mulheres do partido dele que correram, uns mais rapidamente, outros mais devagar, a reconhecer a vitória de Joe Biden.

E no Brasil? A criação de empregos vai razoavelmente bem, segundo o Caged (leia). Mas a recuperação leva mais gente a procurar emprego, e daí crescem também as taxas de desemprego (leia). Uma dúvida que continua é se a recuperação vai resistir ao fim do auxílio emergencial, que deixará o palco junto com 2020. Mas isso só saberemos lá na frente.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Guerra prolongada

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) informou que dia 8 de fevereiro começa a entregar ao Ministério da Saúde a vacina AstraZeneca/Oxford (leia). Antes, e com certa antecedência, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) certificara as boas práticas do laboratório Sinovac, que desenvolveu a vacina CoronaVac, a ser fabricada e distribuída no Brasil pelo Instituto Butantan (leia). .

Ou seja, apesar de todo o bate-boca, das divergências, da disputa por protagonismo, parece que as coisas caminham bem no que interessa saber: quando a população brasileira começará efetivamente a ser imunizada contra o SARS-CoV-2. Pois os fatos estão mostrando que a vacinação é na prática o único meio disponível para tentar erradicar a Covid-19.

Digo "tentar" porque ninguém pode garantir que com a vacinação o vírus vai ser extirpado do nosso meio. É possível que mesmo na melhor hipótese ele permaneça residualmente, o que vai exigir um esforço permanente de cuidados, de rastreamento e de providências dele decorrentes. Será uma guerra prolongada.

Mas a vacina, isso é inegável, vai ser o melhor passaporte para a volta à normalidade.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Interessa a todos

O surgimento de uma nova cepa de SARS-CoV-2 altamente contagiosa no Reino Unido levou a três consequências imediatas. A primeira é acelerar a tendência das autoridades europeias a impor novos lockdowns. A segunda é a propagação em cacata do fechamento de fronteiras para oriundos das nações afetadas. A terceira é a aceleração ainda maior da corrida pela vacina.

Concentremo-nos na última. A esta altura, vai ficando claro que não haverá saída para controlar a propagação do contágio que não seja o imunizante. A boa notícia é a rapidez com que ele vai sendo desenvolvido nos diversos países. Vamos torcer para a distribuição andar bem e ser universal. Pois até agora o que se viu foi a prioridade para vacinar as populações dos países desenvolvidos.

Entre nós, será o caso de pedir às autoridades nos diversos níveis que se entendam. Aliás é o que se está pedindo há quase um ano, desde que a crise começou, e até agora sem grandes resultados. É ingenuidade imaginar que um problema desse tamanho possa não ser afetado pela política. Mas também seria inteligente os governantes, em todas as esferas, notarem que a rapidez da solução interessa a todos.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Um plano

O Supremo Tribunal Federal marcou para o próximo dia 16 o julgamento de duas ações que tratam da vacinação para a Covid-19 (leia). 

A primeira pede que o tribunal obrigue o governo federal a adquirir a vacina Coronavac produzida no Instituto Butantan. A segunda, que o governo apresente em 30 dias um plano nacional de vacinação.

É um sintoma da progressiva disfuncionalidade política. O que deveria ser resolvido com o exercício da autoridade do Poder Executivo, ou do próprio Legislativo, escorrega para a esfera do Judiciário. 

E depois reclamam quando este poder chama a si o que é atribuição dos demais. Não que faltem motivos para críticas aos juízes. Mas seria ingenuidade imaginar que arrastados para o centro do palco eles não ocupariam o espaço aberto para protagonismo.

Sobre as vacinas, a população espera um plano seguro, efetivo e viável para o máximo de pessoas conseguirem imunizar-se no menor tempo possível. E espera que os políticos, lato sensu, se entendam para o objetivo ser atingido.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O PIB

O PIB do terceiro trimestre veio um pouco abaixo das expectativas, com um crescimento de 7,7% em relação ao anterior. A boa notícia é que indústria, comércio e investimentos puxaram o índice para cima (leia). 

Ainda que no acumulado final do ano a maior parte das atividades vá mostrar queda em relação a 2019.

Os números positivos do Caged de outubro (leia) já haviam sido um indicador de recuperação. Mesmo a recente alta na taxa de desemprego medida pelo IBGE refletiu mais o aumento da busca por trabalho que qualquer outra coisa.

A dúvida agora é se a recuperação vai resistir ao fim dos mecanismos financeiros de suporte criados para enfrentar as consequências da pandemia. O governo parece apostar que sim, pois até o momento deixou de lado qualquer ideia de prorrogá-los. Até o momento.

Passadas as eleições municipais, o ritmo de recuperação da economia em 2021 vai ajudar a desenhar o retrato político do ano, com a óbvia consequência na sucessão presidencial de 2022. Pois daqui a dois anos, com as vacinas, espera-se que a Covid-19 tenha deixado de ser assunto.

Não custa ser otimista.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A Argentina precisa ser explicada

Uma característica de quando o debate político perde conexão com a racionalidade é os fatos deixarem de ter importância. E a discussão usa e abusa do cherry picking, a supressão das evidências incômodas. Bem, um caso que merece ser mais debatido é o da Argentina.

O país vizinho vem de encerrar seu lockdown, um dos mais rígidos do planeta. Mesmo antes disso, os argentinos já exibiam números complicados. Em mortes por milhão de habitantes, faz tempo que nos ultrapassaram (leia). E caminham ao topo do ranking mundial.

Agora, a OCDE diz que na economia os números argentinos de 2020 serão igualmente ruins. A recessão vai bater nos 13%, o pior desempenho do G20 (leia). Se bem que Espanha e Reino Unido devem ser fortes concorrentes ao triste troféu.

Não se trata de concluir apressadamente que o lockdown dos vizinhos não serviu para nada. Mas tampouco será o caso de fingir que tudo está dentro da normalidade no universo dos argumentos e contra-argumentos em torno da Covid-19 e de como enfrentá-la de um jeito correto. 


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Relax à espera da vacina

As eleições trouxeram com elas, especialmente nos dias anteriores à urna, aglomerações de candidatos, políticos e apoiadores. O paroxismo deu-se nas compreensíveis comemorações dos vitoriosos. Mas não passou despercebido que, horas depois, voltassem as advertências e medidas sobre a ainda gravidade da ação do SARS-CoV-2 entre nós. Assim tem sido a política por aqui.

Seria injusto entretanto particularizar. O relaxamento tem sido geral, e o símbolo destes dias bem poderiam ser as praias superlotadas. Há quem diga que praias não são tão propícias assim para o contágio, vai saber... Mas e festas em lugares fechados? Com certeza são. E o pessoal não parece estar nem aí. Torçamos e rezemos para que as UTIs, e o povo que nelas trabalha, sejam suficientes.

Porque as perspectivas da eventual vacina ainda são cheias de incógnitas (leia). Muitas variáveis. Uma estratégica é a temperatura em que o imunizante precisa ser conservado. Aqui, o ótimo parece novamente ser inimigo do bom. Melhor uma vacina que não exija tantos cuidados de conservação, e portanto possa estar disponível com menos complicações logísticas.