quarta-feira, 7 de março de 2018

Uma eleição sem spoilers

A coisa está mais para Walking Dead do que para House of Cards

A conjuntura mostra uma aparente assincronia entre os movimentos da política e do eleitorado. Os atores produzem fatos e factoides em ritmo 24x7x365, para ocupar o noticiário e manter o alvoroço de uma opinião pública que beira a dependência química.

Por enquanto, o eleitor parece não estar nem aí. Não há movimentação substancial nas pesquisas de intenção de voto, como mostrou a CNT. Não tem gente na rua. E a Lava-Jato vai deixando de ser tema da mesa do bar.

Pelo jeito, o cidadão/eleitor decidiu dar um tempo. É esperado que volte a prestar atenção nesse "Show de Truman" quando estiver chegando a hora de votar. Até lá, os candidatos e os profissionais da eleição têm um hiato para construir narrativas. E matéria-prima não vai faltar.

A federação de pequenos (ou não tão pequenos) déspotas em que o Brasil se transformou é uma usina de alta produtividade. Tem notícia toda hora, e para todos os gostos e lados.

Um elemento-chave da vitória do PT nas quatro últimas eleições foi a dificuldade de os adversários construírem narrativas com começo, meio e fim. Em 2014, ensaiou-se algo diferente, mas o ensaio acabou soterrado com rara competência. Também, mas não só, pela brutal disparidade de forças a favor do petismo. Foi o canto do cisne.

Este ano haverá disputa real entre dois discursos, com outros menos cotados lutando para conseguir uma beirada de atenção.

Teremos finalmente candidatos de direita. Defenderão o capitalismo na economia, o conservadorismo moral e muita dureza contra o crime. Parece que já encantam pelo menos uns 25% do eleitorado. É provável que seja mais.

Se o PSDB mantiver algo de seu tradicional discurso social-liberal, talvez essa aritmética possa ser lida na urna com alguma clareza. É a esperança dos analistas e politólogos mais preocupados em entender que em influir.

Na esquerda, o discurso básico também está pronto. Será o de sempre. A humanização do capitalismo, a proteção do país contra outras ambições imperiais, o protagonismo das lutas identitárias, e políticas públicas para alternativas ao mercado do crime.

Isso tem o apoio de cerca de um terço do eleitorado, autodefinido progressista, em oposição ao dito regressista. O PT quer manter a parte do leão desses votos, mesmo sem Lula. Mas outros se apresentam.

Claro que tudo deverá estar embalado para consumo de massa, com a ajuda das cores vibrantes proporcionadas pela Lava Jato, pela recessão, pelo impeachment, pela crise venezuelana, pela intervenção no Rio etc.

Espera-se também a entrada em cena dos vários matizes do autodeclarado centrismo, à esquerda e à direita. Que buscarão fazer cada um a sua colagem, escolhendo em cada gôndola o que mais convém. E terão o trunfo do apelo contra o radicalismo.

Há algumas variáveis críticas a monitorar daqui até outubro. Em que proporção o eleitor cansado da política escolherá um candidato, ou decidirá protestar não votando em ninguém? Em que medida um impedido Lula transferirá votos? O PSDB e o governo/MDB vão se juntar? Se sim, quando? Lipoaspirar Bolsonaro vai ser fácil ou difícil? Como estará a economia na hora da definição do voto? Quem mais, além de Lula, será impedido de concorrer?

Lamento pelos ansiosos.

Se nunca é cedo demais para chutar, ainda é muito cedo para ter as respostas. Você tem paciência para ver séries? Curte apreciar cada episódio, ou assiste direto o último? Encare dessa maneira e o ano será mais leve e divertido. Até porque os episódios desta eleição não estão ainda todos disponíveis na rede. Vai ser semana a semana. Mais para The Walking Dead do que para House of Cards. Inclusive na história e nos personagens.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 5 de março de 2018

A intervenção na segurança do Rio já é um sucesso de comunicação. Vamos aguardar os reflexos na política.

É pueril criticar governos que governam criando fatos comunicacionais. Governar é decidir e saber comunicar a decisão. Há poucas coisas mais ingênuas, ou espertalhonas, que dizer “o governante deve ser um gestor”. Trata-se de uma tautologia, pois gerir é liderar e comunicar. E voltamos à ideia-matriz deste parágrafo introdutório.

Depois disso, que no jornalismo é chamado nariz-de-cera, vamos ao que interessa: a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro já é um sucesso de comunicação político-governamental. Não sei se a avaliação de Michel Temer deixou o fundo do poço, mas o ambiente sofreu uma mudança sensível. Pelo menos o ambiente jornalístico em torno do governo.

Recapitulando. Quando interveio no Rio, Temer estava na véspera de perder a votação da reforma da previdência. A certeza dessa derrota nasce de um fato: por que o governo não esperou alguns dias para decretar a intervenção? A tal “situação crítica” não era nem mais nem menos crítica que o habitual. Não havia nenhum “caos” inédito na rua. Talvez no noticiário. A tal comunicação.

Derrotado na previdência, ou se ela deixasse de ser votada por falta de votos, o governo entraria numa dinâmica ruim. Os analistas econômicos anunciariam o fim dos tempos, a oposição celebraria uma vitória, o noticiário seria tomado pela eleição e os atuais donos do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios ver-se-iam às voltas com o clássico cafezinho frio.

A jogada de mestre (sem aspas, foi de mestre mesmo) mudou o cenário. Governantes que pareciam destinados ao ostracismo jornalístico passaram a ser novamente assediados em busca de lides e manchetes. Veio a profusão de entrevistas e a produção em massa de coisas noticiáveis. Generais sentiram-se autorizados a exigir coletivas só com perguntas escritas.

Os custos humanos vão sendo empurrados para fora do notíciário.

E o mercado não parece estar nem aí pela previdência não ter ido a voto.

Há críticas, é claro. Constituiu-se uma oposição ideológica à intervenção, pela esquerda e pela direita. Essa resistência dará frutos no médio e longo prazos, quando vier o cansaço com a coisa e se verificar que ela não deu resultados espetaculares. O cálculo das Forças Armadas é estar fora dali quando tal momento chegar. O do governo, é a eleição já ter passado.

No curto prazo a coisa está funcionando. O céu pode ainda não ser de brigadeiro, mas ficou algo azul. O objetivo imediato de comunicação foi atingido, com a volta do “tem que dar certo” do Plano Cruzado. A intervenção no Rio ajudará o governo a sobreviver até dezembro e a aumentar sua influência no processo eleitoral. Do ângulo do poder, é uma conquista.

Mesmo as eventuais complicações neste início poderão ser explicadas pelo remédio não ter sido dado em maior dose. Pela falta, por exemplo, dos mandados coletivos de busca e apreensão. Ou por os soldados não poderem atirar em qualquer um que esteja indevidamente armado. O tratamento preconizado a combatentes inimigos numa guerra.

Outra coisa pueril em política é subestimar governos. Mesmo em estado terminal, eles têm poder de fogo, e às vezes é letal. Sarney estava politicamente desenganado em 1989, aí inventou a candidatura de Silvio Santos, articulada pelos aliados Edison Lobão, Marcondes Gadelha e Hugo Napoleão. Se a Justiça não tivesse bloqueado, tinha bagunçado bem a eleição.

O objetivo político-comunicacional imediato da intervenção no Rio foi atingido. Ao mostrar iniciativa num tema muito sensível ao eleitor, e mais sensível ainda ao eleitor mais pobre, Temer recolocou-se no jogo. O ridículo da Tuiuti já é história. Se vai ser candidato, se vai lançar outro nome pelo MDB ou se vai emplacar o vice numa chapa mais forte, são detalhes. Os fatos dirão.

As pesquisas imediatas podem até ser algo decepcionantes, mas isso não deve iludir. Privatização e austeridade fiscal não são populares, mas a caça aos bandidos é. Temer deu um gás à narrativa da direita para este processo eleitoral, e subestimar será um erro. É visível, aliás, que a esquerda ainda não encontrou uma resposta adequada ao novo cenário.

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Da entrevista de Lula à Folha de S.Paulo deduz-se que o PT terá ou apoiará um candidato, e que estará aberto ao diálogo com os que eram seus aliados e hoje são aliados de Temer. Há porém um problema: pela primeira vez desde 1998, o PT está isolado. E quase sem máquina. Em 1989 tinha a prefeitura de São Paulo, e em 2002 também. Sem falar de 2006, 2010 e 2014.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

As instituições não estão funcionando

“As instituições estão funcionando” é a platitude do momento. Num aspecto, é obrigatório reconhecer que elas funcionam bastante bem: nosso sistema de freios e contrapesos anda tão azeitado que o mecanismo travou. Em cada ação possível, há travas suficientes para impedir que qualquer coisa aconteça. O sistema político-institucional parece uma moto, ou um carro, sobre cavaletes e de motor ligado: queima combustível e não sai do lugar.

Mas nem tudo está perdido. As eleições vêm aí e teremos novos governantes em janeiro. É a boa notícia. E a má? Bem, o sistema brasileiro de freios e contrapesos produziu uma anomalia: quem é eleito não manda, e quem manda não é eleito. As intenções dos constituintes foram as melhores, mas o produto do trabalho deles acabou não sendo bom: na ânsia de enfraquecer o poder, erraram na dose e criaram uma engrenagem vocacionada à ingovernabilidade.

Só o papel não seria, porém, capaz sozinho de produzir o desastre. O definhamento da democracia brasileira é obra de múltiplas mãos desde o colapso das “Diretas já”, que obrigou a uma transição negociada, para a qual muitos torceram o nariz. Abriu-se então o longo período de apedrejamento que hoje colhe seus frutos mais carnudos. Três décadas de ataques à política, pela esquerda e pela direita, escancararam as portas do inferno para os salvadores da pátria.

Os políticos ajudaram bastante. Principalmente quando consolidaram um sistema rentável e imune à renovação e à alternância. E a coisa foi piorando a cada “aperfeiçoamento” exigido pela “opinião pública”. O resultado é uma política monopolizada por cartórios fossilizados. É impossível disputar com chances o comando desses cartórios. E eventuais desafiantes do establishment político precisam antes de tudo ter um cartório para chamar de seu.

Entre os fatores na raiz dos nossos impasses, um merece destaque especial. O descolamento entre os graus de liberdade e de democracia. Uma não se confunde com a outra. A saúde de uma democracia mede-se também por quanto a vontade da maioria influi na execução governamental e na produção congressual. E é bem possível conviverem por um tempo altas taxas de liberdade e graus apenas relativos de democracia.

O Brasil está meio assim. Convertido numa federação de déspotas supostamente esclarecidos e bem protegidos do voto. Por serem portadores da verdade e do bem, acumulam o poder de impor sua vontade de modo absoluto. Estão espalhados por todos os lugares, e não apenas na burocracia estatal. Legislam, julgam e executam de acordo apenas com o que decidiram ser o melhor para nós. São os mini-sovietes de si mesmos, mas para todos. O que isso tem a ver com democracia?

Toda obra política precisa de uma narrativa legitimadora. Gramsci explicou que sem algum consenso não há coação que dê conta. E a narrativa-candidata é, surpresa!, a “crítica ao populismo”. O “governo ideal” é o capaz de agir independente da, ou mesmo contra a, vontade popular. “Aproveite a impopularidade e faça o que tem de ser feito, presidente”. E se a esmagadora maioria for contra? “A situação é grave. Não é hora de ceder ao populismo.“

Há duas críticas do “populismo”. A primeira, mais elegante, usa a expressão para caracterizar um sistema totalizante. “Democracia não é só voto, é alternância. Se se bloqueiam todos os canais de alternância, accountability, pressão etc., a democracia degringola. E o populismo tende a fazer justamente isso.” Essa é a teoria. Na vida real, o termo é usado para carimbar políticos que governam de olho não no que é “certo e racional”, mas na popularidade.

E tudo estaria bem organizado a partir da “crítica ao populismo”, não fosse o probleminha incômodo: as eleições. Elas introduzem o desconforto de ter de convencer o eleitor. E se o eleitor não se convencer? Bem, então será o caso de fazer, mesmo que ele não esteja convencido. Para que servem então as eleições? Pergunta complicada. Talvez seja hora de chamar os especialistas em teorias igualmente complicadas sobre a “crise da democracia representativa”.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O estado das variáveis-chave neste momento da corrida pela sucessão presidencial

O candidato do PT. Lula, a não ser que os tribunais superiores recusem uma liminar que o deixe concorrer. O que vai acontecer depende de com quem cair a coisa, e se o (in)felizardo terá coragem para decidir de um jeito ou de outro. Se Lula não puder disputar, o PT tende a substituir por um petista e Jaques Wagner é o mais provável. Mas Ciro Gomes corre por fora.

Se Lula for eliminado da corrida a menos de 20 dias da eleição, o PT não pode mais substituir: ou apoia alguém de fora ou boicota. Se houver uma ação eficaz de transferência, Lula repassa pelo menos 80% da intenção de voto, o que levará o apoiado ao segundo turno. Como sempre, o desafio mora nos detalhes. Executar isso não será simples. Mas é bem possível.

A resiliência de Bolsonaro. O senso comum diz que Bolsonaro vai emagrecer por falta de dinheiro, tempo de TV e apoios. Vale porém acompanhar melhor. O eleitorado dele é bastante coeso ideologicamente e parece pouco influenciável pelos canais tradicionais de difusão de informação. E ele está fechando o flanco do “despreparo” na economia. Bom ficar de olho.

Se Bolsonaro for lipoaspirado por uma ação combinada do governo, dos partidos habituais da direita (ou de seu genérico, o "centro") e da imprensa, o establishment precisará evitar um efeito centrífugo. Impedir que uma parte migre direto para a esquerda e outra refugie-se no não voto, no branco e no nulo. Se Lula for impedido, este será um problema também para o PT.

Os arrufos entre o governo e o PSDB. O PMDB foi linha auxiliar e coadjuvante dos tucanos durante os oito anos de FHC e dos petistas nos quase 14 anos de Lula e Dilma. Agora tem a caneta e não vai entregar sem luta. Temer espera que a intervenção no Rio rompa a inércia negativa. Se não, tem a opção de buscar um nome leve. Subestimar o governo é sempre um risco.

Já para Alckmin as coisas têm melhorado. Huck correu ao primeiro rugido do leão, Dória queimou a largada e foi punido no grid, Arthur Virgílio retirou-se atirando balas de festim. O tal espaço para um “centro” que salve o país da suposta ameaça do radicalismo vai caindo no colo do governador. O desafio dele é empolgar o eleitor com um discurso centrista. Não é trivial.

O cenário ideal para Alckmin é o cansaço com a bagunça nacional superar o cansaço com os políticos e, em outubro, o eleitor decidir escolher alguém rodado, para tentar acabar com a confusão crônica. A, até agora, anemia do “novo” ajuda o governador. Aliás, uma característica desta pré-eleição é o sistemático envelhecimento precoce do “novo" não bolsonarista.

A coesão ou a dispersão do “centro”, e o efeito-Freixo. Se PMDB e PSDB racharem o “centro", a aritmética se complica. Se o candidato do governo, Alckmin e Marina consolidarem, cada um, em torno de 10%, e se Álvaro Dias pelo menos mantiver os 3 ou 4%, pode acontecer o efeito caranguejo no balaio. Toda vez que alguém tentar subir, os demais vão puxar para baixo.

Na eleição do Rio em 2016 era provável que Pedro Paulo, Osório ou Índio fossem para o segundo turno. Aí o voto centrista dividiu-se bem entre os três, e quem passou à decisão foi Freixo. O candidato a “Freixo” agora é Bolsonaro. Diz a lógica que o estoque de votos centristas uma hora vai convergir. Mas política não é geração espontânea. Precisa de execução.

Uma centelha pode incendiar a pradaria. A melhora (ou a não piora) da situação econômica favorece algum equilíbrio político, mas este é instável. É provável que o apedrejamento maciço e sistemático da representação política e a louvação dos salvadores da pátria continuem na campanha. E uma centelha pode incendiar essa pradaria seca.

O que seria? Um “novo” atropelar do nada e arrastar a maioria do atual estoque de brancos/nulos/não sei/não vou votar? A reação popular, não nas ruas mas na urna, à cassação da candidatura de Lula? Uma onda antipetista que junte a direita, o “centro” e o não voto, para impedir a volta do PT ao poder? Nesta eleição, convém aumentar a atenção sobre o imprevisível.

O problema é que, como já dito aqui algumas vezes, o imprevisível costuma ser muito difícil de prever.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Ação no Rio e Huck: a guerra é pelo voto do pobre

O PT ganhou as três primeiras eleições presidenciais pelo mesmo placar: arredondando, 60% a 40%. 2014 foi mais apertado, porque no segundo turno a terceira via descarregou em parte no adversário do PT. As três primeiras tiveram resultados bem parecidos, mas as semelhanças escondem diferenças essenciais que ajudam a entender acontecimentos de agora. Como o canto da sereia para Luciano Huck e a intervenção no Rio.

Fernando Henrique bateu duas vezes Lula com boa ajuda dos pobres e do Nordeste. O Plano Real, como o Cruzado de Sarney, provou-se investimento de alto retorno eleitoral. Mesmo em 2002, quando o PT finalmente chegou ao Planalto, parte grande desse estoque foi para o candidato do PSDB. Lula ganhou com forte apoio das camadas médias nos grandes centros urbanos. O PT era então o partido diferente dos outros.

A crise desencadeada pelas acusações/revelações do deputado Roberto Jefferson em 2005 ajudou a operar uma mudança fundamental na coalizão social do assim chamado lulismo. Saíram os grupos do meio da pirâmide antes atraídos pela promessa de “ética”. Entraram os contingentes beneficiados pelo emprego, pelo aumento do salário mínimo e também pelos programas sociais. Tal troca já foi bem estudada e analisada pelos especialistas.

Desde 2006, é essa a aliança social que sustenta as vitórias eleitorais do PT e da esquerda aliada. E, segundo as pesquisas, é o pilar fundamental da resiliência atual de Lula. E da sua capacidade teórica para alavancar outro nome na disputa presidencial. É só olhar os números: se nada for feito, esse estoque de apoio popular levará um candidato da esquerda ao segundo turno, onde ele será competitivo. Nas circunstâncias, seria um feito e tanto.

A conclusão é óbvia. Não bastará a um candidato da direita (ou de seu genérico, o “centro”) recolher os votos do antipetismo. Não foi suficiente antes e não será agora. Ou ela entra firme nos pobres e no Nordeste, ou a situação eleitoral será de risco. De novo, é só olhar os números. Lula não estará na cédula eletrônica, mas confiar cegamente nisso é complicado. Vai que, como em 2010, o eleitorado lulista decide dar mais um voto de confiança ao líder…

Daí a caça a um candidato ou a uma política pública que sensibilizem o pobre e o Nordeste, onde tem mais pobre que a média nacional. O candidato era Luciano Huck, o comunicador de biografia supostamente generosa para os “mais humildes”. Não deu certo. Jamais saberemos se funcionaria. Agora temos a intervenção federal na segurança do Rio. É inteligente, também na teoria. Será que vai funcionar? A resposta, é claro, estará na execução. Como costuma ser.

Adaptando Joãosinho Trinta, quem gosta de discurso sobre como melhorar a segurança pública é intelectual. Pobre gosta mesmo é de segurança pública. É ele quem mais sofre com a falta dela. Esse é um flanco que a esquerda tem imensa dificuldade para fechar, também por cegueira ideológica. A esquerda não deve porém se desesperar. Considerando-se a perícia necessária e a complexidade da operação proposta, a chance de flopar é real.

Sempre há, entretanto, o risco de confiar demais na incompetência alheia. Mas viver é correr riscos.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A mega UPP de Temer no Rio e seus efeitos no que interessa na política: a disputa eleitoral

É zero a probabilidade de a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro produzir uma solução estrutural e aplicável aos demais estados. Na prática, trata-se de uma mega UPP, a ocupação do território por forças da ordem ainda prestigiadas (as Forças Armadas) para pacificar uma situação de conflito que produz desgaste para as autoridades.

Mas não se deve subestimar o efeito político positivo de uma momentânea descompressão. Será inteligente por parte do crime organizado um recuo, recomendado quando na guerra assimétrica a correlação de forças é decisivamente desfavorável. Uma maneira de produzir paz é exibir músculos suficientes para provocar o esperado efeito-dissuasão. Está nos manuais.

Além disso, as autoridades não precisam de estratégias que perdurem para todo o sempre, precisam apenas de algo que reduza a turbulência daqui até a eleição. A intervenção na segurança do Rio é uma espécie de "Plano Cruzado" da segurança. Se mudar algo para melhor no curto e no médio prazos, terá cumprido os objetivos. As primeiras coisas primeiro, diz o ditado.

Mas talvez o aspecto mais interessante da iniciativa seja a mudança de ambiente para as narrativas. Se a inabilitação eleitoral (só) de Lula mais o baixo crescimento da economia mais a reforma da previdência mais a impopularidade presidencial vinham sendo um meio quase ideal para a esquerda, a inoculação da segurança no centro da pauta dá um gás e tanto para a direita.

Todas as pesquisas mostram que a maioria do eleitorado concorda com a esquerda nos assuntos da economia, do tamanho do estado e na maneira de buscar a melhora dos serviços públicos. E a maioria do eleitorado concorda com a direita nos temas do enfrentamento da criminalidade e das políticas de segurança pública, e nas medidas para proteger o cidadão comum contra os bandidos.

Até porque é histórica a incapacidade de a esquerda enfrentar o debate da segurança. A tese "mais justiça social significa automaticamente menos crime" não resiste à realidade. Nos governos do PT o Nordeste cresceu e distribuiu renda como nunca. E nos governos do PT a criminalidade no Nordeste cresceu como nunca, com exceções que apenas confirmam a regra.

Eis por que a intervenção no Rio seja possivelmente a primeira chacoalhada num cenário antes coagulado. Lula e a esquerda vinham defendendo bem seu mercado eleitoral colocando no centro da agenda temas em que a população pende para a esquerda. Mas como a esquerda e o PT atravessariam uma campanha eleitoral em que a segurança pública estivesse no foco?

É previsível que a oposição denuncie a incapacidade de essas medidas enfrentarem e resolverem estruturalmente os desafios na segurança. Mas essa é uma colheita para o futuro. Se esse futuro chegar antes da eleição, por a intervenção ter falhado redondamente, o cenário será um. Se, assim como no Cruzado, a coisa sobreviver até a urna, o cenário será outro.

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As Forças Armadas acabam de ser convidadas para uma dança que não desejavam mas não têm como recusar. É emblemático que o general responsável pela intervenção no Rio vá se reportar diretamente ao presidente da República. A esta altura os fardados devem estar quebrando a cabeça em busca de uma estratégia de saída.

Militar não entra na guerra sem alguma ideia de como sair dela. A vitória total, com a eliminação do crime dentro das fronteiras do Rio, é uma impossibilidade. Por isso, o desejável será conseguir sair em ordem em algum momento e devolver o abacaxi ao poder civil. A eleição, num cenário otimista, pode facilitar por trazer um novo personagem, zerado.

Até porque, convenhamos, criar um ambiente em que as Forças Armadas possam lá na frente recuar em ordem interessa a todos os atores que contam no teatro de operações. Todos sem exceção.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

2018 não é nem de longe igual a 1989

A fotografia da corrida eleitoral mostra uma pulverização inédita nas últimas três décadas. Há seis eleições PT e PSDB fazem a final, no primeiro ou no segundo turno. Agora, parece que vamos chegar a outubro com múltiplas opções, quase uma loteria. O que poderia, quem sabe?, fazer a decisão desvestir o figurino esquerda x direita e abrir as portas para algo diferente. Mas em que condições isso poderia acontecer?

A premissa básica para o fracasso da esquerda ou da direita clássicas, ou de ambas, na disputa pela presidência será a falha na construção e consolidação de seu respectivo campo de alianças. Isso pode soar convencional, mas a experiência prática com os outsiders, aqui e lá fora, mostra que não basta um ambiente de rejeição à política. É preciso também que a política esteja desorganizada. Onde isso não acontece, as novidades brilham mas não chegam.

Os políticos sabem disso, então a atual dança de múltiplos candidatos deve ser vista com alguma cautela. Do assim chamado centro para a direita, por exemplo, temos Bolsonaro, Alckmin, Alvaro Dias, Rodrigo Maia, Meirelles, eventualmente Temer, Amoêdo. Na esquerda, temos Ciro Gomes, Jaques Wagner ou outro indicado por Lula, Manuela D’Ávila, Boulos. Sem falar de Marina, cujo eleitorado se divide entre os 2 campos, numa proporção ainda incógnita.

É possível que a corrida chegue assim fragmentada na urna? Sempre é, mas talvez seja algo precipitado afirmar que vamos repetir 1989. O ambiente de agora é parecido com aquele no aspecto da pulverização, mas só. No resto, é tudo diferente. A começar pela ausência do bonito consenso democrático da festa na primeira eleição direta da redemocratização. Teve caneladas, como em toda eleição, mas nada que se compare com a polarização de hoje.

É duvidoso que o establishment vá assistir passivamente à dispersão de forças entre seus cavalos, num páreo em que Lula mostra potencial de transferência de votos e Bolsonaro exibe resiliência. E é também improvável que os partidos de esquerda não enxerguem em algum momento a necessidade de aglutinar para, pelo menos, alcançar resultados razoáveis no Legislativo, mesmo em caso de uma derrota presidencial.

Se perder a Presidência e ficar muito fraca no Congresso, a esquerda provavelmente verá quatro anos de perdas e recuos, o que será agravado pelo visível declínio de sua capacidade de resistência nas ruas. E, se caminhar fragmentada até o fim, a direita bem poderá ser vitimada por uma convergência tática informal entre, de um lado, a mobilização eleitoral do lulismo e, de outro, a tendência ao não voto ou ao voto inútil que floresce nos ecossistemas da antipolítica.

Então, não estamos em 1989. Naquela eleição, perder fazia parte do jogo. Era aceitável. Agora não. Quem perder saberá que vai passar quatro anos numa intempérie brava, sujeito ao ímpeto liquidacionista do vencedor. É outro ambiente, o pacto democrático costurado pela convivência na Constituinte é história, além de um detalhe importante: aquela eleição foi solteira. Desta vez, errar na presidencial terá impacto negativo nos resultados para os outros cargos.

Em 1989, marcar posição para convergir apenas no segundo turno era uma opção de baixo risco. Um ano depois haveria eleições para governador, deputado, senador. Agora é tudo junto, num momento em que as diversas forças políticas estão numa guerra pela sobrevivência, permanentemente ameaçadas por ações policiais e processos judiciais. É outro mundo.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A disputa entre o comunicador e o político para derrotar o lulismo. E a tensão dos liberais com as corporações

A maratona eleitoral entrou na fase de acotovelamentos à direita e à esquerda para ver quem ganha massa crítica e se desgarra do pelotão. Na esquerda, parece haver consenso de que o assim chamado lulismo sobreviverá e tem boa chance de pegar uma vaga no segundo turno. Precisará de competência para reagrupar seus votos, mas é viável.

Já na direita e em seu genérico, o centro, a coisa está algo mais nebulosa, desde que a ultraprovável ausência de Lula na urna deflagrou o “por que não eu?”. Meia dúzia de nomes disputam, e o único a se destacar por enquanto é Jair Bolsonaro. Os ditos especialistas dizem que ele tem teto e vai murchar. Mas convém esperar para ver, pois especialistas também erram.

Bolsonaro é uma pedra no caminho do centro. Até agora, os nomes preferidos, Geraldo Alckmin e Luciano Huck, comem a poeira do capitão. Para não falar em Michel Temer e Rodrigo Maia. Mas é pule de dez que um dito centrista será abençoado pelo establishment como a grande esperança de manter e aprofundar o programa econômico deste governo.

Quem será? Temer e Maia movimentam-se, mas o braço de ferro do momento é entre Alckmin e Huck. O governador de São Paulo está bem posicionado na máquina partidária, só que enfrenta a tentação tucana de recorrer à velha receita: surfar na indignação popular contra a corrupção para tentar “o diferente”. Se deu certo com Jânio e Collor, por que não agora?

Jânio e Collor “deram certo”? Sim. A política sempre comanda. Jânio cumpriu a missão de vencer a aliança PSD-PTB, o que a UDN jamais conseguira. E foi uma façanha histórica: a frente getulista nunca mais voltou ao poder pela urna. Já a vitória de Collor impediu a ascensão da dupla Lula-Brizola e atrasou por mais de uma década a chegada do PT ao Planalto.

Alckmin, Huck ou outro ungido receberiam um mandato para 1) promover a liquidação definitiva (até onde pode haver algo “definitivo” em política) do PT ou algum similar como alternativa de poder futuro e 2) completar as reformas liberais iniciadas por Temer. De preferência, de um jeito que tornasse quase impossível revertê-las num horizonte visível. O modelo chileno.

Quais são os obstáculos ao projeto, em ordem cronológica? O primeiro é ganhar a eleição com um programa liberal. Pode acontecer, mas seria mais fácil sem o impeachment. As urnas provavelmente se vingariam do governo Dilma e de seu alardeado estatismo. Agora vão julgar também a administração Temer, e os resultados deste breve ensaio de medidas pró-empresariais.

Vencida a barreira, a seguinte seria governar com o programa defendido na campanha. E aí os liberais precisariam enfrentar a resistência do Congresso e da burocracia estatal. Hoje em dia, o Judiciário tem bem mais musculatura do que qualquer outro ator para resistir à lipoaspiração do Estado. Ainda que aqui e ali apareçam movimentos para colocar limites a esse poder.

O dilema do centrismo: se um comunicador leve está mais aparelhado para navegar na eleição, a experiência de Temer prova que um político de couro grosso pode ser útil para sobreviver à guerra contra a burocracia megaempoderada. O ideal para a direita seria juntar as três coisas: liderança popular, liderança política e confiabilidade. Mas não está fácil de achar.

Não será uma escolha simples. Nada adianta ter o melhor nome para governar, e perder a eleição. E o eventual fiasco no governo de mais uma especulação com a novidade pela novidade avivaria fantasmas que se quer enterrar. Pois se há uma coisa absolutamente garantida quanto ao futuro é que ele sempre chega. Essa é outra regra que não admite exceção.

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As pesquisas eleitorais mostram uma divisão, grosso modo, meio a meio do eleitorado entre lulistas e antilulistas. Parece que será uma eleição novamente decidida no detalhe. E o que seria melhor para o lulismo? Lula solto podendo fazer campanha, ou preso e elevado à categoria de perseguido político pela narrativa de seus herdeiros?

Quem disser que tem certeza da resposta provavelmente está mentindo.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Sem Lula, cenário eleitoral perde uma referência

A mais que provável inelegibilidade de Lula não desorganiza só a esquerda, chacoalha a paisagem geral que o establishment político e econômico vem tentando construir. A narrativa de vitaminar o centro para evitar a polarização eleitoral entre extremistas perdeu uma das pernas: Lula. E numa perna só é difícil ficar em pé. Claro que a eventual anabolização de Bolsonaro nas pesquisas pode reaquecer o mercado do salvacionismo centrista. Aguardemos.

Lula não era apenas o ponto focal de organização de seu campo político. Sua ausência revelará que ele organizava em algum grau todo o cenário. Aliás, vinha sendo seu papel desde que ultrapassou Brizola para ir ao segundo turno em 1989. Todas as eleições desde então giram em torno dele, direta ou indiretamente. Há quase 30 anos a disputa presidencial no Brasil é decidida num mano a mano entre Lula e o anti-Lula.

É possível, até provável, que essa lógica mostre resiliência lá na frente e a liderança do ex-presidente ocupe novamente o centro do palco, levando um nome ao 2º turno. Aí teríamos o duelo entre o candidato de um Lula inelegível, talvez preso, e a alternativa construída pelos adversários “para evitar a volta do PT”. Mas, se projetar esse futuro tem lógica, o momento político é de rearranjos. Sem Lula, todo mundo tem o direito de acreditar nas próprias chances.

Na esquerda, o jogo é algo delicado. Não ficaria bem para os concorrentes do PT passar a impressão de estarem se beneficiando do que denunciam como manobra golpista contra o ex-presidente. Mas a política é objetiva, e o vácuo nunca dura muito. A esperança do PT é a liderança de Lula reforçar-se na resistência à adversidade do momento. E assim recolocar as coisas em seu devido lugar: a continuidade da hegemonia petista.

No outro lado, a remoção do musculoso adversário vai induzir e estimular o “por que não eu?”. O PSDB é conhecido por sempre largar na eleição presidencial com a certeza da vitória. Mais ainda agora que o adversário líder nas pesquisas está sendo barrado pela Justiça. E é natural também que os demais na direita sintam-se estimulados pelo desgaste e pelas momentâneas dificuldades dos tucanos. E nada indica que o governo esteja fraquejando no projeto de ter candidato.

A atual etapa, portanto, será de luta interna em cada campo enquanto se aguarda o desfecho da novela judicial. E, como ela promete durar ainda um certo tanto, é improvável uma reorganização rápida do tabuleiro. Na esquerda, persistirá a tensão entre insistir com Lula e buscar outros caminhos. Na direita, não se enxerga um reagrupamento instantâneo em torno do nome tucano. Aliás, diferente das eleições recentes, essa convergência está longe de acontecer.

Cada um com sua crise, que também é uma oportunidade. Vai levar vantagem quem conseguir se apresentar antes e melhor ao eleitor com massa crítica para ganhar a eleição e governar. Não parece prudente, nesta eleição, esperar que a inércia crie fatos consumados e imponha hegemonias inevitáveis. Quem ficar só esperando corre o sério risco de perder o bonde.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Abre-se o espaço para um líder político rumo a 2019. E quem ganha com a saída de Lula da corrida

Lula está fora da candidatura presidencial. A chance de ele ser autorizado a participar é 1%. Os adversários trabalharão para que fique fora também da campanha. Se for preso, não poderá subir em palanques, articular apoios ou gravar. Será uma baixa de peso para seu campo, ao menos no curto prazo. Sem Lula na operação, cresce o risco (ou esperança) de dispersão.

Até 24 de janeiro, a esquerda vinha trabalhando a disputa eleitoral com parâmetros algo normais. Lula esticaria o enredo até quase o final, daí escolheria um estepe, os nomes alternativos teriam cada um sua votação, e se juntariam todos no segundo turno. Mas o ambiente da decisão do TRF-4 fez cair a ficha: usar padrões de normalidade em épocas anormais tem custo.

A novidade na conjuntura pós-TRF-4 é que a esquerda passou a compartilhar o principal problema da direita: a dificuldade de convergir rapidamente para um nome e ganhar massa crítica antes do outro campo. Quem junta massa crítica primeiro passa a exercer força gravitacional sobre possíveis dissidências do lado inimigo. Assim se ganham, e se perdem, as eleições.

Se antes o maior risco da esquerda era Lula ser definitivamente impugnado a menos de vinte dias da urna, quando a lei já não permite substituir, agora isso se inverteu. Lula está na prática inviabilizado eleitoralmente e não se vislumbra uma solução rápida de substituição. E a tática “Eleição sem Lula é fraude” será um ruído adicional na hora de vender um possível substituto.

Se a eleição estava mais ou menos desenhada de um lado, mas algo bagunçada do outro, agora a bagunça espalhou-se. E quem vai se dar bem no novo cenário? As pesquisas vão mostrar, mas é legítimo projetar que a vantagem estará com o nome que exibir capacidade de exercer liderança política. Se um líder sai, é razoável acreditar que haverá espaço para outro.

A rigor, até 24 de janeiro havia dois líderes: Lula e Bolsonaro, e não me refiro a líderes de pesquisa. Agora, só resta por enquanto um: Bolsonaro. Não é totalmente fora de propósito especular, inclusive, que o deputado ultraconservador herde um pedaço do espólio lulista. Assim como é possível Marina recolher uma fatia. Essa deve ser a configuração provisória imediata.

Que será chacoalhada se e quando aparecer um novo líder pela esquerda, ou um líder “por transferência”, e/ou quando e se surgir um desafiante musculoso para Bolsonaro na direita. Não precisa ser imediato. Mas os dois lados tampouco têm todo o tempo do mundo. E, de novo, quem chegar antes no riacho vai beber água limpa. Para isso terá de trabalhar. E já.

A demanda pelo líder cresce à medida que se frustram as expectativas de uma recuperação econômica vistosa. Disso dependeria a força gravitacional da continuidade. E o apelo eleitoral do “gestor”. Sem isso, a mudança prevalece. E a demanda por mudança anaboliza precisamente o cacife dos líderes, gente especializada em materializar a esperança de um bom futuro.

Assim, chegamos à hora em que a competência política separará os homens, ou as mulheres, dos meninos, ou meninas. No vácuo pós-TRF-4, largará na frente quem aparecer com uma solução que acenda antes a fagulha da esperança e, ao mesmo tempo, tenha os pés no chão da governabilidade. A configuração ótima. Mas sem o ótimo haverá sempre mercado para o bom.

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Debate-se muito sobre o próximo presidente, na ilusão de que chegando ao Planalto com a força do voto ele terá músculos para “fazer o que precisa ser feito”. Só que não. Prestar atenção na composição do próximo Congresso e em como vai evoluir até lá a relação entre o Judiciário e os demais poderes talvez seja tão importante quanto.

O principal risco político de 2019 não está na possível eleição de A ou B, mas na quase certa extrema dificuldade que B ou A terão para exercer o poder numa Brasília feudalizada e onde pululam centros alternativos de força, que só estão de acordo entre si na manutenção dos próprios privilégios. Uma democracia progressivamente disfuncional, tendente à paralisia.

Feliz 2018 a todos.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Boas intenções dos juízes pavimentam caminho da crise

Em “A Ditadura Encurralada”, Elio Gaspari conta quando Golbery do Couto e Silva concluiu que, de tanto mandar, a ditadura já não mandava mais nada. O então chefe da Casa Civil do presidente Ernesto Geisel saíra de uma reunião interministerial para decidir o reajuste dos preços cobrados pelos táxis em Curitiba. “Concentramos o poder de tal forma que produzimos um buraco negro, capaz de absorver qualquer energia.”

Gaspari relata também que, na época, o Ministério da Agricultura fez publicar no Diário Oficial o tamanho obrigatório das caixas em que deveriam ser comercializados os pepinos: 495 mmX 230 mm X 355 mm. Quem quisesse vender pepinos em caixas de outros tamanhos precisaria requerer licença à Pasta. Aqueles tempos eram mesmo estranhos.

Voltamos a 2018. Qual é a probabilidade de uma decisão do governo federal, sobre qualquer assunto, encontrar pela frente a antipatia ou a rejeição de pelo menos um juiz, de primeira ou outra Instância, e ser bloqueada? Não sou estatístico, mas deve beirar os 100%. Com a elevação do Judiciário a poder moderador da República, é o que vem acontecendo. Bem, mas diante dos problemas da política é preciso fortalecer o Judiciário, certo?

Se a história passada vale para alguma coisa, é razoável concluir que o excesso de protagonismo dos juízes provavelmente acabará produzindo mais fraqueza que força, empoderando (como se diz hoje em dia) os contravetores. O exercício sábio do poder costuma equilibrar situações em que é usado, com outras em que é economizado. Até porque, no popular, o poder segue a lógica do salame: a cada fatia degustada ele fica um pouco menor.

Claro que também aqui a culpa última é dos políticos. Lá atrás aprovaram uma Constituição árvore de Natal, cheia de princípios genéricos e lotada de mecanismos para proteger os mais variados “direitos adquiridos”. Com o tempo, a coisa só piorou: novos direitos vão sendo acrescentados e, junto com isso, institucionalizou-se a cultura do “perdi uma votação no Congresso, vou recorrer ao Supremo”.

O resultado é uma democracia crescentemente disfuncional, em que o eleitor é chamado de tempos em tempos para escolher governantes que conseguem governar cada vez menos, enquanto quem governa cada vez mais são pessoas que ocupam suas posições por concurso público, “notório saber” ou escolha política indireta. E como não precisam se submeter ao crivo do eleitor, adotam referências de nicho, como a “opinião pública” e as redes sociais.

De vez em quando os jornais fazem pesquisas para saber a opinião dos leitores sobre os mais diversos assuntos. É frequente que o resultado seja oposto ao encontrado quando se ouve uma amostra representativa de toda a população. É legítimo, portanto, suspeitar que essa parceria da “opinião pública” com instâncias de poder “não políticas” vá acabar produzindo uma política mais oligárquica do que a oligárquica política que se pretendeu combater.

Algum tempo atrás, dizia-se que a crise da democracia representativa poderia dar lugar a um sistema mais participativo. Mesmo na teoria, já tinha cheiro de engodo, pois uma característica da democracia dita participativa é que dela participa menos gente que da representativa. Ensaios assim costumam evoluir (sic) para algum tipo de ditadura de grupos de pressão. Essa regra não conhece exceção.

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Publicado originalmente no www.poder360.com.br

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O estado e as variáveis da corrida presidencial na virada de um ano animado para outro que promete

O que esperar e observar daqui até a eleição?

Oposição de esquerda. A variável decisiva será mesmo Lula. O ex-presidente atingiu por enquanto um objetivo: manter a autoridade absoluta no seu campo político. Os petardos da Justiça e da imprensa sobre ele e o PT, não necessariamente nesta ordem, poderiam ter enfraquecido a hegemonia sobre o conjunto da esquerda. Não aconteceu.

Há aqui e ali ensaios de alternativa. Mas não mostram por enquanto força para desafiar a ordem unida do chefe da tribo. Parecem mais movimentos para se fazerem ouvir por Lula e pelo PT, não polos reais de contestação à liderança tradicional. Se o PT não se complicar, os alternativos certa hora serão bem pressionados a caminhar com a formação principal.

A tática petista para enfrentar a quase certa inelegibilidade de Lula é inteligente, ou a única possível: levar a candidatura às últimas consequências e transformar os processos contra o ex-presidente em fatos 100% da política, terreno bem mais fácil para Lula defender-se. Mas a tática embute um risco importante. Os prazos podem conspirar contra o plano.

Um partido só pode trocar de candidato ao Executivo a até vinte dias da eleição. Se a impugnação definitiva de Lula vier antes, ele possivelmente indicará um substituto no PT. Mas, e se for depois? Lula e o partido ficarão espremidos entre boicotar e eleição ou apoiar um nome das legendas que estiverem na disputa. Ou substituir antes de a Justiça decidir. Complicado.

Se não será simples resolver, menos ainda executar. Outro fator é que se Lula for recondenado pelo TRF-4 e impugnado é provável que aumentem as pressões para tirá-lo não apenas da eleição mas também de circulação. Impedi-lo de fazer campanha e articular por um eventual substituto. Especialmente se as pesquisas futuras confirmarem as atuais sobre transferência.

Situação e novos. No estoque de votos não lulistas e fora da esquerda clássica, as variáveis a monitorar serão 1) a convergência ou não entre PSDB e PMDB/governo, 2) a resiliência de Bolsonaro, 3) o potencial de crescimento de Marina e Álvaro Dias, 4) as incógnitas, como João Amoêdo. O cenário projeta que aqui a pulverização deve permanecer até pelo menos agosto.

Ainda é cedo para dizer que o governo entrou em trajetória de recuperação de imagem, mas se as próximas pesquisas confirmarem vai esquentar a disputa para ver quem será o candidato oficial, mesmo com Temer amargando más avaliações. A narrativa de manter a reanimação da economia e evitar a volta do PT seria competitiva tanto num como noutro turno.

O risco principal para Lula e os dele é o campo governista aparecer com um novo no velho, um nome leve mas montado em ampla aliança de partidos e contando com o apoio de um governo que já não esteja em situação desastrosa. A vida do PT também complica se tucanos e peemedebistas convergirem. Mais ainda se for em torno do tal nome leve. Mas não está fácil.

Sobre os novos sem máquina, têm como fazer alguma colheita na forte rejeição à política e aos políticos. E devem contar com a ajuda talvez involuntária, mas objetiva, de novos e espetaculares fatos na esfera policial-judicial. Entretanto, além de lhes faltar apoio político estruturado, enfrentam ainda outra barreira: a aparente resiliência de Bolsonaro. Ele durará?

Todas as projeções apostam na economia rodando acima de 3% ao ano na eleição. Mesmo que não leve às nuvens um candidato do governismo, isso enfraqueceria o apelo para mudanças radicais, tanto pelo PT como pelo novo. O desejo de continuidade é diretamente proporcional ao risco de perda. Foi assim que o PT ganhou as últimas eleições.

E tem o imprevisível. Como já se disse aqui algumas vezes, uma característica do imprevisível é a dificuldade de prever quando ou como vem. Mas é sempre bom contar com ele na hora de fazer projeções.

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Se tudo correr conforme o roteiro, esta análise de conjuntura volta quando o processo eleitoral for precipitado pelo julgamento do recurso de Lula no TRF-4. Ou antes, se algum fato exigir.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O parlamentarismo que os parlamentaristas não curtem

O parlamentarismo volta e meia dá as caras como panaceia para enfrentar as crises de falta de hegemonia do Executivo. É preciso mesmo resolver esse problema. O Brasil virou um país cronicamente ingovernável, e é urgente restabelecer o poder moderador da chefia de governo. O atual "caos de baixa intensidade” é também resultado da movimentação muitas vezes atabalhoada dos demais poderes e do Ministério Público para tentar preencher o vácuo.

No parlamentarismo cresce em tese o estímulo a que o Congresso se alinhe ao Executivo, para evitar o risco de dissolução e convocação de novas eleições. Claro que na prática é possível um parlamentarismo com seguidas trocas de governo, ao sabor dos realinhamentos no Legislativo, mesmo entre dois pleitos. Ainda mais com nossa grande quantidade de partidos. Mas na teoria seria um sistema com menos freios para o Planalto tocar suas políticas.

Um complicador: a coisa já foi rejeitada duas vezes quando se chamou o eleitor brasileiro a decidir em plebiscito. A razão é sabida. Foram duas tentativas de mexer na soberania popular, transferindo poderes de presidentes (ou vices) eleitos diretamente, para Congressos de baixíssimo prestígio. Da última vez, o apoio do establishment econômico, político e comunicacional foi maciço, mas insuficiente para convencer o eleitor. O instinto da massa prevaleceu de novo.

As tentativas de implantar o parlamentarismo no Brasil costumam carregar um fardo: o de virem pelas mãos de quem quer muito o poder mas tem pouco voto. A exceção que confirmou a regra: os parlamentaristas não lembraram de implantar o sistema quando chegaram ao Palácio do Planalto. O PSDB poderia ter tomado a iniciativa no governo de Fernando Henrique Cardoso. Preferiu introduzir a reeleição para presidente. Isso deve querer dizer algo.

Um mesmo conceito pode virar do avesso em novas circunstâncias. O parlamentarismo nasceu como instrumento para impor a soberania popular contra monarquias absolutistas. Onde teve esse papel acabou emplacando, em certos casos até hoje. Quando se tenta fazer o contrário, limitar o poder do povo sobre o governo, o contexto passa a ser completamente outro. Por isso, dizer que “vai funcionar aqui porque funciona em países desenvolvidos” é bobagem.

Se os parlamentaristas querem convencer de que o parlamentarismo é bom, precisam primeiro dar um jeito de ele vir para aumentar a influência da população sobre o governo, e não diminuir. E não é tão difícil assim construir argumentos. Numa contribuição ao debate, segue abaixo um punhadinho de mexidas que ajudariam a reduzir a resistência do povão, acho eu. Só não sei se os parlamentaristas vão curtir, mas sugerir não tira pedaço.

Poderiam começar estendendo para a Câmara dos Deputados o princípio de “um homem, um voto”, que hoje já vale na eleição de presidente. Cada estado teria deputados federais na exata proporção do eleitorado. Em caso de voto distrital, cada distrito teria aproximadamente o mesmo número de eleitores, em todo o país. Se o voto de todos é igual para eleger o presidente no presidencialismo, é justo que seja igual para indicar o primeiro-ministro no parlamentarismo.

Num segundo passo, a eleição dos primeiros-ministros ficaria bem parecida com a de presidente hoje, mas ligada à formação do Congresso. Ao votar no premiê, o eleitor daria automaticamente o voto a uma lista estadual de deputados federais ou a um candidato distrital. Cada partido ou coalizão teria um nome nacional na disputa de primeiro-ministro. Lula lideraria um bloco. Alckmin poderia liderar outro. Nesse sistema, até FHC se animaria, quem sabe?, a testar sua liderança.

Com essas duas medidas singelas o financiamento das campanhas estaria bem encaminhado. Cada partido ou coalizão teria os mesmos recursos e tempo de TV, desde que tivesse recebido, digamos, 5% dos votos das eleições anteriores para a Câmara dos Deputados. Todas as legendas ou alianças que não tivessem atingido os 5% no último pleito poderiam arrecadar de pessoas físicas e empresas até o limite da cota partidária.

Mas tenho dúvidas se os parlamentaristas topam. Você, leitor, que é inteligente, já percebeu por quê. Porque haveria o risco de eleger primeiro-ministro no parlamentarismo quem de todo modo se elegeria presidente no presidencialismo, só que com mais chance de ter maioria parlamentar para governar tranquilo. Mas não é isso que os parlamentaristas querem? Governo com maioria parlamentar que lhe dê estabilidade? Sim, mas só se for o governo deles. Eis a questão.

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Publicado originalmente no www.poder.com.br

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Dois vetores opostos sobre a reforma da previdência no ano eleitoral. E uma dica de Mark Twain

O senso comum faz concluir que é mais difícil votar em ano eleitoral uma reforma da previdência redutora de direitos. É verdade. Os deputados e senadores candidatos à reeleição ou a outra coisa ficam mais sensíveis à sensibilidade do eleitor. E a maioria dos eleitores brasileiros são contra as mudanças previdenciárias propostas pelo governo de Michel Temer.

O mesmo senso comum diz que em ano de eleição de presidente os candidatos ao cargo serão pressionados a dizer o que farão nos principais temas da pauta econômica, se chegarem lá. E a reforma da previdência é o principal ponto da agenda proposta para estabilizar ou até trazer para baixo a curva que mostra a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto.

Três pontos parecem favoritos a polarizar o debate presidencial de 2018, não necessariamente nesta ordem. Quem é mais honesto. Quem vai mudar os métodos de governar. E o que fazer para acelerar a retomada do crescimento econômico e da criação de empregos. Outros itens, como por exemplo a segurança, prometem produzir mais barulho do que decisão de voto.

O emperramento da reforma da previdência pode acabar criando um problema para o candidato finalmente vitorioso. Por isso, a esquerda esbraveja contra, mas tem esperança de ganhar a eleição e no íntimo torce para que Temer consiga passar algo que libere o novo presidente dessa pauta. Estelionatos eleitorais têm consequências, sabe-se cada vez melhor.

Do outro lado, o cenário é mais complexo. Uma bandeira desse campo serão as reformas liberais. E a disputa pelo apoio do establishment a um ou outro candidato se dará também em função de que nome vai ser mais capaz de vencer e reunir apoio político para dar andamento à agenda proposta pelas forças que depuseram Dilma Rousseff em 2016.

Eis por que, para o governo Temer, tentar passar a reforma ao longo do todo o ano de 2018 talvez seja tão importante, ou até mais importante, do que obter uma vitória rápida. Esta teria certamente bons efeitos na economia, mas o alongamento do debate daria de mão beijada uma narrativa pronta a um eventual candidato do governo ao Planalto.

Em condições normais de temperatura e pressão, a cadeira cativa de candidato liberal-reformista estaria já ocupada pelo PSDB. Mas os tropeços tucanos abrem caminho a outras possibilidades. Geraldo Alckmin ainda pode reagrupar seu campo político habitual. Entretanto, se o governo achar um candidato leve em outro partido a coisa pode complicar-se para os tucanos.

O PMDB comeu poeira do PSDB nos oito anos de Fernando Henrique. Comeu poeira do PT nos oito de Lula e nos quase seis de Dilma. É impensável que o núcleo de governo não esteja pensando num jeito de não voltar à situação de coadjuvante. E a falta de apoio do PSDB à reforma da previdência é uma oportunidade de ouro para alimentar a tentação de abrir outro caminho.

Some-se o fato de que nunca desde 1989 o PSDB largou tão atrás na corrida presidencial, e com tantos problemas. Ou seja, o governo neste momento não enfrenta ainda um adversário consolidado em seu campo. É uma baita janela de oportunidade. Os movimentos do ministro da Fazenda são o melhor sintoma de que alguém já entendeu o essencial do cenário da guerra.

Há portanto dois vetores opostos agindo sobre o andamento da votação da reforma. Vai crescer o medo de votar, para não chatear o eleitor. E vai crescer também o interesse do governo de mostrar que tem compromisso com ela. E o andar do tempo vai aumentar a pressão sobre o PSDB para ajudar a passar uma medida que o partido sempre disse ser indispensável.

Seria prudente adotar para a reforma da previdência a máxima de Mark Twain, quando certo dia anunciaram erradamente que ele tinha morrido. “As notícias sobre minha morte foram muito exageradas", brincou o escritor. De tanto que já anunciaram o fim do mundo e não aconteceu, será inteligente a cada anúncio esperar para ver se o mundo vai acabar mesmo.

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Se o PT tivesse de planejar o cenário ideal para dar verossimilhança à narrativa de que foi e está sendo vítima de um golpe de estado continuado, dificilmente faria melhor do que fazem por ele os adversários e inimigos nas várias esferas. Lula, que curte as metáforas futebolísticas, sabe que não basta o goleiro ser bom, precisa ter sorte. Disso ele não pode se queixar.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A divisão entre herbívoros e carnívoros mudou de lado

Tempos atrás havia um debate sobre hábitos alimentares da esquerda latino-americana. Tinha a carnívora, liderada pelo venezuelano Hugo Chávez e inspirada em Fidel Castro. E tinha a herbívora, comandada por Luiz Inácio Lula da Silva e mais ideologicamente alinhada com o socialismo europeu ocidental. A separar as duas, o grau de aceitação do capitalismo e da democracia que os clássicos do marxismo chamavam de "burguesa".

Depois que, pelo menos no Brasil, a preferência por uma alimentação puramente vegetal foi insuficiente para evitar o cerco e a tentativa de aniquilamento, a distinção perdeu muito da utilidade prática. Quem ainda tiver dúvidas, faça a experiência: compareça a um encontro qualquer do PT para defender que o PSDB continua, como na origem, uma força política de centro-esquerda. Disponível portanto para alianças progressistas.

Se a classificação pelo tipo de dieta vai perdendo substância na esquerda, ela reaparece agora com esplendor do outro lado, neste prefácio de sucessão presidencial. As engrenagens de modelagem ideológica vão construindo a tese de haver uma direita carnívora, bem retratada por Jair Bolsonaro, em oposição a uma herbívora. Diante da clássica dificuldade de a direita pátria assumir-se como tal, ela sobe ao palco da política com a novíssima narrativa do “centro”.

O que seria esse centro? Talvez uma política econômica de direita com concessões à esquerda nos campos comportamental e ambiental. A combinação da “racionalidade" econômica com a luta "contra todo tipo de preconceito” e “em defesa do meio ambiente". Essa construção avança na disputa pela hegemonia, facilitada desde que a esquerda, pragmaticamente, trocou a velha luta de classes por disputas em que o capitalismo, até o mais voraz, pode adotar o "lado do bem” a um custo baixíssimo (1).

As consequências são nítidas no debate e no noticiário, políticos e econômicos. O nacionalismo era marca registrada da esquerda, mas foi quase abandonado, depois de ter sido carimbado pela direita como sintoma de “atraso”, por recusar a inevitável marcha da história. O curioso é que acreditar em uma “inevitável marcha da história” era até outro dia ridicularizado como sintoma de fossilização intelectual... da esquerda! Quem se beneficia desse abandono da questão nacional? A direita nacionalista, claro.

A esquerda vem sendo tangida para o cercadinho da luta por uma globalização mais humana, mais justa e mais ambientalmente responsável. Longe vão os dias em que o “outro mundo possível” saía no braço nas reuniões do G-8, contra o Fundo Monetário Internacional, contra o Banco Mundial e outros menos votados. Agora estão todos de mãos dadas, sempre diligentes para cuidar que a exploração do homem pelo homem aconteça de um jeito “sustentável”.

Os ideólogos teriam mais trabalho para vender a miragem centrista se nossa esquerda estivesse atenta a temas como: o altíssimo spread bancário (um recorde mundial), os juros escorchantes, a concentração da terra, a necessidade de uma reforma urbana. Qual foi a última vez em que você viu uma liderança expressiva da esquerda hegemônica falando dessas coisas?

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(1) O melhor que li disso, quando já matutava sobre o tema, foi “From Progressive Neoliberalism to Trump - and Beyond”, de acadêmica Nancy Fraser (New School for Social Research, de Nova York). Vale a leitura. O link -> https://americanaffairsjournal.org/2017/11/progressive-neoliberalism-trump-beyond/.

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Publicado originalmente no poder.com.br

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A batalha morro acima do PSDB e um possível efeito-bumerangue da condenação e inabilitação de Lula

Desde 1994, quando o PSDB conquistou a hegemonia no campo que ocupa as faixas do meio para a direita, tem sido possível prever com razoável certeza o desfecho das corridas presidenciais: um tucano contra um petista. Na esquerda, a hegemonia está definida desde 1989, quando Lula superou Brizola por diferença estreitíssima e foi ao segundo turno.

Há perturbações de tempos em tempos. A rejeição ao governo Fernando Henrique fez Serra passar aperto com Garotinho e Ciro em 2002. Marina apareceu com votos em 2010, e ameaçou Aécio em 2014. Mas no fim a inércia acabou impondo-se e a disputa sempre convergiu para a polarização entre vermelhos e azuis.

Lula e o PT consolidaram a liderança absoluta em seu campo quando, no governo, conquistaram os pobres e o Nordeste. Há pobres e “nordestes” espalhados por todo o país. E, até o impeachment de Dilma, o PSDB vinha sacando confortavelmente da conta aberta quando Fernando Henrique, montado no Real, aliou-se ao PFL para ser o anti-Lula e ganhar a eleição.

2018 ensaia uma certa perturbação no enredo clássico. O paradoxo é a desorganização aparecer no lado vencedor das recentes batalhas políticas. O “se” não resolve nada, mas se Dilma tivesse conseguido ir até o fim é provável que o lado de Lula estivesse agora tão bagunçado quanto. Ou pelo menos algo bagunçado. Até agora, as contestações a ele são residuais.

Já o candidato do PSDB, muito provavelmente Alckmin, tem problemas novos a resolver. Começa atrás, pelo menos, de Marina e Bolsonaro. E precisa ganhar musculatura para trazer o apoio do PMDB e/ou dos partidos que apoiam o governo do PMDB. Só conseguirá se mostrar força e competitividade no campo da direita para desestimular outras ambições.

Para tirar votos de Bolsonaro, o PSDB precisa falar ao eleitor de Bolsonaro. Para tirar de Marina, precisa falar ao dela. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo é complexo. Parece que o governador decidiu nesta primeira etapa mirar o hoje vice-líder nas intenções de voto. Tem lógica, mas talvez não vá ser tão simples. O eleitor de Bolsonaro leva jeito de estar entrincheirado.

Bolsonaro oscila em torno dos 10% na pesquisa espontânea. É um estoque bem razoável nesta altura do campeonato. É metade de um Lula. E o eleitor de Bolsonaro é mais convicto que a média. E está pouco propenso a mudar de opinião. E é bem mais militante, hoje, que o eleitor do PSDB. Basta olhar as redes sociais para perceber.

A opção seria tentar sacar do estoque de brancos, nulos, não sei e não vou votar, mas é pouco provável que o voto da antipolítica se converta à política nos primeiros momentos da corrida. Talvez adira no final, não para eleger alguém, mas para evitar a volta de alguém. Por isso, Alckmin é, na teoria, um candidato melhor para o segundo turno do que para o primeiro.

Assim como Lula parece melhor para o primeiro do que para o segundo. Dos nomes do PT e da esquerda, se Lula tem de longe mais chances de passar ao turno final, é o que mais deve enfrentar dificuldades para fechar a eleição. “Evitar a volta do Lula” pode, sim, mobilizar um pedaço ainda adormecido do eleitorado e portanto facilitar a vida dos adversários.

Duvidar do que dizem os políticos é sempre saudável. Os tucanos dizem preferir enfrentar Lula na urna a vê-lo impugnado. É o contrário: eles preferem o petista fora da eleição e esperam o muito provável, que o TRF-4 confirme a primeira instância. Até porque sem Lula a disputa no primeiro turno passa a ser, pelo menos no começo, por duas vagas e não uma só.

Mas, se as pesquisas estiverem certas, e se forem confirmadas, um “candidato de Lula” tem boas chances de passar à decisão. Uma vez ali, com menor rejeição que o ex-presidente, pode ter até mais facilidade para reunir os apoios necessários. Sim, uma eventual inabilitação de Lula pode ter efeito-bumerangue. A beleza da política está também na volatilidade.

E tem Marina, posicionada para colher os frutos da aversão ao establishment político. Ela já tem massa crítica e pode ser um desaguadouro quando, e se, as danças em torno do “novo” derem em nada.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

“Jerusalém Ocidental não é e não será ponto de negociação na busca de um acordo de paz definitivo"

1) Quais serão as consequências (simbólicas e práticas) com a decisão de Donald Trump de mudar a embaixada americana para Jerusalém?

A posição dos Estados Unidos somente reconhece uma realidade, que Jerusalém Ocidental é a capital de Israel. Essa parte da cidade já estava toda dentro da área de soberania de Israel mesmo antes da Guerra dos Seis Dias. Faz parte do território internacionalmente reconhecido como israelense por todos os países que apoiam o direito do estado judeu à existência. Ou seja, não é e não será objeto de negociação na busca de um acordo de paz definitivo. Dentro das fronteiras pré-1967, Israel coloca sua capital onde quiser. Como todo país normal.

2) Há quem diga que esse movimento dos EUA coloca uma pá de cal em negociações de paz que poderiam acontecer. É um passo atrás na solução de dois estados?

Coloca uma pá de cal na ideia de que Israel tem soberania apenas relativa sobre seu território enquanto não aceitar as condições dos países árabes e dos palestinos. Nesse aspecto, enfraquece uma das barreiras à paz, reduz o estímulo a que os palestinos perpetuem o impasse na esperança de que o passar do tempo imponha suas condições para um acordo final. Se você parte da premissa de que o tempo joga a favor dos palestinos, é natural que eles busquem prolongar o impasse. Mas se o tempo começa a jogar contra, cresce o estímulo a encontrar uma solução negociada.

3) Acredita que essa mudança pode dar início a uma nova onda de violência entre israelenses e palestinos?

A violência faz parte da paisagem do Oriente Médio, infelizmente. Então é sempre razoável contar com essa possibilidade. Mas as experiências anteriores mostram que os resultados não foram bons para os palestinos na maioria das vezes. Seria inteligente que buscassem aproveitar a situação do governo Trump, que fez um gesto importante agora a favor de Israel e portanto tem mais legitimidade para apoiar reivindicações palestinas e árabes. Mas nunca é demais lembrar a máxima de Abba Eban: ele dizia que os árabes (na época não se usava a expressão “palestinos") nunca perdem a oportunidade de perder uma oportunidade.

4) Há quem afirme que essa decisão é apenas um reconhecimento histórico. Você concorda?

É essencialmente um gesto político. Os Estados Unidos reconheceram no seu talvez principal aliado de hoje um país com plena soberania sobre seu território. Tem muita lógica do ângulo das relações internacionais.

========== Entrevista ao Instituto Brasil-Israel

Jerusalém é apenas uma questão de soberania

Israel é um país soberano com fronteiras internacionalmente reconhecidas nos limites anteriores à Guerra dos Seis Dias, de 1967. Jerusalém Ocidental faz parte do território israelense anterior a 1967, onde funcionam o Executivo, o Legislativo e o Judiciário do país. Todas as autoridades, inclusive brasileiras, mantêm encontros com autoridades de Israel em Jerusalém Ocidental. Lula esteve lá. Ou seja, na prática, Jerusalém Ocidental é a capital de Israel.

Mas, se se aceita a soberania de Israel sobre as terras que compunham o país antes de 1967, deve-se admitir também que Jerusalém Ocidental é a capital de direito. É lógica elementar. Que norma dá à comunidade internacional a prerrogativa de dizer se a capital dos Estados Unidos deve ser Washington ou Nova York? Ou se a brasileira deve ficar em Brasília ou voltar para o Rio de Janeiro? Isso seria considerado uma ingerência inaceitável.

Na partilha da Palestina, há 70 anos, foi decidido que Jerusalém deveria manter um status especial, internacional. Isso foi ultrapassado pelos fatos no terreno. De 1949 a 1967 Jerusalém Oriental esteve sob a soberania da Jordânia. Passou à soberania israelense quando os exércitos árabes combinados foram derrotados em junho de 1967. Hoje, os palestinos reivindicam a parte oriental da cidade como capital de seu futuro estado.

O destino de Jerusalém Ocidental não está em questão. Sempre foi, é, e será parte de Israel. Com exceção das forças que declaram o propósito de aniquilar Israel, o que só seria possível com o aniquilamento da população local, a soberania do Estado judeu sobre as terras a oeste da Cidade Velha é ponto pacífico. Assim como deveria ser ponto pacífico o direito de os israelenses instalarem sua capital em qualquer pedaço de seu território de antes de 1967.

Uma das sedes da Copa da Rússia será em Kaliningrado. Antes da Segunda Guerra ali era Konigsberg, a capital alemã da muito alemã Prússia Oriental. Uma “olhadela” no mapa (sempre é bom consultar mapas antes de opinar sobre disputas territoriais) revela que não há continuidade entre a região de Kaliningrado e a Rússia desde que a URSS acabou e os países bálticos ganharam independência. Isso diz algo.

Imaginar que certo dia Israel vá abrir mão da soberania em Jerusalém Ocidental é tão realista quanto acreditar que a Rússia vai devolver Kaliningrado à Alemanha, ou que os Estados Unidos vão devolver o Texas para o México. Entretanto, a decisão do presidente Donald Trump de colocar em prática uma lei do então presidente Bill Clinton e reconhecer Jerusalém como capital de Israel é classificada como imprudente e polêmica.

A decisão de Trump só é polêmica para quem não admite a soberania de Israel em nenhuma parte da área entre o Jordão e o Mediterrâneo. Quanto ao argumento de que a área foi conquistada militarmente, e não em negociações de paz, talvez deva-se universalizar o critério. Talvez a ONU devesse reabrir o debate sobre todas as fronteiras no planeta decorrentes de realidades no campo de batalha. Incluindo as terras brasileiras a oeste de Tordesilhas.

Só há um caminho para a paz entre israelenses e palestinos: reconhecer as realidades no terreno, aceitar ambas as soberanias sobre territórios demograficamente definidos, estabelecer mecanismos firmes de segurança, promover a integração econômica que abra caminho para a convivência frutífera de ambos os povos. Mas isso não será possível enquanto os palestinos acreditarem que, com guerras ou artimanhas diplomáticas, vão eliminar o estado judeu. E é apenas disso que se trata.

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Artigo publicado originalmente no site poder360.com.br

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Lula retoma músculos conforme aumentam as tensões que atrapalham a convergência da coalizão antilulista

Eleições em dois turnos, ou com apenas dois candidatos viáveis, como nos Estados Unidos, tendem a ser decididas com forte influência da taxa de rejeição. Mais que para eleger, a urna mobiliza-se para evitar a eleição de alguém, ou alguéns. As últimas quatro disputas presidenciais no Brasil, por exemplo, deram a vitória a blocos liderados pelo PT, mas antitucanos.

O Datafolha deste fim de semana traz como maior novidade a ampliação da vantagem de Lula sobre os adversários no segundo turno. Isso é consistente com duas variáveis. Uma mensurável: a taxa de rejeição do ex-presidente vem caindo. A outra não se mede com números: são as dificuldades objetivas e subjetivas para montar uma ampla coalizão antilulista.

A maior dificuldade objetiva é que os dois partidos-guia do impeachment de Dilma Rousseff querem ambos o protagonismo político no novo governo, a caneta. Temer não vê por que ceder aos tucanos sem luta. E o PSDB, como outros, cultiva um permanente “projeto de poder”. Considera-se, e não se pode impedi-lo de achar isso, naturalmente indicado para governar.

O problema é contornável, se se quiser contornar, conforme o tempo decantar as ambições inviáveis e o establishment pressionar por uma “alternativa racional”. O recente antitemerismo de parte da elite cederá espaço ao temor de uma polarização definitiva Lula x Bolsonaro. O apelo “programático” virá forte, assim como as desconstruções focalizadas nos indesejáveis.

É sempre arriscado contar em excesso com a racionalidade política dos agentes, mas essa aliança à direita ainda é viável. O desafio maior é subjetivo: a forte dispersão ideológica. É muito mais simples hoje agrupar uma frente lulista do que uma antilulista. As tensões centrífugas operam com muito mais intensidade no segundo campo do que no primeiro.

O antilulismo de agora é formado por cinco afluentes principais: o antipetismo político, o pró-capitalismo radical, o conservadorismo moral, o horror à esquerda e a rejeição ao que se convencionou chamar de velha política. O problema dos alquimistas da direita é juntar todos esses ingredientes num único bolo que seja digerível. A busca frustrada do novo é sintoma da dificuldade.

Quanto do bolsonarismo se disporia a trocá-lo por um tucano clássico para vitaminar a frente antilulista? Quantos eleitores tucanos estariam dispostos a apoiar Bolsonaro contra Lula? O eleitorado de Marina na hora h vai à direita ou à esquerda? Em 2014 ele se dividiu. O agronegócio apoiaria Marina contra Lula? E a velha política, teria alguma razão para priorizar o antilulismo?

Outro complicador: o antilulismo popular declina à medida que a memória do governo Dilma dilui e ela vai ficando com o passivo, e Lula com o ativo. A campanha eleitoral reavivará a lembrança de “Dilma, a indicada de Lula”, mas convencer de que, por isso, um eventual governo Lula será ruim exigirá competência única dos construtores de narrativas. Não vai ser trivial.

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Outra escolha não trivial é a do PSDB. Se ajudar a aprovar a reforma da Previdência, o otimismo econômico fortalecerá o governo. Se a reforma empacar e isso levar os investidores a colocar o pé no freio, à espera de qual bicho vai dar em outubro, quem se beneficia é Lula, ou o candidato de Lula. O PSDB, em resumo, conseguiu ser sitiado numa posição perde-perde.

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Um efeito da resiliência de Lula e da anemia do festejado (por enquanto só na imprensa) centro será os olhares voltarem-se cada vez mais para o Judiciário. Não se faz omelete sem quebrar os ovos. Mas conforme o tempo passa aumenta a capacidade de transferência de votos de Lula para o “candidato do Lula”. É outro dado importante do Datafolha. Meio disfarçado, mas está lá.

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A Lava-Jato vem com tudo no ano eleitoral, anunciam seus comandantes. Há duas maneiras de ela influir na eleição: 1) pedindo votos para candidatos que defendam as propostas da Lava-Jato e 2) criando fatos policiais e judiciais com impacto potencial no ânimo do eleitor. Esta eleição não terá como ser chata. Promete ser a mais animada de todos os tempos.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Centro é a vovozinha

Reclamar de estelionatos eleitorais é um desperdício de energia. “Tempo de guerra, mentira como terra“, diz o provérbio. Invertendo-se Clausewitz, a política é guerra, só que por outros meios, e a mentira é arma costumeira na luta pelo poder. Há todo tipo de mentira. A mentira completa, a omissão parcial dos fatos, a deformação proposital da realidade, a invenção de perigos inexistentes. E por aí vai.

O PMDB de Ulysses Guimarães iludiu o eleitor em 1986 quando prometeu que manteria o congelamento de preços do Plano Cruzado do governo Sarney. Isso rendeu ao partido uma vitória avassaladora nos estados e uma maioria igualmente esmagadora na Constituinte. Produziu também como efeito retardado, depois que a casa caiu e os preços subiram, o naufrágio de Ulysses na corrida pelo Planalto em 1989. Dali em diante foi só ladeira abaixo para o ex-senhor diretas.

Fernando Henrique Cardoso ocultou a verdade em 1998 quando garantiu que “juntos derrubamos a inflação, agora vamos vencer o desemprego”. O país estava quebrado, mas ele vendeu ao eleitor um cenário róseo. Abertas as urnas, a moeda derreteu. O país afundou na crise e o PSDB nunca mais conseguiu ganhar uma eleição presidencial. Mas FHC obteve para si quatro anos adicionais no Planalto à espera de passar a faixa ao sucessor. Ficou vegetando, mas e daí?

Dilma Rousseff arrancou a fórceps um quarto mandato para o PT à custa de duas ideias: 1) a economia estava muito bem e 2) os adversários, se eleitos, imporiam um plano duríssimo de austeridade, que, por a economia estar bem, era desnecessário e cruel. O resto da história é sabido. A economia não estava bem, a própria Dilma recorreu à austeridade, aí ela ficou fraca e os adversários aproveitaram para derrubá-la por uma questiúncula qualquer.

A diferença de Dilma para os vendedores de ilusões que a antecederam não foi a taxa de inverdades injetadas no ouvido do eleitor: foi a escassez de gordura política para queimar no inverno da impopularidade quando o logro fica evidente. Gordura parlamentar e gordura no establishment. Quando se abriu a chance de arrancar o PT do palácio, o PT percebeu que não fizera amigos verdadeiros nos tempos das vacas gordas. É um erro fatal desde José no Egito.

Uma manobra costumeira é apresentar-se como a única salvação para evitar o perigo iminente e depois esquecer-se do perigo, ou aliar-se a ele. O PT e o velho PMDB, quando este ainda acolhia os futuros tucanos, criaram-se em São Paulo em oposição ao malufismo. Os tucanos romperam com o PMDB tendo o antiquercismo como bandeira, coisa em que o PT era pioneiro. Mais adiante, PSDB, PT, Quércia e Maluf reencontraram-se em felizes alianças e ficou tudo por isso mesmo.

E qual será o vencedor entre os candidatos a mistificação do ano em 2018? Há vários na pista aguardando a largada. Um vem pela mão do PT, quando diz que é desnecessário reformar a Previdência. Se Michel Temer não a reformar agora, e se em 2019 o presidente for do PT, ou apoiado por ele, uma de suas primeiras medidas será tentar mudar a Previdência, como aconteceu em 2003. Até os turistas na Praça dos Três Poderes estão carecas de saber que não há como estabilizar a relação dívida/PIB sem isso.

Outro terreno na lua vem pelas mãos de quem promete governar sem trocar cargos e verbas orçamentárias por apoio no Congresso. O Brasil curte um neobonapartismo meio fascista. “O povo não sabe votar” e elege “maus políticos”, então que venham os salvadores da pátria para governar sem a política, diretamente com as massas. Nunca dá certo, mas sempre rende votos.

Um caminho promissor desta eleição será acusar o PT de fanático da gastança e apresentar tucanos, e outros menos prestigiados pela elite, como guerreiros da responsabilidade fiscal. Os números dizem o contrário. A dívida pública explodiu com FHC e foi contida nos governos Lula e Dilma 1. O governo Temer produziu um deficit primário recorde. Mas quem se importa com números?

Meu palpite principal para campeão da enganação deste pleito é o anunciado “centro”, o redentor. O Brasil estaria ameaçado por perigosos extremistas, e as pessoas de bem deveriam reunir-se mais ou menos ali pelo meio do caminho entre a direita e a esquerda. O centro, entendido como “nem de direita, nem de esquerda”, não resiste a meia dúzia de perguntas. O que seria uma reforma da Previdência de centro? Como seria uma política externa de centro? Como montar um ministério de centro?

Centro político é um conjunto vazio. As sociedades estão divididas por interesses antagônicos. “Centro” é uma palavrinha que direita e esquerda se autoplugam quando precisam escapar de dizer ao eleitor quem vai se dar bem e quem vai pagar a conta. É o Lobo Mau fantasiado de vovozinha esperando para abocanhar a Chapeuzinho Vermelho. Toda vez que você vir alguém se dizendo “de centro”, procure pela esquerda ou direita que pulsam no peito do “centrista”. É um exercício bacana para não fazerem você de bobo na urna eletrônica.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A viabilidade do novo enfrenta seu primeiro inverno. Além de tudo, Bolsonaro chegou antes.

As coisas podem mudar de repente, como diz o slogan, mas é visível a dificuldade de consolidar na corrida presidencial candidatos novos e já vitaminados. Um novo é João Amoêdo, que ainda não tem voto mas sobrevive, também por ser de fato novo e não apenas no nome do partido. Os demais carregam velhices no passivo, e isso cobra seu preço alguma hora.

João Doria entrou na arena política pelas mãos de Geraldo Alckmin, que governa São Paulo pela quarta vez. E o prefeito precisa mostrar serviço na cidade. Mas as vacas estão magras. Doria não pode nem pensar em brigar com Michel Temer. Sem um partido para chamar de seu, resta-lhe negociar com donos dos cartórios tradicionais. Vai ficando com cara de velho.

Luciano Huck é conhecido da TV. É um ativo, mas também embute um passivo potencial. Huck é o novo com trajetória empresarial aparentemente reta, mas construiu relações pessoais, de negócios e políticas com alguns alvos do momento na fogueira que queima o país. Há o risco de rápido envelhecimento quando exposto às labaredas de uma campanha presidencial.

Os candidatos a novo enfrentam um obstáculo adicional: boa parte do desejo de renovação vem sendo capturado por Jair Bolsonaro. Ele representa melhor a rejeição aos políticos que comandam o Brasil desde a redemocratização. Se Amoêdo é o cansaço com o Estado onipresente, Bolsonaro é o cansaço com a metodologia da Nova República, desde Tancredo-Sarney.

Bolsonaro é o novo mais autêntico porque não tem compromissos ou vínculos com as últimas três décadas da política nacional. E Amoêdo é o novo mais ideológico porque, sem nunca ter governado nada, pode prometer realizar o sonho do pedaço que detesta o Estado e enxerga na assim chamada livre-iniciativa o vetor de libertação da sociedade.

Os demais, velhos ou novos-velhos, têm os ônus da sua trajetória e suas circunstâncias, diria Ortega y Gasset. E, por enquanto, vão sendo descartados. Também porque o ambiente não anda mais tão propício assim para a agitação pura e a raiva. Como já disse em análise anterior, é possível que o cansaço com a confusão já esteja maior que o cansaço com os políticos.

Mas também pode ser que não. Enquanto os candidatos a novo vão deixando a cena e a política tradicional corre atrás da feitiçaria do momento, o tal centro, abre-se um espaço potencial para o crescimento de Bolsonaro e para que Amoêdo ganhe o mínimo de musculatura. Ou mesmo para que Marina Silva volte a abocanhar alguma fatia relevante no debate.

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O ideal dos buscadores do novo é um nome que junte o novo e o centro. Mas não está fácil achar. Não há nada mais velho na política brasileira do que a esquerda ou a direita autoplugando-se a palavra “centro” para vestir um figurino palatável na eleição. E se há mesmo um desejo difuso de renovação, o sonho centrista está restrito por enquanto só aos alquimistas.

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Michel Temer saiu da intervenção cardíaca mais animado para tentar a reeleição. Os movimentos são claros. Promove um expurgo no tradicionalmente flácido PMDB, não deixa desgarrar o PSDB aecista, insiste na reforma da previdência, sem o que seu brand reformista ficará baqueado. Aliás nem precisa fazer a reforma, basta que trabalhe por ela.

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As previsões para o crescimento da economia brasileira em 2018 já oscilam em torno de 3%. Lula continuará com forte mercado eleitoral porque a recuperação do emprego não será igualmente brilhante e a memória de seu governo é forte, em emprego, renda e crédito. Mas, um ambiente de alívio depois da longa e brutal recessão vai ajudar o governismo.

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Temer não precisaria ser candidato se houvesse um amplo acordo no bloco governista em torno de um nome que oferecesse e garantisse conforto político futuro às forças hoje no poder. A instabilidade do PSDB dificulta essa convergência. E se o governo estiver algo melhor em 2018 por que deveria oferecer gratuitamente o doce aos tucanos?

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O risco de duas ondas opostas deve preocupar o PT. E pode abrir caminho para uma candidatura Temer

Um primeiro olhar sobre o cenário eleitoral mostra o campo à esquerda relativamente coeso em torno de Lula, com alguns pequenos focos de dispersão. Já do lado oposto prevalecem por enquanto as forças centrífugas. Bolsonaro parece ter um público cativo que é de um terço a metade do de Lula. O resto pulveriza-se entre alguns e o nenhum.

Lula tem uma força e uma fraqueza. A força é dele próprio, ele é o dono dos votos de um terço dos brasileiros. A fraqueza relativa é de seu campo político, que hoje está algo isolado. O PT ganhou quatro eleições presidenciais fazendo alianças com pedaços da direita. A urna ainda está longe, mas os sinais são de que isso pode ser mais difícil agora.

A direita tem uma fraqueza e uma força. A fraqueza está na relativa anemia eleitoral exibida por enquanto pelos pré-nomes. O protagonista habitual, o PSDB, não aparece bem, e ninguém desponta até o momento para ocupar o espaço. A força está no antipetismo e no antilulismo: esse argumento tem potencial para criar uma onda antivermelha num eventual segundo turno.

Lula sabe disso, e manobra para abrir caminhos de aliança, mas as circunstâncias da queda de Dilma e a competente narrativa de denúncia e resistência da esquerda, se ajudam a coesionar, também alimentam radicalização. Não seria sábio subestimar o equilibrismo de Lula, mas mesmo para ele não será trivial. E a falta da caneta também atrapalhará.

Um risco para o PT está na possibilidade de duas ondas opostas: uma vermelha no primeiro turno, talvez até para desagravar o eventualmente impedido Lula, e a antivermelha no segundo, fazendo convergir a direita, o “novo”, a antipolítica e uma parte do eleitorado que ficou em casa no primeiro. Tudo para evitar a volta do PT ao poder.

Assim, é lógico que na, digamos, situação a briga seja de foice. Quem for ao segundo turno, se houver, terá uma narrativa pronta e um magnetismo natural para atrair a maioria dos votos “desperdiçados” no primeiro. Por isso está agitado o PSDB e por isso pululam as ambições. E também por isso começa a surgir a possibilidade de Temer candidato.

Michel Temer possui a caneta e terá o discurso de alguma recuperação econômica. Pode inclusive usar o argumento de que apenas ele tem o compromisso com as reformas liberais e também a capacidade de fazê-las andar. O pior que pode lhe acontecer é perder e ser ejetado do cargo em 2019. Mas isso é o que está programado se ele não for candidato.

A movimentação em torno de uma eventual candidatura Temer, já ensaiada na semana que passou, pode atrapalhar a reforma da previdência e portanto enfraquecer o argumento temerista de que ele é capaz de fazer a coisa passar no Congresso. Mas também pode reforçar o discurso de que só ele tem compromisso verdadeiro com a agenda liberal.

Além do mais, ao correr sozinho, o PMDB adia a decisão sobre quem apoiar. A opção seria uma aliança desde o início com o PSDB. Entretanto, o mundo tucano parece eletrizado pela hipótese de disputar o voto como força de oposição. Não se sabe bem como isso poderia ser explicado ao eleitor, mas sonhar costuma ser grátis, pelo menos até a hora em que a conta chega.

O detalhe é que uma candidatura Temer certamente seria do agrado do PT, ao manter e ampliar a confusão do outro campo. E, já que Lula, inteligentemente, anunciou ter perdoado os que ele chamou de golpistas, nunca é demais lembrar que PT e PMDB estiveram juntos durante pelo menos uma década antes do divórcio de 2016. É bom ficar de olho.

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A lógica projeta que a direita e o automaquiado centro vão acabar convergindo em torno de um nome para ultrapassar Bolsonaro e ir ao segundo turno. Mas nem sempre a lógica prevalece. Na corrida para prefeito de São Paulo, foi tão feroz a disputa pela vaga contra Doria no segundo turno que ele acabou ganhando no primeiro.

Uma boa maneira de Lula e o PT evitarem a onda antivermelha no segundo turno é aproveitar a confusão do outro lado e ganhar no primeiro. É muito difícil, mas não impossível.

domingo, 19 de novembro de 2017

E se Stálin tivesse os EUA?

Desde a morte de Mao Tsé-Tung, a China procura combinar um sistema político socialista e uma economia com fortes componentes capitalistas. E a espetacular prosperidade chinesa destes anos assenta-se, também e principalmente, no acesso aos capitais e ao mercado de consumo do Ocidente, especialmente dos Estados Unidos. Um dia, Mao e Richard Nixon enxergaram longe.

Neste um século da Revolução Bolchevique, nota-se o desejo de sentenciar o sistema da União Soviética como fadado desde o início a fracassar, o que acabou acontecendo em 1991. A derrocada teria duas razões principais: os comunistas soviéticos não preservaram a democracia liberal, desde quando fecharam a Assembléia Constituinte, e garrotearam o mercado.

Quando a ideologia dá espaço à observação da realidade, a tese vira queijo suíço. Não só a China, mas também os Tigres asiáticos, antigos e novos, alcançaram ciclos longos de prosperidade sob governos que um liberal chamaria de despóticos. Alguns transitaram para formas mais ou menos convictas de república constitucional. Alguns não. E todos vão bastante bem, obrigado.

"Ah, mas o modelo não é politicamente sustentável no tempo." Bem, aí já é futurologia. Que tal, então, um pouco de "passadologia"? E se a URSS tivesse tido ao menos quatro décadas de paz e acesso a capitais e mercados de consumo do Ocidente? E se a Nova Política Econômica tivesse podido durar mais?

A NEP (sigla em inglês) foi a distensão pró-mercado que a Rússia/ URSS praticou por um tempo nos anos 20. Por que durou pouco? Sem acesso a capitais e tecnologia externos, o nascente governo soviético centralizou a economia, estatizou o excedente agrícola e investiu tudo na industrialização acelerada.

Os custos humanos foram imensos. Mas esse desenvolvimento permitiu à URSS enfrentar e derrotar a máquina de guerra da Alemanha nazista, a um custo de 25 milhões de mortos - os americanos foram cerca de 500 mil. Não é juízo moral, mas político. Sem a industrialização soviética dos anos 30, Hitler teria arrastado as fichas na Europa.

Depois do conflito de 1939-45, após uma curta paz, veio a Guerra Fria. Ao final, a URSS não conseguiu competir e colapsou. Ironia: Mao rompeu com os soviéticos nos anos 60 também por discordar da "coexistência pacífica, competição pacífica" com o capitalismo, uma tentativa da URSS nos anos pós-Stálin de romper o bloqueio. Mais na frente, foi a China quem aplicou, com grande sucesso, a linha antes renegada.

Mas por que o socialismo soviético precisava da colaboração dos capitalistas? Não é uma contradição? Sim, e a resposta é sabida: por circunstâncias históricas, a revolução aconteceu na Rússia, o assim chamado "elo mais fraco na cadeia imperialista". Quando se tentou fazê-la em seguida na Alemanha, foi esmagada. Em vez de nascer num país capitalista maduro, ela eclodiu e ficou ilhada no país europeu com mais traços feudais.

A URSS acabou já faz um quarto de século. Enquanto isso, a República Popular da China, após quatro décadas de plena integração aos estoques de capital e aos mercados consumidores, decola. Na economia e na geopolítica. E, já que especular é grátis, fica a pergunta incômoda: o que teria sido Josef Stálin se lhe tivessem dado quatro décadas de paz e cooperação com o mundo capitalista desenvolvido?

ALON FEUERWERKER é jornalista e analista político na FSB Comunicação; foi secretário de Redação da Folha

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Publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 19/11/2017

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Para entender 2018 convém olhar a luta entre os dois cansaços: 1) com os políticos e 2) com a confusão

É cômodo caracterizar a disputa interna do PSDB como uma luta de éticos contra fisiológicos, puros contra impuros, tucanos originais contra tucanos perdidos. Uma guerra em que todos sairão mais fracos. Nesta era de ditadura das narrativas e de opressão sobre os fatos, é uma narrativa confortável. Como toda narrativa confortável, convém desconfiar, ao menos para testar.

Também teria sido razoável desconfiar da ideia de que o governo Michel Temer tinha desistido da reforma da previdência. Pela simples razão de que a única razão de o governo Temer existir é tentar fazer as reformas assepticamente chamadas de pró-mercado. Sem apontar para elas, ele não teria ultrapassado as duas votações na Câmara.

O contra-ataque do establishment tucano e o apego do governo Temer às reformas são os dois movimentos fundamentais na dança-tentativa de construir uma candidatura antipetista capaz de ganhar a eleição e também governar. Diferentemente de outras ocasiões em que se buscou um “novo”, é provável que desta vez o segundo vetor tenha um protagonismo relevante.

A sucessão presidencial será decidida num combate entre candidatos, partidos e blocos, sim. Mas também num braço de ferro entre dois cansaços: o cansaço com os políticos e o cansaço com a confusão. Seria um erro subestimar tanto um como outro. O Brasil parece querer livrar-se de ambos num único movimento, num único voto. Mas, e se não for possível?

Se, na eleição, o cansaço com os políticos estiver maior que o cansaço com a confusão, é provável que o eleitor decida por mais confusão para finalmente tentar dar cabo da atual elite política. Mas, se o cansaço com a confusão prevalecer, é possível que ele se incline para um dito político, na esperança de acabar com a confusão, ou impedir sua volta.

O apelo pelo “novo” é periodicamente sexy, mas enfrentará agora pelo menos dois problemas. 1) Os dois últimos presidentes, cada um à sua moda, “novos” foram derrubados e 2) a economia parece ter saído do estado de depressão profunda. Se o medo sempre tem um papel a desempenhar em campanhas eleitorais, não é tão difícil projetar que ele terá aqui uma oportunidade. Inflação baixa e algum crescimento não são de se jogar fora.

Eis por que há espaço para a movimentação de Lula e de Alckmin. Ambos buscam o perfil ideal, cada um em seu campo. Tentam consolidar a ideia de que conseguirão governar, sem entretanto deixar de se colocar como força de renovação. O tucano cultiva suas conexões com os cabeças-pretas, enquanto o petista lança sinais de que governará com menos compromissos.

Claro que a vida real é mais complicada. Nem Alckmin pode simplesmente lançar o velho PSDB ao mar, nem Lula pode se dar ao luxo de desprezar possíveis alianças. Sendo ele próprio candidato ou com outro nome, Lula sabe que uma coisa é ir ao segundo turno numa onda vermelha, outra coisa é fechar a eleição com metade mais um do voto válido. A lembrança de 1989 está disponível.

Observemos os fatos. Já disse algumas vezes: eles costumam ser teimosos.

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A reforma da previdência será aprovada. Agora. Ou em 2018. Ou em 2019. Nenhum futuro governo escapará de fazê-la, ou continuá-la, pela simples razão de que se alguma reforma da previdência não for feita o teto de gastos garroteará o orçamento e não será possível governar. O teatro da política talvez imponha ao eleitor um novo estelionato. Com os riscos nele embutidos.

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É da política que se tente aproveitar a fragilidade jurídica de Lula para recolher parte do capital político dele, eventualmente desgarrado. Vêm desse fato tanto ensaios como Luciano Huck, com sua suposta penetração entre os pobres, como as candidaturas de esquerda supostamente críticas ao PT.

É da política, mas tanto num como noutro caso será preciso avaliar se foi a tática mais inteligente. Dispersar forças não costuma ser inteligente.

domingo, 12 de novembro de 2017

Um Congresso de Viena no século 21

A passagem dos 100 anos da Revolução Bolchevique enseja, também no Brasil, um desfile de pseudoanálises marcadas pela a-historicidade. Um divórcio absoluto entre o fato histórico e suas circunstâncias, seu contexto. Ignoram-se, principalmente, os constrangimentos que as limitações da realidade impunham aos personagens.

É a “história de supermercado”. E supermercado chique. Os protagonistas disporiam de múltiplas opções, como os produtos finos numa bem abastecida gôndola, e devem ser julgados conforme suas escolhas tenham sido “certas” ou “erradas”.

A Revolução Russa é a única sobre a qual se debatem “erros” e “acertos”. Não há uma polêmica real, por exemplo, sobre supostos “erros” da Revolução Americana, ou da Francesa. Os Estados Unidos tornaram-se independentes sem abolir a escravidão. Tirando o “lunatic fringe” multiculturalista, ninguém propõe renegar Washington e Jefferson por causa disso.

A bizarrice pseudoanalítica sobre Lenin e os seus tem duas razões principais: uma é o envolvimento pessoal pretérito de analistas e comentaristas de hoje com movimentos que de algum modo beberam dos fatos de outubro/novembro de 1917. Há uma necessidade psíquica patológica de “estar certo” ou “ter estado certo”, por exemplo, na escolha de lados entre Trotsky e Stalin.

A segunda razão é mais sofisticada: debater a sério a Revolução de Outubro é abrir o cérebro para a possibilidade de o capitalismo talvez não ser eterno. Caricaturar o socialismo russo é como trancar Napoleão Bonaparte em Santa Helena e tocar adiante um Congresso de Viena sem hora para acabar, e em pleno século 21. Oferece a sensação de ter travado a perigosa marcha dos acontecimentos.

Um exemplo prático de a-historicidade são as lamúrias sobre a “oportunidade democrática perdida” quando o poder bolchevique instituído insurrecionalmente fechou a Assembleia Constituinte, eleita antes da insurreição. “Ah, como teria sido bom se os mencheviques tivessem ganhado!”.

Mas não se costuma perguntar por que a Constituinte não conseguiu oferecer qualquer resistência ao seu fechamento. Ou por que os bolcheviques venceram a guerra civil contra a ampla coalizão de potências estrangeiras e adversários internos. Ou por que, um quarto de século depois, a União Soviética foi o único país europeu a oferecer resistência militar real contra o nazismo, derrotando-o afinal.

Essas perguntas têm uma resposta óbvia, habitual e convenientemente ignorada: a revolução e o socialismo russos dispuseram, durante longas décadas, de esmagador apoio social. Porque foram ao encontro das demandas históricas da multidão de oprimidos pelo czarismo.

Porque tiraram a Rússia da desastrosa Primeira Guerra Mundial. Porque fizeram finalmente a reforma agrária sempre barrada pelos czares. Porque socializaram as grandes empresas e deram cidadania aos operários e camponeses. Porque em pouco mais de duas décadas realizaram, nas novas condições, o sonho de Pedro, o Grande: arrancaram o país do feudalismo e transformaram numa superpotência industrial.

Porque evitaram o colapso nacional definitivo e a escravização do povo eslavo que decorreria de uma derrota para Adolf Hitler.

Os russos e o conjunto da humanidade têm um débito com os povos e líderes da então União Soviética.

Essa constatação não é nem deve ser salvo-conduto para a adulação, ou para a cegueira. Mas deveria funcionar, até por pudor, como freio à ignorância propositalmente induzida e ao consumo indiscriminado de falsificações históricas. Elas fazem mal à saúde intelectual. E ideologia demais emburrece.

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Artigo publicado originalmente no site poder360.com.br

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

As pesquisas não mostram polarização entre extremos, mostram Lula e uma momentânea pulverização

A ideia de que as pesquisas trazem uma polarização entre extremos para as eleições do ano que vem é útil para vender a necessidade de uma candidatura dita de centro, mas tem pouca aderência à realidade. Ainda não há polarização, o autodeclarado centro não é tão de centro assim e é duvidoso que Lula venha com uma plataforma radical.

1) Ainda não há polarização

As pesquisas mostram Lula com algo entre 40% ou um pouco mais de votos válidos. Tem sido o patamar dele ou do candidato dele desde 2002, no primeiro turno. Há portanto uma aglutinação natural de bases sociais a favor de um nome, Lula, que tem clara liderança sobre esse pedaço da sociedade, à esquerda no leque político.

Do outro lado, há uma ainda dispersão, também natural, por causa de um certo vácuo de liderança política e de movimentos especulativos. A direita hoje se divide entre conservadores radicais, liberais de vários tons e outsiders sobrevoando a batalha à espera da hora de pousar para devorar os cadáveres. É razoável supor também aqui certa convergência futura.

2) Só o grupo de Marina está ao centro

O centro político é construção mercadológica útil para uma direita ou uma esquerda que buscam evitar a estigmatização político-eleitoral. Um centrismo mais viável é o ajuntamento de gente de direita e de esquerda por ganhos táticos, com uma disputa mortal já contratada para depois da chegada ao poder. A única pré-candidatura hoje com esses traços é Marina.

No segundo turno de 2014, os votos dela migraram em proporções substanciais para os dois lados. Caso ela não vá à decisão ano que vem, é razoável supor que o fenômeno se repita. No caso dos demais, a migração será maciçamente para o nome da direita que estiver na disputa. Assim como os votos de Ciro Gomes teriam destino certo para Lula.

3) Fazer previsões definitivas sobre Lula é um risco

Os adversários caracterizarem Lula como radical é caminho tão previsível quanto arriscado. O próprio Lula pode desmontar isso facilmente com gestos simples em direção ao empresariado e ao sistema político tradicional, movimentos para os quais tem know-how acumulado. O antilulismo é uma escolha óbvia, mas é também uma armadilha.

O maior desafio do eleito em 2018 será acelerar e melhorar a qualidade da criação de empregos. A agenda será de libertação de forças produtivas. A disputa de 2018 não será entre pró-capitalistas e anticapitalistas, mas sobre como fazer o bolo crescer e melhor distribuí-lo. Lula leva vantagem até agora pois está mais identificado com a prosperidade e o distributivismo.

Entretanto...

4) O centro não existe, mas é uma marca. Ser “de centro” é um ativo

A construção em torno do centrismo é ficcional, mas a realidade virtual também é real. Por isso, não só Lula, mas também os candidatos da direita fazem e farão movimentos para mostrar que não estão nos extremos. Uns vão aos Estados Unidos para elogiar o liberalismo, outros mostram preocupação social, outros ainda apoiam causas comportamentais da moda.

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Lula levar a candidatura até o limite do limite do limite faz sentido como cálculo eleitoral. A barafunda jurídica não vai economizar confusões, e não apenas na corrida presidencial. O espírito do tempo faz prever grande protagonismo e ativismo do Judiciário na eleição. Com sentenças e recursos em profusão. A bagunça vem aí.

Quanto mais perto da eleição Lula estiver quando -e se- for finalmente impugnado, maior será seu poder de transferência de votos para um eventual substituto ou até, em hipótese aí sim extrema, para o puro e simples boicote. Que não seria totalmente inédito, pois já aconteceu no regime militar. Talvez inéditas seriam suas proporções.