Se o não voto (branco/nulo/não foi votar) nesta eleição presidencial bater em 35%, o candidato que conseguir 20% do total fará 30% dos válidos. É um desempenho que traz alta probabilidade de ir a um eventual 2º turno, marcado para 28 de outubro. Que só não acontece se alguém fizer metade mais um dos válidos no primeiro. O que ainda parece distante, também pela quantidade de candidatos com pelo menos alguma musculatura.
Há 5 nomes que já passaram a barreira da competitividade. E 2 que estão no limiar de ganhar alguma substância. Bolsonaro, Haddad (o candidato de Lula), Marina, Alckmin e Ciro. E Alvaro Dias e Amoêdo. É muita gente na pista. E com um detalhe: os 5 mais bem colocados têm caminhos possíveis para alcançar o número mágico de 20% do total, ou 30% dos válidos, se confirmada a hipótese que abre este texto.
Bolsonaro já está no patamar. Precisa pelo menos manter-se nele. Se ganhar uns pontinhos, uma gordurinha, fica menos vulnerável à lipoaspiração de que será alvo no horário eleitoral, onde tem desvantagem massacrante. As pesquisas dirão se o capitão usou bem sua aparição na TV esta semana para acumular um extra. Se tiver conseguido, será ótima notícia para ele e, portanto, péssima para quem disputa com ele os votos da direita.
Em todas as pesquisas, o PT aparece com pelo menos 20% da preferência popular. É razoável supor que seja um objetivo viável para o candidato do PT no 1º turno. Sem contar os pelo menos dez pontos percentuais de eleitores que dizem querer votar só em Lula e mais ninguém. Também é racional olhar esse contingente como uma oportunidade de mercado para o candidato do PT.
Nos cenários sem Lula, o tucano Alckmin ou bate nos 10% ou está perto. E tem abundância de recursos, principalmente tempo de tela, para passar sua mensagem. Se não se aproximar dos 20% terá sido por deficiência própria, e não pelas circunstâncias. Também porque tem a simpatia importante, medida em pesquisas, entre o assim chamado establishment ou a elite. O leitor ou leitora escolhe o rótulo que preferir.
Marina fez 20% dos votos válidos em 2010, quando não chegou a ser incomodada na campanha, e 22% em 2014, quando foi soterrada na TV pela aliança tática do PT com o PSDB para tirá-la do 2º turno. Sem Lula, ela está mais ou menos no patamar de quatro anos atrás. Se conseguir algum gás com base na plataforma progressista-liberal, muito na moda, não terá grande dificuldade para acumular uns pontinhos a mais.
Se Haddad não for tão eficiente assim na colheita do voto lulista, Ciro é outro que pode dar as caras na reta final deste 1º turno. Sem contar que Ciro é também palatável para um pedaço do eleitorado que não quer saber de Lula ou do PT, e o candidato do PDT não tem descuidado dessa turma. Ciro corre o risco de não ser totalmente confiável para nenhum lado da polarização? Sim, mas também é inegável que tem trânsito em ambos os campos.
Cada um é livre para apostar no que quiser. Mas é bom colocar as barbas de molho. Não é impensável que cheguemos na reta final do 1º turno com pelo menos 4 candidatos em condições de ir à final. E um detalhe: em 2014, Aécio passou Marina, nos últimos dias, para não dizer nas últimas horas. E São Paulo teve um peso decisivo para isso.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
Alon Feuerwerker
jornalista e analista político
bio -> https://pt.wikipedia.org/wiki/alon_feuerwerker
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
Os mistérios do tempo. O muito tempo de Alckmin na TV e o pouco tempo para o PT fazer Haddad
O debate sobre a eleição tornou-se nos últimos dias um debate sobre o tempo. Se o muito tempo de Geraldo Alckmin na TV e no rádio será decisivo para levá-lo ao segundo turno. E se o pouco tempo, talvez apenas três semanas, para o PT informar o eleitor que Lula é Fernando Haddad, ou o inverso, será suficiente para trazer ao ex-prefeito os votos necessários.
Vamos começar pelo tempo de TV. Claro que ter muito é bem melhor que ter pouco, ou quase nada. As ironias em contrário são só mais do velho “as uvas estão verdes”. Quem não gostaria de ter mais presença no ar? A eleição de 2014 provou que tempo conta. Especialmente para atacar e enfraquecer o quanto possível adversários com quase nada de munição.
Mas mesmo 2014 mostrou que essa variável deve ser vista com inteligência. O PT prevaleceu sim então porque tinha muito tempo, mas principalmente porque usou a vantagem para consolidar uma narrativa verossímil, que tinha aderência à realidade. Pobres x ricos. Também porque os adversários adotaram a tática de acenar ao chamado mercado.
Muito tempo é bom, mas não exime de precisar contar uma história com começo, meio e fim. Alckmin tem larga vantagem no quesito, mas precisa encontrar um jeito de sair da armadilha de ser visto como o candidato que vai continuar o programa do governo de Temer. Até porque ele é mesmo o candidato viável que mais carrega a esperança, ou o risco, dessa continuidade.
A campanha do PSDB está fazendo o possível, ao debitar na conta do PT a catástrofe econômica produzida em 2015/16. Até porque o governo era mesmo do PT. Emplacar esse discurso seria mais fácil se Dilma Rousseff ainda estivesse sentada na cadeira do Planalto. Mas obviamente não se quis arriscar deixar o petismo concorrer de caneta na mão. Tudo tem um preço.
Agora quem está lá é o aliado Temer e seu brutal déficit de imagem. Outro detalhe é que Dilma absorveu o passivo do petismo em política econômica, e deixou o ativo para Lula. Bem, mas foi Lula quem indicou Dilma. Seria algo que o ex-presidente precisaria explicar. Mas ele está preso e não o deixam explicar nada. E o candidato real, Haddad, deve menos explicações ainda sobre isso.
E o PT? Precisará executar uma operação desafiadora, inclusive pelo ineditismo. Tem algum tempo de TV mas poucos dias para a missão, e enfrenta até agora uma Justiça hostil, que não deve estar feliz com a tática petista de quase desobediência civil. É razoável supor que o partido não voará em céu de brigadeiro quando quiser colocar suas mensagens no ar.
A atenuante das dificuldades do PT é que a legenda parece estar unida em torno da tática. Depois de alguma espuma no noticiário sobre as resistências a Haddad no Nordeste, o candidato de facto está há dias na região posando para imagens com os governadores dali. E não parece haver divergência no PT sobre o que fazer quando Lula for sacado da corrida.
Não se vê no petismo ninguém relevante pregando voto nulo se Lula não puder mesmo concorrer. Nem propondo descarregar em Ciro Gomes ou Marina Silva. Ou seja, se o PT terá pouco tempo para a transfusão, pelo menos não precisará desperdiçar uma parte preciosa desse tempo aparando arestas internas e com aliados. Não deixa de ser um alívio.
Jair Bolsonaro tem um problema aparentemente tão grande quanto o pouco tempo de TV. O noviciado em campanha presidencial. É coisa que costuma levar o sujeito a atravessar a rua para escorregar em casca de banana na outra calçada. Pela primeira vez nesta corrida, o candidato do PSL dá mostras de fragilidade e desconforto com a pressão.
Outro novato, Haddad, está por enquanto protegido pela candidatura de Lula. Mas é lógico supor que irá apanhar que nem gente grande nos debates e entrevistas a partir de quando for oficializado. É improvável que os adversários assistam ao desfile petista como quem acompanha embasbacado uma parada militar do Dia da Vitória.
Já os veteranos Ciro e Marina mostram-se à vontade. Não são alvo de ninguém. Resta saber se vão conseguir aproveitar a calmaria.
Vamos começar pelo tempo de TV. Claro que ter muito é bem melhor que ter pouco, ou quase nada. As ironias em contrário são só mais do velho “as uvas estão verdes”. Quem não gostaria de ter mais presença no ar? A eleição de 2014 provou que tempo conta. Especialmente para atacar e enfraquecer o quanto possível adversários com quase nada de munição.
Mas mesmo 2014 mostrou que essa variável deve ser vista com inteligência. O PT prevaleceu sim então porque tinha muito tempo, mas principalmente porque usou a vantagem para consolidar uma narrativa verossímil, que tinha aderência à realidade. Pobres x ricos. Também porque os adversários adotaram a tática de acenar ao chamado mercado.
Muito tempo é bom, mas não exime de precisar contar uma história com começo, meio e fim. Alckmin tem larga vantagem no quesito, mas precisa encontrar um jeito de sair da armadilha de ser visto como o candidato que vai continuar o programa do governo de Temer. Até porque ele é mesmo o candidato viável que mais carrega a esperança, ou o risco, dessa continuidade.
A campanha do PSDB está fazendo o possível, ao debitar na conta do PT a catástrofe econômica produzida em 2015/16. Até porque o governo era mesmo do PT. Emplacar esse discurso seria mais fácil se Dilma Rousseff ainda estivesse sentada na cadeira do Planalto. Mas obviamente não se quis arriscar deixar o petismo concorrer de caneta na mão. Tudo tem um preço.
Agora quem está lá é o aliado Temer e seu brutal déficit de imagem. Outro detalhe é que Dilma absorveu o passivo do petismo em política econômica, e deixou o ativo para Lula. Bem, mas foi Lula quem indicou Dilma. Seria algo que o ex-presidente precisaria explicar. Mas ele está preso e não o deixam explicar nada. E o candidato real, Haddad, deve menos explicações ainda sobre isso.
E o PT? Precisará executar uma operação desafiadora, inclusive pelo ineditismo. Tem algum tempo de TV mas poucos dias para a missão, e enfrenta até agora uma Justiça hostil, que não deve estar feliz com a tática petista de quase desobediência civil. É razoável supor que o partido não voará em céu de brigadeiro quando quiser colocar suas mensagens no ar.
A atenuante das dificuldades do PT é que a legenda parece estar unida em torno da tática. Depois de alguma espuma no noticiário sobre as resistências a Haddad no Nordeste, o candidato de facto está há dias na região posando para imagens com os governadores dali. E não parece haver divergência no PT sobre o que fazer quando Lula for sacado da corrida.
Não se vê no petismo ninguém relevante pregando voto nulo se Lula não puder mesmo concorrer. Nem propondo descarregar em Ciro Gomes ou Marina Silva. Ou seja, se o PT terá pouco tempo para a transfusão, pelo menos não precisará desperdiçar uma parte preciosa desse tempo aparando arestas internas e com aliados. Não deixa de ser um alívio.
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Jair Bolsonaro tem um problema aparentemente tão grande quanto o pouco tempo de TV. O noviciado em campanha presidencial. É coisa que costuma levar o sujeito a atravessar a rua para escorregar em casca de banana na outra calçada. Pela primeira vez nesta corrida, o candidato do PSL dá mostras de fragilidade e desconforto com a pressão.
Outro novato, Haddad, está por enquanto protegido pela candidatura de Lula. Mas é lógico supor que irá apanhar que nem gente grande nos debates e entrevistas a partir de quando for oficializado. É improvável que os adversários assistam ao desfile petista como quem acompanha embasbacado uma parada militar do Dia da Vitória.
Já os veteranos Ciro e Marina mostram-se à vontade. Não são alvo de ninguém. Resta saber se vão conseguir aproveitar a calmaria.
terça-feira, 21 de agosto de 2018
Otavio Frias Filho (1957-2018): Uma inteligência se vai
Fui contratado pela Folha de S.Paulo em agosto de 1986. Para cobrir férias na editoria de Internacional. Quem me levou para lá foi Igor Fuser, o então editor e que tinha sido meu correligionário na universidade. Eu vinha do jornal do Partido Comunista Brasileiro, o Voz da Unidade. E militara com Igor no PC do B. E conhecia Otavio Frias Filho do movimento estudantil. Depois da cobertura de férias, uma vaga abriu e acabei ficando no jornal.
Otavio, que no jornalismo era OFF, deu emprego naqueles anos da Folha a toda uma geração de militantes de esquerda que vinham da agitada política universitária no ocaso da ditadura. Ele tinha, e manteria por toda a vida, sérias restrições ideológicas àquela turma que trazia para o jornal. Mas nunca discriminou ou promoveu –que eu me lembre– ninguém por causa de posição política. Só pedia que quem assumisse posto de comando não estivesse em direção de partido.
Ao mesmo tempo, ou talvez por causa disso, Otavio era obcecado por evitar que o jornalista militasse nas páginas da Folha. Quem leu “A Regra do Jogo”, de Cláudio Abramo, e entendeu, poderá contextualizar o zelo do jovem diretor com a imagem de apartidarismo e pluralismo que o jornal queria projetar, na estratégia mercadológica em busca da liderança em tempos de redemocratização.
A realidade costuma ser contraditória, e o modus operandi da Redação naqueles anos gloriosamente tumultuados nada tinha de pluralista. Uma disciplina militar sob comando fortemente centralizado. Uma revolução jornalística conduzida de modo prussiano. Pensando bem, exemplos mais a leste que a Prússia seriam melhores. OFF impôs com mão de ferro o primado da técnica que prometia nos aproximar do limite alcançável da utópica objetividade.
Quando me convidaram para falar este ano no lançamento da nova edição do Manual da Redação, lembrei daqueles dias enlouquecidos e do lema de Juscelino, “cinquenta anos em cinco”. Estar na Redação da Folha de 1986 a 1991 era graduação, mestrado e doutorado, tudo junto e misturado. O sujeito que queria aprender e se empenhava nisso ganhava bagagem para enfrentar quase qualquer desafio na vida profissional.
Claro que fácil não foi. Nem indolor. Quem preferir, pode carregar daquela época as dores e as cicatrizes da guerra. Ou as mágoas. Toda guerra faz vítimas. Eu prefiro lembrar das oportunidades, das lições, das experiências, da sensação boa de participar de algo maior e importante. Sou grato ao Otavio. E sentirei falta dos textos bem elaborados, nos quais eu sempre achava alguma razão para divergir. Quem gosta de inteligência e de ler algo bem escrito vai sentir saudade do OFF. Eu vou.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
Otavio, que no jornalismo era OFF, deu emprego naqueles anos da Folha a toda uma geração de militantes de esquerda que vinham da agitada política universitária no ocaso da ditadura. Ele tinha, e manteria por toda a vida, sérias restrições ideológicas àquela turma que trazia para o jornal. Mas nunca discriminou ou promoveu –que eu me lembre– ninguém por causa de posição política. Só pedia que quem assumisse posto de comando não estivesse em direção de partido.
Ao mesmo tempo, ou talvez por causa disso, Otavio era obcecado por evitar que o jornalista militasse nas páginas da Folha. Quem leu “A Regra do Jogo”, de Cláudio Abramo, e entendeu, poderá contextualizar o zelo do jovem diretor com a imagem de apartidarismo e pluralismo que o jornal queria projetar, na estratégia mercadológica em busca da liderança em tempos de redemocratização.
A realidade costuma ser contraditória, e o modus operandi da Redação naqueles anos gloriosamente tumultuados nada tinha de pluralista. Uma disciplina militar sob comando fortemente centralizado. Uma revolução jornalística conduzida de modo prussiano. Pensando bem, exemplos mais a leste que a Prússia seriam melhores. OFF impôs com mão de ferro o primado da técnica que prometia nos aproximar do limite alcançável da utópica objetividade.
Quando me convidaram para falar este ano no lançamento da nova edição do Manual da Redação, lembrei daqueles dias enlouquecidos e do lema de Juscelino, “cinquenta anos em cinco”. Estar na Redação da Folha de 1986 a 1991 era graduação, mestrado e doutorado, tudo junto e misturado. O sujeito que queria aprender e se empenhava nisso ganhava bagagem para enfrentar quase qualquer desafio na vida profissional.
Claro que fácil não foi. Nem indolor. Quem preferir, pode carregar daquela época as dores e as cicatrizes da guerra. Ou as mágoas. Toda guerra faz vítimas. Eu prefiro lembrar das oportunidades, das lições, das experiências, da sensação boa de participar de algo maior e importante. Sou grato ao Otavio. E sentirei falta dos textos bem elaborados, nos quais eu sempre achava alguma razão para divergir. Quem gosta de inteligência e de ler algo bem escrito vai sentir saudade do OFF. Eu vou.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Para que serve o debate presidencial. E quem precisa tirar coelho da cartola. E quem está protegido.
As pesquisas dizem que eleitor dá muita importância a debates entre candidatos. Porque o eleitor diz que dá muita importância a debates entre candidatos. É prudente não tomar ao pé da letra o que o eleitor diz de si mesmo, mas debates têm sim alguma importância. Em 2006 Lula deixou de ganhar no primeiro turno porque não foi ao debate final. É o que se diz.
A convicção do voto é proporcional ao orgulho que o eleitor sente da sua escolha. Se o candidato “vai bem” no debate, fica mais fácil estufar o peito e defendê-lo no trabalho, na escola, na mesa do restaurante, no almoço da família. Se “vai mal", o eleitor arrisca-se a ser “zoado” nos ambientes sociais que frequenta. Ninguém gosta de passar por situações assim.
Eleições costumam seguir uma lógica tribal. Escolhe-se quem melhor pode liderar a tribo na luta pela sobrevivência e para sobrepujar, dominar ou se possível exterminar as tribos rivais. Quem nunca viu um filme em que dois chefes inimigos lutam até a morte como alternativa racional a uma guerra em que muitos dos chefiados morreriam? #FicaaDica.
“Ir bem” num debate eleitoral é demonstrar qualidades de liderança. Coragem, mas racional. O líder não pode ser corajoso ao ponto de arriscar a sobrevivência do grupo. Autoestima, mas com forte componente de alteridade, a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Do povo. E, sempre, mostrando que o rival não tem essas qualidades.
Por que Lula preso e inelegível mantém-se nos cerca de 30%? Porque o eleitor do ex-presidente continua confiando nele para fazer o que esse eleitor acha que deve ser feito no Brasil: governar com forte preocupação social. Nenhuma acusação até agora contra Lula fez, nem ao menos, cosquinha nesse atributo.
Bolsonaro resiste nos seus cerca de 20% porque ninguém faz sombra a ele na disposição de combater politicamente a esquerda e a influência social e cultural do pensamento de esquerda. O PSDB até que tenta, mas seu pé no progressismo funciona como freio de mão puxado. Não tem a mesma autenticidade, o mesmo “punch”. Bate fofo, como se diz.
Para ir ao segundo turno, Ciro precisa ou 1) mostrar que é mais confiável aos pobres e ao Nordeste que o substituto de Lula (Haddad) ou 2) recolher o eleitor órfão de uma suposta social-democracia não petista, órfã do deslocamento do PSDB para a direita. Os dois caminhos são complicados, mas possíveis. Um problema de Ciro é depender muito do erro alheio.
Já Alckmin precisa 1) mostrar-se mais capaz que Bolsonaro de derrotar a esquerda. Ou então 2) acreditar que existe mesmo um eleitorado centrista. O primeiro caminho seria facilitado se o tucano exibisse mais músculos que o capitão nas simulações de segundo turno. O segundo complicou-se quando Lula indicou Haddad. Sem falar da concorrência de Marina.
A desconstrução de Lula ou do substituto só será possível se os adversários fragilizarem o núcleo da imagem do líder petista. E é duvidoso que os rivais de Bolsonaro enfraqueçam-no decisivamente adotando como tática eleitoral atacar o “despreparo” dele. O eleitorado do capitão não está atrás de “preparo”. Procura quem derrote, se possível elimine, a esquerda.
Alckmin tem instrumentos para vencer a “semifinal” na chave da direita. Tem partidos, dinheiro, tempo de televisão e a simpatia do establishment. Bolsonaro é a sensação desta Copa até agora, mas sensações também tropeçam na hora h. Só que o relógio está correndo. Já Ciro disputa em situação de grande desvantagem material.
Alckmin e Ciro precisam que alguma coisa mude. Já Bolsonaro e o PT jogam ajudados pela inércia, como parecem comprovar as pesquisas, inclusive as que apontam o potencial de transferência de votos de Lula para Haddad. Quem precisa que alguma coisa mude precisa usar os debates para tentar dinamitar na semifinal o pilar que sustenta a imagem do rival.
Já há algum consenso de que a prisão, se impede Lula de falar às massas, protege-o de ataques, críticas, questionamentos e manifestações contrárias. Mas ainda não tinha ficado claro que a ausência forçada do PT nos debates acabaria tirando o PT do foco, no ringue televisivo entre os candidatos. Não só Lula está por enquanto algo protegido. O PT também.
A convicção do voto é proporcional ao orgulho que o eleitor sente da sua escolha. Se o candidato “vai bem” no debate, fica mais fácil estufar o peito e defendê-lo no trabalho, na escola, na mesa do restaurante, no almoço da família. Se “vai mal", o eleitor arrisca-se a ser “zoado” nos ambientes sociais que frequenta. Ninguém gosta de passar por situações assim.
Eleições costumam seguir uma lógica tribal. Escolhe-se quem melhor pode liderar a tribo na luta pela sobrevivência e para sobrepujar, dominar ou se possível exterminar as tribos rivais. Quem nunca viu um filme em que dois chefes inimigos lutam até a morte como alternativa racional a uma guerra em que muitos dos chefiados morreriam? #FicaaDica.
“Ir bem” num debate eleitoral é demonstrar qualidades de liderança. Coragem, mas racional. O líder não pode ser corajoso ao ponto de arriscar a sobrevivência do grupo. Autoestima, mas com forte componente de alteridade, a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Do povo. E, sempre, mostrando que o rival não tem essas qualidades.
Por que Lula preso e inelegível mantém-se nos cerca de 30%? Porque o eleitor do ex-presidente continua confiando nele para fazer o que esse eleitor acha que deve ser feito no Brasil: governar com forte preocupação social. Nenhuma acusação até agora contra Lula fez, nem ao menos, cosquinha nesse atributo.
Bolsonaro resiste nos seus cerca de 20% porque ninguém faz sombra a ele na disposição de combater politicamente a esquerda e a influência social e cultural do pensamento de esquerda. O PSDB até que tenta, mas seu pé no progressismo funciona como freio de mão puxado. Não tem a mesma autenticidade, o mesmo “punch”. Bate fofo, como se diz.
Para ir ao segundo turno, Ciro precisa ou 1) mostrar que é mais confiável aos pobres e ao Nordeste que o substituto de Lula (Haddad) ou 2) recolher o eleitor órfão de uma suposta social-democracia não petista, órfã do deslocamento do PSDB para a direita. Os dois caminhos são complicados, mas possíveis. Um problema de Ciro é depender muito do erro alheio.
Já Alckmin precisa 1) mostrar-se mais capaz que Bolsonaro de derrotar a esquerda. Ou então 2) acreditar que existe mesmo um eleitorado centrista. O primeiro caminho seria facilitado se o tucano exibisse mais músculos que o capitão nas simulações de segundo turno. O segundo complicou-se quando Lula indicou Haddad. Sem falar da concorrência de Marina.
A desconstrução de Lula ou do substituto só será possível se os adversários fragilizarem o núcleo da imagem do líder petista. E é duvidoso que os rivais de Bolsonaro enfraqueçam-no decisivamente adotando como tática eleitoral atacar o “despreparo” dele. O eleitorado do capitão não está atrás de “preparo”. Procura quem derrote, se possível elimine, a esquerda.
Alckmin tem instrumentos para vencer a “semifinal” na chave da direita. Tem partidos, dinheiro, tempo de televisão e a simpatia do establishment. Bolsonaro é a sensação desta Copa até agora, mas sensações também tropeçam na hora h. Só que o relógio está correndo. Já Ciro disputa em situação de grande desvantagem material.
Alckmin e Ciro precisam que alguma coisa mude. Já Bolsonaro e o PT jogam ajudados pela inércia, como parecem comprovar as pesquisas, inclusive as que apontam o potencial de transferência de votos de Lula para Haddad. Quem precisa que alguma coisa mude precisa usar os debates para tentar dinamitar na semifinal o pilar que sustenta a imagem do rival.
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Já há algum consenso de que a prisão, se impede Lula de falar às massas, protege-o de ataques, críticas, questionamentos e manifestações contrárias. Mas ainda não tinha ficado claro que a ausência forçada do PT nos debates acabaria tirando o PT do foco, no ringue televisivo entre os candidatos. Não só Lula está por enquanto algo protegido. O PT também.
quinta-feira, 16 de agosto de 2018
Chegou a hora do pensamento mágico
É ilusão achar que as eleições trarão paz política
Desejos não produzem necessariamente realidades
Esta hora ia mesmo chegar. Em meio ao emaranhado da confusão política, começam a aparecer não só apelos à conciliação, mas até previsões de que 2019 tem mesmo chance de inaugurar um novo período de concórdia nacional, de união nacional, deixando para trás os tristes tempos de divisão e desentendimento. Atenção: não coloquei as aspas relativizantes, mas o leitor notará que estou apenas estruturando uma narrativa alheia.
E quanto mais aumenta a confusão, mais fértil fica o terreno para vicejar uma certa modalidade de pensamento mágico. Adotem-se ou preservem-se determinados ritos e isso fará alcançar a meta desejada. Proceda-se à eleição, e o rito mandará ao arquivo morto a divisão e a discórdia que infelicitam o corpo e a alma nacionais. Restará então retribuir a graça alcançada, ajudando-se o novo governo a cumprir sua missão de buscar o bem comum.
Simplesmente não vai acontecer. Também porque “bem comum”, como “reforma política", “reforma tributária” e outras generalidades e platitudes, quer dizer ao mesmo tempo tudo e nada. Para uns, o bem comum está expresso na projeção futura de um passado no qual o governo Lula trouxe prosperidade. Para outros, o bem comum será mais facilmente alcançável enquanto Lula estiver preso e inelegível, exatamente para evitar a volta a esse passado.
Mas a prisão e a inelegibilidade de Lula são apenas a ponta do iceberg da discórdia nacional, que divide o país em campos dificilmente conciliáveis, e hoje inconciliáveis. A raiz do problema é mais profunda. A base da estabilidade política na democracia é a percepção consensual, ou amplamente majoritária, de que as regras para chegar ao poder são razoáveis e equilibradas. E acessíveis a todos. Não necessariamente precisa ser verdade. Importante é a percepção.
Estamos muito longe disso, e acho que não é necessário elaborar. Estamos muito longe também de algum consenso sobre quem tem razão na economia. Provavelmente todos farão mais ou menos a mesma coisa se chegarem lá, mas quem perder cavará trincheiras contra o que será feito, mesmo que provavelmente fizesse o mesmo. Governos sempre têm força, mas desta vez, como em 2015, teremos também uma oposição muito forte.
Aqui e ali ouve-se o lamento neosebastianista a recordar nossa Alcácer-Quibir, a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral em 1984. Achava-se que tinha sido uma vitória, mas conforme o tempo passa aumentam as dúvidas a respeito. É prudente esperar antes de avaliar os acontecimentos históricos, mas aquela celebrada transição que nos prometeu liberdade, democracia e prosperidade justa vai tendo seus fundamentos corroídos a cada dia.
Tancredo talvez seja mesmo nosso Dom Sebastião. Foi-se cedo demais, apesar da muita idade, e é cultuado menos pelo que fez e mais pelo que provavelmente teria feito. Entrou de um jeito bonito na História e será sempre evocado quando uma alma piedosa precisar de um exemplo de líder capaz de conciliar e unir gente e grupos distantes. Mas como não chegou a governar, o passivo da Nova República, cujos escombros são a paisagem da hora, ficou para José Sarney.
#FicaaDica.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br #FicaaDica.
Desejos não produzem necessariamente realidades
Esta hora ia mesmo chegar. Em meio ao emaranhado da confusão política, começam a aparecer não só apelos à conciliação, mas até previsões de que 2019 tem mesmo chance de inaugurar um novo período de concórdia nacional, de união nacional, deixando para trás os tristes tempos de divisão e desentendimento. Atenção: não coloquei as aspas relativizantes, mas o leitor notará que estou apenas estruturando uma narrativa alheia.
E quanto mais aumenta a confusão, mais fértil fica o terreno para vicejar uma certa modalidade de pensamento mágico. Adotem-se ou preservem-se determinados ritos e isso fará alcançar a meta desejada. Proceda-se à eleição, e o rito mandará ao arquivo morto a divisão e a discórdia que infelicitam o corpo e a alma nacionais. Restará então retribuir a graça alcançada, ajudando-se o novo governo a cumprir sua missão de buscar o bem comum.
Simplesmente não vai acontecer. Também porque “bem comum”, como “reforma política", “reforma tributária” e outras generalidades e platitudes, quer dizer ao mesmo tempo tudo e nada. Para uns, o bem comum está expresso na projeção futura de um passado no qual o governo Lula trouxe prosperidade. Para outros, o bem comum será mais facilmente alcançável enquanto Lula estiver preso e inelegível, exatamente para evitar a volta a esse passado.
Mas a prisão e a inelegibilidade de Lula são apenas a ponta do iceberg da discórdia nacional, que divide o país em campos dificilmente conciliáveis, e hoje inconciliáveis. A raiz do problema é mais profunda. A base da estabilidade política na democracia é a percepção consensual, ou amplamente majoritária, de que as regras para chegar ao poder são razoáveis e equilibradas. E acessíveis a todos. Não necessariamente precisa ser verdade. Importante é a percepção.
Estamos muito longe disso, e acho que não é necessário elaborar. Estamos muito longe também de algum consenso sobre quem tem razão na economia. Provavelmente todos farão mais ou menos a mesma coisa se chegarem lá, mas quem perder cavará trincheiras contra o que será feito, mesmo que provavelmente fizesse o mesmo. Governos sempre têm força, mas desta vez, como em 2015, teremos também uma oposição muito forte.
Aqui e ali ouve-se o lamento neosebastianista a recordar nossa Alcácer-Quibir, a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral em 1984. Achava-se que tinha sido uma vitória, mas conforme o tempo passa aumentam as dúvidas a respeito. É prudente esperar antes de avaliar os acontecimentos históricos, mas aquela celebrada transição que nos prometeu liberdade, democracia e prosperidade justa vai tendo seus fundamentos corroídos a cada dia.
Tancredo talvez seja mesmo nosso Dom Sebastião. Foi-se cedo demais, apesar da muita idade, e é cultuado menos pelo que fez e mais pelo que provavelmente teria feito. Entrou de um jeito bonito na História e será sempre evocado quando uma alma piedosa precisar de um exemplo de líder capaz de conciliar e unir gente e grupos distantes. Mas como não chegou a governar, o passivo da Nova República, cujos escombros são a paisagem da hora, ficou para José Sarney.
#FicaaDica.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br #FicaaDica.
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
E se na hora decisiva o PT acabar ajudado pela espuma em torno do “centro” e do “novo”?
Era previsível que o PT chegaria competitivo à eleição presidencial. Numa sucessão marcada pela incerteza, há hoje razoável convicção de que a dupla Fernando Haddad-Manuela D’Ávila tem potencial para passar à finalíssima. Assim como o PSDB de Geraldo Alckmin, a aliança PT-PCdoB depende só de si para estar na urna eletrônica em 28 de outubro.
Claro que isso será função da identificação do lulismo com a chapa nascida do impedimento eleitoral do ex-presidente. Segundo o Datafolha, em torno de 30% dizem que votam com certeza num candidato de Lula, e pouco mais de 15% dizem que talvez votariam. Mas quando Haddad é apontado como esse candidato o número total cai para 13% (XP/Ipespe).
Há pelo menos três leituras possíveis, não excludentes, para essa diferença: 1) Lula tem mais eleitores que o PT; 2) O eleitor que gosta de Lula não necessariamente gosta de Haddad; e 3) Haddad é um desconhecido. As três afirmações são evidentemente verdadeiras. A dúvida é saber qual explica melhor a defasagem entre os índices do “candidato de Lula” e de Haddad.
Lula tem sim mais eleitores que o PT, mas o partido voltou ao share de 20% do eleitorado. Ou seja, Haddad, o “candidato de Lula”, ainda tem mercado a abocanhar no universo petista. O que também relativiza a segunda explicação. A conclusão mais razoável: Haddad vai subir conforme for ficando mais conhecido como o nome do PT e de Lula para esta corrida.
Em tese, ele vai para pelo menos uns 20%, a preferência pelo PT e uns dois terços do voto de Lula. Se tiver menos, terá cometido erros; se passar disso, sua campanha de primeiro turno terá sido um sucesso. E se o não voto (branco/nulo/não foi votar) ficar na casa de 33%, Haddad bateria em 30% dos válidos, o que deve dar para estar entre os dois primeiros.
Mas para virar realidade essa teoria exige execução. O que não chega a ser um bicho de sete cabeças. Onde estão os riscos? Um é Ciro Gomes crescer e capturar parte do voto petista-lulista. Pode acontecer, mas o PT tem meios, inclusive tempo de TV e rádio, para blindar seu eleitorado. Se quiser encorpar, Ciro tem de sair do cercado da esquerda. E ele está tentando.
Outro risco é um recrudescimento da #LavaJato contra o petismo, ainda que a operação já tenha descarnado bem essa carcaça. Mas, a não ser que surja algo novo e espetacular contra Haddad, o efeito da #LavaJato sobre o PT já está precificado. A esta altura, potenciais fatos novos gerados no âmbito dela talvez assombrem mais outras candidaturas.
Até por esse detalhe, o entusiasmo pela #LavaJato não é mais o mesmo. Um sintoma é a aliança de Alckmin com o chamado centrão ter recebido apenas críticas protocolares, longe da onda de indignação que se produziria em outros tempos, e se fossem outros os personagens. Mas convém ficar de olho. Se o vento mudar de novo, Marina Silva e Álvaro Dias estão na pista.
O desafio do primeiro turno é equacionável pelo PT. Mais complicado seria um segundo, onde o antipetismo hoje sólido na sociedade teria terreno fértil. Não à toa Lula optou por Haddad e seu figurino algo centrista, ainda que pela esquerda. Se o espaço do “centro” continua aberto, por que Lula deveria abrir mão de repetir o que sempre deu certo para ele?
Não sei se vai acontecer, pois os adversários não estão dormindo, mas seria curioso se, depois de tanta espuma, as platitudes do “centro” e do “novo” acabassem abduzidas pelo petismo em aliança com o PCdoB. Aliás, no segundo quesito, Haddad é o único candidato competitivo com pinta de que vai sobreviver para a presidencial de 2022, com qualquer resultado agora.
Ou seja, Lula está jogando para já, sim. Se não der, já terá jogado também para o futuro. A prisão não parece ter, por enquanto, afetado negativamente sua perícia nesse xadrez.
A diferença oceânica entre as audiências do debate da Band e do evento paralelo feito pelo PT na internet vai fazendo cair a ficha de quem acreditava que esta eleição seria decidida “nas redes sociais". E, como o noticiário já registra, o PT parece ter percebido que a campanha “alternativa” já deu o que tinha de dar. Hora de virar a chave.
Claro que isso será função da identificação do lulismo com a chapa nascida do impedimento eleitoral do ex-presidente. Segundo o Datafolha, em torno de 30% dizem que votam com certeza num candidato de Lula, e pouco mais de 15% dizem que talvez votariam. Mas quando Haddad é apontado como esse candidato o número total cai para 13% (XP/Ipespe).
Há pelo menos três leituras possíveis, não excludentes, para essa diferença: 1) Lula tem mais eleitores que o PT; 2) O eleitor que gosta de Lula não necessariamente gosta de Haddad; e 3) Haddad é um desconhecido. As três afirmações são evidentemente verdadeiras. A dúvida é saber qual explica melhor a defasagem entre os índices do “candidato de Lula” e de Haddad.
Lula tem sim mais eleitores que o PT, mas o partido voltou ao share de 20% do eleitorado. Ou seja, Haddad, o “candidato de Lula”, ainda tem mercado a abocanhar no universo petista. O que também relativiza a segunda explicação. A conclusão mais razoável: Haddad vai subir conforme for ficando mais conhecido como o nome do PT e de Lula para esta corrida.
Em tese, ele vai para pelo menos uns 20%, a preferência pelo PT e uns dois terços do voto de Lula. Se tiver menos, terá cometido erros; se passar disso, sua campanha de primeiro turno terá sido um sucesso. E se o não voto (branco/nulo/não foi votar) ficar na casa de 33%, Haddad bateria em 30% dos válidos, o que deve dar para estar entre os dois primeiros.
Mas para virar realidade essa teoria exige execução. O que não chega a ser um bicho de sete cabeças. Onde estão os riscos? Um é Ciro Gomes crescer e capturar parte do voto petista-lulista. Pode acontecer, mas o PT tem meios, inclusive tempo de TV e rádio, para blindar seu eleitorado. Se quiser encorpar, Ciro tem de sair do cercado da esquerda. E ele está tentando.
Outro risco é um recrudescimento da #LavaJato contra o petismo, ainda que a operação já tenha descarnado bem essa carcaça. Mas, a não ser que surja algo novo e espetacular contra Haddad, o efeito da #LavaJato sobre o PT já está precificado. A esta altura, potenciais fatos novos gerados no âmbito dela talvez assombrem mais outras candidaturas.
Até por esse detalhe, o entusiasmo pela #LavaJato não é mais o mesmo. Um sintoma é a aliança de Alckmin com o chamado centrão ter recebido apenas críticas protocolares, longe da onda de indignação que se produziria em outros tempos, e se fossem outros os personagens. Mas convém ficar de olho. Se o vento mudar de novo, Marina Silva e Álvaro Dias estão na pista.
O desafio do primeiro turno é equacionável pelo PT. Mais complicado seria um segundo, onde o antipetismo hoje sólido na sociedade teria terreno fértil. Não à toa Lula optou por Haddad e seu figurino algo centrista, ainda que pela esquerda. Se o espaço do “centro” continua aberto, por que Lula deveria abrir mão de repetir o que sempre deu certo para ele?
Não sei se vai acontecer, pois os adversários não estão dormindo, mas seria curioso se, depois de tanta espuma, as platitudes do “centro” e do “novo” acabassem abduzidas pelo petismo em aliança com o PCdoB. Aliás, no segundo quesito, Haddad é o único candidato competitivo com pinta de que vai sobreviver para a presidencial de 2022, com qualquer resultado agora.
Ou seja, Lula está jogando para já, sim. Se não der, já terá jogado também para o futuro. A prisão não parece ter, por enquanto, afetado negativamente sua perícia nesse xadrez.
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A diferença oceânica entre as audiências do debate da Band e do evento paralelo feito pelo PT na internet vai fazendo cair a ficha de quem acreditava que esta eleição seria decidida “nas redes sociais". E, como o noticiário já registra, o PT parece ter percebido que a campanha “alternativa” já deu o que tinha de dar. Hora de virar a chave.
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
País escorrega para um neomonarquismo
Legislativo deixa de ter papel
STF virou corte de 11 monarcas
O Senado argentino recusou uma proposta de legalização do aborto que fora aprovada pela Câmara dos Deputados. É improvável que isso tenha encerrado o debate. Ele deverá prosseguir e espera-se que as diversas correntes políticas e religiosas continuem defendendo seus pontos de vista. Nada impede que o tema volte à pauta no Legislativo do país vizinho, instância onde esse tipo de discussão costuma correr.
Já aqui o debate acontece não entre deputados e senadores, mas no Supremo Tribunal Federal. As maiorias conservadoras são consistentes no Congresso e as correntes favoráveis vibram com a possibilidade de contornar essa dificuldade, apoiando a transferência da decisão para o tribunal constitucional. Pegam uma carona na onda de ativismo judicial que o país vem surfando há algum tempo.
O problema do esvaziamento da esfera política em benefício da burocrático-estatal não é só brasileiro. Nos Estados Unidos, a guerra mais cruenta entre democratas e republicanos, numa época de guerras políticas especialmente cruentas, é em torno da composição da Suprema Corte. Se a maioria será conservadora ou liberal (progressista). É uma pauta sem acordo político-parlamentar possível.
O enfraquecimento da chamada democracia é planetário, principalmente pela dificuldade de transformar maiorias sociais em eleitorais, e estas em maiorias político-governamentais. Mas aqui no Brasil a coisa já chegou a outro patamar. O Congresso já deixou de ser visto pela sociedade como o palco primeiro de negociação e solução dos dissensos políticos. E o Legislativo não resiste, vem na prática abrindo mão de seu papel, num mecanismo claro de autodefesa.
Um Congresso acossado por ameaças judiciais-policiais parece preferir a perda de poder, se isso ajudar a afrouxar a corda que enlaça seu pescoço. Some-se a isso o hábito institucionalizado de “perdi uma votação, não aceito e vou recorrer ao Supremo”. Estão criadas as condições para transformar o STF numa instituição que na prática acumula o Poder Legislativo. Com as consequências previsíveis, como, por exemplo, a divisão em bancadas.
A anomalia aqui descrita não é nova. Nem o diagnóstico. O importante é notar um detalhe: os que um dia criticam o excesso de ativismo judicial, quando a Justiça os desagrada, saúdam no dia seguinte esse mesmo ativismo, se calhar de ficarem felizes com a decisão ou mesmo a iniciativa dos tribunais. Esse parece ser o único pacto político em vigor. Estão todos de acordo em enfraquecer ainda mais a representação política eleita na urna.
A direita protesta quando o STF envereda por reescrever a Constituição no tema do aborto, mas curte quando o tribunal pratica um constitucionalismo criativo no tema dos direitos e garantias individuais. Já a esquerda exige fidelidade à letra da Carta no segundo caso, mas saúda que a Corte ensaie “atualizar” o texto no primeiro. O resultado é visível: vamos regredindo de um republicanismo meio mambembe para um neomonarquismo distribuído por onze monarcas.
A cada polêmica, as partes são chamadas a manifestar-se diante do soberano, que em seguida decidirá, não conforme o que foi escrito pelos representantes do povo, mas guiado por uma sabedoria supostamente superior, quem sabe derivada de algo similar ao direito divino dos reis de antigamente. Talvez não seja só coincidência um príncipe da família real deposta em 1889 ter sido cogitado como candidato a vice na corrida presidencial.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
STF virou corte de 11 monarcas
O Senado argentino recusou uma proposta de legalização do aborto que fora aprovada pela Câmara dos Deputados. É improvável que isso tenha encerrado o debate. Ele deverá prosseguir e espera-se que as diversas correntes políticas e religiosas continuem defendendo seus pontos de vista. Nada impede que o tema volte à pauta no Legislativo do país vizinho, instância onde esse tipo de discussão costuma correr.
Já aqui o debate acontece não entre deputados e senadores, mas no Supremo Tribunal Federal. As maiorias conservadoras são consistentes no Congresso e as correntes favoráveis vibram com a possibilidade de contornar essa dificuldade, apoiando a transferência da decisão para o tribunal constitucional. Pegam uma carona na onda de ativismo judicial que o país vem surfando há algum tempo.
O problema do esvaziamento da esfera política em benefício da burocrático-estatal não é só brasileiro. Nos Estados Unidos, a guerra mais cruenta entre democratas e republicanos, numa época de guerras políticas especialmente cruentas, é em torno da composição da Suprema Corte. Se a maioria será conservadora ou liberal (progressista). É uma pauta sem acordo político-parlamentar possível.
O enfraquecimento da chamada democracia é planetário, principalmente pela dificuldade de transformar maiorias sociais em eleitorais, e estas em maiorias político-governamentais. Mas aqui no Brasil a coisa já chegou a outro patamar. O Congresso já deixou de ser visto pela sociedade como o palco primeiro de negociação e solução dos dissensos políticos. E o Legislativo não resiste, vem na prática abrindo mão de seu papel, num mecanismo claro de autodefesa.
Um Congresso acossado por ameaças judiciais-policiais parece preferir a perda de poder, se isso ajudar a afrouxar a corda que enlaça seu pescoço. Some-se a isso o hábito institucionalizado de “perdi uma votação, não aceito e vou recorrer ao Supremo”. Estão criadas as condições para transformar o STF numa instituição que na prática acumula o Poder Legislativo. Com as consequências previsíveis, como, por exemplo, a divisão em bancadas.
A anomalia aqui descrita não é nova. Nem o diagnóstico. O importante é notar um detalhe: os que um dia criticam o excesso de ativismo judicial, quando a Justiça os desagrada, saúdam no dia seguinte esse mesmo ativismo, se calhar de ficarem felizes com a decisão ou mesmo a iniciativa dos tribunais. Esse parece ser o único pacto político em vigor. Estão todos de acordo em enfraquecer ainda mais a representação política eleita na urna.
A direita protesta quando o STF envereda por reescrever a Constituição no tema do aborto, mas curte quando o tribunal pratica um constitucionalismo criativo no tema dos direitos e garantias individuais. Já a esquerda exige fidelidade à letra da Carta no segundo caso, mas saúda que a Corte ensaie “atualizar” o texto no primeiro. O resultado é visível: vamos regredindo de um republicanismo meio mambembe para um neomonarquismo distribuído por onze monarcas.
A cada polêmica, as partes são chamadas a manifestar-se diante do soberano, que em seguida decidirá, não conforme o que foi escrito pelos representantes do povo, mas guiado por uma sabedoria supostamente superior, quem sabe derivada de algo similar ao direito divino dos reis de antigamente. Talvez não seja só coincidência um príncipe da família real deposta em 1889 ter sido cogitado como candidato a vice na corrida presidencial.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
Depois de muita conversa, acabou o intervalo para platitudes. E uma janela para a internet.
A crônica política é recheada de expressões tão grandiloquentes quanto vazias. Uma delas é “o político que pensa em primeiro lugar no país". O sujeito que abdicaria voluntariamente de posições de poder em nome de uma causa maior: derrotar o campo adversário. Personagem dificílimo de achar na vida real. Esta eleição comprova mais uma vez.
O espectro do chamado centro para a direita poderia juntar-se em torno de Meirelles e seu currículo em economia, ou de Álvaro Dias e sua impermeabilidade a fatos da LavaJato. A união seria mais complicada em torno de Bolsonaro. No limite, poderiam apoiar Marina, a mais apresentável como “de centro". Mas Alckmin não abriu mão e agrupou as máquinas.
Outro que não abre mão é Lula. Nem Lula nem o PT veem motivo para ceder a liderança, mesmo que isso acomodasse melhor as forças supostamente unificáveis para enfrentar o rolo compressor que derrubou Dilma e sustenta Temer. “Se querem me aposentar que arrumem votos para isso”, parece ser o recado do ex-presidente preso em Curitiba.
Alckmin tem duas vantagens e uma desvantagem. Está bem com o establishment e exibe uma incomparável junção de máquinas. Mas não está de bem ainda com o eleitor. E estes dias Bolsonaro sobreviveu com folga a duas provas jornalísticas, superando em boa medida dúvidas sobre a capacidade de enfrentar situações assim. E parece de bem com seu eleitor.
Já Lula e o PT estão no osso, ou quase. Pela primeira vez desde 2002 vêm destituídos de máquinas relevantes. Mas parecem sintonizados com o eleitor de esquerda. Lula ocupa um latifúndio de 30% e o apoio ao partido está consistente em 20%. Nenhum outro nome ou legenda chega perto. E o petismo buscou fazer valer a força nesta reta final de montagem da chapa.
Outro fator explica a pouca permeabilidade dos partidos tradicionais para ceder espaço: num segundo turno contra Bolsonaro todos acreditam ter boa chance de ganhar. E não é uma aposta totalmente destituída de razoabilidade. O candidato do PSL mostra grande resiliência, mas ainda pouca capacidade de ampliar para fora de seu eleitorado tradicional.
Mas atenção ao “ainda”. As apostas a favor da fragilidade de Bolsonaro têm insistido em não se pagar. Uma das últimas balas na cartucheira é acreditar que ele não resistirá à disparidade de tempos de televisão. Será sufocado como Marina em 2014, esmagada que foi pelo ataque simultâneo do PT e do PSDB, que naturalmente preferiam um ao outro na decisão.
Se o absenteísmo (brancos, nulos e ausências) alcançar 33%, quem tiver 20% dos votos baterá em 30% dos válidos. E estará com um pé na final. Bolsonaro precisa pelo menos manter-se. O PT tem de transferir dois terços do voto de Lula. Alckmin precisa lipoaspirar Bolsonaro e/ou esvaziar Marina e Álvaro. Ciro, Marina e Álvaro precisam tirar coelho da cartola.
Mas quem consegue, em algum cenário, 10% ou pouco menos tem o direito de acreditar que chegará aos 20%. E com isso passar ao segundo turno. Ou seja, uma meia dúzia de candidatos veem-se atravessando a primeira barreira e chegando a 28 de outubro em boa situação de vitória. Difícil convencer alguém a desistir num cenário assim.
O grande político, que às vezes ganha o direito de ser chamado de “estadista", consegue colocar em primeiro lugar seus próprios interesses dando a impressão de estar apenas preocupado em defender os interesses dos outros. Só que agora está difícil. Vamos aguardar a campanha para ver quem consegue desgarrar do pelotão, para adiante.
Terminadas as preliminares, vem aí uma certa travessia do deserto, o período entre o fechamento das chapas e o início dos programas e propagandas no rádio e na TV. Vai ser uma oportunidade de verificar o real poder da internet na comunicação dos candidatos. Será que vai haver alguma movimentação relevante nas pesquisas?
Eu apostaria que não.
O espectro do chamado centro para a direita poderia juntar-se em torno de Meirelles e seu currículo em economia, ou de Álvaro Dias e sua impermeabilidade a fatos da LavaJato. A união seria mais complicada em torno de Bolsonaro. No limite, poderiam apoiar Marina, a mais apresentável como “de centro". Mas Alckmin não abriu mão e agrupou as máquinas.
Outro que não abre mão é Lula. Nem Lula nem o PT veem motivo para ceder a liderança, mesmo que isso acomodasse melhor as forças supostamente unificáveis para enfrentar o rolo compressor que derrubou Dilma e sustenta Temer. “Se querem me aposentar que arrumem votos para isso”, parece ser o recado do ex-presidente preso em Curitiba.
Alckmin tem duas vantagens e uma desvantagem. Está bem com o establishment e exibe uma incomparável junção de máquinas. Mas não está de bem ainda com o eleitor. E estes dias Bolsonaro sobreviveu com folga a duas provas jornalísticas, superando em boa medida dúvidas sobre a capacidade de enfrentar situações assim. E parece de bem com seu eleitor.
Já Lula e o PT estão no osso, ou quase. Pela primeira vez desde 2002 vêm destituídos de máquinas relevantes. Mas parecem sintonizados com o eleitor de esquerda. Lula ocupa um latifúndio de 30% e o apoio ao partido está consistente em 20%. Nenhum outro nome ou legenda chega perto. E o petismo buscou fazer valer a força nesta reta final de montagem da chapa.
Outro fator explica a pouca permeabilidade dos partidos tradicionais para ceder espaço: num segundo turno contra Bolsonaro todos acreditam ter boa chance de ganhar. E não é uma aposta totalmente destituída de razoabilidade. O candidato do PSL mostra grande resiliência, mas ainda pouca capacidade de ampliar para fora de seu eleitorado tradicional.
Mas atenção ao “ainda”. As apostas a favor da fragilidade de Bolsonaro têm insistido em não se pagar. Uma das últimas balas na cartucheira é acreditar que ele não resistirá à disparidade de tempos de televisão. Será sufocado como Marina em 2014, esmagada que foi pelo ataque simultâneo do PT e do PSDB, que naturalmente preferiam um ao outro na decisão.
Se o absenteísmo (brancos, nulos e ausências) alcançar 33%, quem tiver 20% dos votos baterá em 30% dos válidos. E estará com um pé na final. Bolsonaro precisa pelo menos manter-se. O PT tem de transferir dois terços do voto de Lula. Alckmin precisa lipoaspirar Bolsonaro e/ou esvaziar Marina e Álvaro. Ciro, Marina e Álvaro precisam tirar coelho da cartola.
Mas quem consegue, em algum cenário, 10% ou pouco menos tem o direito de acreditar que chegará aos 20%. E com isso passar ao segundo turno. Ou seja, uma meia dúzia de candidatos veem-se atravessando a primeira barreira e chegando a 28 de outubro em boa situação de vitória. Difícil convencer alguém a desistir num cenário assim.
O grande político, que às vezes ganha o direito de ser chamado de “estadista", consegue colocar em primeiro lugar seus próprios interesses dando a impressão de estar apenas preocupado em defender os interesses dos outros. Só que agora está difícil. Vamos aguardar a campanha para ver quem consegue desgarrar do pelotão, para adiante.
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Terminadas as preliminares, vem aí uma certa travessia do deserto, o período entre o fechamento das chapas e o início dos programas e propagandas no rádio e na TV. Vai ser uma oportunidade de verificar o real poder da internet na comunicação dos candidatos. Será que vai haver alguma movimentação relevante nas pesquisas?
Eu apostaria que não.
domingo, 5 de agosto de 2018
Governo Geisel ajuda a entender problemas do próximo presidente
O 4º presidente militar do ciclo de 1964, general Ernesto Geisel, tinha um projeto: recuar a tropa aos quartéis e legar uma institucionalidade de ares democráticos e sustentável. A intenção era não deixar possibilidade real de a esquerda chegar ao poder.
Nesse cenário, as eleições de 1974 aconteceram num ambiente paradoxal: enquanto o regime matava os militantes da esquerda, armada ou política, a campanha eleitoral transcorria em razoável liberdade.
A história conta que o plano não deu tão certo assim. O regime duraria ainda uma década, mas aquelas eleições contrataram não apenas seu fim, inviabilizaram sua institucionalização.
A desaceleração depois do milagre econômico e o repique inflacionário, provocado também pelo primeiro choque do petróleo, contribuíram para o MDB conseguir ampla vitória na eleição do Senado e mais de um terço das cadeiras na Câmara. O partido era a única oposição legal.
O resultado bloqueou que o governo fizesse no Congresso reformas constitucionais sem apoio da oposição. Além disso, deixou claro que eleições razoavelmente livres eram um risco.
Na reação, a resposta do regime à derrota de 74 foram seguidos “casuísmos”, manobras para conter o voto oposicionista e seus efeitos práticos. A começar pela chamada “Lei Falcão”, que limitava a propaganda eleitoral a fotos e currículos de candidatos.
Depois veio o Pacote de Abril, um conjunto de medidas antidemocráticas, mas este artigo não pretende comparar aquele período e o atual. As diferenças são evidentes. O objetivo aqui é outro: entender a dificuldade de estabilizar pacificamente um cenário de contradição aberta, entre o que o governo faz, ou quer fazer, e o que o eleitorado quer que ele faça.
Num exercício teórico, teria sido mais fácil para o antecessor de Geisel, Emílio Garrastazu Médici, institucionalizar o regime. No governo dele o PIB cresceu ao que se chama hoje de “ritmo chinês”, mas o foco dos militares ainda era eliminar a resistência armada.
Quando finalmente veio a distensão, a economia tinha parado de “bombar” e o povão ficara mais vulnerável aos argumentos oposicionistas. A resposta surgiu na urna e depois na rua, com o resultado conhecido.
O mau desempenho econômico do governo Michel Temer é um pilar que sustenta a tese de Lula ser vítima de conspiração, de uma tramoia urdida para impedir que dispute e ganhe. A consequência é imediata: o próximo governo já nascerá maculado pelo deficit de legitimidade.
Se der a esquerda, será um desafio ao sistema de poder organizado em torno da Lava Jato e porta-vozes. Se não, a esquerda articulará a resistência aos que só ganharam porque Lula foi proibido.
Como desfazer o nó? Mesmo nos Estados Unidos, paradigma de democracia capitalista de sucesso, declina rapidamente a ideia de que, passada a eleição, cabe ao vencedor governar e ao perdedor trabalhar para a ganhar a seguinte, mas sem atrapalhar muito o país.
Quanto mais no Brasil, onde a fé democrática é bem mais rala e, em meio a um mar de escândalos, o único líder de expressão nacional impedido de concorrer é Lula.
Assim como a crise econômica dos anos 70 e 80 impediu na prática a institucionalização do então regime, ou o próximo governo encontra a chave para fazer a economia e o emprego crescerem ou entrará rapidamente em processo de degradação.
Com a desvantagem, na comparação com o período Geisel, de não ter os instrumentos autoritários e repressivos para pelo menos reduzir a velocidade do processo. E aí aparece uma dificuldade adicional.
Qualquer plano de retomada econômica precisará atacar os privilégios da burocracia estatal e as benesses ao empresariado. Mas como fazer isso se a aliança de um certo empresariado com certa burocracia tem sido a espinha dorsal do bloco de poder pós-2016? Se foi esse pessoal que deu a contribuição decisiva para tirar o PT do Planalto? A direita apoiaria a esquerda no ataque aos privilégios do Judiciário e do Ministério Público? E a esquerda ajudaria os algozes políticos a colocar o poder paralelo de volta na garrafa?
Difícil.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
Nesse cenário, as eleições de 1974 aconteceram num ambiente paradoxal: enquanto o regime matava os militantes da esquerda, armada ou política, a campanha eleitoral transcorria em razoável liberdade.
A história conta que o plano não deu tão certo assim. O regime duraria ainda uma década, mas aquelas eleições contrataram não apenas seu fim, inviabilizaram sua institucionalização.
A desaceleração depois do milagre econômico e o repique inflacionário, provocado também pelo primeiro choque do petróleo, contribuíram para o MDB conseguir ampla vitória na eleição do Senado e mais de um terço das cadeiras na Câmara. O partido era a única oposição legal.
O resultado bloqueou que o governo fizesse no Congresso reformas constitucionais sem apoio da oposição. Além disso, deixou claro que eleições razoavelmente livres eram um risco.
Na reação, a resposta do regime à derrota de 74 foram seguidos “casuísmos”, manobras para conter o voto oposicionista e seus efeitos práticos. A começar pela chamada “Lei Falcão”, que limitava a propaganda eleitoral a fotos e currículos de candidatos.
Depois veio o Pacote de Abril, um conjunto de medidas antidemocráticas, mas este artigo não pretende comparar aquele período e o atual. As diferenças são evidentes. O objetivo aqui é outro: entender a dificuldade de estabilizar pacificamente um cenário de contradição aberta, entre o que o governo faz, ou quer fazer, e o que o eleitorado quer que ele faça.
Num exercício teórico, teria sido mais fácil para o antecessor de Geisel, Emílio Garrastazu Médici, institucionalizar o regime. No governo dele o PIB cresceu ao que se chama hoje de “ritmo chinês”, mas o foco dos militares ainda era eliminar a resistência armada.
Quando finalmente veio a distensão, a economia tinha parado de “bombar” e o povão ficara mais vulnerável aos argumentos oposicionistas. A resposta surgiu na urna e depois na rua, com o resultado conhecido.
O mau desempenho econômico do governo Michel Temer é um pilar que sustenta a tese de Lula ser vítima de conspiração, de uma tramoia urdida para impedir que dispute e ganhe. A consequência é imediata: o próximo governo já nascerá maculado pelo deficit de legitimidade.
Se der a esquerda, será um desafio ao sistema de poder organizado em torno da Lava Jato e porta-vozes. Se não, a esquerda articulará a resistência aos que só ganharam porque Lula foi proibido.
Como desfazer o nó? Mesmo nos Estados Unidos, paradigma de democracia capitalista de sucesso, declina rapidamente a ideia de que, passada a eleição, cabe ao vencedor governar e ao perdedor trabalhar para a ganhar a seguinte, mas sem atrapalhar muito o país.
Quanto mais no Brasil, onde a fé democrática é bem mais rala e, em meio a um mar de escândalos, o único líder de expressão nacional impedido de concorrer é Lula.
Assim como a crise econômica dos anos 70 e 80 impediu na prática a institucionalização do então regime, ou o próximo governo encontra a chave para fazer a economia e o emprego crescerem ou entrará rapidamente em processo de degradação.
Com a desvantagem, na comparação com o período Geisel, de não ter os instrumentos autoritários e repressivos para pelo menos reduzir a velocidade do processo. E aí aparece uma dificuldade adicional.
Qualquer plano de retomada econômica precisará atacar os privilégios da burocracia estatal e as benesses ao empresariado. Mas como fazer isso se a aliança de um certo empresariado com certa burocracia tem sido a espinha dorsal do bloco de poder pós-2016? Se foi esse pessoal que deu a contribuição decisiva para tirar o PT do Planalto? A direita apoiaria a esquerda no ataque aos privilégios do Judiciário e do Ministério Público? E a esquerda ajudaria os algozes políticos a colocar o poder paralelo de volta na garrafa?
Difícil.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
segunda-feira, 30 de julho de 2018
A polarização que vai vingar. E duas perguntas simples, que seria bom ter nas pesquisas eleitorais
Desde sempre sabe-se que as eleições deste ano serão disputadas em ambiente de polarização. Até por isso ser algo tautológico. O normal é eleições acabarem polarizadas, mesmo em períodos de dita paz política, quanto mais agora. As exceções são raras. Vender o contrário costuma ser um dos muitos contos-do-vigário da política.
A dúvida nunca é se vai haver ou não polarização, mas que polarização haverá. É como no judô: quem consegue a melhor pegada no quimono adversário mais chance tem de impor o golpe decisivo. No léxico político-eleitoral, quem impõe a pauta tem meio caminho andado para finalmente aplicar o ippon no dia da urna.
A economia vem mandando nas eleições desde há muito. O PSDB ganhou duas disputas presidenciais impondo a economia como pauta central. Era o tempo em que os tucanos sacavam do Real para ter voto nos pobres. Depois o PT ganhou quatro eleições também assim: uma pela insatisfação com o PSDB, e três pela superioridade dos resultados econômicos petistas.
O establishment vinha tentando mudar a lógica desta vez. Houvesse um nome “novo” viável e compromissado com a agenda liberal, seria possível vender a centralidade de renovar a política como veículo da continuidade do programa do governo Michel Temer. Não faltaram tentativas. Mas ninguém com o figurino conseguiu até agora massa crítica.
Marina Silva e Álvaro Dias estão aí, mas a melhor probabilidade de ainda impor essa polarização continua sendo Jair Bolsonaro. Entretanto, ele estar excessivamente à direita faz o establishment desconfiar de sua competitividade. Daí a celebração em torno das amplas alianças costuradas com competência por Geraldo Alckmin.
O establishment acredita que as concessões à "velha política” talvez possam se pagar. E é sempre melhor poder apostar em dois cavalos, ou talvez três, do que depender de um só. Poderiam ser até quatro, se Ciro Gomes tivesse atraído um pedaço da direita. Mas ao fim e ao cabo a turma não quis trocar o certo pelo duvidoso. Um governo do PSDB dificilmente trará surpresas.
Não existe almoço grátis, e Alckmin carregará com ele as frustrações do governo Temer. No fritar dos ovos, ou ele ou Bolsonaro serão “o candidato do Temer” no segundo turno, com algum espaço ainda para Marina e Álvaro Dias. O “candidato do Temer” pode bem ser alguém que passe a campanha atacando o presidente, desde que incorpore a agenda temerista.
E ao “candidato do Temer” é provável que se oponha na decisão um “candidato do Lula”. Pode ser alguém do PT ou o próprio Ciro. Ou, numa hipótese mais remota, até Marina. O nome importa, mas não é tudo. Vale o caráter da polarização. E hoje ela tende a girar de novo em torno da economia e ser esquerda x direita, ainda que esta venha fantasiada de centro.
Por isso, o desafio do establishment continua mais ou menos do mesmo tamanho. Ir ao segundo turno é bom, mas o que interessa mesmo é ganhar. E como ganhar vendendo algo que indica continuidade econômica num ambiente de alta demanda por mudanças? E com um “candidato do Lula” comparando a economia atual com a do ex-presidente?
Alckmin imagina contar com o peso maciço das máquinas federal e da maioria dos governos estaduais. Isso tem se mostrado decisivo nas recentes eleições extras nos estados. Ele terá também ampla simpatia da elite. Quanto pesarão os dois vetores na disputa presidencial? Só haverá uma maneira de ir acompanhando isso ao longo da campanha: as pesquisas.
Um problema é que as pesquisas, ao menos as registradas na Justiça, têm perguntado de tudo, menos o essencial. Poucas têm medido a intenção de voto em um “candidato do Lula” no primeiro e no segundo turnos. E não têm confrontado os candidatos “do Lula” e “do Temer” no segundo turno. Numa eleição sem grandes líderes dotados de voto próprio, seria bom.
Vai ser difícil fugir dessa polarização.
A dúvida nunca é se vai haver ou não polarização, mas que polarização haverá. É como no judô: quem consegue a melhor pegada no quimono adversário mais chance tem de impor o golpe decisivo. No léxico político-eleitoral, quem impõe a pauta tem meio caminho andado para finalmente aplicar o ippon no dia da urna.
A economia vem mandando nas eleições desde há muito. O PSDB ganhou duas disputas presidenciais impondo a economia como pauta central. Era o tempo em que os tucanos sacavam do Real para ter voto nos pobres. Depois o PT ganhou quatro eleições também assim: uma pela insatisfação com o PSDB, e três pela superioridade dos resultados econômicos petistas.
O establishment vinha tentando mudar a lógica desta vez. Houvesse um nome “novo” viável e compromissado com a agenda liberal, seria possível vender a centralidade de renovar a política como veículo da continuidade do programa do governo Michel Temer. Não faltaram tentativas. Mas ninguém com o figurino conseguiu até agora massa crítica.
Marina Silva e Álvaro Dias estão aí, mas a melhor probabilidade de ainda impor essa polarização continua sendo Jair Bolsonaro. Entretanto, ele estar excessivamente à direita faz o establishment desconfiar de sua competitividade. Daí a celebração em torno das amplas alianças costuradas com competência por Geraldo Alckmin.
O establishment acredita que as concessões à "velha política” talvez possam se pagar. E é sempre melhor poder apostar em dois cavalos, ou talvez três, do que depender de um só. Poderiam ser até quatro, se Ciro Gomes tivesse atraído um pedaço da direita. Mas ao fim e ao cabo a turma não quis trocar o certo pelo duvidoso. Um governo do PSDB dificilmente trará surpresas.
Não existe almoço grátis, e Alckmin carregará com ele as frustrações do governo Temer. No fritar dos ovos, ou ele ou Bolsonaro serão “o candidato do Temer” no segundo turno, com algum espaço ainda para Marina e Álvaro Dias. O “candidato do Temer” pode bem ser alguém que passe a campanha atacando o presidente, desde que incorpore a agenda temerista.
E ao “candidato do Temer” é provável que se oponha na decisão um “candidato do Lula”. Pode ser alguém do PT ou o próprio Ciro. Ou, numa hipótese mais remota, até Marina. O nome importa, mas não é tudo. Vale o caráter da polarização. E hoje ela tende a girar de novo em torno da economia e ser esquerda x direita, ainda que esta venha fantasiada de centro.
Por isso, o desafio do establishment continua mais ou menos do mesmo tamanho. Ir ao segundo turno é bom, mas o que interessa mesmo é ganhar. E como ganhar vendendo algo que indica continuidade econômica num ambiente de alta demanda por mudanças? E com um “candidato do Lula” comparando a economia atual com a do ex-presidente?
Alckmin imagina contar com o peso maciço das máquinas federal e da maioria dos governos estaduais. Isso tem se mostrado decisivo nas recentes eleições extras nos estados. Ele terá também ampla simpatia da elite. Quanto pesarão os dois vetores na disputa presidencial? Só haverá uma maneira de ir acompanhando isso ao longo da campanha: as pesquisas.
Um problema é que as pesquisas, ao menos as registradas na Justiça, têm perguntado de tudo, menos o essencial. Poucas têm medido a intenção de voto em um “candidato do Lula” no primeiro e no segundo turnos. E não têm confrontado os candidatos “do Lula” e “do Temer” no segundo turno. Numa eleição sem grandes líderes dotados de voto próprio, seria bom.
Vai ser difícil fugir dessa polarização.
quinta-feira, 19 de julho de 2018
A esquerda já teve faróis melhores
Netflix: ‘The Vietnam War’ é imperdível
É antídoto contra a burrice pandêmica
Vale muito ver a série de 10 episódios sobre a Guerra do Vietnã de autoria de Ken Burns, no Netflix. A obra dele sobre a participação americana na Segunda Guerra Mundial, também disponível no serviço de streaming, já era boa. Esta sobre o conflito no Sudeste Asiático é melhor. Uma aula detalhada de história dos Estados Unidos nos anos 1960 e 1970 do século 20.
A abordagem de Burns é pacifista, mas a série é honesta. Quem viveu aquela época vai concordar. Os diversos pontos de vista estão contemplados. O espectador consegue concluir baseado em fatos. Coisa difícil de achar hoje em dia. E uma conclusão é Richard Nixon ter sido um grande presidente, bem melhor que John Kennedy e Lyndon Johnson.
Pelo menos sob o parâmetro da política externa e do episódio mais importante do período: a guerra contra a guerrilha vietcongue do Vietnã do Sul e as forças regulares do Vietnã do Norte. O republicano Nixon deu um jeito de tirar o país de uma guerra “inganhável”, em que os americanos foram metidos pelos democratas Kennedy e Johnson.
Além disso, Nixon restabeleceu relações com a China, rompidas desde a chegada dos comunistas ao poder. E fechou o primeiro tratado de limitação de armas nucleares com a União Soviética. Sim, Nixon prosseguiu a política de desestabilizar e derrubar governos de esquerda mundo afora, mas nisso ele e os antecessores rezaram pela mesma cartilha.
A série de Burns faz relembrar um dos muitos detalhes macabros da Guerra do Vietnã, talvez o mais macabro deles. Num certo momento, a estratégia do comandante das tropas americanas, William Westmoreland, passou a ser matar guerrilheiros vietcongues em ritmo maior que a velocidade de recrutamento da guerrilha. O objetivo era produzir um impasse e forçar uma negociação de paz.
Lógico que a coisa colocada assim virou uma matança. Para “bater a meta”, chegou uma hora em que se começaram a matar civis em larga escala. A história é conhecida: isso ajudou a engrossar a repulsa dos americanos e do resto do mundo, e no final faltou apoio político para a estratégia militar ser concluída até o efetivo sucesso do plano.
Johnson, o genocida, jamais foi alvo de um processo de impeachment. Deixou o governo em 1968 e foi morrer alguns anos depois na paz do seu rancho texano. E faça-se justiça: Johnson não foi só um genocida. Foi também o presidente que institucionalizou a conquista dos direitos civis pelos negros, apesar e contra a forte resistência no interior de seu próprio partido.
O presidente mais lembrado por iniciativas legais contra a escravidão dos afro-americanos é o republicano Abraham Lincoln. E o mais vistoso símbolo da resistência final dos brancos do Sul à igualdade dos negros foi o democrata George Wallace. A história e a política costumam ser complexas e contraditórias, verdade difícil de aceitar na nossa era de burrice pandêmica da “militância das redes sociais”.
Johnson nunca foi ameaçado de impeachment apesar de genocida, e de isso ser sabido em tempo real. Nixon renunciou pois seria deposto por tentar encobrir a espionagem de adversários por apaniguados dele. Watergate fez a fama do Washington Post e da dupla de jornalistas que tocou o assunto no jornal. Os Papéis do Pentágono não tiveram maior efeito jurídico-criminal.
Os episódios da série de Burns sobre a Guerra do Vietnã são longos, quase duas horas cada, às vezes arrastados. Mas valem cada segundo. Especialmente em tempos nos quais a esquerda mundo afora parece capturada pela agenda do Partido Democrata americano e faz eco ingênuo ao belicismo antirrusso. E faz pouco caso da possibilidade de uma paz honrosa na Coreia.
A esquerda já teve faróis melhores.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
É antídoto contra a burrice pandêmica
Vale muito ver a série de 10 episódios sobre a Guerra do Vietnã de autoria de Ken Burns, no Netflix. A obra dele sobre a participação americana na Segunda Guerra Mundial, também disponível no serviço de streaming, já era boa. Esta sobre o conflito no Sudeste Asiático é melhor. Uma aula detalhada de história dos Estados Unidos nos anos 1960 e 1970 do século 20.
A abordagem de Burns é pacifista, mas a série é honesta. Quem viveu aquela época vai concordar. Os diversos pontos de vista estão contemplados. O espectador consegue concluir baseado em fatos. Coisa difícil de achar hoje em dia. E uma conclusão é Richard Nixon ter sido um grande presidente, bem melhor que John Kennedy e Lyndon Johnson.
Pelo menos sob o parâmetro da política externa e do episódio mais importante do período: a guerra contra a guerrilha vietcongue do Vietnã do Sul e as forças regulares do Vietnã do Norte. O republicano Nixon deu um jeito de tirar o país de uma guerra “inganhável”, em que os americanos foram metidos pelos democratas Kennedy e Johnson.
Além disso, Nixon restabeleceu relações com a China, rompidas desde a chegada dos comunistas ao poder. E fechou o primeiro tratado de limitação de armas nucleares com a União Soviética. Sim, Nixon prosseguiu a política de desestabilizar e derrubar governos de esquerda mundo afora, mas nisso ele e os antecessores rezaram pela mesma cartilha.
A série de Burns faz relembrar um dos muitos detalhes macabros da Guerra do Vietnã, talvez o mais macabro deles. Num certo momento, a estratégia do comandante das tropas americanas, William Westmoreland, passou a ser matar guerrilheiros vietcongues em ritmo maior que a velocidade de recrutamento da guerrilha. O objetivo era produzir um impasse e forçar uma negociação de paz.
Lógico que a coisa colocada assim virou uma matança. Para “bater a meta”, chegou uma hora em que se começaram a matar civis em larga escala. A história é conhecida: isso ajudou a engrossar a repulsa dos americanos e do resto do mundo, e no final faltou apoio político para a estratégia militar ser concluída até o efetivo sucesso do plano.
Johnson, o genocida, jamais foi alvo de um processo de impeachment. Deixou o governo em 1968 e foi morrer alguns anos depois na paz do seu rancho texano. E faça-se justiça: Johnson não foi só um genocida. Foi também o presidente que institucionalizou a conquista dos direitos civis pelos negros, apesar e contra a forte resistência no interior de seu próprio partido.
O presidente mais lembrado por iniciativas legais contra a escravidão dos afro-americanos é o republicano Abraham Lincoln. E o mais vistoso símbolo da resistência final dos brancos do Sul à igualdade dos negros foi o democrata George Wallace. A história e a política costumam ser complexas e contraditórias, verdade difícil de aceitar na nossa era de burrice pandêmica da “militância das redes sociais”.
Johnson nunca foi ameaçado de impeachment apesar de genocida, e de isso ser sabido em tempo real. Nixon renunciou pois seria deposto por tentar encobrir a espionagem de adversários por apaniguados dele. Watergate fez a fama do Washington Post e da dupla de jornalistas que tocou o assunto no jornal. Os Papéis do Pentágono não tiveram maior efeito jurídico-criminal.
Os episódios da série de Burns sobre a Guerra do Vietnã são longos, quase duas horas cada, às vezes arrastados. Mas valem cada segundo. Especialmente em tempos nos quais a esquerda mundo afora parece capturada pela agenda do Partido Democrata americano e faz eco ingênuo ao belicismo antirrusso. E faz pouco caso da possibilidade de uma paz honrosa na Coreia.
A esquerda já teve faróis melhores.
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
segunda-feira, 16 de julho de 2018
E se o preço da estabilidade for o imobilismo, o país preferirá a instabilidade? Façam as apostas
A política e as tribos dela dependentes ocupam-se de tentar adivinhar o nome do próximo presidente. O resto do país, alguma hora, vai querer saber o que ele fará. Aliás, o assim chamado mercado já anda entretido com isso. E um valor em alta nos pedidos para o final do ano é a estabilidade. Sem ela não iríamos a lugar nenhum, continuaríamos no pântano.
Às vezes a opinião pública gira em falso, em torno de certezas surgidas não se sabe bem de onde. Uma é que a estabilidade seria indispensável e também suficiente. A simples observação dos fatos derruba o postulado. O governo Michel Temer tem sido o mais estável desde a redemocratização. Resistiu a duas votações na Câmara para derrubá-lo. E daí? E daí nada.
Um governo pode ser ao mesmo tempo muito estável e viver imobilizado, que é o caso. Então, como fazer para o próximo presidente conseguir combinar estabilidade na função e iniciativa política e econômica para enfrentar os desafios do cargo? Começando pela retomada da economia e dos empregos, especialmente para a população mais jovem.
Há aqui problemas antigos e novos. O antigo é um sistema partidário-eleitoral organizado para negar ao chefe do Executivo a maioria automática no Congresso. Melhor dizendo, para negar ao eleitor, na prática, a possibilidade de construir democraticamente na urna maioria congressual para o presidente eleito executar seu programa.
Há todo um portfólio de modelos para resolver isso, mas não há interesse em implementar. A resistência conhecida vem de um sistema partidário feudalizado. Mas essa é a face visível. A invisível é outra: impor compulsoriamente ao presidente estar em minoria no Legislativo tem sido útil para frear a influência “cesarista" do voto majoritário sobre o poder.
Um jeito de dar ao Planalto melhores instrumentos para formar maioria na Câmara seria determinar a verticalização das coligações (o voto vinculado) e distribuir as vagas de deputado de acordo com a votação recebida não pelos deputados, mas pelo presidente. E a base que eventualmente ainda faltasse ao final do primeiro turno seria reunida para o segundo.
Não vai acontecer. E aqui compreende-se melhor por que fracassaram as tentativas de implantar o parlamentarismo entre nós. Onde ele faz sucesso é porque, na real, a eleição do primeiro-ministro acaba sendo “direta". O eleitor vota no partido ou no candidato a deputado já sabendo em quem está votando para governar o país. E consegue.
Mas, além dos problemas antigos há agora os novos. Não bastará ao próximo presidente formar maioria num Congresso balcanizado, precisará recolocar para dentro da jaula a profusão de pólos carnívoros de poder liberados desde 2014 para caçar os políticos. Isso resultou, como era inevitável, num sistema multipolar em que uns neutralizam os outros, e a resultante é zero.
O ambiente político no Brasil está cada vez mais parecido com a Rússia dos Romanov, menos por um detalhe: falta o czar. A profusão de mecanismos de controle e regulação, a produção compulsiva de regulamentos, o empoderamento dos burocratas, o ambiente opressivo, o poder da polícia. Está tudo aí. Só falta alguém capaz de fazer o emaranhado dar em algo útil.
O próximo presidente chegará em 2019 com minoria no Congresso e já tolhido pela impermeabilidade de um Estado que passou a prestar contas só a si mesmo e ao pedaço da elite econômica com acesso ao que se convencionou chamar de opinião pública. E se quiser fazer coisas que esta segunda pede, como reformar a previdência, terá de enfrentar a primeira.
Dos quatro eleitos para a Presidência desde 1989, dois foram derrubados. É humano que o quinto queira fugir disso. Um jeito é compor-se com o poder real e profundo, descrito nos parágrafos anteriores. Isso traria estabilidade. E também imobilismo. Pois as forças que podem prover estabilidade são as mais beneficiadas por nada mudar.
Seria uma fórmula vencedora, não fosse pelo detalhe de que uma hora o circo sozinho não resolve, é preciso distribuir algum pão. O que pode eventualmente levar a sociedade a pedir não estabilidade, mas instabilidade. O momento está próximo? Não parece ainda. Mas é sempre bom ficar de olho em quando e como essa demanda vai surgir.
Às vezes a opinião pública gira em falso, em torno de certezas surgidas não se sabe bem de onde. Uma é que a estabilidade seria indispensável e também suficiente. A simples observação dos fatos derruba o postulado. O governo Michel Temer tem sido o mais estável desde a redemocratização. Resistiu a duas votações na Câmara para derrubá-lo. E daí? E daí nada.
Um governo pode ser ao mesmo tempo muito estável e viver imobilizado, que é o caso. Então, como fazer para o próximo presidente conseguir combinar estabilidade na função e iniciativa política e econômica para enfrentar os desafios do cargo? Começando pela retomada da economia e dos empregos, especialmente para a população mais jovem.
Há aqui problemas antigos e novos. O antigo é um sistema partidário-eleitoral organizado para negar ao chefe do Executivo a maioria automática no Congresso. Melhor dizendo, para negar ao eleitor, na prática, a possibilidade de construir democraticamente na urna maioria congressual para o presidente eleito executar seu programa.
Há todo um portfólio de modelos para resolver isso, mas não há interesse em implementar. A resistência conhecida vem de um sistema partidário feudalizado. Mas essa é a face visível. A invisível é outra: impor compulsoriamente ao presidente estar em minoria no Legislativo tem sido útil para frear a influência “cesarista" do voto majoritário sobre o poder.
Um jeito de dar ao Planalto melhores instrumentos para formar maioria na Câmara seria determinar a verticalização das coligações (o voto vinculado) e distribuir as vagas de deputado de acordo com a votação recebida não pelos deputados, mas pelo presidente. E a base que eventualmente ainda faltasse ao final do primeiro turno seria reunida para o segundo.
Não vai acontecer. E aqui compreende-se melhor por que fracassaram as tentativas de implantar o parlamentarismo entre nós. Onde ele faz sucesso é porque, na real, a eleição do primeiro-ministro acaba sendo “direta". O eleitor vota no partido ou no candidato a deputado já sabendo em quem está votando para governar o país. E consegue.
Mas, além dos problemas antigos há agora os novos. Não bastará ao próximo presidente formar maioria num Congresso balcanizado, precisará recolocar para dentro da jaula a profusão de pólos carnívoros de poder liberados desde 2014 para caçar os políticos. Isso resultou, como era inevitável, num sistema multipolar em que uns neutralizam os outros, e a resultante é zero.
O ambiente político no Brasil está cada vez mais parecido com a Rússia dos Romanov, menos por um detalhe: falta o czar. A profusão de mecanismos de controle e regulação, a produção compulsiva de regulamentos, o empoderamento dos burocratas, o ambiente opressivo, o poder da polícia. Está tudo aí. Só falta alguém capaz de fazer o emaranhado dar em algo útil.
O próximo presidente chegará em 2019 com minoria no Congresso e já tolhido pela impermeabilidade de um Estado que passou a prestar contas só a si mesmo e ao pedaço da elite econômica com acesso ao que se convencionou chamar de opinião pública. E se quiser fazer coisas que esta segunda pede, como reformar a previdência, terá de enfrentar a primeira.
Dos quatro eleitos para a Presidência desde 1989, dois foram derrubados. É humano que o quinto queira fugir disso. Um jeito é compor-se com o poder real e profundo, descrito nos parágrafos anteriores. Isso traria estabilidade. E também imobilismo. Pois as forças que podem prover estabilidade são as mais beneficiadas por nada mudar.
Seria uma fórmula vencedora, não fosse pelo detalhe de que uma hora o circo sozinho não resolve, é preciso distribuir algum pão. O que pode eventualmente levar a sociedade a pedir não estabilidade, mas instabilidade. O momento está próximo? Não parece ainda. Mas é sempre bom ficar de olho em quando e como essa demanda vai surgir.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
A conciliação não tem mandato popular
Cada lado acha que pode eliminar o outro
Como ninguém tem força suficiente, há impasse
Uma originalidade desta eleição: ao contrário das anteriores desde o fim dos governos comandados por militares, nenhum campo político definiu ainda seu pole-position. Na esquerda, correm um ainda não designado “candidato do Lula” e Ciro Gomes. Na direita, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. Com um pé em cada barco, Marina equilibra-se ali pelo meio e consegue, até o momento, segurar os votos dela.
Fatos são fatos, e não adianta reclamar. A direita adoraria estar agora unificada em torno de um único concorrente, que já pareasse com o ex-presidente petista em intenção de voto e exercesse forte magnetismo sobre os satélites tradicionais.
A regra, desde pelo menos 2006, era um tucano mostrar-se bem mais competitivo a esta altura. E o PT preferiria estar, como no último quarto de século, no controle absoluto do voto das diversas tonalidades da esquerda.
Mas tudo na vida tem dois lados. A bagunça atrapalha cada um, mas também ajuda. A falta de definição num campo acaba retardando a arrumação no outro, deixando aberta a porta para variadas possibilidades.
Enquanto isso segue o baile, que leva jeito de querer se estender até bem perto do primeiro turno. É razoável projetar, no limite, uma indefinição até as últimas horas sobre quem passa à final. Serão fortes as emoções.
Veja-se o papel de Ciro. Ele produz incerteza sobre a presença de um “candidato do Lula” no segundo turno. Mas ao mesmo tempo impede, por enquanto, que Alckmin ganhe massa crítica, quando o agora pedetista trabalha alianças que a esta altura já deveriam estar na bagagem do PSDB. E não é absurdo imaginar que Bolsonaro também acompanhe esses movimentos com alguma satisfação. Enquanto o dito centro está dividido, ele ganha tempo e espaço para virar opção palatável.
O bolsonarismo resiliente é um problema para o PSDB, mas aqui também tem outro lado. Uma direita nítida e de raiz permite ao conservadorismo brasileiro fantasiar-se de “centro” e vender-se como alternativa moderada num ambiente de alta radicalização. O problema habitual nestes casos? Criar jacaré (Bolsonaro) na piscina de casa é arriscado, principalmente se ele cresce e passa a querer devorar quem o criou. Mas viver é correr riscos.
Claro que uma hora a coisa vai ter de se arrumar, e aí assistiremos às batalhas internas decisivas dentro de cada campo, pela vaga na decisão. Que serão provavelmente sangrentas, com a esquerda em posição algo mais confortável que a direita no caso de dar zebra. É menos problemático ao PT apoiar Ciro do que ao PSDB e demais “de centro” subirem no palanque de Bolsonaro. Mas se for preciso farão, e não seria prudente duvidar.
Especular sobre o desfecho é, por enquanto, apenas isto: especulação. Uma dúvida é sobre se no final vai prevalecer a polarização dura ou algum tipo de conciliação. A favor da segunda, o cansaço progressivo com a crise. A favor da primeira, a falta absoluta de um mandato popular para a segunda.
Cada pedaço do país está convencido de que a saída é eliminar o adversário, e esse espírito percorre a sociedade na vertical e na horizontal.
Uma razão do atual impasse é ninguém ter reunido força suficiente para realizar o desejo de eliminar o inimigo. A rigor, o país está paralisado há anos num empate catastrófico.
==========
Publicado originalmente em www.poder360.com.br
Como ninguém tem força suficiente, há impasse
Uma originalidade desta eleição: ao contrário das anteriores desde o fim dos governos comandados por militares, nenhum campo político definiu ainda seu pole-position. Na esquerda, correm um ainda não designado “candidato do Lula” e Ciro Gomes. Na direita, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. Com um pé em cada barco, Marina equilibra-se ali pelo meio e consegue, até o momento, segurar os votos dela.
Fatos são fatos, e não adianta reclamar. A direita adoraria estar agora unificada em torno de um único concorrente, que já pareasse com o ex-presidente petista em intenção de voto e exercesse forte magnetismo sobre os satélites tradicionais.
A regra, desde pelo menos 2006, era um tucano mostrar-se bem mais competitivo a esta altura. E o PT preferiria estar, como no último quarto de século, no controle absoluto do voto das diversas tonalidades da esquerda.
Mas tudo na vida tem dois lados. A bagunça atrapalha cada um, mas também ajuda. A falta de definição num campo acaba retardando a arrumação no outro, deixando aberta a porta para variadas possibilidades.
Enquanto isso segue o baile, que leva jeito de querer se estender até bem perto do primeiro turno. É razoável projetar, no limite, uma indefinição até as últimas horas sobre quem passa à final. Serão fortes as emoções.
Veja-se o papel de Ciro. Ele produz incerteza sobre a presença de um “candidato do Lula” no segundo turno. Mas ao mesmo tempo impede, por enquanto, que Alckmin ganhe massa crítica, quando o agora pedetista trabalha alianças que a esta altura já deveriam estar na bagagem do PSDB. E não é absurdo imaginar que Bolsonaro também acompanhe esses movimentos com alguma satisfação. Enquanto o dito centro está dividido, ele ganha tempo e espaço para virar opção palatável.
O bolsonarismo resiliente é um problema para o PSDB, mas aqui também tem outro lado. Uma direita nítida e de raiz permite ao conservadorismo brasileiro fantasiar-se de “centro” e vender-se como alternativa moderada num ambiente de alta radicalização. O problema habitual nestes casos? Criar jacaré (Bolsonaro) na piscina de casa é arriscado, principalmente se ele cresce e passa a querer devorar quem o criou. Mas viver é correr riscos.
Claro que uma hora a coisa vai ter de se arrumar, e aí assistiremos às batalhas internas decisivas dentro de cada campo, pela vaga na decisão. Que serão provavelmente sangrentas, com a esquerda em posição algo mais confortável que a direita no caso de dar zebra. É menos problemático ao PT apoiar Ciro do que ao PSDB e demais “de centro” subirem no palanque de Bolsonaro. Mas se for preciso farão, e não seria prudente duvidar.
Especular sobre o desfecho é, por enquanto, apenas isto: especulação. Uma dúvida é sobre se no final vai prevalecer a polarização dura ou algum tipo de conciliação. A favor da segunda, o cansaço progressivo com a crise. A favor da primeira, a falta absoluta de um mandato popular para a segunda.
Cada pedaço do país está convencido de que a saída é eliminar o adversário, e esse espírito percorre a sociedade na vertical e na horizontal.
Uma razão do atual impasse é ninguém ter reunido força suficiente para realizar o desejo de eliminar o inimigo. A rigor, o país está paralisado há anos num empate catastrófico.
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Publicado originalmente em www.poder360.com.br
segunda-feira, 9 de julho de 2018
As circunstâncias da guerrilha e da contra-guerrilha no domingo de escaramuças em torno de Lula
A guerra em torno da liberdade ou não de Lula é assimétrica. Os inimigos dele têm larga vantagem em forças convencionais. Têm hegemonia no Judiciário e na imprensa, e por enquanto maioria nas pesquisas feitas no conjunto da sociedade. É uma correlação de forças que lhes tem permitido manter preso e inelegível o ex-presidente.
É natural portanto que as forças lulistas acabem levadas a táticas de guerrilha, como a que buscou neste domingo libertar o ainda pré-candidato do PT à Presidência. E os efeitos da escaramuça precisam ser vistos à luz de dois critérios: 1) o resultado militar propriamente dito e 2) a resultante propagandística e militar no cenário geral da guerra.
A #LavaJato travou a batalha militar tática para impedir que Lula fosse solto, mesmo que por uns instantes. Mostrou força, o que é sempre importante. E o lulismo conquistou uma primeira vitória propagandística, ao impor ao adversário que este usasse abertamente de métodos pírricos, do tipo que fazem o vencedor sair do conflito mais fraco do que entrou.
Os adversários de Lula acreditam ser mais fácil vencer a eleição com o ex-presidente preso e inelegível. Farão de tudo para manter isso. O problema? O PT gostaria de muito de Lula poder concorrer, mas tem outras opções. Que dependem em última instância de o partido conseguir sustentar uma narrativa favorável, e que alavanque outro eventual nome em outubro.
A primeira vitória de uma guerrilha é sobreviver. No caso, o PT precisa apenas impedir que a situação política do país se estabilize com o poder em mãos adversárias. Por enquanto vem conseguindo. O governo Temer ensaiou consolidar-se e projetar uma expectativa de poder futuro, mas atrapalhou-se no plano policial e os efeitos foram imediatos sobre a economia.
A política é maratona, não corrida de cem metros. Olhe-se o caso mexicano. Uma hora a esquerda iria ganhar, desde que conseguisse impedir a estabilização da hegemonia adversária. E a direita esticou tanto a corda que quando a esquerda finalmente ganhou foi um tsunami, que lhe deu com a Presidência ampla maioria no Legislativo para governar.
Quanto mais o PT conseguir evidências de que a prisão e a inelegibilidade de Lula são produto de uma, como alega, farsa judicial, mais difícil será aos adversários consolidar uma alternativa eleitoral capaz de projetar algum tipo de pacificação política do país. Sem o que é inimaginável a tramitação de reformas impopulares, como as que o campo liberal acredita essenciais.
Uma guerrilha pode chegar ao poder, total ou compartilhado, pela via militar, como em Cuba, ou por um caminho político, como na África do Sul e, de algum modo, na Colômbia. Nesse segundo caso, basta-lhe inviabilizar as saídas que a excluam. E um componente desse “inviabilizar” é obrigar o adversário a usar métodos que drenem a legitimidade da contra-guerrilha.
Uma parte da sociedade acredita que qualquer coisa vale para manter Lula preso e inelegível. É minoria. Outra parte, também minoritária, pensa que Lula é puramente um perseguido político. Os primeiros tomaram a iniciativa quando o governo Dilma se mostrou incapaz de controlar minimamente a política e acender a luz no fim do túnel da economia.
Os segundos vão retomando alguma iniciativa diante da fraqueza progressiva do bloco político que entronizou e mantém Temer. Basta olhar as pesquisas. E quanto mais durar a barafunda política, mais inviável será acelerar a retomada econômica, sem o que qualquer hegemonia do dito centro para a direita será difícil de estabilizar.
Até porque a solução clássica de simplesmente eliminar a guerrilha no plano físico não está à mão. A correlação de forças não permite. Daí que aqui e ali se comece a tatear por um “centro” que busque algum modo de “união nacional”. Mas as experiências anteriores desautorizam otimismo sobre conciliações que partam da exclusão de alguém ainda relevante.
Não existe almoço grátis, nem para o Judiciário. Manter perenemente o poder absoluto é uma arte, que bem poucos dominaram ao longo da história da humanidade. Regra geral: ser capaz de autocontenção é bem mais útil para preservar a saúde no longo prazo. Mas nem sempre é fácil resistir aos holofotes. O problema é que uma hora a conta do almoço chega.
É natural portanto que as forças lulistas acabem levadas a táticas de guerrilha, como a que buscou neste domingo libertar o ainda pré-candidato do PT à Presidência. E os efeitos da escaramuça precisam ser vistos à luz de dois critérios: 1) o resultado militar propriamente dito e 2) a resultante propagandística e militar no cenário geral da guerra.
A #LavaJato travou a batalha militar tática para impedir que Lula fosse solto, mesmo que por uns instantes. Mostrou força, o que é sempre importante. E o lulismo conquistou uma primeira vitória propagandística, ao impor ao adversário que este usasse abertamente de métodos pírricos, do tipo que fazem o vencedor sair do conflito mais fraco do que entrou.
Os adversários de Lula acreditam ser mais fácil vencer a eleição com o ex-presidente preso e inelegível. Farão de tudo para manter isso. O problema? O PT gostaria de muito de Lula poder concorrer, mas tem outras opções. Que dependem em última instância de o partido conseguir sustentar uma narrativa favorável, e que alavanque outro eventual nome em outubro.
A primeira vitória de uma guerrilha é sobreviver. No caso, o PT precisa apenas impedir que a situação política do país se estabilize com o poder em mãos adversárias. Por enquanto vem conseguindo. O governo Temer ensaiou consolidar-se e projetar uma expectativa de poder futuro, mas atrapalhou-se no plano policial e os efeitos foram imediatos sobre a economia.
A política é maratona, não corrida de cem metros. Olhe-se o caso mexicano. Uma hora a esquerda iria ganhar, desde que conseguisse impedir a estabilização da hegemonia adversária. E a direita esticou tanto a corda que quando a esquerda finalmente ganhou foi um tsunami, que lhe deu com a Presidência ampla maioria no Legislativo para governar.
Quanto mais o PT conseguir evidências de que a prisão e a inelegibilidade de Lula são produto de uma, como alega, farsa judicial, mais difícil será aos adversários consolidar uma alternativa eleitoral capaz de projetar algum tipo de pacificação política do país. Sem o que é inimaginável a tramitação de reformas impopulares, como as que o campo liberal acredita essenciais.
Uma guerrilha pode chegar ao poder, total ou compartilhado, pela via militar, como em Cuba, ou por um caminho político, como na África do Sul e, de algum modo, na Colômbia. Nesse segundo caso, basta-lhe inviabilizar as saídas que a excluam. E um componente desse “inviabilizar” é obrigar o adversário a usar métodos que drenem a legitimidade da contra-guerrilha.
Uma parte da sociedade acredita que qualquer coisa vale para manter Lula preso e inelegível. É minoria. Outra parte, também minoritária, pensa que Lula é puramente um perseguido político. Os primeiros tomaram a iniciativa quando o governo Dilma se mostrou incapaz de controlar minimamente a política e acender a luz no fim do túnel da economia.
Os segundos vão retomando alguma iniciativa diante da fraqueza progressiva do bloco político que entronizou e mantém Temer. Basta olhar as pesquisas. E quanto mais durar a barafunda política, mais inviável será acelerar a retomada econômica, sem o que qualquer hegemonia do dito centro para a direita será difícil de estabilizar.
Até porque a solução clássica de simplesmente eliminar a guerrilha no plano físico não está à mão. A correlação de forças não permite. Daí que aqui e ali se comece a tatear por um “centro” que busque algum modo de “união nacional”. Mas as experiências anteriores desautorizam otimismo sobre conciliações que partam da exclusão de alguém ainda relevante.
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Não existe almoço grátis, nem para o Judiciário. Manter perenemente o poder absoluto é uma arte, que bem poucos dominaram ao longo da história da humanidade. Regra geral: ser capaz de autocontenção é bem mais útil para preservar a saúde no longo prazo. Mas nem sempre é fácil resistir aos holofotes. O problema é que uma hora a conta do almoço chega.
quinta-feira, 5 de julho de 2018
A mentalidade colonizada contaminou nosso futebol
Garrincha e Pelé: precursores do @NeymarJr
Necessidade de ser ‘bem visto lá fora’ virou patologia
Alguma coisa mudou no futebol. Ou alguma coisa está fora de lugar sobre como o vemos. Ou alguma coisa mudou no psiquismo nacional nestes últimos anos. Ou é o VAR. Ou é tudo isso junto e misturado. Mas que as falas andam meio estranhas, elas andam. Como dizia o velho filósofo, e na época ele não era tão velho assim, tudo que é sólido parece desmanchar-se no ar. A única certeza é a completa perda de referência na maneira como se olha o nosso jogar bola.
Os filmes do saudoso Canal 100 estão aí, e também os vídeos sobre os gols do Brasil na final da Copa de 1958. Quando alguém lembra do Garrincha, a imagem inesquecível é ele parado a uma certa distância do lateral-esquerdo, ameaçando sair para a direita. Uma vez, duas vezes, até que ele finalmente sai. O drible era sempre igual, mas tinha uma grande chance de dar certo. O Botafogo e o Brasil ganharam muita coisa assim.
Se Garrincha jogasse futebol hoje em dia, parando na frente do lateral e ameaçando driblar, até finalmente driblar, o que aconteceria? Seria acusado de humilhar gratuitamente o marcador, o “João” da vez? As faltas violentas contra ele seriam recebidas com compreensão, uma reação natural e legítima às “palhaçadas” do famoso ponta? Não houve e provavelmente não haverá, nunca mais, um palhaço como Garrincha na história do futebol. Não é, “profe” Osorio?
Diz a tradição oral, e vai saber se é isso mesmo, que ele quase foi cortado da seleção em 1958 porque num amistoso pré-Copa resolveu driblar desnecessariamente o adversário em cima da linha do gol, em vez de simplesmente fazer o gol. Eu acompanho futebol há meio século e nunca vi ninguém propondo a “releitura crítica” desta e outras ditas molecagens do Mané. E olha que releituras do passado à luz dos valores do presente estão na moda. Salve Monteiro Lobato.
Verdade que Garrincha nunca divertiu por divertir. Era o jeito de ele jogar e produzir para o time. O Mané era, como se diz hoje em dia, vertical. Driblava humilhantemente o adversário, mas em direção ao gol. Mais ou menos como o @NeymarJr. E o mistério que não consigo decifrar é por que o mesmo comentarista que amava o Garrincha, e cultua a memória do jeito de o Garrincha jogar, odeia o @NeymarJr. Alguém aí vai protestar por eu comparar os dois. Comparo mesmo.
Já vivi o suficiente para saber como é o futebol, pelo qual sou fanático desde que me conheço por gente. Desde que vi na TV branco e preto o Santos virar em 1963 sobre o Milan, sob uma chuva diluviana no Maracanã, e arrancar para o bi mundial. Posso garantir que @NeymarJr é da tradição vitoriosa do futebol brasileiro. Inclusive no que se convencionou chamar de malandragem. E ninguém foi mais malandro que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.
Ele simulava faltas sofridas como ninguém, e abusava da violência quando achava que podia fazer de um jeito que o juiz não visse. Fraturava a perna dos zagueiros sem dó, e usava o cotovelo sem cerimônia para revidar marcações duras. Não lembro de ele ter sido criticado por isso. Em 1970, contra a Inglaterra, o time ficou com medo que Pelé fosse expulso depois de apanhar muito. Aí Carlos Alberto chamou a tarefa de bater num inglês. Foi celebrado.
E se Maradona fosse brasileiro? Do jeito que a coisa vai, provavelmente proporiam devolvermos a Copa de 1986, e fazermos uma autocrítica pelo famoso gol contra a Inglaterra, aquele com la mano de Dios. E o pior é que foi feito contra os ingleses, uma gente tão civilizada. Eles não mereciam ser tratados com tanto desrespeito, não é? Afinal, ali tem a Premiere League, o mais badalado (um verbo sintomático) campeonato nacional de ludopédio.
Talvez o futebol esteja revelando a face mais nítida da definitiva degradação da autoestima nacional. O que antes era visto como o jeito brasileiro de jogar transformou-se em pecado. Driblar é proibido. Especialmente quando alguém, mesmo que seja um zé ninguém, com sobrenome ou sotaque inglês, ou do resto do “primeiro mundo”, vem nos repreender pelo modo incivilizado como nossos dribladores praticam o bullying sobre os driblados.
Os ingleses exploraram até o tutano (dos negros) o tráfico negreiro. Um dia os ventos da Revolução Industrial pediram mão de obra livre. Junto, claro, com a liberdade de o capital dispor da força de trabalho como quisesse. E aí o tráfico virou crime. Os EUA abriram caminho na bala e na corrupção para as empresas deles dominarem os mercados em escala planetária. Quando conseguiram, a corrupção dos concorrentes virou pecado capital não passível de perdão.
O Brasil sempre teve uma necessidade patológica de ser bem falado lá fora, e está disposto a sacrificar seus interesses por isso. Você não vê algo assim entre americanos, ingleses, alemães, franceses. Mas nesta Copa a coisa vai atingindo o paroxismo. Talvez seja um sintoma a mais dos tempos. Também nisso o lastro mental do colonizado nos arrasta para o fundo como âncora. Se o inglês simula, a culpa talvez seja do @NeymarJr e seu mau exemplo.
É capaz de uma hora alguém quebrar propositalmente a perna do @NeymarJr e o nosso jornalismo esportivo acusar que a culpa foi, no fundo no fundo, dele mesmo.
Alguém duvida?
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Publicado originalmente em www.poder360.com.br
Necessidade de ser ‘bem visto lá fora’ virou patologia
Alguma coisa mudou no futebol. Ou alguma coisa está fora de lugar sobre como o vemos. Ou alguma coisa mudou no psiquismo nacional nestes últimos anos. Ou é o VAR. Ou é tudo isso junto e misturado. Mas que as falas andam meio estranhas, elas andam. Como dizia o velho filósofo, e na época ele não era tão velho assim, tudo que é sólido parece desmanchar-se no ar. A única certeza é a completa perda de referência na maneira como se olha o nosso jogar bola.
Os filmes do saudoso Canal 100 estão aí, e também os vídeos sobre os gols do Brasil na final da Copa de 1958. Quando alguém lembra do Garrincha, a imagem inesquecível é ele parado a uma certa distância do lateral-esquerdo, ameaçando sair para a direita. Uma vez, duas vezes, até que ele finalmente sai. O drible era sempre igual, mas tinha uma grande chance de dar certo. O Botafogo e o Brasil ganharam muita coisa assim.
Se Garrincha jogasse futebol hoje em dia, parando na frente do lateral e ameaçando driblar, até finalmente driblar, o que aconteceria? Seria acusado de humilhar gratuitamente o marcador, o “João” da vez? As faltas violentas contra ele seriam recebidas com compreensão, uma reação natural e legítima às “palhaçadas” do famoso ponta? Não houve e provavelmente não haverá, nunca mais, um palhaço como Garrincha na história do futebol. Não é, “profe” Osorio?
Diz a tradição oral, e vai saber se é isso mesmo, que ele quase foi cortado da seleção em 1958 porque num amistoso pré-Copa resolveu driblar desnecessariamente o adversário em cima da linha do gol, em vez de simplesmente fazer o gol. Eu acompanho futebol há meio século e nunca vi ninguém propondo a “releitura crítica” desta e outras ditas molecagens do Mané. E olha que releituras do passado à luz dos valores do presente estão na moda. Salve Monteiro Lobato.
Verdade que Garrincha nunca divertiu por divertir. Era o jeito de ele jogar e produzir para o time. O Mané era, como se diz hoje em dia, vertical. Driblava humilhantemente o adversário, mas em direção ao gol. Mais ou menos como o @NeymarJr. E o mistério que não consigo decifrar é por que o mesmo comentarista que amava o Garrincha, e cultua a memória do jeito de o Garrincha jogar, odeia o @NeymarJr. Alguém aí vai protestar por eu comparar os dois. Comparo mesmo.
Já vivi o suficiente para saber como é o futebol, pelo qual sou fanático desde que me conheço por gente. Desde que vi na TV branco e preto o Santos virar em 1963 sobre o Milan, sob uma chuva diluviana no Maracanã, e arrancar para o bi mundial. Posso garantir que @NeymarJr é da tradição vitoriosa do futebol brasileiro. Inclusive no que se convencionou chamar de malandragem. E ninguém foi mais malandro que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.
Ele simulava faltas sofridas como ninguém, e abusava da violência quando achava que podia fazer de um jeito que o juiz não visse. Fraturava a perna dos zagueiros sem dó, e usava o cotovelo sem cerimônia para revidar marcações duras. Não lembro de ele ter sido criticado por isso. Em 1970, contra a Inglaterra, o time ficou com medo que Pelé fosse expulso depois de apanhar muito. Aí Carlos Alberto chamou a tarefa de bater num inglês. Foi celebrado.
E se Maradona fosse brasileiro? Do jeito que a coisa vai, provavelmente proporiam devolvermos a Copa de 1986, e fazermos uma autocrítica pelo famoso gol contra a Inglaterra, aquele com la mano de Dios. E o pior é que foi feito contra os ingleses, uma gente tão civilizada. Eles não mereciam ser tratados com tanto desrespeito, não é? Afinal, ali tem a Premiere League, o mais badalado (um verbo sintomático) campeonato nacional de ludopédio.
Talvez o futebol esteja revelando a face mais nítida da definitiva degradação da autoestima nacional. O que antes era visto como o jeito brasileiro de jogar transformou-se em pecado. Driblar é proibido. Especialmente quando alguém, mesmo que seja um zé ninguém, com sobrenome ou sotaque inglês, ou do resto do “primeiro mundo”, vem nos repreender pelo modo incivilizado como nossos dribladores praticam o bullying sobre os driblados.
Os ingleses exploraram até o tutano (dos negros) o tráfico negreiro. Um dia os ventos da Revolução Industrial pediram mão de obra livre. Junto, claro, com a liberdade de o capital dispor da força de trabalho como quisesse. E aí o tráfico virou crime. Os EUA abriram caminho na bala e na corrupção para as empresas deles dominarem os mercados em escala planetária. Quando conseguiram, a corrupção dos concorrentes virou pecado capital não passível de perdão.
O Brasil sempre teve uma necessidade patológica de ser bem falado lá fora, e está disposto a sacrificar seus interesses por isso. Você não vê algo assim entre americanos, ingleses, alemães, franceses. Mas nesta Copa a coisa vai atingindo o paroxismo. Talvez seja um sintoma a mais dos tempos. Também nisso o lastro mental do colonizado nos arrasta para o fundo como âncora. Se o inglês simula, a culpa talvez seja do @NeymarJr e seu mau exemplo.
É capaz de uma hora alguém quebrar propositalmente a perna do @NeymarJr e o nosso jornalismo esportivo acusar que a culpa foi, no fundo no fundo, dele mesmo.
Alguém duvida?
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sexta-feira, 29 de junho de 2018
O cenário para os pré-candidatos na véspera da largada. E a possibilidade de decidir no 1o. turno
É razoável duvidar de pesquisas eleitorais. Mais razoável ainda é acreditar em todas. Melhor dizendo, acreditar no que todas têm em comum. Se, por exemplo, três pesquisas têm um intervalo de confiança de 95%, então a probabilidade de o dado comum entre elas estar errado é 0,05 elevado ao cubo. Ou seja, há 99% de chance de a coisa estar certa.
O que dizem todas as pesquisas? Que Lula tem perto de 30%, Bolsonaro pelo menos 15%, Marina, Alckmin e Ciro entre 5 e 10% e Álvaro Dias pouco menos de 5%. Os demais orbitam em torno de 1%. Sim, há as pesquisas sem Lula. Elas são hoje apenas parcialmente relevantes porque o voto lulista sem Lula não tenderá à dispersão. Se acontecer, será surpresa.
Quanto Lula transferirá a um candidato? Segundo o Datafolha, praticamente tudo, entre os que votariam com certeza e os que poderiam votar. Segundo a única pesquisa registrada que vem medindo o efeito real do apoio de Lula, a do Ipespe, um eventual candidato Haddad partiria de dois dígitos, em empate técnico com Marina na vice-liderança, atrás de Bolsonaro.
Ou seja, como já dito aqui, 1) o PT depende principalmente de si para chegar ao segundo turno. Mas, 2) precisará de uma execução excelente em pouco tempo, e muito provavelmente sob intenso fogo dos adversários e da opinião pública antipetista. Uma coisa é o potencial de transferência do voto lulista. Outra coisa é transformar esse potencial em voto na urna.
Do lado oposto, Alckmin está num patamar bastante abaixo do que historicamente um tucano tinha nesta época em eleições passadas, mas não sofre ameaça real de nenhum nome “de centro”. Uma incógnita vem de Álvaro Dias, que até agora não avançou no desafio de acumular tempo de TV minimamente razoável, para ter mais chance de sobreviver após agosto.
Um problema sério de Alckmin, detectado pela mesma pesquisa Ipespe, é a pouca atração que a pré-candidatura do tucano exerce sobre eleitores de outros candidatos. É a segunda opção de pouca gente. Alckmin também 1) depende principalmente de si, mas 2) precisa de execução excelente. Precisa principalmente evitar que os partidos de seu campo desgarrem.
Bolsonaro tem mostrado resiliência, mas num patamar perigoso. Se por hipótese um terço do eleitorado decidir pelo não voto, os 15% dele seriam 23% dos votos válidos. Nesse degrau, está arriscado a sofrer uma onda “centrista” no primeiro turno. Não se deve subestimar o esforço que o establishment fará para colocar um dos dele, ou um confiável, na decisão.
Marina está posicionada para surfar nessa onda, mas precisa que as alternativas “centristas” mais palatáveis à elite naufraguem. Assim como Bolsonaro, ela não depende principalmente de si. O mesmo se dá com Ciro. Se ele não for o “candidato de Lula”, precisará de uma execução insuficiente da transferência dos votos lulistas para o novo nome do PT.
As recentes eleições extras no Amazonas e Tocantins mostraram um não voto crescente, tendendo a metade do eleitorado. É pouco provável que esse patamar se repita na presidencial, mas não é absurdo imaginar, nas circunstâncias, um não voto de um terço. Num quadro assim, um candidato com 33% mais um dos votos levaria a eleição no primeiro turno. #FicaaDica.
Variáveis a monitorar:
1) A transferência de votos de Lula para o novo nome do PT,
2) se Bolsonaro, além de não cair, consegue mais uns pontos,
3) como ficará a repartição de tempo de TV entre Alckmin, Ciro e Dias
4) a tendência ao não voto,
5) se a economia traz alguma boa notícia para vitaminar o continuísmo e
6) a #LavaJato
Sobre a última variável, há os efeitos da #LavaJato sobre cada candidato. E há a anabolização do não voto, ou do voto em outsiders. Como o único outsider de raiz é Bolsonaro, ele seria um beneficiário certo da repulsa aos políticos e do desejo de limpar as Cavalariças de Áugias.
Precisa ver se ele tem vocação para Hércules. Pois é improvável que os adversários assistam passivamente à caminhada do capitão.
O que dizem todas as pesquisas? Que Lula tem perto de 30%, Bolsonaro pelo menos 15%, Marina, Alckmin e Ciro entre 5 e 10% e Álvaro Dias pouco menos de 5%. Os demais orbitam em torno de 1%. Sim, há as pesquisas sem Lula. Elas são hoje apenas parcialmente relevantes porque o voto lulista sem Lula não tenderá à dispersão. Se acontecer, será surpresa.
Quanto Lula transferirá a um candidato? Segundo o Datafolha, praticamente tudo, entre os que votariam com certeza e os que poderiam votar. Segundo a única pesquisa registrada que vem medindo o efeito real do apoio de Lula, a do Ipespe, um eventual candidato Haddad partiria de dois dígitos, em empate técnico com Marina na vice-liderança, atrás de Bolsonaro.
Ou seja, como já dito aqui, 1) o PT depende principalmente de si para chegar ao segundo turno. Mas, 2) precisará de uma execução excelente em pouco tempo, e muito provavelmente sob intenso fogo dos adversários e da opinião pública antipetista. Uma coisa é o potencial de transferência do voto lulista. Outra coisa é transformar esse potencial em voto na urna.
Do lado oposto, Alckmin está num patamar bastante abaixo do que historicamente um tucano tinha nesta época em eleições passadas, mas não sofre ameaça real de nenhum nome “de centro”. Uma incógnita vem de Álvaro Dias, que até agora não avançou no desafio de acumular tempo de TV minimamente razoável, para ter mais chance de sobreviver após agosto.
Um problema sério de Alckmin, detectado pela mesma pesquisa Ipespe, é a pouca atração que a pré-candidatura do tucano exerce sobre eleitores de outros candidatos. É a segunda opção de pouca gente. Alckmin também 1) depende principalmente de si, mas 2) precisa de execução excelente. Precisa principalmente evitar que os partidos de seu campo desgarrem.
Bolsonaro tem mostrado resiliência, mas num patamar perigoso. Se por hipótese um terço do eleitorado decidir pelo não voto, os 15% dele seriam 23% dos votos válidos. Nesse degrau, está arriscado a sofrer uma onda “centrista” no primeiro turno. Não se deve subestimar o esforço que o establishment fará para colocar um dos dele, ou um confiável, na decisão.
Marina está posicionada para surfar nessa onda, mas precisa que as alternativas “centristas” mais palatáveis à elite naufraguem. Assim como Bolsonaro, ela não depende principalmente de si. O mesmo se dá com Ciro. Se ele não for o “candidato de Lula”, precisará de uma execução insuficiente da transferência dos votos lulistas para o novo nome do PT.
As recentes eleições extras no Amazonas e Tocantins mostraram um não voto crescente, tendendo a metade do eleitorado. É pouco provável que esse patamar se repita na presidencial, mas não é absurdo imaginar, nas circunstâncias, um não voto de um terço. Num quadro assim, um candidato com 33% mais um dos votos levaria a eleição no primeiro turno. #FicaaDica.
Variáveis a monitorar:
1) A transferência de votos de Lula para o novo nome do PT,
2) se Bolsonaro, além de não cair, consegue mais uns pontos,
3) como ficará a repartição de tempo de TV entre Alckmin, Ciro e Dias
4) a tendência ao não voto,
5) se a economia traz alguma boa notícia para vitaminar o continuísmo e
6) a #LavaJato
Sobre a última variável, há os efeitos da #LavaJato sobre cada candidato. E há a anabolização do não voto, ou do voto em outsiders. Como o único outsider de raiz é Bolsonaro, ele seria um beneficiário certo da repulsa aos políticos e do desejo de limpar as Cavalariças de Áugias.
Precisa ver se ele tem vocação para Hércules. Pois é improvável que os adversários assistam passivamente à caminhada do capitão.
quinta-feira, 28 de junho de 2018
A judicialização da política acontece aqui e nos EUA. Isso deveria fazer pensar
Ou seja, a fragmentação partidária aqui não explica tudo
E isso relativiza o papel salvacionista da reforma política
Vamos começar pela Suprema Corte do Estados Unidos, a SCOTUS em inglês. Lá aconteceu o seguinte: o juiz Anthony Kennedy decidiu aposentar-se (a cadeira é vitalícia) e a saída dele abre a possibilidade de o Partido Republicano consolidar uma maioria de 5 a 4 radicalmente conservadora. Hoje a correlação de forças já é um pouco essa, mas o conservador Kennedy vinha sendo flexível em alguns pontos, como por exemplo o casamento gay.
Supremas cortes são sempre importantes, mas a judicialização da política nos Estados Unidos transformou a SCOTUS na instância de resolução das principais divergências políticas. Estes dias mesmo, o tribunal validou decisões de política imigratória do Presidente Donald Trump, restrições à entrada nos EUA de cidadãos de alguns países de maioria muçulmana. As decisões tinham sido contestadas e bloqueadas por juízes de primeira instância.
Volta e meia culpa-se a pulverização partidária no Brasil pela dificuldade de construir maiorias eficazes no Congresso Nacional. Os impasses paralisantes do nosso Legislativo vêm sendo um fato, e o resultado é um Supremo Tribunal Federal empoderado. Na real, hoje os deputados e senadores servem mesmo é para destinar recursos orçamentários a suas bases. Decidir sobre os grandes temas nacionais? Isso passou a ser atribuição do STF.
Ora, aqui a explicação habitual enfrenta um problema. O Brasil deve ter uma das mais fragmentadas representações parlamentares do planeta. Já os Estados Unidos têm um bipartidarismo impermeável. O sistema de dois partidos hegemônicos claudica na Alemanha, no Reino Unido, na França, na Itália. Mas entre os americanos ele está firme como uma rocha, continua inexistindo possibilidade realista de fazer política fora dos dois grandes.
Uma velha piada conta que o sujeito procura alguma coisa no canto iluminado do salão, quando o amigo pergunta o que ele está procurando.
- Meu relógio.
- Você perdeu aqui?
- Não, perdi naquele outro canto.
- E por que você está procurando aqui?
- Porque ali onde perdi está escuro.
A piada é do tempo em que celular não tinha lanterna, mas mesmo assim serve. Talvez o Brasil esteja procurando a solução no lugar errado. É razoável reformar o sistema político para reduzir o número de partidos a uma quantidade racional? Sim. Isso vai ajudar a formar facilmente maiorias capazes de fazer rodar uma agenda qualquer com coerência interna? Muito provavelmente não. Pois talvez o foco do problema não esteja na política, mas na sociedade.
A política está dividida em campos dificilmente conciliáveis menos porque os partidos se dividem assim e mais pela violenta polarização social, que se acirrou muito após a crise financeira de 2008-09. E que se aprofunda em cada país conforme o tempo passa, o horizonte de prosperidade parece inalcançável e cai exponencialmente a possibilidade de convivência pacífica dos opostos. Como resolver então no terreno da democracia? Quem souber que se apresente.
==========
Publicado originalmente no www.poder360.com.br
E isso relativiza o papel salvacionista da reforma política
Vamos começar pela Suprema Corte do Estados Unidos, a SCOTUS em inglês. Lá aconteceu o seguinte: o juiz Anthony Kennedy decidiu aposentar-se (a cadeira é vitalícia) e a saída dele abre a possibilidade de o Partido Republicano consolidar uma maioria de 5 a 4 radicalmente conservadora. Hoje a correlação de forças já é um pouco essa, mas o conservador Kennedy vinha sendo flexível em alguns pontos, como por exemplo o casamento gay.
Supremas cortes são sempre importantes, mas a judicialização da política nos Estados Unidos transformou a SCOTUS na instância de resolução das principais divergências políticas. Estes dias mesmo, o tribunal validou decisões de política imigratória do Presidente Donald Trump, restrições à entrada nos EUA de cidadãos de alguns países de maioria muçulmana. As decisões tinham sido contestadas e bloqueadas por juízes de primeira instância.
Volta e meia culpa-se a pulverização partidária no Brasil pela dificuldade de construir maiorias eficazes no Congresso Nacional. Os impasses paralisantes do nosso Legislativo vêm sendo um fato, e o resultado é um Supremo Tribunal Federal empoderado. Na real, hoje os deputados e senadores servem mesmo é para destinar recursos orçamentários a suas bases. Decidir sobre os grandes temas nacionais? Isso passou a ser atribuição do STF.
Ora, aqui a explicação habitual enfrenta um problema. O Brasil deve ter uma das mais fragmentadas representações parlamentares do planeta. Já os Estados Unidos têm um bipartidarismo impermeável. O sistema de dois partidos hegemônicos claudica na Alemanha, no Reino Unido, na França, na Itália. Mas entre os americanos ele está firme como uma rocha, continua inexistindo possibilidade realista de fazer política fora dos dois grandes.
Uma velha piada conta que o sujeito procura alguma coisa no canto iluminado do salão, quando o amigo pergunta o que ele está procurando.
- Meu relógio.
- Você perdeu aqui?
- Não, perdi naquele outro canto.
- E por que você está procurando aqui?
- Porque ali onde perdi está escuro.
A piada é do tempo em que celular não tinha lanterna, mas mesmo assim serve. Talvez o Brasil esteja procurando a solução no lugar errado. É razoável reformar o sistema político para reduzir o número de partidos a uma quantidade racional? Sim. Isso vai ajudar a formar facilmente maiorias capazes de fazer rodar uma agenda qualquer com coerência interna? Muito provavelmente não. Pois talvez o foco do problema não esteja na política, mas na sociedade.
A política está dividida em campos dificilmente conciliáveis menos porque os partidos se dividem assim e mais pela violenta polarização social, que se acirrou muito após a crise financeira de 2008-09. E que se aprofunda em cada país conforme o tempo passa, o horizonte de prosperidade parece inalcançável e cai exponencialmente a possibilidade de convivência pacífica dos opostos. Como resolver então no terreno da democracia? Quem souber que se apresente.
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segunda-feira, 25 de junho de 2018
O que muda e o que continua igual nas armas de comunicação na guerra eleitoral este ano?
Não é recomendável um título de análise de conjuntura acabar em ponto de interrogação. Textos assim devem responder a perguntas do leitor, e não perguntar esperando que ele responda. Mas o tema desta semana abre espaço à heterodoxia. Pois permanece a dúvida sobre como os canais de informação vão ajudar a moldar a opinião do eleitorado este ano.
A fórmula suficiente costuma ser aproveitar o tempo de rádio e TV para inicialmente “apresentar propostas”, e logo partir para desconstruir o inimigo, estampando manchetes de jornal e capas de revista difamatórias. Os principais ativos? 1) A capacidade de fazer produzir material jornalístico favorável e 2) uma vantagem decisiva no tempo de tela.
Este último critério é o que aliás orienta as alianças, graças à original fórmula que permite no Brasil aos partidos negociar seu espaço no rádio e TV quando não lançam candidato. Há muito debate sobre as composições regionais, mas elas nunca foram decisivas, pelo menos desde que a regra eleitoral decidiu desvincular as coligações nacionais das estaduais.
É convencional supor que a fórmula “tempo de TV + jornalismo favorável” vá continuar tendo papel fundamental este ano. Todos os estudos mostram, por exemplo, que as disputas nas redes sociais giram no mais das vezes em torno de notícias produzidas pelo jornalismo profissional. É um sistema de comensalismo, como se vê nos oceanos entre tubarões e rêmoras.
Some-se o fato de ter surgido entre nós um sistema de fact-checking deformado, voltado unicamente para fiscalizar, aferir e denunciar o que dizem os políticos ou os veículos jornalísticos de explícita orientação político-partidária. Inexiste um fact-checking do jornalismo profissional, ele está blindado, com a exceção dos raros veículos que mantêm ombusman.
Eis o principal passivo de Bolsonaro, Marina e Ciro. Quando o jogo começar para valer, estarão em desvantagem nos dois quesitos. Nenhum tem a simpatia do establishment ou alianças expressivas. Ciro ainda tenta fechar esta última fenda, mas as perspectivas não são as melhores. E nenhum dos três tem enraizamento social estruturado. Como exibe por exemplo o PT.
Mas, e se houver uma alteração dessa lógica? E se o eleitorado de Bolsonaro continuar resistindo num universo fechado e impermeável às tentativas de desconstrução? E se nem todo o esforço do establishment puder alavancar Alckmin, Doria ou Meirelles? E se Marina mostrar musculatura num cenário de enfraquecimento extremo da capacidade hegemônica da elite?
As experiências recentes são contraditórias. As eleições fora de época no Amazonas e Tocantins vêm confirmando a notável resistência dos candidatos chamados tradicionais, graças também ao aumento exponencial da massa de eleitores que simplesmente não votam em ninguém. Quando o protesto se dispersa no não voto, as máquinas costumam prevalecer.
Mas as pesquisas presidenciais estão congeladas. Lula resistiu à avalanche de noticiário negativo. Bolsonaro segue impávido. Marina também, apesar da pouquíssima exposição. Ciro sobrevive e até desperta algum entusiasmo no centrismo angustiado pela falta de nomes mais mais musculosos vindos da direita. No popular, o centrismo está se agarrando até em fio desencapado.
As experiências internacionais de disrupção e de emergência do novo mostram que isso é mais possível quando o sistema é flexível. No Brasil, Obama jamais derrotaria Hillary dentro do partido, muito menos Trump poderia fazer o que fez com o Grand Old Party. Nem Macron teria os instrumentos para ganhar a presidencial e formar maioria parlamentar.
E seguem as conversas sobre a possível troca de Geraldo Alckmin por João Doria. Este seria um candidato mais capaz de disputar com Bolsonaro o eleitorado de direita, por vestir naturalmente o figurino. E representaria o passo natural de um bloco político que vai assumindo um perfil cada vez menos social-democrata e mais liberal-conservador.
Mas Alckmin é o presidente do principal partido desse bloco, e só sai se desistir. Nunca se viu isso na política brasileira. E se trocar Alckmin por Doria o PSDB arrisca perder as duas eleições principais este ano: no Brasil e em São Paulo. Com idas e vindas, os quadros tucanos estão nos cargos em São Paulo desde o governo Montoro, há 35 anos.
Seria um risco e tanto.
A fórmula suficiente costuma ser aproveitar o tempo de rádio e TV para inicialmente “apresentar propostas”, e logo partir para desconstruir o inimigo, estampando manchetes de jornal e capas de revista difamatórias. Os principais ativos? 1) A capacidade de fazer produzir material jornalístico favorável e 2) uma vantagem decisiva no tempo de tela.
Este último critério é o que aliás orienta as alianças, graças à original fórmula que permite no Brasil aos partidos negociar seu espaço no rádio e TV quando não lançam candidato. Há muito debate sobre as composições regionais, mas elas nunca foram decisivas, pelo menos desde que a regra eleitoral decidiu desvincular as coligações nacionais das estaduais.
É convencional supor que a fórmula “tempo de TV + jornalismo favorável” vá continuar tendo papel fundamental este ano. Todos os estudos mostram, por exemplo, que as disputas nas redes sociais giram no mais das vezes em torno de notícias produzidas pelo jornalismo profissional. É um sistema de comensalismo, como se vê nos oceanos entre tubarões e rêmoras.
Some-se o fato de ter surgido entre nós um sistema de fact-checking deformado, voltado unicamente para fiscalizar, aferir e denunciar o que dizem os políticos ou os veículos jornalísticos de explícita orientação político-partidária. Inexiste um fact-checking do jornalismo profissional, ele está blindado, com a exceção dos raros veículos que mantêm ombusman.
Eis o principal passivo de Bolsonaro, Marina e Ciro. Quando o jogo começar para valer, estarão em desvantagem nos dois quesitos. Nenhum tem a simpatia do establishment ou alianças expressivas. Ciro ainda tenta fechar esta última fenda, mas as perspectivas não são as melhores. E nenhum dos três tem enraizamento social estruturado. Como exibe por exemplo o PT.
Mas, e se houver uma alteração dessa lógica? E se o eleitorado de Bolsonaro continuar resistindo num universo fechado e impermeável às tentativas de desconstrução? E se nem todo o esforço do establishment puder alavancar Alckmin, Doria ou Meirelles? E se Marina mostrar musculatura num cenário de enfraquecimento extremo da capacidade hegemônica da elite?
As experiências recentes são contraditórias. As eleições fora de época no Amazonas e Tocantins vêm confirmando a notável resistência dos candidatos chamados tradicionais, graças também ao aumento exponencial da massa de eleitores que simplesmente não votam em ninguém. Quando o protesto se dispersa no não voto, as máquinas costumam prevalecer.
Mas as pesquisas presidenciais estão congeladas. Lula resistiu à avalanche de noticiário negativo. Bolsonaro segue impávido. Marina também, apesar da pouquíssima exposição. Ciro sobrevive e até desperta algum entusiasmo no centrismo angustiado pela falta de nomes mais mais musculosos vindos da direita. No popular, o centrismo está se agarrando até em fio desencapado.
As experiências internacionais de disrupção e de emergência do novo mostram que isso é mais possível quando o sistema é flexível. No Brasil, Obama jamais derrotaria Hillary dentro do partido, muito menos Trump poderia fazer o que fez com o Grand Old Party. Nem Macron teria os instrumentos para ganhar a presidencial e formar maioria parlamentar.
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E seguem as conversas sobre a possível troca de Geraldo Alckmin por João Doria. Este seria um candidato mais capaz de disputar com Bolsonaro o eleitorado de direita, por vestir naturalmente o figurino. E representaria o passo natural de um bloco político que vai assumindo um perfil cada vez menos social-democrata e mais liberal-conservador.
Mas Alckmin é o presidente do principal partido desse bloco, e só sai se desistir. Nunca se viu isso na política brasileira. E se trocar Alckmin por Doria o PSDB arrisca perder as duas eleições principais este ano: no Brasil e em São Paulo. Com idas e vindas, os quadros tucanos estão nos cargos em São Paulo desde o governo Montoro, há 35 anos.
Seria um risco e tanto.
quinta-feira, 21 de junho de 2018
O Brasil está atolado num jogo de perde-perde
Faltam forças para impor a saída
Tendência é continuar ladeira abaixo
Diz o velho e batido ditado que não se faz omelete sem antes quebrar os ovos. Outra verdade, tão antiga e batida quanto essa: ninguém descobriu ainda como retroagir o ovo cozido, ou frito, ao antigo estado cru. A ação da temperatura sobre a clara e a gema é implacável. E quanto mais cedo a pessoa se conforma menos tempo perderá tentando a impossível façanha. Melhor deixar o desafio para os cientistas. Quem sabe um dia eles conseguem?
Vale para a culinária e vale para a política. Aqui e ali, intelectuais das diversas extrações do liberalismo descobrem, consternados, que a maioria da população brasileira não acredita na necessidade de reformar a Previdência, implantar o teto dos gastos estatais, combater os privilégios das corporações, públicas e privadas, ou dar mais liberdade para o capital. Basta atacar com força a corrupção e o dinheiro vai aparecer.
Esse mesmo senso comum considera também que o melhor remédio contra a corrupção é prender o maior número possível de políticos pelo maior tempo possível. E se as leis atrapalham, ignorem-se, ou “reinterpretem-se”, as leis. Aplique-se aos políticos, portanto, a velha máxima machista, hoje felizmente extirpada das práticas sociais aceitáveis: mesmo que a Justiça não saiba exatamente por que está batendo, eles com certeza sabem por que estão apanhando.
É desperdício de tempo discutir agora quem seria o principal responsável por termos chegado a esse ponto. Se são os políticos, que consolidaram em três décadas um sistema programado para apodrecer. Ou se é a aliança saprófita entre as corporações e a opinião pública, aliança que se alimenta dos tecidos apodrecidos da política para ganhar força e arrebatar o poder moderador da República. Mais útil é olhar os fatos: o país está atolado num jogo de perde-perde.
O Brasil passou a acreditar que destruir o sistema político e instalar a insegurança jurídica disseminada é um preço razoável a pagar para liquidar a corrupção, e a partir daí eliminar o foco infeccioso responsável pela septicemia nacional. Mas o jogo é de perde-perde, pois o processo não cria um mecanismo viável para reconstruir a política a partir das cinzas, e portanto inexiste uma maneira de sair dessa a partir de algum consenso social.
Há duas saídas grosso modo para situações assim: conciliação ou, desculpem, porrada. E como parece não haver força para impor agora nenhuma das duas, mais provável é continuarmos deslizando lentamente ladeira abaixo, até que uma das opções reúna massa crítica. Quanto tempo vai levar, aí já é adivinhação para pitonisas. Uma única certeza: não vai ser em janeiro de 2019. Apesar de o bonapartismo caminhar amplamente favorito na corrida presidencial
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
Tendência é continuar ladeira abaixo
Diz o velho e batido ditado que não se faz omelete sem antes quebrar os ovos. Outra verdade, tão antiga e batida quanto essa: ninguém descobriu ainda como retroagir o ovo cozido, ou frito, ao antigo estado cru. A ação da temperatura sobre a clara e a gema é implacável. E quanto mais cedo a pessoa se conforma menos tempo perderá tentando a impossível façanha. Melhor deixar o desafio para os cientistas. Quem sabe um dia eles conseguem?
Vale para a culinária e vale para a política. Aqui e ali, intelectuais das diversas extrações do liberalismo descobrem, consternados, que a maioria da população brasileira não acredita na necessidade de reformar a Previdência, implantar o teto dos gastos estatais, combater os privilégios das corporações, públicas e privadas, ou dar mais liberdade para o capital. Basta atacar com força a corrupção e o dinheiro vai aparecer.
Esse mesmo senso comum considera também que o melhor remédio contra a corrupção é prender o maior número possível de políticos pelo maior tempo possível. E se as leis atrapalham, ignorem-se, ou “reinterpretem-se”, as leis. Aplique-se aos políticos, portanto, a velha máxima machista, hoje felizmente extirpada das práticas sociais aceitáveis: mesmo que a Justiça não saiba exatamente por que está batendo, eles com certeza sabem por que estão apanhando.
É desperdício de tempo discutir agora quem seria o principal responsável por termos chegado a esse ponto. Se são os políticos, que consolidaram em três décadas um sistema programado para apodrecer. Ou se é a aliança saprófita entre as corporações e a opinião pública, aliança que se alimenta dos tecidos apodrecidos da política para ganhar força e arrebatar o poder moderador da República. Mais útil é olhar os fatos: o país está atolado num jogo de perde-perde.
O Brasil passou a acreditar que destruir o sistema político e instalar a insegurança jurídica disseminada é um preço razoável a pagar para liquidar a corrupção, e a partir daí eliminar o foco infeccioso responsável pela septicemia nacional. Mas o jogo é de perde-perde, pois o processo não cria um mecanismo viável para reconstruir a política a partir das cinzas, e portanto inexiste uma maneira de sair dessa a partir de algum consenso social.
Há duas saídas grosso modo para situações assim: conciliação ou, desculpem, porrada. E como parece não haver força para impor agora nenhuma das duas, mais provável é continuarmos deslizando lentamente ladeira abaixo, até que uma das opções reúna massa crítica. Quanto tempo vai levar, aí já é adivinhação para pitonisas. Uma única certeza: não vai ser em janeiro de 2019. Apesar de o bonapartismo caminhar amplamente favorito na corrida presidencial
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Publicado originalmente no www.poder360.com.br
segunda-feira, 18 de junho de 2018
A hora de executar. Os candidatos que só dependem de si. E os que precisam do tropeço alheio
Há seis pré-candidatos à Presidência da República que passam ou roçam o patamar arbitrário de 5% nas pesquisas. Jair Bolsonaro, Marina Silva, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Álvaro Dias e o “candidato do Lula”. Arbitrário porque nada impede um outro nome de arrancar para o segundo turno. Mas o quadro atual é esse, e dele vamos partir.
É possível separar os seis nomes em dois grupos. No primeiro está quem depende essencialmente de si para chegar à rodada final. Estão aqui o “candidato do Lula" e Geraldo Alckmin. Os outros quatro precisam que pelo menos um destes dois erre o suficiente para abrir uma vaga na grande decisão, no mano a mano de 28 de outubro.
A probabilidade de alguém decidir a parada em 7 de outubro não é zero, mas quase. Seis nomes com 5% ou mais fazem uma decisão no primeiro turno estar no terreno da imponderabilidade. Cuidado porém. Como já dito aqui algumas vezes, uma característica do imprevisível é ele ser difícil de prever. Na dispersão atual, se alguém ganha massa crítica pode disparar.
Geraldo Alckmin só depende de si. Ele veste bem a camisa do centro, a mais nova ficção ideológica, hoje hegemônica no universo das narrativas. Eleição não é disputa de fatos, é braço de ferro de histórias. Só quem pode ameaçar Alckmin imediatamente em seu campo é Álvaro Dias, que está atrás. Se o tucano resiste até o início da TV fica em boa situação.
Álvaro Dias precisa que Alckmin não escape, para tentar, quem sabe?, partir de um empate técnico na largada da TV. E daí produzir uma onda. Dias tem sobre os tucanos a vantagem de poder discursar a favor da Lava Jato e não precisar se explicar. Em debates, será uma vantagem e tanto. Mas falta a ele por enquanto tempo de tela. Ter alianças. É seu maior desafio agora.
Já Marina Silva precisa que tudo dê errado para Alckmin e Dias. Precisa que continue a dispersão do centro para a direita e que Bolsonaro não perca substância. Daí a ex-senadora pode tentar atrair o voto útil da direita não bolsonarista na véspera de 7 de outubro. E se conseguir passar ao segundo turno levará com ela o atributo da alta votabilidade.
E Bolsonaro? Seu desempenho até agora é inelástico. Para ir ao segundo turno precisa se manter, o que parece não tão difícil assim, mas também que nenhum dos concorrentes “de centro” cole nele. Porque quem colar pode desencadear uma corrida pelo voto útil, certamente com amplo apoio do establishment, imprensa incluída nisso. #FicaaDica.
Do outro lado da quadra, quem só depende de si é o PT. Mesmo correndo sozinho terá tempo de TV razoável. Se fechar com PCdoB e principalmente PSB ganha mais musculatura e passa um cadeado no Nordeste. As pesquisas dizem que Lula transfere quase tudo, mas mesmo que se dê um desconto o quadro ainda permite razoável otimismo aos petistas.
Para Ciro a coisa é um pouco mais complicada. Ele está bem agora, mas precisa ou ser o “candidato do Lula” ou torcer para que dê errado a operação político-eleitoral de transferir os votos de Lula, e aí herdar o patrimônio. Depender do erro alheio é arriscado. Ciro também corre o risco do isolamento, lipoaspirado de um lado por Alckmin e do outro pelo PT.
A hora é menos de planejar e mais de executar. E quem for melhor nisso agora vai ficar bem na foto.
Uma novidade na eleição parece ser a movimentação de pedaços do autodenominado centro por um assim chamado pacto democrático. Pactos pela democracia são comuns, mas este agora ensaiado sofre do mesmo problema estrutural que injetou fragilidade na distensão do presidente Ernesto Geisel e na abertura do presidente João Figueiredo.
Ambos imaginaram um pacto democrático no qual o regime mantivesse a prerrogativa de escolher quem teria ou não o direito de participar do pacto. Difícil de executar com sucesso. Em geral, pactos desse tipo só funcionam quando todo mundo está convidado para a mesa. Foi assim em Moncloa (Espanha) e na Aliança Democrática (Brasil). #FicaoutraDica.
Do jeito que a coisa vai, qualquer um eleito este ano encontrará em 2019 uma oposição concentrada prioritariamente em derrubar o governo. Por enquanto, é o pacto que está no radar.
É possível separar os seis nomes em dois grupos. No primeiro está quem depende essencialmente de si para chegar à rodada final. Estão aqui o “candidato do Lula" e Geraldo Alckmin. Os outros quatro precisam que pelo menos um destes dois erre o suficiente para abrir uma vaga na grande decisão, no mano a mano de 28 de outubro.
A probabilidade de alguém decidir a parada em 7 de outubro não é zero, mas quase. Seis nomes com 5% ou mais fazem uma decisão no primeiro turno estar no terreno da imponderabilidade. Cuidado porém. Como já dito aqui algumas vezes, uma característica do imprevisível é ele ser difícil de prever. Na dispersão atual, se alguém ganha massa crítica pode disparar.
Geraldo Alckmin só depende de si. Ele veste bem a camisa do centro, a mais nova ficção ideológica, hoje hegemônica no universo das narrativas. Eleição não é disputa de fatos, é braço de ferro de histórias. Só quem pode ameaçar Alckmin imediatamente em seu campo é Álvaro Dias, que está atrás. Se o tucano resiste até o início da TV fica em boa situação.
Álvaro Dias precisa que Alckmin não escape, para tentar, quem sabe?, partir de um empate técnico na largada da TV. E daí produzir uma onda. Dias tem sobre os tucanos a vantagem de poder discursar a favor da Lava Jato e não precisar se explicar. Em debates, será uma vantagem e tanto. Mas falta a ele por enquanto tempo de tela. Ter alianças. É seu maior desafio agora.
Já Marina Silva precisa que tudo dê errado para Alckmin e Dias. Precisa que continue a dispersão do centro para a direita e que Bolsonaro não perca substância. Daí a ex-senadora pode tentar atrair o voto útil da direita não bolsonarista na véspera de 7 de outubro. E se conseguir passar ao segundo turno levará com ela o atributo da alta votabilidade.
E Bolsonaro? Seu desempenho até agora é inelástico. Para ir ao segundo turno precisa se manter, o que parece não tão difícil assim, mas também que nenhum dos concorrentes “de centro” cole nele. Porque quem colar pode desencadear uma corrida pelo voto útil, certamente com amplo apoio do establishment, imprensa incluída nisso. #FicaaDica.
Do outro lado da quadra, quem só depende de si é o PT. Mesmo correndo sozinho terá tempo de TV razoável. Se fechar com PCdoB e principalmente PSB ganha mais musculatura e passa um cadeado no Nordeste. As pesquisas dizem que Lula transfere quase tudo, mas mesmo que se dê um desconto o quadro ainda permite razoável otimismo aos petistas.
Para Ciro a coisa é um pouco mais complicada. Ele está bem agora, mas precisa ou ser o “candidato do Lula” ou torcer para que dê errado a operação político-eleitoral de transferir os votos de Lula, e aí herdar o patrimônio. Depender do erro alheio é arriscado. Ciro também corre o risco do isolamento, lipoaspirado de um lado por Alckmin e do outro pelo PT.
A hora é menos de planejar e mais de executar. E quem for melhor nisso agora vai ficar bem na foto.
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Uma novidade na eleição parece ser a movimentação de pedaços do autodenominado centro por um assim chamado pacto democrático. Pactos pela democracia são comuns, mas este agora ensaiado sofre do mesmo problema estrutural que injetou fragilidade na distensão do presidente Ernesto Geisel e na abertura do presidente João Figueiredo.
Ambos imaginaram um pacto democrático no qual o regime mantivesse a prerrogativa de escolher quem teria ou não o direito de participar do pacto. Difícil de executar com sucesso. Em geral, pactos desse tipo só funcionam quando todo mundo está convidado para a mesa. Foi assim em Moncloa (Espanha) e na Aliança Democrática (Brasil). #FicaoutraDica.
Do jeito que a coisa vai, qualquer um eleito este ano encontrará em 2019 uma oposição concentrada prioritariamente em derrubar o governo. Por enquanto, é o pacto que está no radar.
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