segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A consequência da eleição municipal na velocidade das mudanças legislativas

A uma semana do início da definição eleitoral nos municípios, o vento sopra contra o PT e o resto da esquerda, é enigmático para o PMDB, parece simpático ao PSDB, e sua tendência mais visível é dispersar o poder. Isso não chega a ser surpresa. Pôde ser, e foi, previsto desde o início da corrida.

Todas essas coisas vão encadeadas, mas a principal é a dispersão. É produto da variável nova no cenário brasileiro, no último meio século: a falta de partidos que apresentem, simultaneamente, possibilidade real de poder e perfil de "salvador da pátria", "novo", "diferente".

Também porque o salvacionismo nacional, que já namorou, noivou, casou e separou do (P)MDB, do PSDB e do PT, está hoje apaixonado pelo vetor extrapartidário: a Lava-Jato. Nosso recorrente embevecimento pelo candidato a redentor está depositado nos procuradores, policiais e juízes.

Daí não haver, como antes, sinais de uma onda partidária na reta final de primeiro turno. O localismo é uma característica perene desse tipo de eleição, mas no passado o vetor partidário nacional acabava imprimindo alguma caraterística na hora de definir a disputa paroquial.

Depois do resultado, o interesse analítico, como sempre, estará na influência da totalização municipal sobre a próxima disputa presidencial. Mas haverá também outra preocupação: como o resultado vai impactar o andamento das anunciadas medidas legislativas do governo Michel Temer.

Este governo tem diversos problemas, mas o principal é político: precisa impulsionar uma agenda de reformas austeras e liberais para as quais não obteve um mandato popular, seja na forma de eleição seja na de um líder com legitimidade endógena.

Isso se agrava por ser um governo já algo velho, apesar de bastante novo. Acabou de assumir e já entra na reta final. A agenda legislativa de seu último ano (o da eleição não conta) é típica do que seria o primeiro ano de um governo regular. Mas não tem o combustível da urna. Nem das massas.

A favor de Temer, interessa a todo postulante ao Planalto que ele dê certa arrumação na casa, para limpar o terreno. Mas não vão querer dividir os ônus. Austeridade e liberalização são sucesso em círculos empresariais e editoriais, mas enfrentam resistências sabidas no público.

Na esquerda, a derrota parirá uma nova rodada de sebastianismo jacobino, a fuga para o passado miticamente heróico como alternativa fácil à dolorosa missão de enfrentar os desafios do presente. Sintoma: o PT achar que seus problemas decorrem das alianças que fez, e não das que não fez.

Em resumo, o pós-eleição trará vetores antagônicos. Num cenário de dispersão, o governo lutará para dar centralidade a uma agenda que o salve de ser tragado pela inércia e pela Lava-Jato. Os aliados apoiarão com ressalvas, de olho no futuro custo eleitoral. E o PT/esquerda vai se refugiar na tática de "resistência".

O mais provável, como vimos escrevendo, é resultar daí um quadro progressivo, mas gradualista e minimalista. As reformas serão digeridas pelo Congresso, e atenuadas no processo. Inclusive porque o ator novo, os novos prefeitos, pedirão verbas que afastem o colapso federativo anunciado.

Colapso que nos estados já está aí. Enquanto impulsiona a PEC do teto de gastos, o governo precisa administrar as pressões de governadores que lutam para fugir da falência. Isso num país totalmente convencido pelos sabidos de que dinheiro tem de sobra, não estivesse desviado pela corrupção.

O cenário não é trivial.

Pode ser sempre enfrentado, mas exige uma perícia que até agora a nova administração conseguiu demonstrar apenas em grau insuficiente.

Prestar atenção:

  • O primeiro turno das eleições municipais

  • Novidades na Lava-Jato

  • O risco de quebra em estados e municípios

  • O andamento da PEC do teto de gastos
  • segunda-feira, 19 de setembro de 2016

    Dificuldades na comunicação costumam ser sintoma de dificuldades políticas

    Toda regra tem exceção, e a do título acima também deve ter, daí o "costumam". Mas para o governo Michel Temer pode-se cravar com margem razoável de certeza: a profusão de mensagens desencontradas e de idas e vindas é mais sintoma de desafios na política do que na comunicação.

    Um parâmetro para a análise é começar pelo que fez naufragar o governo Dilma Rousseff. A agora ex-presidente enfrentou dificuldades variadas, mas o vetor principal de seu colapso foi a quebra do contrato eleitoral firmado em 2014. Daí decorreu a perda instantânea de apoio popular.

    Como lhe faltava o colchão político que salvou José Sarney após 1986 e Fernando Henrique Cardoso após 1999, Dilma não conseguiu resistir à ação combinada dos adversários para derrubá-la. Não teve a sorte desses dois antecessores, a quem se permitiu vegetar até o fim do mandato.

    Temer tem a reserva político-parlamentar que faltou a Dilma. E dedica boa fatia do tempo para cuidar disso. Não enfrenta, por enquanto, dificuldades reais no Congresso. Mas tem encontro marcado com elas quando (e se) decidir impulsionar as reformas pedidas pela chamada opinião pública.

    O agora presidente vive um dilema. Precisa de iniciativas legislativas pró-capitalistas para fortalecer-se junto ao núcleo principal de seus apoiadores. Mas isso abrirá caminho para a reinvenção do petismo e da esquerda rumo a 2018, na resistência a esse movimento.

    Não há espaço, nem tempo, para conciliação. A narrativa do golpe está aí e falta pouco para as eleições. E o debate tende a oxigenar o PT, especialista em navegar no nosso anticapitalismo atávico e na nossa crença de que o governo deve ser a solução de todos os problemas.

    O PT também tem suas limitações? Sim. Fora as judiciais, estava até outro dia no poder e namorava reformas parecidas. Mas a oposição é um barco sempre mais ágil que o governo. O custo de mudar de ideia é relativamente baixo. E o público pede soluções, mais que coerência.

    O PT adota a tática adequada para frear e, no limite, imobilizar a nova administração. Sua mensagem é simples: nosso governo foi derrubado porque defendia as conquistas populares, e se nada fizermos o novo governo vai acabar com elas. E votem em nós em 2018.

    O poder recém-instalado argumenta que austeridade nas finanças públicas e mais oxigênio para os investidores são indispensáveis para relançar a economia. É provável que tenha razão, pois o próprio PT propunha isso quando ocupava o Planalto, até outro dia.

    Qual é o problema? O governo Temer não obteve um mandato popular para austeridade e liberalização. Mas mesmo isso não seria definitivo se o governo contasse com um exército digno do nome no Congresso, um contingente cuja sobrevivência dependesse do sucesso dele, Temer.

    E chegamos ao problema de sempre, que na verdade são dois. Os dois problemas de sempre.

    O país não está convencido de que precisa de austeridade. Inclusive porque a centralidade da luta contra a corrupção estimula a falsa ideia de que dinheiro há, bastaria usá-lo corretamente. E o Executivo não tem um exército parlamentar disposto a matar ou morrer pelo governo.

    Inclusive porque para um pedaço importante da base, o PSDB, não interessa que o governo tenha grande sucesso.

    Os desafios na comunicação do governo Temer estão mais no "o que" do que no "como". Mais no conteúdo do que na forma. Para que o governo consiga comunicar bem é preciso que antes ele saiba para que exatamente está ali, qual sua missão e como pretende cumpri-la.

    Ou, como se diz hoje em dia, qual é o seu projeto.

    Prestar atenção:

    • A reta final das eleições municipais

    • Sergio Moro e a denúncia contra Lula

    • As relações entre o STF e a Lava-Jato

    segunda-feira, 12 de setembro de 2016

    Agenda de iniciativas é essencial para qualquer governo ter força política

    Quando Dilma Rousseff ainda lutava para manter o mandato, ensaiou dois movimentos legislativos: uma reforma da previdência social, com introdução de idade mínima para aposentar-se, e a volta, com outro nome, de uma taxa sobre movimentações financeiras, do tipo da velha CPMF.

    Tentava assim responder ao ponto central do debate econômico: a contenção do déficit das contas governamentais, sem o que - e sobre isso há um quase consenso entre os analistas- não haverá como retomar os investimentos privados, essenciais para o relançamento da economia.

    Desde antes de nascer, o Partido dos Trabalhadores namora uma reforma trabalhista baseada na liberdade de organização sindical e na livre negociação entre empregadores e empregados. Isso está na origem do partido e da Central Única dos Trabalhadores.

    Em entrevista à The Economist em 2006, quando concorria à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou a necessidade de uma reforma trabalhista (leia a íntegra). Apenas repisava o que sempre defendeu como líder sindical e político, desde o chamado “novo sindicalismo” dos anos 1980.

    Esse retrospecto é um obstáculo a que o PT e satélites consigam ampliar decisivamente a resistência a certas reformas, que até ontem defendiam mas hoje acusam de neoliberais e antissociais, por serem impulsionadas por um governo a que decidiram fazer oposição intransigente.

    A tática Podemos/Syriza da esquerda tem lógica, mas enfrenta esse obstáculo. O núcleo da frente (PT-PCdoB) esteve no Planalto até outro dia e governava ao centro.

    Aliás, no começo dos anos Lula, o PSDB também resistiu a uma reforma da previdência que defendia no governo FHC, mas não impediu a aprovação.

    O chacoalhado governo Michel Temer tem aqui uma janela de oportunidade. Há mais permeabilidade social a reformas pró-capitalistas. É consequência da fadiga de material do longo período de hegemonia petista, mas também porque a maioria da esquerda já namorou a mesma agenda há pouco.

    E o retrospecto mostra que governos com agenda legislativa forte, mesmo que polêmica, ganham fôlego. A política é uma ginástica: para ter força é preciso praticar. Governos que enfrentam debates polarizadores na sociedade ganham musculatura. Governos que não conseguem tomar a iniciativa política definham e são fortes candidatos a naufragar.

    Sem contar que uma agenda clara estreitará as margens para o PSDB praticar o natural morde-assopra dos parceiros secundários de poder. Que classicamente precisam apoiar o suficiente para evitar a derrota coletiva, mas nem tanto que fortaleça o governante mais do que recomendaria a prudência de quem tem “projeto de poder”.

    *

    Se as pesquisas estiverem apontando no rumo certo, os partidos que estão dentro do governo Temer obterão somados uma vitória esmagadora nas eleições municipais daqui a alguma semanas. O problema está nesse “somados”. Não se pode projetar mecanicamente o resultado local para o palco nacional.

    E o enfraquecimento excessivo do PT e satélites pode trazer outros dois problemas para o governo. 1) A ausência de um inimigo externo forte costuma estimular as dissensões internas. 2) Um PT amplamente derrotado sofrerá a tentação de guinar à esquerda para defender seu mercado eleitoral em 2018, como aliás já está acontecendo.

    Pode parecer paradoxal, mas um PT com certa musculatura e com responsabilidades de poder é menos problemático, para o governo, do que um partido alijado do poder real e cujo único caminho é fazer política surfando na radicalização da rua.

    Especialmente quando o Congresso debate uma agenda pró-capitalista.

    Prestar atenção:

    • O julgamento de Eduardo Cunha

    • As propostas que Temer mandará ao Congresso

    • A Lava-Jato

    segunda-feira, 5 de setembro de 2016

    Não se deve superestimar a instabilidade política na largada de Michel Temer

    O governo Dilma Rousseff é assunto agora para os livros de História, para os acadêmicos que se ocuparão da infinita, no tempo, polêmica do golpe ou não golpe. E o PT sai com algum saldo deste último período, pelo menos no curto prazo. Levou com ele uma sempre útil narrativa de vitimização.

    Assim, Dilma não caiu porque conduziu o país ao poço sem fundo da recessão econômica e porque perdeu completamente a liderança política sobre a população e o Congresso. Caiu porque as elites conspiraram, mais uma vez, para derrubar um governo popular.

    A narrativa petista é verossímil. 1) A elite brasileira tem tradição em conspirar contra governos chamados progressistas. Getúlio Vargas e João Goulart são os casos mais lembrados. E 2) as acusações contra Dilma eram reconhecidamente frágeis, se vistas com mais cuidado.

    Claro que, além da narrativa, há os fatos. Se Getúlio criou a Petrobras, Dilma conduziu a empresa à sua mais grave crise. Jango precipitou o golpe de 64 ao flertar com a aceleração de leis abertamente contra os interesses dos capitalistas. Dilma nem chegou perto disso. Ao contrário.

    Dilma não mandou ao Congresso propostas para incrementar a reforma agrária, expropriar e nacionalizar empresas ou ampliar direitos trabalhistas. Ao contrário, até quando pôde insistiu, por exemplo, na necessidade de um ajuste fiscal e de uma reforma da Previdência.

    Mas o PT não está interessado em auscultar os fatos para melhor analisar a realidade. Ele precisa apenas de um discurso que o ajude a ancorar sua clientela político-eleitoral, para evitar o avanço da concorrência em seu próprio campo. Não há como o PT não guinar agora para um certo extremo.

    Esse é um problema para o governo recém-instalado, que precisa ganhar tração na contenção de gastos, no enfrentamento do nó previdenciário e na flexibilização trabalhista. São propostas que o PT então governo ensaiou implementar, mas que o PT agora oposição vai lutar ferozmente contra.

    Só que tudo na vida tem dois lados, e essa radicalização da esquerda deverá funcionar como um estímulo à agregação das áreas mais ideológicas do campo temerista. Será um contravetor às forças centrífugas da sucessão de 2018 e aos efeitos políticos da sabidamente implacável Lava-Jato.

    Em consequência, é um erro superestimar as crises e instabilidades internas do novo bloco de poder nesta largada. À parte as diferenças, todos que derrubaram Dilma sabem que sua melhor hipótese é este governo Temer chegar ao final tendo dado uma certa arrumação na casa.

    Isso será essencial para manter isolado o forte campo do PT e agregados, que mantém seu terço de apoio político na sociedade. O PT regrediu aos anos 90, em tamanho e discurso, e enfrenta agora em seu mercado disputas que não enfrentava duas décadas atrás. Mas o campo petista não colapsou.

    Para o temerismo, é essencial que as medidas econômicas avancem a tempo de um influxo de capital capaz de produzir bem-estar, pela queda do dólar contra o real e pelos empregos que os investimentos sempre criam. Isso aumentará a probabilidade de Temer comandar a própria sucessão.

    * 

    O Supremo Tribunal Federal gostaria muito de anular o fatiamento da votação no Senado que cassou o mandato de Dilma Rousseff mas não a inabilitou para cargo público. O problema é que os senadores votaram na primeira parte sabendo que eventualmente poderiam aliviar na segunda.

    Sempre se poderá dizer que o senador Fulano de Tal não teria apoiado o impeachment se soubesse que Dilma ficaria inabilitada para ocupar função pública. O STF está diante de um problema.

    * 

    As previsões dos especialistas indicam quórum na votação da Câmara dos Deputados no dia 12 para cassar ou não o mandato do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

    Prestar atenção:

    • Os preparativos para o julgamento de Eduardo Cunha

    • As propostas que Temer mandará ao Congresso

    • A piora da crise no Mercosul

    • As delações premiadas na Lava-Jato

    segunda-feira, 29 de agosto de 2016

    Dispersão eleitoral nos municípios é sintoma de imprevisibilidade política

    Enquanto o teatro do impeachment atrai a atenção dos sequiosos por um espetáculo, a largada das eleições municipais oferece elementos interessantes para projetar o futuro, especialmente o futuro de daqui a dois anos, quando estará em disputa o poder central.

    A marca distintiva desta corrida pelas prefeituras é a dispersão. No passado, era possível auscultar a corrida local para fazer um diagnóstico, ainda que arriscado, das tendências da cena nacional. Hoje isso tornou-se praticamente impossível.

    O brutal desgaste dos partidos tradicionais e a corresponsabilidade deles pelo cenário de crise poderia, inclusive, abrir espaço para uma alternativa partidária nova. Mas nem isso acontece, graças principalmente ao engessamento legal do sistema.

    As primeiras pesquisas de intenção de voto na eleição municipal mostram a prevalência absoluta do localismo. O vetor nacional expressa-se no desgaste do PT, mas isso não deve ser absolutizado. Mesmo o PT colhe, em última instância, os números nascidos das qualidades e defeitos da gestão local.

    No passado, podiam identificar-se ondas que permitiam projetar para o futuro. Em 1988, por exemplo, uma onda petista foi prenúncio de que Luiz Inácio Lula da Silva seria competitivo no ano seguinte, nas primeiras eleições diretas para presidente.

    Agora, por enquanto, não há como olhar o palco municipal e dele tirar qualquer tendência para 2018. É possível, claro, que ao longo da campanha e na hora da urna as coisas se afunilem e surja pelo menos um rascunho para o futuro. Mas não é provável.

    Houve um tempo em que as pessoas tenderam a votar no MDB para opor-se à Arena. Depois votaram no PSDB para varrer os defeitos da Nova República. Depois votaram no PT para afastar o PSDB. Depois voltaram ao PSDB para tentar desalojar o PT. Agora o quadro é nebuloso.

    A dispersão político-partidária-eleitoral é uma oportunidade para o "inteiramente novo", talvez na forma de um juiz ou promotor ou advogado que se apresente para enfrentar o que se apresenta como, e o público acredita que é, o principal problema nacional: a corrupção.

    Mas também é uma oportunidade para o poder. Num quadro de dispersão, há um elemento que invariavelmente não se dispersa: o poder. Normalmente, o contraponto às estruturas dominantes é um partido ou movimento que personifica a possibilidade de um futuro diferente. Quando essa alternativa não se delineia, o poder tem uma oportunidade.

    Um exemplo é a eleição americana deste ano. Depois de fortes movimentos de contestação pela direita e pela esquerda, quem lidera a corrida é representante do mais típico establishment. Nada está definido, mas o candidato republicano enfrenta uma batalha morro acima, como se diz. E Bernie Sanders ficou na poeira.

    A busca do eleitor por concretude e previsibilidade é uma janela de oportunidade para o grupo político agrupado em torno de Michel Temer, se este conseguir atravessar, como parece que vai acontecer, a barreira final para virar presidente efetivo com mandato até 2018.

    O PT parece estar reduzido a Lula, e este enfrenta suas próprias vicissitudes. O PSDB precisa ainda reafirmar sua força nos redutos tradicionais, o que não parece garantido. Já o PMDB está pronto a assumir o poder central por um bom tempo.

    Num quadro de dispersão, o poder pode funcionar como um ímã.

    Prestar atenção:

    • Efeitos do depoimento de Dilma Rousseff no Senado

    • Prenúncios de reforma ministerial

    • Ainda a crise no Mercosul

    • A polêmica sobre as delações premiadas na Lava-Jato

    Temer aproveita-se do que favorecia Dilma. Lava-Jato é a incognita a olhar

    Agora que Dilma Rousseff enfrenta a reta final de seu afastamento, com chances maciças (95%) de ser removida definitivamente, é útil relembrar um fator que teoricamente a beneficiava ao longo do processo, para compreender que esse mesmo vetor tende a estabilizar uma eventual administração definitiva Michel Temer. Mas que nunca é definitivo.

    Um trunfo de Dilma era sua saída não ser a melhor solução para quase ninguém. Ainda que o PT pudesse estar seduzido por livrar-se do fardo de um governo pessimamente avaliado, e sem chance real de conseguir apoio político consistente, deixar o poder é sempre duvidoso como solução para problemas. E na oposição tucano-democrata não havia qualquer consenso para o impeachment.

    No próprio PMDB persistiram por muito tempo sérias desconfianças. A maior parte das facções peemedebistas preferia acomodar-se num status quo já bastante favorável, pelo número de ministérios e abundante espaço politico. Além disso, o peemedebismo temia que sem o PT no palco, o PMDB virasse alvo preferencial da Lava-Jato. A divulgação dos áudios de Sérgio Machado mostrou que estavam certos.

    Mas, como se viu mais uma vez nos JJOO, não basta ser favorito, tem de entrar em campo e ganhar. E quem ousa lutar tem sempre chance de vitória. Ninguém está garantido se conta apenas com a inércia. Ela agora joga a favor de Temer. Ninguém tem interesse real na sua derrubada. Mas Temer e seu governo precisam construir o triunfo, se não querem ser sugados pela mesma dinâmica que tragou Dilma.

    O temerismo precisa em primeiro lugar mostrar que a recuperação econômica é para valer. Sem Dilma no Alvorada, as cobranças tendem a agudizar-se. O novo governo precisará passar no Congresso alguma medida de austeridade, para o que enfrenta dois tipos de barreiras: 1) pouca disposição na sociedade para aceitar sacrifícios e 2) pouca disposição dos aliados para fortalecer decisivamente o governo.

    Outra incógnita são os prováveis baixos multiplicadores sociais da melhora econômica que vem aí. Tudo indica que será um ciclo de intensa busca de produtividade pelas empresas. Somada à prudência trazida pelas incertezas, deve resultar em uma recuperação lenta, ou estagnação, do emprego. Isso se não vier o cenário em “L”: produção de um desemprego estrutural de longo prazo que melhore a competitividade da economia.

    E tem a Lava-Jato. O cenário mais provável é que a operação siga autonomamente, com bombas sendo lançadas aqui e ali, mas com o ecossistema politico buscando reduzir seus efeitos. Há conversas sobre alguma iniciativa legal de anistia, mas a probabilidade de algo assim avançar no Congresso é por enquanto baixa, Não há ambiente social.

    Pelo conjunto de fatores, o futuro projetado continua sendo de “mediocridade morna”, com sobressaltos periódicos provocados pela Lava-Jato, mas com impacto politico declinante. Desde que, naturalmente, não surjam elementos estruturalmente fortes contra Temer.

    *

    O sucesso esportivo e organizativo do Brasil nas Olimpíadas dá a medida da oportunidade perdida por Dilma quando se deixou convencer de que deveria descolar sua imagem dos grandes eventos trazidos ao Brasil pelo padrinho politico e antecessor.

    O sucesso dos grandes eventos dos últimos anos no Brasil permanecerá como um case de desperdício maciço de capital politico.

    Prestar atenção:

    • Últimas manobras de Dilma para evitar o desfecho

    • Elementos que possam perturbar a tendência no Senado

    • A crise no Mercosul

    segunda-feira, 15 de agosto de 2016

    Com impeachment a caminho, agenda do governo deve manter tendência minimalista

    Há um mito no debate politico desta interinidade (que não é tão interina assim) de Michel Temer: terminada a etapa provisória, ele terá força para impor ao Congresso uma plataforma liberal na economia, com congelamento de gastos públicos e reforma da previdência social, entre outras medidas impopulares.

    A tese sustenta-se na premissa de que, uma vez afastada Dilma definitivamente, Temer erguer-se-á como presidente pleno, com apoio maciço no Legislativo e na opinião pública para “fazer o que deve ser feito”. Essa premissa permite a Temer por enquanto um certo período de graça junto aos agentes econômicos empresariais.

    Nossa hipótese principal aponta para algo menos ambicioso. A interinidade de Temer na prática já acabou, pois a probabilidade de Dilma Rousseff reverter o quadro no Senado situa-se, com otimismo (para ela), na faixa de 5%. E a análise fria não permite supor que haverá mudanças radicais na configuração política quando Dilma se for.

    Alguns fatores limitam o ângulo de ação de Temer hoje, e devem permanecer após a votação definitiva no Senado: 1) a Lava-Jato, 2) a fragmentação parlamentar, com o consequente baixo índice de disciplina nas bancadas dos partidos que compõem a base governamental, quando se trata de enfrentar os grupos de pressão e as corporações, e 3) o risco de cassação pelo TSE.

    Sobre o primeiro fator, se é verdade que a Lava-Jato não parece ter no momento força para levar o governo de Temer ao colapso, também é verdade que as delações premiadas a caminho tendem a causar transtornos, que no limite podem ter efeito semiparalisante, com o governo enredado em crises de trocas de ministros e instabilidade congressual.

    Sobre o segundo fator, a troca de comando não terá mexido no pilar principal da resistência a reformas liberais: a baixa aderência da sociedade a uma agenda que traga mais liberdade e menos obrigações para o capital, menos direitos aos trabalhadores da economia formal e menos participação do Estado na economia.

    Diferentemente do que supõe o senso comum cultivado ao longo destas décadas, e assentado em nossa tradição autoritária, não basta a vontade política presidencial para fazer o transatlântico Brasil mudar de rumo, para um lado ou para outro. Essa direção depende essencialmente do estado de espírito da sociedade e da opinião pública, com seu impacto no Congresso.

    E não há qualquer sinal de que o PT esteja sendo removido do poder porque o Brasil se cansou do Estado e quer mais capitalismo. O petismo está de saída porque foi fragilizado políticamente, pois produziu uma retração selvagem na economia. A rigor, o PT sofre porque frustrou os que desejam um governo e um Estado eficaz para protegê-los da incertezas econômicas.

    E há o TSE. Com o avanço da Lava-Jato e das delações premiadas, e com o PT fora do poder, é provável que cresçam os elementos perturbadores da legalidade da chapa vitoriosa em 2014. Mesmo que esse fator atinja também os derrotados, o fato de terem sido derrotados reduz o impacto prático sobre eles, concentrando o foco sobre Temer.

    Esse conjunto de fatores nos leva a acreditar que o governo Temer manterá seu caráter minimalista após a votação decisiva para o afastamento definitivo da presidente eleita, e que o ano de 2017 será marcado por uma polarização política preparatória da disputa do ano seguinte.

    Prestar atenção:

    • Lava-Jato e seus alvos

    • Eduardo Cunha e sua luta contra a cassação

    • Algum evento extraordinário na Olimpíada.

    Até a semana que vem.

    segunda-feira, 8 de agosto de 2016

    Turbulências na reta final não parecem ter força para mudar o desfecho anunciado

    Só dois assuntos atraem de fato a atenção das pessoas neste agosto. Qual será o desempenho do Brasil na tabela de classificação da Olimpíada? Quando será afinal o afastamento definitivo de Dilma Rousseff e o fim da interinidade de Michel Temer?

    Os primeiros dias de Jogos vêm empurrando para o esquecimento as profecias catastróficas sobre a organização do evento. É sempre arriscado afastar o imponderável, mas a não ser que ele dê as caras as coisas tendem a correr dentro da normalidade.

    Quem se preparou para capitalizar politicamente os aspectos negativos da Olimpíada corre alto risco de sair frustrado. E os que investiram seu capital no sucesso? Devem auferir algum benefício, mas nada que signifique um “game changer”, especialmente no plano federal.

    Mas um eventual fraco desempenho esportivo tende a aprofundar o mau humor já disseminado. E os primeiros resultados não chegam a ser animadores, apesar de toda a verba federal despejada em federações e atletas ao longo dos anos de preparação.

    Passada a festa ou a autoflagelação, a vida voltará à rotina, e o país se defrontará com a transição tão aguardada, para um governo Temer definitivo ou, numa possibilidade remota (algo em torno de 5%), para a ressurreição milagrosa de Dilma.

    Há decepções aqui e ali com a falta de “punch” de Temer no impulso a um programa econômico liberal, mas quem acreditou nisso subestimou 1) a tendência fortemente centrista do PMDB e 2) as dificuldades de o Congresso aprovar medidas contras as corporações e os grupos de pressão.

    Do lado da presidente afastada, ela não conseguiu até agora produzir as condições mínimas para o retorno. Faz pensar inclusive se de fato deseja retornar. Ao longo de todo o seu afastamento, ela limitou-se a denunciar o que considera o caráter golpista de sua deposição. É pouco.

    Não se sabe, de Dilma, com quem governaria caso retornasse, ou o que faria, especialmente na economia. O líder nunca está no cargo por merecimento intrínseco, mas porque os liderados consideram-no capaz de trazer ganhos (ou evitar perdas) para todos.

    Assim, a tendência (95%) é Temer vencer por inércia a batalha final para remeter Dilma Rousseff aos livros de História. Mesmo as mais recentes turbulências nascidas da Lava-Jato, talvez um último fator de desestabilização, parecem ter limitados efeitos destrutivos, no curto prazo.

    Se a investigação vai seguir com autonomia inédita, reflexo do nosso estágio institucional e do nosso patamar civilizatório, é também verdade que seus efeitos políticos dependem essencialmente dos arranjos e desarranjos no universo político propriamente dito.

    E não parece haver ator político de relevância, e com poder, interessado em deixar nas mãos da Lava-Jato o destino da política nacional. É um quadro já descrito aqui antes: num cenário de terra arrasada, em vez do suicídio coletivo, os políticos tendem a buscar um novo modus vivendi.

    O PT quer Lula em condições de disputar 2018. Os quadros principais do PSDB também desejam estar aptos para a disputa. E Temer não tem qualquer interesse na implosão prematura do bloco político que formou para afastar a titular e governar no lugar dela.

    Assim, na falta de algo melhor, um eventual governo Temer definitivo já está há tempos precificado pelo mundo político. E o barco seguirá navegando pelos mares tempestuosos deste agosto, rumo ao porto anunciado. Claro que na ausência de sua excelência, o imponderável.

    Para acompanhar:

  • As possíveis ocorrências olímpicas relacionadas à segurança

  • As disputas políticas em torno do desempenho esportivo do Brasil

  • As articulações finais para a votação do afastamento de Dilma

  • Os movimentos para a votação da cassação de Eduardo Cunha
  • segunda-feira, 11 de julho de 2016

    Os riscos embutidos na sucessão da presidência da Câmara dos Deputados

    O governo precisa vencer a disputa na sucessão da Presidência da Câmara dos Deputados, depois que Eduardo Cunha renunciou ao cargo. E vencer significa em primeiro lugar não perder.

    Esta última afirmação acima valia para Dilma Rousseff em 2015 e vale agora para Michel Temer. Dilma acabou emparedada por um impeachment que não haveria sem um inimigo comandando a casa do povo.

    A sucessão na Câmara só é importante por causa do impeachment. Quem pode o mais pode o menos. Se os deputados já abriram a cassação da titular, podem ficar tentados a abrir a do suplente, caso este escorregue.

    E quem deflagra o processo é o presidente da Câmara.

    O andamento da agenda do Executivo no Legislativo não depende principalmente da política interna no Congresso, mas da força do Executivo. Este portanto vive de dar demonstrações de força.

    Ainda mais um governo não propriamente popular. Não é ainda impopular, é simplesmente tolerado, pois apresenta-se como a solução à mão para evitar a volta de um governo desastroso.

    Mas quando -e se- o antigo regime sair de cena definitivamente, a razão principal da tolerância com a nova administração também terá deixado de existir. Aí mora o perigo.

    Temer dança conforme a música.

    Suas duas mensagens: 1) "Preciso continuar pois dou sustentação a uma equipe econômica que traz esperança ao país", 2) "Preciso continuar pois tenho sustentação no Congresso para prestigiar minha equipe econômica".

    Para o interino, já será complicado digerir uma conflagração na Câmara, ainda que saia vitorioso. Se for derrotado, ou se for visto como derrotado (dá na mesma), entrará em zona de risco crítico.

    Aí a mensagem 2 ficará capenga. E é ela que sustenta a 1.

    O cenário ideal para o governo é uma candidatura única. Não deve ser afastada, mas sua probabilidade está em torno de 10%. A rigor ela é boa para quase todo mundo. Inclusive para o PT.

    O principal desafio do PT hoje é sair do isolamento.

    Pode conseguir isso derrotando o governo, mas a probabilidade está em 10%. Ou pode apoiar alguma candidatura governista dissidente que dê ao Planalto uma vitória que significará derrota.

    O risco desta tática é o PT apostar na dissidência e o governo, ao final, unificar a base, deixando o PT sem candidato, sem discurso e sem espaço. A não ser que adira na vigésima-quinta hora à composição governista.

    Uma variável a observar é o PSDB. Se vai mesmo até o fim com o projeto de alimentar uma dissidência governista ou se negociará com o Planalto uma aliança ampla da base, em troca de ter a cadeira em 2017.

    Porque a disputa agora é por um mandato de meses, sem possibilidade de reeleição. Mas seriam meses decisivos, dada a agenda pendente. Quem assumir o comando da Câmara agora estará em boa posição para negociar com o governo o que fará depois de fevereiro do ano que vem.

    E será um personagem novo, que receberá a natural atenção num cenário dominado por nomes conhecidos e desgastados. E que estará tentado a voar mais alto.

    Não faltam variáveis na equação.

    Prestar atenção:

    1) Eleição (ou não) do novo presidente da Câmara

    2) Preparativos para o desfecho (ou não) do impeachment no Senado

    3) Novidades nas delações premiadas

    Este boletim volta em agosto. Até lá.

    segunda-feira, 4 de julho de 2016

    Pós-Cunha dará a medida da estabilidade do governo e do ambiente para sua agenda

    A administração temporária atravessa bastante bem este período, beneficiada pela complacência decorrente de 1) rejeição à volta da afastada e 2) ausência de alternativas.

    A primeira é aritmética. A segunda fica visível quando a temporária oposição se concentra na construção de uma “narrativa” para eleições vindouras, em vez de buscar construir um governo viável no “volta Dilma”.

    Se a oposição temporária se comporta como definitiva, eis um sinal. E o comportamento é realista. Mesmo a mandatária deposta parece estar mais empenhada em “marcar posição” do que qualquer outra coisa.

    Seu diagnóstico de que o maior erro foi fazer alianças com o comando do PMDB é prova. Pena ainda não ter tido a oportunidade de explicar como governaria sem aliar-se do centro para a direita.

    A condescendência com os provisórios chega a incomodar, mas tem lógica.

    O pé no acelerador dos gastos explica-se como investimento tático. Para extirpar de vez o governo caído e abrir caminho ao plano estratégico: estabilizar a política para permitir um ciclo de expansão baseado em mais liberdade e mais retorno para o capital.

    Por isso os empresários aplaudem.

    Plano ao qual tampouco há alternativas. Tivesse Dilma Rousseff habilidade, flexibilidade e liderança sobre o PT, poderia atrair o centro e neutralizar o “situacionismo de esquerda”, para fazer o que tem de ser feito na economia.

    Mas a presidente afastada parece ter gastado suas fichas, e assim a vida segue, à espera de surpresas na votação final no Senado ou de algo na Lava-Jato e filhotes que desmanche o conveniente arranjo das peças.

    Mesmo nesse segundo vetor será necessário medir o efeito político estrito. As consequências dos movimentos de Sérgio Machado, por exemplo, mostram-se hoje menos dramáticas do que parecia num primeiro instante. Ainda que lá na frente possam aparecer em cores mais vivas.

    Enquanto isso, aqui e ali, notam-se resistências pontuais à absoluta desenvoltura de policiais e promotores. Mas não convém superestimar: em outros momentos o aparato repressivo parecia em vias de contenção. Até que uma nova ação bombástica recolocasse as coisas no lugar.

    Daí por que, como dito semana passada, mais provável é que o sistema político busque conter os efeitos políticos da Lava-Jato, na impossibilidade de estancar a operação em si. Mas para isso será prudente evitar que a sucessão do presidente da Câmara provoque uma guerra civil na política.

    Alguns obstáculos a uma solução pacífica:

  • A velha oposição não quer dar mais poder ao PMDB ou ao centrão
  • O PMDB e o centrão não querem abrir espaço ao PSDB e ao DEM
  • O presidente da Câmara quer escapar da cassação
  • O governo não quer brigar com o presidente da Câmara
  • O PT aceita ajudar quem possa dividir a base do governo

    São muitas variáveis que o governo precisa controlar para produzir um pós-Eduardo Cunha amigável no Congresso, que ajudaria a agenda do pós-PT.

    Prestar atenção:

    1) Evolução do caso Eduardo Cunha na Câmara e no Judiciário
    2) Aproximação da reta final da Comissão do Impeachment
    3) Surpresas da Lava-Jato

    Até a semana que vem.
  • segunda-feira, 27 de junho de 2016

    Ovo de Colombo, "cada um na sua" ajuda governo Temer a buscar estabilidade

    Tecnicamente, Dilma Rousseff foi afastada no impeachment. Mas o impeachment foi apenas o instrumento disponível para remover um governo que não governava mais. Estava paralisado havia tempos por três vetores: 1) a perda da maioria congressual, 2) a incapacidade de apresentar um programa econômico viável e 3) a Lava-Jato.

    Portanto é lógico que o poder provisório tente neutralizar prioritariamente os vetores que derrubaram Dilma. Michel Temer constituiu uma forte base na Câmara dos Deputados e no Senado e uma equipe econômica vistosa e crível. E a Lava-Jato? Continua a correr no trilho original. Não imune a contradições, mas com velocidade própria.

    Diz o ditado que banco não faz pão e, então, padaria tem a prerrogativa de não vender fiado. Cada um na sua. A administração interina procura evitar a armadilha que tragou o governo caído: tenta governar em meio à Lava-Jato e à guerra política crônica.

    Dilma até quis o mesmo, mas não conseguiu. Também porque o PT preferiu jogar para a plateia em vez de buscar uma coalizão política realista.

    Assim, a instalação definitiva de Temer na Presidência depende menos da contabilidade eventual de votos no Senado e mais de seguir governando. E nesse aspecto os provisórios têm sido, como já dito antes, bastante ajudados pelo PT: a incerteza absoluta sobre o que seria um renascido governo Dilma acrescenta musculatura ao temerismo.

    Nem a Lava-Jato vem conseguindo desestabilizar a tendência. Porque 1) não revelou até agora vínculos diretos e inquestionáveis de Temer com a corrupção e 2) porque o ambiente político e econômico vai se adaptando ao novo ecossistema. Polícia Federal e Ministério Público investigam e denunciam, a Justiça julga e o governo governa. Cada um na sua.

    Há conexões entre as variáveis, mas há autonomia. Eis o ovo de Colombo: se não faz sentido o governo se meter na Lava-Jato, que tal praticar a mesma lógica no sentido inverso? Se Dilma tivesse colocado o ovo em pé talvez ainda frequentasse o Palácio do Planalto e não estivesse atrás de atalhos, como o nebuloso plebiscito.

    Se os procuradores, investigadores e juízes têm suas armas, os políticos também têm. A prerrogativa de removê-los dos cargos antes das eleições continua sendo deles mesmos. Apenas em casos extremos o Supremo Tribunal Federal entra em cena.

    Se haverá ao final centenas de deputados e senadores alcançados em algum grau pela Lava-Jato, é impensável que até 2018 o STF vá degolar todos, ou a maioria, ou mesmo muitos. Portanto, a não ser que sobrevenha uma improvável insurreição popular (quem a lideraria?), o destino dos políticos está nas mãos dos políticos até que os eleitores votem daqui a dois anos.

    E o resultado do plebiscito na terra da rainha sobre deixar a União Europeia deveria estimular prudência nas previsões eleitorais. Pode ser que as próximas eleições tragam uma mudança radical. E pode ser que não, completaria o Conselheiro Acácio.

    Eis por que a política se parece cada vez mais com uma cidade bombardeada. Do alto, a imagem da destruição. De perto é diferente. A cada dia os sobreviventes enterram ou incineram seus mortos e os alheios. Tratam dos feridos. E saem para achar pão, leite, carne, ovos ou verduras. Dá-se um jeito de as crianças continuarem indo às aulas. Busca-se até alguma diversão. E a vida segue nas novas e difíceis circunstâncias.

    Claro que sempre existe a possibilidade de alguém encontrar a arma definitiva, que abrevie o desfecho. Uma bomba de nêutrons, que elimine a população adversária e preserve as estruturas para serem ocupadas pelos exércitos vencedores. Não seria prudente afastar completamente essa alternativa. Mas ela não parece provável agora.

    Prestar atenção:

    1) Nas articulações para substituir Eduardo Cunha

    2) Nas delações premiadas que vêm aí

    3) Na explicitação da proposta dilmista de plebiscito para a convocação de novas eleições

    Até a semana que vem.

    segunda-feira, 20 de junho de 2016

    Sucessão na Câmara é desafio para estabilidade e perenidade de Temer

    O governo Temer enfrenta alguns desafios. 1) baixas causadas pela Lava- Jato, 2) guerra de comunicação contra o PT, 3) passar medidas econômicas impopulares no Congresso. Mas em duas áreas onde se esperavam problemas maiores a oposição é fraca: 4) baixa resistência social e 5) tranquilidade no front externo.

    As primeiras pesquisas mostram que no país a expectativa geral (não a da elite econômica) com o governo provisório é medíocre. Mas ainda leva vantagem sobre o governo afastado, avaliado mal e pessimamente. Os provisórios não têm torcida, nem exército cultural. São tolerados como a alternativa possível a uma opção altamente rejeitada.

    Isso pode perdurar, desde que Temer resista ele próprio à contaminação da Lava-Jato, mantenha o governo operacional e consiga aval do Congresso para algum plano econômico. Governos mediocremente avaliados já sobreviveram no Brasil recente porque impediram a desagregação da base parlamentar. E porque as alternativas não despertavam entusiasmo.

    O PT tem ajudado Temer, ao se colocar mais à esquerda do que o razoável para quem pretende voltar já ao poder. Dilma Rousseff continua a martelar somente no que considera os defeitos políticos de nascença do governo provisório, sem dizer o que faria na economia se voltasse ao Planalto num eventual colapso da frente pró-impeachment.

    Dilma talvez pretenda para ela o que o PMDB de Temer obteve em meados de abril: uma carta branca. Mas os hoje provisórios conseguiram esse passe porque a tolerância a Dilma terminara. Ou seja, a estratégia dilmista depende menos dela própria e mais do colapso do adversário. Depende de o antitemerismo superar o antidilmismo.

    Na sociedade, segundo as pesquisas, a maioria antipetista parece em processo de consolidação. Se o PT, Lula e Dilma conseguiram reunir seu campo político na resistência ao que descrevem como um golpe conservador, pagam o preço de alienar o centro político. Talvez trabalhem com a hipótese da implosão do bloco de Temer e de arrastarem o centro por gravidade. Ou talvez estejam mais de olho nas eleições vindouras.

    Esse seria o desenho de uma tendência de certo prazo, não houvesse uma questão prática a resolver logo, a sucessão na Presidência da Câmara dos Deputados. É improvável que o status quo perdure, por duas razões: a Justiça e o interesse crescente do governo provisório e dos próprios deputados numa solução que traga estabilidade.

    A Casa está hoje dividida em três grandes blocos. A antiga oposição, a antiga área de influência do presidente afastado e o PT e satélites. O segundo bloco vence a eleição se se aliar ao primeiro ou ao terceiro. Já se houver uma aliança entre os extremos o resultado fica menos previsível, mas há possibilidade real de o governo perder.

    Resta ver se a abertura dessa disputa trará o PT de volta ao velho pragmatismo. Poderia, por exemplo, apoiar um candidato da velha oposiçã o. Ou alguém do chamado “centrão” que fosse para Temer o que Eduardo Cunha foi para Dilma no primeiro semestre de 2015: uma pedra no sapato sob o rótulo de independência.

    Ao governo, ficará o desafio de reunir sua base para um único nome que traga o apoio do PMDB, do centro, de Cunha e do campo político que orbita o PSDB. Não será trivial. Seria mais fácil semanas atrás, e ficará tão mais difícil quando mais a Lava-Jato minar o núcleo dos provisórios.

    E convém lembrar que o presidente da Câmara dos Deputados tem a prerrogativa de desencadear impeachment. E que estaria agora apenas a uma casa de ocupar o Planalto. E que nada o impediria de tentar continuar depois. Principalmente no caso de uma eleição indireta, a partir de janeiro de 2017. E que a carnificina da Lava-Jato abre possibilidades reais para um nome novo em 2018. E que se esse nome novo estiver sentado no Planalto e tiver atravessado a crise, melhor ainda para ele.

    Até a semana que vem.

    segunda-feira, 13 de junho de 2016

    Temer tenta se beneficiar do desejo de estabilidade e dificultar projeto de Dilma

    A política e a economia querem saber os prazos da interinidade de Michel Temer na Presidência da República. Quando o Senado vai votar o afastamento final da presidente. A partir daí, viria em teoria um governo mais estável, capaz de avançar em reformas econômicas e políticas mais profundas.

    Pode ser apenas vontade, mas a divisão a favor e contra eleições imediatas, medida pelas últimas pesquisas, é sintoma desse desejo crescente de estabilidade.

    Dois vetores opõem-se hoje. O primeiro força a renovação radical, na esteira da Lava-Jato. O segundo força a governabilidade política e econômica, na esteira da recessão e do desemprego.

    No mundo ideal, haveria alguém pronto a fazer as duas coisas andarem juntas. Um governo livre das máculas da velha política e capaz de reunir maioria parlamentar e social para reformas que libertem as forças produtivas das amarras impostas pelas antigas relações.

    Algo parecido com o figurino vendido por Luiz Inácio Lula da Silva na largada de 2003.

    Na vida real, o cenário é bem diferente. A profunda divisão entre os campos políticos e a proximidade de 2018 estimulam cada ator a radicalizar no seu papel e dar prioridade à hegemonia em seu respectivo bloco, dificultando a convergência.

    E as labaredas da Lava-Jato parecem não querer poupar ninguém.

    Mas esse último ponto embute a possibilidade de, no futuro, paradoxalmente, o maior escândalo político da nossa história resultar num jogo de soma quase zero. Cobrará um preço alto dos políticos e dos empresários mais atingidos, mas talvez não venha a ser o fator decisivo de desempate na disputa presidencial de daqui a pouco mais de dois anos.

    Por essa hipótese, a vantagem decisiva será de quem mostrar capacidade de reunir o apoio necessário para fazer a política rodar com eficiência, mesmo sob fogo, e assim tomar as medidas de relançamento da economia nacional. E se vale para 2018, vale também para o desfecho do impeachment programado (mas só programado) para agosto.

    Passado um mês, o presidente interino agarra-se ao prestígio da equipe econômica que formou e à força da base parlamentar. A presidente afastada explora a anemia do apoio popular a Temer e as dúvidas jurídicas em torno do impeachment. Temer joga com as brancas. Tem a iniciativa. Está no poder.

    Dilma precisa pender à esquerda para manter sua tropa reunida e operacional, evitando o risco da dispersão. Mas isso a atrapalha na apresentação de alternativas viáveis de futuro. Sobre a economia, ninguém tem ideia do que faria se reinstalada. E o aventado plebiscito está longe de apontar para a estabilização.

    Dilma de volta ao Planalto, teríamos: 1) um tempo para debater e aprovar o plebiscito, 2) mais um tempo para fazer o plebiscito, 3) mais um tempo para fazer a eleição presidencial. Se o plebiscito mantivesse o mandato de Dilma, viria 4) um governo de minoria por mais dois anos. É muito espaço para instabilidade. E portanto para dúvidas.

    A receita temerista pode desandar? Sim. A Lava-Jato pode acertar no coração e na cabeça do governo. O Congresso pode recusar apoio ao reequilíbrio das contas. A coisa pode complicar na solução para a presidência da Câmara dos Deputados. O Senado pode ser colhido num tsunami policial-político.

    É prudente deixar espaço para o imprevisto, mas também será inteligente considerar a possibilidade de os mundos político e econômico buscarem uma saída possível para evitar o colapso e a implosão. No momento, Temer apresenta-se como a solução à mão. Pelo efeito contraste, tem cartas melhores que a adversária.

    segunda-feira, 6 de junho de 2016

    Bem no Congresso e mal na imprensa, Temer beneficia-se do "Volta Dilma"

  • Aprovação do déficit e da DRU mostram governo de base sólida
  • Agora na ribalta, PMDB sofre com exposição à luz
  • Presidente afastada resiste, mas não amplia apoios

    O governo provisório atravessou bem os testes iniciais no Congresso. Parece que o chacoalhar policial-midiático não provocou ainda rachaduras de desestabilização precoce. Aprovou um megadeficit capaz de aninhar as demandas políticas essenciais para finalizar a deposição de Dilma Rousseff e exibiu músculos na primeira votação da DRU de 30%.

    A força congressual e o conforto da elite empresarial com a equipe econômica são os trunfos iniciais da administração. O governo Michel Temer sustenta-se sobre estas duas pernas: as ideias para a economia e os votos para aprová-las. O alarido é grande, mas enquanto as pernas mantém o corpo erguido o temerismo vai à frente no placar.

    Focos potenciais de dúvida: a eventual substituição no comando das duas Casas e a desidratação das medidas econômicas pelo Legislativo. Mas se o governo mantiver a base suficientemente coesa terá como administrar favoravelmente ambos os problemas. Governos podem até resistir à crise permanente, mas não costumam sobreviver a perdas decisivas de apoio.

    O interino enfrenta dificuldades imediatas em duas frentes: 1) as revelações e acusações criminais contra sua tropa e 2) a hostilidade do noticiário. O segundo ponto é natural para um time, o PMDB, que não tem ou tem pouca torcida nas fortalezas da guerra cultural. E o primeiro já é um dado da realidade. E a queda do PT transformou o PMDB no prato principal.

    Aqui e ali pipocam no noticiário especulações sobre a possível falta de votos para afastar Dilma definitivamente. Por enquanto, devem ser lançadas na coluna dos políticos em busca de valorizar o próprio passe. Assim como as votações iniciais, a decisão final não vai depender de um ou outro senador, mas do movimento social e político na hora da decisão.

    A presidente no exílio interno está bastante ativa na resistência ao afastamento e tem mantido a coesão de seu bloco. Mas até o momento não ampliou o apoio para além dos que se opuseram a seu afastamento. Por enquanto, os movimentos pró-Dilma e anti-Temer emitem mais calor do que luz. Mas convém ficar de olho.

    Uma fragilidade da presidente afastada é não projetar qualquer desenho de futuro. O que seria um eventual governo Dilma, na economia e na política, até 2018? Não se visualiza. O discurso de seus apoiadores limita-se à acusação de ilegalidade e ilegitimidade. Mas não se explica por que e como a eventual volta dela ajudaria a resolver os problemas do Brasil.

    É um trunfo de Temer, que se apresenta como "o governo possível". Mas sempre sob a ameaça das "diretas já", via PEC ou TSE. Alguns do campo dilmista acenam com um plebiscito convocado por ela para decidir sobre a antecipação da eleição. Soa mais um expediente para ganhar tempo, se reassumir a cadeira.

    Um neoqueremismo, agora em torno de Dilma Rousseff, tem escassas possibilidades de decolar. "Plebiscito com Dilma" é uma palavra de ordem de apelo duvidoso para um país que busca, na essência, um governo que enfrente os desajustes econômicos e consiga apoio político para isso. E a Lava-Jato não chega a ser um vetor de desempate entre PT e PMDB.

    A não ser, naturalmente, que alcance o presidente interino.

    Assim, reafirmamos nossa hipótese principal. Se o governo provisório mantiver a base congressual e votar medidas que produzam animação econômica, tende a ser tolerado ao longo do tempo. E tende a reunir os 54 votos no Senado.

    Mas, como mostra a experiência, no realismo fantástico da política brasileira nunca é demais respeitar sua excelência, o imponderável.

    De olho em:

    • Andamento do processo contra Eduardo Cunha na Câmara
    • Novidades nas delações premiadas da Lava-Jato
    • Ações da Justiça contra figuras exponenciais da República
  • segunda-feira, 30 de maio de 2016

    Lava-Jato chacoalha o governo interino, mas Temer mantém vantagem estratégica

    A largada do presidente interino é contraditória. 1) Demonstrou força política ao aprovar no Congresso permissão para um megadeficit de 170 bilhões. 2) Sua embrionária administração foi chacoalhada pelo recrudescimento da Lava-Jato.

    O governo provisório tem também dificuldades na guerra da comunicação. O PT e Dilma Rousseff, agora livres da tarefa em que não vinham bem (governar), lutam no terreno que dominam: a construção da narrativa. Repetem as quatro eleições vitoriosas. Atribuem ao adversário os piores defeitos, para imobilizá-lo e tentar vencer na disputa de rejeições.

    Temer entra em desvantagem nesse campo porque seu governo não tem torcida. O regulamento (Constituição) favorece. Ele tem um time forte (Congresso, ministério, equipe econômica). Mas as arquibancadas dividem-se entre a oposição e a indiferença, que os escândalos trabalham para transformar em má-vontade.

    É nesse caldo de cultura que Lula e o PT tentam mexer o Senado. Propõem um pacto para reinstalar Dilma e convocar eleições. A tese tem potencial para produzir perturbação. Se um punhado de senadores pró-impeachment aderir, podem faltar votos contra a presidente na decisão final.

    A execução disso não seria entretanto trivial.

    Será preciso saber se o Senado aceitará recolocar Dilma fiando-se num contrato futuro de resgate incerto. Uma emenda constitucional para antecipar a eleição de presidente precisaria de três quintos em duas votações em cada Casa. Livre da espada do impeachment, é possível que o governo reinstalado não fizesse muita força a favor da PEC, usando a caneta para anabolizar-se.

    Seria preferível então aprovar a PEC antes da votação final do impeachment, para dar as garantias aos em dúvida. Mas aí aparece outro problema: quem estaria no Planalto na ocasião seria Temer. E dificilmente a proposta avançaria sem apoio dele.

    Supondo que o interino se enfraqueça ao ponto de precisar aceitar a amputação do próprio mandato, restar-lhe-á sempre a opção de ele próprio patrocinar a coisa. Com a condição de ficar no cargo até a eleição extraordinária. Para evitar que o PT vá às urnas comandando a máquina federal. A própria base governista aprovaria então primeiro a PEC e depois o fim definitivo de Dilma.

    É improvável que a administração interina se atrapalhe na articulação política, tendo a caneta e beneficiada pelo fantasma do “Volta Dilma”. Especialmente depois que o PT guinou à esquerda para reagrupar a base social e manter a hegemonia no seu bloco histórico.

    Sem contar ainda que a coisa toda precisaria da chancela do STF.

    Apesar da Lava-Jato e do cerco petista. Temer mantém portanto a vantagem estratégica. Os riscos: 1) A Lava-Jato atingi-lo. 2) Uma rebelião popular ou no Congresso contra as medidas econômicas.

    Nessas circunstâncias, porém, mais provável seria o Tribunal Superior Eleitoral aparecer para cortar o nó górdio.

    Claro que sempre resta a opção de o campo político de Temer simplesmente implodir e Dilma voltar por inércia. Mas no momento essa probabilidade gira em torno de 1%.

    segunda-feira, 23 de maio de 2016

    Semana mostra se Congresso aprovará o orçamento para finalizar o impeachment

  • Governo pede autorização para gastar até decisão final do Senado
  • PT quer reinventar-se como simbiose entre Podemos/Syriza e PSUV
  • Tensão com presidente do Senado é foco de instabilidade

    O principal objetivo de todo governo provisório é perenizar-se. E todo governo é provisório em algum grau. Monarcas absolutos querem deixar herdeiros e perpetuar a dinastia. Primeiros-ministros no parlamentarismo querem reeleger-se indefinidamente. Presidentes no presidencialismo idem, quando a lei deixa. Quando não, querem mudá-la, ou emplacar o sucessor.

    Michel Temer organizou o governo provisório com o objetivo de torná-lo definitivo. Para tanto, o interino precisa 1) mostrar capacidade de operar a economia em meio à tragédia fiscal e 2) mostrar que tem maioria no Congresso para executar a operação econômica. Afinal, Dilma Rousseff está bem ali, no Alvorada, à espera de qualquer escorregão.

    O barco do temerismo chacoalha bastante nos primeiros dias de viagem, mas é preciso observar se isso causará rombos no casco da base congressual. A tripulação parece empenhada em chegar ao porto seguro da votação final no Senado, para afastar Dilma definitivamente.

    As muitas idas e vindas iniciais precisarão ser avaliadas pelo critério da resultante política. Qual delas fará o governo provisório perder substância na sociedade (onde é apenas tolerado) ou no Congresso? Qual delas aumentará a probabilidade de o Senado não confirmar a deposição da presidente eleita?

    Temer fez dois movimentos na largada. Distribuiu o governo para todos os partidos e grupos que podem ajudá-lo nesta etapa e pediu ao Congresso autorização para um déficit orçamentário que permita ao Executivo governar. Ou seja, gastar para cumprir compromissos políticos e para estancar a debacle econômica. Austeridade? Só depois.

    A estratégia tenta neutralizar o ponto principal da argumentação petista, de que o temerismo veio para implantar políticas austeras, e portanto antipopulares. O plano petista parece ser a sua reinvenção como um Podemos/Syriza, um partido antiausteridade. Se não houver correpondência na realidade imediata, o petismo corre o risco de ficar, pelo menos por um tempo, falando para si mesmo e seus satélites.

    Outro pilar do projeto de reinvenção do PT também pode acabar ajudando o governo provisório. Uma pitada de PSUV. O partido parece ter concluído que errou ao não tentar ampliar decisivamente sua influência sobre o Estado -incluídas a Justiça e as Forças Armadas- e sobre a chamada comunicação social. Quem não concorda com esse objetivo, tenderá no curto prazo a continuar tolerando Temer.

    Essa é a teoria. A vida real recomeça agora, quando o Congresso precisa votar a revisão do Orçamento da União. Será a primeira prova prática da capacidade operacional da nova articulação política. Será a oportunidade de verificar quantos dos votos pró-impeachment na Câmara e no Senado são também votos pró-estabilização do governo Temer.

    O Planalto parece ter alguma margem de segurança para os passos iniciais no Congresso. Mas há focos potenciais de problemas. Um é o duplo nó górdio da Presidência da Câmara dos Deputados, os problemas com Eduardo Cunha e seu vice, hoje interino. Outro é a tensão entre Cunha e o estratégico presidente do Senado, Renan Calheiros.

    Só os fatos dirão se esses pontos de instabilidade serão suficientes para fazer desandar a receita. Em tempos normais, o Executivo teria força para moderar conflitos no Poder vizinho. Em tempos normais.

    Outro ponto de atenção é a disputa no plano internacional entre o governo deposto e o provisório, em busca de reconhecimento. Se a resistência a Temer ficou até agora circunscrita, os grandes jogadores globais (EUA, China) parecem preferir esperar pela decisão definitiva do Senado. E indicam que trabalharão com quem prevalecer no final.

    Probabilidades: Governo Temer com maioria absoluta (pelo menos metade mais um dos votos) na Câmara dos Deputados e no Senado 75%. Dilma definitivamente afastada 85%. Temer cassado pelo TSE 10%.

    Prestar atenção:

  • Votações no Congresso
  • Novidades nas delações premiadas da Lava-Jato
  • Projeções econômicas após a montagem da nova equipe
  • segunda-feira, 16 de maio de 2016

    Força da coalizão no Congresso define sucesso ou fracasso do governo Temer

    • Guerra será vencida ou perdida no Legislativo
    • Governos só constroem maioria quando estão fortes
    • Reforçamos a aposta no gradualismo neste início

    Os ministérios econômicos e o Itamaraty receberam as maiores atenções nas horas iniciais de governo Michel Temer. Os primeiros, pela óbvia ansiedade a respeito do futuro. A chancelaria, pela oportunidade de protagonismo aberta com as manifestações de vizinhos sobre o impeachment.

    Conforme o gravitacional tempo político vai assentando a poeira, fica evidente que a guerra será vencida ou perdida por dois generais: Geddel Vieira Lima e Eliseu Padilha. De nada adiantará o novo governo desfilar as "propostas certas" na economia se não tiver votos para aprovar.

    O país colhe os frutos envenenados de décadas de mistificação. "Dinheiro tem, falta é vontade política", martelava o PT na oposição. "Não precisa aumentar imposto, se estancar a corrupção o dinheiro aparece", passou a pregar o antipetismo nesta última década e meia.

    O governo Dilma caiu porque só sobreviveria se admitisse que, infelizmente, o dinheiro acabou. E se conseguisse atrair a esquerda congressual, PT à frente, para as necessárias medidas de austeridade. A presidente hoje no ostracismo provisório até tentou, acenou sobre a Previdência e a CPMF.

    Em certo momento -um dia os historiadores dirão quando e como foi- o PT decidiu preferir a derrota heróica a fazer concessões estratégicas que poderiam manter aberta a possibilidade de vitória. Certamente ajudou na decisão a experiência do período Joaquim Levy.

    Ao aplicar o receituário que atribuíra aos adversários -e que eles aplicariam em algum grau estivessem vencido a eleição-, Dilma colheu não os aplausos deles. Colheu a ofensiva do impeachment. Em vez de apoiarem, aproveitaram a fraqueza nascida da austeridade para derrubar o governo.

    Um erro assim nasce do economicismo vulgar. Se a economia determina a política em algum grau, é a política que decide a guerra. Governos que têm maioria política sobrevivem. Se não têm, morrem. E maiorias políticas constroem-se no dia a dia, e a partir de posições de força.

    Fernando Henrique Cardoso sobreviveu à desvalorização cambial de 1999 porque formou uma base forte desde o Real em 1994. Lula navegou na tempestade e chegou ao porto porque fez isso em 2003/04, na esteira da subida ao poder.

    A hora de Temer construir ou não maioria política é agora. Mais importante que desenhar um plano maravilhoso é mostrar ter votos para aprovar algo na direção desejada. Também nesses casos o ótimo costuma ser inimigo do bom. Para que o trem chegue ao destino ele precisa começar a andar.

    Se o Congresso começa a votar (e aprovar) as propostas do novo governo, reforça o ambiente de "página virada". Se atola na largada, reabre a crise. Por isso, reforçamos a avaliação de que este início será marcado pelo gradualismo. Na direção desejada, mas com um programa realista.

    Uma largada mais "morna" ajudaria também no front externo, para neutralizar ao menos em parte a narrativa de que o governo anterior foi removido para que se promova um ataque frontal aos direitos sociais conquistados na última décadas.

    Mas sempre é bom deixar uma janela para o imponderável. Como mostrou o presidente interino da Câmara dos Deputados na véspera da decisão do Senado, o imponderável nunca é só uma abstração.

    Probabilidades: Governo Temer largar com maioria absoluta na Câmara dos Deputados e no Senado 75%. Dilma ser definitivamente afastada 85%. Temer ser cassado pelo TSE 10%.

    Prestar atenção:

    • Destino da Presidência (interina) da Câmara dos Deputados
    • Fatos novos da Lava-Jato contra apoiadores de Temer
    • Projeções de índices feitas pelos atores econômicos

    Alon Feuerwerker alon.feuerwerker@fsb.com.br
    +55 61 8161-9394 (cel + whatsapp) / +55 61 3051-5464 (trab)

    segunda-feira, 9 de maio de 2016

    Forte tendência a acomodar marcará ambiente político na largada de Temer

    • Oposição fraca, establishment e eleição municipal jogam a favor
    • Se formar base ampla, governo terá vantagem na sucessão da Câmara

    Há dois tipos de governo: 1) no que o político quer entrar e 2) do que ele busca sair. Este é exceção. O político sai de um governo porque vislumbrou a possibilidade de entrar em outro. Políticos sempre trabalham para ser do governo. Quando estão na oposição não é desejo, é circunstância.

    Não compreender a utilidade dessa regra simples foi um problema grave de Dilma Rousseff. A presidente acabou no pior dos mundos: supostamente loteou o governo -e era atacada pelo loteamento-, mas nunca aceitou dividir poder. Nunca soube tirar pleno proveito das forças centrípetas. Até que um dia sucumbiu às centrífugas.

    Já a embrionária administração Michel Temer deve ser mais profissional na condução. Há a cantilena habitual por um gabinete "de notáveis", ou"técnico". Mas os novos operadores políticos têm larga experiência e será surpresa se caírem na mesma esparrela. Há uma única certeza sobre governos "técnicos" ou "de notáveis": eles estão a caminho de cair.

    Um dos itens da nossa mitologia política é que o "presidencialismo decoalizão" brasileiro é intrinsecamente inviável se não houver uma reforma partidária-eleitoral. A realidade é mais simples. Governo que tem base parlamentar sobrevive. Se não tem, morre. Ou na eleição vindoura, quando consegue vegetar até lá, ou antes.

    Eis a equação da gestão Temer -que só não existirá se o imponderável agir: precisa de maioria no Congresso para transmitir a empresários e trabalhadores, a investidores e consumidores, que tem votos em número suficiente para aprovar medidas de estabilização, um dia, da proporção da dívida pública sobre o produto interno. Enquanto o universo da ideologia torce o nariz para a suposta baixa qualidade da representação parlamentar, os responsáveis pela vida real só querem saber se o novo governo terá força para votar medidas necessárias diante do colapso do mundo de fantasia em que o país viveu.

    Uma variável nova, à luz do que decidiu o Supremo Tribunal Federal, é quem conduzirá a Câmara dos Deputados depois do impedimento provisório mas por tempo indeterminado do presidente Eduardo Cunha. O período recente foi didático sobre o efeito de um conflito da Casa com o Planalto.

    Mas é razoável supor que se o novo governo está construindo uma base ampla ela será útil para evitar a ascensão de um adversário. Ainda que a circunstância embuta o risco de o aliado, uma vez vice-presidente de fato da República, passar a mirar no titular. Um Temer para o Temer.

    Apesar das dificuldades e limitações, nossa previsão é que este início de Era Temer será marcado pela tendência à acomodação política. A nova oposição dificilmente terá mais força para criar problemas ao novo governo do que a (pouca) força que demonstrou para evitar a derrocada do velho. O establishment pedirá "patriotismo" e o mundo da política se voltará progressivamente para a eleição municipal. O novo Planalto precisará errar muito para os vetores centrífugos prevalecerem sobre os centrípetos.

    Claro que há o imprevisível. O que aparecerá na Lava-Jato contra o novo núcleo de poder? Quais os desdobramentos ainda desconhecidos da decisão do STF sobre Eduardo Cunha? Na resistência final, Dilma conseguirá introduzir algum elemento desestabilizador da nova ordem?

    Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 99%, condenação definitiva de Dilma no Senado 80%, cassação de Temer pelo TSE 10%.

    Prestar atenção:

    • Votação do afastamento de Dilma, dia 11
    • Novos políticos serão réusno STF?
    • Lava-Jato

    segunda-feira, 2 de maio de 2016

    Mediocridade de expectativas e má herança recebida, os trunfos do novo governo

    • O governo nascido do impeachment de Dilma vai "dar certo"?
    • Circunstâncias difíceis legitimam plataforma minimalista •
    • Mas, e o desconforto tucano-petista com o fim da bipolaridade?

    O ainda vice Michel Temer deve assumir o poder em condições políticas favoráveis quando -e se- Dilma Rousseff for afastada no Senado. O "se" é por dever deofício, pois em política nunca há certeza do futuro. Graças a sua excelência, o imponderável. Se apenas um imponderável daqueles pode dar a Dilma destino diferente doostracismo, a pergunta permanente hoje é se o eventual futuro governo Temer vai "dar certo".

    Mas o que seria "dar certo", naprática? O "dar certo", também em política, pode ser reduzido a uma função na qual expectativas aparecem com sinal negativo e entregas, com positivo. Um problema de Dilma é ter vencido em 2014 com expectativas relativamente altas. Foi eleitoralmente eficaz, mas plantou a semente daderrocada política do governo recém-eleito.

    Quando se escancarou que asentregas seriam baixíssimas, a presidente ficou fraca demais para atrair aliados e intimidar adversários. Dilma passou a depender de desentendimentos e impasses entreosinimigos, abertos ou dissimulados. Situação sempre de alto risco. Quando ospolíticos convergiram para uma saída, o destino dela foi selado.

    Sobre expectativas e entregas, Temer vive situação oposta. Por dois motivos. Há consenso de que 1) receberá o governo em condiçõesdesastrosas na área fiscal e 2)um déficit de legitimidade o impedirá deaprovar medidas pró-mercado imploradas mas imprudentes. Assim, na regra de Ortega y Gasset de que cada um é ele mesmo e suas circunstâncias, Temer é um anti-Dilma. Se a titular deixou cristalizar a ideia de que ela própria seria o problema, o vice pouco a pouco vai vendo assentar a tese de que o que vier será lucro, dadas as más circunstâncias.

    Não se espera deum governo Temer que corte heroicamente os nós górdios, apenas que aponte alguma luz no fim do túnel. Se conseguir montar uma base operacional no pulverizado Congresso e se trouxer algum vislumbre derecuperação econômica, será tolerado como preço razoável a pagar para que o país encontre uma solução melhor em 2018.

    Um governo minimalista, entretanto, não responderá plenamente à ambição do grupo agora hegemônico de projetar-se para além de 2018. Uma regra de ouro do poder é tentar perpetuar-se. Quando os adversários enxergarem no minimalismo de curto prazo um caminho para o maximalismo de médio prazo, aparecerão os problemas. Daí que a melhor aposta seja antever um governo Temer extremamente prudente, preocupado em economizar capital político, sabedor de que os aliados-adversários esperam apenas pelos primeiros sinais de fraqueza. Com um agravante: o novo poder não tem, ao contráriode PSDB e PT, umexército capaz de prevalecer na guerra cultural.

    Dilma fora, não seria espantoso seas máquinas ideológicas petistas e tucanas adotassem a velha máxima de "caminhar separadas e golpear juntas", na tarefa comum de manter a bipolaridade das duas últimas décadas e evitar que desta vez uma "terceira via" se construa a partir dopróprio governo, agora pela centro-direita.

    Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 99%, condenação definitiva de Dilma no Senado 80%, cassação de Temer pelo TSE 10%.

    Prestar atenção:

    • Armadilhas que Dilma deixará para Temer
    • Últimas manobras do governo no Senado
    • Arremate do gabinete temerista
    • Lava-Jato, claro

    segunda-feira, 25 de abril de 2016

    Desafio de Temer é evitar que polêmica econômica desmonte a base parlamentar

    • Medidas emergenciais de austeridade terão apoio no Congresso?
    • Políticos não querem eleições já, mas não têm controle completo
    • Futuro do novo governo depende do que projetar para o... futuro

    A história também se constrói sobre ironias. No crepúsculo, a administração Dilma Rousseff oferece ao presidente ainda virtual Michel Temer a base parlamentar que lhe faltou para governar e evitar o afastamento do cargo. As votações na Câmara e na comissão do Senado são o rito de passagem.

    Dilma havia algum tempo não reunia apoio político majoritário para comandar o país. Concentrava-se em garantir respaldo minoritário suficiente para evitar a deposição. Não conseguiu, por 25 votos na Câmara. Agora é Temer que vê o enigma: como transformar o fácil antidilmismo em pró-temerismo?

    O problema do ainda vice é prático. Dilma caminha rumo à queda por: 1) não montar e uma base parlamentar majoritária e operacional e 2) não oferecer um caminho visível para a recuperação econômica. Ou Temer tem sucesso imediato nos dois aspectos ou verá crescer rapidamente as ameaças. O TSE está aí para qualquer eventualidade.

    O problema é que a revelação dos roteiros para o segundo ponto embaralha o primeiro. O Brasil está há décadas politicamente organizado em torno da fantasia fácil do “dinheiro tem, é só empregá-lo adequadamente”.

    Bastaria “melhorar a gestão” e combater a corrupção. Agora, um presidente transitório e de legitimidade contestada vai dizer que o dinheiro acabou, e tem de fazer isso sem dinamitar o apoio parlamentar.

    Temer leva sobre Dilma a vantagem do apoio empresarial e da imprensa, além de nenhuma força política ponderável querer eleições já.

    Mas, como se viu agora na debacle do PT, não há articulação política que resista se enfrentar por tempo suficiente uma pressão social decisiva. Pelo menos na democracia, isso acaba refletindo no Parlamento. E na Justiça.

    No momento, a oposição a Temer está acuada, e o radicalismo verbal é um sintoma do isolamento.

    Mas é também verdade que o PT sai razoavelmente coeso e reaproxima-se da esquerda. E deve emergir da derrota com uma “narrativa” (para usar a expressão da moda) íntegra: de que foi “derrubado por um golpe tramado pela elite, que novamente quer impor ao povo sacrifícios para debelar uma crise que ela mesmo produziu”.

    Importa menos saber se isso é verdade, ou até que ponto. Isso pode ser tão verdade quanto dizer que o PT “institucionalizou a corrupção sistêmica para perpetuar um projeto de poder” ou que “a nova matriz econômica, ao implodir o equilíbrio fiscal, provocou a atual recessão”.

    A luta política não se dá em torno de verdades, mas de verossimilhanças. O que interessa é o apoio popular, social e parlamentar que cada discurso tem, e isso é diretamente proporcional ao que projeta para adiante. Dilma não está caindo principalmente pelo que fez no passado, mas pela incapacidade de mostrar que com ela o amanhã será melhor que o hoje.

    Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado e afastamento da presidente 95%, condenação definitiva de Dilma no Senado 70%, cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE 20%.

    Prestar atenção:

    • O PT conseguirá retardar o andamento do processo no Senado?
    • As articulações finais para o ministério de Temer
    • Fatos perturbadores vindos da Lava-Jato

    segunda-feira, 18 de abril de 2016

    Curto prazo é favorável ao novo governo, que depende da economia e da Lava-Jato

    • Temer terá maioria parlamentar e simpatia da imprensa
    • Futura oposição vê ambiente inicial de isolamento
    • Cansaço com a crise favorecerá apelos pela improvável “paz”

    O desafio do bloco de poder constituído em torno de PMDB e PSDB para derrubar o governo Dilma Rousseff e tirar o PT do Palácio do Planalto é estabilizar-se para: 1) acelerar e consolidar a condenação final da presidente no Senado Federal, permitindo a instalação definitiva do governo Michel Temer e 2) evitar a cassação no TSE.

    Como viu-se agora, a realidade política subordina a tecnicalidade jurídica. Especialmente quando as leis tratam da solução de disputas de poder.

    Quando os governos se isolam na cúpula e na base da sociedade, o sistema encontra algum caminho para resolver a crise “juridicamente”.

    Há juristas para todos os gostos e serviços, e essa acaba sendo a parte menos complexa da empreitada. Resolvido o nó político, encontra-se facilmente na prateleira algum mecanismo formalmente legitimador.

    Quando o governo Temer finalmente existir de direito, ele terá uma base parlamentar confortável. É improvável que venha a sofrer impeachment. Eleições antecipadas não interessam hoje a nenhum grupo político relevante. E a partir de 2017 a eleição seria indireta.

    Restarão dois obstáculos.

    O primeiro será apontar caminhos de recuperação econômica convincente, que precisarão estar apoiados em duas pernas: 1) um reequilíbrio fiscal crível, para criar horizontes visíveis na economia e 2) uma perspectiva de forte lucratividade para os investimentos, pois empresários investem com o objetivo de lucrar.

    O segundo será circunscrever os efeitos políticos da Lava-Jato. Se é verdade que o mundo da política pouco pode interferir diretamente na operação, é verdade também que a amplificação jornalística das investigações flutua de acordo com desejos e alinhamentos político-empresariais.

    E mesmo se Eduardo Cunha tiver de deixar a Presidência da Câmara (o que não é certo), a aliança Temer-Cunha tem força para fazer o sucessor.

    Caso o governo Temer tenha razoável sucesso inicial nas duas frentes, economia e Lava-Jato, é também razoável prever que o Senado confirmará o fim do mandato de Dilma e que o TSE dificilmente contrariará a dinâmica de acomodação política.

    E a nova oposição? O momento inicial será de radicalização e resistência social. Mas os recém-derrotados se defrontarão com o isolamento político e midiático, que certamente refletirá nos ralos espaços disponíveis na imprensa para propagar o inconformismo.

    O eventual novo governo também se beneficiará do foco crescente nas eleições municipais, para onde tende a se deslocar o front, em busca do combustível para 2018. E aproveitará o cansaço da sociedade com a prolongada luta política, fadiga que servirá de pretexto para uma onda de apelos à conciliação vinda de quem até agora pedia guerra.

    Os problemas, como lembraria o Conselheiro Acácio, aparecerão depois. Provavelmente causados pela baixa capacidade de entregar o esperado.

    Probabilidades: Abertura de processo contra Dilma no Senado 80%, condenação definitiva de Dilma 60%, cassação da chapa pelo TSE 20%.

    Prestar atenção:

    • O ritmo do processo contra Dilma no Senado
    • Novas ações da Lava-Jato contra Lula e Eduardo Cunha
    • O ministério de Temer, especialmente na economia

    segunda-feira, 11 de abril de 2016

    Ambos os lados temem a derrota, pois ainda não enfraqueceram decisivamente o outro

  • Narrativas do governo e da oposição aglutinaram seus campos
  • PMDB de Temer aproxima-se, pelo vácuo, do poder
  • Partido tenta chegar ao Planalto sem precisar dizer o que vai fazer ali
    Os campos que disputam o poder federal chegam à semana da decisão com risco real de derrota. Nenhum conseguiu impor ao adversário um enfraquecimento decisivo nestes meses de guerra política aberta.

    Nenhum lado conseguiu romper o empate catastrófico. É a terminologia que usamos ao longo desta crise para definir o equilíbrio estratégico de forças. Que se expressa também na capacidade de as narrativas atraírem seus públicos potenciais. Entretanto, se um não consegue falar ao outro, para ao menos colocar uma cunha no lado de lá, persiste o empate.

    A oposição não conseguiu impedir que o PT/governo reaglutinasse o campo politico autodefinido como progressista para a resistência contra o “golpe branco supostamente constitucional”. Melhor sintoma: apesar de o governo Dilma patinar em torno de 10% de ótimo+bom, quase 40% da população não aderiu a proposta de retirá-lo do poder antes da hora.

    E o governo não conseguiu impedir a oposição de convencer cerca de 60% da sociedade e do Congresso de que tirar Dilma/PT já é vital para começar a resolver os graves problemas nacionais. Especialmente a recessão econômica e a “corrupção sistêmica”.

    A oposição não conseguiu reduzir o PT/governo a “organização criminosa que tomou o Estado brasileiro e levou a corrupção a níveis sistêmicos para perpetuar seu projeto de poder”. E o governo/PT não conseguiu reduzir os oponentes a “elite insensível e privilegiada que não se conforma com a derrota eleitoral e a ascensão social dos pobres, pretos e favelados”.

    A crer nas pesquisas, o impeachment tem o apoio de quem votou PSDB no segundo turno da eleição de 2014, e da maioria dos que não votaram em ninguém. Mas enfrenta oposição absoluta de quem votou PT.

    E os discursos apenas negativos e destrutivos não produziram uma narrativa "propositiva" para sustentar a opção que está à mão. O PMDB temerista aproxima-se do poder por inércia. Trazido pelo vácuo. Quando o PMDB terá uma oportunidade como esta, de tomar o Planalto sem nem precisar dizer o que vai fazer lá? Provavelmente nunca mais. Não surpreende que estejam empenhados na missão.

    E o dia seguinte?

    Se Dilma passar esta barreira é possível que o presidente da Câmara aceite outro pedido de impeachment contra ela, até por um detalhe: enquanto o filme “Fora Dilma” estiver em exibição nas principais salas comerciais, o “Fora Cunha” continuará no circuito cultural alternativo.

    Já a coligação em torno de Michel Temer nasceria com duas marcas registradas da política brasileira: o desalinhamento sobre o que fazer na economia e a heterogeneidade da base de apoio no Legislativo.

    Não é realista imaginar que a bastante liberal “Ponte para o Futuro” dos formuladores peemedebistas tenha apoio na maioria dos que marcham nas ruas e no Congresso para colocar o PMDB no poder.

    O súbito liberalismo do PMDB tem sido útil para angariar apoio politico e material dos empresários que querem derrubar o governo do PT, mas dificilmente servirá para algo além disso.

    Probabilidades: Impeachment 50%, cassação pelo TSE 25%. Dilma fica, sem poder 25%

    Prestar atenção:

    • Novos fatos espetaculares, especialmente na Lava-Jato

    • Recursos do governo ao STF

    • Mobilização social, gente na rua
  • segunda-feira, 4 de abril de 2016

    Graças às contradições no PMDB, governo ainda luta. Mas o que virá na Lava-Jato?

  • Temer queima caravelas, mas com outros barcos à mão
  • Vice enfrenta desgaste e ameaças antes mesmo de assumir
  • Senhores feudais do PMDB resistem a dar poderes imperiais ao rei
  • Lula traz esperanças ao mundo político

    O senso comum diz que o grupo de Michel Temer errou ao forçar a ruptura formal do PMDB com o governo para acelerar a deposição de Dilma Roussef. Abriu espaço para a operação política palaciana. Já que a política tem horror ao vácuo, preencha-se.

    A realidade é um pouco mais complexa, como se vê desde lá: o PMDB, ávido de poder, rompeu mas não saiu. Foi um gesto político, para garantir aos generais e às tropas da derrubada do governo que o vice está nesta para valer.

    O PMDB é incremental, como todo partido em relacionamento sério com o poder. Nunca foi de gestos heróicos. Só se move em direção a mais poder. Nunca a menos. O temerismo queimou as caravelas, mas cuidou de verificar se havia outros barcos à mão.

    O cenário para o vice não é simples. Diferente de Itamar Franco no impeachment de Fernando Collor, ele enfrenta desgaste e ameaças a um mandato que ainda não assumiu. Se for impulsivo, pode reunir menos força que a necessária para vencer a batalha. Se for cauteloso, pode ver crescer o movimento para despachá-lo ao ostracismo junto com Dilma.

    A fragilidade política-jurídica-eleitoral do vice, e do grupo que o cerca e sustenta, é um vetor fundamental para entender por que Dilma tem sobrevivido, mesmo em extrema debilidade política e social. Sem suporte decisivo, Dilma levita há tempos graças à não convergência em torno das alternativas.

    O xeque-mate em Dilma e no PT sempre dependeu de PMDB e PSDB estarem cada um majoritariamente coesos e ambos unidos pela deposição. Não necessariamente 100%, mas bem perto disso.

    Um dos trunfos da presidente, as divisões intratucanas, parece ter-se ido. Há acordo hoje no PSDB sobre a inconveniência de eleições já -pelas circunstâncias de cada um dos postulantes- e sobre a conveniência de um governo Temer.

    Persiste a divisão sobre se é bom ou ruim um governo Temer dar certo. Os tucanos enxergam nele um Kerensky. Só divergem sobre se o sonhado pós-Temer deve nascer do útero do temerismo, com suas bênçãos, ou enfraquecendo-o. Mas fevereiro vem antes de outubro.

    Outra variável que parecia resolvida dá sinais de não estar. Uma parte dos senhores feudais peemedebistas, e de outros partidos, resistem a coroar um rei que poderia buscar poderes imperiais e querer subjugá-los, aproveitando-se do cerco da Lava-Jato contra a enrolada nobreza e surfando na ansiedade da opinião pública por uma nova ordem.

    Os políticos querem uma solução que os proteja, e a corrosão de Dilma deveu-se também à estratégia dela de salvar-se às custas do sacrifício, se necessário, de todo o sistema. Mas a entrada de Luiz Inácio Lula da Silva em campo, se se consolidar, dará sinais de que o jogo mudou.

    E assim caminhamos para a hora decisiva, quando cada um mostrará as garrafas que tem para entregar. A variável fora de controle? Lava-Jato. A blitzkrieg vem sendo decisiva para inverter a correlação de forças. Quais serão as novidades policiais-judiciais daqui até a votação do impeachment?

    Porcentagens: Impeachment 50%, cassação pelo TSE 25%, Dilma fica sem poder 25%.

    Atenção:

    • A decisão do STF sobre Lula na Casa Civil

    • O governo conseguirá arrancar o temerismo dos cargos?

    • Lava-Jato, delações premiadas e vazamentos
  • segunda-feira, 28 de março de 2016

    O problema? Dilma pouco tem a oferecer à política que a política não possa ter sem ela

  • Presidente vê fechar-se a longa janela de oportunidade
  • Diferente de Sarney e FHC, Dilma cai no vazio de poder
  • Establishment concentra-se na possibilidade de remover o PT
  • Só um descarrilamento barra o trem de Michel Temer

    Dilma Rousseff teve uma janela de ano e meio para evitar o isolamento que a ameaça com o cadafalso. Os obstáculos à “governabilidade” já estavam delineados depois da eleição. Menos pela vitória estreita e mais pelo contraste brutal entre o cenário descrito na campanha e a realidade pós-urna.

    A mesma estratégia que trouxe a vitória eleitoral plantou a semente da derrota política, talvez por um erro de cálculo. Talvez a presidente e seu círculo mais próximo supusessem que a estratégia de Sarney/1986 e Fernando Henrique/1998 bastaria: uma conversa bonita na eleição e depois agarrar-se à institucionalidade para atravessar os anos de vacas magras.

    Acontece que Sarney e Fernando Henrique nunca caíram na ausência de poder. Sempre mantiveram, mesmo nos piores momentos, comando sobre o Estado, maioria parlamentar, forte apoio da imprensa para concluir o mandato e espaço de ação no Judiciário. Dilma II não manda na polícia, no Congresso, no Banco Central, não pode aumentar impostos nem nomear ministros, e assiste à caçada midiático-policial-judicial contra ela e os aliados.

    Num trade-off, o establishment decidiu aproveitar a presidente fraca para remover o PT do governo, mesmo arriscando turbulência política e social, e não apoiar um governo petista que se mostrou permeável a aplicar medidas pedidas pelo establishment. E o economicismo sai de cena, de mãos dadas com o legalismo. A preliminar é tirar a presidente. As formalidades vêm depois. Isso dá a Dilma e ao PT a narrativa da defesa da legalidade. Boa para construir o amanhã, mas insuficiente para resistir hoje.

    A margem de manobra estreitou-se demais também porque Dilma pouco ou nada tem a oferecer aos aliados e aos adversários que eles próprios não possam obter sem ela. O PMDB esperou, até trazer o apoio do PSDB e receber o sinal verde da opinião pública, tradicionalmente crítica ao PMDB. Agora, com a Presidência ao alcance, não tem por que persistir na subalternidade. Restam os bolsões peemedebistas resistentes à hegemonia do grupo de Michel Temer, mas não parece suficiente para brecar o trem que vai rumo à estação do poder.

    Dilma levitou durante mais de um ano graças à falta de consenso mínimo para a alternativa. Mas não teve força para resistir à blitzkrieg deste março, mês para agosto nenhum botar defeito. Mais do que os fatos em si, a sequência deles fez os políticos concluírem que a paralisia do núcleo se tornara uma ameaça ao conjunto do sistema. E parecem cada vez mais preferir o risco do colapso à certeza de que o colapso virá.

    O que poderia, a esta altura, frear a composição peemedebista-oposicionista? Só um descarrilamento. O governo pode até vencer a primeira votação de impeachment, que provavelmente será sucedida por um novo pedido de impedimento. Já há alguns na fila. Só o que pode mudar a partida por um tempo é algum imprevisto com o vice. Pois mesmo com o jogo jogado não parece haver massa crítica para sustentar o presidente da Câmara no Planalto, ainda que interino.

    E tem a Lava-Jato. Se o andamento da operação é, felizmente, incontrolável, seus efeitos imediatos sobre a política dependem não apenas das investigações em si, mas de como a política consegue montar um dique para conter os efeitos políticos das revelações.

    Isso é possível? Um exemplo é o presidente da Câmara, cujas atribulações não são suficientes para deslegitimá-lo diante da opinião pública que trabalha para derrubar Dilma. E aí concluiremos que o que aparece como luta contra a corrupção embute a luta violenta pelo poder.

    Porcentagens, considerando que o PMDB romperá com o governo: Impeachment 55%, TSE 25%. Dilma fica, sem poder 20%.

    Prestar atenção:

  • Se o PMDB une-se na saída do governo
  • Se o STF autoriza Lula a ser ministro
  • A continuidade das delações premiadas e dos vazamentos
  • segunda-feira, 21 de março de 2016

    Dilma na armadilha: saída interessa a quem quer a mudança e também a quem não quer

    • Governo e PT chegam isolados ao desfecho
    • Sistema político pede quem o proteja
    • Obstáculo a uma saída negociada é a Lava-Jato

    Os campos chegam definidos ao final desta etapa da guerra. O movimento oposicionista-liberal que desde janeiro de 2015 trabalha para derrubar o governo alcançou vantagem no momento decisivo. Tem dois terços de apoio social, alinhamento da imprensa profissional, suporte das maiores entidades empresariais e uma narrativa fartamente nutrida pela Lava-Jato.

    Já o campo governamental-progressista isolou-se. Apesar de inteiro e de agrupar a maioria da esquerda, sua fraqueza progressiva fez perder as condições de puxar o centro. Algumas razões: 1) a incapacidade de atrair confiança para liderar a retomada econômica, 2) o contraste brutal entre os fatos da Lava-Jato e sua simbologia historicamente construída e 3) a impotência diante das pressões entrópicas sobre o sistema político.

    No ponto 3, se o poder não consegue se proteger e defender o sistema que o produziu e o sustenta, o próprio sistema procura livrar-se do inútil e perigoso corpo estranho. Então, se é verdade que os empresários estão atrás de uma saída que estimule a retomada dos negócios, e se o cidadão comum deseja a degola dos poderosos que vê indevidamente favorecidos, o ecossistema político busca quem evite a desagregação final.

    É a armadilha em que Dilma se deixou capturar: sua saída interessa a quem deseja mudar, e também aos que precisam que quase nada mude.

    A estratégia da presidente era apresentar-se como ilha de segurança, correção e firmeza. Para que funcionasse melhor, precisaria de mais liderança pessoal, mais capacidade de comunicação e condições de, em certo momento, romper com as fontes primárias de seu poder. Requisitos para um certo bonapartismo. Não se faz bonapartismo sem Bonapartes.

    Entretanto, apesar de este jogo caminhar para o final, ainda não acabou. Será interessante acompanhar se terminará à brasileira, em alguma negociação, ou se caminharemos para a ruptura que produziria longo período de (ainda mais) conflagração político-social. Não há hoje como os vitoriosos aniquilarem rapidamente os derrotados sem ferirem a democracia.

    A principal dificuldade para a saída negociada é que ela precisaria incluir o destino político-jurídico do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu partido, e não parece que o poder em gestação para o pós-PT tenha, no momento, consenso interno para tal ou força para impor isso à Lava-Jato.

    E é difícil imaginar um campo progressista relativamente apaziguado depois de, pelo seu ângulo, ver-se arrancado brutalmente do poder, ter seu líder maior encarcerado e enxergar a ameaça da aniquilação. Que é exatamente o que o público antipetista vai exigir do eventual próximo governo, e é o que os políticos antipetistas querem, para olhar 2018 com mais leveza.

    Quem terá papel importante para o desfecho? Lula. Ele enfrenta um duplo desafio: no plano pessoal-familiar, defender-se e defender os seus. No político, cuidar do patrimônio partidário, eleitoral e simbólico que acumulou na vida. Ou seja, manter-se o líder indisputado de uma esquerda forte. Evitar a desagregação que o Partido Comunista sofreu no pós-64, acusado de passividade diante do golpe de estado.

    O Lula surpreendentemente pacífico que subiu ao palanque na Paulista dia 18 é a melhor aposta de Lula para atingir os dois objetivos. Há porém, riscos. Um, como em 64, é abrir espaço à esquerda. Este é pequeno, no momento, pois o PT pode adotar a política do “big stick”. O segundo risco são os fatos. Como lembrei semana passada, eles costumam ser teimosos.

    Probabilidades: Impeachment 50%, cassação TSE 20%, Dilma fica, sem poder 30%.

    Prestar atenção:

    • A posição do PMDB do Senado
    • Os votos na Câmara para o impeachment
    • A Lava-Jato

    segunda-feira, 14 de março de 2016

    PMDB ocupa o centro para ser alternativa
 e busca apoio para não se tornar “o breve”

  • Blitzkrieg contra o governo acelera a crise
  • Na prática, Planalto só mantém apoio de PT e PCdoB
  • PMDB apresenta-se como a alternativa
  • Mas só tem por enquanto apoio para realizar uma transição

    As últimas semanas de forte ofensiva político-jurídico-policial contra o governo Dilma Rousseff aceleraram seu isolamento no Congresso e na sociedade, e desencadearam articulações finais para o desempate do jogo. O PMDB do vice-presidente Michel Temer movimenta-se para ocupar o centro, em busca de reunir massa crítica e formar o polo de aglutinação de uma nova maioria.


    Como vimos apontando há um ano, dois vetores operam em tensão na conjuntura de crise em que o governo desliza para a fraqueza extrema. O primeiro diz que ele só cai quando houver outro pronto a assumir. O segundo diz que se faltar governo por tempo suficiente alguma alternativa aparecerá para ocupar o vácuo.

    Dilma atravessou 2015 agarrada à primeira boia. Não havia entre os adversários consenso mínimo sobre a operação da transição. Mas o Palácio do Planalto, em larga medida, desperdiçou a extensa janela de oportunidade. Principalmente pela incapacidade de apontar rumos e conduzir o país à recuperação econômica.



    A Operação Lava-Jato teria forte impacto em qualquer cenário, mas ela só empurra a administração para o precipício pela fragilidade inerente à coalizão governamental, em que o partido do poder não reúne nem 15% do Congresso. É possível sobreviver assim quando as vacas estão gordas e o líder tem forte apoio popular. Mas se elas emagrecem e o líder está enfraquecido, torna-se mais difícil.



    Uma dificuldade adicional do governo é que o PT, muito atingido pela Lava-Jato, comporta-se como se preferisse marchar heroicamente para a oposição em vez de tentar manter o poder. Espaço de que se aproveita o PMDB. Mas este também tem problemas. O principal é garantir que, na hipótese de tomar a caneta, não venha a ser derrubado na sequência.



    A situação do PMDB é paradoxal. Se a política pudesse operar à margem da sociedade, o partido estaria confortável. Sobra-lhe capacidade para formar uma maioria parlamentar funcional. Falta-lhe porém apoio social. Pergunte-se às multidões que foram ontem às ruas o que pensam do PMDB. Dificilmente haverá surpresas nas respostas. E a legenda não está imune, ao contrário, às vicissitudes com a Lava-Jato.



    A fraqueza terminal deste governo Dilma, combinada à ausência de instrumentos para sua substituição em prazo curto pela via eleitoral e ao déficit de legitimidade dos personagens na linha de sucessão, empurra a política para alguma solução de transição. Como há muitos candidatos a Lenin, mas nenhum candidato a Kerensky, a coisa demandará trabalho. Enquanto isso, a política escorrega para decidir esta etapa na votação sobre o impeachment.



    A decisão está prevista para demorar algumas semanas, o que costuma ser muito tempo em política. Nesse hiato, Dilma cogitará fazer concessões. O espaço é limitadíssimo. Os fatos darão a palavra final. Eles são teimosos.



    Probabilidades; Impeachment, 40%, Cassação da chapa pelo TSE, 20%. Dilma fica, sem poder 35%. Dilma fica, com poder 5%. Aqui, algum cuidado deve-se tomar, porque agora o impeachment pode não eliminar completamente a hipótese de cassação pelo TSE.

    Atenção:

    • O que o STF vai decidir sobre o parlamentarismo


    • O PMDB vai mesmo recusar a Secretaria de Aviação Civil?

    • O tamanho das manifestações anti-impeachment dia 18



    • A Lava-Jato

  • segunda-feira, 7 de março de 2016

    Centro some, campos definem-se em busca de um improvável desempate

  • Oposição ganha momentum para tentar derrubar o governo
  • Ausência de conciliadores mostra que crise mudou de patamar
  • É improvável que qualquer lado aceite uma primeira derrota
  • Por isso, projeção é de alongamento dos impasses

    As últimas ações da Lava-Jato injetaram combustível nos grupos que trabalham pela derrubada do governo Dilma. E os movimentos recentes trouxeram fato novo: silenciaram o centro politico e catalisaram a demarcação clara de dois campos: um exige o fim do governo, pelo meio que for, e o outro mostra-se disposto a resistir, também por qualquer meio.

    As trincheiras são cavadas no parlamento, na imprensa, nos partidos, nas organizações sociais e nas ruas, a caminho da radicalização. Não há neutralidade. Ambos os lados forçam a saída do duradouro “empate catastrófico”, imagem gramsciana de quando nenhum bloco de poder tem força para se impor.

    Mas preparar não implica conseguir imediatamente. Dada a correlação de forças, mais provável é que não haja solução capaz de um desempate real.

    Dois cenários são mais palpáveis. Se a presidente escapar do atual impeachment (e ela tem hoje como reunir os votos necessários) é improvável que os adversários aceitem o resultado. Certamente virão com nova ação de impedimento enquanto, abastecidos pela Lava-Jato, estimulam a cassação no TSE. Na outra hipótese, o campo politico e social desalojado pelo que considerará um golpe recusará qualquer conciliação.

    Situações assim costumam evoluir para solução de força, que nas atuais condições brasileiras não parece provável. O PT não teria como calar a imprensa, subjugar o Congresso e controlar o Ministério Público. E um eventual governo provisório antipetista não conseguiria dissolver partidos, fechar sindicatos e colocar a oposição na cadeia.

    Uma dificuldade para qualquer solução política pacífica é quando não basta resolver o hoje, por causa da sombra do amanhã. Depois da 24a. fase da Lava Jato e corolários, se a oposição aceitar Dilma até 2018 estará dando fôlego a Lula-2018. E fazer dura oposição a um eventual governo-tampão (que parte ponderável da sociedade verá como ilegal e ilegítimo) e a suas prováveis medidas de austeridade será o caminho natural de quem foi desalojado do poder pelo que considerará um ato de força.

    É diferente de quando Fernando Collor foi deposto. Itamar Franco (que não poderia se reeleger e portanto não era ameaça a ninguém) parecia ser peça neutra para 1994. Depois, viu-se que não era bem assim, mas a eleição já estava suficientemente próxima.

    Um segundo problema é que o duro ajuste de 2015 parece estar no final, e alguns resultados positivos devem aparecer ainda este ano. Também por isso a oposição corre contra o tempo. E o governo, enxergando a luz no fim do túnel, lutará para alcançá-la.

    É prudente evitar o pensamento mágico de que uma primeira solução congressual vá permitir a superação rápida da crise política e, portanto, acelerar a retomada econômica. Sem uma aceitação mútua de regras do jogo e sem que um lado capitule, a tendência é de agravamento dos impasses. Nunca é demais lembrar: no teatro da política, o personagem costuma ser escravo do papel.

    Decidimos refinar nossos parâmetros sobre Dilma ficar ou sair. Em vez de tratar o impeachment em geral, analisaremos sempre o atual pedido de impeachment. A delação do senador Delcídio do Amaral certamente produzirá um novo, a não ser na hipótese de aditamento, a verificar. Porcentagens: Impeachment (20%), TSE (25%), Dilma fica (55%).

    Variáveis a monitorar:

  • O tamanho dos atos do dia 13 e das mobilizações pró-governo
  • Se o agravamento do quadro fará o PMDB romper
  • Se a Lava-Jato trará provas definitivas contra Dilma-Temer 2014
  • Se a Força-Tarefa conseguirá neutralizar o contra-ataque de Lula
  • O imponderável (em situações assim ele ganha relevância)